
Poucos músicos pop foram objeto de tantos e diversos estudos de biógrafos, pesquisadores e até cineastas, como Robert Allen Zimmerman, mais conhecido como Bob Dylan. Mais um livro sobre sua trajetória chega ao Brasil: Like A Rolling Stone - Bob Dylan Na Encruzilhada (Cia. Das Letras, R$42,00), do jornalista e crítico musical americano Greil Marcus.
O autor dedica-se a narrar um momento bastante emblemático da carreira de Dylan, contando sobre os bastidores da gravação e repercussão do hino da contracultura, Like a Rolling Stone, que, numa eleição de 2004, foi considerada a melhor música de todos os tempos pela revista Rolling Stone.
História
Foi no dia 15 de Julho de 1965 que Dylan entrou em estúdio para gravar Like A Rolling Stone. Contando a história de uma mulher falida, que se vê como vítima da indiferença da sociedade hostil da qual fazia parte, a canção se tornaria um tapa no conservadorismo americano da época, uma materialização do sentimento coletivo de falência (material e ideológica), desmascarando o que tentavam estabelecer como a cultura jovem e moderna de então.
Marcus supera-se na missão de biógrafo para desenvolver um real trabalho de análise crítica, uma longa e fluída resenha sobre a canção e tudo que sua criação envolveu: o contexto político e social, como o cantor a compôs e a dificuldade inicial de emplacá-la nas rádios - a música, com seus seis minutos, é longa demais para os padrões de veiculação mantidos até hoje.
"Como uma pedra que rola"
O jornalista, que já havia escrito Invisible Republic (não lançado no Brasil) sobre Dylan, também alcança feliz resultado quando tece as explicações de como se deu a influência do músico e sua obra-prima em artistas que viriam a se consagrar como Jimi Hendrix e Frank Zappa, que já interpretaram Like A Rolling Stone em discos e shows, assim como os Rolling Stones - astros citados nominalmente em possível trocadilho da música -, B.B. King, Bob Marley, Lenny Kravitz e até os aspirantes participantes do programa de talentos American Idol.
Vale a pena conhecer mais intimamente um dos capítulos mais importantes da trajetória de Bob Dylan e do próprio rock n'roll. O apaixonado e contundente livro de Greil Marcus é uma excelente oportunidade para isso.
(Lucianno Maza/Especial Para BR Press)
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Meu Comentário
Quando vi o livro na prateleira não pensei duas vezes. Um livro sobre Dylan, maior poeta da canção norte-americana já merece um lugar na estante. Mas não é só isso, o lançamento da Cia das Letras é um caso singular de 'biografia' de uma canção. Mas não é só isso... não se trata de uma canção qualquer, mas de "Like a Rolling Stone"! How does it feel?
segunda-feira, 24 de maio de 2010
A encruzilhada musical de Bob Dylan
quinta-feira, 20 de maio de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Conto: Sorte (Mark Twain)
Sorte
Mark Twain
Foi em Londres, num banquete oferecido em honra de dois ou três dos mais ilustres soldados ingleses desta geração. Por motivos que logo serão vistos, não direi seu verdadeiro nome. Chamá-lo-ei Tenente General Lorde Artur Scoresby, Cavalheiro da Ordem do Banho, etc. etc. etc. Que fascinação a de um nome célebre! Ali estava sentado, em carne e osso, um homem a quem já ouvira mencionar milhares de vezes desde o dia em que, há trinta anos, seu nome, bruscamente, surgira para a glória, nos campos de batalha da Criméia, para continuar desde então sempre famoso. Satisfazia minha fome e minha sede admirar e ver, sim, ver aquele semideus, inspecionando, esquadrinhando, observando a impassibilidade, a reserva e a nobre gravidade do seu semblante, a singela honestidade que se irradiava de toda a sua pessoa, a suave inconsciência da sua grandeza, inconsciência das centenas de olhares admirativos nele fixos, inconsciência de profunda, afetuosa e sincera admiração que. brotava do peito de todos.
O pastor, sentado à minha esquerda, era meu velho amigo. Era agora pastor mas passara metade da vida em acampamentos e campos de batalha, tendo sido instrutor na escola militar de Woolwich. Justamente no momento a que me referi, uma vaga e estranha luz cintilou de seus olhos, e ele me sussurrou, discretamente, apontando ao herói do banquete:
— Confidencialmente lhe direi que... que se trata de um perfeito animal.
Estas palavras constituíram para mim uma autêntica surpresa. Meu assombro não poderia ter sido maior se o protagonista tivesse sido Napoleão, Sócrates ou Salomão. De duas coisas eu tinha plena certeza: que o reverendo era um homem verdadeiro, e que sabia julgar os homens com bom senso e critério. Assim fiquei sabendo, sem a mínima dúvida, de que o mundo estava equivocado com relação àquele herói. Tratava-se, na realidade, de um animal. Oportunamente tratei de averiguar como o reverendo descobrira o segredo.
Dias depois a oportunidade se apresentou, e ele me contou o seguinte:
— Há quarenta anos eu era instrutor da academia militar de Woolwich. Encontrava-me presente quando o jovem Scoresby submeteu-se ao exame preliminar. A piedade me constrangeu o coração, pois enquanto o resto da classe respondia brilhantemente, ele... oh! Deus meu! — ele, por assim dizer, não sabia nada. Era, sem dúvida alguma, bom, suave, simpático e ingênuo. Por isso mesmo era penoso vê-lo ali, parado, imóvel, como uma estátua, dando respostas realmente milagrosas pela estupidez e ignorância. Toda a compaixão que havia no meu coração despertou a seu favor. Pensei que, quando ele voltasse a prestar os exames, seria natural. mente reprovado. Dessa maneira, não passava de um inofensivo ato de caridade aliviar-lhe a queda, tornando-a o mais suave possível. Levei-o para um canto e apurei que ele conhecia um pouco da história de César. Como não sabia. outra coisa, pus mãos à obra, e preparei-o, em curto prazo, com um certo tipo de perguntas sobre César, preferidas pelos examinadores. Eu sabia como eles a fariam. Creia-me, ou não, mas Scoresby foi aprovado brilhantemente no dia dos exames. Aprovado com esse conhecimento puramente superficial, enquanto os outros, que sabiam mil vezes mais, foram reprovados. Devido a um incidente estranhadamente afortunado — que não sucede em geral duas vezes num século — não lhe formularam uma só pergunta fora dos estreitos limites do seu aprendizado.
Era algo assombroso. Durante todo o curso, estive a seu lado, com um sentimento semelhante ao de uma mãe pelo filho entrevado. Scoresby salvava-se sempre... aparentemente por simples milagre.
Apesar disso, o seu ponto fraco, que o liquidaria definitivamente, seriam as matemáticas. Resolvi amenizar sua queda no que fosse possível. Preparei-o, enchi-o de noções, seguindo o tipo de perguntas mais prováveis pelos examinadores, e abandonei-o ao seu destino. Pois bem, senhor... imagine, se é possível, o resultado! Ante minha consternação, Scoresby obteve o primeiro prêmio! E com ele, toda uma longa ovação como aplauso.
Sonho? Não houve sonhos para mim durante toda uma semana. Minha consciência me atormentava dia e noite. Fizera aquilo por caridade, apenas para salvá-lo na queda. Jamais sonhara com resultados tão absurdos como aqueles que ocorreram. Sentia-me tão culpado e aflito como Frankestein. Havia aqui uma casca grossa a quem eu jogara no caminho das promoções. rutilantes e das responsabilidades perigosas. Só podia ocorrer uma coisa, ele e suas responsabilidades ruiriam por terra na primeira oportunidade.
Acabava de estourar a guerra na Criméia. Logo agora vai ter uma guerra, pensei. Não podia haver paz, dando àquele asno uma oportunidade de morrer antes de ser desmascarado? Esperei o terremoto. Chegou. Scoresby foi oficialmente declarado comandante de uma companhia de um regimento que ia para a frente. Há homens melhores que envelhecem e ficam brancos antes de chegarem a uma posição tão alta como esta. E quem poderia prever que poriam a carga de semelhante responsabilidade sobre os ombros tão inexperientes e inadequados? Custaria a crer se o tivesse nomeado simplesmente porta-estandarte! Mas... capitão?.. Imagine você! Foi um golpe muito duro para mim.
Preste atenção no que fiz... eu, que amo tanto o repouso e a inatividade convenci-me de que era responsável diante da Nação por aquilo, e que devia acompanhar Scoresby, protegendo assim o País dele, no que fosse passível. De maneira que reuni meus magros capitais, conseguidos à custa de três anos de trabalho e de penosa economia, e fui, com um suspiro, adquirir o lugar de porta-estandarte no seu regimento. Depois, partimos para o campo de batalha.
E ali... Oh! Deus meu! Foi terrível. Erros? Scoresby não fazia outra coisa senão cometê-los. Observe, porém, que nada ficava em segredo. Todos encaravam com prevenção a Scoresby, e forçosamente interpretavam de forma errônea sua atuação em todas as oportunidades. Tomavam seus estúpidos erros como geniais inspirações. Realmente! Seus menores erros eram suficientes para fazerem um homem de juízo chorar. E eles, em verdade, me fizeram chorar... Irritavam-me, levando-me ao desespero. O que cada vez mais me fazia transpirar de apreensão, era o fato de que a cada novo erro cometido por ele, o brilho da sua reputação aumentava. Eu pensava: "Subirá tanto, que um dia, quando descobrirem, sua queda será como a de um sol que desabasse dos céus".
Foi subindo de posto em posto sobre os cadáveres de seus superiores até que, finalmente, no mais culminante da batalha de..., morreu nosso coronel, e o coração me subiu à garganta, porque era Scoresby quem iria substituí-lo. Eis aí, pensei, dentro de dez minutos iremos todos parar no inferno.
O combate era terrível. Os aliados cediam terreno em toda a extensão do campo. Nosso regimento ocupava uma posição vital: um erro, agora, seria a destruição. Naquele momento crítico... que fez aquele imbecil imortal? Desviou o regimento do seu lugar, e ordenou uma carga contra uma colina próxima, onde não havia sequer a sombra de um inimigo.
— Eis aí, pensei. — Agora é mesmo o fim.
E para lá nos dirigimos, franqueando o alto da colina, antes que aquele movimento absurdo pudesse ser descoberto e detido. E com quem nos encontramos? Com todo um insuspeitável exército de reserva! E que aconteceu? Fomos aniquilados? Isso teria forçosamente ocorrido em noventa e nove de cem anos. Mas, não! Os russos imaginaram que um regimento isolado não viria pastar naqueles campos em semelhante circunstância. Aquilo devia ser todo o exército inglês. Era evidente que o astuto jogo russo fora adivinhado e bloqueado. De maneira que eles nos voltaram as costas e fugiram em grande confusão, franqueando a colina. Nós os perseguimos. E em menos tempo do que leva um galo para cantar, presenciamos a mais tremenda fuga até agora vista, e a derrota dos aliados se transformou numa avassaladora e esplêndida vitória. O marechal Canrobert contemplou aquilo, aturdido, cheio de assombro. E imediatamente mandou chamar Scoresby e o abraçou, condecorando-o no campo de batalha, na presença de todos os exércitos.
Que erro Scoresby cometera dessa vez? Confundira, simplesmente, sua mão direita com a esquerda. Eis tudo. Recebera ordens de retroceder e de apoiar nossa direita, e em lugar de assim proceder, retrocedera para diante, flanqueando a colina pela esquerda. Mas a fama que nesse dia conquistou como gênio militar foi difundida pelo mundo inteiro e a glória jamais será empalidecida enquanto durarem os livros de história.
Scoresby é o que de bom, amável, simpático e modesto pode ser um homem, mas não sabe o suficiente para regressar à casa quando chove. Isto é absolutamente verdadeiro. E o asno supremo do universo. E até meia hora antes, além dele e de mim, ninguém sabia disto. Scoresby tem sido perseguido, dia a dia, ano a ano, por uma sorte realmente fenomenal e assombrosa. Tem sido um brilhante soldado em todas as nossas guerras durante uma geração. Toda sua vida militar está cheia de erros, e no entanto não cometeu um só erro que não o tenha convertido em cavaleiro, barão, lorde, ou algo parecido. Olhe seu peito: parece, simplesmente, que ele está vestido de condecorações nacionais e estrangeiras. Pois bem, meu caro senhor, cada uma dessas condecorações é o documento vivo de tal ou qual alarmante estupidez. Tomadas em conjunto, são a prova de que o melhor que pode ocorrer a um homem neste mundo é nascer com sorte. Volto a repetir-lhe o que disse no banquete: Scoresby é um perfeito animal.
Mark Twain: 100 anos sem um dos autores mais influentes da literatura mundial

"Foi um profundo filósofo com a visão de um profeta", afirmava o jornal "San Francisco Call" após saber da morte do escritor e jornalista Samuel Langhorne Clemens no dia 21 de abril de 1910 - ou Mark Twain, como ficaria conhecido na posteridade.
Seu legado prolífico, com títulos como "As aventuras de Tom Sawyer", "Huckleberry Finn" e "Príncipe e Mendigo", o tornou merecedor do título de "pai da literatura americana", como definiu o escritor William Faulkner em 1955.
Já em seu obituário se considerava que Mark Twain evoluiu de cômico brincalhão a "uma das grandes figuras literárias de seu tempo", embora o reconhecimento de seus contemporâneos não adoçasse seu final, marcado pelas tragédias familiares e a perda de seus entes queridos.
As origens de Twain dizem muito sobre sua obra posterior: nasceu no dia 30 de novembro de 1835 na cidade de Flórida (Missouri, EUA), mas foi o porto de Hannibal, para onde se transferiu com sua família aos quatro anos, o cenário à beira do Mississipi no qual se inspiram as correrias de Tom e de Huckleberry, em que o autor colocou muitas de suas vivências.
Entre elas, sua relação com a escravidão, que viveu de perto em Mississipi, um estado que a permitia, e em sua própria casa, já que seu pai teve um escravo e um de seus tios teve vários com os quais o jovem Sam passava longas horas escutando contos e cânticos espirituais.
O escritor começou escrevendo artigos jornalísticos, profissão à qual chegou após uma viagem complicada com quase 18 anos que o levou a Nova York, onde colaborou em distintas publicações.
Em 1857 retornou ao Mississipi e após se dedicar a pilotar navios pelo rio, a explosão da guerra civil (1861-1865) o obrigou a abandonar este trabalho e o conduziu rumo a Nevada, onde pretendia dedicar-se a busca de ouro.
Voltou em breve ao jornalismo no "Territorial Enterprise", na Virgínia, onde usou pela primeira vez o pseudônimo com o qual passaria à posteridade.
O primeiro ponto de inflexão em sua carreira como escritor chegou em 1865, com a publicação de um conto em diversos periódicos.
Twain conseguiu um êxito notável com este conto, mas ainda mais com seus artigos de viagens, compilados depois em um livro, "Guia para viajantes inocentes" (1869).
Enquanto continuava sua carreira como jornalista e começava a de escritor, Twain se mudou para várias cidades, se casou com Olivia Langdon e teve sua primeira filha, Susy, que morreu aos dois anos de difteria.
Um drama que o levou a se voltar para crítica social antes de se concentrar na ficção pura que, no entanto, sempre teve um forte cenário de realidade que demonstrava a clara vocação antropológica do escritor.
Em 1876 chegaram "As aventuras de Tom Sawyer", que ia muito além da literatura infantil e juvenil na qual se enquadrou em um primeiro momento e que apontava a vertente social que o escritor sempre daria a seus livros.
"Príncipe e mendigo" (1881), "Vida no Mississipi" (1883), "Um ianque na corte do rei Artur"" (1889) e aquela que é sem dúvida sua obra mais famosa, "As aventuras de Huckleberry Finn" (1884), na qual satiriza a escravidão predominante nos estados sulinos.
Um questão-chave e polêmica em suas obras, é que se por um lado contêm críticas duras à escravidão, também mantém posturas que alguns críticos consideram ambíguas por seu conteúdo racista.
Entre 1890 e 1900 Twain e sua família se dedicaram a viajar por todo o mundo e o escritor foi testemunha das diferenças sociais, que imortalizou em suas obras e desde 1901 até sua morte foi o presidente da Liga Anti-imperialista.
Uma experiência vital que o fez ter um profundo conhecimento da realidade na qual viveu e que colocou em suas novelas. "Supor está bem, mas descobrir é melhor", afirmou Twain, que sempre quis ser uma testemunha direta.
E esse realismo de seus relatos, com uma linguagem simples e divertida, fez dele um dos escritores mais influentes da literatura americana.
Foi o primeiro grande escritor americano que não procedia da costa leste; o primeiro a utilizar uma linguagem que se parecia a que o povo falava na realidade e, sem dúvida, um dos primeiros escritores nos quais a análise social se aliou com a delicadeza.
"Toda a literatura americana começa com ele. Não havia nada antes. Não há nada depois", assinalou Ernest Hemingway.
EFE
terça-feira, 13 de abril de 2010
Leituras obrigatórias FURG 2011: Sai ou não sai a lista?
Muitos alunos tem me perguntado a respeito da lista de livros para o vestibular da FURG. Realmente é preocupante o fato de estarmos em meados de abril e ainda não termos uma definição a respeito. Porém, sabemos que a chance de termos o ENEM como prova única é cada vez maior. Nesse sentido, afirmo aqui no blog o que tenho dito em aula: se não há lista, é sinal de que a universidade não se compromete em fazer uma prova ao final do ano, ou seja, a adesão integral ao ENEM é praticamente um fato consumado.
Diante dessa nova realidade que está se desenhando, sugiro ao aluno que procure privilegiar em seus estudos aquilo que o ENEM costuma enfatizar em sua prova: linguagem literária (essencialmente as figuras de linguagem), gêneros literários, e características gerais dos períodos literários (sem se preocupar muito especificamente com autores e obras).
O que deve ler, então, o nosso vestibulando? Tudo o que puder! Jornais e revistas ajudam a reconhecer os diversos gêneros textuais, ampliam o conhecimento geral e a visão de mundo, e contribuem para aprimorar a linguagem.
Mas se o ENEM não tem uma lista de livros obrigatórios, isso não significa que devemos deixar de lado os textos literários! Pelo contrário, quem lê literatura, seja Crepúsculo ou Dom Casmurro (sempre dando preferência aos clássicos), constrói uma bagagem cultural muito maior, e ainda se torna um leitor muito mais competente para a compreensão de textos mais complexos. Isso certamente será decisivo na hora de resolver dezenas de testes em um tempo tão curto como acontece na prova do MEC.
Nas próximas postagens recomendarei algumas leituras para começar!
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Acafe recebe inscrições para o processo seletivo 2010 de inverno

Fonte: UOL
A Acafe (Associação Catarinense das Fundações Educacionais) abre, nesta segunda-feira (12), o período de inscrição para o vestibular 2010 de inverno. As inscrições deverão ser realizadas pela internet, até as 18h do dia 17 de maio. A taxa custará R$ 58.
Neste processo serão oferecidas 5.574 vagas em 185 cursos de 8 instituições participantes:
FURB - Universidade Regional de Blumenau;
UnC - Universidade do Contestado;
UNESC - Universidade do Extremo Sul Catarinense;
UNIPLAC - Universidade do Planalto Catarinense;
UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina;
UNIVALI - Universidade do Vale do Itajaí;
UNIVILLE - Universidade da Região de Joinville;
UNOESC - Universidade do Oeste de Santa Catarina.
A prova objetiva, com 60 questões e 1 redação, será realizada no dia 13 de junho, das 13h às 18h, em 14 cidades de Santa Catarina e nas cidades de Curitiba e Porto Alegre.
A divulgação dos resultados está prevista para 22 de junho.
Leituras obrigatórias ACAFE
Confira as obras literárias indicadas para este processo seletivo:
A Vitrina de Luzbel - Aulo Sanford de Vasconcellos;
Eles Não Usam Blacktie - Gian Francesco Guarnieri;
O Homem Que Calculava - Malba Tahan;
O Presidente Negro - Monteiro Lobato;
Treze Cascaes - Adolfo Boss e outros.
Outras informações podem ser consultadas no edital do vestibular ou pelo site da Acafe.
MEC garante que questões do Enem tratarão apenas de assuntos nacionais

Professores têm de rever previsão de conteúdos para atender programa do exame
Com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a caminho de consolidar-se como única porta de acesso às instituições federais de Ensino Superior no país, professores, alunos e escolas gaúchas terão uma difícil questão pela frente, sem muitas opções de resposta. Por que estudar os regionalismos se o Ministério da Educação garante que a prova tratará somente de assuntos nacionais?
Para professores de história, geografia e literatura, disciplinas onde o Rio Grande do Sul sempre teve espaço, a situação é delicada.
A incidência de questões sobre o Estado nessas provas, historicamente, sempre obrigou escolas a tratarem de escritores gaúchos, de episódios da história local, até mesmo da formação de Porto Alegre, e de peculiaridades do clima. Mas, se o Enem não cobrar mais isso, o temor é de que não haja mais motivo para os estudantes quererem aprender esses conteúdos.
– O MEC resolveu de forma muito simples dizendo apenas que o Enem não abordará regionalismos. Mas o que é regionalismo? Isso eles não esclareceram, é um conceito implícito e não debatido. Nesse contexto, por exemplo, Simões Lopes Neto é um autor que deve desaparecer do cenário – afirma o professor de literatura Luís Augusto Fischer.
Apesar de considerar positiva a ideia da mobilidade de estudantes provocada pelo Enem e ser contra qualquer tipo de xenofobia, o professor teme que formas de cultura não hegemônicas como a gaúcha percam espaço. Acostumado com a ansiedade de vestibulandos, o professor de história do Unificado José Carlos Tamanquevis considera difícil convencer os alunos a estudarem temas que não serão cobrados no concurso.
– O Rio Grande do Sul tem uma das produções historiográficas mais ricas do Brasil graças ao número e à qualidade dos mestrados e doutorados que temos aqui. Com essa forma do Enem, o Ensino Médio deve deixar tudo isso de lado. Tirando esses conteúdos das provas, ninguém vai querer estudá-los. Um povo que não conhece seu passado pode repeti-lo – adverte Tamanquevis.
Na geografia, a preocupação se repete. Saul Chervenski, também professor do pré-vestibular, prevê uma perda de interesse de ensinar e de aprender os fenômenos a partir da visão local. Segundo ele, isso culminará em uma legião de jovens esquecendo de sua relação com a comunidade.
– A geografia do Rio Grande do Sul se tornará tema apenas para quem já está na faculdade. As diferenças da metade norte e sul do Estado, a nossa hidrografia, as diferenças do nosso clima, por exemplo, ficarão de fora. Será como assistir a um noticiário de TV que não traz notícias da sua região – afirma.
Sem chance de abordar temas do RS
Questionada pelo caderno Vestibular, a assessoria especial no ministro da Educação, Fernando Haddad, foi enfática: não há hipótese de o Enem contemplar assuntos locais. A exceção ocorrerá quando o tema tiver repercussões nacionais. Nesse critério, afirma o MEC, a Revolução Farroupilha estaria garantida, assim como o escritor Erico Verissimo. O ministério reafirma que a prova será a mesma do Oiapoque ao Chuí.
Há mais de 10 anos, a professora Roselane Zordan Costella analisa o Enem. Ela lamenta que temas caros aos gaúchos fiquem de fora. Professora de geografia de escolas particulares da Capital e do Grupo Unificado, ela vê temas ricos que poderiam ser abordados. Entretanto, observa que uma discussão é necessária entre professores, escolas e estudantes.
– Para que serve o Ensino Médio? Apenas preparar candidatos para uma prova classificatória? Se a nossa resposta for sim, estaremos caindo no vazio – alerta Roselane.
Ela afirma que o Ensino Médio deve formar jovens que compreendam o mundo a partir das identidades locais. E se os temas não hegemônicos ficam fora do Enem, outro estímulo terá de ser buscado. O que não pode, defende a educadora, é deixar o Estado fora da aula.
– Precisamos nos perguntar se temos professores preparados para esse Ensino Médio. Se o profissional não sabe para que serve o ensino, não conseguirá incentivar o estudo dos assuntos do Rio Grande do Sul – afirma.
Estaria aí uma resposta para a melhor classificação dos estudantes paulistas. Segundo ela, as escolas daquele Estado já adotam o conceito de que o Ensino Médio serve para desenvolver competências e habilidades a serem usadas em qualquer situação da vida.
– Fiz trabalhos e pesquisas em escolas paulistas, sei como estão trabalhando. Eles não se pautam mais apenas por uma prova de vestibular. Não sou a favor dessa logística do Enem, mas não podemos abortá-lo por isso. Temos de mudar o nosso ensino.
Fonte: Zero Hora
terça-feira, 30 de março de 2010
ITA define datas do vestibular 2011; confira
O ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos (SP), definiu, nesta terça-feira (30), as datas para o processo seletivo 2011.
As inscrições serão realizadas entre 1º de agosto e 15 de setembro, pela internet . A aplicação das provas acontecerá no período de 14 a 17 de dezembro. E o resultado final será divulgado no dia 30 de dezembro.
Mais informações devem ser divulgadas em breve pela instituição.
MEC quer realização do Enem só após as eleições
Data proposta é nos dias 06 e 07 de novembro
O Ministério da Educação quer que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) seja realizado apenas após as eleições deste ano. A data proposta é nos dias 06 e 07 de novembro - o primeiro turno ocorrerá no dia 3 de outubro e o segundo, no dia 31. A data final da prova será confirmada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
- É pouco recomendável fazer o Enem entre o primeiro e o segundo turno das eleições - disse na semana passada o ministro da Educação, Fernando Haddad, após participar de audiência pública na Comissão de Educação da Câmara.
No ano passado, o Governo Federal foi obrigado a cancelar o exame, previsto para o início de outubro, e remarcar uma nova data, em dezembro, porque a prova vazou. A data de realização da prova não agradará a todos. Conforme a "Tic Brasil", as universidades de São Paulo são favoráveis à aplicação do Enem o mais cedo possível, mas os demais Estados defendem que a prova seja feita depois das eleições.
Haddad voltou a afirmar que o MEC desistiu de fazer um Enem no primeiro semestre deste ano depois da descoberta de fraude no exame nacional da Ordem dos Advogados (OAB) do Brasil, em março. Em seu depoimento à comissão de Educação, Haddad garantiu ainda que a sobra de vagas nas universidades federais será de cerca de 2% do total de 48 mil vagas oferecidas - ou seja, em torno de mil vagas. Ele rebateu ainda as críticas de que São Paulo estaria "exportando" estudantes para universidades públicas de outros Estados.
- São Paulo tem poucas vagas em universidades públicas em relação a sua população e, por isso, é natural que os jovens procurem oportunidades em estados vizinhos, como Minas Gerais - disse Haddad.
Pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o candidato pode usar a nota do Enem para ingresso nas universidades que adotaram o exame como vestibular. Segundo dados do MEC, São Paulo foi o Estado que mais se beneficiou do sistema unificado de seleção. O Estado recebeu 169 estudantes de fora em suas universidades federais e enviou um total de 2.531 alunos para outras regiões. Minas Gerais foi o principal destino, com 730 matrículas, seguido do Rio Grande do Sul, Amazonas, Piauí e Mato Grosso.
Fonte: ClicRBS
Morre Armando Nogueira, um dos maiores poetas da crônica esportiva

Fonte: Jornal do Brasil
O Jornalismo perdeu, segunda-feira, um mestre, um criador. Um poeta. Por volta das 7h, em seu apartamento, na Lagoa, Zona Sul do Rio, faleceu, vítima de câncer no cérebro, Armando Nogueira, de 83 anos. O sepultamento será terça-feira, às 12h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Sobrevivente de uma era dourada, Mestre Armando Nogueira se junta agora a lendas como Sandro Moreira, Nélson Rodrigues e João Saldanha – nomes que contribuíram em larga escala para o esporte.
Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre, no dia 14 de janeiro de 1927, e se mudou para o Rio aos 17 anos, onde se formou em Direito. Sua paixão, no entanto, era o jornalismo e, em 1950, foi trabalhar na editoria de esportes do Diário Carioca, colaborando com o Diário da Noite, Revista Manchete e Revista O Cruzeiro.
Em 1959, ingressou no Jornal do Brasil, onde trabalhou como redator e assinou a coluna diária Na grande área até 1973. Voltaria a escrever a coluna no início dos anos 2000.
– O Armando também foi pauteiro e as pautas dele mereciam ser publicadas de tão bem escritas. Era o Machado de Assis da crônica esportiva – disse o jornalista Sérgio Cabral, presente ao velório na Tribuna de Honra do Maracanã.
A convite de Walter Clark, foi para a Rede Globo, em 66, ficando até 90. Ao lado de Alice Maria, que esteve segunda-feira no velório, implantou o telejornalismo em rede nacional. Ele criou Jornal Nacional, o Globo Repórter e o Globo Esporte, passando a ocupar o cargo de diretor da central Globo de Jornalismo.
– O telejornalismo deve tudo a ele porque tudo nasceu desse poeta, que deve estar feliz de se despedir de nós, aqui no Maracanã – disse Alice Maria, ex-estagiária do mestre.
Em 1992, integrou a equipe da Rede Bandeirantes nos Jogos Olímpicos de Barcelona. Em 1994, ingressou no SporTV à frente do programa Papo com Armando Nogueira, participando dos programas Esporte Real e Redação SporTV.
Desde a Copa do Mundo de 54, esteve na cobertura de todos os Mundiais. O “poeta do futebol “deixou uma vasta coleção de livros, como Drama e glória dos bicampeões, A Ginga e o Jogo e A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar, entre outros.
Armando era torcedor do Botafogo. Foi dele o apelido de Gênio das Pernas Tortas dado a Mané. Era prodigioso em criar grandes frases. Entre elas, “Pelé é tão perfeito que se não tivesse nascido gente, teria nascido bola”, “Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio” e “A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”.
Em 2007, já com câncer no cérebro, afastou-se da profissão. Seu último trabalho foi como colunista do jornal Lance!. Ganhou homenagem da Suderj, inaugurando com seu nome um espaço com seu nome no hall da fama do Maracanã. Sua última aparição foi em 18 de maio de 2009, na inauguração da sala de imprensa de General Severiano, que leva seu nome.
Amigos se emocionam no adeus ao Mestre
O corpo do mestre da crônica esportiva brasileira não poderia ser velado em outro local senão na tribuna de honra do templo do futebol: o Maracanã, onde ele está imortalizado com o 'Espaço Armando Nogueira', inaugurado há exatos dois anos: no dia 30 de março de 2008.
Desde às 14h30, os dois telões do estádio exibiam fotos e célebres frases criadas pelo Mestre, sensibilizando amigos e parentes que foram ao estádio lhe dar o último adeus.
– Começamos juntos no Jornal do Brasil, em 59, e viramos amigos. Além de talentoso, o Armando era prestativo. Em 62, fui demitido por fazer greve e ele pediu um empréstimo bancário em seu nome para ajudar um desempregado – lembrou o jornalista Sérgio Cabral, que considerava Armando um gênio. – Tentei imitá-lo, mas não consegui – admitiu ele.
O velório se estenderá até 11h, com o enterro marcado para 12h, no Cemitério São João Batista. O Maracanã passou a noite com seus refletores acessos, como última homenagem ao mestre dos jornalistas.
– No meu primeiro dia como comentarista, o Armando me orientou: "Você pode elogiar sem bajular e criticar sem ofender. Faça isso" – lembrou o ex-jogador Júnior. – Ele respeitava a todos, tomei isso como norte e não me arrependo.
Entre as dezenas de coroas de flores, duas chamavam à atenção no velório: uma de Pelé, outra do Botafogo. Dois temas que Armando não se cansou de enaltecer em suas crônicas.
Além das coroas, as bandeiras do Brasil, Rio de Janeiro, Botafogo e do Acre (onde ele nasceu) ornamentavam o hall da tribuna de honra. À beira do caixão, um banner com uma poesia do Mestre sobre o Maracanã, que ele escreveu no livro O Vôo das Gazelas, de sua autoria e que está exposta no Espaço Armando Nogueira.
O Maracanã completa 60 anos dia 21 de junho e a secretária estadual de Esporte, Turismo e Lazer, Márcia Lins, disse que qualquer homenagem seria pouco para enaltecer quem foi Armando Nogueira.
– Ele ajudou a escrever a história do Maracanã, onde torceu muito pelo Botafogo. Por isso, o adeus dele tinha que ser aqui. Mas nem dois Maracanãs lotados seriam suficientes para retribuir tudo o que ele sempre representará – disse Márcia.
Filho único do mestre, Armando Augusto Nogueira Filho, o Manduca, afirmou.
– O câncer que ele teve foi de nível quatro numa escala de cinco. Ou seja, foi grave. Das pessoas que operam, 30% ficam na mesa de operação. Os outros 70% sobrevivem só mais um ano e ele viveu mais três – lembrou Manduca. – Meu pai era muito forte. Fazia esteira, caminhada em volta da Lagoa. Por isso, resistiu tanto tempo e morreu com todos os sinais vitais funcionando.
Armando Nogueira vai dar nome ao Parque Olímpico, que será construído para as Olimpíadas de 2016, no Autódromo Nélson Piquet, em Jacarepaguá. Segunda-feira, o vereador Eider Dantas (DEM) enviou projeto de lei que passará por votação na Câmara de Vereadores.
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho
O Armando Nogueira tinha vários amores: o esporte, a palavra, a música e os amigos. Era mestre na prática de todos eles. Um polivalente, como se diz de alguém que é “craque” em todas as posições. Conheci-o na TV Rio inovando não só no jornalismo esportivo, mas no telejornalismo em geral. Na TV Globo, trabalhamos juntos por 23 anos.
Uma amizade sólida e sincera ficará para sempre, ultrapassando as barreiras da morte. Os finais de ano o Armando passava comigo, em Angra. Encantava a todos.
Com o Armando, começamos a implantar as bases do telejornalismo na televisão brasileira. O Armando não admitia que a televisão não cultivasse o preciosismo do texto, apesar de a imagem ser a base principal. Participamos juntos da criação do Jornal Nacional, do Globo Repórter e do Fantástico. O Armando é a mais importante personalidade do telejornalismo. A Globo deve muito a ele.
Os amigos que o Armando fez na vida conseguiram dar a ele um final digno. Eu ficarei para sempre com as palavras carinhosas e a expressão de felicidade do Armando, voando, tocando sua gaita, bebendo um bom vinho, escrevendo e distribuindo amor entre os amigos.
Hoje, sou testemunha do carinho com que a Globo, através do Octávio Florisbal, vinha dando ao Armando com apoio irrestrito que deu ao seu tratamento de saúde.
Leia a seguir uma das mais memoráveis crônicas de Armando Nogueira, celebrando a conquista do tri, em 70.
Na grande área
Armando Nogueira
México, 1970
E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa, levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.
Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.
E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.
O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.
Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.
Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.
Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.
Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.
Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.
Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.
Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.
A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.
Até que os deuses do futebol inventem outra.
