Mostrando postagens com marcador cultura popular. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura popular. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Entenda por que o cordel tornou-se a poesia popular brasileira



da Livraria da Folha

Primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos

Como classificar as modalidades de versos na literatura de cordel? Surpreende-se quem pensa que os mais conhecidos são somente os dos brasileiros Patativa do Assaré, Ariano Suassuna, Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Roberto Câmara Benjamin e Carlos Alberto Azevedo. O francês Robert Mandrou e o espanhol Julio Caro Baroja também possuem escritos com raízes cordelistas profundas e difusas. Porém, os versos orais dos repentistas são aqueles que imperam nas estrofes.

A literatura de cordel brasileira possui origens portuguesas. Instalou-se primeiro em Salvador por meio dos colonizadores. De lá, irradiou-se para os demais estados do Nordeste. Por volta de 1750, os primeiros versos orais apareceram e o cordel tornou-se a poesia popular brasileira.

Atualmente, as estrofes são compostas por versos de quatro ou cinco sílabas até alexandrinos, de 12. Os cordelistas contemporâneos primam pela uniformização ortográfica e rítmica de seus escritos.

Conheça abaixo um panorama das modalidades de versos que foram desenvolvidas em cerca de 260 anos de história de literatura de cordel no Brasil.

*

1. A literatura de cordel oral no Brasil foi precursora da escrita. Os primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos. As disparidades residiam na brevidade ou no alongamento das estrofes. Porém, o entrave de palavras já era delineado --o interlocutor rimava a última palavra do seu verso com a última do parceiro.

2. Conhecida como "parcela" ou verso de quatro sílabas é a forma mais curta da literatura de cordel. A palavra não pode ser longa por conta do sentido e dos limites da métrica. A "parcela" --hoje em desuso-- tinha o objetivo de confundir o oponente nos combates poéticos. Não se tem indícios de sua autoria.

3. A parcela de cinco versos é recente. Também era cantada em ritmo acelerado e exigia uma rapidez de raciocínio do repentista. Tanto os versos de quatro quanto os de cinco surgiram quase um século depois das primeiras manifestações que continham quatro versos de sete sílabas.

4. A sextilha origina-se dos quatro versos de sete sílabas, acrescida de mais duas linhas. Indicada para os longos poemas romanceados, é a forma de cordel atual mais completa. Sua presença faz-se obrigatória no início de qualquer embate poético, em longas narrativas, e sátiras políticas e sociais. Apresenta cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado.

5. Já as setilhas --estrofes de sete versos de sete sílabas-- são indicadas para ser cantadas em reuniões festivas e em feiras.

6. "Oito Pés de Esquadrão" ou oitavas são compostas por estrofes de oito versos de sete sílabas. Há dois tipos: a de cunho popular e a clássica. O que difere ambas é a rima.

7. Com dez versos de sete sílabas, as décimas são as mais usadas pelos poetas e repentistas. São indicadas para delinear motes narrativos.

8. Criado pelo prof. Jaime Pedro Martelo, o "Martelo Agalopado" --estrofe de dez versos de dez sílabas-- é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. As martelianas alongavam-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. O estilo começou a ser esquecido a partir do desaparecimento do professor, em 1727. Foi retomado em 1898 pelo cordelista José Galdino da Silva. Há também o martelo de seis versos, que é mais refinado.

9. O chamado "Galope à Beira-Mar", com versos de onze sílabas, é mais longo que as martelianas. Já o "Galope Alagoano", que contém dez versos de dez sílabas, tem obrigatoriamente um mote.

10. A "Meia Quadra" ou versos de quinze sílabas possui rimas emparelhadas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A luta do rap contra a tragédia


Tradicionalmente, a construção do rap brasileiro se estabelece a partir de três grandes questões: o racismo, a pobreza e a violência. Cada vez mais assumida por espaços oficiais, como a imprensa e a academia, essa produção incorpora novas temáticas e discussões

*Numa Ciro, especial para O POVO


As experiências estéticas produzidas pela juventude dos bairros das periferias das grandes cidades brasileiras ganharam uma visibilidade incomum através do movimento hip hop, que é um verdadeiro laboratório de linguagens desenvolvidas pelos seus artistas iniciados nas artes de rua: o rap, o grafite, o break, o basquete de rua.

O mais novo elemento do hip hop, o ``conhecimento``, se divide em duas áreas. Uma delas abriga os estudos da teoria e da história do hip hop, e de cada uma de suas artes em particular. Na outra área, a literatura periférica ou marginal, que vem vêm alcançando níveis surpreendentes de publicações. Os autores trabalham em conexão, através de métodos criativos de cooperação entre escritores de periferia, que envolvem trocas numa rede de produção, editoração e distribuição das obras.

Além disso, existem outros tipos de impressos importantes, como o Boletim do Kaos, um jornal mensal totalmente dedicado à literatura, com tiragem de 10.000 exemplares e distribuição gratuita. O projeto é de Alessandro Buzo e Alexandre Maio, escritores de São Paulo. Buzo se auto intitula ``o suburbano convicto`` e desenvolve mil atividades nas favelas, no mundo virtual dos blogs e na televisão.

Mesmo que esses acontecimentos literários, que se encontram atualmente em plena expansão, sustentem uma autonomia e não estejam necessariamente submetidos ao movimento hip hop, foi a ``atitude hip hop`` que marcou boa parte dessa manifestação cultural chamada de ``literatura marginal``. Sérgio Vaz, o ``Vira-lata da literatura``, autor de vários livros de sucesso e criador do famoso Sarau da Cooperifa, na Zona Sul de São Paulo, disse numa entrevista recente: ``No fim da ditadura, o Brasil entrou na gozolândia. Minha poesia ficou fora de moda, ninguém queria mais saber de racismo e pobreza e foi nos anos 1980, ouvindo rap, que pensei: demorou para chegar. Então fui conhecer o rap a fundo. (...) O hip hop salvou a minha literatura. Devo muito a ele``.

O depoimento de Vaz encontra eco nas entrevistas que tenho realizado nos últimos sete anos com jovens de periferia em diversas cidades brasileiras. Todos são unânimes em afirmar sobre a importância do rap na construção de uma nova forma de se relacionar com a negritude. Nego Gallo, do grupo de rap Costa a Costa, Fortaleza, lembrou: ``O primeiro rap nacional que me tocou, foi Um homem na estrada, do Racionais MCs, uma referência nova para mim. A geração deles foi super importante do ponto de vista da construção do rap nacional``.

Três questões
Na verdade, essa construção do rap nacional se estabelece a partir de três grandes questões: o racismo, a pobreza e a violência, que coloca o Brasil como o quinto país com maior taxa de homicídio de jovens do mundo, especialmente os jovens negros entre 15 e 24 anos, moradores das favelas e periferias. Antes mesmos que os cientistas políticos e sociólogos publicassem os mapas da violência e os gráficos dessa tragédia urbana no Brasil, as letras do rap já haviam feito tais denúncias, como podemos ler nesses versos do rap Capítulo 4 Versículo 3, do grupo Racionais MCs: ``60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais/ já sofreram violência policial/ a cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras/ nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros / a cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo/ aqui quem fala é primo preto mais um sobrevivente``. Outros versos marcantes se tornaram ``clássicos da periferia`` como esses do rap Rapaz Comum, também do Racionais: ``Morre um, dois, três, quatro/ morre mais um em breve/ sinto na pele, me vejo entrando em cena/ tomando tiro igual filme de cinema``, e inspiraram toda a produção do rap brasileiro. Os jovens sobreviventes tinham encontrado na forma poética e musical do rap uma possibilidade de fazer o luto e cantar o réquiem para todos aqueles perdidos nessa guerra.

Muitos artistas de rap atualmente seguem rumos insuspeitados e se dedicam a fazer experimentações bastante interessantes, como as fusões do rap com outros ritmos, e a utilização de temas variados no trabalho poético das letras. O pernambucano Zé Brown faz uma mistura do rap com embolada de coco. O grupo Sinhô Preto Velho, de São Paulo, canta na língua Tupi. O Costa a Costa, que segundo o antropólogo Hermano Vianna, tem uma das produções ``mais criativas da atual safra musical brasileira``, faz misturas do rap com o funk, samba, ritmos afro-latinos e a música flamenca, por exemplo. Eu os entrevistei em Campina Grande (PB), em 2007, por ocasião do primeiro Encontro Nacional do Rap com o Repente.

Nessa luta do rap com a tragédia, os versos de Don L, do Costa a Costa dão as palavras finais: ``Ei chapa.../ na vida você nunca tem duas oportunidades de fazer a mesma coisa/ tá ligado?/ porque se for a mesma coisa, você não é mais o mesmo/ e se você ainda for o mesmo/ não é mais a mesma coisa/ tá ligado?/ Então vive agora...``

Vive agora!!!

*NUMA CIRO é psicanalista e doutora em Literatura pela UFRJ.