segunda-feira, 7 de abril de 2008
A lírica do amor não realizado em Gonçalves Dias
A lírica amorosa de Gonçalves Dias, maior poeta da primeira geração de nosso Romantismo, é marcada pela impossibilidade da realização amorosa. A chamada “lírica do amor interrompido” ecoa os sofrimentos vividos pelo poeta em seu malogrado relacionamento afetivo com Ana Amélia (cuja família recusou seu pedido de casamento). Assim, há quem afirme que Gonçalves Dias teria escrito a maior parte de seus poemas amorosos pensando nessa mulher inatingível – como é o caso do célebre Ainda uma vez, Adeus!
Mesmo nas poesias de caráter indianista pode-se observar a frustração quanto à concretização do amor. É o que percebemos no poema Leito de folhas verdes.
Leito de folhas verdes
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d'alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertaram.
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!
No poema em tela, o poeta filia-se à tradição medieval das canções de amigo imprimindo-lhe a cor local.
Na primeira estrofe, o eu-lírico feminino anseia pela volta de seu amado, Jatir, (1º e 2º versos) e questiona o porquê de sua demora. Note-se que aqui, os elementos da natureza corroboram a sensação de angústia da mulher (3º e 4º versos).
Na segunda e terceira estrofes temos o leito de amor, feito sob a copa da mangueira e feito de folhas brandas. Aqui, a natureza traduz toda a doçura do esperado encontro amoroso: mimoso tapiz de folhas brandas; o frouxo luar brinca entre flores; solta o bogari mais doce aroma.
A espera se prolonga e a angústia cresce, como evidencia a metáfora contida nos versos 4º e 5º da 5ª estrofe: Eu sou aquela flor que espero ainda / Doce raio do sol que me dê vida. Ela é a flor que depende dos raios de sol (a presença do amado) para viver.
A 6ª estrofe evidencia a idealização do amor, que vence todos os obstáculos (versos 1 e 2). Da mesma forma é idealizada a figura feminina que devota total fidelidade ao seu homem, conforme observamos na 7ª estrofe.
Na última estrofe temos a desilusão do eu-lírico. Com a chegada da manhã, a esperança e a expectativa dão lugar à decepção e à tristeza, pois Jatir não responde ao seu chamado. Pede então que a brisa da manhã leve consigo as folhas do leito inútil.
Em Leito de folhas verdes temos, portanto uma síntese dos elementos mais caros à tradição romântica: o sentimentalismo, a idealização amorosa, a idealização da figura feminina, a natureza expressiva, o medievalismo e o nacionalismo (de matiz indianista).
sexta-feira, 4 de abril de 2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
Prova da UFRGS valoriza o candidato que lê
O título dessa postagem pode parecer uma afirmação óbvia... Mas a verdade é que existem várias formas de seleção, e cada uma delas privilegia um determinado perfil de candidato. Questões dissertativas sempre constituem um espaço privilegiado para avaliar não só o volume de "conhecimento" acumulado pelo candidato, mas a verdadeira capacidade de processar criticamente essas informações. É realmente problemático mensurar as habilidades dos pré-universitários no campo das ciências humanas facultando-lhes apenas uma possibilidade de resposta exata.Nos vestibulares, a prova de Redação é esse instrumento avaliativo que possibilita ao candidato diferenciar-se dos demais, elaborando suas respostas com autonomia. Infelizmente, são poucas as universidades que ainda propõem questões discursivas além da tradicional Redação (a Unicamp é uma referência nacional, e aqui no RS ainda temos a FURG como exemplo).

A proposta de redação da UFRGS foi, na modesta opinião deste professor, a melhor avaliação de Literatura dos últimos concursos vestibulares.
*envie um e-mail para clubedeliteratura@hotmail.com para obter informações sobre a "REDAÇÃO COMENTADA".segunda-feira, 17 de março de 2008
Entre a ficção e a realidade - Coletânea de textos

Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.
Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.
Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
(Julio Cortázar)
Publicado no livro "Antes do baile verde", José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1979, foi incluído entre "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 265.
O homem chega em casa, abre a porta e é recebido pela mulher e os dois
filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que há para
jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar um banho, trocar de roupa e
preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televisão antes de
dormir. Quando está abrindo a porta do seu quarto, ouve uma voz que grita:
- Corta!
O homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é uma casa, é
um cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher
vem ver se a sua maquilagem está bem e põe um pouco de pó no seu nariz.
Aproxima-se um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma
das falas na hora de beijar as crianças.
- O que é isso? - pergunta o homem. - Quem são vocês? O que estão fazendo
dentro da minha casa? Que luzes são essas?
- O que, enlouqueceu? - pergunta o diretor. - Vamos ter que repetir a cena.
Eu sei que você está cansado, mas...
- Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama.
Saiam da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!
O diretor fica parado de boca aberta. Toda a equipe fica em silêncio, olhando
para o ator. Finalmente o diretor levanta a mão e diz:
- Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e...
- Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha
família! O que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!
O homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O
diretor e um assistente tentam segurá-lo. E então ouve-se uma voz que grita:
- Corta!
Aproxima-se outro homem com um script na mão descobre que o cenário, na
verdade, é um cenário. O homem com um script na mão diz:
- Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.
- Que-quem é você?
- Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem
que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e
descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no
meio de um filme. Não entende nada.
- Eu não entendo...
- Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.
- Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha
mulher? Os meus filhos? A minha casa?
- Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para a sua
marca. Atenção, luzes...
- Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me
dirige. Eu estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...
- Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.
- Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é um
filme. E mais, se é um filme,
é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo,ultrapassado. Essa de que o
mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais do que
atores... Porcaria!
- Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...
O homem agarra o diretor pela frente da camisa.
- Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.
O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouvese uma voz que
grita:
- Corta!
(Luís Fernando Veríssimo)
sexta-feira, 14 de março de 2008
A Carta de Caminha e a carnavalização do Brasil
Pensando sobre a imagem que temos de vários povos do mundo, facilmente elencamos qualidades positivas, como a pontualidade britânica, a inteligência e capacidade de trabalho dos japoneseses, e assim por diante...
E quanto a nós, brasileiros? Muitos se referem à malandragem, ao popular jeitinho brasileiro (e olha que trabalhamos 4 ou 5 meses dos 12 do ano só para pagar impostos). Mas sem dúvida, a tríade samba, mulher e futebol é a nossa auto-imagem campeã. Em suma, não produzimos nada, mas podemos entreter o resto do mundo com nossa "alegria". Mas afinal, onde começa essa história?
Durante séculos, a literatura foi exclusiva na formação de nossa subjetividade, de nosso inconsciente coletivo. Um grande repositório de nossas idéias, inclusive sobre aquilo que nós somos ou julgamos ser. E o primeiro capítulo dessa história é o que alguns chamam de "certidão de nascimento do Brasil".
O Quinhentismo
O Quinhentismo foi vivido no Brasil em meio ao “descobrimento” e aos interesses da exploração de riquezas materiais. Não se pode falar, propriamente, em Literatura Brasileira, uma vez que os textos da época somente atendem ao ponto de vista do colonizador, pois todos os autores (e potenciais leitores) são europeus. Além disso, predominam na época os relatos de viagem, textos informativos, de caráter documental e, portanto, com maior valor histórico do que literário. Mesmo assim, esses textos são chamados de Literatura de Informação.
Carta a El-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil ![]()
A famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita entre 26 de abril de e 1º de maio de 1500, tinha como objetivo informar ao rei de Portugal o descobrimento e relatar-lhe as peculiaridades do novo território. É tida como uma espécie de “certidão de nascimento” do Brasil (expressão que adere ao ponto de vista do colonizador). Na verdade, é o primeiro retrato de nossa terra e, mesmo passados mais de quinhentos anos, ainda é bastante revelador de marcas profundas na formação de nossa identidade enquanto povo.
Aspectos importantes:
Descritivismo
Tudo na Carta é descrito nos mínimos detalhes. Repare como o índio é analisado como mais um elemento integrante da natureza exótica do local:
Visão paradisíaca, Concepção mercantilista e colonizadora e Ideal salvacionista
Corroborando a idéia de que o Brasil seria o "eldorado", paraíso perdido na América, a natureza exuberante, exótica e inexplorada é vista com fascínio.
A terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa. [...]
Sem dúvida, a serviço da Coroa, Caminha não poderia deixar de registrar a preocupação em encontrar metais preciosos. Não logrando êxito nesse intento num primeiro instante (o surto aurífero só vai ocorrer no século XVIII, em Minas Gerais), o escrivão sugere insistentemente as potencialidades naturais do local e sugere sua colonização:
Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém, a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deverá ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar.
A Herança Literária da Carta
Além desses caracteres que analisamos acima, a literatura informativa emprestou muitos de seus temas e formas para períodos literários posteriores, em especial para o Romantismo (indianismo, fundação da nacionalidade) e para o Modernismo (revisão crítica da identidade nacional).
O poeta modernista Oswald de Andrade realizou apropriações parodísticas da carta, subvertendo seu sentido ao recortar as frases do texto original, dispondo-as de outra maneira.
As Meninas da Gare 
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
(OSWALD DE ANDRADE, em Pau-Brasil)
Cena do filme Caramuru, a Invenção do Brasil.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. (CAMINHA)
Confrontando-se os textos de Oswald e Caminha, a sensação inicial é de estranhamento. O poeta modernista teria plagiado a "Carta"? Certamente não. Esse texto de Oswald é muito mais genial do que parece. O texto modernista se apropria de um fragmento da carta, disposto em verso. E... ? Até aqui nada de novo. Mas preste atenção no título: "As meninas da Gare", ou seja, as meninas da estação (de trem). Com a simples colocação desse título, Oswald empurra o texto de Caminha por mais de 400 anos, atualizando e subvertendo seu significado. O viajante, ao desembarcar na estação, encontra nossas mulheres com o corpo à mostra, disponíveis para a exploração. Trata-se de uma metáfora da prostituição do país ao longo dos séculos!
Bueno, a Carta de Caminha é apenas o primeiro capítulo de nossa viagem pela formação cultural do Brasil, mas certamente suas marcas podem ser percebidas até hoje.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Questões de Lingüística
Qual é a relação entre língua, pensamento e cultura?
Para responder a esse questionamento, faz-se necessário, primeiramente, tomarmos como referência um conceito de língua. Nas palavras de Saussure, a língua seria “produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos". Assim, a linguagem constitui-se como faculdade inerente à condição humana, um conceito mais amplo em que está contida a noção de língua.
Aqui faz-se necessário buscar o processo histórico de construção do ser humano enquanto tal, o processo de hominização. Resumida e simplificadamente, podemos afirmar que, com a aquisição da postura ereta, deu-se a sofisticação do aparelho vocal, e a ampliação da caixa craniana. Esses dois fatores permitem, respectivamente, a emissão de sons mais elaborados e a ampliação da capacidade de armazenamento e processamento de informações (o que lhe faculta não somente reagir ao presente, mas reelaborar seu passado e projetar seu futuro). Imaginemos que esse hominídeo, ao esticar-se e pegar (“pinçar” com seu polegar opositor) um fruto pode visualizá-lo (visão focalizante) e, identificá-lo com sua imagem, atribuindo-lhe um símbolo, que será armazenado na memória. Assim se dá o desenvolvimento do pensamento, umbilicalmente relacionado à linguagem: o homem vai atribuindo significado à realidade que o cerca, “nomeando” as coisas (relação significante/significado). É claro que esse “nomear”, inicialmente se utiliza de signos imagéticos, mas esse processo de abstração vai se elaborando até chegarmos à linguagem verbal.
Como vimos, o homem organiza a realidade que o cerca e atribui-lhe significado a partir da linguagem. Esta é a capacidade inata do ser humano de indicar as coisas, de expressar suas idéias, valores e sentimentos, e de comunicar-se com seu semelhante. Sabemos, porém, que inúmeras são as possibilidades de se configurar a realidade de um grupo social. Diferentes realidades físicas, geográficas e socioculturais se manifestam em códigos peculiares: as línguas como produto social da linguagem.
Nesse diapasão, a cultura, concebida como a produção e a transmissão do conhecimento da experiência humana, relaciona-se diretamente com a linguagem. É a partir dela que o grupo social apreende o mundo. Em contrapartida, é a partir da língua, esse sistema que diz respeito ao grupo (comunidade lingüística), que a realidade adquire significado e se ressignifica. É na teia da língua que se estabelecem as relações do homem com o meio e as interações sociais, as relações políticas. Em outras palavras: as relações de poder do homem sobre a natureza e do homem sobre seu semelhante.
Existe uma linguagem animal?
Já vimos a linguagem como um atributo humano, essencialmente ligado ao próprio processo de hominização. Todavia, são freqüentes os questionamentos em torno de uma “linguagem animal”. Indubitavelmente, os animais estabelecem comunicação entre si. Emitem sinais para defender seu território, por exemplo, e se fazem “entender”. Esses sinais podem, inclusive, compor um sistema de surpreendente complexidade, como aquele revelado no célebre estudo de Karl von Frisch, sobre a comunicação das abelhas, que sinalizam a localização do alimento de acordo com um variado repertório de movimentos no ar. Mas então, o que diferencia a linguagem humana da comunicação estabelecida entre os demais animais? A “linguagem animal” é instintiva, funcionando em uma cadeia de estímulos e respostas. Não sendo dotada de variabilidade, não evolui, não se transforma. Já o homem, podemos dizer com base no raciocínio explicitado na questão anterior, produz linguagem: o sistema comunicacional humano envolve a interação, o posicionamento de um sujeito em relação ao outro e a consciência do ato comunicativo. Assim, a linguagem humana pode processar-se sobre a própria linguagem. Um homem pode fazer referência à fala de outro homem, não se limitando apenas à reação imediata aos estímulos do meio. Se um homem disser: “eu vejo o horizonte”, um segundo homem poderá dizer sobre aquele: “Ele vê o horizonte”.
A linguagem, em sentido estrito, é, portanto, um fenômeno humano. É, ao mesmo tempo, um sistema, o meio através do qual se descreve e interpreta a realidade e, fundamentalmente, uma prática social concreta.
quarta-feira, 5 de março de 2008
Álvares de Azevedo morre!
O estilo gótico como rejeição aos padrões sociais de comportamento vem conquistando a juventude ao longo dos séculos, desde Mary Shelley (Frankenstein) e Bram Stoker (Drácula). O decadentismo e o desajuste em relação aos valores vigentes assumiram formas contemporâneas com o punk, o dark e o metal, e até mesmo o romantismo mais ingênuo é vivido hoje pela tribo "emo". Não é espantoso, portanto, que nenhum autor do século XIX desperte tanto interesse na gurizada de hoje como Álvares de Azevedo. O Satanismo e a morbidez de Macário e, principalmente, de Noite na Taverna, são alimento para a imaginação mais delirante. Mas as poesias de amor, do desejo irrealizado, da dificuldade adolescente em aproximar-se do sexo oposto também atraem o jovem leitor. A própria biografia do poeta é repleta de mitos e curiosidades. Alguns afirmam que ele teria nascido no salão da Biblioteca da Faculdade de Direito em São Paulo. Conta-se também que ele, por sugestão dos amigos, tendo já uma aparência cadavérica, teria simulado o próprio velório no saguão da faculdade para que a turma arrecadasse dinheiro para a boemia. Muitos contestam essa fama de boêmio com o argumento de que, dada a esquisitice de Azevedo, ele teria morrido virgem. Mas o certo é que ele, como outros gênios da época, morreu cedo, aos 21 anos. Mas sua obra ficou imortalizada e fortemente identificada com a juventude. Tanto que eu poderia dizer: Álvares de Azevedo ainda vive! Mas, considerando-se a obsessão do poeta pela morte...
"A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
- É minha mulher, que vai desmaiada...
- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
- É uma defunta
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda."
A obra se divide em três partes. A primeira e a terceira parte da obra são marcadas pelo sentimentalismo e pelo egocentrismo típicos de sua geração. Em textosa como Sonhando e O Poeta, o eu-lírico idolatra virgens pálidas em uma atmosfera de delírio e suavemente sensual. Ainda nessa primeira parte, poemas como Lembrança de morrer e Saudades, o poeta aborda com seriedade a temática da morte.
“Cuidado, leitor, ao virar esta página!”: a segunda parte revela um poeta mórbido e sarcástico, capaz de tratar de assuntos mais mundanos e explícitos. Aqui o poeta é capaz de ironizar inclusive a si próprio. Destaque para É ela! É ela! É ela! É ela!, em que o eu-lírico revela sua paixão pela lavadeira; Namoro a Cavalo, em que o poeta trata das dificuldades por que passa o namorado para encontrar sua namorada que mora longe; e a auto-piedade em Idéias Íntimas.
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
terça-feira, 4 de março de 2008
Indicação de Leitura: Dois Irmãos (Milton Hatoum)
“Desta vez Halim parecia baqueado. Não bebeu, não queria falar. Contava esse e aquele caso os gêmeos, de sua vida, de Zana, e eu juntava os cacos dispersos, tentando recompor a tela do passado.”




