segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mudanças no Vestibular: UFRGS não adotará sistema proposto pelo MEC para vestibular de 2010


Instituição pode adotar o Enem para processo seletivo de 2011


O reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Netto, anunciou na tarde desta segunda-feira que a instituição não vai utilizar o sistema proposto pelo MEC, em que Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passaria a valer como o único processo seletivo para o ingresso nas universidades federais, para o ingresso em 2010. Ainda assim, não está descartada a utilização da nota do Enem para o cálculo no processo seletivo deste ano. A universidade estuda um modelo para utilizar o exame no Concurso Vestibular de 2011.

— Nós não conhecemos ainda o novo Enem, então nós não podemos adotar esse novo Enem como única forma de seleção para a universidade. E de outra forma, nós estamos também agora começando um trabalho de organização do vestibular em duas fases, provavelmente para o ano de 2011. Então nós não podemos então usar o Enem como primeira fase pois nós só teremos duas fases em 2011.

Segundo o reitor, a decisão sobre utilização do exame como uma das notas será proferida no final de julho. Netto elogiou a iniciativa do MEC:

— A universidade vê com muito bons olhos essa proposta do Ministério da Educação, porque ela permite uma visão mais sistêmica do ensino, ou seja, as universidades trabalharão em contato muito mais próximo com as escolas e com o próprio Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) na avaliação da proficiência dos alunos egressos do Ensino Médio.

A substituição do vestibular pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem a pretensão, a longo prazo, de reformar o Ensino Médio, e a decisão de acatá-la está nas mãos das universidades. O exame deste ano foi marcado para os dias 3 e 4 de outubro, e participarão entre 4 milhões e 5 milhões de estudantes, conforme a adesão estimada.

No Rio Grande do Sul, apenas a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) optou pelo Enem como critério único. Há, também, uma inclinação favorável nas federais de Rio Grande (Furg), de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Pelotas (UFPel). A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) prepara o vestibular tradicional para 2010, mesmo que a instituição opte pelo Enem.

Texto extraído do portal ClicRbs

Federais gaúchas inclinadas para o novo Enem

Exame deste ano foi marcado para os dias 3 e 4 de outubro

Uma transformação no ensino brasileiro se aproxima, com a unificação do ingresso nas universidades federais, proposta pelo Ministério da Educação. A substituição do vestibular pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem a pretensão, a longo prazo, de reformar o Ensino Médio, e a decisão de acatá-la está nas mãos das universidades.

Embora nem todas as instituições federais do país tenham se decidido, o exame deste ano foi marcado para os dias 3 e 4 de outubro, e participarão entre 4 milhões e 5 milhões de estudantes, conforme a adesão estimada.

No Rio Grande do Sul, apenas a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) optou pelo Enem como critério único, conforme a reitora Maria Beatriz Luce. Ela explica que, alheia à proposta do MEC, a Unipampa já pensava em substituir o vestibular pelo exame. Há, também, uma inclinação favorável nas federais de Rio Grande (Furg), de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e Pelotas (UFPel), conforme seus reitores, embora as decisões não tenham sido formalizadas.

O suspense é maior na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que anunciará sua decisão na segunda-feira. A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) prepara o vestibular tradicional para 2010, mesmo que a instituição opte pelo Enem.

O principal objetivo do MEC com a unificação da prova é reformular o aprendizado no país. O ministério entende que, no sistema atual, os alunos são estimulados mais a decorar os conteúdos do que a raciocinar sobre os problemas. Assim, a proposta visa ao fim de aulas voltadas exclusivamente ao vestibular. A segunda meta é facilitar a mobilidade estudantil, a exemplo dos EUA, onde é comum os jovens estudarem longe de casa. Além disso, uma prova única seria menos custosa financeiramente para os alunos.

O que diz o comando de cada universidade

CARLOS ALEXANDRE NETTO, REITOR UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (UFRGS)
“Não há motivo para pânico entre os vestibulandos. A ideia da UFRGS é tranquilizar os estudantes, porque a universidade pretende valorizar sua tradição, e o conhecimento dos alunos será reconhecido.”
O reitor limitou a sua manifestação sobre o assunto, deixando para detalhar a sua posição nesta segunda-feira às 15h. Na oportunidade, será conhecido o processo seletivo de 2010.
A assessoria de imprensa da UFRGS reforça que nesta semana o reitor esteve em Brasília, analisando a proposta do MEC, e o assunto foi “amplamente discutido na quinta-feira, com membros da equipe”.


JOÃO CARLOS BRAHM COUSIN, REITOR UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE (FURG)
“A posição da universidade está em discussão. A posição pessoal do reitor é positiva, porque o ingresso nas universidades tem balizado o sistema de educação. É uma proposta de mudança, já que a prova deve garantir mais o raciocínio e o conhecimento integrado do estudante. E vai aumentar as chances para aqueles que têm menos condições financeiras. O fator mais importante é que há muito tempo estamos questionando a forma de ingresso. É uma oportunidade de mudança, e o Enem será reformulado. O cenário é positivo. Recebemos, na quinta-feira, o modelo operacional, e a expectativa é de que até o final do mês tenhamos uma decisão. Minha inclinação pessoal é favorável.”


MIRIAM DA COSTA OLIVEIRA, REITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE PORTO ALEGRE (UFCSPA)
“O tema será levado aos conselhos de Ensino e Pesquisa e Universitário no final do mês. A partir daí será tomada a decisão. Para a reunião com reitores em Brasília, a UFCSPA já terá sua decisão tomada. Nós estamos, de início, favoráveis a esta medida, e existe uma tendência a adotar este novo procedimento já neste ano, como um processo de fase única, sem qualquer outra prova especial da universidade. Há inúmeros pontos favoráveis, mas não tive acesso aos dados operacionais, pois ainda não chegaram às minhas mãos, e faltam detalhes para decidir com segurança.”


JORGE LUIZ DA CUNHA, PRÓ-REITOR DE GRADUAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
“O reitor participou da reunião em Brasília, em que foi discutida a proposta do MEC, e a posição da UFSM é de cautela. Primeiro, porque nós temos um vestibular diferenciado, por ser interdisciplinar e ter inclusive a disciplina de filosofia. Outro aspecto é que a universidade foi pioneira com o Programa de Ingresso no Ensino Superior (Peies). Achamos que o ministério deve respeitar essas experiências acumuladas e bem sucedidas. É quase certo, pela dinâmica, que a proposta não possa ser implementada nos prazos que o ministério deu. Temos um vestibular em maio, e o Peies em dezembro. Já estamos nos preparando para o próximo vestibular tradicional. Além disso, a avaliação dos nossos processos atuais de ingresso é bastante positiva. Mas, evidente, estamos dispostos a discutir as ideias.”


ANTONIO CESAR GONÇALVES BORGES, REITOR UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS (UFPEL)
“Em princípio, a universidade deverá adotar a proposta do governo para o vestibular de verão, agora em outubro. O nosso vestibular de inverno, que será realizado em seguida, se mantém. A decisão vai ser tomada na próxima quinta-feira, quando há uma reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. A tendência é de que a proposta do MEC seja aprovada. Na minha opinião, é uma mudança importante e vai exigir que a universidade se adapte. Sou favorável, porque vai facilitar o acesso àquelas camadas da população que ficam excluídas. Por outro lado, vai exigir que o governo auxilie em organização, com moradia adequada aos estudantes, bolsas para mobilidade estudantil, toda a assistência. Vamos precisar do apoio imediato do governo. Acredito que o MEC ajudará nesta questão.”


MARIA BEATRIZ LUCE, REITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA (UNIPAMPA)
“A Unipampa já tinha a proposta de adotar o Enem como o principal elemento do processo seletivo para o ingresso de 2010. No ano de 2009, não foi possível adotar unicamente o resultado do exame para o ingresso em diferentes cursos porque muitas das pessoas interessadas não tinham se submetido à prova. Nós fizemos até 20% de aproveitamento dos resultados de quem tivesse o Enem e aplicamos uma prova de vestibular muito parecida com o Enem, feita inclusive pela mesma empresa, a Cespe/UNB. Esta proposta do Ministério da Educação vem atender à orientação geral que a Unipampa tem. Nós já fizemos esta prova em 10 cidades do Pampa, e os alunos em qualquer das cidades podiam escolher faculdades de outros municípios. A Unipampa já experimentou estas características e obteve sucesso.”

sábado, 11 de abril de 2009

Literatube: Carlos Drummond de Andrade (Arquivo N)

Documentários especial sobre a vida e a obra do maior poeta brasileiro do século XX: Carlos Drummond de Andrade.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Vestibular Unificado: Comitê vai elaborar novo vestibular


MEC quer que todas as universidades federais ajudem a formular o novo modelo de vestibular

07/04/2009

As universidades federais e o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) vão formar um comitê para elaborar o modelo do novo vestibular unificado proposto pelo Ministério da Educação.

A prova, que será uma reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), poderá servir como processo seletivo para todas as universidades federais. Hoje (6), o ministro da Educação, Fernando Haddad, se reuniu com os 55 reitores dessas instituições para discutir a proposta.

“É muito importante para o ministério sentir essa sensibilidade dos reitores. Nós abrimos a possibilidade para que as instituições pudessem opinar para que o modelo seja ajustado às necessidades das universidades e dos estados”, afirmou.

A idéia é que as secretarias estaduais de Educação, responsáveis pela oferta do ensino médio na rede pública, também participem desse comitê.

De acordo com o ministro, ainda não é possível contabilizar quantas universidades querem aderir à prova. Mas, segundo ele, a proposta é vista com “simpatia” pelos reitores.

O MEC prometeu enviar às universidades, no prazo de 48 horas, um termo referencial com detalhes técnicos sobre o exame. Com isso, segundo o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Amaro Lins, a proposta será levada aos conselhos superiores de cada universidade.

De acordo com o modelo apresentado hoje, o aluno do ensino médio poderá prestar o vestibular unificado e, após obter sua nota, se inscrever nas instituições em que quer disputar uma vaga. A idéia é que ele possa eleger cinco opções (entre cursos e instituições), em ordem de preferência. Se a nota não for suficiente para que ele ingresse no curso escolhido como primeira opção por exemplo, ele pode conseguir uma vaga na segundo opção selecionada. O estudante poderá se inscrever tanto em cursos de uma mesma instituição, quanto em instituições distintas.

“Ele terá que hierarquizar suas preferência e a partir disso o estudante será selecionado. Todo mundo tem a sua nota e vai verificar em que instituição tem mais chance. Será um sistema online em que o estudante poderá acompanhar diariamente o número de candidatos com quem ele está disputando as vagas. Se ele achar que não tem condições de sucesso, ele poderá rever essa inscrição até a data limite”, explicou Haddad.

O modelo proposto pelo ministério é semelhante ao utilizado para selecionar os bolsistas do Programa Universidade para Todos (ProUni).

A previsão do MEC é aplicar o novo vestibular em outubro. Mas hoje, durante a reunião, alguns reitores manifestaram a necessidade de que a prova fosse adiantada. Isso para atender o desejo de algumas instituições de aplicar, além do vestibular unificado, uma segunda fase durante o processo seletivo. O ministro afirmou que não sabe se o Inep teria condições de apertar o calendário de 2009. Ele também não quis definir um número mínimo de adesões para que o novo vestibular seja aplicado ainda esse ano.

Amaro Lins avalia que a proposta foi recebida com entusiasmo pelos reitores, mas que os conselhos das universidades são as instâncias apropriadas para dar a palavra final sobre a adesão.

O reitor da Universidade Federal do Vale do São Francisco, José Weber, disse após o encontro que avalia a proposta com cautela. Ele teme que com a possibilidade de que estudantes de outros estados pleiteiem vagas nas universidades federais chamadas por ele de “periféricas”, os alunos moradores dessas regiões sejam prejudicados.

“A idéia pode ser boa, mas para as universidades distantes dos grandes centros pode provocar uma maior disparidade regional. Porque para cursos de medicina, por exemplo, quando você nacionaliza uma prova isso pode fazer com que pessoas com melhores notas se desloquem para estudar em universidades federais mais distantes. E isso pode ser perigoso”, criticou. Weber espera que o ministério possa criar mecanismos para garantir vagas para alunos de regiões mais carentes.

Já o reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Luiz Cláudio Costa, diz que pessoalmente aprova o novo modelo e quer aplicá-lo em 2009. “Vamos levar a proposta ao conselho, mas ela é interessante. Precisa agora sair do plano filosófico para o operacional. A questão mais importante é que o vestibular está aí, nós precisamos até junho sair com os editais dos nossos vestibulares. Os estudantes estão inquietos, a comunidade está ansiosa e precisa ter uma resposta, por isso precisamos definir”, afirmou.

O novo Enem será formado por quatro provas e uma redação que devem ser aplicadas em dois dias. A idéia é que sejam realizados testes de linguagens e códigos, matemática, ciências naturais e ciências humanas, cada um com 50 itens.

Agência Brasil

Texto extraído de http://www.infonet.com.br/noticias/ler.asp?id=84368&titulo=educacao

Contos do Mundo: Um Incidente na Ponte de Owl Creek (Ambrose Bierce)

Você acredita nos seus sentidos? Uma narrativa extremamente desafiadora, capaz de jogar com as noções de tempo, espaço e... realidade!

PAÍS DE ORIGEM: EUA
AUTOR: Ambrose Bierce
PUBLICAÇÃO ORIGINAL: 1890

De pé sobre uma ponte ferroviária no norte do Alabama estava um homem olhando para as águas que corriam a uns cinco metros abaixo. Suas mãos estavam atadas atrás das costas. Presa numa viga de madeira, logo acima da sua cabeça, uma corda lhe dava o nó no pescoço e pendia até a altura dos seus joelhos. Ele e seus executores - dois
soldados e um sargento do Exército Federal - estavam sobre um estrado formado por tábuas dispostas sobre os dormentes dos trilhos. Um pouco afastado, na mesma plataforma, estava um oficial armado e cada extremidade da ponte era guardada por um sentinela.

Por um lado, depois de um dos sentinelas, os trilhos entravam pela floresta e perdia-se entre as árvores uns 100 metros além. Do outro lado havia uma área de campo aberto, com uma paliçada de troncos fincados na terra, com vãos esparsos para o uso de armas de fogo. Por uma delas saía a boca de um canhão de bronze, voltado para a ponte. Entre a paliçada e a ponte alinhavam-se os homens da companhia de infantaria, imóveis, mas na posição de descanso. Como estátuas esculpidas na arquitetura da ponte, sentinelas enfileiravam-se diante das margens do rio. Impassível, de braços cruzados, o capitão acompanhava em silêncio o trabalhos dos seus comandados. A morte quando anunciada é sempre recebida com formalidades respeitosas, mesmo para quem esteja com ela familiarizado.

O condenado era uma civil de 35 anos. Traços finos e perfeitos - nariz retilíneo, boca bem formada, testa ampla, cabelos longos, escuros, penteados para trás, cobrindo até a gola do seu casaco de belo corte; usava bigode e cavanhaque e os olhos, cinza escuro, eram grandes. Podiase ver que não se tratava de um criminoso vulgar, mas o código militar liberal previa penas de enforcamento para crimes de guerra, mesmo em se tratando de cavalheiros.

Encerrados os preparativos, os dois soldados se retiraram, cada um levando a tábua que lhe servira de piso. O sargento fez uma continência para o capitão e colocou-se
em seguida atrás dele, que deu um passo para o lado. Essa movimentação deixou o condenado numa das extremidades da prancha e o sargento na outra. A prancha era suportada por três vigas da ponte e a extremidade onde estava o civil ficava em balanço, sem alcançar a quarta viga, e o peso do sargento é que a mantinha equilibrada. Ao sinal da capitão, o sargento daria um passo atrás, a prancha e o civil despencariam.

Nem haviam colocado um capuz, nem vedado os olhos do condenado, e ele pôde observar as águas do rio, lá em baixo, e sua correnteza. Acompanhou com os olhos um tronco que flutuava e parecia se mover lentamente. Que rio mais preguiçoso esse!

Fechou seus olhos, concentrando-se em lembrar da mulher e dos filhos. A água, que refletia o dourado do sol matutino, a névoa sobre ela, o forte, os soldados, o pedaço de madeira - desviavam seu pensamento da tragédia. De repente sentiu que algo o perturbava. Era um som que não conseguia definir - um som agudo, parecido com o malho de ferreiro na bigorna - e o afastava das lembranças de seus entes queridos.
Ele procurava a origem daquele som, paradoxalmente, lhe parecia ao mesmo tempo próximo e longínquo. Repetia-se regularmente, fúnebre. Esperava cada badalada com impaciência e preocupação. Os intervalos foram se tornando cada vez mais longos e exasperantes, e quanto mais se distanciavam, mais intenso ficavam os sons. Chegou a ferir-lhe os ouvidos e o condenado estava a ponto de gritar. Mas, afinal, o que estava escutando era o tique-taque do seu relógio.

Abriu os olhos para ver as águas do rio, sob seus pés. Se conseguisse libertar as mãos, pensou, e livrar-se das cordas, poderia pular. Mergulhando, talvez conseguisse fugir do tiroteio, alcançar a margem e escapar fugindo para a floresta. "A minha casa, graças a Deus, está fora das linhas inimigas. Minha mulher e meus filhos ainda estão para lá da linha alcançada pelos invasores".

Enquanto os pensamentos fervilhavam na cabeça do civil, o capitão fez um sinal para o sargento, que se afastou, saindo de cima da prancha. Peyton Farquhar era dono de uma grande plantação e membro de tradicional família do Alabama. Como proprietário de escravos, político, e escravagista como a maioria deles, era ainda um separatista devotado à causa sulista. Impedido de alistar-se no exército por motivos alheios à sua vontade, reclamava da discriminação que o impedia de ter as regalias militares e a oportunidade de receber honrarias. Mas sabia que teria uma chance, pois, em tempos de guerra, ela chega para todos. Enquanto isso, ia fazendo o que era possível para freqüentar o ambiente militar. Nenhum serviço lhe parecia muito humilde ou nenhuma aventura, demasiadamente perigosa.

Uma tarde, Peyton e sua esposa estavam sentados num banco rústico junto à sua propriedade, quando se aproximou um soldado a cavalo, farda empoeirada, que pediu água. Ele esperou a mulher se retirar para perguntar, curioso, das notícias das linhas de frente.
- Os ianques estão consertando as estradas de ferro - disse o soldado - e se preparam para avançar. Chegaram à ponte de Owl Creek, a refizeram e ainda construíram um forte, na margem norte. O comandante fixou um aviso advertindo que qualquer pessoa surpreendida sabotando a via férrea, pontes, túneis ou trens, será sumariamente enforcada.
- A que distância fica Owl Creek? - perguntou Peyton.
- Uns cinqüenta quilômetros.
- E há soldados do lado de cá do rio?
- Só uma escolta daqui quase um quilômetro, nos trilhos, e um sentinela isolado na cabeceira da ponte.
- Imagine que um homem, estudante de engenharia de pontes, consiga ludibriar a escolta e dominar a sentinela, - perguntou Peyton. - O que ele poderia fazer?
- Estive lá no mês passado - respondeu o soldado, depois de pensar alguns segundos, - e notei que, com as enchentes do último inverno, foram carregados muitos
troncos que se amontoaram do lado de cá das escoras da ponte. Eles agora estão secos e devem queimar facilmente.

A dona da casa chegou com a água e o soldado matou sua sede. Agradeceu em seguida, com delicadeza, despediu-se e partiu. Cerca de uma hora mais tarde, quando já escurecia, ele voltou a passar pela fazenda, dirigindo-se para o norte, de onde viera. Era uma soldado da guarda da guarda avançada federal.

Ao cair entre as vigas da ponte, Peyton Farqhar perdeu a consciência e ficou imóvel. Despertou dessa letargia - que lhe pareceu uma eternidade - com a dor provocada pela
pressão na garganta, que o asfixiava. Acompanhava uma dor aguda e persistente que parecia se espalhar por todas as fibras do seu corpo, por onde, de forma bem definida, essa dor latejava com periodicidade terrivelmente rápida.

Eram torrentes de fogo aquecendo-o à temperatura insuportável. Mentalmente predominava uma sensação de congestão e fartação. Mas o raciocínio não existia, como o sentido intelectual. Apenas sentir era o martírio. Conscientizava o movimento oscilatório, no qual era um núcleo ardente de uma nuvem, como um grande pêndulo.
De repente, aquela luminosidade que o envolvia, parecia solta no espaço e em seguida um som violento de encontro com a água. Então um clamor louco vibrou nos seus ouvidos e tudo era frio e escuro. Restabeleceu-se a capacidade de raciocinar e o homem concluiu que a corda se partira e ele mergulhara no rio. Se abrandara o estrangulamento. A corda em volta do seu pescoço o sufocava mas impedia a entrada de água em seus pulmões. Não concebia morrer enforcado no fundo do rio. Abriu os olhos e viu um feixe de luz, distante, inatingível! Ele continuava a afundar e a luz a perder a intensidade, até quase desaparecer. Mas então seu brilho retornou e Peyton
percebeu que voltava à tona.

Inconsciente de qualquer esforço, com dores agudas no pulso, percebeu que procurava soltar suas mãos. Mas não se concentrou nisso, como quem assistisse um mágico ludibriar as pessoas, sem qualquer interesse no resultado. Então a corda se soltou e os braços do homem flutuaram acima dele, formando vultos difusos, atenuando a claridade que vinha aumentando. Observou-as com interesse ao vê-las se aproximarem do seu pescoço. Libertaram-no da corda afastando-o dela e a corda se foi serpenteando, como se fosse uma cobra.

Seu pescoço doía intensamente; o cérebro parecia arder e o coração saltava, tentando sair pela boca. O corpo torturado se contorcia angustiado. As mãos açoitavam a água com força, empurrando-a para baixo, com braçadas rápidas, impelindo seu corpo para cima. Então sentiu a cabeça emergir e a luz do sol arder nos seus olhos. O peito expandiu-se em estertor e os pulmões sugaram quanto de ar conseguiram, expelindo-o em seguida com um grito de alívio.

Entrou então no controle dos seus sentidos, cuja acuidade estava acima do normal. Na perturbação do seu sistema biológico, alguma coisa o levava a uma percepção de pormenores nunca sentida. A ondulação da água batia-lhe no rosto e ele ouvia as batidas. Na margem via a floresta e os detalhes da vegetação, cada árvore, cada folha, cada nervura, cada inseto. Via os gafanhotos, as moscas de corpo cintilante, as aranhas tecendo suas teias. Ouvia o zumbido dos mosquitos, que bailavam tocando as águas, e das libélulas; ouvia o barulho das pernas das aranhas aquáticas, como remos. Todos esses sons formavam uma sinfonia e ele percebia cada um dos seus acordes. Ouviu até o deslizar de um peixe, cortando a água.

Peyton viera à tona voltado à jusante. Então a visão que tinha, sendo ele o ponto central, passou a girar lentamente. Viu a ponte, o forte, os militares enfileirados,
o capitão, o sargento, os dois soldados e os seus executores, desenhados sobre o céu azul. Eles gritavam e gesticulavam, apontando para ele. Apenas o capitão empunhava uma pistola, mas não atirou. A movimentação deles era grotesca e seus perfis, disformes, horríveis e descomunais.

De repente, ouviu o som de um tiro e algo entrou na água, junto à sua cabeça, e chegou a sentir os respingos no seu rosto. Ouviu outro tiro e viu um dos sentinelas, ainda com a fumaça de pólvora à sua volta, com a arma apontada para ele. Peyton viu, do outro lado da mira, o olho do atirador que o mirava. Notou que o olho era cinzento, lembrando-se de ter lido que os olhos cinzentos eram os mais aguçados... e comuns aos bons atiradores. Mas aquele havia falhado.

Um redemoinho fez Peyton dar uma volta, deixando-o de frente para a floresta, novamente, na margem oposta ao forte. Atrás de si ouvia uma voz alta e clara, num
compasso monótono, que chegava a ele sobrepondo-se a todos os outros sons. Mesmo não sendo militar, Peyton convivera com os soldados o bastante para saber o que significado daquela ladainha.
Aquelas palavras cruéis, ditas cadenciadamente, sem emoção, mas prenunciando a morte de uns para tranqüilizar outros, soavam insensíveis: "Atenção, pelotão!... Ombro!... Arma!... Preparar!... Apontar!... Fogo!"

Peyton mergulhou - tão fundo quanto pôde. A água ciciou nos seus ouvidos como o ribombar do Niágara. Voltando à tona, após o estrondo da descarga, viu pedaços brilhantes de metal, que afundavam lentas e oscilantes para o fundo do rio. Alguns fragmentos tocaram seu rosto e com as mãos retirou outro, que lhe queimava, entre o pescoço e o colarinho.

Quando retornou à superfície, reparou que havia sido levado pela correnteza e estava bem distante dos soldados. Eles tinham acabado de carregar suas armas, com as varetas metálicas a refletir o sol, quase simultaneamente. Os dois sentinelas voltaram a disparar, um de cada vez... e falharam.

O homem acossado, que viu a cena por sobre o ombro, fugia nadando no sentido da correnteza. Seu cérebro, seus braços e pernas, trabalhavam vigorosamente e o raciocínio se desenvolvia com rapidez.

"O oficial" - pensou ele, "não vai cometer o mesmo erro, ordenando uma segunda artilharia. Escapar de uma rajada compacta é tão fácil como de um tiro. Provavelmente vai ordenar que disparem vontade. Deus me ajude! Não vou poder escapar de todos os tiros."

Cerca de dois metros dele, ouviu um intenso chapinhar seguido de um estrondo forte, que ecoou por todos os lados, terminando numa explosão que agitou as águas do
rio. Um verdadeiro lençol de água avançou sobre ele, sufocando-o. Era o canhão participando da caçada! Ao voltar à superfície para respirar, um tiro passou zunindo
sobre sua cabeça, ricocheteando na água, arrebentando galhos na floresta.

"Não farão isso de novo," pensou. "Na próxima vez vem descarga de metralha. Não posso perder o canhão de vista e devo me guiar pela fumaça, porque, quando eu ouvir o
som, já será tarde demais. O projétil é mais rápido. Esse canhão é dos bons."
De súbito começou a rodar como um pião. A água, as margens, a floresta, e, mais distante o forte e os homens, tudo parecia rodar à sua volta numa mancha indefinida,
formando fachas horizontais coloridas. Entrara num forte redemoinho que lhe estonteava e provocava náuseas, sendo depois jogado para o cascalho da margem sul, por trás de uma elevação que o protegia dos seus algozes. A repentina pausa dos movimentos o reconfortou a ponto de fazê-lo chorar de prazer. Apesar das escoriações, encheu suas mãos de areia, jogando-a sobre si mesmo, agradecendo a Deus, quase aos gritos. Confundia areia com diamantes, rubis e esmeraldas, alçando-a entre as suas mais belas visões. As árvores surgiam como plantas de um enorme jardim. Aspirou a fragrância do lugar, que lhe parecia estranhamente ordenado. Um raio de sol, rosado, brilhou entre os troncos e o vento tirava dos ramos um som de harpa. Relaxou-se naquele lindo jardim, pouco disposto a planejar o prosseguimento da fuga.
Foi acordado daquele sonho com o sibilar dos projéteis que voavam sobre a sua cabeça. O atirador lançara uma rajada de tiros onde apenas supunha onde ele estivesse. Peyton deu um salto e subiu correndo a ribanceira, embrenhando-se na floresta. Então, orientando-se pela luz solar, caminhou o dia todo. A floresta não tinha fim, sem clareiras ou trilhas. Ele mesmo não sabia que vivia numa região tão agreste, reconhecendo, na descoberta, que algo havia de misterioso ali.

Ele ainda caminhava, com os pés doloridos e faminto, quando anoiteceu. Animava-o, apenas pensar na mulher e nos filhos. Mas enfim encontrou uma estrada que, intuiu, o
levaria à sua plantação. Era larga, reta, parecendo nunca ter sido usada. Não havia cercas, nem habitações. Nem mesmo o ladrar de um cão, nada indicava a presença de
um ser humano. Margeavam-na vultos negros de árvores formando uma parede que no horizonte terminava num ponto, como num desenho de perspectiva. Acima cintilavam estrelas douradas formando constelações desconhecidas, que ele considerou montadas para enviar uma mensagem maligna. Dos lados, vindos da floresta, sons estranhos e assustadores que, às vezes, lhe pareciam murmúrios numa língua estranha.

O pescoço continuava a doer e, tocando-o com a mão, sentiu que estava bastante inchado. Imaginou que em torno dele se desenhava uma marca escura, marcada pela
corda. Abrandou a febre e a sede pondo a língua para fora, entre os dentes, em contato com o ar frio. Como era macio o tapete formado pela relva, ainda nunca pisada. Ele já não sentia nada sob os pés. Apesar de todo o sofrimento, teria adormecido enquanto caminhava, porque outra visão surgia à sua frente... ou talvez ele estivesse despertando de um delírio. Via-se junto ao portão da sua própria casa. Tudo estava como antes de ter partido - um deslumbrante panorama, sob o sol matutino. Imagina ter viajado a noite toda. Entra e segue pelo caminho amplo e claro à sua frente. Sorrindo com uma expressão calma e jovial, a sua mulher desce da varanda e fica à espera dele no final da escada, mantendo aquele sorriso inefável, numa atitude incomparável de graça e dignidade. Ah, como é bela! Estendendo os braços
ele corre na sua direção, mas, prestes a abraçá-la, sente uma forte pancada na nuca. Ofusca-lhe uma forte luminosidade branca e o som retumbante de um tiro de canhão. Depois, tudo é silêncio e escuridão!

Peyton Farquhar está morto. Seu corpo, com as vértebras cervicais quebradas, balança lentamente de um lado para outro, sob o vigamento da ponte de Owl Creek.

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O AUTOR:
AMBROSE BIERCE
(1842-1914?)
O escritor e jornalista americano, conhecido como "Amargo Bierce" definia que "sozinho" era estar em "má companhia". Bierce fez do cinismo, misturado ao
humor negro, sua marca registrada. Família, nação, raça humana: nada escapava de suas estocadas, até hoje repetidas nos Estados Unidos.
Contista excelente, suas obras são constantes em qualquer antologia de contos americanos.
Aos 71 anos, Bierce seguiu em viagem para o México e sumiu sem deixar rastros. A teoria mais popular diz que ele foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa.

Principais Obras:
"O Dicionário do Diabo", "Cruzando o Umbral", "Visões da Noite", "Luar sobre a Estrada", "Um Incidente na Ponte de Owl Creek ", "No Limiar do Irreal", "A Morte de Halpin Frayser ", "O Ambiente Adequado".



LEIA O TEXTO ORIGINAL, EM INGLÊS, LÁ EMBAIXO, NO FINAL DAS POSTAGENS DO BLOG!

Mudanças no Vestibular: MEC apresenta nova proposta.



Novo modelo de ingresso em universidades públicas é apresentado
Candidatos poderão escolher até cinco cursos diferentes em instituições




A forma do brasileiro ingressar nas universidades federais vai mudar. Ao apresentar ontem aos reitortes a proposta de um novo vestibular, feito com base nas provas do novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que os candidatos poderão escolher até cinco cursos diferentes em instituições de sua preferência e concorrer com os demais candidatos do país.

O sistema de inscrição funcionaria da seguinte forma: primeiro os candidatos se inscreverão no novo Enem, farão as provas e receberão as notas. Num segundo momento, informarão ao ministério, por ordem de escolha, os cinco cursos que pretendem frequentar. Pode ser um mesmo curso em cinco instituições diferentes, ou cinco cursos numa mesma instituição.

Ao inscrever-se, o candidato saberá pela internet a nota dos demais interessados, verificando se tem chance de obter a vaga. Se constatar que o número de candidatos com notas mais altas supera o número de vagas, poderá optar por novo curso. O sistema ficará aberto por alguns dias.

Encerrada a matrícula referente à primeira opção de todos os inscritos, terá início a matrícula para a segunda opção.

Na reunião de ontem com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Superiores (Andifes), Haddad explicou que a nota mínima para entrar em um curso – a chamada nota de corte – será determinada pela concorrência entre os alunos. Dessa forma, se mais candidatos com notas altas concorrerem a um determinado curso, a nota de corte será mais alta. O aluno, contudo, poderá mudar suas opções até o penúltimo dia do anúncio do resultado pela instituição.

– Não tem número definido ainda, mas a hipótese mais provável é que o aluno possa se inscrever em até cinco cursos de instituições distintas – disse o ministro.

Entres outros pontos que ficaram acertado, as instituições que aderirem à proposta do MEC de substituir o vestibular pelo novo Enem receberão mais recursos para a assistência estudantil.

O Ministério decidiu dobrar a verba repassada às universidades dos atuais R$ 200 milhões para R$ 400 milhões. A maior parte irá para aquelas que fizerem parte do novo vestibular.


Como é a proposta


A NOVA PROVA
> As questões seriam divididas em quatro grupos: linguagens (língua portuguesa e inglesa), matemática, ciências humanas (com ênfase em história e geografia, podendo conter perguntas de filosofia e sociologia) e ciências da naturais (com ênfase em química, física e biologia)
> Seriam 200 questões (50 itens cada prova) e uma redação. O exame será realizado em um sábado e um domingo, e não apenas em um dia, como é hoje

O QUE MUDA NA SELEÇÃO
> O novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) permitirá que os candidatos se inscrevam em até cinco cursos oferecidos pelas instituições que aderirem ao sistema, em qualquer região do país. Diferentemente do que ocorre hoje no vestibular, o candidato só escolherá o curso em que pretende se matricular após a divulgação dos resultados do novo Enem
> O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse aos reitores que o governo quer aplicar o novo Enem já este ano, mas aguarda uma resposta das universidades. Se pelo menos 10 instituições aderirem, o teste já será realizado no segundo semestre, em outubro

*Texto extraído do portal ClicRbs

domingo, 5 de abril de 2009

Surreal: Leitura Dinâmica


Resumos na internet nem sempre podem ser levados a sério...

Leon Tolstoi: Guerra e PazResumo: Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade a Rússia. A mocinha casa-se com outro. Fim.

Marcel Proust: Em Busca do Tempo Perdido
Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos - e pronto. Fim.

Luís de Camões: Os Lusíadas.
Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim.

Gustave Flaubert: Madame Bovary
Resumo: Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.

William Shakespeare: Romeo e Julieta
Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim

William Shakespeare: Hamlet
Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim.

Sófocles: Édipo Rei
Resumo: Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Fim.

William Shakespeare: Othelo
Resumo: Um rei otário, tremendo zé-ruela, tem um amigo muito fdp que só pensa em fazê-lo de bobo. O tal "amigo" não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim.

Você economizou a leitura de pelo menos 7.000 páginas e R$ 500,00 em livros !!!


*Texto extraído de e-mail que circula na rede

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Homenagem ao Clube do Povo do Rio Grande do Sul

Se a literatura nos faz romper com os limites do possível, a saga colorada, que completa neste 4 de abril 100 anos, é um épico emocionante. Para celebrar essa história de superação e paixão, trazemos aqui um post especial.




Não me acordem

O passado é prólogo. Certos acontecimentos dão força a esta frase, transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali - toda uma vida, toda uma história - foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual nada será como era. E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões - tudo era prólogo para ontem.

Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão, ontem, foi obra do acaso, esse autor sem imaginação? O resultado de ontem veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Homero e das Pirâmides.

E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru.

Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito, e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo agora. Era assim:

"Meu caro colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é que não sei nem seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua, de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos, que vestiam a camiseta do Grêmio (suponho que fossem seu pai e seus irmãos). Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia uma camisa branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio. E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não agüentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista. Você agüentou. Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Agüente só mais um pouco. Meus respeitos."

Mas isto tudo também pode ser um sonho.

Se for, por favor: não me acordem.

*Crônica de Luis Fernando Verissimo publicada no jornal Zero Hora, em 18 de Dezembro de 2006

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A Verdade Sobre o Dia Primeiro de Abril


O ano nem sempre foi como nós o conhecemos agora. Por exemplo: no antigo calendário romano, abril era o segundo mês do ano. E na França, até meados do século XVI, abril era o primeiro mês. Como havia o habito de dar presentes no começo de cada ano, o primeiro dia de abril era, para os franceses da época, o que o Natal é para nós hoje, um dia de alegrias, salvo para quem ganhava meias ou uma Água-de-colônia barata. Com a introdução do calendário gregoriano, em 1564, primeiro de janeiro passou a ser o primeiro dia do ano e, portanto, o dia dos presentes. E primeiro de abril passou a ser um falso Natal - o dia de não se ganhar mais nada. Por extensão, o dia de ser iludido. Por extensão, o Dia da Mentira.

VOCÊ ACREDITOU NESSA?

Há outra. No hemisfério Norte, onde tudo é o contrario do hemisfério sul – inclusive, em muitos países, corrupto vai para a cadeia, imagine! -, a primavera está no auge em abril. “Abril” viria, mesmo, do latim “Aprilis”, que viria de “Aperire”, ou “Abrir”, pois a primavera é a estação em que os botões se abrem, tanto das flores quanto das roupas, e o pólen está no ar, e as abelhas voam, os camponeses correm atrás das camponesas e, como se não bastasse toda essa confusão, os alérgicos espirram e os pássaros cantam. Um dos primeiros pássaros a cantar a chegada da primavera é o cuco, cuja característica é imitar a voz dos outros pássaros, tanto que os assim chamados relógios-cuco não deveriam ter este nome, já que o que o passarinho canta quando sai da janelinha nunca é o seu próprio canto, é plagio. O primeiro dia de abril, na Europa, era, portanto, o Dia do Cuco, que saia do seu ninho para espalhar a discórdia, já que ora imitava um passarinho, ora imitava outro. E a todas essa horas as camponesas voavam, as abelhas perseguiam os camponeses pelo campo e os alérgicos floriam e as flores espirravam e os padres mandavam parar essa pouca-vergonha, já! E matem aquele cuco. Primeiro de abril era o Dia do Cuco. O cuco é um passaro mentiroso. Aliás, até hoje, ninguém, fora alguns parentes mais chegados, sabe como é o canto real de um cuco, já que ele sempre canta como outro. Logo, primeiro de abril ficou como o dia dos mentirosos.

ESSA CONVENCEU?

Aqui vai outra. Na verdade tudo vem da Índia, onde desde tempos imemoráveis existe o Festival de Huli, uma festa que dura um mês e em que tudo é ao contrario, tanto que ela começa no dia 30 de abril e termina no dia primeiro, quando as pessoas entram em suas casas, de costas e começam a se preparar para a festa que já houve. O último dia do Festival de Huli é reservado para o “Vahila”, que em sânscrito quer dizer “Tirar um Sarro”, que é quando as pessoas recebem incumbências absurdas, como – isto já na época do domínio britânico – levantar a saia da estatua da rainha Vitória para ver se a calcinha também era de bronze. Foram, alias, os ingleses que levaram a tradição do Huli para a Europa, junto com o curry e a malaria.
Uma dessas é a verdadeira origem do primeiro de abril. Mas, claro, isto também pode ser mentira...

*Texto de Luis Fernando Verissimo

Vestibular Surreal: MC Serginho e o Pocotismo


Aproveitando as festividades do primeiro de abril, inauguramos uma nova sessão aqui no blog. No vestibular, tudo pode acontecer, até as coisas mais improváveis. O que dizer daquelas interpretações viajantes feitas pelos elaboradores de algumas provas a respeito do significado de determinadas "obras literárias"? Vestibular é mesmo SURREAL.

Imagine a seguinte situação:

VESTIBULAR UNICAMP - ANO 2046
PROVA DE LITERATURA BRASILEIRA

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1. Leia o trecho do poema abaixo e responda as questões:

"O JUMENTO E O CAVALINHO ELES NUNCA ANDÃO SÓ
QUANDO SAI PRA PASSEAR LEVAM A ÉGUA POCOTÓ"
(Eguinha Pocotó, Mc Serginho, 2003)

Eleita como acompanhante nos passeios dos dois protagonistas, a Égua Pocotó rompe a solidão até então predominante no panorama urbano estabelecido. Mais do que um triângulo amoroso convencional, o autor atribui aos personagens um status que transcende a natureza metafísica convencional. Emerge então o caráter feminino, no auge de sua auto-afirmação como contraponto ao pansexualismo. Descreva o papel da Égua Pocotó como elemento de instabilidade no equilíbrio social do início do século XXI.

A forma adotada pelo autor do texto leva o leitor a uma reflexão crítica acerca de alguns elementos do estilo literário da época, ao mesmo tempo em que insere temáticas dotadas de valor universal. Assinale a passagem em que o autor expressa com maior intensidade este dualismo. Identifique a figura de linguagem adotada.

Ao idealizar em um mesmo patamar, personagens que até o momento só haviam sido tratados com a devida separação de classes, coloca o autor o "jumento e o cavalinho" como uma paródia da realidade social do país na época. O brilhantismo desta visão crítica é destacado por expressões que para um leitor menos atento podem parecer erros gramaticais, mas que na verdade geraram uma nova aplicabilidade da língua portuguesa. Identifique estes trechos e as inovações gramaticais por eles introduzidos.

O texto de Mc Serginho, precursor do movimento literário-cultural denominado pocotoismo, propõe uma nova métrica e abordagem ao texto poético. Alguns críticos da época chegaram a compará- lo à "pedra no caminho" de Drummond, um poeta de menor importância no século XX, injustiça revertida mais tarde com a identificação da sua efetiva quebra de paradigma literário. Compare o estilo da obra de Mc Serginho com os autores clássicos do século XX e justifique a relevância de sua obra."


Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.