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terça-feira, 30 de março de 2010

Morre Armando Nogueira, um dos maiores poetas da crônica esportiva


Fonte: Jornal do Brasil

O Jornalismo perdeu, segunda-feira, um mestre, um criador. Um poeta. Por volta das 7h, em seu apartamento, na Lagoa, Zona Sul do Rio, faleceu, vítima de câncer no cérebro, Armando Nogueira, de 83 anos. O sepultamento será terça-feira, às 12h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Sobrevivente de uma era dourada, Mestre Armando Nogueira se junta agora a lendas como Sandro Moreira, Nélson Rodrigues e João Saldanha – nomes que contribuíram em larga escala para o esporte.

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre, no dia 14 de janeiro de 1927, e se mudou para o Rio aos 17 anos, onde se formou em Direito. Sua paixão, no entanto, era o jornalismo e, em 1950, foi trabalhar na editoria de esportes do Diário Carioca, colaborando com o Diário da Noite, Revista Manchete e Revista O Cruzeiro.

Em 1959, ingressou no Jornal do Brasil, onde trabalhou como redator e assinou a coluna diária Na grande área até 1973. Voltaria a escrever a coluna no início dos anos 2000.

– O Armando também foi pauteiro e as pautas dele mereciam ser publicadas de tão bem escritas. Era o Machado de Assis da crônica esportiva – disse o jornalista Sérgio Cabral, presente ao velório na Tribuna de Honra do Maracanã.

A convite de Walter Clark, foi para a Rede Globo, em 66, ficando até 90. Ao lado de Alice Maria, que esteve segunda-feira no velório, implantou o telejornalismo em rede nacional. Ele criou Jornal Nacional, o Globo Repórter e o Globo Esporte, passando a ocupar o cargo de diretor da central Globo de Jornalismo.

– O telejornalismo deve tudo a ele porque tudo nasceu desse poeta, que deve estar feliz de se despedir de nós, aqui no Maracanã – disse Alice Maria, ex-estagiária do mestre.

Em 1992, integrou a equipe da Rede Bandeirantes nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Em 1994, ingressou no SporTV à frente do programa Papo com Armando Nogueira, participando dos programas Esporte Real e Redação SporTV.

Desde a Copa do Mundo de 54, esteve na cobertura de todos os Mundiais. O “poeta do futebol “deixou uma vasta coleção de livros, como Drama e glória dos bicampeões, A Ginga e o Jogo e A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar, entre outros.

Armando era torcedor do Botafogo. Foi dele o apelido de Gênio das Pernas Tortas dado a Mané. Era prodigioso em criar grandes frases. Entre elas, “Pelé é tão perfeito que se não tivesse nascido gente, teria nascido bola”, “Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio” e “A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”.

Em 2007, já com câncer no cérebro, afastou-se da profissão. Seu último trabalho foi como colunista do jornal Lance!. Ganhou homenagem da Suderj, inaugurando com seu nome um espaço com seu nome no hall da fama do Maracanã. Sua última aparição foi em 18 de maio de 2009, na inauguração da sala de imprensa de General Severiano, que leva seu nome.

Amigos se emocionam no adeus ao Mestre

O corpo do mestre da crônica esportiva brasileira não poderia ser velado em outro local senão na tribuna de honra do templo do futebol: o Maracanã, onde ele está imortalizado com o 'Espaço Armando Nogueira', inaugurado há exatos dois anos: no dia 30 de março de 2008.

Desde às 14h30, os dois telões do estádio exibiam fotos e célebres frases criadas pelo Mestre, sensibilizando amigos e parentes que foram ao estádio lhe dar o último adeus.

– Começamos juntos no Jornal do Brasil, em 59, e viramos amigos. Além de talentoso, o Armando era prestativo. Em 62, fui demitido por fazer greve e ele pediu um empréstimo bancário em seu nome para ajudar um desempregado – lembrou o jornalista Sérgio Cabral, que considerava Armando um gênio. – Tentei imitá-lo, mas não consegui – admitiu ele.

O velório se estenderá até 11h, com o enterro marcado para 12h, no Cemitério São João Batista. O Maracanã passou a noite com seus refletores acessos, como última homenagem ao mestre dos jornalistas.

– No meu primeiro dia como comentarista, o Armando me orientou: "Você pode elogiar sem bajular e criticar sem ofender. Faça isso" – lembrou o ex-jogador Júnior. – Ele respeitava a todos, tomei isso como norte e não me arrependo.

Entre as dezenas de coroas de flores, duas chamavam à atenção no velório: uma de Pelé, outra do Botafogo. Dois temas que Armando não se cansou de enaltecer em suas crônicas.

Além das coroas, as bandeiras do Brasil, Rio de Janeiro, Botafogo e do Acre (onde ele nasceu) ornamentavam o hall da tribuna de honra. À beira do caixão, um banner com uma poesia do Mestre sobre o Maracanã, que ele escreveu no livro O Vôo das Gazelas, de sua autoria e que está exposta no Espaço Armando Nogueira.

O Maracanã completa 60 anos dia 21 de junho e a secretária estadual de Esporte, Turismo e Lazer, Márcia Lins, disse que qualquer homenagem seria pouco para enaltecer quem foi Armando Nogueira.

– Ele ajudou a escrever a história do Maracanã, onde torceu muito pelo Botafogo. Por isso, o adeus dele tinha que ser aqui. Mas nem dois Maracanãs lotados seriam suficientes para retribuir tudo o que ele sempre representará – disse Márcia.

Filho único do mestre, Armando Augusto Nogueira Filho, o Manduca, afirmou.

– O câncer que ele teve foi de nível quatro numa escala de cinco. Ou seja, foi grave. Das pessoas que operam, 30% ficam na mesa de operação. Os outros 70% sobrevivem só mais um ano e ele viveu mais três – lembrou Manduca. – Meu pai era muito forte. Fazia esteira, caminhada em volta da Lagoa. Por isso, resistiu tanto tempo e morreu com todos os sinais vitais funcionando.

Armando Nogueira vai dar nome ao Parque Olímpico, que será construído para as Olimpíadas de 2016, no Autódromo Nélson Piquet, em Jacarepaguá. Segunda-feira, o vereador Eider Dantas (DEM) enviou projeto de lei que passará por votação na Câmara de Vereadores.

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho

O Armando Nogueira tinha vários amores: o esporte, a palavra, a música e os amigos. Era mestre na prática de todos eles. Um polivalente, como se diz de alguém que é “craque” em todas as posições. Conheci-o na TV Rio inovando não só no jornalismo esportivo, mas no telejornalismo em geral. Na TV Globo, trabalhamos juntos por 23 anos.

Uma amizade sólida e sincera ficará para sempre, ultrapassando as barreiras da morte. Os finais de ano o Armando passava comigo, em Angra. Encantava a todos.

Com o Armando, começamos a implantar as bases do telejornalismo na televisão brasileira. O Armando não admitia que a televisão não cultivasse o preciosismo do texto, apesar de a imagem ser a base principal. Participamos juntos da criação do Jornal Nacional, do Globo Repórter e do Fantástico. O Armando é a mais importante personalidade do telejornalismo. A Globo deve muito a ele.

Os amigos que o Armando fez na vida conseguiram dar a ele um final digno. Eu ficarei para sempre com as palavras carinhosas e a expressão de felicidade do Armando, voando, tocando sua gaita, bebendo um bom vinho, escrevendo e distribuindo amor entre os amigos.

Hoje, sou testemunha do carinho com que a Globo, através do Octávio Florisbal, vinha dando ao Armando com apoio irrestrito que deu ao seu tratamento de saúde.

Leia a seguir uma das mais memoráveis crônicas de Armando Nogueira, celebrando a conquista do tri, em 70.


Na grande área

Armando Nogueira

México, 1970

E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa, levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.

E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.

O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.

Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.

Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.

Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.

Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.

Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.

Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.

Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.

A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.

Até que os deuses do futebol inventem outra.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Compras de Natal (Cecília Meireles)


COMPRAS DE NATAL

Cecília Meireles

A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços – e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que – especialmente neste verão – teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias.

Durável – apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.


Em: "Quatro Vozes", 1998.

domingo, 16 de agosto de 2009

Moacyr Scliar reúne crônicas ficcionais em coletânea


da Folha de S.Paulo

Crônicas ou contos? A dúvida perseguiu por algum tempo o escritor Moacyr Scliar, 72, mas nunca o incomodou muito. Ele afinal resolveu eliminar qualquer incerteza e definiu com clareza o gênero que pratica há 16 anos no caderno Cotidiano, da Folha: trata-se de crônicas ficcionais.

"Não são contos no sentido comum, nem crônicas. São ficções desencadeadas por notícias do cotidiano", diz. Uma seleção de 54 textos desse gênero agora é reunida em "Histórias que os Jornais Não Contam" (Agir), que está chegando às livrarias. São artigos publicados entre 2004 e 2009.

Suas colunas semanais são publicadas desde 1993 e "não falharam nenhuma vez", salienta. No início, o escritor, que é membro da Academia Brasileira de Letras, selecionava os temas a partir de casos policiais.

Depois, pediu para ampliar as referências a outras áreas. Mais tarde, incorporou as notícias veiculadas também na Folha Online, um terreno fértil para os assuntos curiosos e inusitados que abastecem seus artigos.

Por exemplo: "Pesquisadores da Universidade da Califórnia tornaram possível a invisibilidade". História: depois de resistir ao papel de cobaia, um servente baixinho e humilde de um laboratório de pesquisa, apelidado de Anãozinho, se vinga dos colegas roubando a fórmula da invisibilidade e partindo para as melhores aventuras ao usufruir a invenção.

Os motes são os mais diversos. Um japonês faz campanha para que seja legalizado o casamento com personagens de desenho animado. Nos EUA, virou moda dar festas quando os casais se separam. Cientistas da Nova Zelândia e do Japão criaram uma cebola "antilágrimas". Um rapaz tentou vender sua alma em um site de leilões na China. Um britânico descobriu que sua namorada tinha um amante graças às indiscrições de seu papagaio.

Processo de criação

Scliar diz que o processo de criação das crônicas é exatamente o mesmo que utiliza para seus romances ou contos. "É frequente eu começar a escrever sem esperança. Então, no processo de elaboração, acaba surgindo uma história."


Ele lembra que as notícias de jornal são matéria-prima de vários autores. Um dos mais notórios é Dalton Trevisan, que coleciona recortes para transformar em contos. "Atrás de cada notícia existe uma história esperando para se contada", afirma Scliar.

Ele diz que se surpreende especialmente com a forma como seus textos são utilizados nas escolas. "Existe esse aspecto educacional. Acabei de ser abordado por um professor no Piauí. Disse que pedia a seus alunos que fizessem as próprias versões baseadas nas notícias que eu utilizava para minhas histórias."

Produzir com tamanha regularidade não é problema para Scliar, que não gosta de ser chamado de prolífico. Este é o 88º livro da sua carreira.

HISTÓRIAS QUE OS JORNAIS NÃO CONTAM
Autor: Moacyr Scliar
Editora: Agir
Quanto: R$ 34,90 (184 págs.)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Verissimo anuncia novo livro


Cronista gaúcho esteve em BH ontem recebendo o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura

Um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, o gaúcho Luis Fernando Verissimo acaba de entregar para a editora Objetiva os originais de um novo livro: "Os Espiões". O cronista, que esteve ontem em Belo Horizonte para receber das mãos do vice-governador, Antonio Anastasia, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura - "Me senti honrado. Nem sabia que tinha obra", brincou, durante a cerimônia de premiação -, conta que o novo livro será o primeiro romance escrito por sua livre e espontânea vontade. E que deve chegar às livrarias até o final deste ano.

"Sou cronista e sempre escrevi romance por encomenda, com a editora me sugerindo um tema", conta Verissimo, que já publicou três livros do gênero: "Borges e os Orangotangos Eternos", "Gula - O Clube dos Anjos" e "O Jardim do Diabo". "Esse (‘Os Espiões’) foi o primeiro onde ‘a encomenda’ partiu de mim mesmo", brinca.

Sempre muito discreto, Verissimo, no entanto, desconversa sobre detalhes do novo livro. "É meio complicado explicar numa entrevista. Não chega a ser uma paródia de livro de espionagem. Mas é uma história de espionagem que, em vez de se passar no mundo da intriga internacional, se passa no interior do Rio Grande do Sul", conta.

Gênero menor
Um dos mais importantes nomes da crônica brasileira, Verissimo parece não se importar com a opinião de certa parte da crítica brasileira que sempre classificou a crônica como gênero menor.

"Acho a crônica um gênero importante. Principalmente no Brasil, que teve um destaque que em outros países não alcançou. Por alguma razão o brasileiro gosta de crônica", avalia o jornalista, que diz não conseguir entender muito bem o preconceito que o gênero desperta em alguns intelectuais brasileiros. "Esse preconceito é mesmo inexplicável. Alguns dos grandes escritores brasileiros nunca fizeram outra coisa além de crônica: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antonio Maria. E todos eles foram ótimos escritores", analisa.

Modesto, Verissimo conta que quando começou a trabalhar em jornal não tinha ideia de que um dia iria se transformar em escritor. "Fui descobrindo que era cronista aos poucos".

Filho do escritor Érico Veríssimo, vira e mexe sua obra é comparada com a do pai. Durante a era FHC, por exemplo, o próprio presidente fez a comparação. Talvez cansado de ser criticado pela coluna semanal de Verissimo em vários jornais nacionais, o presidente tucano declarou que gostava mais da obra do pai do que a do filho. Luis Fernando, sem perder por um instante a fleuma, parece não se importar com a opinião do presidente intelectual. "O pai foi um romancista e um dos mais importantes romancistas da literatura brasileira",define. "Já a minha atividade foi sempre mais jornalística do que propriamente literária. Faço essa coisa intermediária: um meio termo entre literatura e jornalismo que é a crônica. Acho até natural que as pessoas comparem minha obra com a de meu pai. Mas essa é uma comparação que eu não faço", afirma.

Assim como não gosta dessa comparação que é feita de sua obra com o pai, o escritor não vê muito sentido em opinar sobre alguns trabalhos seus que foram adaptados para a televisão ou o teatro. "Sempre encaro como sendo o trabalho de uma outra pessoa: não faço comparação se é fiel ou não ao meu texto. Não faço julgamento", sentencia.

Verissimo, que gosta de brincar que sua maior vocação profissional sempre foi mesmo ser aposentado, faz por fim uma revelação: a vontade de parar de escrever. "Tenho a minha mesa de cabeceira cheia de livros que não li ainda. Nos próximos quatro ou cinco anos, se eu durar tanto tempo, eu quero parar de escrever", finaliza o autor de 72 anos.

Prêmio
Além de Verissimo, que nesta segunda edição do prêmio venceu na categoria Conjunto da Obra, foram também premiados o escritor mineiro Reni Andrade (Ficção) e o poeta cearense Eduardo Jorge de Oliveira (Poesia). Já na categoria Jovem Escritor Mineiro, a jovem universitária Maria Zilda Santos Freires foi a vencedora.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Onde Parar (Luís Fernando Veríssino)


Ainda sobre a cara do Michael Jackson: fiquei pensando em como um dos grandes problemas da humanidade é não saber onde parar. É um defeito que nos aflige de várias maneiras, desde de não saber parar antes que um hábito se torne um vício até não saber parar de especular sobre a natureza do Universo antes de sucumbir à loucura. O Michael Jackson não soube onde parar de refazer a própria cara. Você e eu conhecemos muita gente que não soube parar de retocar a sua e também já ultrapassou a fronteira do grotesco irreversível. Faltou alguém para lhes dizer “Pare! Assim está bom. Nem um puxado a mais.”

A atual crise financeira mundial se deveu à incapacidade dos grandes financistas de Wall Street em reconhecer quando o lucro excessivo se tornava lucro obsceno. Ou seja, em saber onde parar. A questão da corrupção e da desigualdade extrema se resolveria se houvesse um dispositivo interior que alertasse quando o dinheiro roubado ou acumulado se tornasse demais, algo que avisasse “agora chega, nem um centavo a mais”. Porque, como se sabe, não são os milhões que corrompem e arruínam – é o centavo a mais. Aquele um centavo além do razoável, a perdição dos que não sabem onde parar.

Grandes artistas são os que sabem instintivamente onde parar. Pode-se imaginar um Velasques decidindo que uma das suas pinturas estava pronta. Que uma pincelada a mais – como o centavo a mais do corrupto e do rico gananciosos – faria tudo desandar. Ou um poeta depois do último retoque, da última micro-cirurgia estética no seu poema, lançando-o, certo de que não falta ou sobra uma palavra. É verdade que o instinto nem sempre ajuda. O Jorge Luis Borges dizia que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, para não ficar reescrevendo-os ao infinito. Mas Borges, que nunca fez um texto muito longo, foi um grande exemplo de quem sempre soube onde parar.

Nas especulações sobre as primeiras coisas do Universo saber parar também pareceria importante. Parar em Deus, criador do céu e da terra, e ficar por aí para prevenir maiores angústias, seria uma forma de sabedoria. Mas outros não se contentam com uma explicação teológica que relega o resto a um mistério que não nos diz respeito, e dizem que isto seria como decidir parar de pensar. Já outros...

Mas acho melhor parar por aqui.


*Crônica publicada no jornal 'Diário da Manhã' em (5/7/2009)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Homem que é homem (Luis Fernando Verissimo)

Charge by "Capitão Cocada"



Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.

HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.

HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.

E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.

*

Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!


Situação 1


Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!


Situação 2


Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.

Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.


Situação 3


Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu...

— O seu...?

— Joelho.

— Ah...

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você...

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.

*

Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.

HQEH nunca vai a vernissage.

HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.

HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.

Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".

Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".

Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.

HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.


Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam, Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 89.

sábado, 13 de junho de 2009

O Dia da Amante (Luís Fernando Verissimo)


Por que não um Dia dos Amantes? Já existe o Dia dos Namorados e hoje em dia a diferença entre namorado e amante tornou-se um pouco vaga. Quando é que namorados se transformam em amantes? Segundo uma moça, experimentada na questão, que consultamos, se a mulher der para o mesmo homem mais de dezessete vezes seguidas ele deixa de ser seu namorado e, tecnicamente, passa a ser seu amante. Os critérios variam, no entanto. Em certas regiões, só depois de dormirem juntos dois anos é que namorados se tornam legalmente amantes. Alguns estabelecem um meio-termo razoável: dezessete vezes ou dois anos, o que vier primeiro. Outros afirmam que a diferença está no grau de intimidade dos dois tipos de relacionamento. Num caso, as pessoas vão para qualquer lugar onde haja camas - apartamento, hotel, ou motel, sendo desaconselháveis hospitais, quartéis e lojas de móveis - tiram a roupa um do outro, às vezes usando só os dentes, atiram-se na cama, rolam de um lado para o outro, enfiam-se os dedos no orifício que estiver por perto, lambem-se, chupam-se, com ou sem canudinho, massageiam-se mutuamente com Chantibon, depois o homem penetra o corpo da mulher com seu órgão intumescido e os dois corpos movem-se em sincronia até o orgasmo simultâneo entre gritos e arranhões. Então se separam, suados, e vão tomar um banho juntos antes de saírem para a rua. Quer dizer, uma coisa superficial e corriqueira. Já o namoro, não. No namoro, não apenas o órgão intumescido mas todo o corpo do namorado penetra na própria casa da namorada todas as quartas-feiras. Eles se sentam lado a lado no sofá quente, coxa a coxa, e chegam a entrelaçar os dedos das mãos. Muitas vezes comem a ambrósia preparada pela mãe da moça com a mesma colher, gemendo baixinho. Existe ainda o prazer indiscritível de roçar com o braço o lado do seio da namorada, enquanto se conversa sobre futebol com o pai dela, um prazer que aumenta se, por sorte, estiver com um daqueles sutiãs pontudos usados pela última vez no Ocidente por Terry Moore, em 1953. A namorada, não o pai dela. Isto é que é intimidade.

Existem outros critérios para diferenciar namorado de amante. Amante é o namorado que leva pijama, por exemplo. Uma maneira certa de saber que o namorado já é amante é quando, pela primeira vez, em vez de dar uma para de meias para ele no Dia dos Namorados, ela dá um par de cuecas. E você terá certeza de que ele é amante quando alguém sugerir que ela lhe dê um certo tipo de cuecas e ela responder, distraidamente: "Esse tipo ele já tem..."



Mas estamos falando de namorados, ou amantes, solteiros. No caso de homem casado e com uma amante a coisa se torna mais complicada ainda e mais invejável. Antes de lançar o Dia dos Amantes os lojistas teriam que fazer uma pesquisa de mercado. O que despertaria a desconfiança dos entrevistados.

- O senhor tem amante?

- Foi a minha mulher que o mandou?

- Estamos fazendo uma pesquisa de mercado e...

- Onde é que está o microfone? É chantagem, é?

- Não, cavalheiro. Nós...

- Está bem, está bem. Tem uma moça que eu vejo. Mas nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora de três dias. E ela é bem baixinha. "Amante" seria um exagero. Mas eu prometo parar!

Uma vez decidido o lançamento do Dia dos Amantes, as agências de propaganda teriam que escolher a estratégia de marketing, ou, como se diz em português, o approach.

O tom das peças publicitárias variariam, é claro, de acordo com o tipo de comércio. As lojas de eletrodomésticos poderiam anunciar: "Tudo para o seu segundo lar". Ou então: "Faça-a sentir-se como a legítima. Dê a ela uma máquina de lavar roupa". As joalheria enfatizariam sutilmente o espírito de revanchismo do seu público alvo, sugerindo: "Aquele diamante que sua mulher vive pedindo... dê para a sua amante". Ou, pateticamente: "Já que ela não pode ter uma aliança, dê um anel...". Perfume: "Para que você nunca confunda as duas, dê Furor só para a outra..." Utilidades: "No dia dos amantes, dê a ela um despertador. Assim você nunca se arriscará a chegar tarde em casa".

Os comerciais para a televisão poderiam explorar alguns lugares-comuns. Por exemplo: homem entra no quarto e encontra amante na cama. Atira um presente no seu colo. Isso a faz lembrar de uma coisa. Ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e tira um presente também. Ele vai pegar, mas o presente não é pra ele. Ela levanta da cama, abre o armário e dá o presente para o seu amante escondido lá dentro. Congela a imagem. Sobrepõe logotipo do anunciante e a frase: "Neste Dia dos Amantes, dê uma surpresa". Hein? Hein? Está bem, era só um exemplo.



As confusões seriam inevitáveis. Marido e mulher se encontram numa loja de lingerie. Espanto da mulher:

- Você aqui?

Marido:

- Ahm, hum, hmmm, sim, ohm, ahm, ram.

- E escolhendo uma camisola!

- É que, ram, rom, ham, ahm, grum. Certo. Quer dizer...

- Você pode me explicar o que está havendo?

- Grem, grum rahm, rhom, ahn...

- Não vai me dizer que estava comprando pra mim. Há anos que não uso camisola. Ainda mais desse tipo, preta, transparente e com decote até o umbigo.

- Eu posso explicar.

- Então explique.

- Ahm, rom, rum, rahm, grums.

- Explique melhor.

- Está bem! É para mim, está entendendo agora? Para mim!

- Você? Mas...

- Há anos que eu tento esconder isso de você. Agora você me pegou e eu vou revelar tudo. Adoro dormir de renda preta! Só me controlei até hoje por causa das crianças!

- Ela compreende. Tenta acalmá-lo. Mas ele agora está agitado. Bate no balcão e grita:

- Também quero ligas vermelhas, um chapelão e chinelos de pompom grená!

Ela o leva para casa, cheia de resignada compreensão. A amante ficará sem o seu presente de Dia das Amantes, mas pelo menos o marido terá evitado qualquer suspeita. O único inconveniente é que terá de dormir de camisola preta pelo resto da sua vida conjugal.

Por que não um Dia dos Amantes? Você teria que tomar certas precauções, além de jamais entrar numa loja de lingerie. Como uma ausência sua em casa no Dia dos Amantes despertaria desconfiança, telefone para casa antes de ir festejar com a amante.

- Alô, a patroa está?

- Não, senhor.

- Estranho. Ela costuma estar em casa a esta hora. Mas é melhor assim. Diga para ela que eu vou me atrasar um pouco. Estou no hospital para curativos. Nada grave. Fui atropelado por uma manada de elefantes.

- Sim, senhor.

Você se dirige para a casa da amante, com o embrulho do presente embaixo do braço. Começa a pensar na ausência da sua mulher em casa. Onde ela teria ido? Lembra-se então de que a viu mais de uma vez olhando com interesse uma vitrine cheia de cachimbos. Na certa pensando num presente para lhe dar. E súbito você pára na calçada como se tivesse batido num elefante. Você não fuma cachimbo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Literatura Comentada: "Ao Respeitável Público" (Crônica de Rubem Braga)


Ao Respeitável Público

Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!

Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…


Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.

Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.

Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e dêem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.

Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.

Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.

Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.

Até amanhã. Passem mal.



(Rubem Braga)



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COMENTÁRIO

Inicialmente, cumpre aqui destacar que Braga constitui um verdadeiro fenômeno por ter adquirido perenidade como escritor de talento reconhecido e respeitado não apenas pelo público, mas pela crítica, mesmo dedicando-se a um gênero considerado “menor”, efêmero, como a crônica.

Nesse sentido, retomamos uma idéia já explanada aqui no blog (postagem sobre o gênero cônica): o cronista por excelência tem seu próprio público, seu leitor fiel com quem se estabelece uma relação de cumplicidade. Há um ‘pacto’ presumido entre o colunista e o leitor, no qual, em troca da fidelidade deste, aquele se apresenta com características temáticas e estilísticas relativamente estáveis.

É nesse aspecto que a leitura da crônica "Ao Respeitável Público" torna-se particularmente interessante. Conhecendo-se o ‘espírito’ dos textos de Braga, espera-se dele uma escrita cordial, uma predisposição benigna de solidarizar-se com qualquer criatura humana, especialmente aquelas mais fragilizadas pelo contexto social de seu tempo. O Braga habitual oferece ao seu leitor imagens poéticas de rara sensibilidade e delicadeza. O compromisso de fazê-lo sempre, a exigência de apresentar-se sempre voltado de forma altruísta ao outro é tarefa hercúlea, provavelmente não percebida por aqueles que se alimentam do cronista.

Então, num exercício de metalinguagem, Braga se permite um momento de catarse. O tema da falta de assunto, solução que todo cronista usará um dia, se apresenta sob a forma de desabafo. A polidez dá lugar a um tom agressivo e irônico, que, de certa forma, o leitor acredita até o final irá dissipar-se, o que acaba, de fato, não ocorrendo.

O próprio título remete a uma saudação típica dos espetáculos circenses. O mestre de cerimônias dirige-se aos seus espectadores, conduzindo os acontecimentos. De certa forma, há uma referência a essa expectativa frívola do público pela sua ração diária de entretenimento e uma inconformidade do escritor com essa situação.

Assim, Braga conduz o texto numa espécie de ‘diálogo desaforado’ (na verdade, um monólogo) com o leitor, a quem se dirige ironicamente como “respeitável”, “distinto leitor”, “encantadora leitora”, promovendo uma ruptura com o pacto já mencionado. Em referências explícitas ao veículo em que publica o texto, o autor irá testar a fidelidade de seu público, remetendo-o a outras colunas ou sessões do jornal. Àqueles que insistem em continuar lendo, Braga termina dizendo:

“Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.
Até amanhã. Passem mal.”.

E você, o que achou da crônica? Se fosse o leitor, como reagiria ao abrir o jornal e deparar-se com esse texto? Deixe aqui o seu comentário!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Crônica e o Ovo (Luís Fernando Veríssimo)


A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.

Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.

Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Teoria Literária: O que é Crônica?

Se recorrermos à etimologia, perceberemos a crônica vinculada à noção de tempo (do grego chronos) ou, mais especificamente, para efeitos literários, de um breve registro de um determinado momento (a expressão latina chronica).
Modernamente, pode-se entender a crônica como um gênero discursivo em que o autor registra suas impressões sobre aspectos da vida hodierna, em especial, sobre episódios do cotidiano, estabelecendo a partir disso, uma relação de proximidade com o público leitor.

Embora inserida, normalmente em meio jornalístico, difere do texto noticioso, por estar impregnada da subjetividade de quem a produz. Mesmo tratando de eventos da realidade objetiva e dotada desse caráter de atualidade, traz consigo um olhar particular do escritor que lhe confere propriedade literária.
Por imbricar-se com a simplicidade das coisas da vida ordinária, cristaliza-se, de modo geral, em linguagem igualmente simples, despojada, o que corrobora a idéia de ser a crônica um texto despretensioso. Ademais, esse gênero afigura-se também despretensioso quanto a uma suposta perenidade presumida para a literatura em geral: é veiculado originalmente em meios como jornais e revistas, estando, a princípio, condenados à efemeridade de tudo aquilo que consideramos datado.

Curiosamente, é essa aura modesta, de “gênero menor”, que coloca a crônica na preferência do grande público, o que permite o estabelecimento de uma relação interessante entre o cronista e seu leitor: há uma certa cumplicidade, algo como um pacto implícito que se firma entre o colunista de um periódico e aqueles que se dispõem a lê-lo habitualmente. Alguns autores passam a adquirir certa estabilidade a partir de um estilo peculiar, já esperado por aqueles que consumirão seus textos.
Esse fenômeno faz com que escritores de destaque no gênero tenham seus textos reunidos e publicados em antologias. A crônica então passa de um veículo efêmero, periódico, para a perenidade dos livros em casos especiais como o de Rubem Braga, que se dedicou especialmente a essa modalidade textual.

É importante observar que o estilo singular de quem escreve, passa a ser muito mais definidor da crônica como a conhecemos hoje do que os aspectos formais do texto. Sobre isso, Luis Fernando Veríssimo, um mestre do gênero, reflete com seu habitual senso de humor:

A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.
[...]
Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato.


(In: VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Nariz e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1998. pp.3-4)


O conceito de crônica, portanto, passa pela dificuldade de se precisar características formais uniformes, mas respeita certas convenções, como forma de expressão consagrada e reconhecida em suas especificidades.

A crônica pode ser conceituada, portanto, como gênero discursivo breve, escrito de forma livre e pessoal (podendo assumir traços dissertativos, líricos, narrativos, descritivos ou uma combinação deles), veiculado originalmente em periódicos e que tem como temas, via de regra, fatos ou idéias da atualidade. Pode, portanto, assumir traços dissertativos, líricos, narrativos, descritivos ou uma combinação deles.

domingo, 10 de maio de 2009

Dia das Mães: Mãe (Rubem Braga)


Mãe
(Crônica dedicada ao Dia das Mães,
embora com o final inadequado, ainda que autêntico.)


Rubem Braga


O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.

Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.

Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" — "que presente de casamento vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa" — e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

— Cadê Joãozinho?

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

— Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

— O menino tem OITO anos, Maria!

— OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.

— Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada.

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia.

Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado — "mas a Niquinha com o coronel? não é possível!" — quando a Mãe se ergueu de repente:

— E o Joãozinho?

Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo — "deve estar por aí", a Mãe gradativamente nervosa — "mas por aí, onde?" — o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.

— Joãozinho!

O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

— Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu.

A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? para onde? entrou na água? não sabe? mas que menino pateta!" O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: "Mas diga, menino, ele entrou no mar? como é que você não viu, você não estava com ele? hein? ele entrou no mar?".

— Acho que entrou... ou então foi-se embora.

De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim — mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta pr aia mesmo!) — deu um grito para as ondas e espumas — "Joãozinho!".

Banhistas distraídos foram interrogados — se viram algum menino entrando no mar — o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados — "Joãozinho !" — ela mesma não tinha mais nome nem era mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo — "Joãozinho !" — ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!

O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé, e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais:

— Mãe é chaaata...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A Verdade Sobre o Dia Primeiro de Abril


O ano nem sempre foi como nós o conhecemos agora. Por exemplo: no antigo calendário romano, abril era o segundo mês do ano. E na França, até meados do século XVI, abril era o primeiro mês. Como havia o habito de dar presentes no começo de cada ano, o primeiro dia de abril era, para os franceses da época, o que o Natal é para nós hoje, um dia de alegrias, salvo para quem ganhava meias ou uma Água-de-colônia barata. Com a introdução do calendário gregoriano, em 1564, primeiro de janeiro passou a ser o primeiro dia do ano e, portanto, o dia dos presentes. E primeiro de abril passou a ser um falso Natal - o dia de não se ganhar mais nada. Por extensão, o dia de ser iludido. Por extensão, o Dia da Mentira.

VOCÊ ACREDITOU NESSA?

Há outra. No hemisfério Norte, onde tudo é o contrario do hemisfério sul – inclusive, em muitos países, corrupto vai para a cadeia, imagine! -, a primavera está no auge em abril. “Abril” viria, mesmo, do latim “Aprilis”, que viria de “Aperire”, ou “Abrir”, pois a primavera é a estação em que os botões se abrem, tanto das flores quanto das roupas, e o pólen está no ar, e as abelhas voam, os camponeses correm atrás das camponesas e, como se não bastasse toda essa confusão, os alérgicos espirram e os pássaros cantam. Um dos primeiros pássaros a cantar a chegada da primavera é o cuco, cuja característica é imitar a voz dos outros pássaros, tanto que os assim chamados relógios-cuco não deveriam ter este nome, já que o que o passarinho canta quando sai da janelinha nunca é o seu próprio canto, é plagio. O primeiro dia de abril, na Europa, era, portanto, o Dia do Cuco, que saia do seu ninho para espalhar a discórdia, já que ora imitava um passarinho, ora imitava outro. E a todas essa horas as camponesas voavam, as abelhas perseguiam os camponeses pelo campo e os alérgicos floriam e as flores espirravam e os padres mandavam parar essa pouca-vergonha, já! E matem aquele cuco. Primeiro de abril era o Dia do Cuco. O cuco é um passaro mentiroso. Aliás, até hoje, ninguém, fora alguns parentes mais chegados, sabe como é o canto real de um cuco, já que ele sempre canta como outro. Logo, primeiro de abril ficou como o dia dos mentirosos.

ESSA CONVENCEU?

Aqui vai outra. Na verdade tudo vem da Índia, onde desde tempos imemoráveis existe o Festival de Huli, uma festa que dura um mês e em que tudo é ao contrario, tanto que ela começa no dia 30 de abril e termina no dia primeiro, quando as pessoas entram em suas casas, de costas e começam a se preparar para a festa que já houve. O último dia do Festival de Huli é reservado para o “Vahila”, que em sânscrito quer dizer “Tirar um Sarro”, que é quando as pessoas recebem incumbências absurdas, como – isto já na época do domínio britânico – levantar a saia da estatua da rainha Vitória para ver se a calcinha também era de bronze. Foram, alias, os ingleses que levaram a tradição do Huli para a Europa, junto com o curry e a malaria.
Uma dessas é a verdadeira origem do primeiro de abril. Mas, claro, isto também pode ser mentira...

*Texto de Luis Fernando Verissimo

segunda-feira, 2 de março de 2009

Farsa (Luis Fernando Veríssimo)


Quando ouviu o ruído da porta do apartamento sendo aberta, a mulher soergueu-se ligeiro na cama e disse, ela realmente disse:
- Céus, meu marido!
O amante ergueu-se também, espantado, menos com o marido do que com a frase.
- O que foi que você disse?
- Eu disse “Céus, meu marido!”
- Foi o que eu pensei, mas não quis acreditar.
- Ele me disse que ia para São Paulo!
- Talvez não seja ele. Talvez seja um ladrão.
- Seria sorte demais. É ele. E vem vindo para o quarto. Rápido, esconda-se dentro do armário!
- O quê? Não. Tudo menos o armário!
- Então embaixo da cama.
- O armário é melhor.
O amante pulou da cama, pegou sua roupa de cima da cadeira e entrou no armário, pensando “isto não pode estar acontecendo”. Começou a rir, descontroladamente. Até se lembrar que tinha deixado seus sapatos ao lado da cama. Ouviu a porta do quarto se abrir. E a voz do marido.
- Com quem é que você estava conversando?
- Eu? Com ninguém. Era a televisão. E você não disse que ia para São Paulo?
- Espere. Aqui no quarto não tem televisão.
- Não mude de assunto. O que é que você está fazendo em casa?
O amante começou a rir. Não podia se conter, mesmo sentindo que assim fazia o armário sacudir. Tapou a boca com a mão. Ouviu o marido perguntar:
- Que barulho é esse?
- Não interessa. Por que você não está em São Paulo?
- Não precisei ir, pronto. Estes sapatos…
O amante gelou. Mas o marido se referia aos próprios sapatos, que estavam apertados. Agora devia estar tirando os sapatos. Silêncio. O ruído da porta do banheiro sendo aberta e depois fechada. Marido no banheiro. O amante ia começar a rir outra vez quando a porta do armário se abriu subitamente e ele quase deu um berro. Era a mulher para lhe entregar seus sapatos. Ela fechou a porta do armário e se atirou de novo na cama antes que ele pudesse avisar que aqueles sapatos não eram os dele, eram os do marido. Loucura! Porta do banheiro se abrindo. Marido de volta ao quarto. Longo silêncio.
Voz do marido:
- Estes sapatos…
- O que é que tem?
- De quem são?
- Como, de quem são? São os seus. Você acabou de tirar.
- Estes sapatos nunca foram meus.
Silêncio. Mulher obviamente examinado os sapatos e dando-se conta do seu erro. O amante, ainda por cima, com falta de ar.
Voz da mulher, agressiva:
- Onde foi que você arranjou estes sapatos?
- Estes sapatos não são meus, eu já disse!
- Exatamente. E de quem são? Como é que você sai de casa com um par de sapato e chega com outro?
- Espera aí…
- Onde foi que você andou? Vamos, responda!
- Eu cheguei em casa com os mesmos sapatos que saí. Estes é que não são os meus sapatos.
- São os sapatos que você tirou. Você mesmo disse que estavam apertados. Logo, não eram os seus. Quero explicações.
- Só um momentinho. Só um momentinho!
Silêncio. Marido tentando pensar em alguma coisa para dizer.
Finalmente, a voz da mulher, triunfante:
- Estou esperando.
Marido reagrupando as suas forças. Passando para o ataque.
- Tenho certeza absoluta - absoluta! - que não entrei neste quarto com estes sapatos. E olhe só, eles não podiam estar apertados porque são maiores do que o meu pé.
Outro silêncio. A mulher, friamente:
- Então só há uma explicação.
O marido:
- Qual?
- Eu estava com outro homem aqui dentro quando você chegou. Ele pulou para dentro do armário e esqueceu os sapatos.
Silêncio terrível. O amante prenderia a respiração se não precisasse de ar. A mulher continuou:
- Mas nesse caso onde é que estão os seus sapatos?
O homem, sem muita convicção:
- Você poderia ter entregue os meus sapatos para o homem dentro do armário, por engano.
- Muito bem. Agora, além de adúltera, você está me chamando de burra. Muito obrigada.
- Não sei não, não sei não. E eu ouvi vozes aqui dentro…
- Então faz o seguinte. Vai até o armário e abre a porta.
O amante sentiu que o armário sacudia. Mas agora não era o seu riso. Era o seu coração. Ouviu os pés descalços do marido aproximando-se do armário. Preparou-se para dar um pulo e sair correndo do quarto e do apartamento antes que o marido se recuperasse. Derrubaria o marido na passagem. Afinal, tinha os pés maiores. Mas a mulher falou:
- Você sabe, é claro, que no momento em que abrir essa porta estará arruinando o nosso casamento. Se não houver ninguém aí dentro, nunca conseguiremos conviver com o fato de que você pensou que havia. Será o fim.
- E se houver alguém?
- Aí será pior. Se houver um amante de cuecas dentro do armário, o nosso casamento se transformará numa farsa de terceira categoria. Em teatro barato. Não poderemos conviver com o ridículo. Também será o fim.
Depois de alguns minutos, o marido disse:
- De qualquer maneira, eu preciso abrir a porta do armário para guardar a minha roupa…
- Abra. Mas pense no que eu disse.
Lentamente, o marido abriu a porta do armário. Marido e amante se encararam. Nenhum dos dois disse nada.
Depois de três ou quatro minutos o marido disse: “Com licença” e começou a pendurar sua roupa. O amante saiu lentamente de dentro do armário, também pedindo licença, e se dirigiu para a porta. Parou quando ouviu um “psiu”. Disse:
- É comigo?
- É - disse o marido. - Os meus sapatos.
O amante se lembrou que estava com os sapatos errados na mão, juntou com o resto da sua roupa. Colocou os sapatos do marido no chão e pegou os seus. Saiu pela porta e não se falou mais nisso.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Entre a ficção e a realidade - Coletânea de textos

"A Diferença Entre a Verdade e a Ficção - A Ficção tem que fazer sentido." (Mark Twain)


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"A vida é uma simples sombra que passa (...); é uma história contada com som e fúria por um idiota, e sem sentido algum".

(Sakespeare).
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Continuidade dos Parques

Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

(Julio Cortázar)

...


A Caçada

A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus anos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou vôo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas.



— Bonita imagem — disse ele.
A velha tirou um grampo do coque, e limpou a unha do polegar. Tornou a enfiar o grampo no cabelo.
— É um São Francisco.
Ele então voltou-se lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no fundo da loja. Aproximou-se mais. A velha aproximou-se também.
— Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso... Pena que esteja nesse estado.
O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la.
— Parece que hoje está mais nítida...
— Nítida? — repetiu a velha, pondo os óculos.
Deslizou a mão pela superfície puída.
— Nítida, como?
— As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?
A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas. O homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem.
— Não passei nada, imagine... Por que o senhor pergunta?
— Notei uma diferença.
— Não, não passei nada, essa tapeçaria não agüenta a mais leve escova, o senhor não vê? Acho que é a poeira que está sustentando o tecido acrescentou, tirando novamente o grampo da cabeça.
Rodou-o entre os dedos com ar pensativo. Teve um muxoxo:
— Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro. Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto... Preguei aí na parede e aí ficou. Mas já faz anos isso. E o tal moço nunca mais me apareceu.
— Extraordinário...
A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que acabara de lhe contar. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo.
— Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale mesmo a pena. Na hora que se despregar, é capaz de cair em pedaços.
O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! em que tempo teria assistido a essa mesma cena. E onde?...Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontando para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era apenas uma vaga silhueta, cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para desferir-lhe a seta.O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro-violáceo e que pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se no chão como um líquido maligno. A touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas e que tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano.
— Parece que hoje tudo está mais próximo — disse o homem em voz baixa.
— É como se... Mas não está diferente?A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los.
— Não vejo diferença nenhuma.— Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta...
— Que seta? O senhor está vendo alguma seta?
— Aquele pontinho ali no arco... A velha suspirou.
— Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo, essas traças dão cabo de tudo — lamentou, disfarçando um bocejo. Afastou-se sem ruído, com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído:
— Fique aí à vontade, vou fazer meu chá.
O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse caçador, esse céu — conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase sentia nas narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da madrugada, ah, essa madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu verde... Ou subia do chão? O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria sido esse caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando por entre as árvores? Uma personagem de tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na sombra. Mas, detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça. Compadeceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento que fizesse, e a seta... A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como estava a um pontinho carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão no arco.Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora uma certa paz, agora que sabia ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traiçoeiros da folhagem. Cerrou os olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas tapeçarias eram reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda a cena nas suas minúcias: o contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só músculos e nervos apontando para a touceira... "Mas se detesto caçadas! Por que tenho que estar aí dentro?" Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa familiaridade medonha, se pudesse ao menos... E se fosse um simples espectador casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese? Podia ainda ter visto o quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. "Antes do aproveitamento da tapeçaria..." — murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço.Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara do lado de fora, mas lá dentro, encravado no cenário! E por que tudo parecia mais nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes apesar da penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim vigoroso, rejuvenescido?...

Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio ofegante na esquina. Sentiu o corpo moído, as pálpebras pesadas. E se fosse dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a segui-lo na mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou a lembrança do frio da tapeçaria? "Que loucura!... E não estou louco", concluiu num sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. "Mas não estou louco.".Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e quando deu acordo de si, estava diante da loja de antiguidades, o nariz achatado na vitrina, tentando vislumbrar a tapeçaria lá no fundo.Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: "Que seta? Não estou vendo nenhuma seta..." Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio de risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçaram numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso, podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. "Sou o caçador?" Mas ao invés da barba encontrou a viscosidade do sangue.Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o rosto molhado de suor. Ah, aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão nítida, tão próxima que, se estendesse a mão, despertaria a, folhagem. Fechou os punhos. Haveria de destruí-la, não era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa mais, tudo não passava de um retângulo de pano sustentado pela poeira. Bastava soprá-la, soprá-la!

Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica: — Hoje o senhor madrugou.— A senhora deve estar estranhando, mas...
— Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, pode entrar, o senhor conhece o caminho..."Conheço o caminho" — murmurou, seguindo lívido por entre os móveis. Parou. Dilatou as narinas. E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E por que a loja foi ficando embaçada, lá longe? Imensa, real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário, cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a coluna. Seus dedos afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma coluna, era uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos empastados de orvalho. Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado. Ou sendo caçado?... Comprimiu as palmas das mãos contra a cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado.Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor!"Não..." - gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.

(Lygia Fagundes Telles)
Publicado no livro "Antes do baile verde", José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1979, foi incluído entre "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 265.

...

O Ator
O homem chega em casa, abre a porta e é recebido pela mulher e os dois
filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que há para
jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar um banho, trocar de roupa e
preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televisão antes de
dormir. Quando está abrindo a porta do seu quarto, ouve uma voz que grita:
- Corta!
O homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é uma casa, é
um cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher
vem ver se a sua maquilagem está bem e põe um pouco de pó no seu nariz.
Aproxima-se um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma
das falas na hora de beijar as crianças.
- O que é isso? - pergunta o homem. - Quem são vocês? O que estão fazendo
dentro da minha casa? Que luzes são essas?
- O que, enlouqueceu? - pergunta o diretor. - Vamos ter que repetir a cena.
Eu sei que você está cansado, mas...
- Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama.
Saiam da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!
O diretor fica parado de boca aberta. Toda a equipe fica em silêncio, olhando
para o ator. Finalmente o diretor levanta a mão e diz:
- Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e...
- Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha
família! O que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!
O homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O
diretor e um assistente tentam segurá-lo. E então ouve-se uma voz que grita:
- Corta!
Aproxima-se outro homem com um script na mão descobre que o cenário, na
verdade, é um cenário. O homem com um script na mão diz:
- Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.
- Que-quem é você?
- Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem
que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e
descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no
meio de um filme. Não entende nada.
- Eu não entendo...
- Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.
- Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha
mulher? Os meus filhos? A minha casa?
- Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para a sua
marca. Atenção, luzes...
- Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me
dirige. Eu estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...
- Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.
- Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é um
filme. E mais, se é um filme,
é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo,ultrapassado. Essa de que o
mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais do que
atores... Porcaria!
- Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...
O homem agarra o diretor pela frente da camisa.
- Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.
O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouvese uma voz que
grita:
- Corta!

(Luís Fernando Veríssimo)

domingo, 2 de março de 2008

Crônica: Salvem as Vogais (Martha Medeiros)

O que pode ser mais miserável do que uma pessoa faminta, sem teto, sem futuro, sem saúde? Sabemos que não são poucos os miseráveis do país, mas às vezes esquecemos da quantidade também imensa de miseráveis que está em nossa órbita, cuja barriga não está vazia, mas a cabeça, totalmente.
Acompanhei a transcrição dos chats que foram divulgados pela imprensa, para que se saiba mais sobre o que aconteceu com aquele rapaz que morreu num posto de gasolina, depois de uma briga. Lula nem precisava levar os ministros para o Nordeste para que eles conhecessem a pobreza extrema, bastaria que entrassem numa sala de bate-papo virtual. Miséria psicológica também atola um país.
Dependendo da escolha do assunto, é possível encontrar na internet conversas que fazem sentido, com frases que têm começo, meio e fim, mas na maioria das salas o que costuma rolar é um papo furado da pior qualidade, com altos teores de vulgaridade e agressividade. Um bando de seres abreviados, tal como escrevem. Um miserê de dar medo.
A fome de pão e leite tem que ser saciada com urgência, mas nossa miséria é mais ampla e se manifesta de várias maneiras, não só através da perda de peso e dos ossos aparecendo sob a pele. Miséria é perda de discernimento. Perda de amor-próprio. Perda de limites. Até perda de vogais: vc q tc cmg? Normal: códigos de internautas. Mas me diz se não é o retrato da penúria.
Eu vejo miséria por todos os lados, em todos os andares dos edifícios, dentro dos carros, fora deles, em portas de escolas e dentro delas, do lado de fora da nossa casa ae também ali comodamente instalada, miséria espiritual, miséria afetiva, miséria intelectual, indigências que tornam o ser humano cada dia mais tosco e bruto. Eu sei que a vida é assim mesmo, que os tempos são outros, que não adianta vir com moralismo e com este papo de que a família tem que participar mais da vida dos filhos, nada adianta, o rio vai seguir correndo para a mesma direção. Eu sei. Mas não me conformo.
O alfabeto tem 21 consoantes, se contarmos o K, o Y e o W. E apenas cinco vogais. Perdê-las é uma metáfora da miséria humana. Cada dia abandonamos as poucas coisas em nós que são abertas e pronunciáveis. Daqui a pouco vamos apenas rugir. Grrrrrrr. E voltar para a caverna de onde todos viemos.

Publicado em Zero Hora, 19 de março de 2003.