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domingo, 1 de novembro de 2009

Vídeo-Aula: Noite na Taverna - Bertram (parte 2)

Veja antes a PARTE 1

terça-feira, 5 de maio de 2009

Poesia Comentada: Meu Sonho (Álvares de Azevedo)


Meu Sonho

Eu

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?


O Fantasma

Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…



...........................................................................................................
Localizado na terceira parte de Lira dos vint’anos, o poema constitui uma espécie de diálogo entre o Eu e o Fantasma. O eu-lírico descreve um sonho em que um cavaleiro perambula pelo reino da morte. Bem de acordo com a estética ultra-romântica, a cena se dá em um ambiente onírico, noturno, e misterioso. Em verdade, esta situação constitui uma metáfora para a angústia sexual do Eu. Isso se evidencia na colocação do símbolo fálico (Com a espada sangüenta na mão), no ritmo de galope conferido pelos versos eneasílabos (acentuando a tensão e a sugestão de movimentos repetidos numa alusão implícita à masturbação), e, por fim, na atmosfera de trevas, que metaforiza o sentimento de culpa do Eu-lírico.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Noite na Taverna - Resumo e Análise

Já comentamos aqui no blog a obra de Álvares de Azevedo (ver arquivo). Noite na Taverna é uma das leituras obrigatórias para o vestibular da UFPel. Segue o material para estudo.


2 noitenataverna



Clique aqui para baixar o livro completo.

O QUE VOCÊ ACHOU DE NOITE NA TAVERNA? DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO!!!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Resumo e análise de NOITE NA TAVERNA



Noite na Taverna é uma coletânea de narrativas construída em sete partes. Traz epígrafes e usa os nomes de cada um dos narradores como subtítulos, antecedendo as histórias. Constitui a mais original produção em prosa de Álvares de Azevedo e insere-se perfeitamente no clima romântico byroniano, refletindo também as influências deixadas no autor pela leitura das novelas mórbidas do século XIX. Os capítulos de Noite na Taverna são Uma Noite do Século, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann, Johann e Último Beijo de Amor.


UMA NOITE DO SÉCULO


Uma espécie de introdução apresentando o ambiente da taverna, a roda de bebedeira e de devassidão em que se encontram os personagens e o tom notívago e vampiresco em que se desenrolarão os fatos narrados.

Bertram, Archibald, Solfieri, Johann, Arnold e os outros companheiros estão na taverna, dialogando sobre loucuras noturnas, enquanto as mulheres dormem ébria sobre as mesas. Falam das noites passadas em embriaguez e pura orgia. Solfieri os questiona a respeito da imortalidade da alma, e parece não crer nela. Por isso, Archibald o censura pelo materialismo. Solfieri acredita na libertinagem, na bebida e na mulher sobre o colo do amado. Os homens só se voltam para Deus quando estão próximos da morte. Deus é, pois, a “utopia do bem absoluto”.


- Silêncio, moço! Acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?
- Cala-te, Johann! Enquanto as mulheres dormem e Arnold - o loiro - cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que música mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?
- És um louco, Bertram? Não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morrem aos soluços que seguem as mortualhas do cólera!

As primeiras páginas deixam antever o clima da geração do mal do século, a irreverência incontida, a tendência às divagações literário-filosóficas, a vivência sôfrega e, principalmente,a morbidez e a lascívia.

-Estás ébrio, Johann! O ateísmo é a insânia como o idealismo místico de Schelling, o panteísmo de Spinoza - o judeu, e o histerismo crente de Malebranche nos seus sonhos da visão de Deus. A verdadeira filosofia é o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem é o prazer. Daí vede que é o elemento sensível uem domina.E pois, ergamo-nos, nós que amarelecemos nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.

A vivência que o escritor demonstra é mais cultural que real, daí buscar
constantemente o reforço nas idéias de filósofos e literatos, reflexo do impacto de suas diversas leituras.


SOLFIERI


Relata uma viagem a Roma, a “cidade do fanatismo e da perdição, onde na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido”. Certa noite, Solfieri vê um vulto de mulher. Segue-a até um cemitério; o vulto desaparece e ele adormece sob o frio da noite e umidade da chuva. A visão desse vulto atordoa o personagem durante um ano. Nem o amor o satisfaz mais. Uma noite, após prolongada orgia, sai vagando pelas ruas e acaba “entre as luzes de quatro círios que iluminavam um caixão entreaberto.” Lá estava a mulher que lhe provocara tantas alucinações e insônias Era agora uma defunta. Toma o cadáver em seus braços, despe-lhe o véu e faz sexo com ela. A mulher, no entanto, não estava morta, apenas sofrera um ataque de catalepsia. Solfieri leva-a então para seu leito. Depois de dois dias de delírio, ela morre realmente. Solfieri chama um escultor e manda fazer uma estátua de cera da mulher profanada, guardando-a em seu quarto. Conserva para sempre, junto ao peito, uma grinalda de flores, lembrança do caixão da defunta.


BERTRAM


Bertram, um dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta que, também uma mulher, Ângela, o levou à bebida e a duelar com seus três melhores amigos e a enterrá-los. Quando decide casar com ela e consegue lhe dar o primeiro beijo, recebe carta do pai, pedindo seu retorna à Dinamarca. Encontra o velho já moribundo. Chora, mas por saudade de Ângela. Dois anos depois, volta para a Espanha. Encontra a moça casada e mãe de um filho. A paixão persiste e os amantes passam a se encontrar às escondidas, até que o marido, enciumado, descobre tudo. Uma noite, Ângela, com a mão ensangüentada, pede ao rapaz para subir até sua casa e por entre a penumbra, ele encontra o marido degolado e sobre seu peito, o filho de bruços, sangrando. Saem pelo mundo em grandes orgias. Ela foge mais tarde, deixando Bertram entregue às paixões e vícios. Bêbado e ferido, é atropelado por uma carruagem. É socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela menina que, mais tarde, foge para casar-se com Bertram. Ele a vende em uma mesa de jogo a Siegfried, o pirata. Ela mata Siegfried, afogando-se em seguida. De dissipação em dissipação, o rapaz resolve matar-se no mar da Itália, mas é salvo por marinheiros, fica sabendo que a pessoa que o salvou foi, acidentalmente, morta por ele. São socorridos por um navio e Bertram é aceito a bordo em troca de que combatesse, se necessário. Mas apaixona-se pela pálida mulher do comandante e, durante uma batalha, ele o trai, tomando-lhe a mulher. O navio encalha em um banco de areia, despedaçando-se - os náufragos agarram-se a uma jangada e, em meio à tempestade, vagam pelo mar as três figuras (o comandante, a mulher e Bertram), sobrevivendo de bolachas e, mais tarde, tiram a sorte para ver quem morrerá para servir de alimento para os outros. O comandante perde, clama por piedade, mas Bertram se nega a ouvi-lo, prefere a luta. Mata o comandante, que serve por dois dias de alimento à Bertram e à mulher. Ele propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal gasta as últimas energias no amor. A mulher, enlouquecida, começa a gargalhar. Bertram a mata. Alimenta-se dela também. Depois, é salvo por um navio inglês.







GENNARO


Gennaro conta que entrou como aprendiz do velho pintor Godofredo Walsh, casado em segundas núpcias com Nauza, uma jovem de vinte anos, que lhe servia de modelo. Com Godofredo, vive também Laura, de quinze anos, filha de seu primeiro casamento. Gennaro seduz Laura, que durante três meses freqüenta o quarto do rapaz. Grávida, ela implora para que ele a peça em casamento. Ele recusa porque apaixonara-se por Nauza, a esposa do pintor. Laura enfraquece.

Uma noite...foi horrível...vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que ninguém podia reter, tão apressadas e confusas soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face úmida de um suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto ao leito dele. Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meu ouvido:- Gennaro, eu te perdôo: eu te perdôo tudo...Eras um infame...Morrerei...Fui uma louca...Morrerei por tua causa...teu filhos...o meu...vou vê-lo ainda...mas no céu...meu filho que matei...antes de nascer...


Gennaro torna-se amante de Nauza. Certa noite fria e escura saíram o mestre e o aprendiz. Godofredo pôs-se a contar uma história (a real) de sua vida, expondo o conhecimento que tinha dos fatos, sabendo que Gennaro fora amante da filha e agora é amante da mulher. Musculoso e forte, Godofredo prostrou Gennaro, que caiu em um despenhadeiro. Só não morreu porque ficou preso em uma árvore. Após um dia e uma noite de delírios, acordou na casa de camponeses que o haviam socorrido e, logo que sarou, partiu. Encontrou no caminho o punhal com que o mestre tentara matá-lo. Munido da arma, procurou a casa de Godofredo, que parecia abandonada. Entrou pelos quartos escuros, tateando até a sala do pintor. Encontrando-a vazia, dirigiu-se ao quarto de Nauza e encontrou-a morta, envenenada pelo marido, que jazia morto também e de sua boca “corria uma escuma esverdeada.”







CLAUDIUS HERMANN


Viciado em jogo, Claudius Hermann chegou a apostar toda a sua fortuna. Em uma das corridas, viu uma mulher passar a cavalo. Tal foi o fascínio que a dama exerceu sobre ele, que, quase com obsessão, persegui-a. Descobriu que a mulher misteriosa era a duquesa Eleonora. Um dia, encorajado, abordou-a. Eleonora era casada. Uma noite, após um baile, aproveitou-se do cansaço e sonolência da mulher e, com a chave comprada de um criado, entrou em seu quarto e lhe deu um narcótico misturado ao vinho. Em seguida, seduziu-a.

Uma semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lábios da dormida um século de gozo. Um mês delirantes iam aos bailes do entrudo, em que mais cheia de febre ela adormecia quente, com as faces em fogo...

O marido, o belo e jovem Maffio, uma noite prometeu visitá-la em seu leito. O amante, corroído de ciúme, resolveu fugir com a mulher. Após ministrar-lhe o narcótico, saiu com a inconsciente pelos corredores, e partiram de carruagem. Ao acordar, Eleonora percebeu que estava em um local estranho com um desconhecido. Ficou desesperada. Claudius decidiu revelar-lhe o segredo. A mulher argumentou ser impossível amá-lo, ele contra-argumentou dizendo-lhe não ser possível a vida dela nos padrões da normalidade, uma vez que estava desonrada. Ninguém a perdoaria. Eleonora, então, concorda em viver com ele.

(...) um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de sangue e num recanto escuro da alcova um doido abraçado com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora: o doido n em o poderíeis conhecer tanto a agonia o desfigurava. Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos puis entre as trevas...Mas ele o conheceu...era o Duque Maffio.








JOHANN


O cenário é Paris. Johann e Artur jogavam num bilhar. Ao faltar um ponto para Artur ganhar e ao narrador muitos, houve um desvio da bola e Johann exaltou-se, provocando o adversário para um duelo de morte. Artur aceitou, mas antes de partirem para a morte, escreveu algumas linhas e pediu para Johann entregá-las juntamente com um anel, caso viesse a ser a a vítima. No duelo morreu Artur. Johann, como havia prometido, tirou o anel do defunto, recolheu dois bilhetes. O primeiro era uma carta para a mãe; o segundo continha apenas um endereço e um horário. A assinatura era apenas um G. Johann foi ao encontro. “Era escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto...Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão...subi. A porta fechou-se.

Ele seduziu a virgem. Ao sair, topou com um vulto à porta, voz levemente familiar. Desceu as escadas e sentiu uma lâmina resvalar-lhe os ombros. Uma luta terrível foi travada e houve mais um assassinato.

Ao sair tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era. Era uma lanterna furta-fogo. Quis ver quem era o homem. Ergui a lâmpada...O último clarão dela banhou a cabeça do defunto...a apagou-se...Eu não podia crer: era um sonho fantástico toda aquela noite. Arrastei o cadáver pelos ombros...levei-o pela laje da calçada até o lampião da rua, levantei-lhe os cabelos ensangüentados do rosto (...) Aquele homem - sabei-o!? era do sangue do meu sangue, filho das entranhas de minha mãe como eu...era meu irmão!

Mas a desgraça maior ainda estava por ser revelada: Johann havia possuído sua própria irmã.


ÚLTIMO BEIJO DE AMOR


A noite ia alta e a orgia findara, os convivas dormiam embriagados. Entrou na taverna uma mulher vestida de negro, procurando um rosto conhecido. Quando a luz bateu em Arnold, a mulher ajoelhou-se, em seguida ergueu-se, dirigindo-se a Johann.

(...) A fronte da mulher pendeu e sua mão pousou na garganta dele. Um soluço rouco e sufocado ofegou daí. A desconhecida levantou-se. Tremia; ao segurar na lanterna ressoou-lhe na mão um ferro...era um punhal...Atirou-o no chão. Viu que tinha as mãos vermelhas, enxugou-as nos longos cabelos de Johann.

Voltando-se para Arnold, fez-se reconhecer. Era Geórgia que voltava, depois de cinco anos. Arnold pediu que o chamasse como antes - Artur - e pede-lhe beijos, enquanto ambos lamentam a sorte. A mulher somente vinha para dizer-lhe adeus e depois fecharia a porta de sua própria sepultura. Confessa a morte de Johann para vingar-se daquele que a levou a prostituir-se. Geórgia prostituta vingou nele Geórgia - a virgem. Esse homem foi quem a desonrou, desonrou-a a ela que era sua irmã.


ESTRUTURA NARRATIVA


No final da peça Macário, Álvares de Azevedo apresenta a personagem título aproximando-se de uma janela e observando, dentro de uma taverna, vários jovens conversando. Assim, na verdade, inicia-se o livro A Noite na Taverna. Seu começo é encadeado à peça, mas não se trata de um texto dramatúrgico. É um livro de narrativas curta em prosa, e não teatro. A obra é estruturada em abismo. Cada capítulo é uma história contada dentro de outra história. São, portanto, contos ligados através da estrutura conhecida como moldura narrativa - uma narrativa geral une todas as outras. Tal recurso, conhecido também como contos enquadrados, remete às mais antigas coletâneas de contos da literatura universal, como As Mil e Uma Noites, o Decameron, de Bocaccio e os Contos de Canterbury, de Chaucer.

Em Noite na Taverna, cada conto tem um narrador diferente. Cada um dos homens conta a sua história medonha, afirmando que “não é um conto, é uma lembrança do passado”. Afirmações como essa são típicas do Romantismo. Procuram, assim, estabelecer a veracidade de textos bastante inverossímeis, histórias fantásticas, impossíveis de acontecer na realidade. Os homens reunidos na taverna procuram impressionar seus ouvintes, acrescentando detalhes cada vez mais imaginativos, macabros e chocantes a seus relatos amorosos, ditos pessoais e verídicos. Antônio Cândido explica que, em Álvares de Azevedo, “elementos macabros estariam compondo com estes, de maneira peculiar, o par romântico Amor e Morte.”

A obra está dividida em dois planos: uma narrativa externa, que apresenta os rapazes já bêbados na taverna e prestes a contar cada um sua história, e as várias narrativas internas ou aventuras apresentadas - os contos são nomeados segundo o nome daquele que os narra e também protagoniza - Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann, diferenciando-se desse esquema a introdução e a finalização, chamadas respectivamente Uma Noite do Século e Último Beijo de Amor.


TEMÁTICA


Os contos giram em torno dos temas do amor e da morte, que são relacionados pela presença de momentos de necrofilia, incesto, assassinatos, canibalismo, loucuras várias. Assim, o amor está sempre na fronteira com a morte e a sexualidade se reveste de culpas e punições. O tema não envereda, de fato, pela senda do sobrenatural, mas sim pelo extravagante e hiperbólico. Necrofilia, catalepsia, amor obsessivo, infanticídio, assassinato do esposo, ingratidão, aborto, adultério, sonambulismo, suicídio, emprego de narcótico como recurso amoroso, incesto e fratricídio são as matérias primas para as histórias contadas pelos personagens. E tudo isso, precedido por um vivo debate filosófico.

Capítulo 1 A temática desenvolvida aqui é a oposição entre a imortalidade/mortalidade da alma, a afirmação do prazer versus a negação do prazer, a existência de Deus versus a inexistência de Deus. Daí o autor colecionar uma série muito grande de citações filosóficas, que remtem para um ou outro dos temas, deixando o leitor suspenso entre dois termos.

Capítulo 2 - O tema é a necrofilia, a morte, a catalepsia e o amor obsessivo.

Capítulo 3 - O amor obsessivo, o adultério, o ciúme, o assassinato do marido, a miséria de uma vida desregrada e o amor exclusivamente carnal que logo finda constituem-se na temática deste capítulo.

Capítulo 4 - A temática é o desencontro, a ingratidão, o aborto, o adultério, o sonambulismo, o a amor obsessivo, o suicídio e o arrependimento.

Capítulo 5 - Traz uma simetria interessante entre a conduta do personagem Claudius Hermann e a do Duque Maffio. temática deste capítulo é o amor obsessivo e a perversão sexual.

Capítulo 6 - Os temas são o incesto e o fratricídio.

Capítulo 7 - A temática do último capítulo é a vingança do destino, a fatalidade da ignorância e o suicídio.

Ao longo de Noite na Taverna são introduzidos, na literatura brasileira, temas relacionados ao fantástico e ao macabro. No todo, predomina a intenção de fugir da realidade na bebida e na fantasia. Os personagens estão saturados de extrema melancolia e pessimismo, características dominantes do Ultra-Romantismo, no qual os autores se preocupavam em descrever paisagens sombrias e acontecimentos misteriosos.


RECURSOS DE EXPRESSÃO


Ao longo de Noite na Taverna, Álvares de Azevedo emprega diversos recursos expressivos. Entre eles, destacam-se os diálogos intertextuais. O autor dialoga com autores e textos vários, os quais demonstra conhecer profundamente.

Na primeira parte da obra, o autor faz referências às canções de Tieck, à filosofia de Fichte, Shelling, Epicuro, Hume, Spinoza e de Schiller. Refere-se à poesia épica de Homero: “(...)aí, há folhas inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou (...)”. E à literatura de Hoffmann: “(...) uma história sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos - como Hoffmann (...)”.

A parte 3 também é recheada de diálogos entre o autor e outros autores e/ou obras, tais como o Otelo, de Shakespeare, a novela Dom Juan, Dante, Byron, o Fausto, de Goethe, o Hamlet, de Shakespeare e o poeta português Bocage. O próprio nome do livro, a ação dos personagens dialogando em uma taverna, pode ser uma referência direta à vida e obra do poeta português. Álvares de Azevedo interage com a Bíblia:

(...) como Satã quarenta séculos depois fez a Cristo e disse-lhe: Vê, tudo isso é belo - vales, montanhas, águas do mar que espumam, folhas das florestas que tremem e sussurram como as asas dos meus anjos - tudo isso é teu...”

A parte 6 parece toda inspirada na tragédia Édipo Rei. Sem ter conhecimento, Édipo mata o pai e se casa com a mãe; por ignorância, Johann torna-se amante da irmã e mata o irmão. Quando toma conhecimento do infortúnio, Édipo vaza os próprios olhos, o que de certa maneira, faz Johann ao transformar-se em um ébrio para esquecer seu destino. Por fim, ambos sofrem por não darem atenção à lição do oráculo de Delfos: conhece-te a ti mesmo.


PROTAGONISTAS


O protagonistas ou personagens principais de Noite na Taverna são, basicamente, os jovens Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann, Johann e Artur que se encontram reunidos na taverna. Além deles, Geórgia, que reaparecendo já no final do livro, acrescenta uma nota de plausibilidade às histórias narradas. Todos os protagonistas são do tipo anti-herói, pois que, mesmo em posição de herói pelas coisas que contam, mostram-se iguais ou inferiores aos outros componentes do grupo. Ou são vítimas da adversidade ou são presa de seus próprios defeitos de caráter.


PERSONAGENS SECUNDÁRIOS


Os personagens secundários vão sendo introduzidos no enredo através das narrativas dos convivas, com exceção da taverneira, do velho que interrompe Bertram e de Geórgia, que participam da ação na taverna. Assim, temos a moça do cemitério, o guarda, o ébrio, o ébrio, os companheiros, o escultor. Ângela, o pai de Bertram, o esposo de Ângela, o filho de Ângela, o velho nobre, a filha do nobre, o pirata Siegfried, o homem que tenta salvá-lo e é morto, a amante do velho que interrompe a narrativa, o dono do cérebro que preencheu a caveira exibida pelo velho, o capitão da corveta, a esposa do capitão, os marinheiros, os piratas do barco que ataca a corveta. Godofredo Walsh, Laura, Nauza, a velha da cabana, os camponeses. Eleonora, o criado venal, o Duque Maffio, a dona da estalagem, os amigos no bilhar, a mãe de Artur, G. (irmã), o desconhecido (irmão).

A falta de indicação de nome e caracterização dos personagens secundários confere aos personagens principais um individualismo acentuado. É como se eles não tivesses suas próprias vidas, existindo apenas em função dos narradores.Pode-se perceber que, quase sempre, os personagens secundários são planos, pois que caracterizados, no máximo, com um pequeno número de atributos.Comumente, são personagens plano tipo, isto é, personagens reconhecidos apenas por determinado acento invariável, como por exemplo, o guarda, o escultor, etc.


CARACTERIZAÇÃO DOS PERSONAGENS


SOLFIERI - Um jovem boêmio, alcoólatra, persistente, pois que faz de tudo para alcançar o amor da mulher.
A MULHER AMADA POR SOLFIERI - Era como um anjo para ele, uma pessoa que sofria de catalepsia e depressão.
BERTRAM - Ruivo, de pele branca e olhos verdes. Alcoólatra e boêmio. Influenciado pela amada, muda seu jeito de ser, transformando-se em um ser obscuro e viciado, provocando a própria decadência.
ÂNGELA - Morena andaluza, calma e pura na visão de Bertram. No decorrer da história, mostra seu lado agressivo e malévolo.
A MULHER DO COMANDANTE - Branca, melancólica, triste e carente. Era pura, mas no desenvolvimento da trama, mostra seu lado infiel.
O COMANDANTE - Um homem bonito, com rosto rosado, de cabelos crespos e loiros, valente e brutal, mas um bom marido.
GENNARO - Um pintor bonito quando jovem, puro, pensativo e melancólico. Cínico e despreocupado acerca dos sentimentos alheios. Devotado à Nauza.
LAURA - Filha de Godofredo do primeiro casamento. Pálida, de cabelos castanhos e olhos azuis. Amava Gennaro, de uma forma pura e sem malícia.
GODOFREDO WALSH - Professor de pintura de Gennaro. Era robusto, alto e forte. Agia por impulso, vingativo.
NAUZA - Jovem e bonita, era a mulher de Godofredo. Carente, encontrava carinho nos braços de Gennaro.
CLAUDIUS HERMANN - Muito rico, não se importava com a desonra nem com o adultério. Só pensava na amada Eleonora.
A DUQUESA ELEONORA - Bela, pura e vaidosa. Pele alva e cabelos negros. Amava o marido, mas resolve fugir com Claudius porque não queria ser acusada de adultério pela sociedade que tanto prezava.
O DUQUE MAFFIO - Marido de Eleonora. Amava-a tanto que foi levado ao assassinato e ao suicídio.
JOHANN - Jovem boêmio, obsessivo, curioso e nervoso. Desonra a própria irmã e mata o irmão sem o saber.
ARTUR OU ARNOLD - Loiro, de feições delicadas, possuía o rosto oval e faces avermelhadas. Amava muito Geórgia.
GEÓRGIA - Irmã de Johann. Pura, inocente e apaixonada. No decorrer da história, entrega-se para o irmão, pensando que ele era o amado. Volta, no final, para vingar-se.
O IRMÃO DE JOHANN - Protetor, tenta matar o homem que desonrou a irmã.


TEMPO

O texto apresenta basicamente, três tempos:
1) A conversa entre os convivas, na taverna, ocorre no presente, tempo que predomina nos capítulos 1 e 7;
2) As histórias contadas pelos rapazes situam-se no passado, que predomina nos capítulos 2, 3, 4, 5 e 6, se bem que no início, durante e no fim de cada narrativa, os personagens retornam rapidamente para a taverna. A interação dos tempos (presente, passado e presente do passado) produz no leitor a impressão de estar se movendo em um mundo estranho, mágico, no qual acaba sendo introduzido, ao sabor da narrativa;
3) Os diálogos existentes em todas as narrativas conferem atualidade às histórias narradas pelos personagens principais.

A única referência histórica que dá uma vaga noção de localização cronológica do encontro na taverna está presente no relato do velho que interrompe a narrativa de Bertram: (...) e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo - Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Assim, o velho seria jovem em 18 de junho de 1815, quando Napoleão enfrentava o Duque de Wellington, em Waterloo. Em razão desta referência, pode-se situar o encontro fictício na taverna mais ou menor na época em que o texto foi escrito.

No livro de Álvares de Azevedo, nada há de seguro ou definitivo em relação ao tempo. Datas, épocas ou duração dos fatos são apenas superficialmente sugeridos. Foi escrito tanto em tempo cronológico quanto em tempo psicológico. O tempo que decorre dentro da taverna é real: (...)Cala-te,Johann! Enquanto as mulheres dormem(...) Ocorre o que chamamos de flash back. A partir do momento em que os jovens começam a contar suas histórias, eles mergulham nas lembranças do passado e o tempo passa a ser psicológico: Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão(...) No decorrer do enredo, há uma alternância entre passado, presente e futuro, tempo real e tempo psicológico. Quando um personagem faz sua narrativa, retorna, uma vez ou outra, ao ambiente da taverna, não permanecendo sempre no tempo psicológico.


ESPAÇO


Espaço é o local onde se passa a ação. É ele que dá conta do lugar físico onde ocorrem os fatos. Se a ação for concentrada, com poucos fatos narrados ou quando o enredo é psicológico, haverá menos variedade de espaços. Em Noite na Taverna, muito ao contrário, tem-se uma narrativa cheia de peripécias, com grande afluência de espaços diferentes.

De início, o espaço é a própria taverna, onde o diálogo é travado. A medida que se desenvolve a trama e as histórias de cada um vão sendo contadas, temos como espaço da narrativa: o palácio, o cemitério, a igreja, a ponte e as ruas da cidade; a casa, o quarto da casa (Solfieri); a casa do pai, o jardim da casa de Ângela, a casa dela, diversos locais pelos quais viajam juntos (não especificados), o palácio do nobre, o local onde joga com o pirata Siegfried (não especificado), o rochedo de onde salta para a morte, os diversos locais citados pelo velho que interrompe o narrador (Waterloo, Bélgica, taverna em Portugal, túmulo de Dante na Itália, Grécia e outros não especificados), a corveta, o mar, a cabine do comandante (sugerida), o navio pirata, a jangada e o brigue inglês Swalow (Bertram); a casa do mestre, o quarto de Gennaro, o quarto de Laura, o quarto do casal, a cabana na montanha, a cabana dos camponeses (Gennaro); o teatro, o palácio de Eleonora, o quarto dela, as ruas da cidade, os corredores e o pátio do castelo, o carro, a estalagem, o quarto alugado, a casa do casal Claudius e Eleonora, o quarto do casal (Claudius Hermann); o bilhar, o hotel, o quarto de Artur, fora da cidade, o sobrado da amante de Artur, a escada da casa, a porta de saída, a calçada na rua, o quarto da irmã (Johann).


AMBIENTE


É o conjunto de espaço acrescido de suas características socioeconômicas, morais, psicológicas, em que vivem os personagens. Em resumo, ambiente é um conceito que aproxima tempo e espaço, recheados de um clima.

Em Noite na Taverna, o ambiente é macabro, projeção dos conflitos vivenciados, ele reflete o pensamento mórbido e alucinado dos personagens. Todo o clima, como o tema, é noturno: histórias que e desenrolam na calada da noite, penumbra, melancolia, fumo, álcool, depressão e, por analogia, as características morais, religiosas e psicológicas traduzem o mesmo tom: são depravados, ébrios, assassino e boêmios.


NARRADOR


O livro é, inicialmente, narrado em terceira pessoa, apresentando os personagens na taverna. Após essa introdução, passa a ser narrado em primeira pessoa, na qual cada personagem tece sua trama.


CONCLUSÃO


Álvares de Azevedo revolveu delicadas feridas da sociedade brasileira da época e a afrontou tabus, e com isso - assim como em diversos outros pontos - ele seguiu as pegadas de Lord Byron - em cujas obras aparecem também traços não-conformistas e anti-sociais. Em Noite na Taverna não há justiça, probidade, remorso nem compaixão. Os rapazes na taverna, enquanto contam suas aventuras, são como anjos da morte e da destruição semeando a ruína e o desastre por onde passam. Sua postura é narcisista. Apenas buscam o prazer e a satisfação dos próprios desejos.

O texto não está construído de forma a incutir susto ou medo no leitor (como seria o caso na literatura de horror ou sobrenatural), mas antes, provocar o estranhamento e a repulsa. No entanto, uma das suas qualidades é, justamente, prender a atenção, página a página, através do emaranhado das situações descritas . Sem dúvida, as noites de vícios e devassidão narradas por Álvares de Azevedo, chamaram a atenção e chocaram o público leitor da década de 1850.

Noite na Taverna apresenta um mundo que não era o de Álvares de Azevedo, nem o de sua infância em família, nem o de sua mocidade e amadurecimento. Sua biografia deixa claro o tipo de valores nos quais ele foi criado: os da sólida e tradicional família brasileira, abastada, convencional e letrada. Orgias, a crueldade, a fealdade e os vícios de seus personagens em nada correspondem à realidade ou à vida do poeta. Somente o desejo de fuga da realidade explica tal escrito em que o amor é encarado pelo autor de maneira pervertida. Na vida real, nada mais era do que filho e irmão dedicado. Os sentimentos expostos em Noite na Taverna são puramente intelectuais.

Álvares de Azevedo inscreve sua obra na tradição do romance gótico. Pode-se avaliar como provenientes do romance gótico inglês, não apenas vários dos temas de Azevedo, como incesto e assassinato entre familiares, como ainda o gosto pelos incidentes sensacionais - raptos, fugas, aventuras em rápida sucessão, etc. Provavelmente, esses são elementos que foram injetados na poética de Álvares de Azevedo não apenas através de Hoffmann (Contos Fantásticos), mas também de Byron, de quem era assíduo leitor. O poeta inglês derramou pelo mundo uma mensagem de decadência e melancolia, erotismo e depravação, rebeldia e morbidez, que afinal alcançou e estudante paulista e toda uma geração brasileira. Os valores góticos fizeram de Noite na Taverna uma coletânea de brutalidades e perversões, cujas sementes são a descrença, o cinismo e o deboche. Em Azevedo, o recurso a elementos do romance gótico significa uma revolta contra a moral burguesa e sua rigidez de costumes. É, sem dúvida, uma produção noir. Antônio Cândido assinala:

(...) marcada pelo incesto, a necrofilia, o fratricídio, o canibalismo, a traição, o assassínio - cuja função para os românticos era mostrar os abismos virtuais e as desarmonias da nossa natureza, assim como a fragilidade das convenções. Associados a isto a modo de correlativo, a noite, a tempestade, o raio, o naufrágio, o tufão - constituindo o arsenal daquele belo sublime que podia costear o horrível, como indicam algumas páginas críticas de Álvares de Azevedo.

As histórias de Noite na Taverna são carregadas de fantasia. São homens devassos que se apaixonam por mulheres perdidas ou virgens misteriosas que terminam por perder-se. A sexualidade é sempre punida com a loucura e com a morte e o amor jamais se realiza plenamente. A atmosfera das cidades é corrompida e nebulosa, povoada de figuras fantasmagóricas. A imaginação romântica de Álvares de Azevedo marca de forma exuberante os contos do livro, narrados num estilo repleto de adjetivos e reticências. Em síntese, Azevedo escreveu:
- em tumulto,
- sem muito senso crítico;
- com traços de perversidade;
- demonstrando um cansaço precoce da vida;
- corporificando as várias tendências psíquicas de uma geração;
- com uma viva fantasia;
- apresentando características como egocentrismo, dualidade, auto-ironia, pessimismo e humor negro, ou seja, como um legítimo representante do ultra-romantismo.

Como escritor brilhante que foi e poeta original e talentoso, a qualidade de sua obra surpreende pela precocidade com que foi concebida. Seus textos refletem o ambiente de sua época, onde a literatura estava impregnada de pessimismo, ceticismo, morbidez e pressentimento da morte.

disponível em: www.coladaweb.com

quarta-feira, 5 de março de 2008

Álvares de Azevedo morre!

O estilo gótico como rejeição aos padrões sociais de comportamento vem conquistando a juventude ao longo dos séculos, desde Mary Shelley (Frankenstein) e Bram Stoker (Drácula). O decadentismo e o desajuste em relação aos valores vigentes assumiram formas contemporâneas com o punk, o dark e o metal, e até mesmo o romantismo mais ingênuo é vivido hoje pela tribo "emo". Não é espantoso, portanto, que nenhum autor do século XIX desperte tanto interesse na gurizada de hoje como Álvares de Azevedo. O Satanismo e a morbidez de Macário e, principalmente, de Noite na Taverna, são alimento para a imaginação mais delirante. Mas as poesias de amor, do desejo irrealizado, da dificuldade adolescente em aproximar-se do sexo oposto também atraem o jovem leitor. A própria biografia do poeta é repleta de mitos e curiosidades. Alguns afirmam que ele teria nascido no salão da Biblioteca da Faculdade de Direito em São Paulo. Conta-se também que ele, por sugestão dos amigos, tendo já uma aparência cadavérica, teria simulado o próprio velório no saguão da faculdade para que a turma arrecadasse dinheiro para a boemia. Muitos contestam essa fama de boêmio com o argumento de que, dada a esquisitice de Azevedo, ele teria morrido virgem. Mas o certo é que ele, como outros gênios da época, morreu cedo, aos 21 anos. Mas sua obra ficou imortalizada e fortemente identificada com a juventude. Tanto que eu poderia dizer: Álvares de Azevedo ainda vive! Mas, considerando-se a obsessão do poeta pela morte...

Duas boas pedidas então:

"A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.


- Que levas aí?

A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.

- É minha mulher, que vai desmaiada...

- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.

- É uma defunta

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda."
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“Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia (canto uníssono) amorosa, vem a sátira que morde” . Assim o próprio Álvares de Azevedo define sua obra, dividindo-a em duas facetas uma de confessionalismo amoroso juvenil e outra de ironia e sarcasmo.
A obra se divide em três partes. A primeira e a terceira parte da obra são marcadas pelo sentimentalismo e pelo egocentrismo típicos de sua geração. Em textosa como Sonhando e O Poeta, o eu-lírico idolatra virgens pálidas em uma atmosfera de delírio e suavemente sensual. Ainda nessa primeira parte, poemas como Lembrança de morrer e Saudades, o poeta aborda com seriedade a temática da morte.
“Cuidado, leitor, ao virar esta página!”: a segunda parte revela um poeta mórbido e sarcástico, capaz de tratar de assuntos mais mundanos e explícitos. Aqui o poeta é capaz de ironizar inclusive a si próprio. Destaque para É ela! É ela! É ela! É ela!, em que o eu-lírico revela sua paixão pela lavadeira; Namoro a Cavalo, em que o poeta trata das dificuldades por que passa o namorado para encontrar sua namorada que mora longe; e a auto-piedade em Idéias Íntimas.
Soneto
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!