
País de Origem: Colômbia
Autor: Gabriel García Márquez
Publicação original em: 1950
Olhos de cão azul
Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.
Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: "Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas"; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: "Você não sente o frio". E eu lhe disse: "Às vezes". E ela me disse: "Você deve senti-lo agora". E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. "Agora o sinto", disse. "E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado". Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-Ia, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. "Estou vendo você", disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: "Estou vendo você." E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. "É impossível", disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: "Porque você tem o rosto voltado para a parede". Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. "Acho que vou me resfriar", disse. "Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. "Faça alguma coisa contra isso", disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: "Vou me virar para a parede". Ela disse: "Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas". Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. "Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas". E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: "Às vezes creio que sou metálica". Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: "Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio". E ela disse: "Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado". Aproximou-se mais do abajur. "Teria gostado de ouvir você", disse. E ela disse: "Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. "Olhos de cão azul." E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:
"Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul". E ela disse que ia aos restaurantes e dizia para os garçons, antes de fazer o pedido: "Olhos de cão azul". Mas os garçons lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem lembrado nunca ter dito isso nos seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e riscava com a faca o verniz das mesas: "Olhos de cão azul". E nos cristais embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: "Olhos de cão azul". Disse que uma vez chegou a uma drogaria e percebeu o mesmo cheiro que tinha sentido no seu quarto uma noite, depois de ter sonhado comigo: "Deve estar perto", pensou, vendo a cerâmica limpa e nova da drogaria. Então se aproximou do vendedor e lhe disse: "Sempre sonho com um homem que me disse: "Olhos de cão azul". E disse que o vendedor a havia olhado nos olhos e dito: "Na verdade, moça, a senhora tem os olhos assim". E ela disse: "Preciso encontrar o homem que me diz isso nos sonhos". E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela permaneceu olhando o ladrilho limpo do chão e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa e se ajoelhou e escreveu com o batom sobre o ladrilho, com grandes letras vermelhas: "Olhos de cão azul". O vendedor regressou de onde se encontrava. Disse-lhe: "Moça, a senhora sujou o ladrilho". Deu-lhe um pano úmido, dizendo: "Limpe-o". E ela disse, ainda junto ao abajur, que passou a tarde toda agachada, lavando o ladrilho e dizendo: "Olhos de cão azul", até que as pessoas se aglomeraram na porta e disseram que estava louca.
Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. "Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você", disse. "Agora creio que amanhã não a esquecerei. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras com que posso encontrar você". E ela disse: "Você mesmo as inventou desde o primeiro dia". E eu lhe disse: "Inventei-as porque vi seus olhos cor de cinza. Mas nunca me lembro delas na manhã seguinte." E ela, com os punhos fechados junto ao abajur, respirou fundo: "Se pelo menos pudesse recordar agora em que cidade estive escrevendo isso".
Seus dentes apertados resplandeceram sobre a chama. "Eu gostaria de tocar em você agora", disse. Ela levantou o rosto que estivera olhando a luz: levantou o olhar ardente, assando-se também do mesmo jeito que ela, do mesmo jeito que suas mãos: e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, me balançando na cadeira. "Você nunca me tinha dito isso", disse. "Agora digo, e é verdade", disse. Do outro lado do abajur ela me pediu um cigarro. O toco tinha desaparecido dos meus dedos. Esquecera que estava fumando. Disse: "Não sei por quê, não posso lembrar onde o escrevi". E eu lhe disse: "Pela mesma razão pela qual eu não poderei lembrar as palavras amanhã". E ela disse, triste: "Não. É que às vezes creio que também sonhei isso". Fiquei em pé e andei até o abajur. Ela estava um pouco mais para lá, e eu continuava andando, com os cigarros e os fósforos na mão, e não passaria o abajur. Aproximei dela o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para atingir a chama, antes que eu tivesse tempo de acender o fósforo. "Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras: 'Olhos de cão azul", disse. "Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você". Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios."Olhos de cão azul", suspirou, recordando, com o cigarro jogado sobre o queixo e um olho semifechado. Aspirou a fumaça, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: "Já isto é outra coisa. Estou me sentindo mais quente". E disse-o com a voz um pouco morna e fugidia, como se não o tivesse dito realmente, mas como se houvesse aproximado o papel à chama enquanto eu lia: "Estou entrando — e ela tivesse continuado com o papelzinho entre o polegar e o indicador, virando-o, enquanto ia se consumindo e eu acabava de ler — ... mais quente", antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão amassado, diminuído, convertido num leve pó de cinza. "Assim, é melhor", disse. "Às vezes me dá medo ver você assim. Tremendo junto ao abajur".
Há vários anos nos víamos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherzinha na madrugada.
Agora, junto ao abajur, estava me olhando. Eu lembrava que antes também me havia olhado assim, desde aquele remoto sonho em que fiz a cadeira girar sobre as pernas traseiras e fiquei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi nesse sonho que perguntei a ela pela primeira vez:"Quem é a senhora?" E ela me disse: "Não lembro". Eu lhe disse: "Mas acredito que nos vimos antes". E ela disse, indiferente: "Creio que alguma vez sonhei com o senhor, com este mesmo quarto". E eu lhe disse: "É isso. Já começo a lembrar". E ela disse: "Que curioso. É verdade que temos nos encontrado em outros sonhos".
Deu duas chupadas no cigarro. Eu estava ainda em pé em frente ao abajur, quando fiquei olhando para ela de repente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas já não de metal duro e frio, senão de cobre amarelo, macio, maleável. "Gostaria de tocar em você", voltei a dizer. E ela disse: "Você jogaria tudo por água abaixo", voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. "Talvez, se você se virar por trás do abajur, acordaríamos sobressaltados quem sabe em que parte do mundo". Mas eu insisti: "Não importa". E ela disse:"Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando acordar, terá esquecido tudo". Comecei a me mexer em direção ao canto. Ela ficou por trás, esquentando as mãos sobre a chama. E eu ainda não estava junto da cadeira quando a ouvi falar às minhas costas: "Quando acordo à meia-noite, fico revirando-me na cama, com os fios do travesseiro ardendo no joelho e repetindo até o amanhecer: 'Olhos de cão azul'".
Então fiquei com o rosto na parede. "Já está amanhecendo", disse sem olhar para ela. "Quando deram duas da manhã, estava acordado, já fazia bastante tempo." Dirigi-me até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: "Não abra essa porta", disse. "O corredor está cheio de sonhos difíceis". E eu lhe disse: "Como você sabe disso?" E ela me disse: "Porque há pouco estive ali e tive que voltar quando descobri que estava dormindo sobre o coração". Eu mantinha a porta entreaberta. Movi um pouco o batente, e um ar frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez, virei-me, mexendo ainda o batente montado em gonzos silenciosos, e lhe disse: "Creio que não há nenhum corredor aqui fora. Sinto o cheiro do campo". E ela,já um pouco longe, me disse: "Conheço isso mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo". Cruzou os braços sobre a chama. Continuou falando: "É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade". Eu lembrava ter visto a mulher num outro sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha que descer para o café da manhã. E lhe disse: "De todas maneiras, tenho que sair daqui para acordar".
Lá fora o vento bateu um instante, ficou quieto depois, e ouviu-se a respiração de alguém adormecido que acabava de virar-se na cama. O vento do campo suspendeu-se. Já não houve mais odores. "Amanhã vou reconhecer você por isso", disse. "Vou reconhecê-la quando vir na rua uma mulher que escreva nas paredes: 'Olhos de cão azul'". E ela, com um sorriso triste — que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível —, disse: "Não obstante, você não lembrará nada durante o dia". E voltou a pôr as mãos sobre o abajur, com a expressão obscurecida por uma névoa amarga: "Você é o único homem que, ao acordar, não se lembra nada do que sonhou".
...........................................................................................................
SOBRE O AUTOR:
Gabriel José Garcia Márquez, a quem os amigos chamam de Gabo, nasceu às 9 horas da manhã do dia 6 de março de 1928 na aldeia de Aracataca na Colômbia, não muito distante de Barranquilla. Seu pai, homem de onze filhos, tinha uma pequena farmácia homeopática, e seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias, cujas histórias encantavam o menino. Costumavam levar o neto ao circo; às vezes se detinha na rua, como se sentisse uma pontada, e com um sussurro, inclinando-se para ele, dizia: "Ay, no sabes cuánto pesa um muerto!" - referindo-se a um homem que matara. Gabo tinha 8 anos quando esse avô morreu: "desde então não me aconteceu nada de interessante."
A família deixou então Aracataca (a macondo de seus livros) devido à crise da plantação bananeira, e Gabriel estudou em Barranquilla e no Liceu Nacional de Zipaquirá. Iniciou o curso de Direito em Bogotá entre 1947 e 1948, e nessa época publicou seu primeiro conto. Trabalhou como jornalista em Cartagena, Barranquilla e depois em El Espectador de Bogotá, onde fez grandes reportagens e críticas de cinema. Em 1955 ganhou um concurso nacional de contos e foi enviado especial do jornal à Conferência dos Quatro Grandes, em Genebra; estudou no Centro Experimental de Cinema de Roma e fez uma viagem de três meses aos paises socialistas, radicando-se depois em Paris. Em 1956 voltou à Colômbia para casar-se com Mercedes Barcha: tem dois filhos: Rodrigo e Gonzalo. Mais tarde trabalhou como jornalista em Caracas e em 1960 foi para New York como representante da Prensa Latina, agência cubana, nas Nações Unidas, indo em seguida para o México, onde viveu seis anos escrevendo roteiros para cinema.
Como influências que considera importante, Garcia Márquez indica as seguintes: Virgínia Woolf, Faulkner, Kafka e Hemingway, do ponto de vista técnico. Do ponto de vista literário, As Mil e Uma Noites, que foi o primeiro livro que leu aos 7 anos, Sófocles e seus avós maternos.
(Biografia extraída do romance Cem anos de Solidão, da Editora Sabiá.)
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Contos do Mundo: Olhos de cão azul (Gabriel García Márquez)
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Contos do Mundo: Vicente (Miguel Torga)

Autor: Miguel Torga
País de Origem: Portugal
Publicação Original: 1940 ("Bichos")
Vicente
Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado
na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava:- a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
- Deve andar por aí...Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
- Vicente!...Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
- Vicente! Vicente! Em que sítio é que ele se meteu?
Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
- Vicente fugiu...
- Fugiu? Fugiu como?
- Fugiu...Voou...
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.
- Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trémulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
- Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
- Noé!...Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.
Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas -, dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?
Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?
Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravavam-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia, correu a Arca de lés a lés como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo.
Terra! Nem planaltos, nem veigas, nem desertos. Nem mesmo a macicez tranquilizadora dum monte... Mas bastava. Para quantos o viam, o pequeno penhasco resumia a grandeza do mundo. Encarnava a própria realidade deles, até ali transfigurados em meros fantasmas flutuantes. Terra! Uma minúscula ilha de solidez no meio dum abismo movediço, e nada mais importava e tinha sentido.
Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor. Terra...Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada.
Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo.
Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino.
Ah, mas estavam "rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu!" E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania.
Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.
....................................................................................................
O AUTOR: 
Escritor português natural, de São Martinho de Anta, Vila Real. Proveniente de uma família humilde, teve uma infância rural dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo trabalho contínuo. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais, como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras. De regresso a Portugal, em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933. Exerceu a profissão de médico em São Martinho de Anta e em outras localidades do país, fixando-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, em 1941.
Ligado inicialmente ao grupo da revista Presença, dele se desligou em 1930, fundando nesse mesmo ano, com Branquinho da Fonseca (outro dissidente), a Sinal, de que sairia apenas um número. Em 1936, lançou outra revista, Manifesto, também de duração breve.
A sua saída da Presença reflecte uma característica fundamental da sua personalidade literária, uma individualidade veemente e intransigente, que o manteve afastado, por toda a vida, de escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga, tendo como homem a experiência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, tornou-se o poeta do mundo rural, das forças telúricas, ancestrais, que animam o instinto humano na sua luta dramática contra as leis que o aprisionam. Nessa revolta consiste a missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina e terrestre, como na ternura franciscana que estende, de forma vibrante, a todas as criaturas no seu sofrimento. Mas essa revolta, por outro lado, não corresponde a uma arreligiosidade ou recusa da transcendência.
A sua obra, recheada de simbologia bíblica, encontra-se, antes, imersa num sentido divino que transfigura a natureza e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo face ao divino. A ligação à terra, à região natal, a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é outra constante dos textos do autor. Ela justifica o profundo conhecimento que Torga procurou ter de Portugal e de Espanha, unidos no conceito de uma Ibéria comum, pela rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
Contista exímio, romancista, ensaísta, dramaturgo, autor de mais de 50 obras publicadas desde os 21 anos, estreou-se em 1928 com o volume de poesia Ansiedade. Também em poesia, publicou, entre outras obras, Rampa (1930), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954) e Orfeu Rebelde (1958). Na ficção em prosa, escreveu Pão Ázimo (1931), Criação do Mundo. Os Dois Primeiros Dias (1937, obra de fundo autobiográfico, continuada em O Terceiro Dia da Criação do Mundo, 1938, O Quarto Dia da Criação do Mundo, 1939, O Quinto Dia da Criação do Mundo, 1974, e O Sexto Dia da Criação do Mundo, 1981), Bichos (1940), Contos da Montanha (1941), O Senhor Ventura (1943, romance), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (1945) e Fogo Preso (1976).
É ainda autor de peças de teatro (Terra Firme e Mar, 1941; O Paraíso, 1949; e Sinfonia, poema dramático, 1947) de volumes de impressões de viagens (Portugal, 1950; Traço de União, 1955) e de um Diário em dezasseis volumes, publicado entre 1941 e 1994. Notável pela sua técnica narrativa no conto, pela expressividade da sua linguagem, frequentemente de cunho popular, mas de uma força clássica, fruto de um trabalho intenso da palavra, conseguiu conferir aos seus textos um ritmo vigoroso e original, a que associa uma imagística extremamente sugestiva e viva.
Várias vezes premiado, nacional e internacionalmente, foram-lhe atribuídos, entre outros, o prémio Diário de Notícias (1969), o Prémio Internacional de Poesia (1977), o prémio Montaigne (1981), o prémio Camões (1989), o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992) e o Prémio da Crítica, consagrando a sua obra (1993).
Em 2000, é publicado Poesia Completa
sábado, 30 de maio de 2009
Contos do Mundo: A Morte (Thomas Mann)

País de Origem: Alemanha
Autor: Thomas Mann
Tradução: Ana Carolina da Costa e Fonseca
10 de setembro
......Agora o outono está aí, e o verão não voltará; jamais o verei novamente...
......O mar está cinzento e calmo, e cai uma chuva fina, triste. ......Quando eu a vi hoje pela manhã, dei adeus ao verão e saudei o outono, meu quadragésimo outono, que agora realmente se aproxima, inexoravelmente. E inexoravelmente ele trará aquele dia cuja data às vezes digo baixo para mim mesmo com um sentimento de devoção e de espantosa tranqüilidade...
12 de setembro
......Passeei um pouco com a pequena Assunção. Ela é uma boa companhia, que fica calada, e apenas às vezes ergue para mim seus os olhos grandes e carinhosos.
......Fomos pela beira da praia até Kronshafen, e voltamos oportunamente antes de encontrarmos mais do que uma ou duas pessoas.
......Enquanto caminhávamos, alegrei-me com a visão da minha casa. Como a escolhi bem! Simples e cinza, vista desde a colina, cuja grama ora murcha e úmida e cujo caminho ora encharcado estão para além do mar cinzento. Atrás passa a estrada, e atrás dela ficam os campos. Mas eu não reparo nisso; eu reparo apenas no mar.
15 de setembro
......Esta solitária casa sobre a colina em frente ao mar sob o céu cinza é como uma lenda lúgubre, misteriosa; e assim eu a quero em meu último outono. Hoje à tarde, quando eu olhava pela janela do meu escritório, havia uma carroça que trazia mantimentos, o velho Franz ajudava a descarregar, e havia barulho e diversas vozes. Eu não posso dizer como isso me incomodou. Estremeci diante da minha própria reprovação: ordenei que semelhante coisa apenas de manhã cedo devesse acontecer, quando eu dormisse. O velho Franz disse apenas: “Às ordens, senhor Conde.” Mas seus olhos estavam tomados de medo e de dúvida.
......Como ele poderia me entender? Ele nada sabe. Eu não quero que alterem a trivialidade e o aborrecimento nos meus últimos dias. Antes, eu temo que a morte possa ter algo de burguês e de ordinário em si. Ela deve ser para mim há muito algo estranho e peculiar no grande, sério, enigmático dia – em doze de outubro...
18 de setembro
......Durante os últimos dias, eu não passeie, mas fiquei a maior parte do tempo na chaise-longue. Eu tampouco podia ler muito, porque meus nervos me atormentavam. Eu simplesmente fiquei taciturno e olhei para a chuva incansável, vagarosa.
......Assunção veio seguidamente, e uma vez me trouxe flores, algumas magras e úmidas plantas que ela encontrou na praia; quando beijei a criança para agradecer, ela chorou, porque eu estava “doente”. De quão doloroso e inefável modo tocou-me seu meigo e triste afeto!
21 de setembro
......Eu olhei por muito tempo pela janela do meu escritório, e Assunção estava sentada sobre meus joelhos. Nós olhamos o cinza e distante mar, e atrás de nós no grande aposento, com porta alta, branca e com rígidos móveis, reinava o profundo silêncio. E enquanto eu afagava lentamente o macio cabelo da criança, que preto e singelo caia sobre seus frágeis ombros, eu pensava em minha vida caótica, confusa; pensei em minha juventude, que foi tranqüila e protegida, em minhas andanças pelo mundo, e nos períodos breves, luminosos de minha felicidade.
......Tu te lembras da encantadora e ardente afetuosidade da criatura sob o aveludado céu de Lisboa? Foi há doze anos que ela lhe deu a criança e morreu tendo ainda o braço em torno do seu pescocinho.
......Ela tem os olhos escuros da mãe, a pequena Assunção; eles são apenas mais cansados e mais pensativos. Acima de tudo, ela tem sua boca, esta maciez infinita e, no entanto, um pouco amarga, que é mais bonita quando silencia e apenas de modo totalmente vago sorri.
......Minha pequena Assunção! Se tu soubesses que eu tenho de te abandonar. Choraste por que estava eu “doente”? Ah, o que se pode fazer! O que se pode fazer com o doze de outubro!...
23 de setembro
......Dias, em que eu posso novamente pensar e me perder em lembranças, são raros. Há quantos anos eu era capaz apenas de pensar no futuro, apenas para esperar por esse grande e estremecedor dia, pelo doze de outubro de meus quarenta anos de vida!
......Como será, apenas como será! Eu não temo, mas me parece que ele se aproxima devagar e angustiante, este doze de outubro.
27 de setembro
......O velho doutor Gudehus veio de Kronshafen, ele veio de carroça pelo caminho da estrada e almoçou com Assunção e comigo.
......“É necessário”, ele disse e comeu meia galinha, “que o senhor se movimente, Senhor Conde, muito movimento ao ar livre. Não leia! Não pense! Não medite! Eu o tomo realmente por um filósofo, he, he!”
......Eu lhe dei os ombros e agradeci gentilmente seu esforço. Também para a pequena Assunção havia conselhos, e ele contemplou-a com seu sorriso forçado e constrangido. Ele teve de aumentar minha dose de bromo; talvez para que eu agora possa dormir um pouco mais.
30 de setembro
......O último setembro! Agora não falta muito. São três horas da tarde, e eu calculei quantos minutos ainda faltam para o começo do doze de outubro. São 8460.
......Eu não consegui dormir à noite, pois o vento soprava e o mar e a chuva ressoavam. Eu fiquei deitado e deixei o tempo passar. Pensar e meditar? Ah, não! Doutor Gudehus me toma por um filósofo, mas minha cabeça está muito fraca, e eu posso apenas pensar: a morte, a morte!
2 de outubro
......Estou profundamente comovido, e em minha emoção mistura-se um sentimento de triunfo. Às vezes, eu pensava sobre isso e alguém me olhava com medo e desconfiança, eu notei que alguns me tomavam por demente, então eu mesmo me examinei com desconfiança. Ah, não! Eu não estou demente.
......Hoje eu li a história daquele imperador Friedrich, que alguém profetizou: morrerá “sub flore”. Ele evitava as cidades de Florença e Florentium, mas outrora mesmo assim ele foi a Florentium: e ele morreu. – Por que ele morreu?
......Uma profecia é em si não importante; interessa se ela exerce poder sobre outrem. Mas se o consegue, já está provada e será uma realização. – Como? E é uma profecia que em mim mesmo se abre e se fortalece não valiosa como algo que vem de fora? E é o inabalável conhecimento do momento em que se morrerá mais duvidoso do que o do lugar?
......Oh, há uma permanente aliança entre o ser humano e a morte! Tu podes aspirar em sua esfera com teu desejo e com tua convicção, tu podes puxá-la para ti, que ela caminhará para ti, para a hora em que tu pensas...
3 de outubro
......Freqüentemente, quando meus pensamentos emanam de mim como um corpo d’água cinza, que de mim resplandecem imensamente, porque eles estão velados pela névoa, eu vejo algo como o nexo das coisas e penso conhecer a futilidade dos conceitos.
......O que é suicídio? A morte voluntária? Mas ninguém morre involuntariamente. O renunciar à vida e a dedicação à morte decorrem indistintamente de uma fraqueza, e esta fraqueza é o constante efeito de uma doença ou do corpo ou da alma, ou de ambos. Não se morre antes de se estar de acordo com a morte...
......Estou de acordo? Devo estar perfeitamente de acordo, pois penso que poderia ficar demente se eu não morresse em doze de outubro...
5 de outubro
......Eu penso constantemente sobre isso e isso me ocupa totalmente. – Eu reflito sobre isso, quando e de onde vem meu conhecimento, eu não estou em condições de dizer! Eu sabia com dezenove ou vinte anos que eu deveria morrer com quarenta anos, e um dia, como eu insistentemente me perguntava em que dia isso aconteceria, então eu soube também o dia!
......E agora isso ele se aproxima e está tão perto, tão perto, que eu penso sentir o frio hálito da morte.
7 de outubro
......O vento se intensificou, o mar troava e a chuva batia no telhado. Eu não dormi à noite, fui lá para baixo, na praia, com minha capa de chuva e sentei-me sobre uma pedra.
......Atrás de mim estava, na escuridão e na chuva, a colina com a casa cinza, na qual a pequena Assunção dormia, minha pequena Assunção! E diante de mim, o mar rolava sua turva espuma até meus pés.
......Durante toda noite eu olhei para fora e pensei: assim deve ser a morte ou o após a morte: lá, além e longe, um certo mistério infinito e sombrio troava. Sobreviverá e dará frutos um pensamento, uma intuição, algo de mim que será eternamente ouvido a partir do rugido incompreensível?
8 de outubro
......Eu quero agradecer à morte, pois ela virá em breve me atender, como se eu ainda pudesse esperar. Ainda três curtos dias de outono e acontecerá. Como eu estou curioso pelo último momento, o último de todos! Não deve ser um momento de encanto e de indizível doçura? Um momento do mais intenso prazer?
......Ainda três curtos dias de outono e a morte caminhará aqui, em meu quarto, para mim – como ela se comportará? Ela me tratará como um verme? Ela me agarrará pelo pescoço e me estrangulará? Ou ela apanhará meu espírito com sua mão? – Eu a imagino grande e bela e de uma selvagem majestade!
9 de outubro
......Eu disse para Assunção, que estava sentada sobre meus joelhos: “Se eu me fosse em breve de algum modo, tu ficarias muito triste?” Então, ela aconchegou sua cabecinha em meu peito e chorou amargamente. – Senti um nó na garganta.
......Aliás, tenho febre. Minha cabeça está quente e eu tremo de frio.
10 de outubro
......Ela estava em minha casa, nesta noite ela estava em minha casa! Eu não a vi e não a ouvi, e mesmo assim conversei com ela. É cômico, mas ela se comporta como um dentista! – “Será melhor se nós fizermos logo um acordo”, ela me disse. Mas eu não queria e lutei contra. Com poucas palavras mandei-a embora.
......“Será melhor se nós fizermos logo um acordo!” Como isso soou! Foi-me profundamente desagradável! Tão austero, tão enfadonho, tão burguês! Nunca conheci um sentimento de tão fria e sarcástica decepção.
11 de outubro (11 horas da noite)
......Compreendo-a? Oh! Acredite em mim, eu a compreendo!
......Há uma hora e meia, quando eu estava sentado em meu quarto, o velho Franz veio até mim; ele tremia e soluçava. “A senhorita!”, ele gritou, “a criança! Ah, venha rápido, senhor!” – E eu fui rapidamente.
......Eu não chorei, e apenas um frio arrepio estremeceu-me. Ela estava deitada em sua caminha e seus cabelos pretos emolduravam seu pálido e sofrido rosto. Eu me ajoelhei ao seu lado e nada fiz e nada pensei. – O doutor Gudehus chegou.
......“Foi uma insuficiência cardíaca”, ele me disse e anuiu como alguém que não estivesse surpreendido. Esse tolo e trapalhão age como se soubesse!
......Eu, mas – eu a compreendi? Oh, quando eu estava sozinho com ela – lá fora chuva e mar ressoavam, e o vento uivava na chaminé – eu bati na mesa, em um momento tornou-se claro para mim! Por longos vinte anos eu me aproximei da morte, do dia que começará em uma hora, e profundamente dentro de mim algo era sabido, algo oculto era sabido, eu não podia desamparar essa criança. Eu não poderia morrer depois da meia-noite, mas isso deveria ser! Eu deveria novamente mandá-la embora quando ela chegasse: mas ela foi primeiro para a criança porque ela deveria obedecer meu conhecimento e minha crença. ......– Eu mesmo coloquei a morte em sua caminha, eu a matei, minha pequena Assunção? Ah, essas são palavras pífias e miseráveis para coisas sutis e misteriosas!
......Adeus, adeus! Talvez eu reencontre um pensamento, uma intuição, lá fora. Então veja: o ponteiro do relógio se move, e a lâmpada que ilumina seu doce rosto logo estará apagada. Eu seguro sua mão pequena, fria, e aguardo. Logo ela caminhará em minha direção, e eu apenas anuirei e fecharei os olhos quando a ouvir dizer: “Será melhor se nós fizermos logo um acordo”...
.....................................................................................................
O Autor:
Thomas Mann nasceu em 1875, em Lübeck (Alemanha), filho de um alemão e de uma brasileira. Após a morte de seu pai, em 1891, muda-se para Munique, onde freqüenta a universidade local.
Depois de trabalhar num escritório de seguros, passa a dedicar-se à literatura. Seus primeiros contos foram reunidos em O Pequeno Senhor Friedemann (1898). Em 1901, sai - com enorme impacto - o romance Os Buddenbrooks, baseado na decadência de sua própria família. Em 1912, ele lança a novela Morte em Veneza.
A Montanha Mágica é de 1924; confirmou a reputação de Mann como um dos escritores de maior arrojo filosófico na modernidade. Cinco anos depois, ele receberia o Prêmio Nobel de literatura.
Em 1933, quando Hitler se torna chanceler, o escritor muda-se para a Suíça e passa a editar um jornal de resistência. Depois de escrever uma tetralogia de romances condenando o racismo e o anti-semitismo, muda-se para Nova Jersey (EUA), dando aulas na Universidade de Princeton. Em 1947 sai Doutor Fausto, um dos maiores romances jamais escritos sobre a arte da música. Thomas Mann volta à Suíça em 1952, onde morre em 1955. (*do banco de dados da Folha)
sábado, 23 de maio de 2009
Contos do Mundo: La muerte (Mario Benedetti)

Autor: Mario Benedetti
País de Origem: Uruguai
La muerte
Conviene que te prepares para lo peor.
Así, en la entonación preocupada y amiga de Octavio, no sólo médico sino sobre todo ex compañero de liceo, la frase socorrida, casi sin detenerse en el oído de Marlano, había repercutido en su vientre, allí donde el dolor insistía desde hacía cuatro semanas. En aquel ins~ tante había disimulado, había sonreído amargamente, y hasta había dicho: «no te preocupes, hace mucho que estoy preparado». Mentira, no lo estaba, no lo había estado nunca. Cuando le había pedido encarecidamente a Octavio que, en mérito a su antigua amistad («te juro que yo sería capaz de hacer lo mismo contigo»), le dijera el diagnóstico verdadero, lo había hecho con la secreta esperanza de que el viejo camarada le dijera la verdad, sí, pero que esa verdad fuera su salvación y no su condena. Pero Octavio había tomado al pie de la letra su apelación al antiguo afecto que los unía, le había consagrado una hora y media de su acosado tiempo para examinarlo y reexaminarlo, y luego, con los ojos inevitablemente húmedos tras los gruesos cristales, había empezado a dorarle la píldora: «Es imposible decirte desde ya de qué se trata. Habrá que hacer análisis, radiografías una completa historia clínica. Y eso va a demorar un poco. Lo único que podría decirte es que de este primer examen no saco una buena impresión. Te descuidaste mucho. Debías haberme visto no bien sentiste la primera molestia.» Y luego el anuncio del primer golpe directo: «Ya que me pedís, en nombre de nuestra amistad, que sea estrictamente sincero contigo, te diría que, por las dudas ... » Y se había detenido, se había quitado los anteojos, y los había limpiado con el borde de la túnica. lJn gesto escasamente profiláctico, había alcanzado a pensar Marlano en medio de su desgarradora expectativa. «Por las dudas ¿qué?», preguntó, tratando de que el tono fuera sobrio, casi indiferente. Y ahí se desplomó el cielo: «Conviene que te prepares para lo peor. »
De eso hacía nueve días. Después vino la serie de análisis, radiografias, etc. Había aguantado los pinchazos y las propias desnudeces con una entereza de la que no se creía capaz. En una sola ocasión, cuando volvió a casa y se encontró solo (Agueda había salido con los chicos, su padre estaba en el Interior), había perdido todo dominio de sí mismo, y allí, de pie, frente a la ventana abierta de par en par, en su estudio inundado por el más espléndido sol de otoño, había llorado como una criatura, sin molestarse siquiera por enjugar sus lágrimas. Esperanza, esperanzas, hay esperanza, hay esperanzas, unas veces en singular y otras en plural; Octavio se lo había repetido de cien modos distintos, con sonrisas, con bromas, con piedad, con palmadas amistosas, con semiabrazos, con recuerdos del liceo, con saludos a Agueda, con ceño escéptico, con ojos entornados, con tics nerviosos, con preguntas sobre los chicos. Seguramente estaba arrepentido de haber sido brutalmente sincero y quería de algún modo amortiguar los efectos del golpe. Seguramente. Pero ¿y si hubiera esperanzas? 0 una sola. Alcanzaba con una escueta esperanza, un a diminuta esperancita en mínimo singular. ¿Y si los análisis, las placas, y otros fastidios, decían al fin en su lenguaje esotérico, en su profecía en clave, que la vida tenía permiso para unos años más? No pedía mucho: cinco años, mejor diez. Ahora que atravesaba la Plaza Independencia para encontrarse con Octavio y su dictamen final (condena o aplazamiento o absolución), sentía que esos singulares y plurales de la esperanza habían, pese a todo, germinado en él. Quizá ello se debía a que el dolor había disminuido considerablemente, aunque no se le ocultaba que acaso tuvieran algo que ver con ese alivio las pastillas recetadas por Octavio e ingeridas puntualmente por él. Pero, mientras tanto, al acercarse a la meta, su expectativa se volvía casi insoportable. En determinado momento, se le aflojaron las piernas; se dijo que no podía llegar al consultorio en ese estado, y decidió sentarse en un banco de la plaza. Rechazó con la cabeza la oferta del lustrabotas (no se sentía con fuerzas como para entablar el consabido diálogo sobre el tiempo y la inflación), y esperó a tranquilizarse. Agueda y Susana. Susana y Agueda. ¿Cuál sería el orden preferencial? ¿Ni siquiera en este instante era capaz de decidirlo? ÿgueda era la comprensión y la incomprensión ya estratificadas; la frontera ya sin litigios; el presente repetido (pero también había una calidez insustituible en la repetición); los años y años de pronosticarse mutuamente, de saberse de memoria; los dos hijos, los dos hijos. Susana era la clandestinidad, la sorpresa (pero también la sorpresa iba evolucionando hacia el hábito), las zonas de vida desconocida, no compartidas, en sombra; la reyerta y la reconciliación conmovedoras; los celos conservadores y los celos revolucionarios; la frontera indecisa, la caricia nueva (que insensiblemente se iba pareciendo al gesto repetido), el no pronosticarse sino adivinarse, el no saberse de memoria sino de intuición. Agueda y Susana, Susana y ÿgueda. No podía decidirlo. Y no podía (acababa de advertirlo en el preciso instante en que debió saludar con la mano a un antiguo compañero de trabajo), sencillamente porque pensaba en ellas como cosas suyas, como sectores de Mariano Ojeda, y no como vidas independientes, como seres que vivían por cuenta y propios. Agueda y Susana, Susana y Agueda, eran en este instante partes de su organismo, tan suyas como esa abyecta, fatigada entraña que lo amenazaba. Además estaban Coco y sobre todo Selvita, claro, pero él no quería, no, no quería, no, no quería ahora pensar en los chicos, aunque se daba cuenta de que en algún momento tendría que afrontarlo, no quería pensar porque entonces sí se derrumbaría y ni siquiera tendría fuerzas para llegar al consultorio. Había que ser honesto, sin embargo, y reconocer de antemano que allí iba a ser menos egoísta, más increíblemente generoso, porque si se destrozaba en ese pensamiento (y seguramente se iba a destrozar) no sería pensando en sí mismo sino en ellos, o por lo menos más en ellos que en sí mismo, más en la novata tristeza que los acechaba que en la propia y veterana noción de quedarse sin ellos. Sin ellos, bah, sin nadie, sin nada. Sin los hijos, sin la mujer, sin la amante. Pero también sin el sol, este sol; sin esas nubes flacas, esmirriadas, a tono con el país; sin esos pobres, avergonzados, legítimos restos de la Pasiva; sin la rutina (bendita, querida, dulce, afrodisíaco, abrigada, perfecta rutina) de la Cala Núm. 3 y sus arqueos y sus largamente buscadas pero siempre halladas diferencias; sin su minuciosa lectura del diario en el café, junto al gran ventanal de Andes; sin su cruce de bromas con el mozo; sin los vértigos dulzones que sobrevienen al mirar el mar y sobre todo al mirar el cielo; sin esta gente apurada, feliz porque no sabe nada de si misma, que corre a mentirse, a asegurar su butaca en la eternidad o a comentar el encantador heroísmo de los otros; sin el descanso como bálsamo; sin los libros como borrachera; sin el alcohol como resorte; sin el sueño como muerte; sin la vida como vigilia; sin la vida, simplemente.
Ahí tocó fondo su desesperación, y, paradójicamente, eso mismo le permitió rehacerse. Se puso de pie, comprobó que las piernas le respondían, y acabó de cruzar la plaza. Entró en el café, pidió un cortado, lo tomó lentamente, sin agitación exterior ni interior, con la mente poco menos que en blanco. Vio cómo el sol se debilitaba, cómo iban desapareciendo sus últimas estrías. Antes de que se encendieran los focos del alumbrado, pagó su consumición, dejó la propina de siempre, y caminó cuatro cuadras, dobló por Río Negro a la derecha, y a mitad de cuadra se detuvo, subió hasta un quinto piso, y oprimió el botón del timbre 'unto a la chapita de bronce: Dr. Octavio Massa, médico.
-Lo que me temía.
Lo que me temía era, en estas circunstancias, sinónimo de lo peor. Octavio había hablado larga, calmosamenre, había recurrido sin duda a su mejor repertorio en materia de consuelo y confortación, pero Mariano lo había oído en silencio, incluso con una sonrisa estable que no tenía por objeto desorientar a su amigo, pero que con seguridad lo había desorientado. «Pero si estoy bien», dijo tan sólo, cuando Octavio lo interrogó, preocupado. «Además», dijo el médico, con el tono de quien extrae de la manga un naipe oculto, «además vamos a hacer todo lo que sea necesario, y estoy seguro, entendés, seguro, que una operación sería un éxito. Por otra parte, no hay demasiada urgencia. Tenemos por lo menos un par de semanas para fortalecerse con calma, con paciencia, con regularidad. No te digo que debas alegrarte, Mariano, ni despreocuparte, pero tampoco es para tomarlo a la tremenda. Hoy en día estamos mucho mejor armados para luchar contra ... » Y así sucesivamente Mariano sintió de pronto una implacable urgencia en abandonar el consultorio, no precisamente para volver a la desesperación. La seguridad del diagnóstico le había provocado, era increíble, una sensación de alivio, pero también la necesidad de estar solo, algo así como una ansiosa curiosidad por disfrutar la nueva certeza. Así, mientras Octavio seguía diciendo: «... y además da la casualidad que soy bastante amigo del médico de tu Banco, así que no habrá ningún inconveniente para que te tomes todo el tiempo necesario y.. », Mariano sonreía, y no era la suya una sonrisa amarga, resentida, sino (por primera vez en muchos días) de algún modo satisfecha, conforme.
Desde que salió del ascensor y vio nuevamente la calle, se enfrentó a un estado de ánimo que le pareció una revelación. Era de noche, claro, pero ¿por qué las luces quedaban tan lejos? ¿Por qué no entendía, ni quería entender, la leyenda móvil del letrero luminoso que estaba frente a él? La calle era un gran canal, sí, pero ¿por qué esas figuras, que pasaban a medio metro de su mano, eran sin embargo imágenes desprendidas, como percibidas en un film que tuviera color pero que en cambio se beneficiara (porque en realidad era una mejora) con una banda sonora sin ajuste, en la que cada ruido llegaba a él como a través de infinitos intermediarios, hasta dejar en sus oídos sólo un amortiguado eco de otros ecos amortiguados? La calle era un canal cada vez más ancho, de acuerdo, pero ¿por qué las casas de enfrente se empequeñecían hasta abandonarlo, hasta dejarlo enclaustrado en su estupefacción? Un canal, nada menos que un canal, pero ¿por qué los focos de los autos que se acercaban velozmente, se iban reduciendo, reduciendo, hasta parecer linternas de bolsillo? Tuvo la sensación de que la baldosa que pisaba se convertía de pronto en una isla, una baldosa leprosa que era higiénicamente discriminada por las baldosas saludables. Tuvo la sensación de que los objetos se iban, se apartaban locamente de él pero sin admitir que se apartaban. Una fuga hipócrita, eso mismo. ¿Cómo no se había dado cuenta antes? De todos modos, aquella vertiginosa huida de las cosas y de los seres, del suelo y del cielo, le daba una suerte de poder. ¿Y esto podía ser la muerte, nada más ue esto?, pensó con inesperada avidez. Sin embargo estaba vivo. Ni Agueda, ni Susana, ni Coco, ni Selvita, ni Octavio, ni su padre en el Interior, ni la Caja Núm. 3. Sólo ese foco de luz, enorme, es decir enorme al principio, que venía quién sabe de dónde, no tan enorme después, valía la pena dejar la isla baldosa, más chico luego, valía la pena afrontarlo todo en medio de la calle,
pequeño, más pequeño, sí, insignificante, aquí mismo, no importa que los demás huyan, si el foco, el foquito, se acerca alejándose, aquí mismo, aquí mismo, la linternita, la luciérnaga, cada vez más lejos y más cerca, a diez kilómetros y también a diez centímetros de unos ojos que nunca más habrán de encandilarse.
...................................................................................................
O AUTOR:
Mario Benedetti
Um dos mais importantes escritores uruguaios, Mario Benedetti nasceu em 14 de setembro de 1920, em Paso de los Toros, Uruguai. Trabalhou como vendedor, taquígrafo, contador, funcionário público e jornalista. Entre 1938 e 1945, morou em Buenos Aires. Ao retornar a Montevidéu, passou a trabalhar no semanário Marcha.
Nesse mesmo ano, publicou o primeiro livro de poesias, La víspera indeleble. Nos anos seguintes, Benedetti lançaria a primeira coletânea de ensaios, Peripecia y novela (1948), a primeira de contos, Esta mañana (1949), e o primeiro romance, Quién de nosotros (1953). Em 1959, com a publicação do livro de contos Montevideanos, consagrou-se como escritor. E, no ano seguinte, o lançamento de A Trégua lhe rendeu fama internacional.
Por questões políticas, abandonou o Uruguai em 1973. Nos 12 anos de exílio morou na Argentina, Peru, Cuba e Espanha.
sábado, 16 de maio de 2009
Contos do Mundo: A funda de Davi (Augusto Monterroso)

Autor: Augusto Monterroso
País de Origem: Guatemala
A funda de Davi
Era uma vez um menino chamado Davi N., cuja pontaria e habilidade no manejo da atiradeira despertavam tanta inveja e admiração entre seus amigos da vizinhança e da escola, que viam nele — e assim comentavam entre si quando os pais não podiam escutar — um novo Davi.
O tempo passou.
Cansado do tedioso tiro ao alvo que praticava disparando pedrouços contra latas vazias e pedaços de garrafa, Davi descobriu um dia que era muito mais divertido exercer contra os pássaros a habilidade com que Deus o tinha dotado, de modo que dali em diante a exercitou contra todos os que se punham ao seu alcance, em especial contra Pardais, Cotovias, Rouxinóis e Pintassilgos, cujos corpinhos sangrentos caíam suavemente sobre a grama, com o coração ainda agitado pelo susto e a violência da pedrada.
Davi corria alegre até eles e os enterrava cristãmente.
Quando os pais de Davi se aperceberam desse costume do seu bom filho se alarmaram muito, lhe perguntaram o que é que era aquilo, e denegriram a sua conduta com termos tão ásperos e convincentes que, com lágrimas nos olhos, ele reconheceu sua culpa, se arrependeu sincero, e durante muito tempo se aplicou em disparar apenas sobre os outros meninos.
Dedicado anos depois às Forças Armadas, na Segunda Guerra Mundial Davi foi promovido até general e condecorado com as cruzes mais altas por matar sozinho trinta e seis homens, e mais tarde degradado e fuzilado por deixar escapar com vida um Pombo mensageiro do inimigo.
...................................................................................................
O AUTOR:
Augusto Monterroso nasceu em 1921, na Guatemala. Em 1944, mudou-se para o México. Notabilizou-se pela capacidade de ser, ao mesmo tempo, profundo e conciso em seus contos.
Foi agraciado, em 2000, com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios. "O dinossauro", uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". Augusto Monterroso faleceu em fevereiro/2003.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Contos do Mundo: Lixo, Lixado (Mia Couto)
Autor: Mia Couto
País de Origem: Moçambique
Lixo, Lixada
Orolando Mapanga não tinha onde cair vivo? É a impura verdade. Dele se fica sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há no não.acontecer da vida. Lugar de viver de Orolando era na lixeira, lá no interior, primeira transversal, à direita. Com boas vistas para o mar, mesmo na vertente de um monte de desperdicio. Apanhando boa brisa, mau grado os péssimos odores. Ali ele despachava os seus afazeres. Ao fim da tarde, saía a procurar restos de comida, gordurazinhas, singelas putrefacções. Raspava o fundo das latas, auscultava o ventre dos sacos. Ao ler seu constante sorriso, dir-se-ia que a felicidade é coisa encontrável mesmo na imundície. Orolando bem que defendia as vantagens do lugar:
- Aqui não chega nenhum bandido.
Lugar seguro de viver, isso ele garantia. Sossegado, também. Só no fim da madrugada o silêncio se sujava com os camiões trazendo o lixo. Mas, para ele, aquele barulho era o anunciar da mantimentação. Nunca se aproximou dos camiões. Ele não queria mostrar a sua vivência a ninguém, chamar a inveja dos outros. Essa gente quer coisas completas, cheias. A mim me basta o bocadinho da metade era o pensar dele enquanto empurrava um velho carrinho de mão pelas ruelas da lixeira. Outra vantagem era a guerra morar longe. É verdade que ali sempre se escutavam disparos. Mas era coisa da distancia, lá no lugar dos citadinos. Certa noite, ao buscar adomercimento, Mapanga escutou um ronco.
- É um porco, isso.
Sabia, o campo lhe ensinara. Voz de bicho era sua sapiência. Pelo cantar de uma só galinha ela adivinhava o tamanho de toda a criação. Pelo balido do cabrito ele sabia a cor do bicho. Desta vez, porém, ao invés da doce lembrança dos campos, seus olhos se nevoaram de ódio. Afinal, havia outro ser disputando as sobras. E ali mesmo jurou morte ao intruso. Desde então se dedicou a perseguir o suíno. Saía manhã cedinho à procura dele. A lixeira nunca lhe parecera tão grande. Ele conhecia os recantos, os fedores, os charcos. Porém, não havia maneira. O bicho esburacava nos monturos, sacana, não ficava nem rasto do cheiro. Vantagem do porco é ter um focinho polivalente, dá para escavar também. Até que, numa madrugada, Orolando desapertou com um bafo que se despejava em seu rosto. Berrou, borrou-se.
- Maiuê, as hienas me comem o nariz!
Palpou o escuro, deu de mãos numa pele lisa, agarrou com força. Foi como se espremesse um saco cheio de gritos. Era o porco em aflição. Segurou a presa com força, que a bicheza é inteligente há muito mais tempo que os homens. Amarrou-lhe as pernas e ficou-se longo tempo a contemplar a berraria do prisioneiro. Primeiro, lhe chegou um sentimento que há muito tempo não experimentava. Ali estava um vencido implorando as clemencias. Gozou aquele poder, em desconhecimento fundo de sua alma. Afinal, agora ele era proprietário, não de restos mas de uma vida inteira e recheada. Enquanto matutinava este sentimento, de quando em quando, despachava uns pontapés no bicho. Nesse dia, nem saiu a procurar abastecimento. Só ficou ali, olhando o novo habitante, escolhendo o destino a lhe aplicar. Indecidia-se morte haveria de ser. Mas o porco merecia ser comido? Deixou o despacho para mais tarde aquela era sentença que não viria do pensamento. A noite chegou, cansada do seu trabalho na outra face do mundo. Orolando Mapanga anotou o frio, juntou velhos jornais à sua volta. Mas o cacimbo lhe trouxe arrepios, esgotados que estavam seus agasalhos. Então ele se chegou ao porco, abraçou-lhe como só merece uma mulher. E, aos poucos, se foi contagiando com o quentinho de uma outra vida. No seguinte dia, ele se polemicava mais vale a fome ou o calor de uma companhia? Pelo sim pelo talvez, decidiu adiar a sentença do bicho. E quando, entre os lixos, descobriu uma velha corda, lhe deu uso de trela e levou o suíno a passear. Mesma coisa os brancos fazem com os cães. O bicho de estimação mereceu até nome téksmanta. [Texmanta nome de uma fabrica textil em Moçambique] Agora, quem passar pela lixeira pode ver um porco, com dignidade canina, encaminhando seu dono pelos detritos, oferecendo seu faro para a escolha da migalhas da sobrevivência. Dizem o Mapanga se vai esquecendo da lingua humana, soletrando só a fonética do bicho. Afinal, vivendo na porcaria ele combina melhor com o idioma dos porcos é o parecer dos trabalhadores do lixo quando se despedem dos domínios de Orolando Mapanga.
...................................................................................................
O AUTOR:
Mia Couto (Beira, 1955) é um escritor moçambicanos. António Emílio Leite Couto foi nominado Mia devido a seu irmãozinho não conseguir dizer "Emílio". Segundo o próprio autor, a utilização deste apelido tem a ver com sua paixão pelos gatos, dizia a seus familiares desde sua infância que queria ser um deles.
Nasceu na Beira, a segunda cidade de Moçambique, em 1955. Ele disse uma vez que não tinha uma "terra-mãe" - tinha uma "água-mãe", referindo-se à tendência daquela cidade baixa e localizada à beira do Oceano Índico para ficar inundada.
Iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que se iniciava no jornalismo e abandonou aquele curso para se dedicar a tempo inteiro à segunda ocupação. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e mais tarde tirou o curso de Biologia, profissão que exerce até agora.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Contos do Mundo: Continuidade dos Parques (Julio Cortázar)
Quais os limites entre a ficção e a realidade? Surpreenda-se com essa narrativa genial de Cortázar.
Autor: Julio Cortázar
País de Origem: Argentina
Publicação Original:1956
Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte.
Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam aboninavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.
Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
...................................................................................................
O AUTOR:
JULIO CORTÁZAR
É considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, mestre do conto curto e da prosa poética, comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Foi o criador de novelas que inauguraram uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo os moldes clássicos mediante narrações que escapam da linearidade temporal e onde os personagens adquirem autonomia e profundidade psicológica inéditas.
Seu livro mais conhecido é Rayuela (O Jogo da Amarelinha), de 1963, que permite várias leituras orientadas pelo próprio autor.
Cortázar inspirou um grande número de cineastas, entre eles o italiano Michelangelo Antonioni, cujo longa-metragem Blow-up foi baseado no conto As Babas do Diabo (do livro As Armas Secretas).
...................................................................................................
LITERATUBE
LEIA O TEXTO ORIGINAL EM ESPANHOL LÁ EMBAIXO, NO FINAL DO BLOG
terça-feira, 7 de abril de 2009
Contos do Mundo: Um Incidente na Ponte de Owl Creek (Ambrose Bierce)
Você acredita nos seus sentidos? Uma narrativa extremamente desafiadora, capaz de jogar com as noções de tempo, espaço e... realidade!
PAÍS DE ORIGEM: EUA
AUTOR: Ambrose Bierce
PUBLICAÇÃO ORIGINAL: 1890
De pé sobre uma ponte ferroviária no norte do Alabama estava um homem olhando para as águas que corriam a uns cinco metros abaixo. Suas mãos estavam atadas atrás das costas. Presa numa viga de madeira, logo acima da sua cabeça, uma corda lhe dava o nó no pescoço e pendia até a altura dos seus joelhos. Ele e seus executores - dois
soldados e um sargento do Exército Federal - estavam sobre um estrado formado por tábuas dispostas sobre os dormentes dos trilhos. Um pouco afastado, na mesma plataforma, estava um oficial armado e cada extremidade da ponte era guardada por um sentinela.
Por um lado, depois de um dos sentinelas, os trilhos entravam pela floresta e perdia-se entre as árvores uns 100 metros além. Do outro lado havia uma área de campo aberto, com uma paliçada de troncos fincados na terra, com vãos esparsos para o uso de armas de fogo. Por uma delas saía a boca de um canhão de bronze, voltado para a ponte. Entre a paliçada e a ponte alinhavam-se os homens da companhia de infantaria, imóveis, mas na posição de descanso. Como estátuas esculpidas na arquitetura da ponte, sentinelas enfileiravam-se diante das margens do rio. Impassível, de braços cruzados, o capitão acompanhava em silêncio o trabalhos dos seus comandados. A morte quando anunciada é sempre recebida com formalidades respeitosas, mesmo para quem esteja com ela familiarizado.
O condenado era uma civil de 35 anos. Traços finos e perfeitos - nariz retilíneo, boca bem formada, testa ampla, cabelos longos, escuros, penteados para trás, cobrindo até a gola do seu casaco de belo corte; usava bigode e cavanhaque e os olhos, cinza escuro, eram grandes. Podiase ver que não se tratava de um criminoso vulgar, mas o código militar liberal previa penas de enforcamento para crimes de guerra, mesmo em se tratando de cavalheiros.
Encerrados os preparativos, os dois soldados se retiraram, cada um levando a tábua que lhe servira de piso. O sargento fez uma continência para o capitão e colocou-se
em seguida atrás dele, que deu um passo para o lado. Essa movimentação deixou o condenado numa das extremidades da prancha e o sargento na outra. A prancha era suportada por três vigas da ponte e a extremidade onde estava o civil ficava em balanço, sem alcançar a quarta viga, e o peso do sargento é que a mantinha equilibrada. Ao sinal da capitão, o sargento daria um passo atrás, a prancha e o civil despencariam.
Nem haviam colocado um capuz, nem vedado os olhos do condenado, e ele pôde observar as águas do rio, lá em baixo, e sua correnteza. Acompanhou com os olhos um tronco que flutuava e parecia se mover lentamente. Que rio mais preguiçoso esse!
Fechou seus olhos, concentrando-se em lembrar da mulher e dos filhos. A água, que refletia o dourado do sol matutino, a névoa sobre ela, o forte, os soldados, o pedaço de madeira - desviavam seu pensamento da tragédia. De repente sentiu que algo o perturbava. Era um som que não conseguia definir - um som agudo, parecido com o malho de ferreiro na bigorna - e o afastava das lembranças de seus entes queridos.
Ele procurava a origem daquele som, paradoxalmente, lhe parecia ao mesmo tempo próximo e longínquo. Repetia-se regularmente, fúnebre. Esperava cada badalada com impaciência e preocupação. Os intervalos foram se tornando cada vez mais longos e exasperantes, e quanto mais se distanciavam, mais intenso ficavam os sons. Chegou a ferir-lhe os ouvidos e o condenado estava a ponto de gritar. Mas, afinal, o que estava escutando era o tique-taque do seu relógio.
Abriu os olhos para ver as águas do rio, sob seus pés. Se conseguisse libertar as mãos, pensou, e livrar-se das cordas, poderia pular. Mergulhando, talvez conseguisse fugir do tiroteio, alcançar a margem e escapar fugindo para a floresta. "A minha casa, graças a Deus, está fora das linhas inimigas. Minha mulher e meus filhos ainda estão para lá da linha alcançada pelos invasores".
Enquanto os pensamentos fervilhavam na cabeça do civil, o capitão fez um sinal para o sargento, que se afastou, saindo de cima da prancha. Peyton Farquhar era dono de uma grande plantação e membro de tradicional família do Alabama. Como proprietário de escravos, político, e escravagista como a maioria deles, era ainda um separatista devotado à causa sulista. Impedido de alistar-se no exército por motivos alheios à sua vontade, reclamava da discriminação que o impedia de ter as regalias militares e a oportunidade de receber honrarias. Mas sabia que teria uma chance, pois, em tempos de guerra, ela chega para todos. Enquanto isso, ia fazendo o que era possível para freqüentar o ambiente militar. Nenhum serviço lhe parecia muito humilde ou nenhuma aventura, demasiadamente perigosa.
Uma tarde, Peyton e sua esposa estavam sentados num banco rústico junto à sua propriedade, quando se aproximou um soldado a cavalo, farda empoeirada, que pediu água. Ele esperou a mulher se retirar para perguntar, curioso, das notícias das linhas de frente.
- Os ianques estão consertando as estradas de ferro - disse o soldado - e se preparam para avançar. Chegaram à ponte de Owl Creek, a refizeram e ainda construíram um forte, na margem norte. O comandante fixou um aviso advertindo que qualquer pessoa surpreendida sabotando a via férrea, pontes, túneis ou trens, será sumariamente enforcada.
- A que distância fica Owl Creek? - perguntou Peyton.
- Uns cinqüenta quilômetros.
- E há soldados do lado de cá do rio?
- Só uma escolta daqui quase um quilômetro, nos trilhos, e um sentinela isolado na cabeceira da ponte.
- Imagine que um homem, estudante de engenharia de pontes, consiga ludibriar a escolta e dominar a sentinela, - perguntou Peyton. - O que ele poderia fazer?
- Estive lá no mês passado - respondeu o soldado, depois de pensar alguns segundos, - e notei que, com as enchentes do último inverno, foram carregados muitos
troncos que se amontoaram do lado de cá das escoras da ponte. Eles agora estão secos e devem queimar facilmente.
A dona da casa chegou com a água e o soldado matou sua sede. Agradeceu em seguida, com delicadeza, despediu-se e partiu. Cerca de uma hora mais tarde, quando já escurecia, ele voltou a passar pela fazenda, dirigindo-se para o norte, de onde viera. Era uma soldado da guarda da guarda avançada federal.
Ao cair entre as vigas da ponte, Peyton Farqhar perdeu a consciência e ficou imóvel. Despertou dessa letargia - que lhe pareceu uma eternidade - com a dor provocada pela
pressão na garganta, que o asfixiava. Acompanhava uma dor aguda e persistente que parecia se espalhar por todas as fibras do seu corpo, por onde, de forma bem definida, essa dor latejava com periodicidade terrivelmente rápida.
Eram torrentes de fogo aquecendo-o à temperatura insuportável. Mentalmente predominava uma sensação de congestão e fartação. Mas o raciocínio não existia, como o sentido intelectual. Apenas sentir era o martírio. Conscientizava o movimento oscilatório, no qual era um núcleo ardente de uma nuvem, como um grande pêndulo.
De repente, aquela luminosidade que o envolvia, parecia solta no espaço e em seguida um som violento de encontro com a água. Então um clamor louco vibrou nos seus ouvidos e tudo era frio e escuro. Restabeleceu-se a capacidade de raciocinar e o homem concluiu que a corda se partira e ele mergulhara no rio. Se abrandara o estrangulamento. A corda em volta do seu pescoço o sufocava mas impedia a entrada de água em seus pulmões. Não concebia morrer enforcado no fundo do rio. Abriu os olhos e viu um feixe de luz, distante, inatingível! Ele continuava a afundar e a luz a perder a intensidade, até quase desaparecer. Mas então seu brilho retornou e Peyton
percebeu que voltava à tona.
Inconsciente de qualquer esforço, com dores agudas no pulso, percebeu que procurava soltar suas mãos. Mas não se concentrou nisso, como quem assistisse um mágico ludibriar as pessoas, sem qualquer interesse no resultado. Então a corda se soltou e os braços do homem flutuaram acima dele, formando vultos difusos, atenuando a claridade que vinha aumentando. Observou-as com interesse ao vê-las se aproximarem do seu pescoço. Libertaram-no da corda afastando-o dela e a corda se foi serpenteando, como se fosse uma cobra.
Seu pescoço doía intensamente; o cérebro parecia arder e o coração saltava, tentando sair pela boca. O corpo torturado se contorcia angustiado. As mãos açoitavam a água com força, empurrando-a para baixo, com braçadas rápidas, impelindo seu corpo para cima. Então sentiu a cabeça emergir e a luz do sol arder nos seus olhos. O peito expandiu-se em estertor e os pulmões sugaram quanto de ar conseguiram, expelindo-o em seguida com um grito de alívio.
Entrou então no controle dos seus sentidos, cuja acuidade estava acima do normal. Na perturbação do seu sistema biológico, alguma coisa o levava a uma percepção de pormenores nunca sentida. A ondulação da água batia-lhe no rosto e ele ouvia as batidas. Na margem via a floresta e os detalhes da vegetação, cada árvore, cada folha, cada nervura, cada inseto. Via os gafanhotos, as moscas de corpo cintilante, as aranhas tecendo suas teias. Ouvia o zumbido dos mosquitos, que bailavam tocando as águas, e das libélulas; ouvia o barulho das pernas das aranhas aquáticas, como remos. Todos esses sons formavam uma sinfonia e ele percebia cada um dos seus acordes. Ouviu até o deslizar de um peixe, cortando a água.
Peyton viera à tona voltado à jusante. Então a visão que tinha, sendo ele o ponto central, passou a girar lentamente. Viu a ponte, o forte, os militares enfileirados,
o capitão, o sargento, os dois soldados e os seus executores, desenhados sobre o céu azul. Eles gritavam e gesticulavam, apontando para ele. Apenas o capitão empunhava uma pistola, mas não atirou. A movimentação deles era grotesca e seus perfis, disformes, horríveis e descomunais.
De repente, ouviu o som de um tiro e algo entrou na água, junto à sua cabeça, e chegou a sentir os respingos no seu rosto. Ouviu outro tiro e viu um dos sentinelas, ainda com a fumaça de pólvora à sua volta, com a arma apontada para ele. Peyton viu, do outro lado da mira, o olho do atirador que o mirava. Notou que o olho era cinzento, lembrando-se de ter lido que os olhos cinzentos eram os mais aguçados... e comuns aos bons atiradores. Mas aquele havia falhado.
Um redemoinho fez Peyton dar uma volta, deixando-o de frente para a floresta, novamente, na margem oposta ao forte. Atrás de si ouvia uma voz alta e clara, num
compasso monótono, que chegava a ele sobrepondo-se a todos os outros sons. Mesmo não sendo militar, Peyton convivera com os soldados o bastante para saber o que significado daquela ladainha.
Aquelas palavras cruéis, ditas cadenciadamente, sem emoção, mas prenunciando a morte de uns para tranqüilizar outros, soavam insensíveis: "Atenção, pelotão!... Ombro!... Arma!... Preparar!... Apontar!... Fogo!"
Peyton mergulhou - tão fundo quanto pôde. A água ciciou nos seus ouvidos como o ribombar do Niágara. Voltando à tona, após o estrondo da descarga, viu pedaços brilhantes de metal, que afundavam lentas e oscilantes para o fundo do rio. Alguns fragmentos tocaram seu rosto e com as mãos retirou outro, que lhe queimava, entre o pescoço e o colarinho.
Quando retornou à superfície, reparou que havia sido levado pela correnteza e estava bem distante dos soldados. Eles tinham acabado de carregar suas armas, com as varetas metálicas a refletir o sol, quase simultaneamente. Os dois sentinelas voltaram a disparar, um de cada vez... e falharam.
O homem acossado, que viu a cena por sobre o ombro, fugia nadando no sentido da correnteza. Seu cérebro, seus braços e pernas, trabalhavam vigorosamente e o raciocínio se desenvolvia com rapidez.
"O oficial" - pensou ele, "não vai cometer o mesmo erro, ordenando uma segunda artilharia. Escapar de uma rajada compacta é tão fácil como de um tiro. Provavelmente vai ordenar que disparem vontade. Deus me ajude! Não vou poder escapar de todos os tiros."
Cerca de dois metros dele, ouviu um intenso chapinhar seguido de um estrondo forte, que ecoou por todos os lados, terminando numa explosão que agitou as águas do
rio. Um verdadeiro lençol de água avançou sobre ele, sufocando-o. Era o canhão participando da caçada! Ao voltar à superfície para respirar, um tiro passou zunindo
sobre sua cabeça, ricocheteando na água, arrebentando galhos na floresta.
"Não farão isso de novo," pensou. "Na próxima vez vem descarga de metralha. Não posso perder o canhão de vista e devo me guiar pela fumaça, porque, quando eu ouvir o
som, já será tarde demais. O projétil é mais rápido. Esse canhão é dos bons."
De súbito começou a rodar como um pião. A água, as margens, a floresta, e, mais distante o forte e os homens, tudo parecia rodar à sua volta numa mancha indefinida,
formando fachas horizontais coloridas. Entrara num forte redemoinho que lhe estonteava e provocava náuseas, sendo depois jogado para o cascalho da margem sul, por trás de uma elevação que o protegia dos seus algozes. A repentina pausa dos movimentos o reconfortou a ponto de fazê-lo chorar de prazer. Apesar das escoriações, encheu suas mãos de areia, jogando-a sobre si mesmo, agradecendo a Deus, quase aos gritos. Confundia areia com diamantes, rubis e esmeraldas, alçando-a entre as suas mais belas visões. As árvores surgiam como plantas de um enorme jardim. Aspirou a fragrância do lugar, que lhe parecia estranhamente ordenado. Um raio de sol, rosado, brilhou entre os troncos e o vento tirava dos ramos um som de harpa. Relaxou-se naquele lindo jardim, pouco disposto a planejar o prosseguimento da fuga.
Foi acordado daquele sonho com o sibilar dos projéteis que voavam sobre a sua cabeça. O atirador lançara uma rajada de tiros onde apenas supunha onde ele estivesse. Peyton deu um salto e subiu correndo a ribanceira, embrenhando-se na floresta. Então, orientando-se pela luz solar, caminhou o dia todo. A floresta não tinha fim, sem clareiras ou trilhas. Ele mesmo não sabia que vivia numa região tão agreste, reconhecendo, na descoberta, que algo havia de misterioso ali.
Ele ainda caminhava, com os pés doloridos e faminto, quando anoiteceu. Animava-o, apenas pensar na mulher e nos filhos. Mas enfim encontrou uma estrada que, intuiu, o
levaria à sua plantação. Era larga, reta, parecendo nunca ter sido usada. Não havia cercas, nem habitações. Nem mesmo o ladrar de um cão, nada indicava a presença de
um ser humano. Margeavam-na vultos negros de árvores formando uma parede que no horizonte terminava num ponto, como num desenho de perspectiva. Acima cintilavam estrelas douradas formando constelações desconhecidas, que ele considerou montadas para enviar uma mensagem maligna. Dos lados, vindos da floresta, sons estranhos e assustadores que, às vezes, lhe pareciam murmúrios numa língua estranha.
O pescoço continuava a doer e, tocando-o com a mão, sentiu que estava bastante inchado. Imaginou que em torno dele se desenhava uma marca escura, marcada pela
corda. Abrandou a febre e a sede pondo a língua para fora, entre os dentes, em contato com o ar frio. Como era macio o tapete formado pela relva, ainda nunca pisada. Ele já não sentia nada sob os pés. Apesar de todo o sofrimento, teria adormecido enquanto caminhava, porque outra visão surgia à sua frente... ou talvez ele estivesse despertando de um delírio. Via-se junto ao portão da sua própria casa. Tudo estava como antes de ter partido - um deslumbrante panorama, sob o sol matutino. Imagina ter viajado a noite toda. Entra e segue pelo caminho amplo e claro à sua frente. Sorrindo com uma expressão calma e jovial, a sua mulher desce da varanda e fica à espera dele no final da escada, mantendo aquele sorriso inefável, numa atitude incomparável de graça e dignidade. Ah, como é bela! Estendendo os braços
ele corre na sua direção, mas, prestes a abraçá-la, sente uma forte pancada na nuca. Ofusca-lhe uma forte luminosidade branca e o som retumbante de um tiro de canhão. Depois, tudo é silêncio e escuridão!
Peyton Farquhar está morto. Seu corpo, com as vértebras cervicais quebradas, balança lentamente de um lado para outro, sob o vigamento da ponte de Owl Creek.
...................................................................................................
O AUTOR:
AMBROSE BIERCE
(1842-1914?)
O escritor e jornalista americano, conhecido como "Amargo Bierce" definia que "sozinho" era estar em "má companhia". Bierce fez do cinismo, misturado ao
humor negro, sua marca registrada. Família, nação, raça humana: nada escapava de suas estocadas, até hoje repetidas nos Estados Unidos.
Contista excelente, suas obras são constantes em qualquer antologia de contos americanos.
Aos 71 anos, Bierce seguiu em viagem para o México e sumiu sem deixar rastros. A teoria mais popular diz que ele foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa.
Principais Obras:
"O Dicionário do Diabo", "Cruzando o Umbral", "Visões da Noite", "Luar sobre a Estrada", "Um Incidente na Ponte de Owl Creek ", "No Limiar do Irreal", "A Morte de Halpin Frayser ", "O Ambiente Adequado".
LEIA O TEXTO ORIGINAL, EM INGLÊS, LÁ EMBAIXO, NO FINAL DAS POSTAGENS DO BLOG!
sexta-feira, 13 de março de 2009
Contos do Mundo: Angústia (Tchekov)
País de Origem: Rússia
Tradução: Boris Schnaidermann
Publicação original: 1886
.........................A quem confiar minha tristeza?(1)
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover. Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.
Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.
- Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo...
O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
Combinaram isso.
Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...
Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.
- O quê? - pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:
- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.
- Hum!... De que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.
- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!
O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel... A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...
Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.
- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda, com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!
Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?
Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.
- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...
- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...
- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos. - Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.
Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço comprido. - Mente como um animal.
- Que Deus me castigue, é verdade...
- Tão verdade como um piolho tossindo.
- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!
- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. - Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:
- Esta semana... assim, perdi meu filho!
- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?
- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!
- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.
- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê saúde!
- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.
Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...
E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz...
Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.
- Que horas são, meu caro? - pergunta.
- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!
Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.
"Para casa", pensa, "para casa".
E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...
"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."
Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.
- Ficou com sede? - pergunta Iona.
- Com sede, sim!
- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...
É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.
"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre há tempo para dormir..."
Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...
_____________________________________________________________________
(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.
.......................................................................................................
O AUTOR
Escritor russo, Anton Tchékov nasceu em Taganrog, no sul da Rússia, no dia 17 de Janeiro de 1860, filho de um comerciante. A sua família mudou-se para Moscovo em 1876 devido à falência do pai, mas Anton permanece na cidade natal para terminar o liceu. Assim, só três anos mais tarde se juntou à família em Moscovo, onde se matricula na faculdade de Medicina. Para ajudar financeiramente a família, Tchékhov faz pequenos trabalhos jornalísticos e as primeiras tentativas literárias. Termina os estudos de Medicina em 1884 e começa a exercer nos arredores de Moscovo.
A sua primeira narrativa é publicada num jornal humorístico em 1880, desencadeando uma intensa colaboração de Anton com diversas publicações. Os seus primeiros textos dramáticos datam do final da década de 1880 (Ivánov).
No ano de 1892 compra uma casa no campo, em Mélikhovo, para onde se muda com a família.
Três anos mais tarde visita Tolstoi, cujas ideias irão exercer grande influência e fascínio sobre Tchékhov.
Por motivos de doença, muda-se para Ialta, em Crimée. É no final da sua vida que escreve as três peças que o consagram como grande dramaturgo: A Gaivota em 1896, As Três Irmãs em 1900 e O Cerejal em 1903.
Em 1904 parte para a Alemanha com a actriz Olga Knipper, com quem casara em 1901, morrendo no mês de Julho em Badenweiler, na Floresta Negra.
Hoje é reconhecido como um dos mais importantes escritores russos
