Fonte: Agência EFE
Mais de oito décadas após sua morte, foi lançada em Praga a primeira biografia do escritor tcheco Franz Kafka escrita em sua terra natal.
No livro "A luta por escrever: sobre o compromisso vital de Franz Kafka", o filólogo tcheco Josef Cermak tenta "abordar as relações de Kafka com o 'mundo tcheco', que são mais amplas do que muitos pensam", explica o autor à Agência Efe.
Nascido em 1883 em Praga na época do Império Austro-Húngaro e falecido em 1924 perto de Viena, Kafka só escrevia em alemão, o idioma falado por grande parte da comunidade judaica da atual capital da República Tcheca.
Esta formosa edição para colecionadores, com uma tiragem de 2.500 exemplares, tem muito material inédito, como fotos, cartões postais escritos em suas viagens ao exterior e manuscritos relacionados a assuntos familiares.
Tudo isso deveria ter sido publicado nos anos 60. Entretanto, à época, a diretoria da editora Odeon hesitou ao pensar que "se tratava de um pequeno cidadão de Praga sem importância", lembra Cermak, "e então entraram os tanques soviéticos" para combater a Primavera de Praga de 1968.
Então, foi publicada a biografia do estudioso alemão Klaus Wagenbach, com quem Cermak deveria ter colaborado, pois teve acesso ao rico legado mantido pela sobrinha de Kafka, Vera Saudkova.
Atualmente com 88 anos, Vera vive em Praga e é filha da irmã mais nova do escritor, a falecida Ottla. Junto com seus três filhos, são os únicos parentes vivos de Kafka.
Cermak defende a tese de que Kafka entendia muito bem o idioma tcheco, pois "foi capaz de apreciar a qualidade literária de um autor como Vladislav Vancura, que tem uma linguagem muito peculiar, muito bela, mas deformada".
A produção de Kafka ficou proibida na época da Tchecoslováquia socialista porque era considerado um autor "reacionário", diz Cermak. Por isso, os estudiosos de sua obra foram perseguidos pelo regime.
O próprio Cermak se viu obrigado a publicar sua primeira pesquisa na vizinha Alemanha sob um pseudônimo. Só após a queda do comunismo na então Tchecoslováquia, em 1989, foram traduzidas para o tcheco obras como a célebre "O Processo" (1997).
Mais de vinte anos depois da redemocratização, Kafka é uma das figuras recorrentes da paisagem urbano de Praga, mas "sua obra é mais conhecida fora do que dentro do país", reconhece Marketa Malisova, diretora da Sociedade Franz Kafka, em entrevista à Efe.
Apesar das muitas placas comemorativas, bustos e estátuas em sua homenagem, fora a praça que leva seu nome e de um centro que populariza sua obra, a inércia do passado impediu que Kafka tivesse o mesmo reconhecimento que tem no exterior e que faça parte da bagagem literária de seus compatriotas.
De qualquer forma, a capital tcheca foi a cidade onde Kafka se educou, pela qual passeou e da qual se nutriu, em meio a suas depressões, de seu autêntico horror ao barulho e seu senso de responsabilidade, algo que acabou se tornando quase insuportável, lembrou Cermak ao falar sobre Kafka, que trabalhava em uma seguradora de acidentes industriais.
Praga foi também o lugar que inspirou suas obras, onde sua genialidade aflorou e onde teve seus amores, nenhum dos quais acabou em casamento, apesar de ter se comprometido duas vezes com Felice Bauer.
"Não me canso de Kafka", afirma o autor da nova biografia.
O que chegou até os dias de hoje se deve principalmente ao também escritor Max Brod, que administrou o legado de Kafka até morrer, em 1968, em Israel, para onde emigrou em 1939 após a ocupação nazista da Tchecoslováquia.
Por este motivo, Malisova também quis conceder um prêmio em memória do autor da primeira biografia de Kafka, escrita em 1937.
"Foi Brod que se encarregou de publicar sua obra, e não queimá-la, mas propagá-la. Se não tivesse sido por ele, ninguém hoje conheceria Kafka", garante a tcheca, em cujo escritório se conserva a escrivaninha do autor de "A Metamorfose".
Kafka morreu em um hospital nos arredores de Viena vítima de tuberculose. Seu corpo foi levado para a Praga, onde agora repousa no novo cemitério judeu da capital tcheca.
terça-feira, 9 de março de 2010
Mais de 80 anos depois de morrer, Kafka ganha primeira biografia tcheca
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
"O fracasso subiu à cabeça", diz diretor de 'Só Dez Por Cento é Mentira'

*Danilo Saraiva, do portal Terra
Duas cópias, uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro. É o que o diretor Pedro Cézar tem a oferecer de seu novo filme, Só Dez Por Cento é Mentira, a biografia - ou como ele cita, desbiografia - do poeta Manoel de Barros, o cara que mais vende livros no Brasil. Mas seria Manoel, 93 anos, homem de Cuiabá, capaz também de vender ingressos? Pedro e o resto dos exibidores do País acham que não. Em entrevista por e-mail ao Terra, o diretor cita uma frase de Millor para explicar: "No Brasil, cinema quando dá bilheteria é um sucesso e quando não dá público é filme de arte. Tomara que seja um sucesso. Acho que o fracasso subiu à cabeça".
VEJA O SITE OFICIAL DO FILME
A obra de Pedro Cézar é, na realidade, uma extensão da poesia de Manoel, que inventa boa parte de suas memórias, mas afirma que só dez por cento delas é mentira - assim como o documentário, que traz elementos ficcionais. Vencedor no Festival de Paulínia, o filme é obra de arte incomum, rara de ser vista nas telonas. Fruto de um trabalho de três anos, deveria ser muito mais reconhecido do que realmente é. Que bom seria se todos aproveitassem o ócio - comprado, como o de Manoel, ou a simples vagabundagem - para ficar pouco mais de uma hora e 20 minutos na frente das telonas. Perder tempo com a invenção de Pedro Cézar aumenta o mundo, como a poesia de Manoel. Não necessariamente nesta ordem.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual a relação de Manoel de Barros com Fabio Fabuloso, outro perfilado com quem você trabalhou?
Fabinho faz um surfe "retrato do artista quando coisa" e, sobre a prancha, atinge o reino da "despalavra". Manoel olha a vida de ponto de vista do horizonte e diz que poesia não é para entender é para incorporar. Existe uma comunhão entre ambos. De todo modo, "as antíteses congraçam"! Os dois são artistas invejáveis; singulares. Cada um em sua onda.
Quando começou a filmar, você já tinha trabalhado com a ideia de fazer seus entrevistados entrarem na estética da poesia de Manoel de Barros, como se fossem uma extensão dela?
Entendo que sua pergunta diz respeito aos segmentos ficcionais. Bem, caso não esteja fazendo confusão, diria que os "entrevistados ficcionais" dão conta dessa estética e de algo que não poderíamos fazer em off. Inventamos o Paulo, criador de desobjetos; O Jaime, biógrafo; e o Salim, guia do Idioleto Manoelês em Corumbá.
Como foi convencer Manoel de Barros a ser entrevistado para um documentário (o poeta é conhecido por só fazer entrevistas por correspondência)? Você acha que ele se convenceu com a frase "era só um sonho", dita por você num momento de raiva?
Todos os argumentos racionais que usei não serviram. Pior do que isso: cada vez mais expunha um cineasta mutilado entre a delicadeza e o propósito. Desisti e usei a palavra sonho apenas como desabafo. Para minha surpresa, Manoel ordenou que trouxesse a câmera no outro dia. "Ao poeta faz bem desexplicar..." A diferença entre sonho e senha é coisa de pouca vogal.
Você tinha dúvidas sobre o potencial comercial da sua obra? Ultrapassar o jornalismo e transformar filme em poesia foi sua intenção desde o começo?
Tinha e tenho. E pra falar a verdade acho que os momentos de "jornalismo" do filme revelam um Manoel que diz coisas absolutamente poéticas: "Poesia não se descreve. Poesia se descobre".
Qual sua relação com o poeta? O que ele representa para você?
Sou leitor apaixonado. Sou fã de sua poesia e de sua linguagem. O que ele escreve me impacta, me mobiliza e me aciona. Seus livros para mim são Bíblia, prazer, almanaque, água, cartilha, onda, palavra, música, despalavra e cinema. Quando leio Manoel confirmo um mundo que sempre suspeitei que existia mas que precisava de uma senha: o idioleto manoelês, a língua dos bocós e dos idiotas.
Manoel chegou a assistir ao filme? O que ele disse?
Vou imitar o Manoel nessa resposta. "Não gosto de contar vantagem mas vou falar isso aqui de brincadeira." Manoel assistiu o filme duas vezes seguidas. Depois beijou minha mão e disse: "Esse filme é uma obra de arte. Você tem que saber disso rapaz". O engraçado é que mesmo contando essa vantagem, lembro inevitavelmente de um aforisma do Millôr que dizia mais ou menos o seguinte: 'No Brasil, cinema quando dá bilheteria é um sucesso e quando não dá público é filme de arte. Tomara que seja um sucesso'. Tô falando demais. Acho que o fracasso subiu à cabeça.
Quanto tempo demorou para filmar? Quantas visitas à casa de Manoel de Barros foram necessárias?
Entre a primeira entrevista "era só um sonho" e o ponto final do último corte foram exatos três anos. Visitei Manoel quatro vezes para reunir todo o material que tem no filme.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Conheça o polêmico livro de Clarice Lispector que a "Veja" chamou de "lixo"

Matéria da Livraria da Folha
"Lixo, sim: lançamento inútil". Foi como definiu, em julho de 1974, a revista "Veja" o livro "A Via Crucis do Corpo", de Clarice Lispector. Não foi a única crítica impiedoso. Até o "Jornal do Brasil", onde ela trabalhou, disparou: "teria sido melhor não publicar o livro, em vez de ser obrigada a se defender com esse falso desprezo por si própria como escritora".
"A Via Crucis do Corpo" traz única descrição de Clarice de um estupro
Os episódios são relatados no livro "Clarice,", biografia escrita pelo jornalista americano Benjamin Moser. "Meus filhos gostaram e esse é o julgamento que mais me interessa", disse Clarice. Os ataques a "A Via Crucis do Corpo" estão relacionados ao toque pornográfico do livro.
"A Via Crucis do Corpo é notável como retrato da vida criativa de Clarice captado em tempo real, a ficção invadindo a vida cotidiana, e sua existência de mãe e dona de casa constantemente penetrando e minando sua ficção. Os contos imaginativos, ficcionais, alternam-se com anotações corriqueiras de suas atividades diárias: o telefone toca; ela topa com um homem que conheceu no passado; seu filho Paulo chega para almoçar. Essas telas alternadas compõem um quadro de 11 a 13 de maio de 1974, os dias que Clarice passou escrevendo o livro. Aquele fim de semana, significativamente, incluía o Dia das Mães, 12 de maio. E o tema que une os contos coletados não é, na verdade, o sexo. É a maternidade. Um transexual tem uma filha adotiva, para a qual ele é uma 'verdadeira mãe'", analisa Moser, na biografia.
"A Via Crucis do Corpo" traz o conto "A Língua do p", no qual Lispector escreveu sua única descrição explícita de um estupro, destaca Moser. O aspecto é importante, porque a mãe da escritora sofreu essa violência por soldados russos, na Ucrânia, na virada da década de 1910 para 1920, contraindo sifílis. Pela lenda local, uma gravidez serviria para curar a doença, mas Lispector nasceu, e sua mãe acabou morrendo.
Com base em pesquisa, Benjamin formulou uma tese: a de que Lispector sentia-se predestinada a salvar a mãe da doença adquirida durante a violência na Ucrânia. O peso dessa falha --a mãe dela passou o final da vida inválida e morreria ainda jovem-- ecoaria ao longo de toda sua vida e obra. O outro grande revés que enfrentou --a doença psiquiátrica de um dos filhos, num tempo em que isso representava um estigma fortíssimo e um tratamento doloroso para todos-- completa o componente trágico identificado pelo biógrafo. Compreender sua dor como filha e como mãe ajuda a entender a escritora, mas sobretudo a humanizar o "monstro sagrado".
Leia um trecho do conto "A Língua do p", sobre Cidinha, uma professora de inglês de Minas Gerais que está num trem com destino ao Rio de Janeiro. Dois homens entram no vagão, um "era alto, magro, de bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca":
"Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade? Os homens começam a falar numa língua incompreensível, que Cidinha logo reconhece como a língua do p. Mas ela tem de fazer de conta que não entende, porque eles estão dizendo que tão logo o trem entre num túnel vão estuprá-la. "Me socorre, Virgem Maria! me socorre! me socorre!", ela pede em pensamento, enquanto os homens tagarelam naquela língua infantil. Eles podem matá-la, dizem, se ela resolver resistir. Acendendo um cigarro para ganhar algum tempo, a inspiração a ilumina: "Se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda".
*
"A Via Crucis do Corpo"
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 84
Quanto: R$ 20
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha
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"Clarice,"
Autor: Benjamin Moser
Editora: Cosac Naify
Páginas: 648
Quanto: R$ 79
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha
domingo, 22 de novembro de 2009
Araújo Porto-Alegre, o espírita da Corte (Paulo Roberto Viola)
Na quarta-feira a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) promoveu uma homenagem ao escritor, político e jornalista Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879). Durante o evento foi lançado o livro “Barão de Santo Ângelo — O espírita da Corte” (Editora Lorenz), de Paulo Roberto Viola, que analisa a vida e a obra de Porto-Alegre. Abaixo, um texto do autor sobre o personagem de seu livro.
Gaúcho de Rio Pardo, Manoel José de Araújo Porto-Alegre, que entrou para a História do Brasil como Barão de Santo Ângelo, foi chamado, a seu tempo, de o “homem-tudo”, por seu talento multidisciplinar. Além de jornalista emérito, fundador e editor de várias revistas, foi também caricaturista, professor, orador, crítico e historiador de arte, pintor da Corte, arquiteto, diplomata e político. A ele se deve a primeira caricatura brasileira e a difusão do gênero literário romântico, ao lado de Gonçalves Dias e de Gonçalves de Magalhães. De sua autoria é o óleo sobre tela “A Sagração de Dom Pedro II”, um clássico da pintura nacional. Foi ele autor de cinco peças teatrais de sucesso, dentre elas a famosa “Noite de São João” (ópera lírica, em 1877). Seu maior talento era a capacidade artística de unir história e arte. Amigo e confidente do Imperador Dom Pedro II, desfrutando também da confiança da Princesa Isabel, homem de origens humildes, tornou-se Barão por decreto imperial por seus relevantes serviços prestados à Coroa.
Em 1888, o crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada reproduziu palavras de Porto-Alegre no testamento que deixou, mostrando seu elevado padrão ético e moral: “Nunca amei os homens pela sua posição; nunca adorei o dinheiro, tendo sempre vivido pobremente e nunca tive outra ambição que não fosse a de um nome sem mancha. Sofri pela amizade e pela justiça, porque sempre detestei a deslealdade e o despotismo”.
Numa época em que o monarca, o servidor do Estado e os parlamentares eram compelidos pela Constituição de 1824 a jurar fidelidade à Igreja Católica, Porto-Alegre, cônsul do Brasil na Alemanha, cultuava, às escondidas, o espiritismo codificado pelo pedagogo francês Allan Kardec, com quem se relacionou a partir das viagens frequentes que fazia a Paris. Em longa carta ao amigo e escritor Joaquim Manuel de Macedo — integralmente transcrita e comentada no livro — ele confessa sua crença religiosa e filosófica, mas suplica: “quanto à reserva que lhe pedi, concebe o medo que tenho de passar por louco em último grau, pois que já passo em primeiro”.
Tal qual o Imperador Dom Pedro II, a quem serviu com fidelidade e, sobretudo, amizade, Porto-Alegre morreu pobre, após uma vida inteira em que sentia na própria carne a constatação do sábio jurista Pontes de Miranda: “glória é solidão”, pois segundo a História, seus escritos íntimos acusam uma permanente sensação de isolamento. Talvez ele seja um desses casos flagrantes de quem conheceu grande fama na vida e caiu no esquecimento — escreveu o crítico Jayro Nogueira Luna.
Tendo falecido na Europa em 1879, seus restos mortais somente vieram para o Brasil em 1922, a pedido da Sociedade Brasileira de Belas Artes, tendo esse notável da Monarquia brasileira deixado um precioso legado, não só de valores intelectuais, mas, sobretudo, de valores morais e éticos, com exemplos marcantes, que a República não jamais pode esquecer.
Paulo Roberto Viola é advogado, jornalista e escritor
*Texto extraído de: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/11/19/araujo-porto-alegre-espirita-da-corte-242668.asp
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Biografia sobre Clarice Lispector chega às livrarias nesta semana

Biografia sobre Clarice Lispector chega às livrarias nesta semana
Começa a chegar às livrarias nesta semana "Clarice,", a biografia sobre Clarice Lispector (1920-1977), que recebeu críticas positivas nos Estados Unidos.
Livro aborda origem judaica de Lispector, que nasceu na Ucrânia
O livro, escrito pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser, revela o terror sofrido pela família judia da escritora durante a Primeira Guerra Mundial e logo após a Revolução Russa na Ucrânia, onde a mãe de Clarice foi estuprada em 1919 por soldados e contraiu sífilis. Ela nasceu em 1920 e cresceu sentindo-se culpada devido a uma antiga crença local de que a gravidez tinha o poder de cura sobre a doença.
Em entrevista exclusiva à Folha, Moser contou que esse sentimento de culpa foi uma espécie de força-motriz da produção literária de Clarice, cujos textos eram marcados por um constante questionamento metafísico.
Clarice nasceu na Ucrânia, foi criada no Recife, adotou o Rio e, logo depois de casar com um diplomata, viveu longos anos mundo afora. Ela morreu um dia antes de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977.
Uma de suas frases mais famosas: "Eu acho que, quando não escrevo, estou morta."
Clarice foi chamada de alienada, cerebral, "intimista" e tediosa por críticos comunistas linha-dura. Só reagia quando ofendida pela estúpida acusação de que era estrangeira. "Sempre se indignou diante do fato de que havia quem relativizasse sua condição de brasileira", escreveu sua amiga mais próxima. Nascera na Rússia, é certo, mas aqui chegara aos dois meses de idade. Queria-se brasileira sob todos os aspectos."Eu, enfim, sou brasileira", ela declarou, "pronto e pronto."
"Clarice Lispector" já chegou a ser considerado um pseudônimo, e seu nome original só foi conhecido depois da sua morte. Onde exatamente ela nasceu e quantos anos tinha também eram pontos pouco claros. Sua nacionalidade era questionada, e a identidade de sua língua nativa era obscura. Uma autoridade atestará que era de direita, e outra, que era comunista. Uma insistirá que era uma católica devota, embora na verdade fosse judia. Correram às vezes rumores infundados de que seria lésbica, ainda que a certa altura os rumores fossem de que, na verdade, ela seria um homem.
Clarice Lispector não pôde ser enterrada no dia seguinte, o dia de seu aniversário de 57 anos, porque caiu no shabat. Em 11 de dezembro de 1977, no Cemitério Israelita do Caju, não muito longe do porto onde Macabéa passava suas raras horas vagas, Clarice Lispector foi sepultada de acordo com o ritual ortodoxo. Quatro mulheres da sociedade funerária, a Chevra Kadisha, limparam seu corpo por dentro e por fora, envolveram-no num lençol de linho branco, pousaram sua cabeça num travesseiro cheio de terra e a cravaram dentro de um caixão simples de madeira. Foram lidos o Salmo 91, a oração fúnebre "El malei rahamim" e o Kadish dos enterros. Não houve discursos por parte dos presentes. Três pazadas de terra foram lançadas sobre o caixão enquanto soavam as palavras do Gênesis: "Da terra viestes e à terra voltarás". Na lápide, gravado em hebraico, o nome oculto: Chaya bat Pinkhas. Chaya, filha de Pinkhas.
*fonte: Folha de São Paulo
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"Clarice,"
Autor: Benjamin Moser
Editora: Cosac Naify
Páginas: 648
Quanto: R$ 79
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Biografias: Paulo Leminski

Filho de pai polonês e mãe negra, Leminski amou a linguagem
'Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude', escreveu no fim da vida
Paulo Leminski consumiu-se velozmente em sua trajetória, confundindo às vezes sua vida e sua obra. "De colchão em colchão/descubro - minha casa é no chão", escreveu, num haicai melancólico sobre sua derradeira condição, a de alcoólatra em queda vertiginosa.
Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba (PR), filho de pai polonês e mãe negra, foi um erudito com alma de boêmio. Começou cedo: em 1964, teve poemas publicados na revista de poesia concreta Invenção. De 1970 a 1989, trabalhou como publicitário, professor de cursinho, jornalista, tradutor.
Compositor, teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela banda A Cor do Som, além de uma dezena de parceiros. Em 1975 publicou o romance experimental Catatau e foi tradutor de obras de James Joyce, John Lennon, Samuel Beckett, Alfred Jarry, além de haicais de Bashô. Colaborou com o jornal Folha de S. Paulo e com a revista Veja.
Leminski passou a vida dedicado à poesia e à escrita. Aprendeu diversas línguas, segundo dizia, para se tornar um poeta cada vez melhor. Morreu no dia 7 de junho de 1989, em sua terra natal. Até hoje, a sua obra influencia jovens poetas e todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema Sintonia para Pressa e Presságio foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.
Leminski teve um fim melancólico. Morreu aos 44 anos de cirrose. Cheio de energia e vitalidade no seu auge, era evitado até por antigos amigos no final. "Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar." Num bilhete deixado para os posteriores, falou de seu sentimento em relação a esse desapego ao mundo. "Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude."
Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Biografias: Euclides da Cunha
Em homenagem aos 100 anos da morte de Euclides da Cunha, publicaremos uma série de postagens especiais sobre o autor.
Começamos por sua biografia que, sem dúvida pode ser equiparada à grandeza dramática de sua obra.
1866
Janeiro, 20. Euclides da Cunha nasceu na fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje, Euclidelândia), em Cantagalo (RJ),filho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Moreira da Cunha.
1869/1870
A mãe morreu tuberculosa, deixando Euclides com 3 anos e Adélia com 1. As crianças foram morar em Teresópolis, com tia Rosinda Gouveia, casada com o Dr. Urbano Gouveia, que morreu em 1870.
1870/1876
Mudaram-se, então, para São Fidélis, morando com a tia Laura Garcez, casada com o Coronel Magalhães Garcez, na fazenda S. Joaquim. Com oito anos de idade, na cidade, Euclides estudou no excelente Colégio Caldeira, do exilado político português Francisco José Caldeira da Silva.
1877/1878
O pai do aplicado aluno Euclides pretendia levá-lo para o Rio de Janeiro, para continuar os estudos nos melhores colégios. Por sugestão da avó, mudou-se para a Bahia, viajando de navio e, em Salvador, foi estudar no Colégio Bahia, do Professor Carneiro Ribeiro.
1879
Com 13 anos, voltou ao Rio, sob os cuidados do tio, Antônio Pimenta da Cunha, estudando em quatro colégios: Anglo-Americano, Vitório da Costa, Meneses Vieira e Aquino.
1883/1884
No Colégio Aquino, foi aluno de Benjamin Constant, que muito o influenciou. Escreveu no jornalzinho escolar "O Democrata", defendendo, no seu primeiro artigo, a natureza e o equilíbrio ecológico – defesa que o acompanharia pela vida, inserida nos seus artigos jornalísticos, na sua conferência "Castro Alves e seu tempo", nos seus livros: Os Sertões, Contrastes e Confrontos e À margem da História. Adolescente, ainda no Aquino, escreveu poesias numa caderneta, que titulou "Ondas", datada de 1884, que Euclides salientava "tratar-se de obra dos quatorze anos". Euclides, segundo alguns biógrafos, poetou dos 16 aos 30 anos.
Seu pai o elogiava por ser muito bom em Matemática, com tendências para as Ciências Exatas.
1885
Com 19 anos, optando pela Engenharia, cursou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, escola cara, que não condizia com as difículdades econômicas da família.
1886
Assentou praça na Escola Militar (Praia Vermelha), gratuita, que lhe daria, também, o título de engenheiro. Reencontrou, como professor, Benjamin Constant, integrando-se no movimento republicano.
Em 4 de novembro, o ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a Escola. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula.
No final daquele 1888, o jovem Euclides estava em São Paulo. Dia 22 de dezembro, iniciou sua colaboração no jornal "A Província de S. Paulo", escrevendo sob o pseudônimo de Proudhon (escritor francês [1809 - 1865], um dos teóricos do Socialismo que proclamou ser a propriedade privada um roubo, pregando uma revolução que igualaria os indivíduos). Colaborou até maio.
1889
Quatro dias depois de proclamada a República, em 19 de novembro de 1889, Euclides foi reintegrado na Escola Militar, graças ao empenho dos professores Rondon e Benjamin Constant. Dias depois, foi promovido a alferes-aluno.
1890
Em janeiro, matriculou-se na Escola Superior de Guerra. No mês seguinte, concluiu o Curso de Artilharia. De março a junho, teve seus artigos publicados no jornal "Democracia", de orientação republicana. O alferes-aluno criticava o país mergulhado em interesses pessoais, opondo-se ao movimento que pretendia trazer de volta o Imperador. Atacou a imprensa católica e os programas da Faculdade de Direito, defendendo o Positivismo. Causou espanto ao apelar para a Providência Divina. Espanto, também, ao lembrar a "feição suavíssima e humana de Cristo" e confessar não ser decidido partidário de Comte. Dia 14 de abril, foi promovido a segundo-tenente, escrevendo, neste dia, uma carta ao pai, registrando seu desencanto com os homens da República, incluindo entre eles seu ídolo: Benjamin Constant, prometendo afastar-se do jornal e de tudo mais.
Ainda em 1890, 10 de setembro, casou-se com Anna Emília Ribeiro (foto), filha do major Frederico Solon Sampaio Ribeiro, conhecido e citado como major Solon Ribeiro. Conheceu-a na sua casa durante encontros republicanos com seu pai. Numa das visitas deixou a ela um bilhete: "Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem."
1891
Concluiu o Curso da Escola Superior de Guerra, "de onde saiu com o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais."
1892
Em janeiro, foi promovido a primeiro-tenente. De 29 de março a 6 de julho escreveu para o jornal "O Estado de S. Paulo": coisas novas, como o Socialismo, estão claras em seus artigos, como o publicado em 1º de maio, cujo trecho se repete no final de "Um velho problema", de 1904: "Para abalar a terra inteira basta-lhe um ato simplíssimo - cruzar os braços". Em julho foi nomeado assistente de ensino técnico na Escola Militar da Praia Vermelha.
1893
Agosto. O presidente, marechal Floriano Peixoto, mandou chamar Euclides, oferecendo-lhe cargos e posições. Euclides apresentou-se com a farda de primeiro-tenente. "Veio em ar de guerra...não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados." - disse-lhe o marechal, declarando que Euclides tinha direito a escolher qualquer posição. "Ingenuamente", o primeiro-tenente, com 27 anos, respondeu-lhe que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil!
Em setembro, a Marinha pretendeu depor Floriano Peixoto (Revolta da Armada).
1894
Um regime ditatorial se implantou no Brasil: prisões, suspensões de garantias, intervenções nos Estados. Os marinheiros da "Revolta da Armada" exigiam a renúncia de Floriano Peixoto. Uma bomba explodiu nas escadarias do jornal "O Tempo". Boatos afirmavam que Solon Ribeiro, sogro de Euclides, deputado por Mato Grosso, estava preso e que seria fuzilado. Euclides interpelou Floriano, que silenciou.
O engenheiro-jornalista escreveu duas cartas, com o título "A Dinamite", publicadas no jornal "Gazeta de Notícias", em 18/2 e 20/2, contra as idéias aloucadas do senador João Cordeiro, do Ceará, que "pedia fuzilamento dos manifestantes presos, como vingança aos florianistas mortos." Condenava a posição do senador, "não o desejando nem como companheiro de lutas".
Seus artigos e sua posição trouxeram-lhe complicações. Em 28 de março, Euclides foi transferido para a pequena cidade mineira de Campanha para dirigir a construção de um quartel. Como um exilado, voltou-se para os livros, tendo sido encontrado, com anotações desse período, o "Teoria do Socialismo", de Oliveira Martins.
1895
Em fevereiro recebeu a visita do pai, indo com ele para Descalvado. Em 28 de junho, era agregado ao Corpo do Estado-Maior de 1ª classe, depois do parecer de uma junta médica.
1896
Desencantado com a República e seus líderes, abandonou a carreira militar. Foi reformado como primeiro-tenente. Em 18 de setembro, foi efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, como engenheiro-ajudante de 1ª classe.
Foi autorizada a construção da ponte metálica em São José do Rio Pardo. Ganhou a concorrência o engenheiro Artur Pio Deschamps de Montmorency, brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1858, que concluiu os estudos de Engenharia Civil na Universidade de Gand (Bélgica), em 1879, com 21 anos, "com sólidas credenciais de competência e idoneidade". No Brasil, trabalhou com o engenheiro Ramos de Azevedo e na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Em São José, Montmorency liderou um movimento para a construção de uma pequena usina hidrelétrica, recebendo o apoio de muitos entusiasmados rio-pardenses-acionistas. Com a queda da ponte, ele foi processado e absolvido, em 1900. Dizem que, muitos anos depois, suicidou-se.
Euclides da Cunha, fiscal de obras desse distrito, veio a São José duas vezes: de 25 a 28 de agosto e em 25 de setembro.
No final de 96, já estavam prontos os dois encontros, um dos pilares, estando o outro quase pronto.
1897
A ponte metálica de São José do Rio Pardo, vinda da Alemanha, chegou em fins de fevereiro ou início de março, em três partes, para alegria dos rio-pardenses.
Os jornais de 7 de março comentaram a morte do Cel. Moreira César e o desbaratamento de 1.500 soldados pelos fanáticos do Conselheiro, que pregava contra a República.
Euclides da Cunha, preocupado com um provável movimento monarquista, escreveu dois artigos com o mesmo título: "A nossa Vendéa", n’ "O Estado de São Paulo", em 14 de março e 17 de julho. Nos artigos, comparou a região francesa da Bretanha (Vendée) com os sertões da Bahia, as charnecas com as caatingas, o "chouan" (insurreto da Vendéa) com o jagunço, ressaltando o mesmo objetivo: lutar contra a República para restaurar a Monarquia.
Júlio de Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", convidou-o a seguir como repórter de guerra para Canudos, no sertão da Bahia (área limitada pelo rio São Francisco, ao Norte e Ocidente, e pelo Itapicuru, ao Sul). Tirou licença na Superintendência para "tratar de interesses", em 1º de agosto. Aceitou o convite, seguindo a 4 de agosto, no vapor "Espírito Santo", acompanhando a 21ª Brigada de Divisão Auxiliar. Chegou a Canudos a 16 de setembro, um vilarejo iniciado em 1893, no sertão da Bahia, numa curva do rio Vaza
Barris, hoje submerso, coberto pelas águas da represa de Cocorobó . Viu a luta desigual, a morte de amigos, a bravura dos jagunços. Canudos não era um foco monarquista, como dizia Artur Oscar: "Antônio Conselheiro era um monarquista por fanatismo. Seu monarquismo era meramente religioso, sem aderências à política." Euclides viu o final da guerra, encerrada aos 5 de outubro. Voltou abalado, fazendo uma promessa: vingar o extermínio de Canudos. Os Sertões, seu livro vingador, começava a nascer. Em janeiro de 1902, de Lorena, escreveu a Francisco de Escobar: "(...) Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida - o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."
Uma revista francesa, a "Hachette", de Paris, na sua resenha de 1897, citou o Conselheiro como um comunista pregando o restabelecimento da Monarquia.
Euclides voltou. Na passagem pelo Rio de Janeiro, publicou no "Jornal do Comércio" o plano de um livro, "A nossa Vendéia", com duas partes: a "natureza" e o "homem".
Em 21 de outubro, estava em São Paulo. Dia 26, publicou o último artigo da série "Diário de uma expedição": "O Batalhão de São Paulo", no jornal "O Estado de S. Paulo".
Doente, Euclides foi descansar na fazenda do pai, em Descalvado.
A ponte metálica de São José do Rio Pardo, depois da prova de resistência (Montmorency e um empreiteiro atravessaram-na num trole), foi aberta ao público, sem festas, em 3 de dezembro de 1897. ( Veja "A ponte de Euclides", à pág 25, 1.º parágrafo)
Mais festejada do que a ponte foi a inauguração da luz elétrica, no mesmo dia.
1898
Dia 18 de janeiro, o "Estado" publicou um artigo de Euclides: "Excerto de um livro inédito", com trechos de Os Sertões.
Apresentou no Instituto Histórico de São Paulo um seu trabalho : "Climatologia da Bahia", aproveitado em Os Sertões.
Na madrugada de 23 de janeiro de 1898, um domingo, a bela ponte metálica alemã de São José do Rio Pardo ruiu, emborcou, 50 dias depois de inaugurada. Os jornais condenaram a Superintendência de Obras e os engenheiros responsáveis. Euclides, o engenheiro-fiscal, embora em licença desde agosto de 97, sentiu-se abalado, culpado. Cinco dias depois, dia 28, estava em São José, com o diretor Gama Cochrane e o engenheiro Carlos Wolkermann. Vieram a fim de verificar "in loco" o desastre e tentar salvar a ponte metálica. Euclides pediu ao seu superior que o deixasse reconstruir aquele monumento.
Em fevereiro, Euclides já estava residindo em São José e trabalhava com afinco na desmontagem da ponte.
Dia 9 de março, Euclides solicitou o pagamento dos seus vencimentos para saldar compromissos e para as despesas da mudança e da viagem da mulher e dos dois filhos para São José do Rio Pardo.
Em março, talvez dia 14, a família já estava reunida em São José: Euclides, a esposa Anna e os dois filhos: Solon, com 6 anos, e Euclides Filho, o Quidinho, com 4. Foram morar na Treze de Maio, mas o botequim do Sílvio Dan, em frente, onde se reuniam muitos italianos para ouvir música e jogar o "jogo do morra", acompanhado de uma gritaria infernal, perturbava. Euclides não podia escrever, nem estudar. Conta-se que certa noite, nervoso, saiu armado.
Procurou o amigo intendente (prefeito) para protestar. Dias depois, Dan mudou-se para o Bonsucesso e a família Cunha mudou-se para o sobradinho de esquina da Treze de Maio com a Marechal Floriano.
Diziam, na cidade, que Anna Emília foi muito falada. Ela abominou a cidade e não perdeu oportunidades para diminuí-la, declarando aos jornais, sem argumentos, que Os Sertões não foi escrito em Rio Pardo. Mais tarde, criticou o Grêmio Euclides da Cunha, que lhe enviava, com regularidade, os convites das festas euclidianas.
Sua filha, Judith, nascida do casamento com Dilermando de Assis, autora do livro Anna de Assis - História de um Trágico Amor, escreveu: "Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, (...) Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um Barão do Rio Branco (...). Mulher audaz, independente, morando numa cidadezinha pequena e provinciana como São José do Rio Pardo, teria seus momentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergavam o horizonte (...). Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de uma mulher fútil e namoradeira. Conclusão chegada porque se postava à janela e alegre e moderna, não se escondia dos homens. (...)".
Euclides, com a família em São José, teve momentos de grande serenidade, até aceitando o seu "triste ofício de engenheiro". Na cidadezinha, encontrou aquele recanto de paz tão procurado, que lhe permitiu concluir a obra máxima da literatura brasileira: Os Sertões, o livro vingador, que defendeu "os pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."
A ponte em reconstrução ficava perto do sobradinho de esquina onde morava. Ele descia a ladeira a pé, ou a cavalo, passando o dia à beira do rio, entre operários, cálculos e ferragens, só voltando a casa à noitinha. O preto Benjamin, britador da turma, era o encarregado de pegar seu almoço, trazendo-o numa bandeja. Foi o que declarou Atílio Piovesan ao repórter de "Gazeta do Rio Pardo", numa entrevista publicada em 15 de agosto de 1939, cujo número, infelizmente, desapareceu da coleção. Ele falou dos operários da ponte, na maioria italianos, "fortes e rijos, vendendo saúde", mostrando a todos que o trabalho, tão relegado por ter sido uma atividade de escravos, não era vergonha e, sim, um gerador de liberdade e progresso.
Atílio, mais tarde encarregado do vapor que movia a bomba centrífuga, citou alguns companheiros: Agostinho Rossi, encarregado do serviço dos pedreiros; Torquato
Colli que, diziam, conheceu Euclides no final da Guerra de Canudos, na Bahia, reencontrando-o no trabalho da ponte; Guido Marchi ganhou do escritor seu banco tosco, que ficava na cabana, durante a limpeza do recanto para a inauguração da ponte; nos anos 30, a família Marchi o doou a municipalidade, voltando à cabana; Mateus Volota, o guarda da ponte, calabrês, de argolinha de ouro na orelha furada, era o homem de confiança do engenheiro: foi o trabalhador citado várias vezes por Euclides nas suas cartas; morreu na epidemia de febre amarela, em 1903. D’Andrea e Garibaldi Trecoli morreram afogados durante os trabalhos.
A minúscula cabana de sarrafos e zinco foi construída sob a frondosa paineira, que morreu em 1961. Era seu escritório, onde fazia cálculos, desenhava, via e revia as plantas da ponte e escrevia nos momentos de folga, dando continuidade ao seu livro...
Em fevereiro de 1898, Euclides construiu a ponte provisória, começando o desmonte da metálica tombada. Três meses depois, o jornal "O Estado de S. Paulo" deu notícias do trabalho: "(...) está concluído o serviço de remoção da ponte do Rio Pardo. Dia 30 de maio, à 1 hora da tarde, foi retirada a última peça."
Serviu-se cerveja aos operários e pessoas presentes. Uma passeata comemorativa percorreu as ruas da cidade. (Veja "A ponte de Euclides", à pág. 27, 3 últimos §).
1899
Continuavam os trabalhos de reconstrução da ponte e a redação de Os Sertões. Na "Revista Brasileira", foi publicado um artigo de Euclides: "A Guerra do Sertão".
Ele terminava o seu livro, ouvindo o Chico Escobar e sendo ouvido pelos seletos amigos nas tertúlias à beira-rio, ou em sua casa. O artigo abaixo comprova o fato.
Dia 1º de junho, o jornal "O Rio Pardo" publicou "De cá para lá", de Humberto de Queiroz, o amigo mocoquense, que assinou seu trabalho com a letra Q:
"O de cá para lá de hoje, se deveria intitular - de lá para cá - pois ele é escrito sob as agradáveis impressões, que me ficaram de um dia e uma noite, passados em São José. O dia correu alegre, variado e bom, daqui para ali, dali para aqui, faltando apenas o Mauro para que fosse melhor. O Valdomiro, o Chico, o jantar cordial e alegre do meu reverendo e respeitável amigo o bom do Oliveiros (...). / À noite, (...) foi gasta, gasta não, aproveitada em casa do dr. Euclides da Cunha, onde se reuniram ele - uma inteligência fina, sagaz e cultíssima; o dr. V. S. (Valdomiro Silveira. Este parêntese e os que se seguem são meus), adorável homem de letras; o F.E. (Francisco de Escobar) um juízo e uma ilustração ‘equilibrados, fartos e matemáticos’, mais tarde o dr. J.S. (Jovino de Sylos) jurisconsulto e poeta de renome e eu que, se nada sou, gosto de admirar o que é fino e bom de verdade, cousa rara nos tempos que correm. / Depois de uma deliciosa palestra, a leitura não menos deliciosa de trechos de um livro, a ir para o prelo, proficientemente escrito pelo dr. E. C — a Guerra de Canudos. / O Mauro ( Mauro Pacheco) não quer que a gente escreva muito, razão bastante para que eu não possa dizer tudo o que ficou de sincera admiração por esse trabalho de um valor extraordinário, por esse livro que vai em breve produzir real sensação no mundo que lê. (...) / Mococa, 25-5-1899 - Q"
1900
Dia 3 de maio, e não mais em 22 de abril, em respeito ao calendário gregoriano, foi comemorado o Quarto Centenário do Brasil. Em São José, mais de duas mil pessoas participaram da passeata, com fogos, banda e discursos dos doutores Álvaro Ribeiro, Pedro A. de Aquino, José Rodolfo Nunes e Euclides da Cunha. Foi a primeira e única vez que o engenheiro-jornalista participou de uma festa e falou em público em Rio Pardo.
Talvez, querendo mostrar-se grato ao simpático jornal que, carinhosamente, tanto o citava, escreveu um artigo, e único, para "O Rio Pardo", intitulado "O 4º Centenário do Brasil", que "tratava das viagens de Colombo, Vasco da Gama, de Cabral", saudando as três nações: Itália, Portugal e Brasil. O artigo foi assinado com as letras E.C..
Dizem que em maio de 1900, o livro Os Sertões estava pronto, sendo copiado, com letra legível, pelo comerciante, calígrafo e copista José Augusto Pereira Pimenta, citado por Euclides da Cunha em carta a Escobar. Passou a limpo as tiras do livro que Euclides escrevia com garranchos, afirmando que a partir de "O estouro da boiada", o livro foi aqui escrito, cerca de 80% da obra.
As declarações de José Honório de Sylos, que também teve em mãos as primeiras tiras, são concordes com as de Pimenta..
Em junho de 1900, o povo desceu as ladeiras para chegar ao pátio de obras e ver a ponte montada num plano, em terra firme, novinha em folha, não acreditando que era a mesma que tombara e ficara toda retorcida. Ela estava com suas medidas originais: 100,08m de comprimento, 6,60m de largura e o vão de 4,50m entre os passeios. Os visitantes admiraram, também, os fortes pilares de pedra e concluíram que era a fase final dos trabalhos.
Um mês depois, o jornal do dia 15 de julho informava que "terminou anteontem o conserto da ponte sob a inteligente e criteriosa direção do Dr. Euclides da Cunha."
4 de novembro. "O Rio Pardo" transcreveu do jornal "Comércio de S. Paulo" um longo artigo que versava sobre a conclusão do livro "do ilustrado engenheiro Dr. Euclides da Cunha (...) sobre a dramática expedição militar do sertão da Bahia. (...) O autor, que foi testemunha presencial dos horrores que se passaram naqueles ínvios lugares, se pronuncia com independência de exposição e muito talento. Para a publicação (...) tem o Dr. Euclides da Cunha editor escolhido. Muito breve começará a impressão (...)."
(Cabe, aqui, um antecipado esclarecimento: a Editora Laemmert, do Rio de Janeiro, temerosa com insucessos, não bancou a publicação. Euclides financiou a 1ª edição, com mil volumes, pagando um conto e quinhentos. Esta edição esgotou-se em 60 dias.).
O versátil Euclides conseguiu conciliar as ciências humanas e as exatas. Escrevia, reconstruía a ponte e, ainda, dirigiu os serviços da estrada São José-Caconde (28,8 km), terminados em novembro de 1900. Elaborou um projeto para a reforma da cadeia e, a pedido do juiz de Direito, supervisionou as atividades do agrimensor, indicado por ele, na divisão da fazenda "Açudinho", objeto de partilha.
No final do ano, preocupado com tanto trabalho, Euclides abandonou seu Os Sertões para atender a um pedido do amigo Júlio de Mesquita, diretor d’ " O Estado de S. Paulo" que lhe solicitara um difícil trabalho de análise dos cem últimos anos das atividades humanas no Brasil. Dia 31 de dezembro de 1900, o último dia do século XIX, o artigo foi publicado em página inteira, com o título: "O Brasil no século XIX".
Euclides assistiu de longe às comemorações socialistas, estardalhantes. O "Clube Socialista dos Operários", fundado por italianos em 19 de abril de 1900, realizou a grande festa do 1º de Maio, Dia do Trabalho, dias depois, com alvorada, salva de 21 tiros, passeata, bandas e discursos no salão de honra da Sociedade Italiana. Os muitos imigrantes ombreavam-se com autoridades e pessoas de renome da sociedade local. Era a nova ordem social que se iniciava na província...
Euclides chegou a São José ainda desencantado com os homens da República, sem a rebeldia do adolescente aluno da Escola Militar, sem a ousadia do redator das duas cartas publicadas em "Gazeta de Notícias" contra o florianista senador João Cordeiro, que lhe valeu o exílio em Campanha (MG)... Na cidade da Mojiana, trabalhava na ponte e continuava a escrever seu livro.
Embora com convicções socialistas, Euclides manteve-se longe de todas as manifestações. Sua posição ideológica em defesa do injustiçado, do oprimido e do explorado está em suas obras.
Em 9 de setembro de 1900, foi fundada uma nova instituição socialista: o "Clube Internacional - Filhos do Trabalho". Eram seus sócios os eruditos amigos de Euclides: Francisco de Escobar, Inácio de Loyola Gomes da Silva, Mauro Pacheco... O clube manteve um curso de alfabetização de adultos.
1901
Em 1º de maio de 1901, o "Clube Socialista dos Operários" se transformou em instituto de benemerência, com novo nome: "Clube dos Operários 1º de Maio - Honra e Trabalho".
Por informações imaginosas, sem fundamento, passadas aos biógrafos, Euclides entrou na história como socialista militante em São José, fundador do partido socialista, dirigente de desfiles, colaborador d’ "O Proletário", autor do manifesto do Partido Socialista em 1901. E essas inverdades foram transmitidas a levas de estudantes.
Coube ao promotor público, Dr. José Aleixo Irmão, sério e incansável pesquisador, no seu livro Euclides da Cunha e o Socialismo (1960), desfazer enganos e contestá-los nas obras de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Sílvio Rabelo, Freitas Nobre, Menotti del Picchia e de outros.
O século XX chegou encontrando ponte e livro prontos. A ponte, já com data para a inauguração: 18 de maio de 1901. O livro iria com o escritor, à procura de uma editora.
Em janeiro de 1901, Euclides foi promovido a Chefe de Distrito de Obras Públicas de São Paulo.
Dia 31 de janeiro, nasceu Manoel, o terceiro filho de Euclides, conhecido como Manoel Afonso (Afonsinho), cujo segundo nome não consta no "Livro de Nascimento" nº 14, página 120v., do Cartório de Registro Civil. Euclides, sempre ocupado, não deveria estar presente no ato, pois a declaração do nascimento e a assinatura são do Dr. Pedro Agapio de Aquino.
Dia 18 de maio, aconteceu a grande festa da inauguração da ponte. (Veja artigo "A Ponte de Euclides", à página 29 [4 últimos §] e pág. 30). Neste dia, seu filho de quatro meses foi batizado pelo vigário José Thomaz de Ancassuerd, com um só nome: Manoel, tendo como padrinhos o dr. Álvaro Ribeiro e dona Julieta de Souza.
Estava encerrada a missão do engenheiro em São José.
Euclides, Anna, Solon, Quidinho e Manoel deixaram a cidadezinha dias depois, cidade predestinada a proteger três monumentos: a ponte e a cabana, que seriam monumentos nacionais, e a memória de Euclides, através do euclidianismo, um traço cultural que diferencia São José do Rio Pardo das demais cidades.
Com a família, Euclides deixou São José, indo para São Carlos do Pinhal, acompanhar a construção do edifício do fórum local. Em novembro, já residia em Guaratinguetá, por estar entre Rio e São Paulo.
Euclides, pobre, levava consigo o original d’ Os Sertões, seu pedestal para a glória.
1902
Um ano depois da inauguração da ponte, maio de 1902, de Lorena, Euclides escreve a Escobar: "Sempre pensei estar aí no dia 18, 1º aniversário da ponte. Mas estarão você, o Álvaro, o João Moreira e o Jovino. Encaminhem-se para lá naquele dia, paguem uma cerveja (barbante) ao velho Mateus e recordem-se por um minuto do amigo agradecido ausente."
Em outra carta do mesmo ano pedia a Escobar olhar o velho Mateus, pois soubera que seria despedido "com a próxima contradança municipal".
Euclides fixou residência em Lorena. Em maio, recebeu da Editora Laemmert as primeiras páginas impressas do seu Os Sertões.
Em junho, desapontado, responde a carta de Escobar sobre o aniversário da ponte: "(...) Iludi-me apenas num ponto: os ‘numerosos’ quatro amigos de que lhe falei antes reduziram-se a dois: você e o Lafayette. Mas estes... estou satisfeitíssimo."
Em agosto, preocupado, Euclides escreve a Escobar exigindo-lhe resposta imediata. Soube que uma fenda num dos pilares punha em perigo a segurança da ponte. Queria confirmação. A fenda nada mais era do que um risco de colher de pedreiro.
Em outubro, na Editora Laemmert, no Rio de Janeiro, Euclides encontrou erros no seu livro. Preocupado e perfeccionista, corrigiu, com paciência monacal, com canivete e tinta nanquim, 80 erros em cada um dos mil livros da 1ª edição. (Os biógrafos divergem: a tiragem da 1ª edição seria de mil ou dois mil exemplares?).
Em dezembro (ou fins de novembro), o livro Os Sertões vem à luz, com elogios dos críticos literários. A edição esgotou-se em dois meses. Sucesso. Foram lançadas novas edições: 1903, 1904 (Euclides fez correções num volume desta 3ª edição, com uma observação: "Livro que deve servir para a edição definitiva (4ª)." (Este volume foi encontrado só depois da sua morte e as correções, com duas mil emendas, foram feitas na 5ª edição), 1911, 1914, 1923, 1924, 1925, 1926, 1927 (com prefácio), 1929. Da 6ª edição (1923) à 11ª (1929), os livros foram impressos em Paris. Em 1929, o livro Os Sertões voltou a ser impresso no Brasil, pela Livraria Francisco Alves, até a 27ª edição, em 1968, com revisão cuidadosa de Fernando Nery, com títulos e subtítulos à margem. O livro caiu em domínio público, hoje publicado por muitas editoras, como a da Editora Cultrix - edição didática, cotejada pelo nosso preclaro Professor Hersílio Ângelo. Os Sertões correu mundo, traduzido em mais de uma dezena de línguas. Com ele, São José do Rio Pardo também se projetou, muito além das suas fronteiras.
1903
Em fevereiro, estava esgotada a 1ª edição. Em julho, foi lançada a 2ª.
Em 21 de setembro, Euclides foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e, em 20 de novembro, tomou posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
1904
Em 15 de janeiro, o engenheiro-escritor foi nomeado engenheiro-fiscal das obras de saneamento de Santos. Pediu exoneração em 22 de abril. Em agosto, foi nomeado chefe da Comissão do Alto Purus, partindo dia 13, do Rio de Janeiro para o Amazonas, no vapor "Alagoas". Chegou a Manaus em 30 de dezembro.
1905
Em março, reuniram-se as comissões Brasil-Peru. Em 5 de abril partiram de Manaus para as nascentes do Rio Purus, chegando em 14 de agosto. Em outubro, a comissão regressou a Manaus, concluindo os trabalhos, em 16 de dezembro.
1906
De volta ao Rio de Janeiro, em fevereiro, Euclides entregou o relatório ao Ministério do Exterior, que só foi publicado em junho. Tornou-se adido ao Gabinete de Rio Branco.
Em 18 de dezembro, Euclides tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Lançada em Portugal a 1ª edição de Contrastes e Confrontos (artigos publicados entre 1901-1904 nos jornais "O Estado de S. Paulo"e "O País").
1907
Publicação de Peru versus Bolívia (oito artigos escritos para o "Jornal do Comércio"). Em 2 de dezembro, proferiu a conferência "Castro Alves e seu tempo", no Centro Acadêmico XI de Agosto (Faculdade de Direito), de São Paulo.
1908
Trabalhos no Ministério do Exterior. Prefaciou os livros
Inferno Verde, de Alberto Rangel, e Poemas e Canções, de Vicente de Carvalho. Reviu seu livro À margem da História (estudos sobre a Amazônia), só publicado depois da sua morte, em setembro de 1909.
1909
Maio, dias 17 e 26. Euclides prestou o concurso de Lógica do Colégio Pedro II, prova escrita e oral, classificando-se em 2º lugar (o primeiro foi Farias Brito). Foi nomeado professor em 14 de julho. Ministrou sua primeira aula dia 21 e a última em 13 de agosto.
Dia 15 de agosto, manhã de domingo chuvoso, foi assassinado por Dilermando de Assis. O destino encenou e encerrou uma história de um trágico amor.
Euclides viajou para a Amazônia, em dezembro de 1904, a serviço do Ministério das Relações Exteriores, para demarcar os limites entre Brasil e o Peru, no Acre. Ficaria um ano fora. Anna Emília e o caçula Manoel mudaram-se para a Pensão Monat, de madame Monat, à Rua Senador Vergueiro, 14. Solon e Quidinho estavam em colégios internos. Em 1905, Anna Emília, com 30 anos, conheceu, na pensão, o belo rapaz loiro, olhos claros, alto, de 17 anos, Dilermando de Assis (foto), cadete da Escola Militar. Apaixonaram-se. A diferença de idades não foi empecilho para o nascer daquele trágico amor. Dilermando era, apenas, quatro anos mais velho do que seu amigo Solon, o primogênito do casal Cunha. Ainda em 1905, Anna, os filhos e o jovem amante mudaram-se para a casa da Rua Humaitá, 67.
Dia 1º de janeiro de 1906, Euclides desembarcou no Rio. Voltava para "as suas quatro e enormes saudades". Anna estava grávida. Dilermando transferiu-se para a Escola Militar do Rio Grande do Sul. Euclides não poderia ter mais dúvidas da traição da esposa. Foram muitas as cartas trocadas pelos amantes. As de Dilermando iniciavam-se, sempre, com frases de carinho e ternura: "Minha nunca esquecida e queridinha S’Anninha"; "Minha adorada e sempre idolatrada esposinha"; "Adorada e saudosa esposinha"; " Perene lembrança de meu coração"; "Minh’alma que tanto adoro"...
Euclides, tuberculoso, tinha crises de hemoptise.
Nasceu Mauro, em julho de 1906, registrado como filho do engenheiro-escritor. Viveu, apenas, sete dias.
No início de 1907, Dilermando voltou de férias ao Rio. Anna, novamente, engravidou. Em novembro, nasceu Luiz, que Euclides registrou, também, como seu filho, definido-o como uma "espiga de milho no meio de um cafezal", pelos cabelos claros e olhos azuis, que contrastavam com as características físicas de seus outros filhos.
Dilermando terminou o curso no Rio Grande do Sul, foi promovido a tenente, voltou ao Rio em 1908, indo morar com o irmão Dinorah, guarda-marinha, aluno da Escola Naval, atleta, jogador de futebol do Botafogo de Futebol e Regatas, no bairro de Piedade, subúrbio carioca.
As desavenças entre Anna e Euclides cresciam num relacionamento insustentável. Dia 14 de agosto de 1909, ela abandonou o lar, hospedando-se na casa de Dilermando.
Na manhã chuvosa do dia seguinte, 15, às 10 horas, mais ou menos, Euclides batia palmas no portão da casa 214, da Estrada Real de Santa Cruz, em Piedade, sendo recebido por Dinorah. Anna e os filhos Luiz e Solon esconderam-se na despensa. Euclides entrou. Dilermando ficou num quarto. Armado, Euclides atirou. Dinorah ficou ferido: a segunda bala se alojou na sua nuca. (O atleta, jogador de futebol, gradativamente, foi perdendo seus movimentos. Aleijado, morreu à míngua, como mendigo, suicidando-se no porto, em Porto Alegre). Dilermando recebeu tiros na virilha e no peito. Campeão de tiro ao alvo, tentou desarmar o marido traído e desequilibrá-lo, com tiros no pulso e na clavícula. Euclides dera seis tiros. A sétima bala ficou travada. Saindo da casa, o famoso homem que honrou o Brasil com seu livro e seu saber, foi atingido nas costas. Caiu. Levaram-no para dentro. Ao filho Solon, que estava naquela casa, talvez tentando convencer a mãe a voltar ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "Perdôo-te". Ao desafeto, "Odeio-te". À mulher: "Honra... Perdôo-te".
Quando o médico chegou, Euclides da Cunha estava morto.
Dilermando foi absolvido em 5 de maio de 1911, casando-se com Anna sete dias depois, em 12 de maio. Abandonou-a em 1926, com cinco filhos. Ela estava com 50 anos, ele, com 36.
1916
Solon, seu filho mais velho, delegado no Acre, foi assassinado numa tocaia, na floresta, a seis de maio.
Quidinho (Euclides da Cunha Filho), aspirante da Marinha, encontrou-se com o assassino do seu pai no Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos, no Rio de Janeiro. Puxou a arma e feriu Dilermando de Assis. Este o matou com três tiros, em 4 de julho de 1916.
1937
Foi editada a obra póstuma: Canudos (Diário de uma Expedição).
1975
Publicação de Caderneta de Campo.
domingo, 19 de julho de 2009
Biografias: Nelson Rodrigues

Um drama da vida real, digno da obra do próprio Nelson.
Nelson Falcão Rodrigues nasceu da cidade do Recife - PE, em 23 de agosto de 1912 - quinto filho dos catorze que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues puseram no mundo - e foi o mais importante autor do teatro brasileiro contemporâneo.
Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, por problemas políticos resolve se mudar para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Haviam vendido tudo no Recife para cobrir as despesas de viagem, e tiveram que ficar hospedados na casa de Olegário Mariano por algum tempo.
Aos sete anos começou a desenvolver sua veia literária na Escola Prudente de Moraes, na Tijuca, Zona Norte do Rio, quando a professora da turma criou um prêmio para a melhor redação. Dois alunos dividiram o primeiro lugar. Um deles redigiu uma história inspirado nas mil e uma noites, baseada na aventura de um rajá e seu elefante. O outro pequeno, um magrinho vindo de Recife, descreveu a desgraça de um marido traído que esfaqueou a mulher ao flagrá-la com o amante em sua própria cama. Como o autor relata, foi a partir deste momento que "nasceu" Nelson Rodrigues.
Em agosto de 1916 alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegria, 135, onde a família Rodrigues teve seu primeiro teto na cidade.
Foi em 1919 que o autor descobriu o Fluminense. Foi o primeiro ano do tricampeonato do tricolor, muito embora nem ele nem seu irmão Mário Filho, posteriormente famoso como jornalista esportivo e que teve seu nome escolhido para ser o nome oficial do estádio do Maracanã, tivessem dinheiro para sair da rua Alegria e se deslocarem até Laranjeiras para ver o seu time jogar.
A tosse seca e uma febre baixa, porém persistente, ao pôr do sol, foram os avisos dados a Nélson, além de sua magreza. Sua irmã Stella, já médica, arranjou uma consulta. O médico pediu que ele dissesse "33" e verificou sintomas de tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934.
O problema da tuberculose, a morte do pai, uma irmã morta aos oito meses, o irmão Paulo que morreu num desabamento, as amantes, a miséria, um filho preso e torturado pelo regime militar - cujas diretrizes ele defendia - fizeram com que o dramaturgo adotasse um processo de criação cujas linhas enfatizam um ambiente mórbido, pessimista e descrente da vida.
Nelson considerava-se um conservador, mas foi um dos mais censurados teatrólogos brasileiros. Revolucionário com sua obra, deixou a marca de seu talento, hoje referência para muitos escritores e escola para dramaturgos. Um homem com personalidade forte, torcedor eufórico do Fluminense Futebol Club, uma de suas paixões.
Gênio, louco, tarado, revolucionário. Estas são apenas alguns adjetivos lançados sobre o dramaturgo Nelson Rodrigues, homem polêmico que inovou o teatro brasileiro e mexeu com toda a estrutura da dramaturgia da época. Suas peças eram, e ainda são, modernas demais para as comédias que o brasileiro estava acostumado a assistir. Tratando de paixões exacerbadas e gestos exagerados, obsessões, taras, incestos e conflitos, Nelson Rodrigues pode ser considerado o primeiro dramaturgo brasileiro a levar o inconsciente das personagens para o palco.
Desde que se lançou como dramaturgo, com A Mulher sem Pecado, causou polêmica e dividiu opiniões. Mudou de estilo, tentou fazer graça com suas tragédias, apostou todas as fichas em dramas míticos, mas não adiantou. Nelson continuou chocando boa parte da crítica e dos brasileiros. Ainda assim seu teatro repleto de significados é atualmente um dos únicos que fazem com que os estrangeiros se lembrem que o Brasil também tem palco.
Nelson Rodrigues modernizou o palco brasileiro com a autoria da peça Vestido de Noiva, estreada em 1943. A montagem do diretor polonês Ziembinski e a cenografia do pintor Santa Rosa foram fundamentais, também, para o processo de modernização.
Os três planos do texto - realidade, memória e alucinação - privilegiaram o subconsciente da heroína, novidade num teatro que ainda se movimentava na psicologia tradicional. A Mulher Sem Pecado (1941), que lançou o autor, já estava prestes a romper a censura do consciente. Se Vestido de Noiva é a projeção exterior da mente da protagonista, o monólogo Valsa nº 6 (1951) incorpora o mundo exterior ao desempenho da heroína, que encarna em cena as personagens de seu convívio. São ainda exemplos de peças psicológicas Viúva, Porém Honesta (1957) e Anti-Nelson Rodrigues (1973), mais aparentadas objetivamente à biografia do dramaturgo.
Às duas primeiras obras psicológicas sucedeu a fase que se poderia denominar mítica, porque privilegia o inconsciente coletivo, os arquétipos, os mitos ancestrais. Figuram nela Álbum de Família (1945), explosão do incesto num núcleo primitivo; Anjo Negro (1946), abertura da ferida racial; Senhora dos Afogados (1947), transposição da Oréstia, de Ésquilo e de O Luto Assenta a Electra, de O'Neill; e Dorotéia (1949), tragédia do pecado contra o amor, transmitida por várias gerações femininas.
Esgotada a incursão no inconsciente e estimulado pelo êxito popular dos contos-crônicas de A Vida Como Ela É..., publicados diariamente na imprensa, Nelson Rodrigues procedeu a uma síntese das peças psicológicas e das míticas, ainda que as fronteiras das várias fases nunca se mostrassem muito nítidas e funcionem sobretudo para fins didáticos. Surgiram, assim, as tragédias cariocas, bloco mais numeroso e compacto da dramaturgia rodriguiana, formado por A Falecida (1953), Perdoa-me por me Traíres (1957), Os Sete Gatinhos (1958), Boca de Ouro (1959), O Beijo no Asfalto (1961), Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária (1962), Toda Nudez Será Castigada (1965) e A Serpente (1978).
Nas tragédias cariocas fundem-se, em geral, a realidade, freqüentemente vinculada à Zona Norte do Rio, e o mundo interior das personagens, com suas fantasias nutridas de mitos. O prosaísmo das vidas truncadas, maltratadas por um cotidiano infeliz, se resgata pela presença sempre vigorosa da transcendência, dando ao destino humano um sentido superior.
Nelson Rodrigues faleceu aos 68 anos de idade, na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo, vítima de insuficiência vascular cerebral, após ter sofrido sete paradas cardíacas.
*do portal Passeiweb
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Biografias: Castro Alves

Castro Alves (Antônio Frederico de Castro Alves), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da Cadeira nº 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1º ano em 65, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 66, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama Gonzaga e, em 68, vai para o Sul em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 69. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 70 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão. Ainda em 70, numa das fazendas em que repousava, havia completado A cascata de Paulo Afonso, que saiu em 76 com o título A cachoeira de Paulo, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: "Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio."
Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada da sensualidade de um autêntico filho dos trópicos, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloqüência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando completamente o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de "Cantor dos escravos". A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da história. Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século. O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, não se podia elevar a objeto estético. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.
Fonte: ABL
domingo, 5 de julho de 2009
Biografias: Lord Byron

George Gordon Nöel Byron nasceu em Londres em 22 de janeiro de 1788. Em 1798 herdou o título nobiliárquico do tio-avô William, tornando-se o sexto Lord Byron. Aos 21 anos ingressou na Câmara dos Lords, partindo pouco depois em viagem pela Europa e o Oriente Médio.
A obra e a personalidade romântica de Byron tiveram, no início do século XIX, grande projeção no panorama literário europeu e exerceram enorme influência em seus contemporâneos, por representarem o melhor da sensibilidade da época, conferindo-lhe muito de sedução e elegância mundana.
Sua mãe, Catherine Gordon Byron vinha da família dos Gordons escocês, uma família tradicional e muito conhecida por sua ferocidade e violência. Seu pai, John Byron, era um bon-vivant. Havia, junto com a esposa, imigrado para a França para fugir das cobranças de credores. Porém, como ela não queria que seu rebento nascesse em solo francês, não hesitou em voltar à ilha da rainha. John ficou e encontrou abrigou na casa de sua irmã. Em 1791, ele encontrou a morte, aparentemente por suicídio.
Logo após o seu nascimento, sua mãe o levou para a Aberdeen, Escócia, onde uma deformidade em seu pé logo ficou evidente. Ganhou botas especiais e passou por inúmeros tratamentos mas logo deixou estas dolorosas experiências para trás. O pequeno George vivia mergulhado em leituras, com atenção especial para a história de Roma. Seu sonho mais comum era de ser um comandante de um regimento de soldados alucinados e heróicos, acima de tudo.
Mas sua infância não se resumia a isto. Ele era marcado pelo amor. Aos sete anos, Byron se apaixonou perdidamente por sua prima, Mary Duff. Aos nove, sua babá o introduziu aos prazeres da carne.
Aos 10 anos, ele se tornou oficialmente Lorde Byron. Assumiu o poder da casa de Newstead, mas como ela se encontrava em total ruínas, ele e sua mãe se mudaram para Nottingham. As finanças minguavam. Tudo o que remetia ao nome dos Byron era motivo de processos por dívidas. O pequeno Byron foi enviado para a academia do doutor Glennie em Dulwich e logo em seguida para Harrow, onde se tornou o alvo predileto para zombarias dos demais alunos. Durante um Natal, ele retornou para Newstead, que havia sido alugada por Lorde Ruthyn, que o iniciou no bissexualismo. Apaixonou-se perdidamente por Mary Ann Chaworth, uma vizinha. Ficou tão obcecado que se recusou a voltar. Ruthyn praticamente o obrigou a retornar a força.
Em sua adolescência, Byron foi tomando consciência de seu poder. Possuidor de carisma, beleza e poder de sedução, ele logo começou a aproveitar seus dons. Em uma visita a Lorde Grey, acabou se envolvendo sexualmente com seu hospedador. Mulheres e homens no local desejavam aquele adolescente rebelde. Em seu retorno à escola, Byron foi além. Envolveu-se com colegas, empregadas, professores, prostitutas e garotas que adoravam um título de nobreza.
Em 1805, Byron teve um grande choque. Mary Ann casou-se. Logo, ele se torna mais rebelde ainda. Arrumou um trabalho em Cambridge mas nunca trabalhava, já que esta era a moda para os descolados da época. Era o tédio, o spleen. Era a forma que o então românticos viviam a vida. E da qual Byron foi o mestre supremo. Escrevia versos e mais versos e gastava muito dinheiro. Não demorou e todo o seu dinheiro foi embora, o que o levou a recorrer à empréstimos de familiares. E ele tinha apenas 17 anos. Chegou, inclusive, a pedir ajuda para sua meia-irmã Augusta Byron Leigh.
Ao passar um temporada com a mãe, coisa que ele odiava, Byron foi encorajada a publicar seus poemas por uma vizinha. Em 1806, o livro Fugitive Pieces foi lançado. Ele enviou cópias para dois amigos. Um deles respondeu que o poema To Mary era muito chocante para ser lido pelo público. Byron acreditou e mandou queimar todas as cópias da obra. Em 1806, o livro foi republicado com o nome de Hours of Idleness, excluído o tal poema. Cópias e mais cópias foram vendidas mas a crítica se dividia. Byron respondeu a seus detratores com a sátira English Bards and Scotch Reviewers.
Em junho de 1809, Byron e seus amigos John Cam Hobhouse e William Fletcher resolveram fazer um giro pela Europa. Acabaram conhecendo Portugal, Espanha, Grécia, Albânia, Malta e Turquia. Durante a viagem, ele entrou em choque com o conservadorismo português e quase protagonizou um duelo contra um marido enfurecido. Byron também conheceu Ali, o paxá da Albânia, muito conhecido por ser um carniceiro. O poeta ficou impressionado com o governante. Foi justamente nesta época que começou a escrever uma de suas obras-primas, "Childe Harold's Pilgrimage". Seus amigos retornaram à Inglaterra, mas Byron ficou na Grécia, vivendo numa escola para garotos. Manteve um tórrido caso com Nicolo Giraud, um jovem grego que chegou a salvar sua vida quando pegou malária. Em gratidão, o poeta pagou toda a educação de Nicolo. Mais tarde, retornou para a Inglaterra. Mas ele já não se reconhecia ali. Sua mãe havia morrido, um de seus melhores amigos morrera afogado e o casamento de sua irmã estava falido. Nesta época, abandonou a poesia. Mas por insistência de um amigo, os primeiros dois cantos de Chile Harold foram publicados em fevereiro de 1812. Foi um sucesso brutal. Ele se tornou uma sensação. Mulheres se jogavam em seu colo.
Lady Caroline Lamb era a mais notória e determinada a conquistar Byron. Emocional e excêntrica, Caroline Lamb era da alta corte e casada. Ela chegou, inclusive, a lhe enviar seus pelos pubianos. Byron, para escapar das garras de Caroline, confessou sua preferência sexual por garotos. Então, ela apareceu em seu quarto, vestido de oficial do exército, na tentativa de conquistá-lo. Foi a gota d'água. Com medo de seu genro, a mãe da apaixonada dama convenceu Byron a romper o romance. Para se confortar, ele mergulhou nos braços de Lady Oxford. Em seguida, tentou conquistar Annabella Milbanke, prima de William Lamb. Annabella o recusou e ele entrou em depressão.
Em 1813, Augusta o visitou, fugindo de credores e problemas pessoais. Os dois acabaram por ter um caso. Em 1814, Byron investiu novamente em Annabella. Desta vez deu certo. Em 2 de janeiro de 1815, os dois se casaram. Annabella era uma leitora assídua da literatura gótica. Tentou bancar a heroína e converter Byron. Em dezembro do mesmo ano, ela deu a luz à Augusta Ada. Dois meses depois, Annabella não o agüentava mais e pediu o divórcio. Caroline aproveitou para se vingar. Espalhou boatos sobre a sodomia do poeta. A fofoca se espalhou. Annabella não se manifestou, já que a história a favorecia no divórcio e lhe dava um ar de mulher de moral. Com isto, a sociedade londrina fechou as portas para Byron.
Em abril, ele decide voltar ao continente. Seguido por Hobhouse e Fletcher, ele arrumou mais um companheiro: John Polidori. Em maio, o grupo se encontrou com Percy Bysshe Shelley e Mary Godwin (mais tarde, Shelley), que viviam uma vida de desejos e pecados, já que Percy era casado e Mary era sua amante. O casal estava acompanhado de Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary, que guiou a excursão a fim de se encontrar com Byron, com quem já se correspondia. Byron resolveu passar um tempo em Diodati, na Suíça. Os novos amigos se juntaram a ele. Hobhouse e Fletcher decidiram ficar na Inglaterra
Byron, precisando muito de um amigo, se ligou a Shelley. Passam horas discutindo filosofias e poesias. Navegavam pelo lago e visitavam os cenários da Nova Heloísa, de Rousseau. Chegaram, inclusive, a trocar rosas e carícias... Após visitar o Chateau de Chillon, Byron se inspirou a escrever um de seus mais belos poemas: The Prisoner of Chillon. Numa noite chuvosa em Diodati, o grupo decidiu compor histórias macabras. Nasceu ali Frankenstein de Mary Shelley e O Vampiro, de Polidori.
Com tudo indo bem, Byron se viu num novo dilema. Mantinha Claire ocupada, copiando suas poesias até que ela lhe revelou estar grávida. Byron concordou em cuidar da crianças mas se recusou a continuar o caso com ela. Mudou-se para Veneza, onde, mais uma vez, apaixonou-se. Ali, terminou Childe Harold, escreveu Manfred, The Lament of Tasso, Mazeppa, Beppo e começou Don Juan. Sua vida sexual era frenética e lendária. Manteve várias amantes. Seu gondoleiro lhe trazia prostitutas todas as noites. Byron, inclusive, alugou um pequeno apartamento para se encontrar com estrelas da ópera e condessas.
Claire levou sua filha Allegra para a Itália. Byron ficou extasiado mas se recusou a encontrar com a mãe. Permitiu apenas que Shelley o visitasse. Foi o fim da ligação entre Byron e Claire. Em 1819, ele assumiu Teresa, a condessa Guicioli, como amante. Foi um escândalo. Não somente porque ela era casada mas também porque ele, Teresa e o marido dela viviam na mesma casa. No ano seguinte, envolveu-se com a política, juntando-se a combatentes pela independência italiana. Mas, aos poucos, sua vida iria mudar.
Em 1822, Shelley morreu afogado. Allegra, sua filha, morreu de febre. Byron ficou devastado. No ano seguinte, se juntou à causa grega pela independência da Turquia. Viajou até a Grécia mesmo convencido de que iria encontrar a morte. Encontrou abrigo com as tropas do príncipe Mavrocordato e financiou um navio de guerra. Em fevereiro de 1824, teve um ataque epilético. Dois meses depois, após enfrentar uma tempestade enquanto cavalgava, pegou um resfriado do qual nunca se recuperou. Em 19 de abril do mesmo ano, na cidade de Missolonghi, um domingo de Páscoa chuvoso, aos 36 anos de idade, sua voz se calou após sofrer de delírios por dias a fio. O mundo perdia um dos mais empolgantes escritores de todos os tempos.
Com sua morte, ele não pode ler as cartas que chegaram da Inglaterra, que comunicavam que a Inglaterra havia formalmente o perdoado por suas indiscrições. Também se livrou da tormenta que se abateu sobre o jovem grego Lukas, que havia se tornado objeto de afeto de Byron. Na época, o poeta até se mortificou com uma dieta de água e biscoitos, que era uma prescrição medieval para curar a luxúria homossexual. Infelizmente, um homem fraco não poderia agüentar a pressão de uma guerra. Seu ataque epilético, muito provavelmente, foi causado por anorexia nervosa, mas seu médico diagnosticou como sendo uma doença cerebral causada por sua vida sexual conturbada. Pior, o incompetente médico não percebeu os sintomas de malária em Byron e preferiu fazer uma sangria no poeta. "Meus médicos me mataram", foi uma de suas últimas frases para seu criado. Após sua morte, foi feito uma autopsia. Os médicos encontraram lesões no cérebro, o que, para eles, comprovava que a morte foi causada por sua promiscuidade sexual.
Adorado na Grécia, ele foi embalsamado e seu coração foi retirado e enterrado em solo grego. Os restos mortais foram transportados para Inglaterra, mesmo contrário aos seus desejos. Ao chegar em Londres, a Abadia de Westminster se recusou a receber o funeral, alegando que ele era um pecador irreparável. Mesmo assim, o cortejo fúnebre foi assistido por milhares de pessoas. Byron foi enterrado na igreja Hucknall Torkard, próxima da Abadia de Newstead, ao lado de sua mãe e demais gerações de sua família. E conta uma lenda que Susan Vaughn, uma criada galesa que havia recusado as investidas de Byron, deixou sobre o seu túmulo os últimos tomos de Don Juan, publicados um mês antes de sua morte e que durante muito tempo, o exemplar ficou em bom estado, como se alguém cuidasse dele eternamente. Curiosamente, 145 anos após sua morte, em 1969, a Abadia de Westminster construiu um memorial em homenagem ao mais libertino dos poetas ingleses.
(Fonte: Passeiweb)
