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quarta-feira, 19 de março de 2014

Livros Vestibular de Inverno UDESC 2014: Helena (Resumo e Análise)

Resumo e Análise:
Helena (Machado de Assis)

O autor:
*  Machado de Assis (1839-1908)
Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Morro do Livramento, interior do Rio de Janeiro. Ainda menino ficou órfão e foi criado pela madrasta. Aprendeu a ler em uma escola pública e teve aulas de francês e latim com um padre amigo. Tendo que trabalhar para se sustentar, tornou-se autodidata. Foi tipógrafo e revisor e começou a ter artigos publicados. Aos 19 anos teve seu primeiro conto publicado, e passou a colaborar assiduamente com jornais importantes como o Correio Mercantil e o Diário do Rio de Janeiro. Foi defensor da política liberal e participou de campanhas de alguns colegas de imprensa.
Em 1864 publicou Crisálidas, seu primeiro livro de poemas, de inspiração romântica, como os seguintes, Falenas (1869) e Americanas (1875).
Dedicou-se também às narrativas curtas em Contos Fluminenses, publicado em 1869, mesmo ano de seu casamento com Carolina, sua companheira para toda a vida. A partir daí estabilizou-se como funcionário público em 1875 e em sua carreira literária.
Em 1896 fundou, com outros escritores e jornalistas, a Academia Brasileira de Letras, que presidiu até a sua morte, em 1908.
Sua obra costuma ser dividida em dois momentos:

1ª fase: de tendências românticas, caracterizou-se pelo conformismo com os valores da época, reproduzindo os padrões do folhetim em tramas por vezes melodramáticas, ainda que com um esboço de análise interior das personagens (psicologia) e alguma atitude crítica.
Romances:Ressurreição (1872);
A mão e a luva(1874);
Helena (1876);
Iaiá Garcia (1878)
Contos: Contos fluminenses (1870)
Histórias da meia-noite (1873)

2ª fase: A etapa madura de sua produção, de tendências realistas.
Em sua análise crítica da sociedade, Machado revela uma visão pessimista das relações humanas, com a prevalência de personagens sórdidos e inescrupulosos. A análise psicológica coloca em primeiro plano os conflitos das personagens, revelando com sofisticada ironia a diferença entre essência e aparência. Isso fica ainda mais evidente nas personagens femininas, ambíguas e dissimuladas. Mas a obra machadiana não se limitou a seguir os ditames do realismo europeu. Introduziu inovações de estilo como a fragmentação da narrativa, através de insistentes intervenções do narrador, em uma espécie de conversa com o leitor. No mesmo sentido, explorou o foco narrativo em primeira pessoa em muitas de suas obras.
Romances:  Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881),
Quincas Borba (1891),
Dom Casmurro (1899),
Esaú e Jacó (1904),
Memorial de Aires (1908).
Contos:  Papéis avulsos (1882),
Histórias sem data (1884),
Várias histórias (1896).

ANÁLISE DE HELENA
            Publicado em 1876, Helena segue os moldes do folhetim romântico, sendo a protagonista uma pobre órfã que, por força do testamento do Conselheiro Vale, torna-se uma intrusa no lar da família de seu benfeitor. Destacam-se dois temas essenciais a balizar o romance: de um lado, o suposto amor incestuoso entre Estácio e Helena, dando feição melodramática à história; de outro o tema da crítica ao casamento por interesse, projetando-se uma certa ironia realista na condução do personagem Camargo, pai de Eugênia.  

NARRADOR
A narrativa é feita em 3ª pessoa, por um narrador que, embora onisciente, conduz a trama ocultando ao leitor alguns fatos, provocando curiosidade.
Embora o livro pertença a fase imatura do autor, já é possível observar-se discretamente o procedimento da “conversa com o leitor”, que será constante a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Realismo). Observe o emprego da 1ª pessoa no comentário do narrador:
“Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas particularidades por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão capital da divergência entre as duas amigas fora uma opinião de Cecília acerca da escolha de um chapéu.”
Ou ainda a referência explícita ao leitor:
“Agora mesmo, se o LEITOR lhe descobrir o perfil em camarote de teatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile, compreenderá.”

TEMPO
A narrativa se inicia em 25 de abril de 1850, com a morte do Conselheiro e se estende por aproximadamente um ano em uma narrativa linear até a morte da protagonista. Fazem-se algumas referências ao passado do Conselheiro e há um flashback no qual Salvador conta sua história e esclarece as origens de Helena. Predomina, portanto, o tempo cronológico.
           
ESPAÇO
Apesar da universalidade de seus temas, Machado de Assis sempre foi um observador agudo da vida no Rio de Janeiro. Neste romance não é diferente. A família Vale morava no Andaraí, em uma chácara; Dr. Camargo residia no Rio Comprido; Ângela, a mãe de Helena e amante do Conselheiro, vivia em São Cristóvão. Há cenas do passeio público no centro e do colégio de Helena que fica em Botafogo.


ENREDO
            O Conselheiro Vale, homem respeitável, de bom trânsito político morre de apoplexia. Viúvo, deixa um filho, Estácio, de 27 anos, formado em Matemática e uma irmã solteira, na casa dos 50 anos, chamada Úrsula.
            Dr. Camargo, médico e amigo da família se oferece para procurar um eventual testamento e, ao encontrá-lo, fica estarrecido com o conteúdo. Fica o mistério, que será resolvido no dia seguinte, na abertura do testamento. Ao chegar em casa, Camargo encontra sua esposa Tomásia e a filha Eugênia, em quem o pai, tomado de emoção, dá um beijo à testa. 
            No dia seguinte, faz-se a abertura do testamento, que surpreenderá a todos, pois nele o Conselheiro declarava reconhecer uma filha, de nome Helena, havida fora do casamento com uma mulher chamada D. Ângela da Soledade. Dispunha ainda que a menina devia ser recebida na casa da família, sendo acolhida como legítima irmã de Estácio.
            Ao contrário de Úrsula, que ficara indignada com o que alegava ser uma usurpação social e de Camargo, que parece desconfiado, o rapaz mostra-se disposto a cumprir a determinação do pai e decide, mandar trazer Helena a casa.
            A chegada de Helena ao lar da família Vale se dá ainda com certa frieza, principalmente por parte de Úrsula. A conversa durante o almoço é superficial. Estácio se oferece para mostrar a chácara. Ao conhecer o gabinete do pai, Helena fica emocionada com a lembrança do Conselheiro e revela sua gratidão. Ao final do passeio, Estácio está impressionado com a irmã, mas Úrsula continua hostil. É visível o esforço de Helena em conquistar todos na casa. Um dos primeiros a se afeiçoar à moça é o escravo Vicente, que irá defendê-la ante aos demais.
            Estácio visita Eugênia, a filha de Camargo,  moça muito bonita, simpática, porém dada a futilidades, o que deixa o rapaz em dúvida sobre seus sentimentos. O propósito de pedi-la em noivado vai se desfazendo em meio às incertezas. De volta a casa, Estácio recebe uma carta de seu amigo, Luís Mendonça, que anunciava seu regresso de viagem que fizera à Europa.
            Helena revela que sonhava aprender a andar a cavalo e Estácio se oferece para ensiná-la. Durante a cavalgada se evidencia a surpresa: a moça já sabia montar e mentira para o irmão no intuito de passear ao lado dele. Ao longo do passeio conversam filosoficamente sobre temas como tempo e dinheiro.
Observe um trecho do diálogo:
— Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
— Você devia ter nascido...
— Homem?
— Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança, se eu disser que é o pior estado do homem. 
Repare nos valores do patriarcalismo machista colocados no discurso de Estácio. A faculdade de pensar com autonomia e de defender ideias com propriedade parece exclusividade dos homens. Interessante destacar que essa cena evidencia a oposição de caracteres entre Helena (inteligente, madura, independente) e Eugênia (frívola, imatura, e por isso cada vez menos interessante aos olhos do rapaz).
De repente uma tristeza abate Helena. Estácio deseja saber o motivo, mas a moça desconversa. Estácio procura Úrsula e conversa sobre Helena. Camargo chega de surpresa e tenta convencer o rapaz a entrar para a política. O jovem resiste.
No dia seguinte, Estácio, espiando pela janela, flagra a irmã lendo emocionada uma longa carta. Curioso, chega a interpelá-la a respeito, e a moça chega a perguntar se ele desejava lê-la, mas o rapaz se contém.
Depois, o jovem matemático recebe uma carta de Eugênia e decide mostrá-la à irmã. Helena, duvidando do amor do rapaz, aconselha-o a procurar pela filha de Camargo. Na tarde em que Estácio decide vê-la, cai um grande temporal, frustrando o plano da visita.
D. Úrsula adoece e Helena não apenas cuida amorosamente da tia, como mantém a casa em perfeita ordem, conquistando definitivamente o coração da irmã do Conselheiro.
Estácio continua a viver um dilema sobre o relacionamento com Eugênia e demonstra irritação ao saber dos passeios que Helena fazia a cavalo na companhia do escravo Vicente. Ao conversar com a irmã, o jovem pergunta se ela está amando e ela responde: “Muito! Muito! Muito!”. O diálogo é interrompido pela chegada de Mendonça.
Os amigos se abraçam e conversam sobre a vida: as impressões sobre Helena, os planos de casamento de Estácio, as viagens de Mendonça, que, arruinado financeiramente, precisava começar a dar um sentido prático para a vida.
No aniversário de Estácio, Helena dá-lhe de presente um desenho que retratava fielmente seus passeios a cavalo, lado a lado tendo como cenário ao fundo uma casinha pobre enfeitada com uma flâmula azul. O aniversariante também recebe um presente da tia e, após, decide fazer um novo passeio ao lado da irmã.
Durante a festa, todos os olhares convergem para Helena, que, discreta, proporciona a Eugênia que brilhe tocando ao piano. Camargo pede para conversar a sós com a jovem herdeira dos Vale. Inicia-se um longo diálogo no qual o pai de Eugênia revela que gostaria de fazer uma viagem, mas que temia embarcar sem deixar a filha casada com Estácio. O plano do médico é que Helena use de sua influência para convencer o irmão a pedir a mão de Eugênia. Observe a fala de Camargo e o modo como se evidencia sua hipocrisia ao negar interesse na fortuna da família Vale.
— Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém que um pai não deve ser o primeiro a falar em tais coisas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D.Úrsula; creio, porém, que ela não tem a sua habilidade, e... por que o não direi? a sua influência no espírito de Estácio.
Helena não aceita interferir:
Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é porque a não ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que o fazer mau.
Enfim, a reação de Camargo, chantageando a moça. Nesse instante cai definitivamente a máscara da hipocrisia.
Nada dizia; todo ele era uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
— Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.
Camargo sorriu.
— Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.
— Que dizia então? perguntou Helena.
— Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar às seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre que a não adorne garridamente uma flâmula azul...
Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a cólera e a vergonha.
Através dos dentes cerrados Helena gemeu esta palavra única:
— Cale-se!
— Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Após chorar em seu quarto, Helena começa a agir, cobrando do irmão uma atitude em relação à Eugênia. Estácio, cheio de dúvidas sobre seus sentimentos acaba sendo convencido por Helena e envia uma carta ao Dr. Camargo pedindo a moça em casamento.
Ao receber a carta, o médico, em êxtase, beija a filha, evidenciando sua alegria com o sucesso do seu plano maquiavélico.
Ocorre, todavia, um fato inesperado: a madrinha de Eugênia adoece e fica agonizando entre a vida e a morte. Camargo decide viajar com a família para vê-la (especulando que Eugênia receba algo como herança). Eugênia só aceitou viajar exigindo a companhia de Estácio. O rapaz se vê obrigado a deixar o lar, despedindo-se, muito pesaroso, da irmã, exigindo que esta não saia a passeio. Helena iria desobedecê-lo indo até a casinha velha.
Mendonça frequenta a casa dos Vale e começa a gostar de Helena, que, por sua vez, finge não perceber o interesse do rapaz. Estácio envia uma carta demonstrando sentimentos extremados:
“Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são imensas, imensas como este amor que tenho à minha família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bela e doce de todas as irmãs!”
O padre Melchior, ao tomar conhecimento da carta, demonstra preocupação em casar Helena e passa a sondá-la sobre a possibilidade de uni-la a Mendonça. Como era nítido o interesse do rapaz, o padre pega a mão dos dois e declara que poderiam se amar.
Em êxtase, Mendonça escreve a Estácio contando ao amigo a novidade e pedindo-lhe oficialmente a mão da irmã. O jovem matemático, porém, reage com indignação e decide voltar de pronto ao Andaraí.
Observe o breve diálogo travado com Camargo e a ironia com que o narrador comenta o comportamento interesseiro do pai de Eugênia, que chegou a pensar que a parida do rapaz fosse devido a algo referente à herança:
— Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.
 — Negócio grave?
 — Grave.
 — Ainda assim, nesta ocasião...
 — Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a minha ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e providencie.
 — Algum negócio relativo ao inventário? aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.
 — Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.
Ao chegar em casa, Estácio trata Mendonça com frieza, alegando que precisa consultar Helena sobre o pedido de noivado.
Ao interpelar Helena sobre o relacionamento com Mendonça, Estácio alega saber que a moça amava outra pessoa, conforme ela mesma já havia confessado (“Muito! Muito! Muito”). Helena retruca dizendo que aquilo era apenas ilusão.
Inconformado, Estácio alega ao padre que não consentia a união da irmã com o amigo, pois sabia que ela amava a outro. Visivelmente contrariado, o matemático chega a sugerir que Mendonça poderia estar apenas interessado na fortuna da família.
Ao deparar-se com Mendonça, Estácio revela sua opinião, ofendendo o amigo que, imediatamente se retira. Após discutir com o irmão, Helena escreve um bilhete ao pretendente e faz com que o matemático chame Mendonça de volta.
A pretexto de sair para uma caçada, Estácio flagra a irmã saindo da casinha pobre que costumava visitar. Tendo ferido a mão em uma cerca de espinhos, o rapaz vai até o local e é, apesar da pobreza do reduto, bem recebido por um homem muito humilde. O mistério cresce e as desconfianças do jovem não cessam.
Em casa, Helena sente falta de Estácio e vai ao quarto do irmão. Ao perguntar-lhe o que havia, o rapaz, em resposta, aponta para a ilustração que ela havia feito do casebre da flâmula azul. A moça estremeceu e Estácio, irado, arremessa o quadro. Helena sai correndo, horrorizada.
O rapaz se reúne com o padre e com D. Úrsula, contando o que vira. O padre pede para ficar a sós com o jovem.
— Mas que é, padre-mestre?
 Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos nele, eram como um espelho polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
— Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
 O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que Estácio ouvira aquela palavra, mostrou ao padre, não só que ele estava de posse da verdade, mas também que acabava de a revelar ao mancebo. O que a consciência deste ignorava, sabia-o o coração, e só lho disse naquela hora solene.
Perturbado diante da revelação, Estácio jura mediante um crucifixo que evitará Helena de todas as formas.
A seguir, Vicente, o pajem de Helena, comunica ao padre que sabia de algo que poderia salvar a reputação de sua senhora: o homem a quem a moça visitava no casebre da flâmula azul seria, na verdade irmão da jovem.
Todavia, o escravo estava enganado. Helena entrega ao padre Melchior uma carta que revelava toda a verdade: nela, o remetente, chamado Salvador, refere-se à Helena como filha.
Confuso, o padre entrega a carta a Estácio. Perplexos, ambos resolvem ir à casa de Salvador. Diante da carta, o homem resolve contar toda a história.
Ângela era filha de um proprietário de terras no Rio Grande do Sul. A diferença de classes impedia o amor entre ela e Salvador. Ambos fugiram, passando a viver juntos, mesmo na miséria. Mesmo trabalhando muito, Salvador não conseguia sustentar a casa. Foi quando nasceu Helena, que passou a ser o motivo de sua vida.
Salvador se obriga a uma viagem ao saber que seu pai estava doente. Passado algum tempo, logo após a morte do velho, Salvador volta para casa e, ao chegar, descobre que Ângela estava vivendo em São Cristóvão, com um amante (o Conselheiro Vale).
Furioso, Salvador pensa em usar da violência e resgatar Helena. Passa então a espreitar a casa, até que um dia, presencia uma cena:
Helena falava a alguém. Por uma abertura da cerca, pude espreitá-la. Estava ao colo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este sorria para ela com um ar de ternura, que o absolvia quase da ofensa a mim feita. O coração, porém, apertou-se-me, ao ver dar a outros afagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito à natureza; mas, se meu próprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Daí a algum tempo, — não sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos, pasmado de amor e de cólera, ouvi que falavam de mim. "Mas, olhe, dizia Helena, papai quando vem?" O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairava sobre a cabeça dela. As crianças, porém, são implacáveis; aquela repetiu a pergunta. "Papai não volta", respondeu o conselheiro. Helena ficou séria. "Não volta? por que?" "Tua mamãe disse ontem que papai está no céu". Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lágrimas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos... tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os músculos não corresponderam à intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei acordo de mim, volvi de novo os olhos para o lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era diferente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que já não chorava. Ele beijava-lhe as mãozinhas e dizia-lhe: "Se papai foi para o céu, fiquei eu no lugar dele, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?" A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse: "Se não tenho ninguém mais no mundo!" O gesto foi tão eloqüente que eu vi borbulhar uma lágrima nos olhos do conselheiro. Essa lágrima decidiu do meu destino
Ao perceber a bondade do Conselheiro com Helena, Salvador decide abrir mão da filha, desaparecer, poupando a menina de viver na miséria. Comovido ao narrar a história, Salvador revela que aos 12 anos Helena o reconheceu na rua e o abraçou. Temendo desgraçar a vida da garota, o pai a fez prometer que, para todos os efeitos, não o vira. Salvador passa a ter encontros clandestinos com a filha. Com a morte de Ângela e, posteriormente do Conselheiro, Helena, para aliviar o drama do pai biológico promete aceitar se passar por filha de Vale.
Salvador afirma que, após revelada toda a verdade, se a família Vale rejeitar Helena, ele, o pai biológico irá acolhê-la.
Ao descobrir toda a verdade sobre Helena, Estácio não a quer como irmã, mas o padre  vai adverti-lo:
— Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante. Compreendo, quisera despojar Helena do título que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la à sua família por diferente vínculo...
 Estácio fez um gesto como protestando.
 — Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento de um e outro; já se não pertence, nem ela se pertence a si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo silêncio, e a situação de ontem será a mesma de amanhã.
 Chegando a casa, Estácio demonstra seu desejo de manter Helena na casa. Ela, porém, diz não merecer, mas o rapaz não deixa que ela vá embora com Salvador, que estava de partida.
Estácio, mesmo amando Helena, escreve uma carta a Mendonça, com o intuito de apressar o casamento da moça com o amigo.
Helena, cada vez mais abatida, deixa a todos preocupados. Durante uma forte chuva, a moça sai e, já muito fraca e febril, é contida por Estácio. O estado de saúde da jovem se agrava até que, em seu leito de morte ela manda chamar pelo seu grande amor. Helena morre nos braços de Estácio.
Após o enterro de Helena o romance se encerra com o irônico contraste: a tristeza de Estácio e o triunfo de Camargo, que via, finalmente, o caminho livre para o casamento da filha com o rico mancebo.
Sozinho com Estácio, o capelão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancolicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou com ternura.
 — Ânimo, meu filho! disse ele.
 — Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estácio.
 Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estácio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lúgubre cerimônia, recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia à porta o terceiro beijo do pai.
  
O QUE OBSERVAR:
 Os três beijos de Camargo
1º: No primeiro capítulo, quando morre o conselheiro Vale.
2º: Quando chega a carta de Estácio pedindo Eugênia em casamento.
3º: Após a morte de Helena.
Esses beijos representam as conquistam do objetivo central de Camargo, casar a filha com um rico herdeiro.

Romantismo ou Realismo?
            O livro é romântico com traços pré-realistas.
            Caracteres Românticos:
            - Amor proibido
            - Melodrama
            - Idealização feminina*
*Mesmo tendo mentido, Helena o faz em razão de um motivo nobre, preservando o pai biológico e cumprindo o desejo do pai adotivo. Não se pode dizer que é mesquinha ou interesseira, pois chegou mesmo a se dispor ao casamento com o pobretão Mendonça para desimpedir o caminho de Estácio.
Caracteres Realistas:
- Análise psicológica (ainda que superficial): a culpa de Helena e a necessidade de se fazer aceita; o desejo não consciente de Estácio pela suposta irmã.
- Personagens esféricas (multifacetadas): personagens que vão se revelando aos poucos, como o Dr. Camargo, que só será completamente desmascarado a partir da chantagem que faz com a protagonista; a própria Helena, que permanece misteriosa até ser revelada a mentira de que fez parte.
- Denúncia da hipocrisia e uso da ironia: É o que se verifica em relação ao Dr. Camargo.

- Triunfo da razão sobre a paixão: Estácio (não por acaso um matemático), mesmo sabendo que não era irmão de Helena, aceita o conselho moralista do padre Melchior, desistindo de ficar com ela, pois seria um escândalo.

domingo, 26 de julho de 2009

Comentários sobre a prova de Literatura da UFPel (Inverno 2009)


As críticas que tenho a fazer são as mesmas já colocadas em relação a processos seletivos anteriores: o espaço dedicado à Literatura é muito reduzido e e não há coerência na elaboração do exame.

Um programa com 19 leituras obrigatórias nunca será contemplado por uma prova com duas questões. A Universidade deveria estimular a leitura do texto literário valorizando os livros solicitados em maiores proporções, enfocando aspectos de Língua Portuguesa e de Literatura concomitantemente em diversas questões. A prova é assim designada: "Língua Portuguesa e Literatura Brasileira", sugerindo que ambas estão entrelaçadas, no entanto, a prova de Português é conduzida por um tema que a perpassa integralmente (no caso, a atividade jornalística e o exercício da liberdade de expressão), enquanto a Literatura aparece totalmente desconectada, sem qualquer relação com o tema da prova (que é aproveitado inclusive para a Redação), e sem nenhuma unidade temática entre as abordagens das duas questões que enfocam textos literários. Falta obedecer os critérios de coesão e coerência na elaboração desse exame.

Ademais, não posso deixar de reiterar minha preocupação quanto ao baixíssimo nível de leitura e a escassa bagagem cultural que se exige do candidato em uma prova em que a Literatura tem quase o mesmo peso que a leitura de charges ou tirinhas. Que tipo de acadêmico se está selecionando? Que tipo de Universidade se quer construir? Ou essas perguntas não estão norteando a concepção do processo seletivo ou estão sendo conscientemente desprezadas, o que seria mais grave.

Quanto às questões de Literatura em si, não há problemas graves, nenhum aspecto que possa prejudicar sua validade, ocorreu com um dos testes do último vestibular de verão. Vamos à análise.

1- Analisa as afirmações abaixo, tomando como base a obra Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto.

I. A obra Lendas do Sul apresenta, entre outras, três importantes lendas da nossa cultura: “O Negrinho do Pastoreio”, “A Mboitatá” e “A Salamanca do Jarau”. Nas duas primeiras, temos Blau Nunes como narrador, já na terceira, o temos como protagonista da história.

II. É procedimento habitual em João Simões Lopes Neto a universalização de um tema regional, dando-lhe caráter filosófico. As lendas “A Mboitatá” e “A Salamanca do Jarau” são bons exemplos disso. A primeira discute a essência do ser e sua impossibilidade de transferência e apropriação, já a segunda alegoriza a busca do
sentido da existência humana, triunfando, no final, o materialismo.

III. “A Mboitatá” é uma lenda que tem origem nas fantasias criadas pelas aparições de fogos no campo produzidos pela fosforescência de restos de ossadas.

Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)
(a) I apenas.
(b) I, II e III.
(c) I e III apenas.
(d) I e II apenas.
(e) II apenas.
(f) I.R.


Um aspecto elogiável da prova é a colocação da literatura regional, diferenciando nosso vestibular das tendências de um processo seletivo nacional como o ENEM.

A afirmativa I está correta. As três lendas citadas são patrimônio cultural gaúcho, reelaboradas pelo estilo simoneano. O único aspecto problemático ñesse item é o que se refere a Blau Nunes. Em nenhum momento está explícito na obra que o narrador de a M'Boitatá e o Negrinho do Pastoreio seria Blau. Pode-se inferir essa informação pelo conhecimento da totalidade da obra do autor, considerando-se a linguagem empregada pelo narrador de Contos Gauchescos. Quanto à sua colocação em A Salamanca do Jarau, de fato, ela se dá na forma de protagonista, sendo o foco narrativo em 3ª pessoa.

A afirmativa II está errada. Embora faça justa alusão ao Regionalismo Universal e ao caráter filosófico da obra, não se afigura verdadeira quando diz sobre A Salamanca do Jarau: alegoriza a busca do sentido da existência humana, triunfando, no final, o materialismo"(grifo meu). Ao final da narrativa, Blau devolve a moeda mágica ao Sacristão, pois prefere a amizade de sua gente ao dinheiro infindável que lhe trouxera solidão.

A Afirmativa III está certa, pois alude ao fato de A M'Boitatá ser um relato mítico que explica, de forma imaginativa, o fenômeno natural dos fogos-fátuos.

Portanto, RESPOSTA CORRETA: C


2- Lê este poema, de Manuel Bandeira

Consoada*

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou coroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(*ceia da noite de Natal)

O eu-lírico

(a) mantém uma postura altiva e de enfrentamento com a “Indesejada das gentes”, traduzida pelo escárnio com que a recebe.
(b) alude à morte como um ente não estimado, que não se pode subjugar nem ludibriar com subterfúgios.
(c) apresenta-se preparado para a morte, com todos os deveres cumpridos. O “campo lavrado” alude à infância de trabalhos pesados de Bandeira.
(d) satiriza o natal, assim como em outras obras o fez com as datas cristãs, imaginando-o como a época de morte simbólica para todos.
(e) traduz, com o tema “morte”, o sentimento do mundo, que enfrentava à época a possibilidade real de uma nova guerra, ainda mais mortífera que a Segunda.
(f) I.R.


Alternativa a:incorreta
Não há postura de enfrentamento, pois o eu-lírico reconhece que "talvez tenha medo" e refere-se à morte como "iniludível" (que não se pode enganar), colocando-se de maneira relativamente conformista em relação ao fim da vida.

Alternativa b: correta
Alude à morte como um ente não estimado - "Indesejada das Gentes" é um eufemismo para referir-se à morte.
(...)que não se pode subjugar nem ludibriar com subterfúgios - Isso está expresso em "Iniludível" e implícito na postura conformista do eu-lírico em "pode a noite chegar", sendo a "noite" uma referência metafórica à morte.

Alternativa c: incorreta
O problema está na referida "infância de trabalhos pesados" de Bandeira. Sabe-se que o poeta, desde cedo teve sua vida limitada pela tuberculose, não podendo submeter-se a grandes esforços físicos.

Alternativa d: incorreta
Não há sátira ao Natal, nem no poema, nem no restante da obra do autor, mas sim o que se pode interpretar como uma auto-ironia, pois sua a morte viria numa noite de Natal, momento em que a vida é celebrada.

Alternativa e: incorreta
O tema da morte é tratado numa perspectiva individual, e não social como em Drummond (autor de Sentimento do Mundo). Além disso, o poema em análise figura na obra Libertinagem, de 1930, anterior, portanto, à Segunda Guerra Mundial.

RESPOSTA: B

É isso. Esta foi mais uma prova da UFPel, com mais problemas do que acertos. Minha intenção aqui é sempre a de contribuir para que tenhamos um processo seletivo de maior qualidade, digno dos esforços que fazemos nós, professores e estudantes.

Agora é aguardar com otimismo o resultado. Sucesso a todos!

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Análise do conto "Pai Contra Mãe", de Machado de Assis


O conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa Velha, insere-se na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas. Ambienta-se no Rio de Janeiro do século XIX antes da abolição da escravatura, que serve de pano de fundo para a narrativa, não se configurando, porém, como a questão principal. Os aspectos sócio-econômicos das personagens beiram a miséria, com dificuldades muito grandes, dependência e escassez. O pensamento predominante é maquiavélico e capitalista, com destaque para a “coisificação” do ser humano, resumindo os escravos a mercadorias.

Fazendo um descortinamento do perfil psicológico das personagens, ele traz à tona o problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter que subjuga o discernimento. A sociedade hipócrita em que se ambienta a narrativa é constantemente ironizada pelo narrador que vê em seus mandos e desmandos uma tentativa de impor a ordem social aos dominados, como se pudesse colocar-lhes uma máscara de folha-de-flandres para impedir seus excessos. A oposição em que se apresentam as personagens é uma briga de iguais que legitima o poder da classe dominante e da qual sai vencedor o mais forte, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade emocional.

Narrado em 3ª pessoa, é um dos contos em que o autor apresenta a escravidão da maneira mais impressionante e brutal. A instituição forma uma tela de fundo, um elemento do cenário em que se desenrola a trama. Nesse conto a escravidão é o próprio centro da história. Aliás, na primeira linha do conto, o autor escreve: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais". Quando Machado escreveu este conto, a escravidão havia sido abolida há mais de uma década e já parecia algo do passado. Como quem não quer nada, Machado começou o conto como se fosse escrever uma anedotinha sobre uma profissão desaparecida devido ao progresso. O personagem do qual ele fala, Cândido, era um caçador de escravos fugidos que os capturava para entregá-los aos seus senhores. Mas ele não andava por montes e vales, vestido de botas, capa e chapéu grande, seguido por cachorros, como os caçadores de escravos que trabalhavam para os senhores das zonas rurais. Cândido trabalhava na cidade. Seu território de caça eram as ruelas, as espeluncas, os mercados, as saídas das igrejas, as procissões, as aglomerações do porto.

Para os escravos fugidos no meio urbano, a melhor coisa a fazer era misturar-se à população negra, livre, alforriada ou escrava para embaralhar as pistas. Aliás, os anúncios dos jornais da época, fonte documentária extraordinária para os historiadores, descrevem todo tipo de subterfúgio usado por escravos fugidos que buscavam confundir-se com o meio urbano. Havia anúncios do gênero: "Um tal escravo, de tal tamanho, fugiu, mas ele faz semblante de ser livre e é habituado de tal parte da cidade".

Os senhores e as autoridades, é claro, faziam questão de cercar de perto a população escrava e decretavam normas proibindo todo escravo de usar sapatos. Logo, todo negro ou mulato calçado era considerado a princípio como sendo livre ou alforriado. Nessas condições, os escravos fugidos que circulavam na cidade podiam facilmente obter sapatos para evitarem ser interpelados. Isso aumentava a confusão social fazendo recair a suspeita sobre todos os negros livres. Essa situação modificou-se após 1850 quando a imigração de proletários portugueses substituiu-se pouco a pouco os escravos no mercado urbano do Rio de Janeiro. Mesmo que Machado tivesse escrito seu conto mais tarde, após a abolição da escravidão, quando a população branca, brasileira e imigrada, era mais numerosa, seus leitores guardariam na memória a lembrança dessa cidade negra e escravagista da metade do século XIX.

Os escravos urbanos eram alugados. Seus senhores os alugavam a terceiros. Isso conduziu a uma situação particular na qual o senhor empregador do escravo não era seu senhor proprietário. Senhores confeiteiros, padeiros, maçons, marceneiros, vendedores de leilão recrutavam escravos alugados para suas atividades.

Os senhores proprietários de escravos permitiam-lhes o direito de guardar uma parte de seus ganhos a fim de formar um pecúlio que, eventualmente, permitir-lhes-ia comprar sua própria liberdade. Sabe-se que a proporção de escravos que podiam pagar seu próprio preço ao senhor proprietário era muito reduzida. Entretanto, isso representava a recompensa - o estímulo material - que impelia o escravo a trabalhar ainda mais, a fornecer rendimentos ao seu senhor proprietário para aumentar suas chances de comprar sua liberdade. Na situação já descrita do Rio de Janeiro, em que o escravo trabalhava para ganho de um senhor patrão a fim de fornecer uma renda ao seu senhor proprietário, surgia mesmo assim um problema. Isso acontecia quando o senhor patrão explorava o escravo até o esgotamento e a morte, causando, por conseqüência, uma perda não compensada por nenhum benefício para o senhor proprietário que perdia o capital que ele havia investido na compra do cativo. Para cobrir esses riscos, surgiu no Rio de Janeiro companhias de seguro para segurar a vida dos escravos em benefício de seus senhores proprietários.

Eis o contexto social no qual se desenvolviu as atividades de Cândido, caçador de escravos fugidos, personagem central do conto de Machado de Assis. Como ele fazia para ganhar sua vida na cidade? Pela manhã, lia os jornais nos quais havia muitos anúncios de escravos fugidos. Como não havia fotos nos jornais da época, as descrições eram muito detalhadas, assinalando o sotaque do escravo, suas eventuais cicatrizes etc., à maneira da polícia francesa da época no tocante aos condenados a trabalhos forçados que haviam fugido. Essa descrição física comportava pontos imprecisos.

Assim, após ter lido os anúncios e ter tomado notas das características dos escravos fugidos que ele acreditava poder cruzar nas ruas da cidade, Cândido saía para caçar. Com auxílio de uma corda, ele atacava a pessoa que julgava corresponder a um anúncio determinado. Antes de tornar-se um caçador de escravos fugidos, Cândido havia tentado várias profissões sem sucesso. Entretempo, ele havia se casado com Clara, uma jovem orfã que vivia com sua tia.

O casamento de Cândido também pode ser visto como algo que merece destaque. Apesar de ser ele alguém sem grandes ambições e gostar de vida fácil, questiona-se porque se casaria com alguém que não poderia dar-lhe boa vida? Sendo ela submissa e influenciável, infere-se que Clara legitimaria a vida medíocre ambicionada por Cândido Neves.

Por não terem meios de estabelecerem-se por conta própria, o casal morava na casa da tia. Mas eles desejavam muito ter um filho e algum tempo depois Clara engravidou. O bebê ia nascer e a tia estava muito preocupada porque eles não tinham dinheiro, nem profissão fixa, e isso ia trazer problemas. Finalmente, quando Clara deu à luz um menino, a tia a convence a abandonar a criança na Roda dos enjeitados, isto é, tratava-se de um guichê giratório instalado na fachada dos orfanatos; esse dispositivo permitia aos pais depositarem seu filho no anonimato e com toda segurança. Isso existia também em Paris e em várias cidades francesas no século XIX. Logo, a idéia de abandonar um recém-nascido era dolorosa mas, em último caso, não era escandalosa.

Após muito hesitar, o pai, cheio de desespero, pegou o nenê para levá-lo à Roda dos enjeitados do Rio de Janeiro. Antes, ele decidiu tentar, ainda uma vez, obter dinheiro para evitar a infelicidade de perder o filho. Retomou os jornais e suas fichas sobre os escravos fugidos. Selecionou então um anúncio que prometia uma grande recompensa por uma mulata fugida na cidade. O texto descrevia a aparência da escrava, os bairros que ela costumava freqüentar e seu nome: Arminda. Com o dinheiro da recompensa, Cândido podia pagar suas dívidas e ter um descanso. Sobretudo, isso permitiria ao casal ficar com o filho. Após ter relido a descrição dessa escrava, ele teve a impressão de já tê-la visto em um dos bairros do Rio de Janeiro. No caminho que o levava em direção à Roda, ele decidiu deixar o bebê com um de seus conhecidos para tentar, uma última vez, encontrar a mulata em determinadas ruas da cidade. Vai a esse lugar e eis que ele percebe a pessoa em questão. Ele a seguiu quase certo de que se tratava da escrava fugida descrita no anúncio. Chamou-a por seu nome: Arminda. Ela virou-se.

Certo de que era sua presa, Cândido saltou sobre Arminda. Eles se bateram e ela lhe diz suplicando: "estou grávida, me solte, eu serei sua escrava". De fato, no sistema escravagista, também era uso que os indivíduos escondessem e conservassem para seus próprios serviços escravos fugidos pertencentes a terceiros. Cândido recusou e arrastou-a até a casa de seu senhor que morava em um bairro próximo. Machado descreveu bem a seqüência da cena e os leitores desse conto publicado em um jornal da época não tinham nenhuma dificuldade para seguir os itinerários.

Na medida em que eles se aproximavam da casa do senhor, Arminda reagiu ainda mais, ela se debatia e terminou por abortar na entrada da casa. O proprietário de Arminda chegou e deu a recompensa a Cândido. Esse voltou com o dinheiro e, após um pequeno suspense, recuperou seu nenê.

Sucintamente, chegando na casa dele, viu a tia de sua mulher e contou-lhe o que se passou. É interessante porque aqui a mãe não está presente, é um diálogo em que a mãe não intervém mais, somente a tia. Ele conta-lhe a história de Arminda e de seu aborto.

O narrador do texto é um elemento importante para a construção da ironia nesta narrativa. Em terceira pessoa, como já citado aqui, a sua perspectiva aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos sobre os fatos que envolviam a escravidão, como na descrição das crueldades das quais os escravos eram vítimas. Pareciam ser transformados em coisas, deixando de ser humanos. Por exemplo, quando fugiam “grande parte era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói”. O escravo, essa coisa, objeto, mesmo quando fugisse, não poderia sofrer muitos castigos, já que estes poderiam impedi-lo de prestar os serviços necessários a seu senhor, inutilizando-o, causando assim, grande prejuízo.

Quando o narrador comenta “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancadas”, qual pessoa gostaria de viver em completa escravidão, à mercê dos mandos e desmandos de alguém e, ainda por cima, levar algumas pancadas? Com sua ironia, parece que é ele, quem dá uma pancada no sistema de escravatura.

A questão da intertextualidade nos textos machadianos com outros textos, pode-se perceber através do processo de construção da personagem principal, Cândido, que do latim significa “alvo”, “puro”, “imaculado”. Nome que foi grandemente popularizado pelo título de um livro de Voltaire, sátira ao otimismo de Leibniz, então em voga, que diz que nos encontramos no melhor dos mundos possíveis. É pertinente a comparação do Cândido de Voltaire e o de Machado, já que ambos são responsáveis por ironizar uma idéia vigente ou um sistema: um o otimismo desenfreado; e outro, o sistema da escravidão em que negros são tratados como objetos e não como seres humanos. Podemos dizer que os dois Cândidos estão longe de demonstrar que o mundo em que vivem é o melhor dos mundos possíveis.

O protagonista da obra de Voltaire é também chamado Cândido, o otimista, já que atravessa um sem fim de desventuras e sempre busca encontrar o lado positivo da situação, seguindo os ensinamentos de seu mestre Panglós. O seu caráter é o reflexo de sua alma, é sensível, apaziguador e sensato: “o seu rosto era o espelho da alma. Era de entendimento claro e espírito simples; e foi essa a razão por que lhe deram o nome de Cândido. Aqui pode-se dizer que reside a ironia do Cândido machadiano, pois seu caráter não revela nenhuma candura, antes pelo contrário mostra-se insensível ao aborto da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O egoísmo é sua marca principal.

A idéia de progresso e perfeição na citada obra de Voltaire está basicamente ligada ao trabalho: “quando o homem foi posto no jardim do Éden, foi ali posto para trabalhar, ut opereratur eum, o que prova que não foi criado para repouso”. Voltaire faz um homem tornar-se perfeito, além de dar-lhe melhores condições de vida, ou seja, ninguém é realmente feliz até que comece a trabalhar. Extremamente irônico, Machado constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos". Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante, ao contrário do Cândido de Voltaire, sempre otimista. Este, todavia, no fim da obra, aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica. Melhor que ficar pensando nos dramas existenciais é colocar-se a trabalhar, pois só o trabalho pode ser o remédio para muitos males, o que não pensa o Candinho de Machado.

É conveniente também citar a ironia presente na construção de duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha, vive em companhia dos dois.

Para dar verossimilhança aos fatos e reforçar a ironia à escravatura e à diminuição dos seres, o espaço ambiente, na cidade do Rio de Janeiro, é fundamental, pois sabe-se que os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, e que muitos são os mesmos até hoje. Fato que torna essa narrativa extremamente passível de verossimilhança externa.

Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.

Vladimir Propp, em Morfologia do conto maravilhoso, relaciona trinta e uma funções ao estudar, pormenorizadamente, contos populares russos, porém, identificam-se algumas destas facilmente neste conto de Machado de Assis. Através delas pode-se perceber como se desenrolou a ação da personagem principal, dentro de um enredo curto, sendo ele um pai que vai lutar para continuar com seu filho, a ironia aqui consiste em não ser a mãe a responsável por essa luta, já que em nossa concepção, a mãe é mais ligada ao filho, por isso mais difícil perdê-lo.

Na função "afastamento", pode-se salientar a tentativa de Candinho em deixar o ócio em que vivia e aprender um ofício, já que agora estava apaixonado por Clara e queria ter em que trabalhar quando casasse.

Na função definida como "ardil", o Cândido Neves sofreu com as interferências da Tia Mônica que era contra o casamento da sobrinha com a nossa personagem e também das amigas de Clara que “tentaram arredá-la do passo que ia dar”.

Na função que trata da reação do herói, Candinho ficou muito triste por que agora ele tinha um filho para sustentar, as dificuldades aumentaram e ele, que agora virara caçador de escravos fugitivos, não conseguia empreitada que lhe rendesse algum dinheiro.

Em outra função, o herói luta para conquistar um objeto, quando a nossa personagem descobriu em suas notas de escravos fugidos o anúncio da fuga de uma mulata em que a gratificação subia a cem mil-réis, achar a escrava seria a salvação, não teria que entregar seu filho à roda de enjeitados como queria a tia de sua mulher: “...agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves. Saiu de manhã a ver e indagar...”.

Pode-se salientar também a presença da função definida como "perseguição" quando Cândido, ao ir entregar seu filho, encontrou por acaso a escrava fugitiva, deixou o filho em uma farmácia e saiu em sua perseguição: “atravessou a rua, até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma”.

Em outra função, a tarefa é realizada e o herói é reconhecido. A nossa personagem captura a escrava, entrega-a a seu dono, e recebe a recompensa e volta para casa entre lágrimas com seu filho nos braços. Tia Mônica que não queria saber da criança, ouve a explicação e perdoa a volta do pequeno, uma vez que ele trazia um bom dinheiro para a subsistência da família.

Tendo em vista os aspectos observados, acredita-se que Machado ao construir este conto utilizou elementos que acetuam o tom irônico de suas palavras.

Fontes: Izaura da Silva Cabral, Espéculo, Revista de estudos literários, Universidad Complutense de Madrid | Denisia Gomes Pimenta, 3º período do curso de Letras | Luiz Felipe de Alencastro, Professor de História do Brasil, Universidade Paris IV

*Extraído do portal Passeiweb

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Guia de Leitura: Natal na Barca

Temos aqui um guia de leitura sobre o conto "Natal na Barca", de Lygia Fagundes Telles, que figura no livro "Antes do Baile Verde".

Trata de uma narrativa profundamente metafórica, repleta de significados possíveis, no melhor estilo da autora.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Análise do Conto "Uns Braços", de Machado de Assis.


Uma das mais complexas construções de Machado, o conto Uns Braços é exemplar perfeito de caracteres como a ambigüidade feminina, a profundidade psicológica e a crítica ao Romantismo.
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UNS BRAÇOS

INÁCIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.

— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!

— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.. . Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!

D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.

Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.

Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.

Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.

Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.

Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.

Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, — ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.

— Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.

Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.

"Deixe estar, — pensou ele um dia — fujo daqui e não volto mais."
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.

Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.

— Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
— Não tenho nada.
— Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos . . .

E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado, trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: — vadio, e o covado e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.

D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua, que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realrnente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.

Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não havia mais que suposção, coincidência e possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das cousas.

Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.

— Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.

Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.

D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, cousa que jamais fizera; e o solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos quando ria.

A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.

Um domingo, — nunca ele esqueceu esse domingo, — estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.

Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.

É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.

Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.

D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dous, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. "Uma criança!" disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.

"Uma criança!"

E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, — dormir e talvez sonhar.

Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, — ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.

Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calefrio.

Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:

— Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.
— Sim, senhor. A Sra. D. Severina. . .
— Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.

Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente. . . Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algurn olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra cousa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:

E foi um sonho! um simples sonho!

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Análise (Prof. Edir Alonso)
A desconstrução do discurso romântico em Uns Braços, de Machado de Assis.

O presente escrito tem como propósito analisar criticamente o conto Uns braços, de Machado de Assis, buscando identificar nesse microcosmo da narrativa machadiana elementos que evidenciem uma perspectiva Realista. Dentre esses elementos, enfatizaremos a análise psicológica das personagens e a desconstrução do discurso romântico.

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 05/11/1885, já na maturidade do escritor, e, posteriormente em 1893, no volume de contos intitulado Várias Histórias, o conto em análise se constitui em uma urdidura engenhosa, que envolve o leitor, conduzindo-o a uma atmosfera de romance, que, ao término da trama se dissolve, evidenciando a oposição entre a fantasia e a realidade, e a conseqüente prevalência da moral socialmente estabelecida e das instituições sobre os sonhos e as pulsões humanas.

Tratemos de forma resumida, sob o risco evidente de simplificação, do enredo de Uns braços. Inácio, rapaz de 15 anos, filho de um barbeiro, é colocado pelo pai como estagiário de Borges. Este vive maritalmente com D.Severina, e abriga Inácio em sua casa, irritando-se constantemente com as distrações do moço. A verdade é que Inácio se apaixona por D. Severina; se encanta especialmente com os braços da jovem senhora. Quando percebe os olhares de Inácio, a mulher passa ao conflito: ele ainda é muito jovem, ela é uma mulher comprometida. Mas são apenas olhares. Em um domingo Borges sai de casa, e D. Severina observa que Inácio dorme suavemente na rede. O rapaz está a sonhar com ela e, neste instante se dá uma incrível coincidência: ao sonhar com o beijo de D. Severina, Inácio é realmente beijado pela mulher. Depois do ato impulsivo, D. Severina passa a se reprimir pelo que fizera e passa a tratar o rapaz secamente e a cobrir os braços com um xale. Inácio, ainda mais distraído da realidade com seus sonhos, não percebe a mudança da senhora. Após uma semana, Borges irá dispensá-lo sem nenhum sinal de rudez, embora não permita que Inácio se despeça de Severina, alegando que ela estaria com muita dor-de-cabeça. Os anos se passam e Inácio nunca teve sensação igual à daquele beijo, que para ele não passara de um sonho.


Dentro da tradição Realista, o conto privilegia o cenário doméstico da família burguesa, na segunda metade do século XIX: “Passava- se isto na Rua da Lapa, em 1870.”. O episódio em questão suscita a temática do adultério feminino, ainda que de forma extremamente sutil, se comparado àqueles relatados em Madame Bovary (1857) ou em O Primo Basílio (1878). A herança de Flaubert também se evidencia no tema da leitura e do devaneio romântico. Assim como Emma Bovary, o personagem Inácio alimenta uma visão de mundo romântica a partir da leitura de folhetins:

“Inácio passava-os [os domingos] todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. [...]Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham.”

Essa cena da leitura culmina com o sono e com o sonho de Inácio, que se concretizará sem que ele perceba. Curiosamente, ao contrário das narrativas fundadoras da escola realista, em Uns Braços não é a mulher quem se desprende da realidade a partir da imersão em um universo romântico, mas o rapaz.


Desse modo, à superficialidade de Inácio contrapõe-se a profundidade da personagem feminina. A análise psicológica, como traço Realista, se evidencia na exploração do conflito de D. Severina. A descrição física da personagem é o ponto de partida para revelar o caráter ambíguo típico da mulher machadiana:

“Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.”

O fato de não se poder defini-la como sendo bonita ou feia, os cabelos presos, o lenço escuro e a ausência de adornos apontam para a sexualidade reprimida de mulher casada, condição sintetizada pelo paradoxo dos “vinte e sete anos floridos e sólidos”. A sensualidade e a feminilidade mascaradas pela solidez do papel social atribuído à mulher da época.

Esse equilíbrio aparente é rompido quando D. Severina percebe os olhares de Inácio:

"Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada (grifo nosso). E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim."

O monólogo interior revela que a protagonista vai, gradualmente, admitindo a idéia de estar sendo admirada pelo rapaz, passando, inclusive a comprazer-se pelo fato de ser desejada (ou desejável). Nesse sentido, não temos em D. Severina a constituição linear das heroínas românticas, dada a sua volubilidade. Ademais, não está ela apaixonada pelo jovem, o qual, longe de qualquer idealização, sequer é visto como homem. De certo modo, a protagonista apaixona-se por si própria ao descobrir sua feminilidade.

Por outro lado, Inácio caracteriza-se como uma perfeita representação do Romantismo. Suas constantes distrações, motivadas pela paixão que nutre por D. Severina, levam-no a distanciar-se totalmente da realidade. O mundo de sonhos construído pelo rapaz se cristaliza no discurso:

“[...] retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor.”

De forma magistral, o narrador machadiano passa à perspectiva do personagem, construindo uma poética tipicamente romântica, associando as emoções da personagem às imagens da natureza. Dessa forma, se estabelece no conto a tensão dialógica entre Realismo e Romantismo, tomando-se como referência o conceito bakhtiniano de dialogismo:

“Com base no que foi dito, pode-se afirmar que na composição de quase todo enunciado do homem socialdesde a curta réplica do diálogo familiar até as grandes obras verbal-ideológicas (literárias, científicas e outras) existe, numa forma aberta ou velada, uma parte considerável de palavras significativas de outrem, transmitidas por um ou outro processo. No campo de quase todo enunciado ocorre uma interação tensa e um conflito entre sua palavra e a de outrem, um processo de delimitação ou de esclarecimento dialógico mútuo (...)”(Bakhtin, 1988:153)

Essa tensão evolui num crescendo, até chegarmos ao clímax da narrativa:

"Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. [...]"


O beijo, sonhado por Inácio, de fato ocorre, sem que ele perceba. Aqui fica evidente a distância intransponível entre os universos representados pelos protagonistas, pois o que se afigura real para D. Severina é apenas um sonho para o jovem. A atmosfera de romance é abruptamente rompida pelo senso de realidade da personagem feminina:

"A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o (grifo nosso). Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio."

O gesto impulsivo é imediatamente reprimido. A culpa desencadeia na personagem um mecanismo defensivo, em que passa a buscar justificativas para o que acabara de fazer. Neste momento, vem à tona outra problemática interessante do conto. D. Severina e Borges “viviam maritalmente há anos”, sem filhos, pelo que se pode presumir. A complexidade do conflito interno da protagonista ainda pode fazer com que ela projete no rapaz não apenas os instintos sexuais recalcados, mas também o filho desejado. Daí a imagem ambígua do rapaz:

"Uma criança! disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.
- Uma criança!"


Essa ambigüidade pode ser reforçada pela seguinte passagem:

"D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe (grifo nosso), que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão."

O próprio Inácio sente-se confuso em relação à D. Severina, em parte pelas atitudes dúbias da mulher, em parte pelo próprio complexo edipiano. O rapaz, inserido na casa de Borges, vê-se afastado de seu contexto familiar: “Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs [...]”. Borges passa a cumprir o papel de pai, a lei, a autoridade, a castração. D. Severina passa a ser a figura feminina presente em sua vida, a representação da mãe.

A profundidade da narrativa machadiana nos permite um amplo leque de leituras, em especial no que diz respeito à análise psicológica das personagens. No presente estudo, como já havíamos exposto anteriormente, tal enfoque reforça a percepção do conto Uns Braços como discurso permeado por elementos da tradição Realista.

Nesse sentido, passaremos a considerar alguns artifícios na construção da trama que apontam para a desconstrução do discurso romântico.

Uma leitura ingênua do conto pode levar à impressão de que o tema central é o triângulo amoroso. Inicialmente, teríamos diversos elementos que consubstanciam uma expectativa romântica, que, mais tarde, será frustrada. Além da diferença de idade, há um desnível social entre Inácio, filho de um barbeiro e D. Severina. A esses impedimentos soma-se o fato de a protagonista estar presa ao papel de mulher de Borges. São os “liames sociais” a que se refere o narrador.

É sabido que a tônica da maior parte das narrativas românticas é o amor proibido, o que suscita a oposição entre o individuo e a sociedade, sendo a transgressão, a superação dos liames sociais, a condição para a realização do herói.

A atmosfera vai se construindo nos devaneios de Inácio e nas divagações de D. Severina, envolvendo o leitor em uma teia, fazendo-o acreditar no surgimento de um romance. Nesse sentido, o narrador lança, como uma isca, uma reveladora antecipação: “Afinal, porém, [Inácio] teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.” Neste instante imagina-se que algo aconteceu entre a mulher e o rapaz. Especula-se, inevitavelmente, que Borges possa ter descoberto o suposto enlace amoroso e, conseqüentemente, expulsado o moço de sua casa.

As próximas cenas serão carregadas de uma tensão crescente, como se evidencia em passagens como:

“A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se.”

“Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo [...]”;


“[D. Severina] estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca [...] Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada.”

“D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou”

Assim, o próprio leitor poderá sentir seu coração a bater com veemência até o clímax: a cena do beijo.

D. Severina passará então à autocensura, o que se evidencia quando ela passa a cobrir os braços com um xale, e tratará o rapaz secamente. Por fim, passados alguns dias, Borges irá dispensar o moço, sem maiores explicações. Ora, não veríamos “como e porque” Inácio teria de sair? Assim, não apenas frustram-se as expectativas românticas estimuladas no leitor, mas a também se desconstitui a possibilidade de encerrar-se a história com um entendimento definitivo do que acontecera.
Teria Borges descoberto o beijo ou desconfiado de algo? Nesse sentido, observe-se o curto diálogo final entre ele e Inácio:

“- Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
- Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
- Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.”


Borges o teria impedido de falar com D. Severina. Mas, nesse caso, porque não agira de forma agressiva? Quanto a essa suposta agressividade, destacamos uma passagem que trata das ameaças de Borges.

"E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau."

Por outro lado, Inácio era constantemente repreendido por suas distrações, mostrando-se inapto para o trabalho. Desse modo, Borges teria todos os motivos para mandá-lo embora, mesmo desconhecendo a situação entre o rapaz e D. Severina.

Por fim, há uma terceira e provável hipótese, em que D. Severina, como típica mulher machadiana, teria manipulado Borges, induzindo-o a demitir o rapaz sem que ele suspeitasse de nada.

Assim, é possível que o leitor sinta o desconforto oriundo do fato de não lhe ser oferecido um desfecho conclusivo para a história. À perspectiva linear e a conseqüente previsibilidade inerentes ao pacto narrativo do Romantismo contrapõe-se a omissão do narrador. A sensação de que nada acontecera ou de que ignoramos os acontecimentos vem acompanhada da frustração da expectativa de um final feliz ou melodramático, comuns às narrativas sentimentalistas da primeira metade do século XIX.

Nesse sentido, é interessante observar que a trama se encerra com a ignorância de Inácio a respeito de tudo o que acontecera:

"Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:
- E foi um sonho! um simples sonho!"


A perspectiva romântica do rapaz faz com que sua condição de “sonhador” siga inalterada ao longo de toda a história. Assim se dá a vinculação do romantismo, personificado por Inácio, à ignorância, à incapacidade de compreender a realidade.

É dessa forma que Uns Braços se constitui como uma narrativa surpreendente, complexa e passível de diversas leituras. Em um plano mais particular, é possível sondar aspectos da psicologia das personagens na oposição entre a moral e as pulsões do indivíduo, como observamos no conto a exploração dos desejos recalcados e o conflito edípico. Atingindo a universalidade, o texto ainda pode ser percebido em uma perspectiva metaliterária: a relação dialógica entre o Realismo, vinculado às atitudes de D. Severina, e o Romantismo, associado aos devaneios de Inácio termina por evidenciar a falência do idealismo romântico.