
*do Jornal O Globo
Durante a edição de seu livro de estreia, “A chave de casa” (Record), a escritora Tatiana Salem Levy pediu aos editores que não citassem na publicação dados sobre sua vida pessoal. Temia que os leitores percebessem que a ficção era baseada em sua própria família. No entanto, a escritora Cíntia Moscovich, que escreveu a orelha do livro, destacou a origem de Tatiana, sugerindo ao leitor a proximidade entre vida privada e obra.
Há limites entre fantasia e realidade? A compreensão de um livro muda quando o leitor sabe o que é verdade ou criação? Questões como essas serão debatidas nesta quinta, às 15h, na mesa “Verdades inventadas”, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), por mais dois autores, além de Tatiana, que se apropriaram da História e da vida pessoal para escrever seus livros: Sérgio Rodrigues, autor de “Elza, a garota” (Nova Fronteira), e Arnaldo Bloch, de “Os irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras), onde narra de forma romanesca a saga de sua família (ao lado, o trio em foto de André Teixeira).
Na obra de Arnaldo, os fatos contados por seus parentes ganham, em determinados momentos, contornos ficcionais.
— A maneira como a história da minha família foi passada para mim é romanceada. Então, por que eu deveria me divorciar dessa riqueza e fazer uma grande reportagem? — pergunta Bloch, que dá ao leitor a sensação de abrir um baú de memórias, muitas delas bastante íntimas. — Nem todos compreenderam que, quando há luzes e sombras, se tem um retrato humano mais abrangente.
Em relação a obras que trazem a mistura de ficção e realidade, Bloch nota o “vício do leitor em querer saber o que é verdade”, comportamento que hoje estaria exagerado. Tatiana concorda:
— Quando escrevi, não fez diferença para mim se os fatos tinham acontecido ou não. Mas os leitores são muito interessados em saber se é verdade. Há uma fome do real — observa uma das escritoras mais jovens da Flip. — O engraçado é que, às vezes, até eu me pego, como leitora, nessa situação.
Editor do blog Todoprosa, Sérgio Rodrigues acrescenta:
— Talvez exista hoje uma predisposição em achar mais interessante a história real. É uma visão utilitária, como se o livro devesse ensinar algo, e como se a ficção fosse mentira, e a não ficção, realidade. A tensão que a mistura de fantasia e realidade constrói não é confortável para esse leitor.
Para Rodrigues, livros baseados em histórias reais tendem a ter apelo para um público mais amplo. Em “Elza, a garota”, o autor impõe limites definidos entre a história da jovem morta em 1936 pelo Partido Comunista (em itálico) e a ficção inspirada no caso (em letra normal). Ele sentiu necessidade de trabalhar assim por estar lidando com “História com H maiúsculo”.
Ao contrário de Rodrigues e Bloch, Tatiana usou elementos de sua vida para a construção do romance de estreia apenas como base para a criação, de modo que o leitor não distingue o real do ficcional.
— A ideia era expandir esses limites mesmo. Não se trata de uma autobiografia — explica Tatiana.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Os limites da ficção na Flip 2009
Lançamento: Amanhecer (Stephanie Meyer)

A Volta do Vampiro
Os fanáticos pelos livros de Stephenie Meyer podem saltar de alegria. Já este disponível Amanhecer, quarta e última publicação da série que teve início com Crepúsculo. Para completar a felicidade a versão para o cinema de Lua Nova está sendo rodado e deve estrear em novembro
Romance “proibido”, cenários sombrios e personagens surreais. Pronto, a fórmula perfeita para transformar um livro em best seller. Assim como O Senhor dos Anéis e Harry Porter, a série da escritora Stephenie Meyer não é diferente. A história que teve início com Crepúsculo manteve sucesso com Lua Nova, Eclipse e agora – para fechar com tudo – vem o fascínio de Amanhecer, em 567 páginas.
Para quem quer aproveitar o período de férias para viajar na leitura, a dica é escolher uma boa história e não ver sequer o tempo passar. Que tal iniciar a aventura, conhecendo a saga de Bella Swan, apaixonada pelo sedutor vampiro Edward Cullen e envolvida com Jacob Black, que mais na frente – no segundo número – vai ter sua origem revelada. Vida imortal X amor e amizade X amor são apenas alguns dos conflitos que Bella é obrigada a enfrentar.
Os conflitos aparecem logo no primeiro número da série - O Crepúsculo - e à medida que a história vai sendo desenrolada, uma curva de emoções captura leitores e fãs de todo o mundo.
Sobre a capa de Amanhecer, a própria escritora explica o significado do tabuleiro: “Amanhecer é uma capa que mostra a metáfora do progresso de Bella ao longo da saga. Ela começou como a mais fraca (pelo menos fisicamente, quando comparada aos vampiros e lobisomens) e joga duro no tabuleiro: o peão. E termina como a mais forte: a rainha”.
Pois é, não é de estranhar que livros volumosos como os quatro sejam “devorados” em poucas horas.
Nas telonas
Não é de hoje que as histórias envolvendo vampiros e lobisomens fazem sucesso. Basta puxar bem pela memória e se lembrar de sucessos como a novela Vamp ou os filmes O Coronel e o Lobisomem ou ainda Entrevista com o Vampiro.
No fim do ano passado, os fãs de Crepúsculo comemoraram ao poder ver nos cinema a adaptação do livro. Como sempre, a história teve que ser resumida, mas vale a pena garantir o lugar na plateia.
O segundo número da série, Lua Nova, está sendo filmado e é um dos longas mais aguardados pela galera. A data de estreia já foi divulgada: 20 de novembro.
Apesar de o elenco continuar o mesmo, a continuação de Crepúsculo mudou a direção. Agora Chris Weitz é o diretor que escolheu Canadá e Itália como algumas das locações. Como no livro o sedutor vampiro Edward Cullen (Robert Pattinson) aparece bem menos que em Crepúsculo. A adaptação vai mudar alguns trechos, para não correr o risco de a dupla Jacob ((Taylor Lautner) e Bella (Kristen Stewart) não sustentar o sucesso.
Não perde nada
A forma como a escritora Sthephenie Meyer caracteriza os personagens, o romance surreal e o mundo fantástico são pontos destacados pela estudante Amanda Moreira, 14, para explicar o sucesso da série. “É viciante e prende muito a atenção”, diz, contando que já leu os quatro livros, e leva em média uma semana para cada um deles. Vale lembrar que os livros são bem volumosos. O Amanhecer, por exemplo, tem 567 páginas. “Você não consegue parar, se você começar, não vai se arrepender”, convida, durante a entrevista. A influência é tão forte que ela diz ter conseguido transformar a irmã Mariana em mais uma fã “desta ma-ra-vi-lho-sa série de livros”. Sempre por dentro das novidades em relação à série, Amanda diz que Sthephenie já escreveu 12 capítulos do quinto número, o O Sol da Meia Noite, que é o Crepúsculo na visão do Edward. “Acho que ela deveria escrever os quatro volumes na visão dele, totalizando os oito números”, sugere. Sobre a protagonista, ela diz que se identifica um pouco com a Bella: “Acho que também ficaria indecisa ao ter que resolver tantos problemas e tomar tantas decisões”, avalia.
Atuação perfeita
“Eu amo histórias assim com lobisomens e vampiros”, revela o estudante Ian de Andrade, 16. Fã também das aventuras de Harry Porter, Ian elogia a adaptação de Crepúsculo. “Nossa, a atuação é perfeita! Eu já admiro alguns atores, como o Robert Pattinson (o Edward), que vejo desde Harry Porter e a Nick Reed que faz a Rosálie. Eu amo aquela atriz, desde o filme Aos Treze e outros eu gostei quando conheci, tipo a kristen Stewart (a Bella)”, destaca.
Pelo jeito, Ian está só esperando a estreia da adaptação de Lua Nova “Vou com certeza ver Lua Nova”. Até lá, ele ainda vai acabar de ler o primeiro da série da escritora Stephenie Meyer.
Leitura dinâmica
Tudo bem que quando se gosta do livro a leitura é rápida, mas certamente a estudante Aline Angelim, 14, é uma das que estão no topo do ranking de rapidez. “Quando começo a ler não paro mais. Em um fim de semana, li o Eclipse e minha mãe até reclamava porque não me lembrava nem de comer”, diverte-se.
A paixão pela série veio pela curiosidade, no começo deste ano: “Todo mundo falava que o livro era muito bom, aí pedi emprestado e adorei muito, muito, muito e fui me apaixonando cada vez mais. Já li os três primeiros, só falta o Amanhecer”, diz. Para ela, o Eclipse é o mais emocionante porque Edward e Jacob brigam muito e Bella fica perturbada com a situação e, segundo Aline, é o que tem mais ação. “O que mais gosto é ver o relacionamento deles dois que nunca dá certo, fica sempre no quase e na expectativa. A Belle é meio louca, ela vira vampira, mas não quer casar. Eu no lugar dela? Não teria dúvidas rsrs”, brinca.
Capaz de tudo
O romance é – sem dúvida – o que mais motiva a estudante Luana Carvalho, 14, a não perder nada que fale de um dos livros da série. “Eu seria capaz de tudo mesmo para viver este amor. Faria o possível e o impossível para dar certo”, diz, referindo-se ao amor entre os protagonistas Edward e Bella.
Para as férias, ela já tem programa certo: “Nessas férias, pretendo passar um bom período lendo”, diz ao contar que leu Crepúsculo e Lua Nova e está começando a ler Eclipse.
“Dizem que quando o livro é bom a gente lê em pouco tempo, na realidade eu fiz com que se confirmasse essa frase, eu li o livro em dois dias e meio”, comemora.
Sobre o filme ela diz que sempre está revendo Crepúsculo e não vê a hora de estrear o Lua Nova: “Na realidade ainda não sei como estou me controlando”, brinca.
Amanhecer, de Stephenie Meyer
567 pags
Preço médio R$ 35
Fonte: Jornal "O Povo"
Enem 2009 já tem mais de 2 milhões de inscritos

O Enem 2009 (Exame Nacional do Ensino Médio) já tem 2.043.977 candidatos, após 16 dias de inscrição. A informação é do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão responsável por toda a logística e aplicação da prova.
Na primeira semana de inscrição, o número de candidatos do Enem 2009 havia atingido quase 1 milhão.
O Estado mais populoso do Brasil, São Paulo, lidera o ranking de inscritos. Até as 17h do dia 25, havia 467.548 adesões paulistas. Minas Gerais segue em segundo lugar com 212.841 inscritos.
Roraima (6.089), Acre (6.536) e Amapá (8.433) são os Estados com menor número de inscrições.
O prazo para inscrição termina às 23h59 de 17 de julho (horário de Brasília, DF). É preciso preencher o cadastro e imprimir o comprovante de inscrição e o boleto de pagamento; a taxa custa R$ 35.
Pessoas que tenham estudado em escolas públicas ou em instituições participantes do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos) 2006, 2007 e 2008 têm isenção de taxa. Também terão isenção de taxa candidatos de baixa renda, bem como os inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais.
Para obter o benefício, é necessário fazer requerimento também pela web.
Enem
O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2009 terá 180 questões e tempo de duração total de 10h, sendo 4h30 no primeiro dia e 5h30 no segundo.
No primeiro dia de exame (3/10), haverá provas de ciências da natureza e suas tecnologias e, depois, ciências humanas e suas tecnologias. Nesse dia, os candidatos terão 4h30 para resolver as questões.
No segundo dia (4/10), serão aplicadas a prova de linguagens, códigos e suas tecnologias, que inclui a redação, e a prova de matemática e suas tecnologias. Os estudantes terão 5h30 para a resolução dos exames desse dia.
Ao se inscrever para a prova, o estudante terá o direito de optar por cinco cursos e instituições e, de acordo com a nota, simular a posição no curso pretendido, em comparação com as notas dos demais concorrentes. No sistema unificado, os pesos das provas podem ser diferentes, caso a instituição queira.
As universidades federais puderam optar ainda por outras três formas de adesão ao Enem 2009. São elas: substituir apenas a primeira fase do vestibular pelo Enem; combinar a nota do Enem com a nota do vestibular tradicional (nesta modalidade, a universidade fica livre para decidir um percentual do Enem que será utilizado na média definitiva); usar o Enem como fase única apenas para as vagas ociosas da universidade.
*do UOL Vestibular
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Conto inédito: Sonho desde Velho (Felipe Ventura Vargas)
Era velho desde novo e desde novo já sabia. Velho ali parado na passarela, só espia. Não quero rimar bôbo. Rimar, bôbo não. O problema é que a história pede música, pra não cair na igualdade. A rima vem até sem querer, mas o bôbo aqui, pode rimar não. Não é questão de gosto ou de desgosto, é que rima boba estraga a coisa.
O velho, sempre espectador, com o mesmo chapéu e a calça sempre pra passar. Era guri velho desde novo, só nos filmes e nos livros, um sonhador de muita data, desde os dez por assim dizer. Gente velha já dizia: o guri vai dar em nada se não colocar o pé no chão.
O guri não era solto, só de sonhos naquele canto, cresceu num homem quieto e que a vida não ajudou. Podia passar o dia vendo formigas na fortaleza com as folhas. E desde velho era assim. Era quieto e só pensava, saiu o pai de punho e beiço. O pai também não falava muito, mas quando falava era de se escutar: “O conto muda o mudo”. Era de família, sonhador por si só.
Ouvia um conto em cada canto e já seguia no que fazer, a lição de cada canto era aproveitada com prazer. Ih! Lá vem rima boba, não é por gosto, é que habilidade ajudaria, se estivesse aqui por perto. O velho não ligava pra rima boba, então não sei se conta diferença no conto. Mas tem que tentar evitar, porque rima boba estraga a coisa.
Um dia teve uma idéia, finalmente parou de espiar a vida de fora, se trancou num mausoléu - na verdade não era tão mau, nem tão zoléu, era a casa que só usava pra sono - E o sono deixou de ser capricho da antiga morada, ficava ali o dia todo e ninguém sabe lá motivo.
Era velho desde novo, acho que foi enovecendo com o tempo, a vida passava como um filme e só espiava pra dar corte. Nunca foi muito namorador, acho que a desmotivação de só viver confundia o resto das coisas. Vivia só de sonho que com conto alimentava. Mas de quê serve um conto se não pra se contado? Concordaria o bom Machado.
O guri não tinha jeito, desde velho era assim, no muito por passar, nunca mais vi o guri, mas sei que tinha um brilho no olhar, trancado no mausoléu onde jamais entrar resolvi. Puts, rima boba não! A rima encanta o conto, mas rima boba estraga a coisa.
Num dia de curioso, fui passar no mausoléu, só de bôbo. Lá tava o velho, cada vez mais moço. Sentado numa cadeira com o chapéu por cair, tinha marca do chapéu de tanto usar. E de súbito - não sei se foi de súbito, mas como eu só soube no momento, o súbito foi ali e não antes de alguém saber - nasceu da vida, de tão moço a vida já não mais vivia.
Era velho desde novo, num sonho agora, de guri e fantasia.
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Felipe Ventura Vargas, 18 é natural de Rio Grande, estudante e presta vestibular para o curso de Medicina . Para minha grata surpresa, além de um brilhante aluno, revelou-se um talentoso escritor.
Mais textos do autor em http://silogismonatural.blogspot.com
Conto Brasileiro: A Cartomante (Machado de Assis)

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
Publicado originalmente na Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no livro "Várias Histórias"
As mesas literárias da Flip 2009

QUARTA, dia 1
19h - Conferência de abertura - Davi Arrigucci Jr.
Poucos estudiosos da literatura no Brasil escreveram sobre Manuel Bandeira com o brilho de Davi Arrigucci Jr. Capaz de aliar a leitura cerrada dos versos do poeta aos movimentos mais amplos do modernismo no país, Arrigucci Jr. é autor de ensaios incontornáveis sobre Bandeira, tais como Humildade, paixão e morte ou A beleza humilde e áspera. É o procedimento de leitura desses textos clássicos que serve de base para a conferência de abertura que o crítico e escritor faz em Paraty.
21h30 - Show de Adriana Calcanhoto
Abertura Rômulo Fróes e Banda
QUINTA, dia 2
10h - Mesa 1 - Novos traços
Rafael Coutinho, Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Grampá
Raras vezes a produção de quadrinhos foi tão intensa no Brasil. Na trilha aberta por pioneiros como Larte e Angeli, esses jovens artistas têm flertado com a literatura e levado os quadrinhos brasileiros a um novo patamar de complexidade - alguns já venceram os prêmios mais prestigiosos da categoria, tanto no Brasil como no exterior. A primeira mesa da FLIP pretende ser um retrato desse ótimo momento e apresentar para o grande público os nomes-chave dessa geração.
Mediação: Joca Reiners Terron
11h45 - Mesa 2 - Separações
Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira
Outra vida, livro mais recente do escritor carioca Rodrigo Lacerda, examina a fundo um relacionamento amoroso em crise. Nesta mesa em Paraty, Rodrigo conversa com um dos artistas que exploraram com mais interesse o assunto no Brasil: o dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, diretor de Todas as mulheres do mundo e Separações, entre outros filmes.
Mediação: Paulo Roberto Pires
15h - Mesa 3 - Verdades inventadas
Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues
Em Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues, a história da jovem morta pelo partido comunista serve de guia para um experimento ficcional ousado e bem urdido. Em Os irmãos Karamabloch, Arnaldo Bloch vale-se da história de sua família, fundadora da Rede Manchete, para compor um livro em que convivem traços de biografia, romance e memorialismo. Os três elementos também se fazem presentes em A chave de casa, premiado livro de estreia da carioca Tatiana Salem Levy.
Mediação: Beatriz Resende
17h - Mesa 4 - China no divã
Ma Jian e Xinran
Ma Jian, em Pequim em coma, remexeu em uma ferida delicada da história recente da China: o massacre da Praça da Paz Celestial, que completa vinte anos em 2009. Já a jornalista Xinran foi buscar cicatrizes mais antigas: seu livro mais recente, Testemunhas da China, traz relatos de sobreviventes da revolução cultural liderada por Mao Tse-tung, que matou em torno de um milhão de pessoas entre 1966 e 1976. Num caso como noutro, estão expostos os pontos cegos da nação que deve liderar a economia do século XXI.
Mediação: Angel Gurría- Quintana
19h - Mesa 5 - Deus, um delírio
Richard Dawkins
Nem precisaria ser no ano em que se completam duzentos anos do nascimento de Charles Darwin e 150 da publicação de seu livro mais importante, A origem das espécies. Mas a efeméride acrescenta um toque a mais à presença em Paraty de um dos darwinistas mais influentes em atividade no mundo, autor de O gene egoísta e Deus, um delírio.
SEXTA, dia 3
10h - Mesa 6 - Evocação de um poeta
Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas
O maior indício da perenidade de um autor é sua influência sobre as gerações seguintes. Nesse quesito, poucos podem rivalizar com Manuel Bandeira, referência inescapável desde as primeiras manifestações do modernismo no Brasil. Nesta mesa, três nomes de destaque da nova poesia brasileira discutem a atualidade do poeta.
Mediação: Paulo Henriques Brito
11h45 - Mesa 7 - O avesso do realismo
Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho
No trabalho de Bernardo Carvalho e de Atiq Rahimi invenção e experimentalismo falam mais alto do que as aspirações à prosa realista. Ambos não abrem mão da imaginação e do artifício como pilares da literatura - e levam ao limite a exploração das possibilidades abertas pela criação literária. Esse é apenas um entre os diversos pontos de partida para o debate entre os dois em Paraty.
Mediação: Beatriz Resende
15h - Mesa 8 - Sentidos da transgressão
Edna O'Brien em conversa com Liz Calder
No início dos anos 1960, a irlandesa Edna O'brien teve exemplares de seu livro Country girls queimados pela comunidade religiosa local, incapaz de aceitar que a vida sexual das personagens fosse descrita com tanta crueza. Desde então, compôs uma obra densa e multifacetada, marcada pelo confronto com o conservadorismo da Igreja Católica, pela luta em favor da autonomia feminina no meio artístico e pela análise da obra de um de seus mentores literários, James Joyce.
17h - Mesa 9 - O eu profundo e outros eus
Mario Bellatin e Cristovão Tezza
Professor de uma escola de escritores no México, Mario Bellatin admite tudo - menos que o candidato a ficcionista inspire-se na própria vida para criar sua história. Um dos mais premiados autores brasileiros dos últimos anos, Cristovão Tezza fez exatamente isso em O filho eterno, e ninguém ousará dizer que não foi bem-sucedido. Qual, enfim, o papel da experiência pessoal na literatura? Eis o mote para a discussão entre os dois autores.
Mediação: Joca Reiners Terron
19h - Mesa 10 - Sequências brasileiras
Chico Buarque e Milton Hatoum
Em Leite derramado, Chico Buarque criou um narrador que personifica a desfaçatez da classe dominante brasileira. Em suas reminiscências delirantes, ecoam lembranças de família e uma visão ácida sobre a formação do país. Na obra de Milton Hatoum, reminiscência e memória familiar são igualmente uma pedra angular - mas que enquadram o país sob as lentes da presença árabe na Amazônia. O Brasil na visão desses dois grandes prosadores é o tema da mesa que eles compartilham em Paraty.
Mediação: Samuel Titan Jr.
SÁBADO, dia 4
10h - Mesa 11 - O dissonante século XX
Alex Ross em conversa com Arthur Dapieve
Crítico de música erudita da revista New Yorker, Alex Ross fala sobre O resto é ruído (2007), recém-lançado no Brasil. O livro foi um dos maiores acontecimentos da crítica musical dos últimos anos nos Estados Unidos. Com raro fôlego, tino literário e consciência histórica apurada, Ross mescla a análise formal das obras dos principais compositores eruditos do século XX aos momentos políticos decisivos do período.
11h45 - Mesa 12 - Entre quatro paredes
Sophie Calle e Grégoire Bouillier
Em Prenez soin de vous, exposição que representou a França na Bienal de Veneza de 2007 e que acontece em São Paulo em julho, Sophie Calle exibe a reação de 107 mulheres à carta de rompimento recebida de um ex-namorado. O escritor francês Grégoire Bouillier, autor de L'invité mystére, é o ex-namorado em questão. Pela primeira vez eles aparecem em público para discutir o episódio e embaçar ainda mais as fronteiras entre vida privada e vida pública, entre vivência pessoal e ficção.
Mediação: Angel Gurría-Quintana
15h - Mesa 13 - Segredos de família
Anne Enright e James Salter
Não é por acaso que a irlandesa Anne Enright e o americano Tobias Wolff já dividiram mesas em festivais pelo mundo afora: são muitas as afinidades entre as obras deles. Além da maestria no formato da narrativa curta, ambos têm na família fraturada um universo temático recorrente, de que é exemplo o irmão suicida em O encontro, de Enright, ou o padrasto violento no autobiográfico O despertar de um homem, de Wolff.
Mediação: Liz Calder
17h - Mesa 14 - Fama e anonimato
Gay Talese em conversa com Mario Sergio Conti
Gay Talese é um dos inventores do jornalismo contemporâneo - e ao mesmo tempo a encarnação dos dilemas da profissão. O autor responde por alguns dos textos mais precisos e bem costurados já feitos por um repórter, caso de "Frank Sinatra está resfriado", de 1966. Em tempos de crise do jornalismo impresso, Talese representa um modelo de jornalista tão necessário quanto inatingível. Essa tensão entre o jornalismo de excelência que ele ajudou a criar e o jornalismo possível no século XXI é o centro de sua conversa com o jornalista brasileiro Mario Sergio Conti.
19h - Mesa 15 - Escrever é preciso
António Lobo Antunes em conversa com Humberto Werneck
O português António Lobo Antunes é autor de mais de vinte romances, que em conjunto o situam entre os maiores estilistas da língua. Apesar do idioma comum a Portugal e Brasil, o autor não vem ao país desde 1983 e já declarou que não incluía o Brasil entre suas prioridades - preferia deixá-lo para o antípoda José Saramago. Este evento em Paraty vem corrigir a lacuna. Polemista contumaz e avesso a aparições públicas, Lobo Antunes conversa sobre essa e outras dimensões de sua trajetória.
DOMINGO, dia 5
11h30 - Mesa 16 - As Sem-Razões do Amor
Catherine Millet em conversa com Maria Rita Kehl
Em 2001, a crítica de arte francesa Catherine Millet fez de sua vida sexual movimentada o tema de um livro - e sacudiu as hostes conservadoras na Europa e nos Estados Unidos. Em 2008, publicou um livro que é o reverso do primeiro: um relato de como foi dominada pelo ciúme ao saber das aventuras sexuais do marido. Nessa mesa em Paraty, ela discute sua trajetória literária incomum com a psicanalista Maria Rita Kehl.
14h30 - Mesa 17 - O Futuro da América
Simon Schama em conversa com Lilia Moritz Schwarcz
O futuro da América, livro mais recente do historiador inglês Simon Schama, revê a história dos Estados Unidos a partir dos temas da guerra, da religião, da imigração e da fartura. Os protagonistas são personagens comuns que atravessam momentos-chave da história do país - atores da "história narrativa" de que Schama é um dos mais notórios praticantes no mundo. Sobre esse trabalho, Schama conversa com a historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz - um dos nomes fortes dessa corrente historiográfica no Brasil.
16h15 - Mesa 18 - Antologia pessoal
Edson Nery da Fonseca e Zuenir Ventura
A memória afetiva é o mote desta mesa que encerra a homenagem a Manuel Bandeira. Amigo e correspondente do poeta, o professor Edson Nery da Fonseca relembra os anos de convivência no Rio e em Pernambuco. Ex-aluno de Bandeira, Zuenir remonta aos tempos de aprendizado com o mestre. Na mediação, o jornalista Humberto Werneck, biógrafo de Jaime Ovalle e bandeiriano de primeira linha.
Mediação: Humberto Werneck
18h - Mesa 19 - Livro de cabeceira
Convidados da FLIP leem trechos de seus livros prediletos.
Fonte: jornal O Globo
Homenageado da Flip 2009, Manuel Bandeira tem destacada a faceta cronista

Poeta será tema da conferência de abertura e de duas mesas do evento.
Festa Literária Internacional de Paraty tem início nesta quarta-feira (1º).
Shin Oliva Suzuki
do portal G1
Dentro da tradição da Festa Literária Internacional de Paraty, a edição 2009 terá Manuel Bandeira como mais uma figura importante das letras brasileiras a ser homenageada pela programação do evento.
O nome do poeta sucede os de Vinicius de Moraes, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Machado de Assis, lembrados nas seis edições anteriores da Flip. A sétima edição do festival começa nesta quarta-feira (1º).
Dentro da Flip, Bandeira (1886-1968) será tema da conferência de abertura, às 19h, a cargo de Davi Arrigucci Jr., que escreveu ensaios importantes sobre o escritor, identificado com o movimento modernista (apesar de não ter participado da Semana de 1922).
Na sexta-feira, às 10h, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas, representantes da nova geração de poetas brasileiros, conversam sobre por que ainda é importante ler Bandeira. No domingo, último dia de Flip, às 16h15, Edson Nery da Fonseca, correspondente e amigo do poeta conversa com o jornalista Zuenir Ventura – discípulo bandeirista.
Ainda haverá leitura de poemas pela rádio digital Lettera Libris (quinta, às 15h10), uma releitura do “Guia de Ouro Preto”, a exibição do curta “O poeta do castelo”, de Joaquim Pedro de Andrade (sexta, às 17h30), um show de Francis e Olivia Hime (sexta, às 22h), todos voltados à obra do poeta nascido no Recife e que morou boa parte de sua vida no Rio de Janeiro. Entre seus livros fundamentais estão “Libertinagem” (1930) e “Itinerário de Pasárgada” (1954).
O mercado editorial aproveitou a deixa e planejou uma série de lançamentos na esteira da homenagem feita pela Flip. A editora Cosac Naify publica a tradução de “Macbeth”, de Shakespeare feita por Bandeira, “Apresentação da poesia brasileira”, um antologia de nomes importantes da produção nacional com vistas ao leitor de fora, e “Crônicas inéditas 2”, reunião de trabalhos feitos para jornais e revistas. É nesse livro, organizado por Júlio Castañon Guimarães, pesquisador da Fundação Casa Rui Barbosa, em que aparece Bandeira em momentos como crítico duro ou que entabula de maneira mais informal a comunicação com o leitor.
Guimarães concorda que pode se enxergar uma influência do movimento modernista, com um “tom de brincadeira, de ironia” em suas crônicas.
A editora Nova Aguilar também lançará “Poesia completa e prosa” e a Nova Fronteira programa “Estrela da vida inteira” – que ainda inclui um CD com leituras de poemas feitas pelo próprio Bandeira.
Conselho Nacional aprova fim da divisão por disciplinas no ensino médio

Estados têm autonomia para decidir se adotam mudanças.
A proposta do Ministério da Educação (MEC) de eliminar a divisão em disciplinas do currículo do ensino médio foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) nesta terça-feira (30).
O MEC pretende apoiar experiências curriculares inovadoras no ensino médio. Segundo a assessoria de imprensa do ministério, a partir de 2010, cerca de cem escolas deverão receber financiamento do ministério para implantar mudanças curriculares, que passariam a ser interdisciplinares e mais flexíveis, na tentativa de melhorar a qualidade da educação.
A atual estrutura deve ser substituída pela organização dos conteúdos em quatro eixos: trabalho, ciência, tecnologia e cultura, com o objetivo que o conteúdo ganhe maior relação com o cotidiano e faça mais sentido para os alunos. O objetivo da mudança é atrair o interesse do estudante de ensino médio, área crítica da educação .
Outra mudança a ser estimulada é a flexibilidade do currículo: 20% da grade curricular deve ser escolhida pelo aluno.
“Esperamos que essa proposta seja acompanhada e avaliada e possa se tornar uma política universal”, disse a secretária de educação básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda. De acordo com ela, a intenção é que o programa seja estendido e que todas as escolas que oferecem ensino médio possam adotar as mudanças curriculares debatidas.
“Nossa intenção não é ter escolas modelos, mas que todas possam oferecer ensino de mais qualidade”, completou o coordenador-geral do ensino médio da Secretaria de Educação Básica, Carlos Artexes Simões.
O texto também prevê o aumento da carga horária mínima do ensino médio – de 2,4 mil horas anuais para 3 mil – além do foco na leitura, que deve perpassar todos os campos do conhecimento. A proposta ainda estimula experiências que instiguem a participação social dos alunos, além do desenvolvimento de atividades culturais, esportivas e de preparação para o mundo do trabalho.
Nos próximos 40 dias, o MEC deverá definir o volume de recursos disponível para o programa e a forma de financiamento, se diretamente à escola ou se por meio de convênio com as secretarias estaduais.
A implantação no sistema público de ensino dependerá dos Estados, que têm autonomia para aderir ou não. A proposta também vem ao encontro das alterações no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , que terá uma divisão por quatro grandes áreas.
*Do portal G1
Leite derramado: Em romance, Chico Buarque narra saga de família nobre decadente

da Folha Online
Vencedor de dois prêmios Jabuti de Melhor Romance por "Estorvo" (Companhia das Letras, 1991) e "Budapeste" (Companhia das Letras, 2003), o cantor, escritor e dramaturgo Chico Buarque é uma das figuras mais representativas das artes no Brasil.
Autor de peças como "Roda Viva" (1967) e "Ópera do malandro" (1977), o músico carioca escreveu seu primeiro romance, "Fazenda Modelo", em 1974. Cerca de 35 anos depois, Chico publica sua mais recente obra: "Leite Derramado" (Companhia das Letras, 2009).
Inspirado na canção "O Velho Francisco", de 1987, o autor narra a história decadente da família de Eulálio Montenegro d'Assumpção, um homem de origem nobre que foi abandonado pela mulher em um hospital no Rio. Em uma linguagem fluente e divertida, Chico utiliza figuras e cenários que habitam sua memória para construir um romance com características machadianas que discute questões como escravidão e miscigenação.
O cantor participará da 7ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), no dia 3 julho, às 19h. O músico se reunirá com o escritor amazonense Milton Hatoum, autor de livros como "Órfãos do Eldorado" (Companhia das Letras, 2008) e "A Cidade Ilhada" (Companhia das Letras, 2009), e com Samuel Titan Jr., doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), para discutir a formação do Brasil.
Leia abaixo trecho extraído do livro "Leite Derramado" :
*
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro. Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia. Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar, como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está aí? Acabou a novela, o jornal, o filme, não sei por que deixam a televisão ligada, fora do ar. Deve ser para que esse chuvisco me encubra a voz, e eu não moleste os outros pacientes com meu palavrório. Mas aqui só há homens adultos, quase todos meio surdos, se houvesse senhoras de idade no recinto eu seria mais discreto. Por exemplo, jamais falaria das putinhas que se acocoravam aos faniquitos, quando meu pai arremessava moedas de cinco francos na sua suíte do Ritz. Meu pai ali muito compenetrado, e as cocotes nuinhas em postura de sapo, empenhadas em pinçar as moedas no tapete, sem se valer dos dedos. A campeã ele mandava descer comigo ao meu quarto, e de volta ao Brasil confirmava à minha mãe que eu vinha me aperfeiçoando no idioma. Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família se tratavam em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família. E além do mais ela falava por metáforas, porque naquele tempo qualquer enfermeirinha tinha rudimentos de francês. Mas hoje a moça não está para conversas, voltou amuada, vai me aplicar a injeção. O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. Ouço ruídos de gente, de vísceras, um sujeito entubado emite sons rascantes, talvez queira me dizer alguma coisa. O médico plantonista vai entrar apressado, tomar meu pulso, talvez me diga alguma coisa. Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco. *
"Leite Derramado"
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Quanto: R$ 32,40
Romance de Lobo Antunes aborda comportamento violento de jovens

da Folha Online
Um dos nomes de peso da 7ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 1º a 5 de julho, o escritor português António Lobo Antunes, 67, conversa com o público no sábado (4), às 19h, na mesa "Escrever é Preciso".
Autor de mais de 20 romances, Antunes foi vencedor do prêmio Camões em 2007 e é tido como o maior escritor lusitano após Eça de Queirós.
Formado em Medicina e especializado em psiquiatria, começou sua carreira de escritor depois de retornar da Guerra Colonial Portuguesa em Angola (1961-1974). Suas primeiras obras destacaram-se pelo forte caráter autobiográfico, enquanto as demais versam sobre os mais diversos temas.
Seu romance "Meu Nome é Legião" (Alfaguara, 2009), recém lançado no Brasil, conta a história de um grupo de jovens que roubam dois carros e praticam crimes bárbaros pela autoestrada. Recontando os acontecimentos inicialmente sob a forma de um relatório escrito por Gusmão, policial em fim de carreira, a obra passa a entrelaçar os pensamentos desse homem solitário aos depoimentos dos outros personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligados ao destino dos jovens criminosos.
Aparentemente técnico e objetivo, o texto aos poucos se transforma em uma trama narrativa de múltiplas vozes, criando um mosaico de contrastes sobre a injustiça e a dor.
Leia trecho do livro "Meu Nome é Legião" (Alfaguara, 2009) abaixo.
*
Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00 (vinte e duas horas e zero minuto) na direcção da Amadora onde julga-se que por volta das 22h30 (vinte e duas horas e trinta minutos) hipótese sujeita a confirmação após interrogatório quer dos suspeitos quer de eventuais testemunhas até ao momento não localizadas furtaram pelo método denominado da chave-mestra (sujeito a confirmação também e que adiantamos como provável derivado ao conhecimento do modus operandi do grupo) 2 (duas) viaturas particulares de média potência estacionadas nas imediações da igreja a curta distância uma da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos (vandalismo ou situação natural?) permitiam actuar com maior discrição após o que se dirigiram para a saída de Lisboa no sentido da auto-estrada do norte utilizando a via rápida que por não se acharem as ditas viaturas munidas do dispositivo magnético necessário à sua utilização registou as matrículas conforme fotocópia anexa aliás não muito nítida e previne-se respeitosamente o comando para a urgência de melhoramentos no equipamento caduco: fotocópia número 1 (um) embora perceptível é verdade com uma lupa decente.
Temos motivos para adiantar com base em actuações pretéritas essas sim já aferidas que os suspeitos se distribuíram nos veículos de acordo com a ordem habitual ou seja o chamado Capitão de 16 (dezasseis) anos mestiço, o chamado Miúdo de 12 (doze) anos mestiço, o chamado Ruço de 19 (dezanove) anos branco e o chamado Galã de 14 (catorze) anos mestiço na dianteira e os restantes quatro, o chamado Guerrilheiro de 17 (dezassete) anos mestiço, o chamado Cão de 15 (quinze) anos mestiço, o chamado Gordo de 18 (dezoito) anos preto e o chamado Hiena de 13 (treze) anos mestiço assim apelidado em consequência de uma malformação no rosto (lábio leporino) e de uma fealdade manifesta que ousamos sem receio embora avessos a julgamentos subjectivos classificar de repelente (vacilámos entre repelente e hedionda) a que se juntava uma clara dificuldade na articulação vocabular muitas
vezes substituída por descoordenação motora e guinchos logo atrás, salientando-se a importância do chamado Ruço ser o único caucasiano (raça branca em linguagem técnica) e todos os companheiros semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado à margem do presente relatório sobre a justeza da política de imigração nacional.
Cerca das 23h00 (vinte e três horas e zero minutos) as duas viaturas alcançaram a primeira estação de serviço do trajecto Lisboa-Porto a cerca de 30 (trinta) quilómetros das portagens tendo parado com os motores a trabalharem (existia apenas uma furgoneta numa das bombas)
diante do estabelecimento envidraçado no qual se efectua a liquidação do montante de gasolina adquirida e onde se pode malbaratar dinheiro em revistas jornais tabaco (espero bem que não álcool) pastilhas elásticas e ninharias. No citado estabelecimento encontrava-se o empregado a conversar sentado à caixa registadora com o condutor da furgoneta e outro empregado mais idoso a varrer o soalho adjacente a uma porta de escritório ou compartimento de arrumos (deseja-se que não destinado à venda clandestina de bebidas espirituosas) com a placa Interdita A Entrada mal aparafusada à madeira.
Os suspeitos apetrecharam-se de gorros de lã e óculos escuros e ingressaram sem pressa no local (de acordo com o depoimento do empregado da caixa um deles e ignora a especificação do indivíduo assobiava) transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército e concedo-me uma breve digressão no meu entender não inteiramente despicienda para sublinhar no caso de me autorizarem uma nota íntima que as estações de serviço à noite iluminadas na beira do caminho me fazem sentir menos desditoso e só quando regresso de Ermesinde aos domingos de madrugada da visita mensal à minha filha, o mundo com as suas árvores confusas e as suas povoações logo perdidas cujo nome desconheço me surge demasiado grande para conseguir entendê-lo e as bombas de gasolina próximas, nítidas, ia escrever cúmplices mas retive-me a tempo me garantem que apesar de tudo possuo um lugar ainda que ínfimo no concerto do universo, alguém talvez me espere tomara descobrir em que sítio com a chávena de um sorriso numa toalha amiga e eu comovido senhores, eu grato, peço perdão de inserir num documento oficial e em papel do Estado este desabafo importuno e este desejo absurdo de companhia: rodar a fechadura e escutar na despensa, na sala, não ouso sugerir que no quarto uma voz que pronuncia o meu nome
- És tu?
*
"Meu Nome é Legião"
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Alfaguara
Páginas: 336
Quanto: R$ 53,90
