
da Livraria da Folha
Primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos
Como classificar as modalidades de versos na literatura de cordel? Surpreende-se quem pensa que os mais conhecidos são somente os dos brasileiros Patativa do Assaré, Ariano Suassuna, Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Roberto Câmara Benjamin e Carlos Alberto Azevedo. O francês Robert Mandrou e o espanhol Julio Caro Baroja também possuem escritos com raízes cordelistas profundas e difusas. Porém, os versos orais dos repentistas são aqueles que imperam nas estrofes.
A literatura de cordel brasileira possui origens portuguesas. Instalou-se primeiro em Salvador por meio dos colonizadores. De lá, irradiou-se para os demais estados do Nordeste. Por volta de 1750, os primeiros versos orais apareceram e o cordel tornou-se a poesia popular brasileira.
Atualmente, as estrofes são compostas por versos de quatro ou cinco sílabas até alexandrinos, de 12. Os cordelistas contemporâneos primam pela uniformização ortográfica e rítmica de seus escritos.
Conheça abaixo um panorama das modalidades de versos que foram desenvolvidas em cerca de 260 anos de história de literatura de cordel no Brasil.
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1. A literatura de cordel oral no Brasil foi precursora da escrita. Os primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos. As disparidades residiam na brevidade ou no alongamento das estrofes. Porém, o entrave de palavras já era delineado --o interlocutor rimava a última palavra do seu verso com a última do parceiro.
2. Conhecida como "parcela" ou verso de quatro sílabas é a forma mais curta da literatura de cordel. A palavra não pode ser longa por conta do sentido e dos limites da métrica. A "parcela" --hoje em desuso-- tinha o objetivo de confundir o oponente nos combates poéticos. Não se tem indícios de sua autoria.
3. A parcela de cinco versos é recente. Também era cantada em ritmo acelerado e exigia uma rapidez de raciocínio do repentista. Tanto os versos de quatro quanto os de cinco surgiram quase um século depois das primeiras manifestações que continham quatro versos de sete sílabas.
4. A sextilha origina-se dos quatro versos de sete sílabas, acrescida de mais duas linhas. Indicada para os longos poemas romanceados, é a forma de cordel atual mais completa. Sua presença faz-se obrigatória no início de qualquer embate poético, em longas narrativas, e sátiras políticas e sociais. Apresenta cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado.
5. Já as setilhas --estrofes de sete versos de sete sílabas-- são indicadas para ser cantadas em reuniões festivas e em feiras.
6. "Oito Pés de Esquadrão" ou oitavas são compostas por estrofes de oito versos de sete sílabas. Há dois tipos: a de cunho popular e a clássica. O que difere ambas é a rima.
7. Com dez versos de sete sílabas, as décimas são as mais usadas pelos poetas e repentistas. São indicadas para delinear motes narrativos.
8. Criado pelo prof. Jaime Pedro Martelo, o "Martelo Agalopado" --estrofe de dez versos de dez sílabas-- é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. As martelianas alongavam-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. O estilo começou a ser esquecido a partir do desaparecimento do professor, em 1727. Foi retomado em 1898 pelo cordelista José Galdino da Silva. Há também o martelo de seis versos, que é mais refinado.
9. O chamado "Galope à Beira-Mar", com versos de onze sílabas, é mais longo que as martelianas. Já o "Galope Alagoano", que contém dez versos de dez sílabas, tem obrigatoriamente um mote.
10. A "Meia Quadra" ou versos de quinze sílabas possui rimas emparelhadas.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Entenda por que o cordel tornou-se a poesia popular brasileira
sábado, 19 de dezembro de 2009
Patativa, uma homenagem

Patativa, uma homenagem
Por Carla Freitas
Cem anos após o nascimento de Patativa do Assaré, a Universidade Federal do Ceará, nas edições de obras indicadas para o vestibular, homenageia o escritor, lançando uma edição especial da obra ``Cordéis e outros poemas``.
De cunho regionalista, o livro traz textos nos quais há a presença de temáticas sociais bastante recorrentes no dia-a-dia. Autor, também, de ``Inspiração nordestina``, obra principiante desse cearense, nessa ele traz, de maneira concisa, a vida do nordestino, principalmente, além das denúncias que faz à sociedade atual.
Graças à musicalidade, que aprendeu desde a infância, e mesmo com pouca educação, seus textos possuem uma singelidade e um telurismo ricos, que caracterizam seus escritos. Obedece às regras de metrificação e de rimas próprias de cantigas, tornando, assim, sua produção propícia à oralidade.
A universidade cearense já mencionada, graças a sua proposta de estudo e à análise de obras literárias, vem valorizando a literatura regional e, consequentemente, os seus respectivos autores. Vale ressaltar, ainda, que os escritores dos atuais livros indicados são naturais do Ceará.
``Cordéis e outros poemas``, que já, há algum tempo, faz parte das obras utilizadas pela UFC, esse ano, além de servir como exigência aos vestibulandos, tornar-se-á peça fundamental para o reconhecimento desse mestre da cultura popular cearense.
*Carla Freitas - COLEGIO TIRADENTES, PRÉ-VESTIBULAR & MANHÃ
** Texto do Jornal O Povo
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Autores adaptam clássicos da literatura mundial para o cordel
GUILHERME SOLARI
Colaboração para a Livraria da Folha
A literatura de cordel é um tipo de poesia popular rimada típica do nordeste brasileiro. Inicialmente oral, essa forma passou a ser publicada em folhetos rústicos de papel jornal que eram expostos para a venda em cordas, ou cordéis. A força dessa expressão popular inspirou obras de outros gêneros, como a peça "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. Mas longe de ser uma tradição estacionada, os cordelistas presentes na Primavera dos Livros, em São Paulo, mostraram que essa forma tradicional continua muito viva e se reinventando a cada momento.
Uma das principais novidades dessa nova onda cordelista é a adaptação de grandes clássicos da literatura mundial para o cordel. Não deixa de ser curioso encontrar versões de "A Megera Domada", do saxão William Shakespeare, ou até a ficção científica "Viagem ao Centro da Terra", de Julio Verne, transpostas para esse formato tipicamente nordestino.
Se a maioria dos autores utilizava apenas os enredos dessas grandes obras para o formato métrico e rimado do cordel, alguns se aventuram a transpor esses clássicos para a realidade nordestina. É o caso do cordelista João Gomes de Sá, que recentemente fez uma versão de "O Corcunda de Notre Dame", do francês Vitor Hugo, ambientada no sertão, retirando a pesada atmosfera gótica do original para colocar um pouco do gostinho tropical à narrativa. O autor conta ainda como no livro "Alice no País das Maravilhas em Cordel", que será lançado em breve, ele até mesmo incluiu frutas e animais característicos do nordeste dentro da famosa história de Lewis Carrol.
"Na história, a Alice vai atrás de um coelho engravatado e cai em um buraco, e eu coloco que ela caiu em uma cacimba (poço artesanal), que é algo regional, próximo da gente", contou Gomes de Sá. Essa tradição de dar um "tempero nordestino" pode ser encontrada em muitos outros assuntos cotidianos. "O cordel sempre divulgou temas atuais", disse o autor. Ele aponta como os poetas no nordeste tiraram sarro do "e que tudo mais vá para o inferno" de Roberto Carlos escrevendo na época um cordel no qual Satanás pedia que o cantor parasse de mandar gente para as profundezas, que já estava lotada. Com a internet, o cordel ganhou outro grande aliado de divulgação e é possível encontrar na rede poemas retratando a chegada de Michael Jackson ao portão celestial e até sobre a gripe suína.
"São Paulo é a maior cidade nordestina do mundo. E esses milhões de imigrantes trouxeram junto consigo suas histórias, sonhos e tradições", disse o cearense Moreira de Acopiara, que publicou o livro "Medo? Eu hem?" de histórias assustadoras do Brasil e do mundo em cordel. Essa influência está criando interesse entre os editores, que começam a lançar livros de qualidade desse formato que antes era apenas publicado em folhetos de aspecto caseiro, mas sem perder o sabor que torna o cordel um importante patrimônio da nossa cultura.
"A Megera Domada em Cordel"
Adaptação: Marco Haurélio
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 48
Quanto: R$ 25,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
"Viagem ao Centro da Terra em Cordel"
Adaptação: Costa Senna
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 48
Quanto: R$ 25,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
"O Corcunda de Notre Dame em Cordel"
Adaptação: João Gomes de Sá
Editora: Nova Alexandria
Páginas: 48
Quanto: R$ 25,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
