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terça-feira, 12 de abril de 2016

CONTO: UNS BRAÇOS (MACHADO DE ASSIS)

UNS BRAÇOS

Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
- Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
- Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil coisas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.
Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, - ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.
- Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
 Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais.
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.
- Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
- Não tenho nada.
- Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...
E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado, trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: - vadio, e o côvado e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.
D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua, que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das coisas.
 Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.
- Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
 Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.
 D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, coisa que jamais fizera; e o solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos quando ria.
 A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.
 Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.
 Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
 É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.
 Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.
 D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. Uma criança! disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.
- Uma criança!
E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, - dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio.
 Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:
- Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
- Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
- Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.
Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra coisa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:
- E foi um sonho! um simples sonho!

 Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestígio - Ediouro - s/d


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Além do ponto

Abaixo, a íntegra do conto que dá título ao livro "Além do ponto e outros contos", das leituras obrigatórias UFSC 2016


Além do ponto

Para Lívio Amaral


 Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse o táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda; e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto. Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta. Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, ideias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca.

 In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 34-37.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Conto: Sorte (Mark Twain)

Sorte

Mark Twain


Foi em Londres, num banquete oferecido em honra de dois ou três dos mais ilustres soldados ingleses desta geração. Por motivos que logo serão vistos, não direi seu verdadeiro nome. Chamá-lo-ei Tenente General Lorde Artur Scoresby, Cavalheiro da Ordem do Banho, etc. etc. etc. Que fascinação a de um nome célebre! Ali estava sentado, em carne e osso, um homem a quem já ouvira mencionar milhares de vezes desde o dia em que, há trinta anos, seu nome, bruscamente, surgira para a glória, nos campos de batalha da Criméia, para continuar desde então sempre famoso. Satisfazia minha fome e minha sede admirar e ver, sim, ver aquele semideus, inspecionando, esquadrinhando, observando a impassibilidade, a reserva e a nobre gravidade do seu semblante, a singela honestidade que se irradiava de toda a sua pessoa, a suave inconsciência da sua grandeza, inconsciência das centenas de olhares admirativos nele fixos, inconsciência de profunda, afetuosa e sincera admiração que. brotava do peito de todos.

O pastor, sentado à minha esquerda, era meu velho amigo. Era agora pastor mas passara metade da vida em acampamentos e campos de batalha, tendo sido instrutor na escola militar de Woolwich. Justamente no momento a que me referi, uma vaga e estranha luz cintilou de seus olhos, e ele me sussurrou, discretamente, apontando ao herói do banquete:

— Confidencialmente lhe direi que... que se trata de um perfeito animal.

Estas palavras constituíram para mim uma autêntica surpresa. Meu assombro não poderia ter sido maior se o protagonista tivesse sido Napoleão, Sócrates ou Salomão. De duas coisas eu tinha plena certeza: que o reverendo era um homem verdadeiro, e que sabia julgar os homens com bom senso e critério. Assim fiquei sabendo, sem a mínima dúvida, de que o mundo estava equivocado com relação àquele herói. Tratava-se, na realidade, de um animal. Oportunamente tratei de averiguar como o reverendo descobrira o segredo.

Dias depois a oportunidade se apresentou, e ele me contou o seguinte:

— Há quarenta anos eu era instrutor da academia militar de Woolwich. Encontrava-me presente quando o jovem Scoresby submeteu-se ao exame preliminar. A piedade me constrangeu o coração, pois enquanto o resto da classe respondia brilhantemente, ele... oh! Deus meu! — ele, por assim dizer, não sabia nada. Era, sem dúvida alguma, bom, suave, simpático e ingênuo. Por isso mesmo era penoso vê-lo ali, parado, imóvel, como uma estátua, dando respostas realmente milagrosas pela estupidez e ignorância. Toda a compaixão que havia no meu coração despertou a seu favor. Pensei que, quando ele voltasse a prestar os exames, seria natural. mente reprovado. Dessa maneira, não passava de um inofensivo ato de caridade aliviar-lhe a queda, tornando-a o mais suave possível. Levei-o para um canto e apurei que ele conhecia um pouco da história de César. Como não sabia. outra coisa, pus mãos à obra, e preparei-o, em curto prazo, com um certo tipo de perguntas sobre César, preferidas pelos examinadores. Eu sabia como eles a fariam. Creia-me, ou não, mas Scoresby foi aprovado brilhantemente no dia dos exames. Aprovado com esse conhecimento puramente superficial, enquanto os outros, que sabiam mil vezes mais, foram reprovados. Devido a um incidente estranhadamente afortunado — que não sucede em geral duas vezes num século — não lhe formularam uma só pergunta fora dos estreitos limites do seu aprendizado.

Era algo assombroso. Durante todo o curso, estive a seu lado, com um sentimento semelhante ao de uma mãe pelo filho entrevado. Scoresby salvava-se sempre... aparentemente por simples milagre.

Apesar disso, o seu ponto fraco, que o liquidaria definitivamente, seriam as matemáticas. Resolvi amenizar sua queda no que fosse possível. Preparei-o, enchi-o de noções, seguindo o tipo de perguntas mais prováveis pelos examinadores, e abandonei-o ao seu destino. Pois bem, senhor... imagine, se é possível, o resultado! Ante minha consternação, Scoresby obteve o primeiro prêmio! E com ele, toda uma longa ovação como aplauso.

Sonho? Não houve sonhos para mim durante toda uma semana. Minha consciência me atormentava dia e noite. Fizera aquilo por caridade, apenas para salvá-lo na queda. Jamais sonhara com resultados tão absurdos como aqueles que ocorreram. Sentia-me tão culpado e aflito como Frankestein. Havia aqui uma casca grossa a quem eu jogara no caminho das promoções. rutilantes e das responsabilidades perigosas. Só podia ocorrer uma coisa, ele e suas responsabilidades ruiriam por terra na primeira oportunidade.

Acabava de estourar a guerra na Criméia. Logo agora vai ter uma guerra, pensei. Não podia haver paz, dando àquele asno uma oportunidade de morrer antes de ser desmascarado? Esperei o terremoto. Chegou. Scoresby foi oficialmente declarado comandante de uma companhia de um regimento que ia para a frente. Há homens melhores que envelhecem e ficam brancos antes de chegarem a uma posição tão alta como esta. E quem poderia prever que poriam a carga de semelhante responsabilidade sobre os ombros tão inexperientes e inadequados? Custaria a crer se o tivesse nomeado simplesmente porta-estandarte! Mas... capitão?.. Imagine você! Foi um golpe muito duro para mim.

Preste atenção no que fiz... eu, que amo tanto o repouso e a inatividade convenci-me de que era responsável diante da Nação por aquilo, e que devia acompanhar Scoresby, protegendo assim o País dele, no que fosse passível. De maneira que reuni meus magros capitais, conseguidos à custa de três anos de trabalho e de penosa economia, e fui, com um suspiro, adquirir o lugar de porta-estandarte no seu regimento. Depois, partimos para o campo de batalha.

E ali... Oh! Deus meu! Foi terrível. Erros? Scoresby não fazia outra coisa senão cometê-los. Observe, porém, que nada ficava em segredo. Todos encaravam com prevenção a Scoresby, e forçosamente interpretavam de forma errônea sua atuação em todas as oportunidades. Tomavam seus estúpidos erros como geniais inspirações. Realmente! Seus menores erros eram suficientes para fazerem um homem de juízo chorar. E eles, em verdade, me fizeram chorar... Irritavam-me, levando-me ao desespero. O que cada vez mais me fazia transpirar de apreensão, era o fato de que a cada novo erro cometido por ele, o brilho da sua reputação aumentava. Eu pensava: "Subirá tanto, que um dia, quando descobrirem, sua queda será como a de um sol que desabasse dos céus".

Foi subindo de posto em posto sobre os cadáveres de seus superiores até que, finalmente, no mais culminante da batalha de..., morreu nosso coronel, e o coração me subiu à garganta, porque era Scoresby quem iria substituí-lo. Eis aí, pensei, dentro de dez minutos iremos todos parar no inferno.

O combate era terrível. Os aliados cediam terreno em toda a extensão do campo. Nosso regimento ocupava uma posição vital: um erro, agora, seria a destruição. Naquele momento crítico... que fez aquele imbecil imortal? Desviou o regimento do seu lugar, e ordenou uma carga contra uma colina próxima, onde não havia sequer a sombra de um inimigo.

— Eis aí, pensei. — Agora é mesmo o fim.

E para lá nos dirigimos, franqueando o alto da colina, antes que aquele movimento absurdo pudesse ser descoberto e detido. E com quem nos encontramos? Com todo um insuspeitável exército de reserva! E que aconteceu? Fomos aniquilados? Isso teria forçosamente ocorrido em noventa e nove de cem anos. Mas, não! Os russos imaginaram que um regimento isolado não viria pastar naqueles campos em semelhante circunstância. Aquilo devia ser todo o exército inglês. Era evidente que o astuto jogo russo fora adivinhado e bloqueado. De maneira que eles nos voltaram as costas e fugiram em grande confusão, franqueando a colina. Nós os perseguimos. E em menos tempo do que leva um galo para cantar, presenciamos a mais tremenda fuga até agora vista, e a derrota dos aliados se transformou numa avassaladora e esplêndida vitória. O marechal Canrobert contemplou aquilo, aturdido, cheio de assombro. E imediatamente mandou chamar Scoresby e o abraçou, condecorando-o no campo de batalha, na presença de todos os exércitos.

Que erro Scoresby cometera dessa vez? Confundira, simplesmente, sua mão direita com a esquerda. Eis tudo. Recebera ordens de retroceder e de apoiar nossa direita, e em lugar de assim proceder, retrocedera para diante, flanqueando a colina pela esquerda. Mas a fama que nesse dia conquistou como gênio militar foi difundida pelo mundo inteiro e a glória jamais será empalidecida enquanto durarem os livros de história.

Scoresby é o que de bom, amável, simpático e modesto pode ser um homem, mas não sabe o suficiente para regressar à casa quando chove. Isto é absolutamente verdadeiro. E o asno supremo do universo. E até meia hora antes, além dele e de mim, ninguém sabia disto. Scoresby tem sido perseguido, dia a dia, ano a ano, por uma sorte realmente fenomenal e assombrosa. Tem sido um brilhante soldado em todas as nossas guerras durante uma geração. Toda sua vida militar está cheia de erros, e no entanto não cometeu um só erro que não o tenha convertido em cavaleiro, barão, lorde, ou algo parecido. Olhe seu peito: parece, simplesmente, que ele está vestido de condecorações nacionais e estrangeiras. Pois bem, meu caro senhor, cada uma dessas condecorações é o documento vivo de tal ou qual alarmante estupidez. Tomadas em conjunto, são a prova de que o melhor que pode ocorrer a um homem neste mundo é nascer com sorte. Volto a repetir-lhe o que disse no banquete: Scoresby é um perfeito animal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Contos do Mundo: Olhos de cão azul (Gabriel García Márquez)



País de Origem: Colômbia
Autor: Gabriel García Márquez
Publicação original em: 1950





Olhos de cão azul
Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: "Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas"; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: "Você não sente o frio". E eu lhe disse: "Às vezes". E ela me disse: "Você deve senti-lo agora". E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. "Agora o sinto", disse. "E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado". Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-Ia, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. "Estou vendo você", disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: "Estou vendo você." E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. "É impossível", disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: "Porque você tem o rosto voltado para a parede". Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. "Acho que vou me resfriar", disse. "Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. "Faça alguma coisa contra isso", disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: "Vou me virar para a parede". Ela disse: "Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas". Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. "Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas". E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: "Às vezes creio que sou metálica". Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: "Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio". E ela disse: "Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado". Aproximou-se mais do abajur. "Teria gostado de ouvir você", disse. E ela disse: "Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. "Olhos de cão azul." E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:

"Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul". E ela disse que ia aos restaurantes e dizia para os garçons, antes de fazer o pedido: "Olhos de cão azul". Mas os garçons lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem lembrado nunca ter dito isso nos seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e riscava com a faca o verniz das mesas: "Olhos de cão azul". E nos cristais embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: "Olhos de cão azul". Disse que uma vez chegou a uma drogaria e percebeu o mesmo cheiro que tinha sentido no seu quarto uma noite, depois de ter sonhado comigo: "Deve estar perto", pensou, vendo a cerâmica limpa e nova da drogaria. Então se aproximou do vendedor e lhe disse: "Sempre sonho com um homem que me disse: "Olhos de cão azul". E disse que o vendedor a havia olhado nos olhos e dito: "Na verdade, moça, a senhora tem os olhos assim". E ela disse: "Preciso encontrar o homem que me diz isso nos sonhos". E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela permaneceu olhando o ladrilho limpo do chão e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa e se ajoelhou e escreveu com o batom sobre o ladrilho, com grandes letras vermelhas: "Olhos de cão azul". O vendedor regressou de onde se encontrava. Disse-lhe: "Moça, a senhora sujou o ladrilho". Deu-­lhe um pano úmido, dizendo: "Limpe-o". E ela disse, ainda junto ao abajur, que passou a tarde toda agachada, lavando o ladrilho e dizendo: "Olhos de cão azul", até que as pessoas se aglomeraram na porta e disseram que estava louca.

Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. "Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você", disse. "Agora creio que amanhã não a esquecerei. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras com que posso encontrar você". E ela disse: "Você mesmo as inventou desde o primeiro dia". E eu lhe disse: "Inventei-as porque vi seus olhos cor de cinza. Mas nunca me lembro delas na manhã seguinte." E ela, com os punhos fechados junto ao abajur, respirou fundo: "Se pelo menos pudesse recordar agora em que cidade estive escrevendo isso".

Seus dentes apertados resplandeceram sobre a chama. "Eu gostaria de tocar em você agora", disse. Ela levantou o rosto que estivera olhando a luz: levantou o olhar ardente, assando-se também do mesmo jeito que ela, do mesmo jeito que suas mãos: e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, me balançando na cadeira. "Você nunca me tinha dito isso", disse. "Agora digo, e é verdade", disse. Do outro lado do abajur ela me pediu um cigarro. O toco tinha desaparecido dos meus dedos. Esquecera que estava fumando. Disse: "Não sei por quê, não posso lembrar onde o escrevi". E eu lhe disse: "Pela mesma razão pela qual eu não poderei lembrar as palavras amanhã". E ela disse, triste: "Não. É que às vezes creio que também sonhei isso". Fiquei em pé e andei até o abajur. Ela estava um pouco mais para lá, e eu continuava andando, com os cigarros e os fósforos na mão, e não passaria o abajur. Aproximei dela o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para atingir a chama, antes que eu tivesse tempo de acender o fósforo. "Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras: 'Olhos de cão azul", disse. "Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você". Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios."Olhos de cão azul", suspirou, recordando, com o cigarro jogado sobre o queixo e um olho semifechado. Aspirou a fumaça, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: "Já isto é outra coisa. Estou me sentindo mais quente". E disse-o com a voz um pouco morna e fugidia, como se não o tivesse dito realmente, mas como se houvesse aproximado o papel à chama enquanto eu lia: "Estou entrando — e ela tivesse continuado com o papelzinho entre o polegar e o indicador, virando-o, enquanto ia se consumindo e eu acabava de ler — ­... mais quente", antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão amassado, diminuído, convertido num leve pó de cinza. "Assim, é melhor", disse. "Às vezes me dá medo ver você assim. Tremendo junto ao abajur".

Há vários anos nos víamos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherzinha na madrugada.

Agora, junto ao abajur, estava me olhando. Eu lembrava que antes também me havia olhado assim, desde aquele remoto sonho em que fiz a cadeira girar sobre as pernas traseiras e fiquei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi nesse sonho que perguntei a ela pela primeira vez:"Quem é a senhora?" E ela me disse: "Não lembro". Eu lhe disse: "Mas acredito que nos vimos antes". E ela disse, indiferente: "Creio que alguma vez sonhei com o senhor, com este mesmo quarto". E eu lhe disse: "É isso. Já começo a lembrar". E ela disse: "Que curioso. É verdade que temos nos encontrado em outros sonhos".

Deu duas chupadas no cigarro. Eu estava ainda em pé em frente ao abajur, quando fiquei olhando para ela de repente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas já não de metal duro e frio, senão de cobre amarelo, macio, maleável. "Gostaria de tocar em você", voltei a dizer. E ela disse: "Você jogaria tudo por água abaixo", voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. "Talvez, se você se virar por trás do abajur, acordaríamos sobressaltados quem sabe em que parte do mundo". Mas eu insisti: "Não importa". E ela disse:"Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando acordar, terá esquecido tudo". Comecei a me mexer em direção ao canto. Ela ficou por trás, esquentando as mãos sobre a chama. E eu ainda não estava junto da cadeira quando a ouvi falar às minhas costas: "Quando acordo à meia-noite, fico revirando-me na cama, com os fios do travesseiro ardendo no joelho e repetindo até o amanhecer: 'Olhos de cão azul'".

Então fiquei com o rosto na parede. "Já está amanhecendo", disse sem olhar para ela. "Quando deram duas da manhã, estava acordado, já fazia bastante tempo." Dirigi-me até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: "Não abra essa porta", disse. "O corredor está cheio de sonhos difíceis". E eu lhe disse: "Como você sabe disso?" E ela me disse: "Porque há pouco estive ali e tive que voltar quando descobri que estava dormindo sobre o coração". Eu mantinha a porta entreaberta. Movi um pouco o batente, e um ar frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez, virei-me, mexendo ainda o batente montado em gonzos silenciosos, e lhe disse: "Creio que não há nenhum corredor aqui fora. Sinto o cheiro do campo". E ela,já um pouco longe, me disse: "Conheço isso mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo". Cruzou os braços sobre a chama. Continuou falando: "É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade". Eu lembrava ter visto a mulher num outro sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha que descer para o café da manhã. E lhe disse: "De todas maneiras, tenho que sair daqui para acordar".

Lá fora o vento bateu um instante, ficou quieto depois, e ouviu-se a respiração de alguém adormecido que acabava de virar-se na cama. O vento do campo suspendeu-se. Já não houve mais odores. "Amanhã vou reconhecer você por isso", disse. "Vou reconhecê-la quando vir na rua uma mulher que escreva nas paredes: 'Olhos de cão azul'". E ela, com um sorriso triste — que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível —, disse: "Não obstante, você não lembrará nada durante o dia". E voltou a pôr as mãos sobre o abajur, com a expressão obscurecida por uma névoa amarga: "Você é o único homem que, ao acordar, não se lembra nada do que sonhou".


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SOBRE O AUTOR:
Gabriel José Garcia Márquez, a quem os amigos chamam de Gabo, nasceu às 9 horas da manhã do dia 6 de março de 1928 na aldeia de Aracataca na Colômbia, não muito distante de Barranquilla. Seu pai, homem de onze filhos, tinha uma pequena farmácia homeopática, e seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias, cujas histórias encantavam o menino. Costumavam levar o neto ao circo; às vezes se detinha na rua, como se sentisse uma pontada, e com um sussurro, inclinando-se para ele, dizia: "Ay, no sabes cuánto pesa um muerto!" - referindo-se a um homem que matara. Gabo tinha 8 anos quando esse avô morreu: "desde então não me aconteceu nada de interessante."
A família deixou então Aracataca (a macondo de seus livros) devido à crise da plantação bananeira, e Gabriel estudou em Barranquilla e no Liceu Nacional de Zipaquirá. Iniciou o curso de Direito em Bogotá entre 1947 e 1948, e nessa época publicou seu primeiro conto. Trabalhou como jornalista em Cartagena, Barranquilla e depois em El Espectador de Bogotá, onde fez grandes reportagens e críticas de cinema. Em 1955 ganhou um concurso nacional de contos e foi enviado especial do jornal à Conferência dos Quatro Grandes, em Genebra; estudou no Centro Experimental de Cinema de Roma e fez uma viagem de três meses aos paises socialistas, radicando-se depois em Paris. Em 1956 voltou à Colômbia para casar-se com Mercedes Barcha: tem dois filhos: Rodrigo e Gonzalo. Mais tarde trabalhou como jornalista em Caracas e em 1960 foi para New York como representante da Prensa Latina, agência cubana, nas Nações Unidas, indo em seguida para o México, onde viveu seis anos escrevendo roteiros para cinema.

Como influências que considera importante, Garcia Márquez indica as seguintes: Virgínia Woolf, Faulkner, Kafka e Hemingway, do ponto de vista técnico. Do ponto de vista literário, As Mil e Uma Noites, que foi o primeiro livro que leu aos 7 anos, Sófocles e seus avós maternos.

(Biografia extraída do romance Cem anos de Solidão, da Editora Sabiá.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Conheça os contos de Clarice Lispector preferidos por 22 personalidades


*da Livraria da Folha

O livro "Clarice na Cabeceira", lançamento da editora Rocco, traz 22 personalidades indicando e comentando contos de Clarice Lispector --cada um é acompanhado de um texto onde famosos revelam o quanto as palavras da escritora têm repercutido em suas vidas. Em seguida, há a íntegra do conto recomendado.

"Escrevi livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe", disse certa vez a autora.


Livro seleciona 22 contos indicados por leitores fãs de Clarice Lispector
Entre os títulos de Lispector mais citados, estão "A Via Crucis do Corpo", que a revista "Veja" chamou na época do lançamento de "lixo" e "lançamento inútil", como conta o jornalista Benjamin Moser na biografia "Clarice," (Cosac Naify).

Também são lembrados "Laços de Família", "A Legião Estrangeira", "A Bela e a Fera" e "Onde Estivestes de Noite". O livro foi organizado por Teresa Montero, doutora em letras pela PUC-RJ e autora de "Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector" (Rocco). A editora doou uma coleção de obras completas de Lispector para cada uma das bibliotecas indicadas pelos leitores convidados.

Confira as recomendações citadas no livro, em ordem alfabética dos leitores que participaram do projeto.

Adriana Falcão

Conto: Ruído de passos (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Adriana Lisboa

Conto: Menino a bico de pena (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Affonso Romano de Sant'Anna

Conto: Amor (do livro "Laços de Família")

-
Artur Xexéo

Conto: A Fuga (do livro "A Bela e A Fera")

-
Benjamin Moser

Conto: A procura de uma dignidade (do livro "Laços de Família")

-
Beth Goulart

Conto: Perdoando Deus (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Carla Camurati

Conto: Ele me bebeu (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Carlos Mendes de Sousa

Conto: O crime do professor de matemática ("do livro "Laços de Família")

-
Claire Williams

Conto: O ovo e a galinha (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Cora Rónai

Conto: A repartição dos pães (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Fernanda Takai

Conto: A língua do "p" (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Fernanda Torres

Conto: A quinta história (do livro "A Legião Estrangeira")

-
José Castello

Conto: O relatório da coisa (do livro " Onde estivestes de noite")

-
Letícia Spiller

Conto: A bela e a fera ou a ferida grande demais (do livro "A Bela e a Fera")

-
Luis Fernando Verissimo

Conto: A menor mulher do mundo (do livro "Laços de Família")

-
Luis Fernando Carvalho

Conto: É para lá que eu vou (do livro "Onde estivestes de noite")

-
Lya Luft

Conto: Feliz aniversário (do livro "Laços de Família")

-
Malu Mader

Conto: Felicidade Clandestina (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Maria Bethânia

Conto: Os desastres de Sofia (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Marina Colasanti

Conto: A imitação da Rosa (do livro "Laços de Família")

-
Mônica Waldvogel

Conto: Evolução de uma miopia (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Rubem Fonseca

Conto: Uma galinha (do livro "Laços de Família")

*
"Clarice na Cabeceira"
Autora: Teresa Montero (organização)
Editora: Rocco
Páginas: 256
Quanto: R$ 32
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

domingo, 22 de novembro de 2009

Conto: A Carta de Ronaldinho (Mia Couto)


A Carta de Ronaldinho

"O problema não é ser mentira.
É ser mentira desqualificada"
Provérbio da Munhava


Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência. Filipão Timóteo pisava ou era pisado pelo chão ? O mundo do velho já semelhava a um relvado de futebol: ali ele fintava o tempo, esticando a partida com a vida para período de compensação.
- Me restam duas saídas, sorria ele, ou perder ou ser vencido.
E o dente avulso, já de tão solto, abanava com riso. No bar da Munhava, o velho reformado retorcia a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão se vingava. Prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando, se escutava na rua:
- Gooolooo !
O pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho no Bar, o velho celebrava o golo da sua equipe. As pessoas passavam e olhavam pelo vidro Filipão aos saltos festejando vitórias. Como um peixe dentro do aquário, esperando que a vidraça afastasse a chegada do fim.
Quando saltava, caía-lhe o aparelho da surdez e ele passava o resto do tempo, de gatas, procurando o salvador instrumento entre as imundícies do chão. Para tão pouco voo, tanto quadrupedar-se pelo chão !
As pessoas sabiam: não havia televisor. O bar era pobre e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhara o televisor com detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que se instala, convidada, e faz a festa ter casa e causa.
Filipão chegava manhã cedo, carregava no falso botão do inexistente aparelho e se sentava na habitual mesa, ao fundo da sala. Pedia a habitual cerveja e sorvia o líquido como se bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a sua alma era uma boca. Estalava a língua nos dentes, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava os esquemas tácticos, arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial, a distracção é a morte do guarda-redes.
Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta da taberna e gritava para o exterior:- Já começou !
E se adentrava para assistir a mais um desses jogos que só ele testemunhava na sua imaginação.
Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na cidade. O mais velho disse:
- Venha pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
- Já todos se riem, pai - confirmava o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem. Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Mundial. Mais que isso: dando instruções técnicas. Ele o "mister", o senhor sem anéis.
- Desde quando pai ? Desde quando é que esse Mundial se arrasta ?
Os outros fizeram sinal para que não se usasse os argumentos da realidade. Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam verdadeiros jogos, capazes de fabricar autenticas alegrias. A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos ?
E assim se ficou. Filipão no sonho do jogo, os outros no jogo dos sonhos. Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com carimbo e redigido em máquina.
- O que é isso ?
- Isso é para o senhor, meu pai.
- Não sabe que eu não leio letras ?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo seu contributo para o desporto e pelos os galardões alcançados pela selecção. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar junto da família.
- Essa carta é falsa !
- Como falsa ?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
-Veja esta outra carta !
E o pai estendeu um envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava assim endereçada: Senhor Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho. Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho Gaúcho. O moço foi saindo, sem fôlego para palavra. A voz do pai o fez parar.
- E já agora, meu filho...
- Sim? - o filho perguntou, sem se virar.
- Você pode-me trazer lá da cidade um pauzinho de giz que é para eu desenhar um televisor novinho ?

Conto do livro "O Fio das Missangas", de Mia Couto (Ed. Companhia das Letras)

Conto: Os Confundidos (Osman Lins)


Os confundidos




- estou cansada. Quase meia-noite.

- continuo de férias, posso acordar tarde.

- mas eu, não. Afinal, que importa? Suporto bem uma noite sem sono. Tenho passado outras.

- é uma alusão a mim?

- talvez.

- não fiz censuras, perguntas, não disse nada. Desde o jantar que estamos calados.

- existe alguma coisa que fui condenada a ouvir hoje. Sinto isso no ar, nas mãos. Espero, ao menos, que o horror tenha início antes que clareie o dia. Amanhã é terça, dia de trabalho.


Um de nós levantou-se, ou irá ainda levantar-se, entreabrir a cortina, olhar a noite. O rumor dos veículos, continuado, ascenderá - ascendeu? – das avenidas, regirando na sala, sobre as aquarelas em seus finos caixilhos, sobre as poltronas de couro com almofadas vermelhas, em torno do abajur aceso. As estrelas vibrando, parecendo abaladas pelo rumor da cidade que não dorme. Estamos de mãos dadas, qual destas mãos arde? Olhamos a parede vazia.


- hoje, sofri novamente um ataque. Prometi nunca mais tornar a fazer isso. Mas não posso cumprir, simplesmente não posso. Veio com a mesma força de sempre. É abalador.

- então não há remédio.

- deve haver.

- tenho de viver até quando nesta danação? Vou esperar até o fim da vida?

- é preciso compaixão.

- novamente as palavras. Inúteis como sempre.

- não são inúteis.

- estou farta. Tínhamos passado três semanas sem essa coisa odiosa. Dias perfeitos.

- manhãs, tardes e noites nós estávamos juntos. Eu não podia duvidar... de mim.

- bastou eu me afastar algumas horas, para recomeçar outra vez. Então tudo o que faço é o mesmo que olhar nos olhos de um cego?

- quero explicar.

- prefiro não ouvir.

- tenho de ouvir.

- e por cima de tudo, ainda isto: uma ausência total de piedade. Admito que suspeite de mim, embora sem motivo. Mas por que confessar? É crueldade.

- quero ser sincero.

- desprezo até a náusea esse tipo de sinceridade. Enjoa-me. Sinceridade, como? Entrego-me. Confio. Sinto os abraços, beijos. E que existe por dentro dos afagos? Tenho os olhos fechados. Minha boca está na minha boca. E dois olhos sondam-me. Isto é ser sincero?

- não suspeito de nada, quando nos amamos.

- como posso saber? Como posso crer?

- estou dizendo: não suspeito de nada. Alguma coisa, quando estamos juntos, me restitue a confiança. Acho que assim vai ser eternamente, que toda sombra acabou e que não voltará a existir, entre nós , maldade alguma. De repente, vejo-me sozinho. E recomeço.

- por que não suspeitar quando estou presente? Posso estar aqui, comigo, nua e pensando noutro homem. Comparando em segredo o modo de abraçar-me. O jeito de ...

- melhor não prosseguir. Se destruo isso, esta segurança, a derradeira, a única, me resta o que?

- pouco se me dá. Para mim, nem essa, ao menos, existe. Principio também a duvidar de mim mesma, já não me conheço, não sei mais quem sou.


Quem, com gestos nervosos, abre a cigarreira dourada, bate com um golpe decidido e seco a tampa do isqueiro, depois de olhar a chama demoradamente? Um se levanta, anda, outro permanece sentado, depois este se ergue, atravessamos a sala, alguém volta a sentar-se, continuamos de pé, dorso contra dorso, juntos.

- quando me vi sozinho, fui deitar-me. Comecei a pensar como estas semanas tinham-nos aproximado e que todos os mal-entendidos cessariam. Não havíamos tido apenas alguns momentos alegres e tranqüilos. Todos esses dias foram de alegria e paz. Revi-me na praia, minha despreocupação no mar, o corpo, as coxas, recordei o calor das nossas peles depois do meio-dia. Lamentei as desconfianças antigas e pensei que depois de oito ano conquistáramos alguma coisa buscada durante todo esse tempo. Então fui ao banheiro e vi: estava seco.

- tomei banho. Foi talvez o tempo que está quente.

- sim.

- e passei a flanela na banheira.

- nunca fiz isso.

- é o que sempre faço.

- digo que o tempo estava quente. E logo em seguida, que a banheira está seca por causa da flanela que passei. Por que as duas versões? São estas mentiras que destroem.

- não estou mentindo.

- estou!

- uma coisa não tem de excluir a outra. Tudo isso é absurdo.

- a toalha também estava seca. Disse a mim mesmo que não tinha importância. Mas neste momento, já começara a lembrar-me das recomendações que me fizera. Para não sair, aproveitar as últimas tardes de férias, ficar em casa preparando o trabalho sobre a correspondência de lawrence.

- foi um erro. Com determinadas pessoas, é impossível não errar. Erra-se sempre.

- há parte de nós mesmos que não devem ser reveladas nunca. Mas é preciso que eu seja absolutamente sincero. Como lawrence. Ele era sincero.

- não sou lawrence.

- o que senti, o que sinto, é igual ao que me sucedia quando era menino e ficava sozinho. Excitava-me com que? Retrato de mulheres? Histórias licenciosas? Com a solidão. Insensivelmente, irresistivelmente, eu buscava em mim o prazer, um prazer aflito e imaturo. Para em seguida cair em depressão; e começar tudo, assim que me visse outra vez só no quarto ou no banheiro. A solidão, para mim, era o mesmo que uma mulher nua. Agora, ela é como a presença de um rival.

- não existe rival.

- quando estamos juntos, é também assim que penso. Não há outro, nem ouve nunca, ambos nos amamos. Mas se me vejo só!

- tenho prazer em despertar compaixão.

- mereço compaixão.


Dirigi-me ao quarto de dormir, permaneço na sala, com vagarosos gestos ponho o négligé, afago o rosto, a barba começa a apontar, volto para junto de mim, são leves meus passos, continuo sentado, não me levantei.

- é melhor acabar com tudo. Estou cansada.

- pensei que a insistência para que eu passasse a tarde em casa era um ardil.

- não insisti.

- um ardil para que eu não saísse e não telefonasse. Por que não me banhara se havia tempo? Desejava ganhar alguns minutos, meia hora que fosse, chegar um pouco mais cedo a algum encontro ajustado há quinze dias, ou talvez combinado no hotel, num momento de ausência, talvez no cabeleireiro, ou na manicure, como se pode saber? Devo dizer que não telefonei.

- não acredito. Houve um momento em que foram me chamar. Quando atendi, haviam desligado.

- quem imagino que foi?

- não faço idéia.

- quem foi?

- não sei. Sinceramente, não sei.

- não telefonei. Mas vasculhei, uma por uma, todas as suas bolsas. Dizia a mim mesmo que estava fazendo uma insensatez, que poderia encontrar algum papel do qual não fosse culpada, mas que parecesse acusador e que isto me destruiria, e que afinal seria inútil, pois não tenho coragem de deixá-la.

- encontrou alguma coisa?

- isto: um nome de homem. Este endereço. Quero saber quem é.

- não me lembro

- empalideci.

- quem não ficaria pálido? De cólera!

- cólera por que, se eu é que sou o ofendido?

- sou eu a ofendida.

- quem é este?

- ignoro. Talvez algum fabricante de calçados. Talvez seja algum cabeleireiro, recomendado por companheiras da repartição. A letra é minha. Mas não me lembro de haver escrito esse endereço. Talvez afinal um homem a quem eu ame e que me ofereça um pouco de paz. Que não me torture e que não se torture os dias todos da vida. Com esta fome de posse, de propriedade. Com estes laços, estas armadilhas, estas navalhas de suspeita. Eu queria morrer!

- quem é o homem?

- pelo amor de deus! Não existe homem algum, homem nenhum, outro homem. Nenhum.

- E este nome? Preciso saber.

- todo mundo encontra em seus papéis, de vez em quando, notas que não sabe para que tomou.

- fazendo um esforço, termina-se por recordar.

- uma vez que o louco é irredutível, não pode escapar à loucura e agir como os sãos, estes condescendem em agir como se fossem doidos. Não por deliberação. Insensivelmente e porque não podem ser de outro modo. É o mal de conviver com loucos. Pois esta é a miséria: estou fazendo o esforço que me peço, tentando recordar. Preciso sair disto. Preciso, de uma vez por todas, sair disto.

- então por que não saio?

Levanto-me, os olhos pesam de sono, vou ao mictório, levo um tempo enorme comprimindo o botão niquelado, ouvindo o jato violento da água, sentindo prazer nisso, deito-me. Giro em torno do leito posto no meio do quarto. Giro, interminável giro, e este caminhar é o mesmo que beber, devagar, um vinho insinuante.

- estou pensando em quando fiz uma operação nos rins. Por que, sempre que há cenas assim, eles me doem? Fizeram-me um enxerto nos rins, com tecido cortado nos meus intestinos. E esperaram. Haviam feito o que tinham de fazer. O resto não lhes competia, não podiam forçar o tecido a viver em sua nova função.

- aonde eu quero chegar?

- não sei. Estou buscando um sentido para esta lembrança. Meu corpo reagiu, fez com que o enxerto não morresse. Sobrevivi. Sobrevivi para que? Posso saber?

- tivemos, eu e eu, muitas horas felizes.

- para o diabo com elas! Não quero horas felizes. Quero confiança e um pouco de respeito. Essas horas felizes vem cheias de veneno.

- tudo na vida tem seu lado mau.

- aqui todos os lados são maus, mesmo os que parecem bons. Aqui é o inferno.


Alguém abre as cortinas, corre as vidraças, e tudo permanece como antes, aqui é o inferno, o ar petrificado betuma esta janela aberta, aqui é o inferno.


- é o inferno. Acho que as pessoas, as vezes, sem o saber, são lançadas em vida no inferno. Ficam girando em roda, passando eternamente sobre os mesmos pontos. Quero sair disso, não foi de modo algum para esse sofrimento que meu corpo reagiu a morte. Mas como, se perdi a identidade e não sei mais quem sou? Somos como dois corpos enterrados juntos, roídos pela terra, os ossos misturados. Não sei mais quem sou.

- é porque nos amamos. Estamos confundidos, cada um é si próprio e também é o outro.

- isso não é amor. Não se perde a identidade no amor. Mas no escritório, na vida coletiva; ou na demasiado solitária por falta de pontos de referência. No amor, pelo contrário, devemos reencontrar nossa identidade perdida.

- repito que, no amor, cada um é si próprio e é o outro.

- está bem. Que encontrei ainda, hoje, em minha busca, de si próprio e do outro?

- prefiro não falar. Isso passou.

- agora já me embriaguei, aderi à loucura. Quero saber.


Giro em redor do leito no qual estou prostrada, respiramos com dificuldade, não com exaltação, mas fatigadamente. Gostaria de ignorar estes passos que me cercam, passam em torno de mim ataduras de aflição, terror e desamparo, desejaria sentar-me, ou deitar-me, desejaria ser o que desejo ser, estou prostrada, falta-me ânimo até de erguer a voz, pedir que cessem os passos.

- levantei o colchão, para ver se encontrava algum outro papel, revolvi a cesta. Tentei escrever. Era impossível, a tentação de continuar a procura não me abandonava. Deixei de lado lawrence e suas cartas, pus-me a folhear nossos livros. A esmo, e em seguida de modo sistemático. As mãos frias. Dizia a mim mesmo que estava cumprindo um ato injusto, mas não me continha, ia buscando, era como se eu precisasse encontrar alguma coisa. Foi um acesso, um ataque.

- achei alguma coisa?

- pétalas secas de rosa. Seriam de alguma rosa oferecida por mim?

- de certo.

- eu não sabia. Olhava-as, como se pudesse existir nas rosas ofertadas por outro, uma textura diferente.havia um bilhete, sem o nome do destinatário. Igual a muitos outros que recebi ao longo destes anos, principalmente nos primeiros anos. Mas talvez aquele não fosse dirigido a mim. Por que estava ali?

- quem pode saber?

- toda essa busca é tão inútil! Para ter-se a verdade sobre alguém, seria preciso ver seu espírito. E isto é impossível. Essas buscas, essa perseguição, essas inquietações...

- quero amar de um modo simples, definitivo, seguro.

Este silêncio e o espaço entre nós. A voz que rompe o espaço e o silêncio, com dificuldade, lenta, articulando uma hipótese perturbadora. (o amor , talvez, é uma espécie de enxerto. Não nos rins. Em outra parte qualquer, talvez na alma, e cujo êxito não depende de nós. Por mais que desejemos salva-lo, pode apodrecer e envenenar-nos.) e novamente o silêncio, espesso, amortecedor, palha e serragem entre objetos de louça.


- estarei então envenenado? Estaremos envenenados?

- não eu. Eu. Sim, pode ser que também eu esteja. Como posso saber, se não sei mais quem sou?

- É mais de meia noite.

- muito mais. Não tarda a amanhecer. Outro círculo. O sol é redondo. Redonda é a terra. Em torno da terra fazemos uma volta; e a terra outra volta em redor do sol. E nós giramos, giramos e voltamos sempre ao mesmo ponto.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Conto Brasileiro: Idílio (Dalton Trevisan)

Idílio

Dobrando a esquina, na primeira sombra de árvore os dois se beijavam. Cecília tinha a ponta dos cabelos ainda molhados. Enfermeira, lidava no hospital até às seis horas. Banho de chuveiro, jantava e corria ao seu encontro. Às vezes trescalava a toalha úmida. Paulo a beijava com tanta aflição, por pouco engoliu o brinco de pérola falsa. Na rua até às dez horas, fechado o portão.
Ruazinha escura, encostados ao muro, beijavam-se. Ele a ensinou: boca pequena e
dócil, a descerrar os dentes, a titilar a língua. Um dentinho saliente e, se o beijo de muito amor, saía gota de sangue.
De uma a outra sombra (qual o nome daquela árvore tão negra?), em cada uma se
beijavam. Não se davam as mãos entre duas árvores, nunca ela lhe pegou no braço. Sem rumo, cruzavam apressados as ruas iluminadas.
Viam-se uma vez por semana, dia de folga do hospital. Em sandálias o dia inteiro, assistia os doentes e, das sete às dez da noite, acompanhava-o de salto alto. O moço esperava na esquina: ligeira, apesar de gorda, nos últimos passos corria ofegante.
Quando chovia, ela fechava a sombrinha, conchegados sob o guarda-chuva de Paulo. Rodavam entre as sombras, sem poder encostar-se às paredes. Mal seguro, o guarda-chuva os descobria a cada beijo.
Encontros noturnos e, seis meses depois, ao vê-la uma tarde na rua, achou-a mais velha e mais gorda. Espantou-se dos dedos lidos, não tomava sol, fechada no hospital. No branco rosto leve mancha de buço. De noite, à sombra da árvore, voltou a ser querida, no dentinho um vespeiro de beijos trabalhava o mel.
Bastante perigo nas ruas. Acendia-se a janela, uma bruxa de papelotes bradava se não tinham vergonha. Velho, não acendia a luz, espiando bem quieto. Os nichos ao longo dos muros disputados por outros casais. Hora do cinema, passava gente.
No meio do quarteirão, cada um vigiando uma das esquinas. Passos ao longe,
separavam-se. Ela arrumava os cabelos. Paulo enfiava a mão no bolso. Os outros chegavam-se devagar, olhando muito. Cecilia baixava o rosto. Ele falava — a única vez que falava.
Ah, e os faróis dos carros? Então escondia-lhe o rosto na sombra. Algum espião surgia na esquina, obrigados a sair para outra rua. Impossíveis os bancos de praça, por causa dos vagabundos; além do mais, os malditos guardiões.
O assunto, quando passava alguém, era o céu. "Esta noite não tem estrela" — dizia a moça. Ele olhava o céu aceso de janelas. Assim descobriu a miopia de Cecília. Para ela no céu não mais que a lua.
Certas noites erravam mais de uma hora até o primeiro beijo. Contra o muro a agarrava com tal fúria, que ela gemia e, ao separarem-se, tinha de segurá-la pelo braço, bem tonta. Podia beijar-lhe a boca, o nariz, os olhos, menos a orelha, cócega demais.
Passaram-se meses, um ano quem sabe. Paulo começou a brigar com ela, só dizia não. Cecília chorava e, ao esquecer o lenço, ele não emprestava o seu: devia enxugar as lágrimas na manga do casaquinho. Mais de uma noite inteira sem tocá-la, os dois marchando sem descanso debaixo das árvores.
Aconteceu uma noite.
— Agora tem de casar. Você tem de.
Primeira vez a mão pesou no braço.
— Por favor. Depressa não posso.
— Está melhor?
— Puxa, foi uma dor...
Paulo reparou nas duas sombras. Uma, albatroz selvagem da noite, abrindo asas na glória de arremeter vôo. A outra, gorda e grávida, um bule de chá.

sábado, 29 de agosto de 2009

Conto: Gricha (Tchekhov)


Gricha , rapazinho pequeno e rechonchudo, nascido há dois anos e oito meses atrás, passeia pelo bulevar com a sua ama. Tem uma capinha comprida forrada de algodão, um cachecol, um grande gorro com borla felpuda e galochas quentes. Tem muito calor, sente-se abafado e, ainda por cima, o desabrochado sol de Abril bate-lhe nos olhos e belisca-lhe as pálpebras.

Toda a sua figurinha desajeitada, de andar tímido e inseguro, exprime uma perplexidade extrema.

Até este dia, Gricha conhecia apenas o mundo quadrangular: num canto a sua cama, noutro a arca da ama-seca, no terceiro a cadeira, no quarto a lamparina. Olhando para debaixo da cama vê-se um boneco com um braço partido e um tambor e, atrás da arca da ama, coisas díspares: um carretel já sem linha, papelinhos, uma caixa sem tampa, um palhaço estragado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, aparecem muitas vezes a mamã e a gata. A mamã parece-se com uma boneca, e a gata com a peliça do papá, só que a peliça não tem olhos nem rabo. Deste mundo a que chamam «o quarto da criança» há uma porta que dá para o espaço onde almoçam e tomam chá. Aqui, está a cadeira de Gricha com pernas compridas e um relógio de parede que existe para abanar o pêndulo e tocar. Da sala de jantar pode-se passar para outra onde há poltronas vermelhas. Aqui, no tapete, há uma nódoa e, até agora, ainda ameaçam Gricha com o dedo por causa dela. Pegada a esta sala há mais uma, onde não o deixam entrar e onde se entrevê o papá – uma personalidade extremamente enigmática! A ama e a mamã são compreensíveis: vestem o Gricha, dão-lhe de comer e deitam-no na cama; mas por que raio existe o papá, isso já não se sabe. Existe mais uma personalidade enigmática: a tia que ofereceu a Gricha o tambor. Aparece e desaparece. Desaparece para onde? Gricha espreitava muitas vezes para debaixo da cama, para trás da arca e para debaixo do divã, mas ela não estava lá...

Ora, neste mundo novo onde o sol fere os olhos, há tantos papás, mamãs e tias que não se sabe para quem correr. Mas os mais estranhos e absurdos são os cavalos. Gricha olha para as suas patas andantes e não percebe nada. Olha para a ama para que esta lhe resolva o problema, mas a ama continua calada.

De repente, ouve um bater de pés terrível... Marchando a compasso, avança contra ele pelo bulevar uma chusma de soldados com as caras vermelhas e os ramos do banho debaixo do braço. Gricha fica gelado de medo e olha interrogativamente para a ama: aquilo não será perigoso? A ama não foge nem chora, logo não há perigo. Gricha olha para a traseira da massa de soldados e põe-se também a marchar ao ritmo deles.

Correm através do bulevar duas gatas grandes com os focinhos compridos, as línguas de fora e os rabos espetados para cima. Gricha acha que também tem de correr e corre atrás das gatas.

– Alto! – grita-lhe a ama, agarrando-o com brusquidão pelo ombro. – Aonde pensas que vais? Quem te autorizou a fazeres traquinices?

Sentada ao pé de uma pequena selha cheia de laranjas está uma ama qualquer. Gricha, ao passar por ela, tira uma laranja para si.

– O que estás a fazer? – grita a sua acompanhante, dá-lhe uma palmada na mão e tira-lhe a laranja. – Parvo!

Agora, Gricha apanharia do chão, com grande prazer, um bocado de vidro que vê a seus pés e que brilha como a lamparina; mas tem medo de que lhe voltem a bater na mão.

– Os nossos respeitos! – ouve Gricha de repente, quase por cima do seu ouvido, dito numa voz alta e espessa e vê um homem alto com botões reluzentes.

Para grande prazer de Gricha, o homem estende a mão para a ama, pára ao lado dela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões reluzentes – tudo isso é tão impressionantemente novo para ele, e nada assustador, que a alma de Gricha se enche de alegria e Gricha começa a rir.

– Vamos! Vamos! – grita para o homem dos botões reluzentes, puxando-lhe pela aba do casaco.

– Vamos aonde? – pergunta o homem.

– Vamos! – insiste Gricha.

Gricha gostaria de lhes dizer que não seria mau levarem com eles também o papá, a mamã e a gata, mas a língua de Gricha nunca diz o que é preciso.

Um pouco mais tarde, a ama desvia-se do bulevar e leva Gricha para um pátio grande onde ainda há neve. O homem dos botões reluzentes, atrás deles, também vai. Contornam com cuidado os charcos e os grandes bocados de neve dura, depois sobem uma escada suja e escura e entram num quarto. Aqui há muito fumo, cheira a carne assada e uma cozinheira está diante do fogão a fritar almôndegas. A cozinheira e a ama beijam-se e sentam-se no banco com o homem e começam a falar baixinho. Gricha, de tão agasalhado, sente um calor e um sufoco insuportáveis.

«Por que será?», pensa ele, olhando em volta.

Vê um tecto escuro, a tenaz – cavalinho com dois cornos –, o grande buraco negro do fogão a olhar para ele...

– Maaamã! – chama ele.

– Ai, ai, ai! – grita a ama. – Esperas!

A cozinheira põe na mesa uma garrafa, dois cálices e um bolo. As duas mulheres e o homem dos botões reluzentes brindam e bebem várias vezes, e o homem ora abraça a ama, ora abraça a cozinheira. Depois, começam os três a cantar baixinho.

Gricha estende a mão para o bolo, dão-lhe um bocadinho. Come e observa como a ama bebe... Também quer beber.

– Dá! Ama, dá! – pede ele.

A cozinheira deixa-o dar um gole do seu cálice. Gricha esbugalha os olhos, franze a cara. Tosse e depois abana muito as mãos. A cozinheira olha para ele e ri-se.

De volta a casa. Gricha põe-se a contar à mamã, às paredes e à gata onde esteve e o que viu. Fala menos com a língua do que com a cara e as mãos. Mostra como brilhava o sol, como corriam os cavalos, como o fogão pavoroso olhava para ele e como a cozinheira bebia.

À noite, não havia meio de adormecer. Os soldados com os ramos, as gatas grandes, os cavalos, o vidrinho, a selha com laranjas, os botões reluzentes amalgamavam-se num bloco e oprimiam-lhe a cabecinha. Dava voltas na cama, falava pelos cotovelos e, por fim, não aguentando mais tanta excitação, começou a chorar.

– Tens febre! – diz a mamã, apalpando-lhe a testa. – O que poderia ser?

– Fogão! – chora Gricha. – Vai-te embora, fogão!

– Às tantas comeu de mais... – conclui a mamã.

E Gricha, a extravasar das emoções da vida nova que há pouco experimentara, recebe da mãe uma colher de óleo de rícino.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Literatura Comentada: Amor (Conto de Clarice Lispector)


Não se trata apenas de uma escritora preocupada em retratar a alma feminina: Clarice Lispector lança o olhar sensível, minimalista da mulher para as profundezas da essência humana.



Amor

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

— O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

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Análise do Conto

Amor é um conto exemplar da ficção clariceana, revelador de seu estilo vigoroso e surpreendente. A estória, relativamente simples, indica que o efeito do conto não está em sua dimensão fabular.

Vejamos de forma sintética o enredo: Ana, uma dona-de-casa volta para casa após as compras para o jantar da família. Sentada em um bonde, depara-se com um cego mascando “chicles”, o que a deixa profundamente desconcertada. Subitamente, a personagem desliga-se da realidade em completa desorientação, perde a parada do bonde e caminha a esmo até se ver em meio ao cenário selvagem do Jardim Botânico. Passa, então a uma intensa percepção dos detalhes, contemplando em êxtase um novo universo repleto de significados sobre a vida (e a morte) e o amor (e a dor). Súbito, voltando à realidade objetiva, Ana volta ansiosa para casa, como se buscasse a restituição do equilíbrio perdido.

A condução da trama é reveladora de características peculiares da narrativa clariceana. Affonso Romano de Sant’Anna observa nos contos da autora a característica epifânica, no sentido de se trazer ao leitor uma “súbita revelação da verdade”. Isso aconteceria, segundo o crítico, em uma estrutura definida em quatro momentos: a) a personagem é disposta numa situação bastante cotidiana; b) há a preparação de um incidente que vai iluminar a vida da personagem; c) ocorre o incidente que vai iluminar a vida da personagem; d) desfecho em que se mostra ou se considera a situação da personagem após o evento ou incidente.

Contemplando-se os momentos aludidos acima temos:

a) Ana está retornando para casa após as compras para o jantar:

“Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.”

O conto se inicia sem a marcação de um novo parágrafo, indicando uma realidade já em andamento, da qual teremos um recorte, um fragmento, como o “momento privilegiado” aludido por Massaud Moisés.

b) a espiral narrativa da trama conduz a uma perspectiva de mudança:

“Logo um vento úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável”

c) O conflito é desencadeado pelo aparecimento súbito de um personagem:

“Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.”

d) O desfecho aponta para o restabelecimento do equilíbrio aparente em que se encontrava a personagem no início da trama:

“Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”

Da observância desses momentos, caracterizando-se um processo típico da narrativa clariceana, e da perspectiva intimista, desencadeadora de uma profunda reflexão existencial, pode-se constatar aquilo que Hohlfeldt designou como “aura”, a “atmosfera que envolve a narrativa, tornando-a quase inconfundível”. Nesse sentido, estaríamos diante de um conto de atmosfera.
O conceito, porém, é impreciso, e o próprio Hohlfeldt aponta para o fato de que o “conto de atmosfera” pode-se confundir com o conto psicológico, pois, “estrutura-se geralmente em torno de personagens e através de sua psicologia desenvolve-se”.

Nesse diapasão, é possível vislumbrar diversos caracteres do conto psicológico na narrativa em tela. Em Amor, como já dissemos, não há propriamente um enredo, a importância da dimensão fabular é mínima diante da autonomia que ganha a personagem em seu universo interior. O monólogo interior é o que nos permite conceber a personagem diante do mundo e diante de si mesma. Os ambientes também se constituem de forma acessória, pois, conforme assevera Assis Brasil, “tudo o que interessa ao escritor é fixar o interior da personagem”. No conto em estudo, já assinalamos a sensação de desorientação da protagonista e cumpre aqui destacar a forma como a realidade objetiva é apreendida por Ana:

“Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.”

Todo o ambiente estará imiscuído às profundas inquietações da protagonista, desfigurando-se como espaço físico e constituindo-se como espaço psicológico. Nesse sentido, Vicente Ataíde, citado por Hohlfeldt aponta para a “ruptura entre a ordem interna e externa, com o desmoronamento da primeira”, constituindo-se o “estranhamento”.

Qual seria, afinal a marca mais definitiva do conto Amor? O universo interior da personagem, como no conto psicológico, ou o estilo singular de Clarice Lispector a constituir uma “aura” particular, apontando para o conto de atmosfera?

Diante do impasse, consideramos que, ainda que impreciso, o conceito de conto de atmosfera parece quadrar melhor com a singularidade da escrita clariceana. O caráter de super-realidade de que se reveste a história é reforçado pelo estilo inconfundível, manifestado no que Álvaro Lins designou como “audaciosa combinação de vocábulos, pelo jogo imprevisto entre certas palavras com o fim de revelar imagens altamente novas, inesperadas e belas.”:

"Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos."

Assim, tal qual ocorre com as personagens clariceanas, acontece com o leitor: súbito, abrem-se as possibilidades de uma compreensão mais profunda, ao mesmo tempo delicada e violenta de nossa existência.