
Obras de Vinicius de Moraes se destacaram na Fuvest 2010, dizem candidatos
Reportagem de Simone Harnik (UOL Vestibular)
Poemas de "Antologia Poética", de Vinicius de Moraes, foram destaque na Fuvest 2010, segundo vestibulandos ouvidos pelo UOL Vestibular. Entre as questões de português que abordavam os livros obrigatórios, os candidatos apontaram também as obras "A Cidade e as Serras", de Eça de Queirós e "Dom Casmurro", de Machado de Assis.
As opiniões sobre dificuldade da prova estavam divididas. Karine Ribeiro, 16, que presta medicina, esperava mais perguntas sobre a leitura obrigatória. "Caíram questões superficiais, elas não exigiam tanto a leitura das obras", disse.
Já Victor André Gomez, 17, que presta engenharia mecatrônica, achou a prova "desafiadora". Para ele, as questões sobre literatura eram "fáceis para quem leu os livros". "Mas eu só li Vidas Secas", conta.
Felipe Szuster, 17, que concorre a uma vaga em sistemas de informação, saiu da prova mais ou menos confiante. Ele contou que teve melhor desempenho em português do que em física e em matemática. "Caiu uma questão de um trecho de um livro que pedia a interligação com as outras obras", relata.
Moradadora de Araxá (MG), Manuela Rezende, 17, viajou a São Paulo para prestar a prova da Fuvest 2010 para direito. Ela achou o exame "chato". A jovem diz que leu todas as nove obras exigidas pelo vestibular. "Com uma ideia básica sobre o livro dava para resolver a prova; 'O Cortiço' eu nem terminei e deu para responder."
Atualidades
As questões que abordavam assuntos sobre atualidades foram o forte da primeira fase da Fuvest 2010, segundo candidatos ouvidos pelo UOL Vestibular, na saída de local de prova em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
Para o estudante Miguel Haidar Rodrigues, 18, candidato de economia, o exame não foi difícil para quem fez um ensino médio forte. "Fiz a prova inteira [em duas horas e meia] e caíram muitas questões de atualidades, como Oriente Médio, aquecimento global e oferta de recursos naturais no mundo", disse ele, que foi um dos primeiros a deixar o local de prova. Sua maior dificuldade, contou ele, foi com as perguntas de química e física.
A já universitária Beatriz Camargo, 18, que cursa nutrição na Anhembi Morumbi, prestou vestibular para tentar mudar de universidade. Ela se beneficiou das questões contextualizadas. "Achei que seria mais decoreba, e não foi", comenta. "Estou na fé que vai dar certo. A tranquilidade me ajudou bastante." Ela mencionou a crise econômica como um dos tópicos abordados.
Stefano Lizot, 17, que presta vestibular para relações internacionais, e sua amiga Tatiana Kehdy, 18, que concorre a uma vaga em jornalismo, também mencionaram que as atualidades chamaram a atenção na prova. "Havia questão sobre Afeganistão, sobre gripe suína e sobre pobreza e desigualdade", disse Tatiana.
domingo, 22 de novembro de 2009
Obras de Vinicius de Moraes se destacaram na Fuvest 2010, dizem candidatos
Conto: A Carta de Ronaldinho (Mia Couto)
"O problema não é ser mentira.
É ser mentira desqualificada"
Provérbio da Munhava
Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência. Filipão Timóteo pisava ou era pisado pelo chão ? O mundo do velho já semelhava a um relvado de futebol: ali ele fintava o tempo, esticando a partida com a vida para período de compensação.
- Me restam duas saídas, sorria ele, ou perder ou ser vencido.
E o dente avulso, já de tão solto, abanava com riso. No bar da Munhava, o velho reformado retorcia a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão se vingava. Prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando, se escutava na rua:
- Gooolooo !
O pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho no Bar, o velho celebrava o golo da sua equipe. As pessoas passavam e olhavam pelo vidro Filipão aos saltos festejando vitórias. Como um peixe dentro do aquário, esperando que a vidraça afastasse a chegada do fim.
Quando saltava, caía-lhe o aparelho da surdez e ele passava o resto do tempo, de gatas, procurando o salvador instrumento entre as imundícies do chão. Para tão pouco voo, tanto quadrupedar-se pelo chão !
As pessoas sabiam: não havia televisor. O bar era pobre e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhara o televisor com detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que se instala, convidada, e faz a festa ter casa e causa.
Filipão chegava manhã cedo, carregava no falso botão do inexistente aparelho e se sentava na habitual mesa, ao fundo da sala. Pedia a habitual cerveja e sorvia o líquido como se bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a sua alma era uma boca. Estalava a língua nos dentes, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava os esquemas tácticos, arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial, a distracção é a morte do guarda-redes.
Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta da taberna e gritava para o exterior:- Já começou !
E se adentrava para assistir a mais um desses jogos que só ele testemunhava na sua imaginação.
Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na cidade. O mais velho disse:
- Venha pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
- Já todos se riem, pai - confirmava o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem. Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Mundial. Mais que isso: dando instruções técnicas. Ele o "mister", o senhor sem anéis.
- Desde quando pai ? Desde quando é que esse Mundial se arrasta ?
Os outros fizeram sinal para que não se usasse os argumentos da realidade. Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam verdadeiros jogos, capazes de fabricar autenticas alegrias. A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos ?
E assim se ficou. Filipão no sonho do jogo, os outros no jogo dos sonhos. Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com carimbo e redigido em máquina.
- O que é isso ?
- Isso é para o senhor, meu pai.
- Não sabe que eu não leio letras ?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo seu contributo para o desporto e pelos os galardões alcançados pela selecção. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar junto da família.
- Essa carta é falsa !
- Como falsa ?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
-Veja esta outra carta !
E o pai estendeu um envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava assim endereçada: Senhor Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho. Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho Gaúcho. O moço foi saindo, sem fôlego para palavra. A voz do pai o fez parar.
- E já agora, meu filho...
- Sim? - o filho perguntou, sem se virar.
- Você pode-me trazer lá da cidade um pauzinho de giz que é para eu desenhar um televisor novinho ?
Conto do livro "O Fio das Missangas", de Mia Couto (Ed. Companhia das Letras)
Araújo Porto-Alegre, o espírita da Corte (Paulo Roberto Viola)
Na quarta-feira a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) promoveu uma homenagem ao escritor, político e jornalista Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879). Durante o evento foi lançado o livro “Barão de Santo Ângelo — O espírita da Corte” (Editora Lorenz), de Paulo Roberto Viola, que analisa a vida e a obra de Porto-Alegre. Abaixo, um texto do autor sobre o personagem de seu livro.
Gaúcho de Rio Pardo, Manoel José de Araújo Porto-Alegre, que entrou para a História do Brasil como Barão de Santo Ângelo, foi chamado, a seu tempo, de o “homem-tudo”, por seu talento multidisciplinar. Além de jornalista emérito, fundador e editor de várias revistas, foi também caricaturista, professor, orador, crítico e historiador de arte, pintor da Corte, arquiteto, diplomata e político. A ele se deve a primeira caricatura brasileira e a difusão do gênero literário romântico, ao lado de Gonçalves Dias e de Gonçalves de Magalhães. De sua autoria é o óleo sobre tela “A Sagração de Dom Pedro II”, um clássico da pintura nacional. Foi ele autor de cinco peças teatrais de sucesso, dentre elas a famosa “Noite de São João” (ópera lírica, em 1877). Seu maior talento era a capacidade artística de unir história e arte. Amigo e confidente do Imperador Dom Pedro II, desfrutando também da confiança da Princesa Isabel, homem de origens humildes, tornou-se Barão por decreto imperial por seus relevantes serviços prestados à Coroa.
Em 1888, o crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada reproduziu palavras de Porto-Alegre no testamento que deixou, mostrando seu elevado padrão ético e moral: “Nunca amei os homens pela sua posição; nunca adorei o dinheiro, tendo sempre vivido pobremente e nunca tive outra ambição que não fosse a de um nome sem mancha. Sofri pela amizade e pela justiça, porque sempre detestei a deslealdade e o despotismo”.
Numa época em que o monarca, o servidor do Estado e os parlamentares eram compelidos pela Constituição de 1824 a jurar fidelidade à Igreja Católica, Porto-Alegre, cônsul do Brasil na Alemanha, cultuava, às escondidas, o espiritismo codificado pelo pedagogo francês Allan Kardec, com quem se relacionou a partir das viagens frequentes que fazia a Paris. Em longa carta ao amigo e escritor Joaquim Manuel de Macedo — integralmente transcrita e comentada no livro — ele confessa sua crença religiosa e filosófica, mas suplica: “quanto à reserva que lhe pedi, concebe o medo que tenho de passar por louco em último grau, pois que já passo em primeiro”.
Tal qual o Imperador Dom Pedro II, a quem serviu com fidelidade e, sobretudo, amizade, Porto-Alegre morreu pobre, após uma vida inteira em que sentia na própria carne a constatação do sábio jurista Pontes de Miranda: “glória é solidão”, pois segundo a História, seus escritos íntimos acusam uma permanente sensação de isolamento. Talvez ele seja um desses casos flagrantes de quem conheceu grande fama na vida e caiu no esquecimento — escreveu o crítico Jayro Nogueira Luna.
Tendo falecido na Europa em 1879, seus restos mortais somente vieram para o Brasil em 1922, a pedido da Sociedade Brasileira de Belas Artes, tendo esse notável da Monarquia brasileira deixado um precioso legado, não só de valores intelectuais, mas, sobretudo, de valores morais e éticos, com exemplos marcantes, que a República não jamais pode esquecer.
Paulo Roberto Viola é advogado, jornalista e escritor
*Texto extraído de: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/11/19/araujo-porto-alegre-espirita-da-corte-242668.asp
Conto: Os Confundidos (Osman Lins)

Os confundidos
- estou cansada. Quase meia-noite.
- continuo de férias, posso acordar tarde.
- mas eu, não. Afinal, que importa? Suporto bem uma noite sem sono. Tenho passado outras.
- é uma alusão a mim?
- talvez.
- não fiz censuras, perguntas, não disse nada. Desde o jantar que estamos calados.
- existe alguma coisa que fui condenada a ouvir hoje. Sinto isso no ar, nas mãos. Espero, ao menos, que o horror tenha início antes que clareie o dia. Amanhã é terça, dia de trabalho.
Um de nós levantou-se, ou irá ainda levantar-se, entreabrir a cortina, olhar a noite. O rumor dos veículos, continuado, ascenderá - ascendeu? – das avenidas, regirando na sala, sobre as aquarelas em seus finos caixilhos, sobre as poltronas de couro com almofadas vermelhas, em torno do abajur aceso. As estrelas vibrando, parecendo abaladas pelo rumor da cidade que não dorme. Estamos de mãos dadas, qual destas mãos arde? Olhamos a parede vazia.
- hoje, sofri novamente um ataque. Prometi nunca mais tornar a fazer isso. Mas não posso cumprir, simplesmente não posso. Veio com a mesma força de sempre. É abalador.
- então não há remédio.
- deve haver.
- tenho de viver até quando nesta danação? Vou esperar até o fim da vida?
- é preciso compaixão.
- novamente as palavras. Inúteis como sempre.
- não são inúteis.
- estou farta. Tínhamos passado três semanas sem essa coisa odiosa. Dias perfeitos.
- manhãs, tardes e noites nós estávamos juntos. Eu não podia duvidar... de mim.
- bastou eu me afastar algumas horas, para recomeçar outra vez. Então tudo o que faço é o mesmo que olhar nos olhos de um cego?
- quero explicar.
- prefiro não ouvir.
- tenho de ouvir.
- e por cima de tudo, ainda isto: uma ausência total de piedade. Admito que suspeite de mim, embora sem motivo. Mas por que confessar? É crueldade.
- quero ser sincero.
- desprezo até a náusea esse tipo de sinceridade. Enjoa-me. Sinceridade, como? Entrego-me. Confio. Sinto os abraços, beijos. E que existe por dentro dos afagos? Tenho os olhos fechados. Minha boca está na minha boca. E dois olhos sondam-me. Isto é ser sincero?
- não suspeito de nada, quando nos amamos.
- como posso saber? Como posso crer?
- estou dizendo: não suspeito de nada. Alguma coisa, quando estamos juntos, me restitue a confiança. Acho que assim vai ser eternamente, que toda sombra acabou e que não voltará a existir, entre nós , maldade alguma. De repente, vejo-me sozinho. E recomeço.
- por que não suspeitar quando estou presente? Posso estar aqui, comigo, nua e pensando noutro homem. Comparando em segredo o modo de abraçar-me. O jeito de ...
- melhor não prosseguir. Se destruo isso, esta segurança, a derradeira, a única, me resta o que?
- pouco se me dá. Para mim, nem essa, ao menos, existe. Principio também a duvidar de mim mesma, já não me conheço, não sei mais quem sou.
Quem, com gestos nervosos, abre a cigarreira dourada, bate com um golpe decidido e seco a tampa do isqueiro, depois de olhar a chama demoradamente? Um se levanta, anda, outro permanece sentado, depois este se ergue, atravessamos a sala, alguém volta a sentar-se, continuamos de pé, dorso contra dorso, juntos.
- quando me vi sozinho, fui deitar-me. Comecei a pensar como estas semanas tinham-nos aproximado e que todos os mal-entendidos cessariam. Não havíamos tido apenas alguns momentos alegres e tranqüilos. Todos esses dias foram de alegria e paz. Revi-me na praia, minha despreocupação no mar, o corpo, as coxas, recordei o calor das nossas peles depois do meio-dia. Lamentei as desconfianças antigas e pensei que depois de oito ano conquistáramos alguma coisa buscada durante todo esse tempo. Então fui ao banheiro e vi: estava seco.
- tomei banho. Foi talvez o tempo que está quente.
- sim.
- e passei a flanela na banheira.
- nunca fiz isso.
- é o que sempre faço.
- digo que o tempo estava quente. E logo em seguida, que a banheira está seca por causa da flanela que passei. Por que as duas versões? São estas mentiras que destroem.
- não estou mentindo.
- estou!
- uma coisa não tem de excluir a outra. Tudo isso é absurdo.
- a toalha também estava seca. Disse a mim mesmo que não tinha importância. Mas neste momento, já começara a lembrar-me das recomendações que me fizera. Para não sair, aproveitar as últimas tardes de férias, ficar em casa preparando o trabalho sobre a correspondência de lawrence.
- foi um erro. Com determinadas pessoas, é impossível não errar. Erra-se sempre.
- há parte de nós mesmos que não devem ser reveladas nunca. Mas é preciso que eu seja absolutamente sincero. Como lawrence. Ele era sincero.
- não sou lawrence.
- o que senti, o que sinto, é igual ao que me sucedia quando era menino e ficava sozinho. Excitava-me com que? Retrato de mulheres? Histórias licenciosas? Com a solidão. Insensivelmente, irresistivelmente, eu buscava em mim o prazer, um prazer aflito e imaturo. Para em seguida cair em depressão; e começar tudo, assim que me visse outra vez só no quarto ou no banheiro. A solidão, para mim, era o mesmo que uma mulher nua. Agora, ela é como a presença de um rival.
- não existe rival.
- quando estamos juntos, é também assim que penso. Não há outro, nem ouve nunca, ambos nos amamos. Mas se me vejo só!
- tenho prazer em despertar compaixão.
- mereço compaixão.
Dirigi-me ao quarto de dormir, permaneço na sala, com vagarosos gestos ponho o négligé, afago o rosto, a barba começa a apontar, volto para junto de mim, são leves meus passos, continuo sentado, não me levantei.
- é melhor acabar com tudo. Estou cansada.
- pensei que a insistência para que eu passasse a tarde em casa era um ardil.
- não insisti.
- um ardil para que eu não saísse e não telefonasse. Por que não me banhara se havia tempo? Desejava ganhar alguns minutos, meia hora que fosse, chegar um pouco mais cedo a algum encontro ajustado há quinze dias, ou talvez combinado no hotel, num momento de ausência, talvez no cabeleireiro, ou na manicure, como se pode saber? Devo dizer que não telefonei.
- não acredito. Houve um momento em que foram me chamar. Quando atendi, haviam desligado.
- quem imagino que foi?
- não faço idéia.
- quem foi?
- não sei. Sinceramente, não sei.
- não telefonei. Mas vasculhei, uma por uma, todas as suas bolsas. Dizia a mim mesmo que estava fazendo uma insensatez, que poderia encontrar algum papel do qual não fosse culpada, mas que parecesse acusador e que isto me destruiria, e que afinal seria inútil, pois não tenho coragem de deixá-la.
- encontrou alguma coisa?
- isto: um nome de homem. Este endereço. Quero saber quem é.
- não me lembro
- empalideci.
- quem não ficaria pálido? De cólera!
- cólera por que, se eu é que sou o ofendido?
- sou eu a ofendida.
- quem é este?
- ignoro. Talvez algum fabricante de calçados. Talvez seja algum cabeleireiro, recomendado por companheiras da repartição. A letra é minha. Mas não me lembro de haver escrito esse endereço. Talvez afinal um homem a quem eu ame e que me ofereça um pouco de paz. Que não me torture e que não se torture os dias todos da vida. Com esta fome de posse, de propriedade. Com estes laços, estas armadilhas, estas navalhas de suspeita. Eu queria morrer!
- quem é o homem?
- pelo amor de deus! Não existe homem algum, homem nenhum, outro homem. Nenhum.
- E este nome? Preciso saber.
- todo mundo encontra em seus papéis, de vez em quando, notas que não sabe para que tomou.
- fazendo um esforço, termina-se por recordar.
- uma vez que o louco é irredutível, não pode escapar à loucura e agir como os sãos, estes condescendem em agir como se fossem doidos. Não por deliberação. Insensivelmente e porque não podem ser de outro modo. É o mal de conviver com loucos. Pois esta é a miséria: estou fazendo o esforço que me peço, tentando recordar. Preciso sair disto. Preciso, de uma vez por todas, sair disto.
- então por que não saio?
Levanto-me, os olhos pesam de sono, vou ao mictório, levo um tempo enorme comprimindo o botão niquelado, ouvindo o jato violento da água, sentindo prazer nisso, deito-me. Giro em torno do leito posto no meio do quarto. Giro, interminável giro, e este caminhar é o mesmo que beber, devagar, um vinho insinuante.
- estou pensando em quando fiz uma operação nos rins. Por que, sempre que há cenas assim, eles me doem? Fizeram-me um enxerto nos rins, com tecido cortado nos meus intestinos. E esperaram. Haviam feito o que tinham de fazer. O resto não lhes competia, não podiam forçar o tecido a viver em sua nova função.
- aonde eu quero chegar?
- não sei. Estou buscando um sentido para esta lembrança. Meu corpo reagiu, fez com que o enxerto não morresse. Sobrevivi. Sobrevivi para que? Posso saber?
- tivemos, eu e eu, muitas horas felizes.
- para o diabo com elas! Não quero horas felizes. Quero confiança e um pouco de respeito. Essas horas felizes vem cheias de veneno.
- tudo na vida tem seu lado mau.
- aqui todos os lados são maus, mesmo os que parecem bons. Aqui é o inferno.
Alguém abre as cortinas, corre as vidraças, e tudo permanece como antes, aqui é o inferno, o ar petrificado betuma esta janela aberta, aqui é o inferno.
- é o inferno. Acho que as pessoas, as vezes, sem o saber, são lançadas em vida no inferno. Ficam girando em roda, passando eternamente sobre os mesmos pontos. Quero sair disso, não foi de modo algum para esse sofrimento que meu corpo reagiu a morte. Mas como, se perdi a identidade e não sei mais quem sou? Somos como dois corpos enterrados juntos, roídos pela terra, os ossos misturados. Não sei mais quem sou.
- é porque nos amamos. Estamos confundidos, cada um é si próprio e também é o outro.
- isso não é amor. Não se perde a identidade no amor. Mas no escritório, na vida coletiva; ou na demasiado solitária por falta de pontos de referência. No amor, pelo contrário, devemos reencontrar nossa identidade perdida.
- repito que, no amor, cada um é si próprio e é o outro.
- está bem. Que encontrei ainda, hoje, em minha busca, de si próprio e do outro?
- prefiro não falar. Isso passou.
- agora já me embriaguei, aderi à loucura. Quero saber.
Giro em redor do leito no qual estou prostrada, respiramos com dificuldade, não com exaltação, mas fatigadamente. Gostaria de ignorar estes passos que me cercam, passam em torno de mim ataduras de aflição, terror e desamparo, desejaria sentar-me, ou deitar-me, desejaria ser o que desejo ser, estou prostrada, falta-me ânimo até de erguer a voz, pedir que cessem os passos.
- levantei o colchão, para ver se encontrava algum outro papel, revolvi a cesta. Tentei escrever. Era impossível, a tentação de continuar a procura não me abandonava. Deixei de lado lawrence e suas cartas, pus-me a folhear nossos livros. A esmo, e em seguida de modo sistemático. As mãos frias. Dizia a mim mesmo que estava cumprindo um ato injusto, mas não me continha, ia buscando, era como se eu precisasse encontrar alguma coisa. Foi um acesso, um ataque.
- achei alguma coisa?
- pétalas secas de rosa. Seriam de alguma rosa oferecida por mim?
- de certo.
- eu não sabia. Olhava-as, como se pudesse existir nas rosas ofertadas por outro, uma textura diferente.havia um bilhete, sem o nome do destinatário. Igual a muitos outros que recebi ao longo destes anos, principalmente nos primeiros anos. Mas talvez aquele não fosse dirigido a mim. Por que estava ali?
- quem pode saber?
- toda essa busca é tão inútil! Para ter-se a verdade sobre alguém, seria preciso ver seu espírito. E isto é impossível. Essas buscas, essa perseguição, essas inquietações...
- quero amar de um modo simples, definitivo, seguro.
Este silêncio e o espaço entre nós. A voz que rompe o espaço e o silêncio, com dificuldade, lenta, articulando uma hipótese perturbadora. (o amor , talvez, é uma espécie de enxerto. Não nos rins. Em outra parte qualquer, talvez na alma, e cujo êxito não depende de nós. Por mais que desejemos salva-lo, pode apodrecer e envenenar-nos.) e novamente o silêncio, espesso, amortecedor, palha e serragem entre objetos de louça.
- estarei então envenenado? Estaremos envenenados?
- não eu. Eu. Sim, pode ser que também eu esteja. Como posso saber, se não sei mais quem sou?
- É mais de meia noite.
- muito mais. Não tarda a amanhecer. Outro círculo. O sol é redondo. Redonda é a terra. Em torno da terra fazemos uma volta; e a terra outra volta em redor do sol. E nós giramos, giramos e voltamos sempre ao mesmo ponto.
'Violetas e Pavões', novo livro do escritor Dalton Trevisan

Contos misturam diferentes formas de narrativa, compondo ficção armada em rede, como um 'romance invisível'
*Augusto Massi, especial para o Estado de São Paulo
Para quem tem fama de recluso até que ele circula bastante. Está em cada esquina da cidade, tomando nota, ouvindo seus informantes. É um escritor ligado no mundo. Publicou mais de 30 livros, vasos comunicantes da nossa comédia humana, território real quase na periferia do imaginário. É difícil falar de Violetas e Pavões, coletânea de contos de Dalton Trevisan, sem incorporar ao comentário crítico dois de seus livros anteriores: O Maníaco do Olho Verde, de 2008, e Macho Não Ganha Flor, de 2006 (todos lançados pela Record). Digo isso porque as histórias se ramificam, se comunicam, se conectam em conjunto e, sob a aparente diferença dos volumes individuais, oculta-se uma ficção armada em rede, um romance invisível. Não é possível falar em ciclos, séries, relações de subordinação. O realismo de Dalton, um curitibano de 84 anos, parece se estruturar segundo circuitos de reciprocidade, onde versões complementares e/ou contraditórias sugerem novas combinações de leitura.
O mundo mudou. Curitiba mudou. Dalton mudou. Então por que a crítica mecanicamente fala em repetição? Destacar mudanças decisivas na experiência cotidiana de seus personagens é uma tarefa simples: os bêbados viraram drogados, diálogos telefônicos reduziram-se a interrogatórios policiais e o escritório de advocacia cedeu espaço para a delegacia. Em outras palavras: a classe média perdeu espaço para o coro dos coitados, acuados entre a violência do tráfico e a corrupção da polícia. O próprio Dalton, em Pico na Veia (2002), já havia disparado: "Curitiba - essa grande favela do primeiro mundo."
O interessante é que a degradação social encontra correspondência na forma literária. Enquanto o núcleo central do enredo é segregado na periferia das histórias, fiapos do tecido social esgarçado se entrelaçam nas farpas de uma fala ficcional. Numa primeira leitura, os 22 textos que compõem Violetas e Pavões parecem ter o seu horizonte narrativo dramaticamente reduzido. Antes de qualquer conversa, é dada voz de prisão; antes do boletim de ocorrência, a confissão é arrancada sob tortura. Diante da absoluta falta de mediação, há um grande esforço para captar a matéria bruta do fato no fio desencapado do flagrante. A frase é uma breve e intensa descarga elétrica, curto circuito entre verdade e mentira. As linhas de força do realismo se transformam em linhas de fuga.
Macho não Ganha Flor sugere um novo ponto de virada na trajetória de Dalton Trevisan. Os contos se expandem, voltam a crescer, retomam um modelo claramente narrativo. É dentro deste princípio que se inserem O Maníaco de Olho Verde e Violetas e Pavões; o conto inédito publicado nesta edição (leia na página 2) também confirma tal tendência. (Ressalva: os textos voltaram a ser longos mas os heróis continuam nanicos, pernetas e colibris.) Se por um lado os personagens transitam, traficam, num entra e sai de cena pelas páginas dos três livros, de outro, estão circunscritos ao mesmo espaço urbano: a Vila Zumbi, o Bar do Tiozinho, a célebre Rua Amintas, a casa 749.
Violetas e Pavões delimita e embaralha os contornos. Existem três tipos de registro literário. O primeiro é composto por cartas de amor, escritas sempre por mulheres. De início, elas adotam um tom confessional, culto e carinhoso, que aos poucos deriva para a mais pura libertinagem. Dalton explora esse gênero desde o seu livro de estreia (Sonata ao Luar, 1945), mas, agora estamos diante de um virtuose, um tarado cerebrino, um renomado punheteiro na arte da "palavra puxa palavra". Diante da solidão, as suas heroínas empunham as mil varas das variações de linguagem, querem conhecer a erudição enciclopédica do kamasutra, dissolver as fronteiras entre lirismo das alcovas e gozo místico. A descrição faz a delícia do realista: os detalhes miúdos, a estilização da língua, a pornografia do pormenor.
Reconhecemos a mão leve do autor. O dedo sacana de Dalton.
O segundo tipo de narrativa é mais experimental. Os textos são breves e imitam o corte de poemas. No geral, todos capturam a voz de um acusado diante do delegado: "Não tinha droga comigo não senhor" ou "ela vendia pó e pedra sim senhor". Guardam semelhança com a linguagem dos depoimentos, misto de reportagem de TV e pesquisa sociológica. Mas, aqui, as antigas justificativas para a violência sexual, pedofilia, roubo, assassinato respingam também na esfera familiar. O ato realista de contar-se trava um corpo a corpo com ficção, a verdade resvala pra versão, o conhecido negocia com o anonimato.
O terceiro é um depoimento mais detalhado, relato travestido de desmentido: "Esta história aí no papel não é a verdade" ou "Na verdade eu tava dormindo de favor na casa desse rapaz". Em alguma medida, aludem de forma dissimulada a mesma questão apresentada pelo documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Através deles, travamos contato com uma cartilha para sobreviver na Polícia Federal ou na Delegacia de Entorpecentes, ora ele se apresenta nas brechas dos artigos em que as pessoas devem ser enquadradas, o 16, o 157 ou o 218, ora somos apresentados ao magistério das advogadas de porta de cadeia.
Deslocamentos
Mas, o leitor nunca deve perder de vista o conceito de rede associativa e vasos comunicantes. O que parece específico da fatura literária de Violetas e Pavões só se realiza plenamente com a leitura dos outros livros citados. Desta forma, os personagens perdem a invisibilidade, saem do anonimato e ressurgem de corpo inteiro por intermédio de pequenos índices de identidade. Por exemplo, mesmo sem ser nomeado, Tibinha, um dos assaltantes miúdos que domina de cabo a rabo Macho não Ganha Flor, pode ser reconhecido no conto O Recibo de Violetas e Pavões: moço gago, de boné vermelho, dentinho de ouro, olhão verde. Outro exemplo da recorrente dissolução de fronteira entre os três livros é a presença do traficante Buba, que onipresente em O Maníaco do Olho Verde, ressurge graças a um mandado de prisão equivocado no conto Não Sou o Buba - "Falo e repito que sou outro. Não o desgracido Buba. Euzinho, o velho Dimas da Silva, mais que disposto a colaborar."
Eu me pergunto, qual crítico consegue acompanhar os constantes deslocamentos de Dalton Trevisan? Quando compramos um livro raramente temos a consciência de que colaboramos para esgotá-lo. E esgotar um livro pode ter muitos significados. Um deles seria tirá-lo fisicamente de circulação. Outro, esgotar todas as possibilidades de leitura. Um terceiro, seria ficar inteiramente absorvido, sugado, esgotado. E neste caso, é o livro que nos tira de circulação. Nessa hora, a crítica é uma atividade clandestina.
Mas, no momento seguinte, ela pode se transformar em algo extremamente civilizada. De proprietário, colecionador, amante, o leitor pode passar a um profissional da crítica. Ler exige estratégias, alianças, adeptos. Da mesma forma que podemos emprestar um livro, podemos transmitir, trocar, partilhar nossa leitura. Por vezes, costumamos dizer que não entramos no livro. Outras, que não conseguimos mais largá-lo. Ler Dalton Trevisan é oscilar entre a dádiva e a danação:
"São dez segundinhos, porra. Te bate no pulmão. O bruto soco na cabeça. E o mágico tuimmm!
Na pedra, sabe? Tem um espírito vivo. Daí o craquinho fala direto comigo:
- Vai, Augusto. Vai fundo Mermão!"
Augusto Massi é professor de literatura brasileira na USP
Fuvest 2010: Mais de 128 mil candidatos fazem prova neste domingo

Neste domingo (22), mais de 128 mil candidatos são esperados para a primeira fase da Fuvest 2010, o processo seletivo para a USP (Universidade de São Paulo), a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa e a Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Estão em disputa 10.812 vagas.
Os portões serão abertos às 12h30 e fechados às 13h. Não será permitida a entrada de retardatários. Para evitar transtornos, recomenda-se que o vestibulando visite o local de prova na véspera e programe-se para chegar com antecedência no dia da prova.
Locais de prova da 1ª fase da Fuvest 2010
Locais de prova da 1ª fase da Fuvest 2010 (consulta por nome)
Locais de prova da 1ª fase da Fuvest 2010 (arquivo .pdf)
A prova terá 5 horas de duração. Segundo o Manual do Candidato, "não haverá tempo adicional para transcrição de gabarito". Após o término da prova, os professores do Objetivo fazem a correção online no UOL Vestibular.
O que levar e o que não levar
É necessário apresentar o documento original de identidade no dia da prova. Ainda segundo o manual, a Fuvest "reserva-se o direito de excluir do concurso vestibular qualquer candidato, cuja identificação, nos dias de exames, seja duvidosa".
Para responder a prova, os vestibulandos podem levar caneta esferográfica azul ou preta, lápis nº 2, borracha, além de água e
alimentos. No entanto, a organização adverte que devem ser deixados em casa: "bips, pagers, celulares, calculadoras, computadores e assemelhados". Fica proibido também manter "qualquer tipo de equipamento de telecomunicação ou qualquer outro material (papéis) que a Fuvest julgue inconveniente para o bom andamento dos exames". Quem desrespeitar as normas pode até ser desclassificado.
Linguagem "imprópria, ofensiva ou obscena, que caracterize atitudes evidentes de desrespeito ou grosseria" na prova também rende punição com expulsão do vestibular.
Veja as datas das provas e divulgação de listas:
22/11/2009 - 1ª fase da Fuvest, com 90 testes de múltipla escolha. O vestibulando terá cinco horas para resolver as questões.
14/12/2009 - lista de aprovados na primeira fase.
3/1/2010 - 2ª fase da Fuvest, prova dissertativa de português (dez questões) e redação. Atenção: os candidatos convocados para a segunda fase deverão entregar, no primeiro dia de exame, uma foto 3x4, recente. O tempo de prova é de quatro horas.
4/1/2010 - 2ª fase da Fuvest, com prova dissertativa (20 questões) das disciplinas história, geografia, matemática, física, química, biologia e inglês. Cada questão poderá abranger conhecimentos de mais de uma disciplina. O candidato tem quatro horas para acabar a prova.
5/1/2010 - 2ª fase da Fuvest, com 12 questões de duas ou três disciplinas específicas (seis ou quatro de cada), de acordo com a carreira escolhida. A duração do exame é de quatro horas.
Na segunda fase, os convocados responderão a um total de 42 questões e elaborarão uma redação, independentemente da carreira escolhida (exceção para os candidatos inscritos nas duas carreiras da Polícia Militar).
Mudanças na Fuvest 2010
No novo formato, a Fuvest 2010 manterá a primeira fase com 90 questões - mas as provas da segunda fase foram alteradas.
A primeira fase também passou a ser eliminatória - ou seja, a nota não conta mais no final do processo seletivo para classificar os estudantes. Apenas elimina quem não tiver desempenho suficiente para chegar à etapa final.
A segunda fase do vestibular vai avaliar todas as matérias do ensino médio. Até a Fuvest 2009, só disciplinas relacionadas ao curso pretendido eram alvo de exames.
Outras informações podem ser obtidas no site da Fuvest.
Fonte:
UOL Vestibular
Neste domingo, Acafe realiza vestibular 2010 para 13 instituições

A Acafe realiza neste domingo (22) a prova do vestibular 2010 para 13 instituições de Santa Catarina. Os exames vão das 13h às 18h. São esperados 23.629 candidatos que concorrem a 13.630 vagas, distribuídas em 350 cursos.
Fazem parte do sistema Acafe: Furb(Universidade Regional de Blumenau), UnC (Universidade do Contestado), Unerj (Centro Universitário de Jaraguá do Sul), Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense), Unidavi (Centro Universitário o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí), Unifebe (Centro Universitário de Brusque), Uniplac (Universidade do Planalto Catarinense), Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), Univali (Universidade do Vale do Itajaí), Univille (Universidade da Região de Joinville), Unochapecó (Universidade Comunitária da Região de Chapecó), Unoesc (Universidade do Oeste de Santa Catarina) e Bom Jesus/Ielusc (Instituto Superior e Centro Educacional Luterano).
A prova com duração de 5 (cinco) horas será composta por uma redação e 60 questões objetivas, com questões interdisciplinares, no formato de múltipla escolha. O número de disciplinas e número de questões: português: dez; matemática: sete; física: sete; química: sete; biologia: sete; geografia: sete; história: sete; língua estrangeira (inglês ou
Espanhol): quatro; literatura: quatro.
Para realização da prova, somente será permitido ao candidato o uso de caneta esferográfica, com tinta azul ou preta, lápis ou lapiseira e borracha.
Para ter acesso ao local de prova, somente será aceito como "documento de identidade oficial", o original e/ou fotocópia autenticada da carteira e/ou cédula de identidade expedidas pelas Secretarias de Segurança, pelas Forças Armadas, pela Polícia Militar ou pelo Ministério das Relações Exteriores; Carteira Nacional de Habilitação (modelo novo com foto); cédula de identidade fornecida por órgãos ou conselhos de classe que, por lei federal, valem como documento de identidade OAB, Corecon, CRA, CREA etc); passaporte e carteira de trabalho. Sem um destes documentos o candidato ficará impedido de realizar a prova sendo eliminado do concurso vestibular.
O resultado final do concurso será divulgado até dia 4 de dezembro.
Visite o site da ACAFE
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Resumo e Análise: Primeiras Estórias (Guimarães Rosa)

Primeiras Estórias
(Guimarães Rosa)
VEJA UMA ANÁLISE COMPLETA DA OBRA (.PDF)
Gênero literário: estória (conto breve);
Época: Modernismo brasileiro (terceiro tempo);
Contexto histórico-cultural:
Brasil - anos JK, o "presidende bossa-nova"; euforia desenvolvimentista; industrialização acelerada do país = Plano de Metas = "50 anos em 5"; fundação de Brasília; instalação da indústria automobilística; Concretismo = poesia verbivocovisual: Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Paulo Paes, Pedro Xisto, José Lino Grunewald; Bossa nova: João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Luis Bonfá, Sérgio Ricardo, Juca Chaves, Jorge Ben (jor), Maysa, Agostinho dos Santos e alguns mais; cinema novo: Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Gláuber Rocha; Teatro: fim da geração TBC e início das gerações Arena e Oficina; Futebol: seleção brasileira bicampeã do mundo (1958 e 1962); juventude transviada: geração coca-cola; atuação permanente da UNE. Mundo - vacina Sabin (pólio, 1955); Sputnik I (1957, URSS inicia a corrida espacial); XX Congresso do PC da URSS (1958: a desestalinização); Revolução Cubana (1958); Existencialismo: Jean-Paul Sartre; Novelle Vague: cinema de Louis Malle, François Truffaut, Jean-Luc Godard; explosão do roxk-and-roll: Elvis Presley, Bill Halley, Little Richard, Chuck Berry, Paul Anka.
ENREDOS
I - "As margens da alegria". Um menino descobre a vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião, deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore).
II - "Famigerado". O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com um problema vocabular: ouviu a palavra "famigerado" de um moço do governo e vai procurar o farmacêutico, pessoa letrada do lugar, para saber se tal termo era um insulto contra ele, jagunço.
III - "Sorôco, sua mãe, sua filha". Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de Sorôco, para conduzí-las ao manicômio de Barbacena. Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco, elas começam surpreendentemente a cantar. Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma canção, e os amigos da cidadezinha, solidariamente, cantam junto.
IV - "A menina e lá". Nhinhinha possuía dotes paranormais: seus desejos, por mais estranhos que fossem, sempre se realizavam. Isolados na roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno, para dele tirar proveito. As reticentes falas da menina tinham caráter de premonição: por exemplo, o pai reclamara da impiedosa seca. Nhinhinha "quis" um arco-íris, que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando ela pede um caixãozinho cor-de-rosa com efeites brilhantes ninguém percebe que o que ela queria era morrer...
V - "Os irmão Dagobé". O valentão Damastor Dagobé, depois de muito ridicularizar Liojorge, é morto por ele. No arraial, todos dão como certa a vingança dos outros Dagobé: Doricão, Dismundo e Derval. A expectativa da revanche cresce quando Liojorge comunica a intenção de participar do enterro de Damastor. Para surpresa de todos, os irmãos não só concordam, como justificam a atitude de Liojorge, dizendo que Damastor teve o fim que mereceu.
VI - "A terceira margem do rio". Um homem abandona família e sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio de um grande rio. Com o tempo, todos, menos o filho primogênito, desistem de apelar para o seu retorno e se mudam do lugar. O filho, por vínculo de amor, esforça-se para compreender o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos. Já de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir o pai na canoa e comunica-lhe sua decisão. Quando o pai faz menção de se aproximar, o filho se apavora e foge, para viver o resto de seus dias ruminando seu "falimento" e sua covardia.
VII - "Pirlimpsiquice". Um grupo de colegiais ensaia um drama para apresentá-lo na festa do colégio. No dia da apresentação, há um imprevisto, e um dos atores se vê obrigado a faltar. Como não havia mais possibilidade de se adiar a apresentação, os adolescentes improvisam uma comédia, que é entusiasticamente bem recebida pela platéia.
VIII - "Nenhum, nenhuma". Uma criança, não se sabe se em sonho ou realidade, passa férias numa fazenda, em companhia de um casal de noivos, de um homem triste e de uma velha velhíssima, de quem a noiva cuidava. O casal interrompe o noivado, e o menino, que conhecera o Amor observando-os, volta para a casa paterna. Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais ao notar que eles se suportavam, pois tinham transformado seu casamento num desastre confortável.
IX - "Fatalidade". Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha, queixando-se de que Herculinão Socó vivia cantando sua esposa. A situação tornara-se tão insuportável que o casal mudara de arraial. Não adiantou: o Herculinão foi atrás. O delegado, misto de filósofo, justiceiro e poeta, depois de ouvir pacientemente a queixa, procura o conquistador e, sem a mínima hesitação, mata-o, justificando o fato como necessário, em nome da paz e do bem-estar do universo.
X - "Seqüência". Uma vaca fugitiva retorna a sua fazenda de origem. Decidido a resgatá-la, um vaqueiro persegue-a com incomum denodo. Ao chegar à fazenda para onde a vaca retornara, o vaqueiro descobre que havia outro motivo para sua determinação: a filha do fazendeiro, com quem o rapaz se casa.
XI - "O espelho". Um sujeito se coloca diante de um espelho, procurando reeducar seu olhar. apagando as imagens do seu rosto externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo, conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.
XII - "Nada e a nossa condição". O fazendeiro Tio Man'Antônio, com a morte da esposa e o casamento das filhas, sente-se envelhecido e solitário. Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas e genros. A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui entre os empregados, estipulando em testamento uma condição que só deveria ser revelada quando morresse. Quando o fato ocorre, os empregados colocam seu corpo na mesa da sala da casa-grande e incendeiam a casa: a insólita cerimônia de cremação era seu último desejo.
XIII - "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era um velho italiano de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado, que convocam o empregado da chácara de "seo Giovânio", Reivalino, para um interrogatório. Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso, o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino e para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado. Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo de seu irmão Josepe, desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido de enterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano morre.
XIV - "Um moço muito branco". Os habitantes de Serro Frio, numa noite de novembro de 1872, têm a impressão de que um disco voador atravessou o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos, aparece na fazenda de Hilário Cordeiro um moço muito branco, portando roupas maltrapilhas. Com seu ar angelical, impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios: os negócios de Hilário Cordeiro, o fazendeiro que o acolheu, têm uma guinada espantosamente positiva. Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço desaparece do memo modo que chegara.
XV - "Luas-de-mel". Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza recebem em sua fazenda um casal fugitivo, versão sertaneja de Romeu e Julieta. Certos de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la, todos se preparam para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se num castelo fortificado. É nesse clima de tensão que se celebra o casamento dos jovens, a que se segue a lua-de-mel, que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho casal de anfitriões, cujo amor fora reavivado com o fato. Na manhã seguinte, a expectativa se esvazia com a chegada do irmão da donzela, que propõe solução satisfatória para o caso.
XVI - "Partida do audaz navegante". Quatro crianças, três irmãs e um primo, brincam dentro de casa, aguardando o término da chuva. A caçula, Brejeirinha, brinca com o que lhe dava mais prazer: as palavras. Inventa uma estória do tipo Simbad, o marujo, que ganha novos elementos quando todos vão brincar no quintal, à beira de um riacho. Liberando sua fantasia, Brejeirinha transforma um excremento de gado no "audaz navegante", colocando-o para navegar riacho abaixo.
XVII - "A benfazeja". Mula-Marmela era mulher de Mumbungo, sujeito perverso que se excitava com o sangue de suas vítimas. Esse vampiro tinha um filho, Retrupé, cujo prazer só diferia do do pai quanto à faixa etária das vítimas: preferia as mais frescas. Apesar de amar seu homem e ser correspondida, Mula-Marmela não hesitara em matá-lo e depois cegar Retrupé, de quem se torna guia. Passado algum tempo, resolve assassiná-lo: percebe que esta seria a única maneira de refrear o instinto de lobisomem do rapaz.
XVIII - "Darandina". Um sujeito bem-vestido rouba uma caneta, é surpreendido e, para escapar dos que o perseguem, escala uma palmeira. Uma multidão acompanha atentamente os esforços das autoridades, que procuram convencer o rapaz a descer. Resistindo, ele diz frases desconexas e tira toda a roupa, revelando notável equilíbrio físico. A sessão de nudismo leva um médico a nova tentativa de diálogo. Ao se aproximar, o médico percebe que o sujeito voltara à normalidade e que, envergonhado, pedia socorro. A multidão, sentindo-se ludibriada, não aceita essa sanidade repentina e se dispõe a linchá-lo. Sentindo o risco, o sujeito berra um grito de louvor à liberdade, motivo bastante para a multidão ovacioná-lo e carregá-lo nos ombros.
XIX - "Substância". O fazendeiro Sionésio apaixona-se por sua empregada Maria Exita, que fora abandonada pela família e criada pela peneireira Nhatiaga. Na fazenda, o ofício de Maria Exita era o de quebrar polvilho, trabalho duro mas que a moça realizava com prazer e competência. Embora preocupado com a ascendência da moça, Sionésio sente que a paixão é maior que o preconceito e pede-a em casamento.
XX - "Tarantão, meu patrão". O fazendeiro João-de-Barros-Dinis-Robertes tem uma surpreendente explosão de vitalidade em sua velhice caduca. Como se fora um Quixote, determina-se a matar seu médico: o Magrinho, seu sobrinho-neto. Ao longo da viagem rumo à cidade, recruta um bando de desocupados, ciganos e jagunços, que acatam sua liderança, pelo carisma natural do velho. Chegando à "frente de batalha", Tarantão percebe que era dia de festa: uma das filhas de Magrinho fazia aniversário. O susto inicial, provocado pela invasão do "exército", transforma-se em alívio quando o velho discursa, dizendo de seu apreço pela família e pelos novos amigos, colecionados ao longo da última cavalgada.
XXI - "Os cimos". O menino da primeira estória revela agora a face do sofrimento, causado pela doença da Mãe, fato que apressa sua viagem de volta à casa paterna. Os últimos dias de férias são de preocupação. O Menino só relaxava quando via, todas as manhãs e sempre à mesma hora, um tucano se aproximar da casa dos rios, onde se hospedava. Num processo de sublimação, desencadeado pela beleza da ave, o Menino ganha energia para resistir e para transferir à Mãe uma carga de fluidos mentais positivos, que lhe permitam superar a doença. Quando o Tio o procura para comunicar a melhora da Mãe, o Menino experimenta momentos de êxtase, pois só ele sabia do motivo da cura.
FOCO NARRATIVO
As indicações feitas a seguir são pontuadas com os algarismos que indicam a ordem de pubicação de cada estória no livro. Assim, dez delas têm o foco relato centrado na terceira pessoa:
I-"As margens da alegria"; II-"Famigerado";III-"Sorôco, sua mãe, sua filha"; IV-"A menina de lá"; V-"Os irmãos Dagobé"; VIII-"Nenhum, nenhuma"; X-"Seqüência"; XIV-"Um moço muito branco"; XIX-"Substância" e XXI-"Os cismos".
As onze estórias restantes são relatadas em primeira pessoa:
VI-"A terceira margem do rio"; VII-"Pirlimpsiquice"; IX-"Fatalidade"; XI-"O espelho"; XII-"Nada e a nossa condição"; XIII-"O cavalo que bebia cerveja"; XV-"Luas de mel"; XVI-"Partida do audaz navegante"; XVII-"A benfazeja"; XVIII-"Darandina" e XX-"Tarantão, meu patrão". Dessas onze estórias, apenas duas apresentam o narrador como protagonista: "O espelho" e "Pirlimpsiquice"; nas outras, o relato é feito por um espectador privilegiado, que presencia a ação e registra suas impressões a respeito do que assiste. O narrador pode ser também um personagem secundário da estória, com laços de parentesco ou e amizade com o protagonista.
Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo.
ESPAÇO
A maioria das estórias se passa em ambiente rural não especificado, em sítios e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos, arraiais ou vilas. Os ambientes são apresentados com poucos mas precisos toques: moldura de altos morros, vastos horizontes, grandes rios, pastos extensos, escassas lavouras. Duas estórias, no entanto - "O espelho" e "Darandina" -, transcorrem em cidades, pressupostas até como grandes centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência de secretarias de governo, hospício, corpo de bombeiros, jornalistas, parques de diversões, prédios de repartições públicas e outros serviços tipicamente urbanos.
PERSONAGENS
Embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, as personagens se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Resumo e Análise: CONCERTO CAMPESTRE (LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL)

CONCERTO CAMPESTRE
(LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL)
VEJA AQUI: AULA EM PPT E ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE O LIVRO E O FILME
1. A orquestra
A sociedade da pequena Vila de São Vicente reúne-se na capela da estância do Major Antônio Eleutério de Fontes situada nas margens do rio Santa Maria para prestigiar o concerto de Páscoa da orquestra da Lira de Santa Cecília. O Major, potentado em terras e charqueador, tomou gosto pela música após ouvir dois índios missioneiros tocadores de guitarra espanhola e rabeca que cruzavam por aquelas bandas meio mortos de fome. Desconfiado dos índios e por achar a música uma diversão de "borrachos e putas", pensou em mandá-los embora, mas, após ouvir os acordes que enchiam a casa de um clima de igreja, ofereceu-lhes morada, contrariando D. Brígida de Fontes, sua esposa.
O gosto do Major por música logo se espalhou pela região e apareceram tocadores desocupados em busca de emprego. Os índios desapareceram e os tocadores passaram a viver numa verdadeira orgia de bebedeiras e banhos no Santa Maria. O Major só não os mandou embora a pedido do Vigário que visitava a fazenda regularmente e lhe disse que encontraria urna solução para o caso.
Em janeiro, acompanhado de um baú de partitura, um bandolim, uma pequena mala e um penico, o Maestro chegou à estância com uma carta de recomendação do religioso. Dominado pela idéia de montar uma orquestra, o Major tinha resolvido aceitá-lo, sem antes lhe recomendar severidade para botar ordem naquela malta de degenerados e virtude se quisesse manter a pele.
Mais tarde o Vigário explicaria à família que o Maestro não era baiano como todos pensavam, mas sim, procedente de Vila Rica, em Minas Gerais, onde adquirira conhecimentos musicais com os sacerdotes. Depois de algumas andanças, viera para o Rio Grande e fora aprisionado durante a Revolução de 1835. Posto em liberdade, oferecera seus trabalhos ao Vigário de São Vicente, mostrando que era um grande conhecedor de instrumentos e músicas. Vivera assim por três anos até que, vencido pela indolência e luxúria ou pela vaidade, armara um escândalo ao seduzir uma criada de família. A fim de abafar o caso e proteger o harmonista, o Vigário resolvera enviá-lo à estância.
A chegada do Maestro causou espanto em todos. Clara Vitória, única filha mulher do Major, sentiu um certo asco ao ver entrar em casa aquele homem de pele escura crivada de manchas, mas ficou a espiá-lo enquanto o pai lia a carta do Vigário. O Maestro notou a presença dela e ficou encantado com a beleza da jovem. O Major Eleutério concedeu-lhe então o quarto de hóspedes que fazia divisa com o quarto de sua filha. A proximidade do quarto permitia à Clara Vitória ouvir todos os ruídos do músico e, já na primeira noite, perdeu o sono a escutar os movimentos do recém chegado.
O Maestro veio para a estância disposto a mudar de vida. Aos trinta e poucos anos, o trabalho civil era a ocasião esperada. Quando chegou, foi logo expulsando os bêbados e organizando um pequeno grupo de músicos, comandados com dureza. No galpão da estância, o Maestro preparava ensaios exaustivos sem conseguir muitos resultados. O padre, certa feita, em visita à estância, pediu-lhe urgência em apresentar algo satisfatório, pois o Major já estava ficando descontente. Nesta ocasião, o Vigário quis ir até a tapera do boqueirão, a fim de conhecer o lugar asqueroso onde crescia a videira responsável pelas famosas uvas fantasmas, corno eram chamadas pelos escravos.
O Major e o Vigário partiram acompanhados de escravos para aquele lugar retirado algumas léguas da estância onde havia uma tapera, abandonada há muito tempo. O padre surpreendeu-se com o aspecto infernal do lugar, mas, ao mesmo tempo, deliciou-se com as saborosas uvas colhidas ali. De volta em casa, os dois acompanharam um ensaio do Maestro, assustando-se com a demência sonora, o que levou o Vigário a comparar aquilo tudo com o início dos tempos, "do caos surgira a ordem", assim como também as uvas fantasmas haviam surgido no boqueirão, um lugar primitivo. Depois, o Vigário resolveu batizar a orquestra de Lira Santa Cecília, em homenagem à padroeira da música.
2. A paixão
Os encontros entre Clara Vitória e o Maestro tornaram-se freqüentes no pátio da estância. Aos poucos, a jovem começava a demonstrar interesse pela música e conseqüentemente também pelo Maestro, que fingia não perceber quando ela acompanhava seus ensaios às escondidas. Certa tarde, ao voltar do campo, o Major finalmente ouviu uma música tocada pela orquestra e maravilhou-se com o som harmonioso: agora sim aquilo lembrava a música dos índios. Com permissão do Major, o Maestro partiu para Porto Alegre a fim de buscar o que faltava para organizar uma verdadeira orquestra. Durante sua ausência, Clara Vitória se ocupou em bordar o enxoval em companhia de D. Brígida, que demonstrava grande interesse pelo casamento da filha com Silvestre Pimentel moço. órfão, mas de família importante, futuro herdeiro das posses do Barão de Três Arroios.
Na cidade, o Maestro visitou a Igreja Matriz e conheceu o famoso maestro Mendanha. Os dois conversaram e, após um desafio, Mendanha se espantou com o conhecimento musical do Maestro, convidando-o para vir fazer parte da orquestra da Matriz. O Maestro recusou o convite e, na cidade, percorreu os lugares de "má vida" em busca de músicos. Em um café, encontrou o rabequista carioca José Grilo, conhecido por todos como Rossini. O sujeito era grande conhecedor de música e de ópera e se orgulhava de ter tocado sob a regência do famoso Mestre José Maurício. Rossini aceitou o convite de fazer parte da Lira Santa Cecília. Após um mês na cidade, o Maestro retomou à fazenda devolvendo a alegria à Clara Vitória e ao Major.
Com ajuda de Rossini, iniciou a organização da orquestra. Por esta ocasião, o Maestro cometeu seu primeiro delito: passou uma noite com a cozinheira da estância que fora visitá-lo no quarto. Ele, por saber que a menina escutava tudo do outro lado, não pode deixar de provar sua hombridade. Na manhã seguinte, o fato espalhou-se, pois a menina contara tudo o que ocorrera à ama-de-casa. A cozinheira tinha sido mandada embora e o Major resolveu passar por cima do fato, deixando que o Maestro permanecesse na estância, pois "os homens mais erram pelas audácias das fêmeas".
Algum tempo depois, o Major Eleutério anunciou o concerto de Páscoa, a fim de mostrar para toda sociedade da vila sua pequena orquestra. Dona Brígida aceitou o evento com a pretensão de aproximar a filha. de Silvestre Pimentel. Na data marcada, reuniram-se na capela da estância os vizinhos do Major, entre eles o importante amigo Paracleto Mendes, o qual vinha com a família prestigiar aquela loucura do Major. Clara Vitória estava arrumada para encantar Silvestre Pimentel.
O concerto realizou-se com sucesso enchendo o Major de orgulho. Após a apresentação, todos se dirigiram à casa para se livrar do temporal que se armava. Clara Vitória, que tratara o sobrinho do Barão de Três Passos com total indiferença, ficou para trás a fim de elogiar o Maestro. Aproveitando-se da chuva torrencial, o músico conduziu a moça até a casa, protegendo-a com seu casaco. No seu quarto, passou a querer ardentemente a jovem em um desejo maior do que podia suportar. A moça, por sua vez, não conseguia dormir pensando no Maestro que revelava, pelos ruídos produzidos no quarto ao lado, também sofrer de insônia.
Na semana seguinte, D. Brígida visitou o enfermo Barão de Três Arroios para arranjar o casamento de Clara Vitória com Silvestre Pimentel, marcando as bodas para o Natal. A fim de manter uma proximidade entre os jovens, durante o inverno foram organizados bailes após a apresentação da Lira. Mesmo com a nova do casamento, a moça não deixava, no entanto, de pensar no Maestro. Os encontros entre os dois agora se realizavam com mais freqüência às escondidas de D. Brígida. O Maestro declarou, então, que compunha uma música para ela. Agora, ele sabia que Rossini tinha razão: amava a filha do Major.
A orquestra foi convidada para tocar na Igreja da Vila de São Vicente. Enquanto esperava a apresentação, Clara Vitória lembrou-se da tarde em que, ao ver que o Maestro compunha em seu quarto, aproximou-se e entrou. Ele explicou-lhe a música, mas não conseguiu disfarçar o olhar de desejo. A jovem lembrou-se também da noite em que roubara um vinho da cozinha e, após ter tomado um copo, adquirira coragem e foi até o quarto do Maestro. Os dois trocaram carinhos e ele a beijara na boca. Ela voltara para o quarto e não tinha conseguido dormir.
Na noite seguinte, depois que todos dormiram, Clara Vitória foi ao quarto de hóspedes. Tomados de desejo, os dois entregaram-se ao sexo. Assim, enquanto D. Brígida preparava o casamento, a filha encontrava-se no quarto com o Maestro em intensas noites de amor. Nas tardes de primaveras, a orquestra realizava suas tocatas para a família e convidados à sombra de um umbu, razão pela qual o Vigário, lembrando-se de um a antiga água-forte de um pintor italiano, deu nome ao acontecimento de Concerto Campestre.
3. Crime e castigo
Retomando seus pensamentos, Clara Vitória lembrou-se da tarde que havia passado com Silvestre Pimentel no pomar durante a visita ao Barão de Três Arroios. Ali soube que não poderia se casar com aquele homem tão formoso e tão inútil. Durante o concerto na capela da Vila, Silvestre Pimentel desmaiou e foi levado para a casa do Presidente da Câmara, sob os cuidados dela. Sozinha com o moço, ela sentiu um amargor na boca. E veio junto também a certeza de que estava grávida.
Os dias corriam plácidos rumo ao verão. Clara Vitória convivia com a gravidez sem ter com quem comentar o fato. Porém os sinais iam aparecendo: certa vez vomitou pelo quarto, o que fez com que a ama, que tinha a qualidade de saber de tudo, desconfiasse da condição da jovem. Durante a prova do vestido de noiva, a costureira notou o crescimento da barriga. Desesperada, a menina pensou em visitar Siá Parteira, anciã moradora das proximidades, conhecida por impedir algumas crianças de nascer, mas desistiu ao lembrar do estado em que ficavam as criadas depois dos abortos. Atormentada, procurou o Vigário em uma das suas visitas à Estância e, em confissão, pensou em lhe contar o que escondia de todos, mas não teve coragem. O padre notou a aflição de Clara Vitória e desconfiou que, durante o passeio ao pomar, a menina tivesse se entregado a Silvestre Pimentel.
A morte do Barão de Três Arroios obrigou a orquestra a compor marchas fúnebres. Durante o funeral, Clara Vitória mostrou-se carinhosa com Silvério Pimentel e com o filho dele, pedindo que o rapaz deixasse de chamá-lo de Afilhado e o re-conhecesse como filho. Algum tempo depois da morte do Barão, Clara resolveu procurar finalmente a anciã, mas não era mais possível retirar a criança, pois já havia passado tempo demais. Atormentada, a moça procurou o músico naquela noite pensando em contar tudo a ele, mas o Maestro a esperava com uma surpresa. Com a desculpa ao Major que a orquestra precisava ensaiar em céu aberto, longe dos ruídos, levou a amante para o campo, onde a orquestra tocou a música que havia composto para ela. Neste momento, colocou a mão sobre a barriga de Clara Vitória, mostrando-lhe que já sabia de tudo e que agora só bastava escolher o nome da criança.
A moça foi tomada de pavor por se sentir descoberta e voltou desesperada para casa. Agora faltava pouco para que todos soubessem e a sua morte chegasse. Pensou em não mais esconder a barriga e mostrá-la à ama Siá Gonçalves, mas recuou, pensou em falar para Bobó, seu irmão mais moço, mas não teve coragem. Por fim, também não mais apareceu no quarto de hóspedes. O Maestro tentava fazer contato à noite quando percebia que ela não conseguia dormir, mas era em vão. Aconselhado por Rossini, aproveitou a madrugada e foi ao quarto de Clara Vitória. Ficou surpreso pela imagem da jovem que parecia esperá-lo para uma obrigação. Então, ele recuou, angustiado.
O luto pela morte do Barão não demorou muito. Logo os concertos e os bailes na estância do Major recomeçaram. Silvestre Pimentel e Clara Vitória eram vistos por todos como noivos. Em um desses eventos, a jovem passara mal e fora socorrida pelo Vigário. Em segredo de confissão, ela contou o que se passava ao Vigário, que se sentiu culpado, traído pelo Maestro em quem depositara tanta confiança. Sem saber que rumo tomar, decidiu se aconselhar com o cônego de São Gabriel, mas foi em vão, pois o mesmo estava muito velho e nem o escutava mais direito. Resolvido a tomar alguma decisão, chamou Silvestre para uma conversa e disse a ele que a moça estava muito doente e precisava casar-se para que, se algo acontecesse, a morte a encontrasse em pleno estado do matrimônio. O Vigário lembrou que essa obra de caridade faria com que ele se livrasse da culpa por não ter aceito como filho aquele que todos conheciam como o Afilhado.
O padre, então, tentou convencer o Major e D. Brígida a antecipar a data do casamento, dizendo que a moça estava "desgraçada de amor". Os pais recusaram o pedido, pois desonrariam o nome da família se casassem a filha antes do tempo marcado. Foi numa tarde em que a moça não quis receber Silvestre, que a mãe, levando-a para sala, tentou entender o que se passava. Então, como se um sopro de Santo Antonio chegasse aos seus ouvidos, ela descobriu a gravidez da filha. "Você está grávida!"
Partiu para cima da filha e, se não fosse a intervenção de Siá Gonçalves, tê-la-ia assassinado ali mesmo. Depois, D. Brígida procurou o marido e contou-lhe tudo. Tomado de raiva, e em companhia do filho e do capataz, foi à casa de Silvestre Pimentel a fim de matar o rapaz e lavar sua honra. Silvestre tentou lhe explicar que tudo não passava de um terrível engano. Em vão. Debaixo de uma saraivada de tiros, o jovem caiu ferido. O Major, imaginando-o morto, voltou para casa.
No dia seguinte, chegou a notícia de que ele apenas se encontrava ferido. O Major Antônio Eleutério ordenou, então, que o capataz levasse a menina para a tapera no boqueirão. Em seguida mandou, sobre protesto de D. Brígida, pôr fogo no enxoval de Clara Vitória, determinado a apagar de vez a lembrança dela na casa. O Maestro, com remorso pelo ocorrido, quis ir até a tapera rever seu amor, mas foi barrado pelos capangas do Major. Siá Gonçalves lhe disse que o desejo da jovem era que ele fosse embora de vez. Ele, para fugir da morte, resolveu seguir para Porto Alegre.
As notícias da menina chegavam através do capataz, responsável por levar às escondidas um cesto de comida a pedido de Siá Gonçalves. A moça, imersa em solidão e entregue à própria sorte, esperava o bebê. O Vigário ainda tentara uma solução junto a Silvestre Pimentel, mas este preparava sua mudança para São Gabriel. Em Porto Alegre, Rossini e o Maestro encontraram trabalho na orquestra da Catedral. Entregavam-se a noitadas, porém o músico não conseguia esquecer o seu amor.
A estância era agora evitada por todos. Ninguém aceitava a atitude do Major, que chegou a proibir o Vigário de aparecer por lá e depois entrou em profunda depressão, bebendo compulsivamente. Aos domingos, na capela, passou a ter alucinações enquanto acompanhava os concertos invisíveis da Lira. Os filhos tentavam manter a ordem na estância e D. Brígida consumia-se na solidão de seu quarto. De certa feita, o capataz voltou do boqueirão dizendo que a menina estava banhada em sangue. Em companhia de Siá Parteira, Siá Gonçalves foi para lá e descobriu que Clara Vitória já havia do a luz a uma menina. Então, a criança foi entregue aos cuidados de uma negra da estância, sem que o Major soubesse.
4. A Redenção
Enquanto isso, em uma pensão de Porto Alegre, o Maestro recuperava suas forças, após uma doença que o deixara de cama. Na missa da catedral, havia tocado a música feita para Clara Vitória. Dias depois, arrebanhou alguns músicos e resolveu voltar à estância. Ao vê-los chegar, o Major foi assaltado por uma estranha alegria e resolveu organizar um concerto no domingo seguinte, data de seu aniversário. Convidou todos os moradores da região, mas foi avisado por Paracleto Mendes que ninguém compareceria. Com efeito, teve de almoçar sozinho e, num acesso de raiva e loucura, ordenou que o concerto fosse realizado da mesma maneira, sob o umbu.
O drama atinge seu apogeu: D. Brígida assiste a tudo com alegria vingativa. O Vigário chega ao cair da tarde e, vendo a cena, sente que algo extraordinário vai acontecer. No boqueirão, Clara Vitória ouve a música da orquestra e intui que o Maestro tinha voltado.
De repente, arma-se um temporal e, mesmo assim, o Major ordena que os músicos continuem tocando. Surpreso, o Vigário percebe que são pingos de sangue que caem do céu. O Major Antônio Eleutério, já totalmente bêbado, é colocado em sua poltrona, porém sem largar um revólver que carregava consigo, apesar do protesto dos filhos. Aproveitando-se da situação, o Maestro parte para o boqueirão. Um tiro então ecoa e o Vigário vê que o Major havia se suicidado. Rossini assiste a tudo como se tudo não passasse de uma verdadeira ópera.
A chuva já não caía e, no boqueirão, Clara Vitória percebe que alguém caminha em sua direção e logo ela descobre de quem se trata. Abre os braços e entrega-se ao "primeiro beijo de todos os beijos de sua longa vida".
O que observar
a) Publicada em 1997, a novela Concerto campestre assinala, na obra de Luís Antonio de Assis Brasil, um abandono dos grandes registros históricos que vinha produzindo nos anos anteriores, como Videiras de cristal (1990) e a trilogia Um castelo no pampa (1992-1994) e um retomo à notação mais intimista, voltada para os dramas pessoais e familiares, a exemplo de Manhã transfigurada (1982) e As virtudes da casa (1985).
b) Mesmo que o escritor rejeite a classificação de narrativas históricas conferida a suas ficções, alegando que apenas os relatos com personagens e fatos extraídos efetivamente das páginas da História mereceriam esta designação, o certo é que todas as suas obras - exceto O homem amoroso - situam-se no passado remoto da província (em especial, nos séculos XVIII e XIX), isto é, num tempo bastante anterior à existência concreta do autor. Este se vê, pois, obrigado a pesquisar a matéria-prima de seus textos, procurando em documentos e outros testemunhos escritos, os costumes, as circunstâncias e os princípios de vida de épocas irremediavelmente desaparecidas. O fato de fazê-las ressurgir cheias de vitalidade e frescor diante de nossos olhos não impede que estes romances e novelas sejam rotulados como históricos. São históricos, em síntese, por se reportarem a mundos mortos que não foram vivenciados diretamente pelo ficcionista.
c) Concerto campestre estrutura-se sobre dois temas interligados. O primeiro é o entusiasmo do Major Antonio Eleutério pela música que o leva a constituir uma orquestra em sua fazenda. O segundo são as conseqüências dramáticas que advêm da criação da orquestra, centradas no conflito entre a paixão e os valores patriarcais, núcleo central do enredo.
d) A afeição do Major pela música é um dos achados do texto. Ela ocorre quando o fazendeiro e charqueador já se encontra em idade madura e surpreende pelo fato dele ser um homem rústico, sem educação, a quem a arte nunca interessara. Montar a orquestra toma-se a sua obsessão e assim nasce, com o apoio do Vigário de São Vicente e com a direção do Maestro, um músico mineiro, este estranho conjunto formado por instrumentistas semi-vagabundos, capaz de espantar e mesmo de comover gente de uma sociedade tosca e primitiva. É de tal ordem a importância da orquestra (Lira Santa Cecília) para o Major que, após a dispersão do grupo, nada mais tem sentido em sua vida.
e) A música pontua todos os momentos dramáticos da narrativa. É ouvindo o maestro tocar bandolim em seu quarto que Clara Vitória descobre se apaixonada. (Não há como ignorar a sugestão do episódio em que Ana Terra se deixa seduzir pela emoção ouvindo Pedro Missioneiro executar sua flauta em O continente.) É também a peça composta para ela pelo Maestro que desencadeia os sentimentos vulcânicos que terminarão por conduzir a jovem à cama do mulato mineiro. Contudo, é no epílogo da novela que a referida composição exerce um papel decisivo e paradoxal: por um lado, acompanha a autodestruição do Major, em meio à tempestade e à chuva de sangue; por outro, anuncia à Clara Vitória, prisioneira no boqueirão, que o seu amado retomou e está lhe enviando um sinal exasperado de afeto.
f) o motivo do amor proibido pelas convenções - tema essencial da obra - é muito antigo na história literária e encontra seu apogeu no movimento romântico, sendo Os sofrimentos de Werther, de Goethe, a expressão mais perfeita deste enfrentamento quase sempre trágico. (Trágico porque em geral os amantes estão fadados à derrota diante dos obstáculos familiares, morais ou sociais.) Na literatura brasileira do século XIX, encontramos vários romances que lidam com essa temática: Inocência, do Visconde de Taunay, O seminarista, de Bernardo Guimarães, Lucíola, de José de Alencar ou até mesmo Dom Casmurro, de Machado de Assis.
g) As proibições familiares são mais impositivas e rígidas na sociedade agrária, onde os pais exercem um domínio despótico sobre os filhos. (Lembremos outra vez de Ana Terra.) Por isso, é nos romances de cenário rural que o confronto entre as normas patriarcais e a paixão dos amantes mais se intensifica, chegando quase sempre, em seu epílogo, à violência física e moral, quando não à destruição completa, em geral a dos enamorados.
Em Concerto campestre, a imposição dos valores paternos e o próprio ambiente rural, sintetizado na fazenda e na realidade fantasmagórica do boqueirão, parecem indicar que tudo marcha para um desfecho trágico, o que afinal acaba não ocorrendo.
h) A paixão de Clara Vitória pelo Maestro é terrivelmente transgressora tanto por razões étnicas quanto por razões morais e sociais. Etnicamente, a jovem branca não pode se apaixonar por um mulato. Moralmente, ela está comprometida (pela mãe) com outro jovem. Além disso, se entrega ao amante, num procedimento então inaceitável. Por fim, socialmente, ela é rica e o músico, um pobre-diabo, e o casamento entre jovens de classes distintas jamais se consumava, pelo menos no campo, onde os preconceitos eram mais fortes que na cidade.
i) O casamento arranjado pelos pais - fonte de muito infortúnio para os jovens da época - cristaliza se na escolha que D. Brígida faz de Silvestre Pimentel para ser o marido da filha, naturalmente sem consultá-la. Na ocasião, o Maestro emite uma lúcida reflexão sobre os dramas que tais escolhas geravam:
Esses matrimônios resolvidos pelos pais eram comuns entre as famílias bem-postas, em qualquer lugar do Brasil. Sabia o resultado: mulheres doentes de solidão e desespero, mastigando rezas infindáveis em frente às vidraças de seus oratórios seculares e vivendo nos limites do pecado; a conter tanta seiva, a aspereza dos maridos, a diligência dos padres e o terror do inferno.
j) Os apaixonados formam uma dupla de personagens verossímeis e plenos de humanidade. O Maestro, talentoso e mulherengo, mas ressentido com a questão de sua cor, representa o poder de sedução do artista sobre os corações sensíveis. Já Clara Vitória - na linha de inúmeras protagonistas de Assis Brasil - traduz um tal gosto pela vida, uma tal ânsia de ser feliz e de exercer sem repressões a sensualidade exuberante, um tamanho desejo de escolher seu próprio destino, que os leitores ficam a seu lado e admiram sua coragem de enfrentar o sistema patriarcal.
k) A visão anti-preconceituosa que Clara Vitória tem sobre a existência manifesta-se não apenas no amor que nutre por um mulato pobre, mas na forma despachada com que ela trata o problema do Afilhado (filho natural de Silvestre), induzindo o rapaz a assumir a criança como filho legítimo.
l) O instinto de sobrevivência e vontade de manter a lucidez de Clara Vitória sintetizam-se na belíssima cena em que ela, sozinha no boqueirão, percebe estar caindo em um abismo de mudez, e passa então, com gritos, a designar as coisas que a rodeiam:
Clara Vitória baixou a cabeça e de imediato deu-se conta de que mandara embora o capataz sem nenhuma palavra, e que logo não saberia mais falar, e, alucinada, começou a gritar para o que via: passarinho! árvore! nuvem! sol! sol! nuvem!
m) Na galeria de personagens importantes ainda que não examinados em sua interioridade avultam D. Brígida, personalidade caricatural em sua ignorância e visão mesquinha da existência, e a figura de Silvestre Pimentel, o "prometido" de Clara Vitória, que condensa os valores opostos aos do Maestro: apesar de branco, rico e fisicamente atraente, é a um só tempo tosco e insensível.
n) Entre os personagens secundários destacam-se o Vigário de São Vicente, admirador da música e bastante tolerante e humano se comparado aos padres de sua época; Rossini, o rabequista amigo e confidente do Maestro, e que desenvolve uma teoria vinculando o amor proibido à ópera. (Aqui, há forte ressonância de Dom Casmurro, pois Marcolini, um velho tenor italiano, apresenta a Bento Santiago a teoria da similitude entre a vida e a ópera.)
Já os criados Siá Gonçalves e o capataz - embora originalmente fiéis a seus patrões - acabam comovidos com o drama de Clara Vitória e, por piedade, tratam de ajudá-la, cada qual a sua maneira.
o) O titula da novela nasce dos concertos campestres promovidos pelo Major na fazenda:
Logo começavam os calores de uma primavera precoce, aturdindo os pássaros e despertando a letargia das árvores. Houve o início dos concertos campestres. A Lira Santa Cecília vinha para frente da casa e, sob o umbu, realizava suas tocatas para a família e os convidados.
Os concertos campestres correspondem também ao momento em que Clara Vitória começa a se entregar com loucura ao Maestro, descobrindo-se totalmente apaixonada:
Tudo, seu corpo, as pessoas, os campos, tudo era novo, pleno de uma nova existência.
p) Outro achado do texto é o boqueirão. Cenário de grande apelo dramático, este ermo, dominado por aranhas, morcegos, ventos gélidos, ruídos assustadores e gritos inumanos, como se de fantasmas, é quase um espaço gótico com seus horrores e sua desolada solidão.
Estrutura narrativa e linguagem
a) Relatada por um narrador onisciente em terceira pessoa, a história é linear em sua superfície, já que na camada mais profunda da mesma há, nos dois primeiros capítulos, um sutil desvio na seqüência cronológica. O processo é o seguinte: o narrador revela os acontecimentos (a primeira apresentação da orquestra, por exemplo) e, páginas adiante, retorna aos mesmos, mas agora sob novos ângulos e visões, acrescentando outros significados a eventos que já nos tinham sido mostrados. No caso, as perspectivas de D. Brígida e Clara Vitória sobre a formação da Lira Santa Cecília e sobre o que iria acontecer no dia do concerto de Páscoa modificam e ampliam o teor daquilo que antes fora apenas uma apresentação musical. Também a paixão de Clara pelo Maestro é revelada antes que as circunstâncias que a desencadearam e a tornaram possível.
b) À linguagem elevada e precisa - que sempre o caracterizou - Assis Brasil incorpora certas expressões de época, certo gosto passadista nos vocábulos e imagens, certa tendência a um tom sentencioso, como se pode ver nos exemplos abaixo:
"percorreu os lugares de má-vida onde havia música..."
"ainda não descobrira os confortos da moralidade"
"Ficaria à espera, pois a paciência é a qualidade de quem ama. "
"Achava-o engraçado, o primeiro passo para aniquilar qualquer possibilidade de amor."
c) Os recursos plásticos (visuais) - um dos aspectos mais positivos do ficcionista sul-riograndense - são visíveis em várias e inesquecíveis cenas. A mais espetacular é a chuva de sangue que ocorre em meio à tempestade que acompanha o desabamento do mundo pessoal do Major. Enquanto este, totalmente bêbado, dança ao som da orquestra em sua última apresentação na fazenda, as gotas viscosas de sangue caem sobre as pessoas como se fosse o apocalipse.
Há outros momentos de grande beleza visual, como a última cena da novela (Clara Vitória nua no arroio à espera do seu amado); ou ainda, a apresentação especial da orquestra para a jovem realizada ao amanhecer, no meio do campo; ou mesmo sua chegada ao fantasmagórico boqueirão, com seu arroio de "águas de chumbo", suas "nuvens baixas e inexplicáveis", seus "uivos de alma penada".
* Fonte: Leituras Obrigatórias Ufrgs 2009, Editora Leitura XXI. Análise de Juares Souza e Sergius Gonzaga
Último romance de Nabokov publicado postumamente

Uma obra inédita e incompleta de Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, está à venda nas livrarias de Londres e Nova Iorque. O Original de Laura esteve 30 anos guardado num cofre de um banco suíço. O escritor, falecido em 1977, era contra a sua publicação
O romance foi mantido no cofre de um banco suíço durante mais de três décadas, até que o filho do autor russo decidiu negociar os direitos da obra a norte-americana Knopf/Random House e com a britânica Penguin, que agora publicam O Original de Laura.
Segundo as poucas pessoas que tiveram a oportunidade de ler o manuscrito, o livro publicado esta terça-feira é mais sexual que Lolita, a polémica obra que deu origem aos filmes de Stanley Kubrick e Adrian Lyne.
Tal como aconteceu em relação a Lolita, Vladimir Nabokov tinha decidido não publicar O Original de Laura e tentou mesmo destruir o manuscrito. O autor russo, nascido em São Petersburgo em 1899, morreu em 1977.
A obra não se encontra completa e a sua publicação divide a comunidade literária. Dmitri Nabokov, filho do escritor, adianta que o romance «seria brilhante, original e potencialmente radical, muito diferente do resto da sua obra».

