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domingo, 17 de abril de 2016

Testes: Realismo x Naturalismo

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terça-feira, 12 de abril de 2016

CONTO: UNS BRAÇOS (MACHADO DE ASSIS)

UNS BRAÇOS

Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
- Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
- Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil coisas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.
Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, - ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.
- Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
 Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais.
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.
- Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
- Não tenho nada.
- Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...
E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado, trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: - vadio, e o côvado e meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.
D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua, que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das coisas.
 Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.
- Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
 Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.
 D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, coisa que jamais fizera; e o solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos quando ria.
 A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.
 Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.
 Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
 É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.
 Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.
 D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. Uma criança! disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.
- Uma criança!
E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, - dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas, principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio.
 Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:
- Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
- Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
- Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.
Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra coisa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:
- E foi um sonho! um simples sonho!

 Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestígio - Ediouro - s/d


quarta-feira, 19 de março de 2014

Livros Vestibular de Inverno UDESC 2014: Helena (Resumo e Análise)

Resumo e Análise:
Helena (Machado de Assis)

O autor:
*  Machado de Assis (1839-1908)
Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Morro do Livramento, interior do Rio de Janeiro. Ainda menino ficou órfão e foi criado pela madrasta. Aprendeu a ler em uma escola pública e teve aulas de francês e latim com um padre amigo. Tendo que trabalhar para se sustentar, tornou-se autodidata. Foi tipógrafo e revisor e começou a ter artigos publicados. Aos 19 anos teve seu primeiro conto publicado, e passou a colaborar assiduamente com jornais importantes como o Correio Mercantil e o Diário do Rio de Janeiro. Foi defensor da política liberal e participou de campanhas de alguns colegas de imprensa.
Em 1864 publicou Crisálidas, seu primeiro livro de poemas, de inspiração romântica, como os seguintes, Falenas (1869) e Americanas (1875).
Dedicou-se também às narrativas curtas em Contos Fluminenses, publicado em 1869, mesmo ano de seu casamento com Carolina, sua companheira para toda a vida. A partir daí estabilizou-se como funcionário público em 1875 e em sua carreira literária.
Em 1896 fundou, com outros escritores e jornalistas, a Academia Brasileira de Letras, que presidiu até a sua morte, em 1908.
Sua obra costuma ser dividida em dois momentos:

1ª fase: de tendências românticas, caracterizou-se pelo conformismo com os valores da época, reproduzindo os padrões do folhetim em tramas por vezes melodramáticas, ainda que com um esboço de análise interior das personagens (psicologia) e alguma atitude crítica.
Romances:Ressurreição (1872);
A mão e a luva(1874);
Helena (1876);
Iaiá Garcia (1878)
Contos: Contos fluminenses (1870)
Histórias da meia-noite (1873)

2ª fase: A etapa madura de sua produção, de tendências realistas.
Em sua análise crítica da sociedade, Machado revela uma visão pessimista das relações humanas, com a prevalência de personagens sórdidos e inescrupulosos. A análise psicológica coloca em primeiro plano os conflitos das personagens, revelando com sofisticada ironia a diferença entre essência e aparência. Isso fica ainda mais evidente nas personagens femininas, ambíguas e dissimuladas. Mas a obra machadiana não se limitou a seguir os ditames do realismo europeu. Introduziu inovações de estilo como a fragmentação da narrativa, através de insistentes intervenções do narrador, em uma espécie de conversa com o leitor. No mesmo sentido, explorou o foco narrativo em primeira pessoa em muitas de suas obras.
Romances:  Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881),
Quincas Borba (1891),
Dom Casmurro (1899),
Esaú e Jacó (1904),
Memorial de Aires (1908).
Contos:  Papéis avulsos (1882),
Histórias sem data (1884),
Várias histórias (1896).

ANÁLISE DE HELENA
            Publicado em 1876, Helena segue os moldes do folhetim romântico, sendo a protagonista uma pobre órfã que, por força do testamento do Conselheiro Vale, torna-se uma intrusa no lar da família de seu benfeitor. Destacam-se dois temas essenciais a balizar o romance: de um lado, o suposto amor incestuoso entre Estácio e Helena, dando feição melodramática à história; de outro o tema da crítica ao casamento por interesse, projetando-se uma certa ironia realista na condução do personagem Camargo, pai de Eugênia.  

NARRADOR
A narrativa é feita em 3ª pessoa, por um narrador que, embora onisciente, conduz a trama ocultando ao leitor alguns fatos, provocando curiosidade.
Embora o livro pertença a fase imatura do autor, já é possível observar-se discretamente o procedimento da “conversa com o leitor”, que será constante a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Realismo). Observe o emprego da 1ª pessoa no comentário do narrador:
“Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas particularidades por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão capital da divergência entre as duas amigas fora uma opinião de Cecília acerca da escolha de um chapéu.”
Ou ainda a referência explícita ao leitor:
“Agora mesmo, se o LEITOR lhe descobrir o perfil em camarote de teatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile, compreenderá.”

TEMPO
A narrativa se inicia em 25 de abril de 1850, com a morte do Conselheiro e se estende por aproximadamente um ano em uma narrativa linear até a morte da protagonista. Fazem-se algumas referências ao passado do Conselheiro e há um flashback no qual Salvador conta sua história e esclarece as origens de Helena. Predomina, portanto, o tempo cronológico.
           
ESPAÇO
Apesar da universalidade de seus temas, Machado de Assis sempre foi um observador agudo da vida no Rio de Janeiro. Neste romance não é diferente. A família Vale morava no Andaraí, em uma chácara; Dr. Camargo residia no Rio Comprido; Ângela, a mãe de Helena e amante do Conselheiro, vivia em São Cristóvão. Há cenas do passeio público no centro e do colégio de Helena que fica em Botafogo.


ENREDO
            O Conselheiro Vale, homem respeitável, de bom trânsito político morre de apoplexia. Viúvo, deixa um filho, Estácio, de 27 anos, formado em Matemática e uma irmã solteira, na casa dos 50 anos, chamada Úrsula.
            Dr. Camargo, médico e amigo da família se oferece para procurar um eventual testamento e, ao encontrá-lo, fica estarrecido com o conteúdo. Fica o mistério, que será resolvido no dia seguinte, na abertura do testamento. Ao chegar em casa, Camargo encontra sua esposa Tomásia e a filha Eugênia, em quem o pai, tomado de emoção, dá um beijo à testa. 
            No dia seguinte, faz-se a abertura do testamento, que surpreenderá a todos, pois nele o Conselheiro declarava reconhecer uma filha, de nome Helena, havida fora do casamento com uma mulher chamada D. Ângela da Soledade. Dispunha ainda que a menina devia ser recebida na casa da família, sendo acolhida como legítima irmã de Estácio.
            Ao contrário de Úrsula, que ficara indignada com o que alegava ser uma usurpação social e de Camargo, que parece desconfiado, o rapaz mostra-se disposto a cumprir a determinação do pai e decide, mandar trazer Helena a casa.
            A chegada de Helena ao lar da família Vale se dá ainda com certa frieza, principalmente por parte de Úrsula. A conversa durante o almoço é superficial. Estácio se oferece para mostrar a chácara. Ao conhecer o gabinete do pai, Helena fica emocionada com a lembrança do Conselheiro e revela sua gratidão. Ao final do passeio, Estácio está impressionado com a irmã, mas Úrsula continua hostil. É visível o esforço de Helena em conquistar todos na casa. Um dos primeiros a se afeiçoar à moça é o escravo Vicente, que irá defendê-la ante aos demais.
            Estácio visita Eugênia, a filha de Camargo,  moça muito bonita, simpática, porém dada a futilidades, o que deixa o rapaz em dúvida sobre seus sentimentos. O propósito de pedi-la em noivado vai se desfazendo em meio às incertezas. De volta a casa, Estácio recebe uma carta de seu amigo, Luís Mendonça, que anunciava seu regresso de viagem que fizera à Europa.
            Helena revela que sonhava aprender a andar a cavalo e Estácio se oferece para ensiná-la. Durante a cavalgada se evidencia a surpresa: a moça já sabia montar e mentira para o irmão no intuito de passear ao lado dele. Ao longo do passeio conversam filosoficamente sobre temas como tempo e dinheiro.
Observe um trecho do diálogo:
— Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
— Você devia ter nascido...
— Homem?
— Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança, se eu disser que é o pior estado do homem. 
Repare nos valores do patriarcalismo machista colocados no discurso de Estácio. A faculdade de pensar com autonomia e de defender ideias com propriedade parece exclusividade dos homens. Interessante destacar que essa cena evidencia a oposição de caracteres entre Helena (inteligente, madura, independente) e Eugênia (frívola, imatura, e por isso cada vez menos interessante aos olhos do rapaz).
De repente uma tristeza abate Helena. Estácio deseja saber o motivo, mas a moça desconversa. Estácio procura Úrsula e conversa sobre Helena. Camargo chega de surpresa e tenta convencer o rapaz a entrar para a política. O jovem resiste.
No dia seguinte, Estácio, espiando pela janela, flagra a irmã lendo emocionada uma longa carta. Curioso, chega a interpelá-la a respeito, e a moça chega a perguntar se ele desejava lê-la, mas o rapaz se contém.
Depois, o jovem matemático recebe uma carta de Eugênia e decide mostrá-la à irmã. Helena, duvidando do amor do rapaz, aconselha-o a procurar pela filha de Camargo. Na tarde em que Estácio decide vê-la, cai um grande temporal, frustrando o plano da visita.
D. Úrsula adoece e Helena não apenas cuida amorosamente da tia, como mantém a casa em perfeita ordem, conquistando definitivamente o coração da irmã do Conselheiro.
Estácio continua a viver um dilema sobre o relacionamento com Eugênia e demonstra irritação ao saber dos passeios que Helena fazia a cavalo na companhia do escravo Vicente. Ao conversar com a irmã, o jovem pergunta se ela está amando e ela responde: “Muito! Muito! Muito!”. O diálogo é interrompido pela chegada de Mendonça.
Os amigos se abraçam e conversam sobre a vida: as impressões sobre Helena, os planos de casamento de Estácio, as viagens de Mendonça, que, arruinado financeiramente, precisava começar a dar um sentido prático para a vida.
No aniversário de Estácio, Helena dá-lhe de presente um desenho que retratava fielmente seus passeios a cavalo, lado a lado tendo como cenário ao fundo uma casinha pobre enfeitada com uma flâmula azul. O aniversariante também recebe um presente da tia e, após, decide fazer um novo passeio ao lado da irmã.
Durante a festa, todos os olhares convergem para Helena, que, discreta, proporciona a Eugênia que brilhe tocando ao piano. Camargo pede para conversar a sós com a jovem herdeira dos Vale. Inicia-se um longo diálogo no qual o pai de Eugênia revela que gostaria de fazer uma viagem, mas que temia embarcar sem deixar a filha casada com Estácio. O plano do médico é que Helena use de sua influência para convencer o irmão a pedir a mão de Eugênia. Observe a fala de Camargo e o modo como se evidencia sua hipocrisia ao negar interesse na fortuna da família Vale.
— Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém que um pai não deve ser o primeiro a falar em tais coisas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D.Úrsula; creio, porém, que ela não tem a sua habilidade, e... por que o não direi? a sua influência no espírito de Estácio.
Helena não aceita interferir:
Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é porque a não ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que o fazer mau.
Enfim, a reação de Camargo, chantageando a moça. Nesse instante cai definitivamente a máscara da hipocrisia.
Nada dizia; todo ele era uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
— Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.
Camargo sorriu.
— Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.
— Que dizia então? perguntou Helena.
— Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar às seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre que a não adorne garridamente uma flâmula azul...
Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a cólera e a vergonha.
Através dos dentes cerrados Helena gemeu esta palavra única:
— Cale-se!
— Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Após chorar em seu quarto, Helena começa a agir, cobrando do irmão uma atitude em relação à Eugênia. Estácio, cheio de dúvidas sobre seus sentimentos acaba sendo convencido por Helena e envia uma carta ao Dr. Camargo pedindo a moça em casamento.
Ao receber a carta, o médico, em êxtase, beija a filha, evidenciando sua alegria com o sucesso do seu plano maquiavélico.
Ocorre, todavia, um fato inesperado: a madrinha de Eugênia adoece e fica agonizando entre a vida e a morte. Camargo decide viajar com a família para vê-la (especulando que Eugênia receba algo como herança). Eugênia só aceitou viajar exigindo a companhia de Estácio. O rapaz se vê obrigado a deixar o lar, despedindo-se, muito pesaroso, da irmã, exigindo que esta não saia a passeio. Helena iria desobedecê-lo indo até a casinha velha.
Mendonça frequenta a casa dos Vale e começa a gostar de Helena, que, por sua vez, finge não perceber o interesse do rapaz. Estácio envia uma carta demonstrando sentimentos extremados:
“Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são imensas, imensas como este amor que tenho à minha família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bela e doce de todas as irmãs!”
O padre Melchior, ao tomar conhecimento da carta, demonstra preocupação em casar Helena e passa a sondá-la sobre a possibilidade de uni-la a Mendonça. Como era nítido o interesse do rapaz, o padre pega a mão dos dois e declara que poderiam se amar.
Em êxtase, Mendonça escreve a Estácio contando ao amigo a novidade e pedindo-lhe oficialmente a mão da irmã. O jovem matemático, porém, reage com indignação e decide voltar de pronto ao Andaraí.
Observe o breve diálogo travado com Camargo e a ironia com que o narrador comenta o comportamento interesseiro do pai de Eugênia, que chegou a pensar que a parida do rapaz fosse devido a algo referente à herança:
— Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.
 — Negócio grave?
 — Grave.
 — Ainda assim, nesta ocasião...
 — Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a minha ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e providencie.
 — Algum negócio relativo ao inventário? aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.
 — Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.
Ao chegar em casa, Estácio trata Mendonça com frieza, alegando que precisa consultar Helena sobre o pedido de noivado.
Ao interpelar Helena sobre o relacionamento com Mendonça, Estácio alega saber que a moça amava outra pessoa, conforme ela mesma já havia confessado (“Muito! Muito! Muito”). Helena retruca dizendo que aquilo era apenas ilusão.
Inconformado, Estácio alega ao padre que não consentia a união da irmã com o amigo, pois sabia que ela amava a outro. Visivelmente contrariado, o matemático chega a sugerir que Mendonça poderia estar apenas interessado na fortuna da família.
Ao deparar-se com Mendonça, Estácio revela sua opinião, ofendendo o amigo que, imediatamente se retira. Após discutir com o irmão, Helena escreve um bilhete ao pretendente e faz com que o matemático chame Mendonça de volta.
A pretexto de sair para uma caçada, Estácio flagra a irmã saindo da casinha pobre que costumava visitar. Tendo ferido a mão em uma cerca de espinhos, o rapaz vai até o local e é, apesar da pobreza do reduto, bem recebido por um homem muito humilde. O mistério cresce e as desconfianças do jovem não cessam.
Em casa, Helena sente falta de Estácio e vai ao quarto do irmão. Ao perguntar-lhe o que havia, o rapaz, em resposta, aponta para a ilustração que ela havia feito do casebre da flâmula azul. A moça estremeceu e Estácio, irado, arremessa o quadro. Helena sai correndo, horrorizada.
O rapaz se reúne com o padre e com D. Úrsula, contando o que vira. O padre pede para ficar a sós com o jovem.
— Mas que é, padre-mestre?
 Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos nele, eram como um espelho polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
— Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
 O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que Estácio ouvira aquela palavra, mostrou ao padre, não só que ele estava de posse da verdade, mas também que acabava de a revelar ao mancebo. O que a consciência deste ignorava, sabia-o o coração, e só lho disse naquela hora solene.
Perturbado diante da revelação, Estácio jura mediante um crucifixo que evitará Helena de todas as formas.
A seguir, Vicente, o pajem de Helena, comunica ao padre que sabia de algo que poderia salvar a reputação de sua senhora: o homem a quem a moça visitava no casebre da flâmula azul seria, na verdade irmão da jovem.
Todavia, o escravo estava enganado. Helena entrega ao padre Melchior uma carta que revelava toda a verdade: nela, o remetente, chamado Salvador, refere-se à Helena como filha.
Confuso, o padre entrega a carta a Estácio. Perplexos, ambos resolvem ir à casa de Salvador. Diante da carta, o homem resolve contar toda a história.
Ângela era filha de um proprietário de terras no Rio Grande do Sul. A diferença de classes impedia o amor entre ela e Salvador. Ambos fugiram, passando a viver juntos, mesmo na miséria. Mesmo trabalhando muito, Salvador não conseguia sustentar a casa. Foi quando nasceu Helena, que passou a ser o motivo de sua vida.
Salvador se obriga a uma viagem ao saber que seu pai estava doente. Passado algum tempo, logo após a morte do velho, Salvador volta para casa e, ao chegar, descobre que Ângela estava vivendo em São Cristóvão, com um amante (o Conselheiro Vale).
Furioso, Salvador pensa em usar da violência e resgatar Helena. Passa então a espreitar a casa, até que um dia, presencia uma cena:
Helena falava a alguém. Por uma abertura da cerca, pude espreitá-la. Estava ao colo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas dele; este sorria para ela com um ar de ternura, que o absolvia quase da ofensa a mim feita. O coração, porém, apertou-se-me, ao ver dar a outros afagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito à natureza; mas, se meu próprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Daí a algum tempo, — não sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos, pasmado de amor e de cólera, ouvi que falavam de mim. "Mas, olhe, dizia Helena, papai quando vem?" O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairava sobre a cabeça dela. As crianças, porém, são implacáveis; aquela repetiu a pergunta. "Papai não volta", respondeu o conselheiro. Helena ficou séria. "Não volta? por que?" "Tua mamãe disse ontem que papai está no céu". Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lágrimas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos... tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os músculos não corresponderam à intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei acordo de mim, volvi de novo os olhos para o lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era diferente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que já não chorava. Ele beijava-lhe as mãozinhas e dizia-lhe: "Se papai foi para o céu, fiquei eu no lugar dele, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?" A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse: "Se não tenho ninguém mais no mundo!" O gesto foi tão eloqüente que eu vi borbulhar uma lágrima nos olhos do conselheiro. Essa lágrima decidiu do meu destino
Ao perceber a bondade do Conselheiro com Helena, Salvador decide abrir mão da filha, desaparecer, poupando a menina de viver na miséria. Comovido ao narrar a história, Salvador revela que aos 12 anos Helena o reconheceu na rua e o abraçou. Temendo desgraçar a vida da garota, o pai a fez prometer que, para todos os efeitos, não o vira. Salvador passa a ter encontros clandestinos com a filha. Com a morte de Ângela e, posteriormente do Conselheiro, Helena, para aliviar o drama do pai biológico promete aceitar se passar por filha de Vale.
Salvador afirma que, após revelada toda a verdade, se a família Vale rejeitar Helena, ele, o pai biológico irá acolhê-la.
Ao descobrir toda a verdade sobre Helena, Estácio não a quer como irmã, mas o padre  vai adverti-lo:
— Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante. Compreendo, quisera despojar Helena do título que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la à sua família por diferente vínculo...
 Estácio fez um gesto como protestando.
 — Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento de um e outro; já se não pertence, nem ela se pertence a si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo silêncio, e a situação de ontem será a mesma de amanhã.
 Chegando a casa, Estácio demonstra seu desejo de manter Helena na casa. Ela, porém, diz não merecer, mas o rapaz não deixa que ela vá embora com Salvador, que estava de partida.
Estácio, mesmo amando Helena, escreve uma carta a Mendonça, com o intuito de apressar o casamento da moça com o amigo.
Helena, cada vez mais abatida, deixa a todos preocupados. Durante uma forte chuva, a moça sai e, já muito fraca e febril, é contida por Estácio. O estado de saúde da jovem se agrava até que, em seu leito de morte ela manda chamar pelo seu grande amor. Helena morre nos braços de Estácio.
Após o enterro de Helena o romance se encerra com o irônico contraste: a tristeza de Estácio e o triunfo de Camargo, que via, finalmente, o caminho livre para o casamento da filha com o rico mancebo.
Sozinho com Estácio, o capelão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancolicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou com ternura.
 — Ânimo, meu filho! disse ele.
 — Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estácio.
 Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estácio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lúgubre cerimônia, recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia à porta o terceiro beijo do pai.
  
O QUE OBSERVAR:
 Os três beijos de Camargo
1º: No primeiro capítulo, quando morre o conselheiro Vale.
2º: Quando chega a carta de Estácio pedindo Eugênia em casamento.
3º: Após a morte de Helena.
Esses beijos representam as conquistam do objetivo central de Camargo, casar a filha com um rico herdeiro.

Romantismo ou Realismo?
            O livro é romântico com traços pré-realistas.
            Caracteres Românticos:
            - Amor proibido
            - Melodrama
            - Idealização feminina*
*Mesmo tendo mentido, Helena o faz em razão de um motivo nobre, preservando o pai biológico e cumprindo o desejo do pai adotivo. Não se pode dizer que é mesquinha ou interesseira, pois chegou mesmo a se dispor ao casamento com o pobretão Mendonça para desimpedir o caminho de Estácio.
Caracteres Realistas:
- Análise psicológica (ainda que superficial): a culpa de Helena e a necessidade de se fazer aceita; o desejo não consciente de Estácio pela suposta irmã.
- Personagens esféricas (multifacetadas): personagens que vão se revelando aos poucos, como o Dr. Camargo, que só será completamente desmascarado a partir da chantagem que faz com a protagonista; a própria Helena, que permanece misteriosa até ser revelada a mentira de que fez parte.
- Denúncia da hipocrisia e uso da ironia: É o que se verifica em relação ao Dr. Camargo.

- Triunfo da razão sobre a paixão: Estácio (não por acaso um matemático), mesmo sabendo que não era irmão de Helena, aceita o conselho moralista do padre Melchior, desistindo de ficar com ela, pois seria um escândalo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Resumo e Análise: O Caso da Vara (Machado de Assis)


O CASO DA VARA - 1891

*Material elaborado por Diego Lock Farina, professor de literatura brasileira, pesquisador e graduando em Letras (UFRGS)

Personagens

Damião – Jovem medroso que fugira do seminário por não querer seguir a carreira religiosa imposta pelo pai. Apesar da piedade que tem em relação à Lucrécia, deixa-se levar pelo egoísmo do interesse próprio.

Sinhá Rita – Viúva, “quarenta anos com olhos de vinte e sete, apessoada, viva, patusca, mas quando convinha era brava e firme como o diabo”. Vivia de ensinar bordado para escravas e mantinha relações com João Carneiro não bem entendidas por Damião. Aceita ajudar o jovem para provar seu autoritarismo sobre o “amante”. Impunha castigos a suas escravas, como surras de vara.

João Carneiro – Padrinho de Damião e suposto amante de Rita. Molenga, sem vontade, por si só não fazia nada útil. Amigo do falecido marido de Rita e submisso às determinações da viúva.

Lucrécia – Escrava de apenas onze anos que bordava na casa de Rita: frágil, magricela, marcada por uma cicatriz e uma queimadura, tímida ria e tossia para dentro. Vítima da vara da patroa.

RESUMO

Damião fugiu do seminário numa manhã de agosto anterior a 1850. Espantado, medroso e desorientado por desconhecer as ruas, não sabia onde se refugiar. Voltar para casa era inviável: seu pai o devolveria aos padres e aplicar-lhe-ia um bom castigo. Lembrou-se do padrinho, mas logo descartou a idéia por saber de seu caráter mole, além de ter sido o próprio que o levara ao seminário e lhe apresentara ao reitor: “trago-lhe o grande homem que há de ser”, “venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja humilde e bom. A verdadeira grandeza é singela, moço...”. Depois de forçar a memória lembrando-se de amigos e parentes, lembrou-se de Sinhá Rita, única capaz de convencer seu padrinho a interceder em seu favor com seu pai. Damião, menino ingênuo ainda, tinha algumas idéias vagas sobre o relacionamento dos dois. Em seguida encaminhou-se esbaforido para casa de Rita. Assustada, a viúva recebeu-lhe tentando acalmá-lo. Enquanto Damião explicava a situação, todas as crias, de casa e de fora, em volta da sala, diante de suas almofadas de renda, fizeram parar os bordados em mãos. O jovem contara todo o desgosto que lhe dera o seminário e implorava que Rita ajudasse em prol de sua salvação. No primeiro momento a viúva tenta se esquivar alegando não se meter em “negócios de família que mal conhece”, ainda mais se tratando do pai do menino, famoso pela casmurrice. Desesperado, Damião ajoelha-se a ela e afirma-lhe que é a única possuidora de firmeza para salvá-lo. Lisonjeada com as súplicas do moço, Sinhá Rita questionou-lhe por que não havia falado diretamente com seu padrinho: “Meu padrinho? Este é ainda pior que meu pai, não me atende e nunca dá ouvido a ninguém!”. “Não atende? Interrompeu Rita ferida em seus brios de orgulho – Ora, eu lhe mostro se não atende!”. Chamou um moleque serviçal e mando-lhe chamar imediatamente João Carneiro. Para aliviar a tensão de ambos, começaram a contar anedotas, quando neste instante Sinhá Rita pegou uma criada – Lucrécia - rindo, interrompendo seu bordado para mirar o moço: “Lucrécia, olha a vara – ameaçou-lhe Rita, afirmando que se o trabalho não estivesse concluído até de noites sofreria o castigo”. Damião comovido com a fragilidade e acanhamento da escrava de onze anos, prometeu a si mesmo apadrinhá-la, acreditava assim, que se caso precisasse, Rita não negaria perdão, por que, além disso, Lucrécia rira de uma piada sua, não tinha culpa. João Carneiro chega à casa, empalidecendo ao ver o afilhado e repreendendo-lhe por ter vindo incomodar “pessoas estranhas”. Rita manda-lhe parar com as ameaças e ir logo interceder a favor de Damião com seu compadre. Para o padrinho não importava se o afilhado seria médico, padre ou vadio, desde que não se precisa falar com o pai. Falou para si mesmo: “Por que Rita não pediu outra coisa? Faria qualquer outra coisa. Ah, seu o rapaz caísse agora morto, seria uma solução cruel, porém definitiva”. Depois da reflexão, atordoado pelas ordens da viúva, o padrinho vai ao encontro do compadre. Damião esteve menos alegre na janta, não confiava no caráter mole do padrinho. Cinco vizinhas chegaram para tomar café com a dona da casa. Sinhá Rita pediu ao jovem para repetir a piada da manhã, da qual tinha gostado muito, a mesma que havia feito Lucrécia desvirtuar-se do serviço. Mesmo tentando se esquivar sentiu-se na obrigação de contar; teve sucesso entre as amigas, porém dessa vez a escrava não ria, ou teria rido para dentro, com medo do castigo. Com a chegada da noite, a alma de Damião fez-se tenebrosa pela demora do padrinho. Neste meio tempo Rita já havia arranjado roupas – possivelmente esquecidas por João Carneiro – para Damião se livrar da batina. Logo em seguida um escravo do padrinho veio trazer uma carta afirmando que o negócio ainda não estava composto, que o pai ficara enfurecido e encaminharia novamente o rebelde vicioso para o seminário. Rita foi breve com a resposta: “Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos”. Acalmou o menino dizendo-lhe que o negócio agora era dela: “hão de ver o quanto presto; que não sou de brincadeiras!”. Na hora corriqueira da recolha dos trabalhos só Lucrécia não havia finalizado o bordado, Rita, furiosa, agarrou-lhe pelas orelhas: “ah, malandra, nem nossa senhora protege vadias, onde está a vara? Senhor Damião, dê-me aquela vara, por favor?” O seminarista ficara frio naquele cruel instante, havia jurado apadrinhar a pequena, a negrinha, em pleno acesso de tosses ainda implorava pela ajuda do jovem. Damião sentiu pena, contudo precisava absolutamente da ajuda de Sinhá Rita: pegou a vara e entregou à viúva.

Análise
Narrado em terceira pessoa, com menor preocupação em analisar psicologicamente os personagens, fato que não retira a profundidade abordada no relato. Temos aqui a crítica explícita ao interesse e egoísmo reinante nas posições sociais. Damião tem consciência que se interceder a favor da jovem escrava a salvará do desumano castigo imposto por Rita, contudo, não pode ir contra as convicções da senhora que estava lhe ajudando a sair do seminário. Por mais que haja comoção, dó e piedade em relação à Lucrécia, seu objetivo está acima de qualquer situação, o interesse subjetivo é somente o que importa. A mesquinhez do jovem é o reflexo de sua posição, tanto financeira quanto interior. Machado foi sensível às crueldades da escravidão, porém, declarou que o conto em questão não tratou da escravidão propriamente e sim da falta de princípios da classe social vigente perante perspectivas que visem apenas instâncias individuais. “Não há outro episódio na literatura pré-abolicionista brasileira que dê tão bem e de modo tão flagrante a vida da criança urbana escrava”. A submissão do padrinho em relação aos caprichos da amante, juntamente com a ousadia e autoritarismo feminino para a época, são fatores também merecedores de relevante olhar.

disponível em: http://monologodemimmesmo.blogspot.com/2009/10/aula-sobre-os-contos-machadianos-ufrgs.html

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Resumo: O Primo Basílio (Eça de Queirós)


O Primo Basílio
Eça de Queirós


Do Stockler Vestibulares*
Extraído do UOL Vestibular**

O Primo Basílio conta a história de Luísa, jovem sonhadora e ociosa da sociedade lisboeta, que acaba envolvida por Basílio, seu primo, com quem se reencontra, após anos de distância. Achando-a sozinha, já que Jorge, o marido, viajara a negócios, Basílio serve-se de toda a sedução e galanteios, até levá-la a se envolver profundamente consigo, tornando-se sua amante. Juliana, a criada, descobre a corres­pondência trocada por ambos e chantageia a patroa.

Após sofrer muitas humilhações e ter que se submeter aos caprichos da crudelíssima criada, Luísa consegue, ajudada por um amigo, reaver as cartas e, Juliana, pressionada a entregá-las, ante as ameaças, acaba morrendo do coração. Após tanto sofrimento, Luísa adoece. Basílio, de há muito, encontra-se longe de Lisboa. Jorge regressa ao lar. Certo dia, chega uma carta do primo para a esposa e o marido intercepta a correspondência e toma conhecimento de tudo que ocorrera.

Desesperado e sofrendo demasiadamente, ainda assim Jorge resolve perdoar Luísa. Ela, no entanto, piora muito ao saber que o marido descobrira tudo o que fizera de errado, e vem a falecer. A reação de Basílio, ao saber da morte dela, é de pesar, por ter perdido sua diversão em Lisboa. Destaca-se, ainda, na obra, a figura do Conselheiro Acácio, amigo do casal, caricatura repleta de formalismo e hipocrisia.

A obra, um dos clássicos da literatura, é de Eça de Queirós.


Personagens do livro O Primo Basílio

Jorge - é engenheiro e trabalha no Ministério das Obras Públicas. Bonito, tem a barba curta, muito fina e frisada. Veste-se com gosto, aprecia a ordem. Não é muito sentimental, não vai a botequins, não fazem noitadas com amigos, mantendo-se sério desde que era solteiro, em seus tempos de estudante.


Luísa - moça loira, tem olhos castanhos. Sua vida é muito vazia e torna-se uma mulher fútil. Até a chegada de Basílio, não carrega arrependimentos nem culpas. Está sempre em sua casa, apegada a sua leituras românticas. É amiga de Leopoldina, uma mulher leviana e devassa.


Basílio - é primo de Luísa e foi seu namorado, em tempos anteriores. Pedante, convencido, é cínico demais, aventureiro, conquistador. Os cabelos são pretos, mas já apresentam alguns fios branco e é anelado. Seu bigode é pequeno e lhe dar uma ar de coragem, orgulho e atrevimento. Sabe cantar bem e seduz com perseverança e experiência.


Sebastião - é um amigo íntimo de Jorge. É a única figura realmente boa e decente, dentre os que freqüentam a casa de Jorge e Luísa. Conservador, tímido, acanhado, mostra-se um pouco antiquado para a época.


Julião - é um parente afastado de Jorge. Fala mal de tudo e de todos. É contra o governa, o sistema, a justiça do mundo. Quando recebe um cargo público, porém, as aparências se alteram. Torna-se então, um "amigo da ordem".


Acácio - é aparentemente sério, excessivamente moralista, contudo mantém relações sexuais com sua emprega. Importante é que se mantenha o sigilo desses seus dois lados, pensa ele, mantendo-se as aparências. Formalíssimo, educadíssimo, adora usar frases feitos;
Ernestinho: é primo de Jorge. Seu sobrenome, Ledesma, dá-lhe um ar ridículo, de lesma pegajosa. É pequeno, pálido, romântico, escreve seguindo o interesse do público. A peça Honra e Paixão, escrita por ele, é um dramalhão de caráter romântico. De vontade fraca, não tem estilo próprio.


Juliana - personagem de peso, a mais complexa e elaborada de toda a obra, ela impressiona por sua vida anterior. Magra, feia, solteirona, virgem, empregada há muitos anos, sente-se desesperada, ao perceber que não terá meios para deixar esta condição de vida. Quer progredir, mudar sua posição social e fica arrasada todas as vezes em que se vê seus sonhos frustrados. Cada vez mais, azeda-se, odeia crescentemente.

Em sua revolta, assim como na de Julião, existe apenas uma atitude pessoal, individualista, egoísta, de quem quer resolver os próprios problemas econômicos, progredir socialmente, sem preocupações classistas. Recebeu apelidos sugestivos como a "tripa velha", "a isca seca", "a fava torrada", "o saca rolhas". O determinismo marca-a, mostrando que não teria possibilidades de um novo destino, o que faz dela um exemplo de personagem negativista, pessimista, retrato do Naturalismo.

ANÁLISE DO LIVRO

Este "episódio doméstico", conforme clas­sificou-o Eça de Queirós, pretende mostrar a todos, de uma maneira exemplar, a tese da corrupção da família, vista como uma instituição burguesa, salientando-se a família da média burguesia lisboeta, que tem seus valores fundamentais atacados pelos escritores realistas.

Não vemos, contudo, consistência psicológica nas atitudes tomadas por Luísa, que é tomada pelo medo, e não pelo amoroso. Ela trai seu marido arrastada pelas circunstância, como se fosse um joguete nas mãos do destino, como se não tivesse domínio sobre si mesma. Machado de Assis chegou a recolocar, e forma irônica, a tese defendida por Eça em sua obra: diz que a boa escolha de criados é uma condição de paz no adultério.

Em princípio, Luísa, Basílio e Jorge são as peças do questionamento do casamento, através do adultério e constituem-se nos principais perso­nagens da história.

Analisando-os, começamos por encontrar uma Luísa frágil, incapaz de agir e refletir, o que é atribuído, no decorrer da obra, de forma absolu­tamente naturalista, à ociosidade da vida que leva e ao temperamento romântico que mantem, constan­te­mente alimentado pelas leituras de Walter Scott e de outros romances "água-com-açúcar", que lhe proporcionam devaneios, como no caso de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas.

Assim, os sinais naturalistas já começam a se misturar aos realistas nesta obra. Notamos em Luísa, de um lado, a crítica realista à sentimentalidade romântica. Por outro, surge um certo esvaziamento psicológico, do qual brota um caráter que é colocado como móbil, inconsciente, cheio de deixar-se ir. Isso parece até um exagero das tendências naturalistas, que se mostram muito fortificadas nessa obra de Eça.

Basílio é mais um tipo, que propriamente uma pessoa, como ocorre com Luísa e a maioria dos personagens. Ele mostra a sua irrespon­sabilidade, o cinismo, a mania de grandeza, de ser superior a tudo e a todos, mantendo uma relação de uso, com as mulheres e com o país. É um janota, um almofadinha, um homem classificado como maroto e sem paixão, que não apresenta justificação para sua tirania, já que o que deseja é apenas e tão-somente uma aventura, o amor de graça, como diz o escritor Teófilo Braga.

Jorge é marcado por uma personalidade pacata. É manso, dividindo-se entre seu papel de homem casado e o de engenheiro, diante da sociedade, e aquilo que sente de verdade, no fundo de si mesmo. Isso justifica sua truculência radical ao exprimir sua primeira opinião a respeito do adultério, sua aversão à vida desregrada que Leopoldina leva, sua cobrança, em relação à carta de Basílio, apesar de Luísa se encontrar extremamente adoentada. Por outro lado, ele muda de opinião e perdoa Luísa, devido ao desespero, pois não deseja vê-la partir desta vida.

Esses personagens típicos da média burguesia lisboeta somam-se a alguns personagens secun­dários. O Conselheiro Acácio caracteriza-se, de acordo com Eça, pelo formalismo oficial e representa o covencionalismo bem-sucedido, o vazio ou vacuidade premiada, na exata proporção em carrega, além do título de Conselheiro, obtido por uma carta régia, também a nomeação Cavaleiro da Ordem de São Tiago, justamente por todas as obras sem utilidade e supérfluas escritas por ele, como a Des­crição das principais cidades do reino e seus estabelecimentos. Já Dona Felicidade é a imagem de beatice boba, com seu temperamento irritadiço. Ernestinho retrata o azedume do descontentamento; Julião Zuzarte, ás vezes, é até um bom rapaz. Sebastião, contudo, é considerado dono da força de um ginasta e a resignação de um mártir.

Outra marca naturalista de O Primo Basílio é a presença das classes socialmente inferiores, com sua aversão devastadora aos mais abastados. Aparecem Paula, o patriota, que detesta padres e mulheres, a carvoeira que é imunda e disforme de obesidade e prenhez, as estanqueiras, que têm um carão viúvo, os quais servem de exemplo da vizinhança que cerca Luísa e Basílio. Além desses, temos a figura de Tia Vitória, que é uma ex-incul­cadeira ou ex-alcoviteira, profissional na arte de orientar criados contra patrões. Empresta dinheiro aos que estivessem desempregados, guardava as economias daqueles que as tivessem, providenciava para que fossem escritas correspondências amorosas para as domésticas que não tinham estudado, vendia vestidos de segunda mão, alugava casacas, aconselhava colocações, recebia confi­dências, dirigia intrigas, entendia de partos.

São estes, como freqüentadores da residência de Luísa e Jorge, personagens secundários apresen­tados com traços de grande força naturalista. A expressão máxima deles, contudo, reside em Juliana, que mostra o caráter mais completo e verdadeiro do livro, o mais íntegro, inteiro, de acordo com a opinião de Machado de Assis. Da forma como se destaca no desen­vol­vimento do enredo, ela termina por ter que ser considerada um dos perso­nagens principais, embora tal análise fuja da postura realista - uma empregada doméstica ser considerada personagem de maior importância na história.

Sintetizando os traços mais marcantes de Juliana Couceiro Taveira, devemos começar pelo seu suplício de estar servindo há mais de vinte anos, sem que se acostume a fazê-lo; não nasceu para servir e sim, para ser servida. Passa do azedume, do gênio embezerrado, para as desconfianças, a maldade, o ódio irracional e pueril pelas patroas para as quais trabalha, rogando-lhes pragas. Costuma cantar a "Carta da Adorada" e usar a expressão "récua de cabras", quando se entristecia.

Juliana é invejosa, curiosa, gulosa, e encontra, em casa de Jorge e Luísa, o grande segredo de que sempre precisou. Apossando-se dele, desforra na "piorrinha"- é assim que chama Luísa, ironicamente - toda a mágoa que acumulara no decorrer dos anos, inclusive a de ter conservado sua virgindade, a qual ela comparava com a "devassidão da bêbeda". A empregada tem um vício, que é o de trazer o pé sempre muito bonito, enfeitando-o com botinas e expondo-as no Passeio Público.

Essa personagem, enfim, é um claro exemplo da utilização do estilo naturalista bem-sucedido no livro, opondo-se à inconsistência de Luísa e de todos os outros personagens, que são excessi­vamente caricatos, modelares, exemplos sumários das teses da literatura do Naturalismo.

O foco narrativo aparece em terceira pessoa, e revela um narrador onisciente. Percebemos sua postura irônica, crítica, reforçando defeitos e vícios de certos personagens, o que não permite que seja imparcial.

O tempo é cronológico, com uma seqüência praticamente linear. Surgem quebras, quando Luísa recorda o passado, passando pelo namoro com Basílio e o casamento com Jorge, ou quando o passado de Juliana é revelado pelo narrador aos leitores, a fim de que estes possam compreender melhor a revolta dela.

O espaço está concentrado em Lisboa. Os males que desagregam a sociedade são mostrados no romance. Surgem a decadência moral, a ociosidade, o relacionamento de superfície, o uso das aparências e das convenções, o tédio disfarçado pela aventura, os abusos da sexualidade, a hipocrisia, e assim por diante.

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