
Laryssa Borges (Portal Terra)
O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), que, mesmo sem nunca ter publicado um livro, foi confirmado no último mês como o novo imortal da Academia Alagoana de Letras, irá engrossar uma vasta lista em que senadores, ministros de Estado e ex-governadores que são eleitos referências literárias e exemplos de divulgação e cultivo da Língua Portuguesa publicando suas autobiografias, livros técnicos e até homenagens a colegas e figuras políticas. A predileção por romances ou poesias, gêneros adotados pelos imortais das 27 academias regionais de Letras e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), não é praxe entre os políticos acadêmicos.
Mais de 57% das Academias de Letras - presentes nos 26 Estados, no Distrito Federal e na ABL - contém políticos em seus quadros. Decano da ABL, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), integra também o rol de imortais da Academia Maranhense de Letras, Estado onde fez carreira política, e do Distrito Federal, onde mora há mais de 20 anos. Em seu último romance, A Duquesa Vale uma Missa, o senador conta a história do fascínio provocado pelo quadro que retrata a Duquesa de Villars, amante do rei Henrique IV, com os seios à mostra, apalpando o seio de sua irmã durante o banho. Em outras obras, Sarney narra a vida de uma mulher "que traz nos olhos verdes prazer e traição" ou ainda detalhes de sua infância e "a descoberta do amor".
Alvo recente de denúncias de favorecimento de parentes e envolvimento com os chamados atos secretos, Sarney é o integrante mais antigo da atual composição da ABL, entidade que não quis se pronunciar sobre a crise institucional por que passa o Senado. Também no Senado Federal, são imortais os senadores Marco Maciel (DEM-PE) e Tião Viana (PT-AC).
Acadêmico da ABL e da Academia Pernambucana de Letras, Maciel tem em seu currículo mais de 50 publicações - a maioria essencialmente técnica como Educação e Liberalismo, Participação do Congresso na Política Externa e O Poder Legislativo e os Partidos Políticos do Brasil. Integrante da Academia Acreana de Letras desde 2006, o petista Tião Viana, por sua vez, tem no repertório o livro Heróis que Salvam, que se propõe a ser um retrato de 19 médicos que trabalham e já trabalharam no Acre. Viana é acriano e médico.
Para ser escolhido imortal da Academia Brasileira de Letras, o candidato precisa ter publicado "obras de reconhecido mérito" ou ser autor de "livro de valor literário". Nas academias regionais, no entanto, os critérios de admissão de acadêmicos não estão explícitos. Algumas dessas entidades sequer têm sede própria.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2007 foi à ABL para as comemorações dos 120 anos da entidade, tem no primeiro escalão de seu governo o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, como imortal da Academia Mineira de Letras. Em sua biografia disponível no endereço eletrônico do ministério, Patrus resume sua experiência acadêmica a "capítulos de livros e trabalhos acadêmicos, além de artigos publicados semanalmente em diversos jornais brasileiros".
Em todas as Academias de Letras, não há referências a qualquer preferência pela ficha limpa dos imortais, o que abre espaço para que a lista de acadêmicos garanta a presença de um político, segundo a Polícia Federal, envolvido na Operação Navalha, e até de um ex-governador réu em um processo de assassinato.
Com repertório técnico sobre "estratégias de desenvolvimento" para o Nordeste e a Amazônia, com destaque para teses sobre a transposição de águas do Rio São Francisco, o ex-governador João Alves Filho é imortal da Academia Sergipana de Letras e, afirma a Polícia Federal, responsável por favorecimento à construtora Gautama, empreiteira que, segundo investigação da Operação Navalha, recebia repasses de dinheiro público mas não concluía as obras contratadas. Alves Filho nega as acusações.
Também na lista de políticos imortais está o ex-governador da Paraíba e ex-deputado federal Ronaldo Cunha Lima. Autor de diversos poemas, entre eles Sonhos e Caminhos, Cunha Lima, integrante da Academia Paraibana de Letras, descreve em um verso que "quando criança, vivi sonhos bisonhos; fiquei adulto e descobri caminhos". No poema Conversando com o meu pai, o político relata um diálogo com o espírito de seu pai e resume um dos conselhos recebidos: "Conduza-se na vida com altivez, fazendo da probidade, da honradez, para você o seu forte brasão". Cunha Lima é réu confesso em um processo de tentativa de assassinato de um adversário político.
Entre os imortais cearenses, o ex-governador Lúcio Alcântara, como então presidente do Conselho Editorial do Senado, é responsável pela obra Dados Biográficos dos Senadores do Ceará, um retrato dos parlamentares do Estado de 1826 a 1998 impresso pela Editora do Senado Federal, e Eleições e Partidos Políticos, resumido pelo Senado como "um conjunto de referências bibliográficas sobre os temas". As duas publicações engrossam a lavra de obras de caráter pessoal ou de auto-propaganda política do ex-governador. Alcântara escreveu livros como Ação Parlamentar 1º Semestre e Lúcio Alcântara, um executivo no Parlamento.
O deputado Mauro Benevides (PMDB-CE), também representante da Academia Cearense de Letras, aparece como autor de inúmeras obras sobre temas ligados ao Nordeste e ao Ceará, mas a maioria esmagadora delas não passa de um compilado de discursos feitos quando era deputado ou senador. No rol de livros do parlamentar estão Temas Nacionais e Problemas Cearenses, uma coletânea de sete volumes; discursos sobre Nelson Mandela e Ayrton Senna e até entrevistas que Benevides concedeu para televisões e jornais.
Ao contrário dos demais colegas, que retratam sua vida política em suas obras, o representante político da Academia de Letras do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, prefere temas mais palatáveis à população, como dicas de amor ou "lições de solidariedade" oferecidas pela mulher de seu chefe. Ex-secretário da Juventude, Esporte e Lazer do governo Geraldo Alckmin (PSDB), Chalita é autor de Amor, resumido como "um presente para quem está apaixonada, para quem já sofreu de amor e para quem simplesmente ainda não teve coragem de se entregar", Pegagogia do Amor, sobre como falar com as crianças sobre companheirismo, amizade e amor, e Seis lições de solidariedade com Lu Alckmin, histórias da vida e da obra social da ex-primeira-dama paulista.
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Pequeno Comentário: Sarney, Collor, e toda essa turma em Academias de Letras é um escândalo! Impeachment neles! Já tem auto-ajuda, livro técnico e discurso político como credencial pra ser "imortal". Daqui a pouco vale até livro de receitas! E nós temos que engolir...
domingo, 13 de setembro de 2009
Políticos viram "imortais" com autobiografia e livro técnico
domingo, 26 de julho de 2009
Sarney na Academia Brasileira de Letras é falta de decoro literário!

A presença de Sarney na Academia Brasileira de Letras sempre me deixou perplexo. O que esse homem escreveu? Por que sua obra literária não é tão comentada quanto suas 'realizações' politicas? Bom, isso já não me deixa tão perplexo.
A respeito de "Brejal dos Guajas", Millôr disse que se tratava de "uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase". Afirmou ainda que "em qualquer país civilizado Brejal dos Guajas seria motivo para impeachment".
Selecionei uma matéria do portal UOL para termos algumas informações sobre a carreira literária de Sárney e sobre a repercussão dos escândalos políticos em sua reputação na Academia.
Colegas de Sarney na ABL se calam sobre escândalos no Senado
A ABL conta com 40 cadeiras, a reportagem do UOL Notícias procurou 19 "imortais", como são conhecidos os membros do grupo. Apenas um aceitou conversar sobre o colega Sarney: o escritor Moacir Scliar.
Autor de diversos contos e livros, como "A Majestade do Xingu", "Um Centauro no Jardim" e "Exército de Um Homem Só", Scliar é membro da ABL há seis anos. Em meio a pedidos de renúncia feitos inclusive pelos colegas de Sarney no Senado, o escritor evitou condená-lo antes que as investigações sobre todas as denúncias sejam concluídas.
"Temos instrumentos democráticos e é importante confiar neles para resolver quando vivemos crises", afirmou em entrevista por telefone. Ele acrescentou também que "a crise envolve o Sarney político, não o membro da ABL".
Scliar afirmou que a onda de denúncias nos jornais constrange os brasileiros e abala a fé deles de que haverá punição pelos eventuais desvios éticos que tenham sido cometidos com envolvimento de senadores.
"Como cidadão, confio nas investigações que vão se fazer, temos que respeitar todos os ritos de maneira democrática. Me coloco do lado de todos os brasileiros. Nós temos que aguardar e nossa maneira de intervir nesse processo é basicamente pelo voto, que repercute nos mesmos mecanismos que apresentam esses problemas hoje", disse.
Scliar afirmou não recordar de outro momento em que um dos membros da casa tenha sido envolvido numa série de denúncias tão grave quanto as dirigidas a Sarney, com quem disse ter tido pouca convivência. Ele pondera que conhece várias outras pessoas se envolveram com problemas políticos e que fica "consternado por elas e pelo país".
Sarney é acusado de usar sua influência para favorecer familiares e assessores e é presidente de uma Casa que sofre denúncias de mau uso de recursos públicos. Sustenta-se no cargo graças à influência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu aliado, e de setores da base de apoio do Palácio do Planalto que defendem sua permanência em favor da governabilidade.
Obra literária
O antecessor de Sarney na cadeira 38 da ABL foi o escritor José Américo de Almeida (1887-1980), autor do livro "A Bagaceira", publicado há 81 anos. Especialistas consideram essa obra do autor paraibano como o marco fundador do romance regionalista do movimento modernista brasileiro.
Escritor foi o único em 19 membros da ABL que comentou sobre Sarney
Para Moacir Scliar, Sarney não deve ser pré-julgado, mas a crise no Senado já abala a confiança dos brasileiros na democracia
Em seu discurso de posse na ABL, Sarney, que já era senador e mais tarde se tornaria um dos artífices da candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, ocupando posto de vice em sua chapa, admitiu que sua cadeira era "marcada pela política". "Ela foi o fato capaz de, alcançando um tratamento transcendente, entrar nos domínios da arte, por intermédio da participação literária de seus ocupantes."
Quando foi indicado, tinha publicado os livros "A Canção Inicial" (1952), "Norte das Águas" (1969) e "Marimbondos de Fogo" (1978), que não foram grande sucesso de público ou de crítica no Brasil nem no exterior.
Depois da posse na ABL, publicou reedições dessas obras e escreveu outras: "10 Contos Escolhidos" (1985), "Brejal dos Guajas e Outras Histórias" (1985), "O Dono do Mar" (1995), "A Onda Liberal na Hora da Verdade" (1999), "Saraminda (2000), "Saudades Mortas" (2005) e "Tempo de Pacotilha" (2004), além de compilações de suas colunas em jornais.
Enquanto ocupou o Palácio do Planalto, depois de Tancredo nem sequer assumir o cargo, Sarney teve "Norte das Águas" traduzido para inglês, espanhol, francês, alemão, russo, chinês, búlgaro e romeno. Depois de passar o cargo a Fernando Collor, viu "O Dono do Mar" ser vertido para inglês, francês, espanhol, grego, árabe e romeno. Mais tarde mereceu até filme em 2007, dirigido por Odorico Mendes.
Especialistas consideram "O Dono do Mar" o melhor texto da carreira literária de Sarney. Os rivais preferem fazer piada ao dizerem que o livro deveria se chamar "O Dono do Mar Anhão". A história se desenvolve ao redor do pescador Antão Cristório, que perdeu o filho, Jerumenho, graças à vingança de um marido traído.
O personagem central é Antão Cristório, um pescador que desde pequeno aprendeu a conhecer o mar e suas armadilhas. Há alguns anos, perdeu seu filho Jerumenho, vítima da vingança de um marido traído. A falta de perspectiva o faz viver do passado e ele passa a misturar fantasia com ficção.
O site da ABL, que não inclui a atual passagem dele pela presidência do Senado, informa que Sarney é também membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, da Academia Maranhense de Letras, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa.
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É isso, caros leiores. Não esria o caso de um impeachment na ABL? Afinal, com os escândalos recentes, é grande a possibilidade de Sárney abandonar a carreira política para dedicar-se exclusivamente à literatura...
