Na quarta-feira a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) promoveu uma homenagem ao escritor, político e jornalista Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879). Durante o evento foi lançado o livro “Barão de Santo Ângelo — O espírita da Corte” (Editora Lorenz), de Paulo Roberto Viola, que analisa a vida e a obra de Porto-Alegre. Abaixo, um texto do autor sobre o personagem de seu livro.
Gaúcho de Rio Pardo, Manoel José de Araújo Porto-Alegre, que entrou para a História do Brasil como Barão de Santo Ângelo, foi chamado, a seu tempo, de o “homem-tudo”, por seu talento multidisciplinar. Além de jornalista emérito, fundador e editor de várias revistas, foi também caricaturista, professor, orador, crítico e historiador de arte, pintor da Corte, arquiteto, diplomata e político. A ele se deve a primeira caricatura brasileira e a difusão do gênero literário romântico, ao lado de Gonçalves Dias e de Gonçalves de Magalhães. De sua autoria é o óleo sobre tela “A Sagração de Dom Pedro II”, um clássico da pintura nacional. Foi ele autor de cinco peças teatrais de sucesso, dentre elas a famosa “Noite de São João” (ópera lírica, em 1877). Seu maior talento era a capacidade artística de unir história e arte. Amigo e confidente do Imperador Dom Pedro II, desfrutando também da confiança da Princesa Isabel, homem de origens humildes, tornou-se Barão por decreto imperial por seus relevantes serviços prestados à Coroa.
Em 1888, o crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada reproduziu palavras de Porto-Alegre no testamento que deixou, mostrando seu elevado padrão ético e moral: “Nunca amei os homens pela sua posição; nunca adorei o dinheiro, tendo sempre vivido pobremente e nunca tive outra ambição que não fosse a de um nome sem mancha. Sofri pela amizade e pela justiça, porque sempre detestei a deslealdade e o despotismo”.
Numa época em que o monarca, o servidor do Estado e os parlamentares eram compelidos pela Constituição de 1824 a jurar fidelidade à Igreja Católica, Porto-Alegre, cônsul do Brasil na Alemanha, cultuava, às escondidas, o espiritismo codificado pelo pedagogo francês Allan Kardec, com quem se relacionou a partir das viagens frequentes que fazia a Paris. Em longa carta ao amigo e escritor Joaquim Manuel de Macedo — integralmente transcrita e comentada no livro — ele confessa sua crença religiosa e filosófica, mas suplica: “quanto à reserva que lhe pedi, concebe o medo que tenho de passar por louco em último grau, pois que já passo em primeiro”.
Tal qual o Imperador Dom Pedro II, a quem serviu com fidelidade e, sobretudo, amizade, Porto-Alegre morreu pobre, após uma vida inteira em que sentia na própria carne a constatação do sábio jurista Pontes de Miranda: “glória é solidão”, pois segundo a História, seus escritos íntimos acusam uma permanente sensação de isolamento. Talvez ele seja um desses casos flagrantes de quem conheceu grande fama na vida e caiu no esquecimento — escreveu o crítico Jayro Nogueira Luna.
Tendo falecido na Europa em 1879, seus restos mortais somente vieram para o Brasil em 1922, a pedido da Sociedade Brasileira de Belas Artes, tendo esse notável da Monarquia brasileira deixado um precioso legado, não só de valores intelectuais, mas, sobretudo, de valores morais e éticos, com exemplos marcantes, que a República não jamais pode esquecer.
Paulo Roberto Viola é advogado, jornalista e escritor
*Texto extraído de: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/11/19/araujo-porto-alegre-espirita-da-corte-242668.asp
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domingo, 22 de novembro de 2009
Araújo Porto-Alegre, o espírita da Corte (Paulo Roberto Viola)
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