sexta-feira, 30 de julho de 2010

Leva-se mais tempo para ler em e-readers do que em livros impressos


Um novo estudo está aquecendo ainda mais a discussão entre os defensores dos livros impressos e os adeptos dos e-books.

Segundo recente pesquisa de usabilidade do Nielsen Norman Group, leva-se mais tempo para ler livros em um Kindle 2 ou IPad do que um livro impresso. O estudo descobriu que a velocidade de leitura diminuiu 6,2% em um ipad e 10,7% em um Kindle em comparação a livros impressos. Um total de 24 participantes receberam contos de Ernest Hemingway e tiveram 17 minutos para ler em versão impressa e em iPads, Kindles e compuztadores.

Após a leitura, os participantes preencheram um breve questionário de compreensão, para provar que haviam de fato lido os textos e entendido as histórias. Eles classificaram também sua satisfação com cada dispositivo: o Ipad, Kindle e livro impresso receberam uma média de 5,8, 5,7 e 5,6 pontos numa escala de 7, respectivamente, enquanto o PC recebeu uma pontuação média de apenas 3,6.

Apesar das conclusões, o Nielsen Norman Group admitiu que as diferenças na velocidade de leitura entre os dois dispositivos não eram “estatisticamente significativas devido à variabilidade bastante elevada” – em outras palavras, o estudo não prova que seja mais rápido ler em um Ipad do que em um Kindle. Mas os pontos de satisfação podem ser decisivos nos próximos lançamentos de e-readers e tablets.

Fonte: Mashable

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Salman Rushdie lançará 'Luka e o Fogo da Vida' na Flip

Fonte: Agência Estado

Com lançamento mundial na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), dia 6, Luka e o Fogo da Vida, do escritor indiano Salman Rushdie, tem algo de Harry Potter - e todos os ingredientes para conquistar seus leitores. Em entrevista por telefone, de Londres, Rushdie revela, inclusive, que já trabalha numa adaptação desse seu novo livro para o cinema, assistido pelo cineasta inglês Alan Parker ("Evita"). Inicialmente, pensou em Terry Gilliam para dirigir "Haroun e o Mar de Histórias", mas ele estava envolvido com outros projetos. Publicado em 1990, Haroun é o livro do qual saíram os protagonistas de Luka, outra fábula no melhor estilo de Italo Calvino.

"Luka e o Fogo da Vida" narra a história de um garoto de 12 anos, filho de um contador de histórias, Rashid Khalifa. Certo dia, por amaldiçoar um circo que maltrata animais, provocando involuntariamente um incêndio, Luka vê seu pai enfeitiçado pelo perverso treinador que usa o chicote contra os indefesos bichos do circo. Recolhido a um sono profundo que pode levar Rashid à morte, ele só será resgatado se o filho roubar o fogo da vida na Montanha do Conhecimento. Parece um videogame. E é quase um. Rushdie dedica o livro ao filho Milan, que tem quase a mesma idade de Luka.

Se você pensou numa parábola sobre o irracionalismo do mundo contemporâneo, em busca de um novo Prometeu que lhe devolva a luz, pensou certo. Rushdie anda desencantado. Há 20 anos seu pescoço está por um fio por causa de fanáticos que insistem em ler seu "Versos Satânicos" como uma obra blasfema contra o Islã. Ele ainda corre riscos, a despeito do acordo firmado entre Irã e Inglaterra para suspender a fatwa - condenação à morte - contra Rushdie, acusado de apostasia em 1988 por causa do livro.

Rushdie, que todo dia 14 de fevereiro recebe uma carta de radicais, avisando que o país não esqueceu a fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini (1900- 1989), não parece tão paranoico como há duas décadas, embora não ignore a advertência. Tem, inclusive, um livro pronto para ser publicado sobre essa experiência de viver perseguido. Ele alega que o escreveu para contestar a história "falsa" que seu guarda-costas Ron Evans tentou publicar e foi interditada judicialmente há dois anos pela Corte Suprema de Londres. Evans teria argumentado em seu livro proibido que Rushdie tem instinto suicida e tirou dividendos financeiros da ameaça de morte.

Mas o escritor deixou de mexer com religião e, hoje, só fala por metáforas - à maneira do português José Saramago (1922-2010). Ou melhor, do cubano de origem italiana Italo Calvino (1923-1985), modelo confesso tanto de "Haroun e o Mar de Histórias" (1990) como de "Luka e o Fogo da Vida", que vem lançar na Flip. Ele já esteve na festa há cinco anos. Sua mesa, nesta oitava edição, foi uma das primeiras a ter lotação esgotada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A literatura clássica como base para roteiros de cinema e TV

Aula do escritor Walcyr Carrasco aos alunos da PUC-Rio

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Brasileiro vê bom motorista como babaca, diz Da Matta

Recentemente, estudos feitos no Rio Grande do Sul constataram uma contradição percebida facilmente por quem circula por ruas, avenidas e estradas. Para os motoristas gaúchos, os responsáveis pelo trânsito violento e incivilizado são sempre os outros”. Agora, uma pesquisa na Grande Vitória, no Espírito Santo, além de confirmar o padrão de comportamento detectado no Estado, ajuda a interpretar as causas desta visão distorcida da realidade.

– Os outros são invisíveis no Brasil. Você não é treinado em casa nem nas escolas para ver o outro como colega, como um sujeito que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço de todos. Para nós, é o contrário: o espaço de todos pertence a quem ocupar este espaço primeiro, com mais agressividade – analisa o antropólogo Roberto Da Matta, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e consultor da pesquisa.

A reportagem e a entrevista é de Carlos Etchichury e publicada pelo jornal Zero Hora, 28-07-2010.

O trabalho, em fase de conclusão, será transformado no livro Fé em Deus e Pé na Tábua – Como e Por que Você Enlouquece Dirigindo no Brasil. Autor de clássicos das ciências sociais como Carnavais, Malandros e Heróis, Da Matta sustenta que o trânsito reproduz valores de uma sociedade moderna, mas atrelada ao passado. Trata-se do espelho de um país que se tornou republicano sem abandonar a aristocracia.

– Nós não olhamos para o lado, a não ser quando somos obrigados a olhar. E olhamos para o lado com má vontade, exatamente como acontece com o motorista quando para no sinal, que tem um cara na sua frente que tá te atrapalhando. E um cara atrás de você que também atrapalha – complementa o antropólogo.

Eis a entrevista.

Nos últimos seis meses, foram divulgadas duas pesquisas sobre o comportamento do motorista no trânsito em Porto Alegre e no Estado. Em síntese, elas dizem o seguinte: o problema são os outros porque eu dirijo bem. Por que o motorista tem uma visão distorcida da realidade?

Os resultados encontrados em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul são praticamente idênticos aos identificados na Grande Vitória. Todo mundo é cidadão, todo mundo tem direitos, mas respeitando a igualdade do outro. E é exatamente o que caracteriza o trânsito. Por quê? Porque pessoas que estão submetidas às regras das vias públicas brasileiras e do espaço público brasileiro, em geral, não aprenderam a ser igualitárias. A igualdade para nós é menos importante do que a liberdade.

Por que o Brasil moderno reproduz relações aristocráticas e atrasadas?

Você não mata o menino que existiu dentro de você. Você não mata os antigos hábitos. Você transforma os antigos hábitos, fazendo com que eles dialoguem com hábitos novos, com novas necessidades coletivas. Para mudar o nosso comportamento, nós temos de nos mobilizar, a gente tem de fazer um agenciamento de dentro para fora.

Até que ponto as relações no trânsito reproduzem as relações humanas de um modo geral?

Elas reproduzem as relações humanas com as quais nós fomos socializados. Dentro de casa, cada um tem seu espaço na socialização brasileira. Fomos criados em ambientes que comportam hierarquias bem definidas: arrumadeira, passadeira, lavadeira. São os últimos ecos de escravidão e de clientelismo que permeiam a sociedade brasileira. Esse quadro cognitivo, emocional, está nas nossas cabeças. Quando você vai para o trânsito, você tem uma situação desagradabilíssima: obedecer no Brasil é um sintoma de inferioridade. É um aspecto que a pesquisa identificou. Quem obedece, quem segue lei no Brasil, é babaca, idiota.

Numa das pesquisas realizadas no Estado, 69% dos entrevistados dizem que não cometem imprudências ao volante.

Gargalhada). Maravilha. O estilo de dirigir brasileiro é agressivo. Fomos criados com uma visão da casa como inimiga da rua. É como se o mundo da rua não fosse regrado pelas mesmas regras de casa, que é a regra do acolhimento.

O título do livro Fé em Deus e Pé na Tábua sugere que o senhor tenha encontrado elementos religiosos no comportamento dos motoristas. É isso?

Com certeza. Noventa e nove por cento dos brasileiros acreditam que têm uma outra vida. Então, se você acredita que este mundo não é o único mundo possível, se há um outro mundo, você pode ir para um mundo melhor.

A impunidade, ou a sensação de impunidade, contribui para que esta visão aristocrática no trânsito se perpetue?

Quando a gente discute a questão da igualdade, a gente o faz de maneira retórica. Há uma elasticidade grande na cultura brasileira, que tem uma inércia. Você freia, mas o peso da tradição continua. Você tem de preparar a sociedade para as mudanças, o que nós não fazemos no Brasil. A Lei Seca, por exemplo. É maravilhosa porque atingiu o comportamento da classe média.

A classe média tem um papel reprodutor de valores e costumes?

Exatamente. A classe média é o espelho tanto da elite, que tá lá em cima, quanto dos muito pobres. É o miolo. A Lei Seca provocou uma visão ambígua, e paradoxal, na classe média.

Na pesquisa que o senhor assessorou, além de traçar um diagnóstico, também aponta caminhos e alternativas?

A alternativa é essa: nós temos de falar mais em igualdade, ensinar mais igualdade. É um negócio chatíssimo. O nosso lema é: “os incomodados que se mudem”. E não é verdade.

Uma pesquisa realizada na Grande Vitória produz resultados estruturais capaz de se tornar referência para todos os Estados do Brasil?

Como toda pesquisa empírica, você trabalha com tipos. Você trabalha com uma mentalidade, com um tipo, com uma mentalidade, um modelo de motorista. O comportamento que você encontra em Vitória é semelhante ao encontrado no Sul do Brasil, como apontam as pesquisas de que você me fala.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - http://www.ihu.unisinos.br/

UFRGS estuda duplicar peso do Enem no vestibular 2011. FURG adere 100%.

A Furg é a quarta gaúcha a aderir integralmente ao exame

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010 está pintando com mais força. Prova disso é que a Universidade Federal do Rio Grande (Furg) também vai usá-lo como única forma de ingresso a partir do vestibular 2011. E a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) tem um projeto em estudo: duplicar o peso do exame no próximo concurso.

UFRGS

Elaborado pela Pró-Reitoria de Graduação e pela Comissão Permanente de Seleção da UFRGS, o projeto, para virar realidade, precisa ser votado em reunião no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, o que ainda não tem data para ocorrer.
A ideia é duplicar o peso do resultado do exame no vestibular 2011. Neste ano, o peso do Enem foi 1. Logo, passaria a ter peso 2 no próximo concurso. As demais definições seguiriam inalteradas, inclusive o caráter opcional de seu uso como parte da nota final. Por enquanto, a UFRGS prefere não falar oficialmente sobre a proposta, esperando sua votação no conselho.
– Caso isso seja aprovado, significa que o desempenho do Enem se refletirá com mais ênfase na média final do candidato que optar por usá-lo. Ou seja, sua influência cresce e pode ser ainda mais decisiva naquela disputa mais acirrada por uma vaga – analisa o professor de química do Unificado Luiz Ferrari.

O exame torna-se a 10ª prova no vestibular. A universidade considera apenas o número de acertos, desconsiderando a redação do Enem. De qualquer forma, ele acredita que o exame deixou de ser um “bicho-papão”. Os estudantes, segundo ele, perceberam que o estilo interpretativo das provas é semelhante ao adotado pela UFRGS.

No caso da Furg, a mudança já era esperada. Depois de utilizar metade do Enem no último vestibular, a instituição decidiu aderir 100% ao exame, que ocorrerá nos dias 6 e 7 de novembro. Também será decisivo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A nota final do concurso será composta pelo processo seletivo da instituição (80%) e pelo Enem (20%). Quem não realizar o exame terá escore zero nesse componente da prova.

Nesta semana, foi divulgado o ranking oficial por escola do Enem 2009 pelo Ministério da Educação. Os resultados são, por um lado, auspiciosos para os estudantes gaúchos. Mesmo sem ter escolas entre as 30 mais destacadas, o Estado obtém o primeiro lugar quando comparado o conjunto das instituições com outras unidades da federação.

Fonte: ZH

terça-feira, 27 de julho de 2010

Novidades no blog

Saudações, pessoal! Há algum tempo não tenho feito postagens novas por aqui. Mas o segundo semestre traz grandes expectativas quanto às leituras obrigatórias nos vestibulares em geral e, é claro, intensifica a procura por dicas e informações sobre o ENEM.

Portanto, voltamos ao trabalho. As atualizações voltam a acontecer diariamente em um blog de cara nova, com um layout mais agradável e de fácil navegação.

Grande abraço!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A encruzilhada musical de Bob Dylan



Poucos músicos pop foram objeto de tantos e diversos estudos de biógrafos, pesquisadores e até cineastas, como Robert Allen Zimmerman, mais conhecido como Bob Dylan. Mais um livro sobre sua trajetória chega ao Brasil: Like A Rolling Stone - Bob Dylan Na Encruzilhada (Cia. Das Letras, R$42,00), do jornalista e crítico musical americano Greil Marcus.

O autor dedica-se a narrar um momento bastante emblemático da carreira de Dylan, contando sobre os bastidores da gravação e repercussão do hino da contracultura, Like a Rolling Stone, que, numa eleição de 2004, foi considerada a melhor música de todos os tempos pela revista Rolling Stone.


História


Foi no dia 15 de Julho de 1965 que Dylan entrou em estúdio para gravar Like A Rolling Stone. Contando a história de uma mulher falida, que se vê como vítima da indiferença da sociedade hostil da qual fazia parte, a canção se tornaria um tapa no conservadorismo americano da época, uma materialização do sentimento coletivo de falência (material e ideológica), desmascarando o que tentavam estabelecer como a cultura jovem e moderna de então.


Marcus supera-se na missão de biógrafo para desenvolver um real trabalho de análise crítica, uma longa e fluída resenha sobre a canção e tudo que sua criação envolveu: o contexto político e social, como o cantor a compôs e a dificuldade inicial de emplacá-la nas rádios - a música, com seus seis minutos, é longa demais para os padrões de veiculação mantidos até hoje.


"Como uma pedra que rola"


O jornalista, que já havia escrito Invisible Republic (não lançado no Brasil) sobre Dylan, também alcança feliz resultado quando tece as explicações de como se deu a influência do músico e sua obra-prima em artistas que viriam a se consagrar como Jimi Hendrix e Frank Zappa, que já interpretaram Like A Rolling Stone em discos e shows, assim como os Rolling Stones - astros citados nominalmente em possível trocadilho da música -, B.B. King, Bob Marley, Lenny Kravitz e até os aspirantes participantes do programa de talentos American Idol.


Vale a pena conhecer mais intimamente um dos capítulos mais importantes da trajetória de Bob Dylan e do próprio rock n'roll. O apaixonado e contundente livro de Greil Marcus é uma excelente oportunidade para isso.


(Lucianno Maza/Especial Para BR Press)

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Meu Comentário

Quando vi o livro na prateleira não pensei duas vezes. Um livro sobre Dylan, maior poeta da canção norte-americana já merece um lugar na estante. Mas não é só isso, o lançamento da Cia das Letras é um caso singular de 'biografia' de uma canção. Mas não é só isso... não se trata de uma canção qualquer, mas de "Like a Rolling Stone"! How does it feel?



quinta-feira, 20 de maio de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Conto: Sorte (Mark Twain)

Sorte

Mark Twain


Foi em Londres, num banquete oferecido em honra de dois ou três dos mais ilustres soldados ingleses desta geração. Por motivos que logo serão vistos, não direi seu verdadeiro nome. Chamá-lo-ei Tenente General Lorde Artur Scoresby, Cavalheiro da Ordem do Banho, etc. etc. etc. Que fascinação a de um nome célebre! Ali estava sentado, em carne e osso, um homem a quem já ouvira mencionar milhares de vezes desde o dia em que, há trinta anos, seu nome, bruscamente, surgira para a glória, nos campos de batalha da Criméia, para continuar desde então sempre famoso. Satisfazia minha fome e minha sede admirar e ver, sim, ver aquele semideus, inspecionando, esquadrinhando, observando a impassibilidade, a reserva e a nobre gravidade do seu semblante, a singela honestidade que se irradiava de toda a sua pessoa, a suave inconsciência da sua grandeza, inconsciência das centenas de olhares admirativos nele fixos, inconsciência de profunda, afetuosa e sincera admiração que. brotava do peito de todos.

O pastor, sentado à minha esquerda, era meu velho amigo. Era agora pastor mas passara metade da vida em acampamentos e campos de batalha, tendo sido instrutor na escola militar de Woolwich. Justamente no momento a que me referi, uma vaga e estranha luz cintilou de seus olhos, e ele me sussurrou, discretamente, apontando ao herói do banquete:

— Confidencialmente lhe direi que... que se trata de um perfeito animal.

Estas palavras constituíram para mim uma autêntica surpresa. Meu assombro não poderia ter sido maior se o protagonista tivesse sido Napoleão, Sócrates ou Salomão. De duas coisas eu tinha plena certeza: que o reverendo era um homem verdadeiro, e que sabia julgar os homens com bom senso e critério. Assim fiquei sabendo, sem a mínima dúvida, de que o mundo estava equivocado com relação àquele herói. Tratava-se, na realidade, de um animal. Oportunamente tratei de averiguar como o reverendo descobrira o segredo.

Dias depois a oportunidade se apresentou, e ele me contou o seguinte:

— Há quarenta anos eu era instrutor da academia militar de Woolwich. Encontrava-me presente quando o jovem Scoresby submeteu-se ao exame preliminar. A piedade me constrangeu o coração, pois enquanto o resto da classe respondia brilhantemente, ele... oh! Deus meu! — ele, por assim dizer, não sabia nada. Era, sem dúvida alguma, bom, suave, simpático e ingênuo. Por isso mesmo era penoso vê-lo ali, parado, imóvel, como uma estátua, dando respostas realmente milagrosas pela estupidez e ignorância. Toda a compaixão que havia no meu coração despertou a seu favor. Pensei que, quando ele voltasse a prestar os exames, seria natural. mente reprovado. Dessa maneira, não passava de um inofensivo ato de caridade aliviar-lhe a queda, tornando-a o mais suave possível. Levei-o para um canto e apurei que ele conhecia um pouco da história de César. Como não sabia. outra coisa, pus mãos à obra, e preparei-o, em curto prazo, com um certo tipo de perguntas sobre César, preferidas pelos examinadores. Eu sabia como eles a fariam. Creia-me, ou não, mas Scoresby foi aprovado brilhantemente no dia dos exames. Aprovado com esse conhecimento puramente superficial, enquanto os outros, que sabiam mil vezes mais, foram reprovados. Devido a um incidente estranhadamente afortunado — que não sucede em geral duas vezes num século — não lhe formularam uma só pergunta fora dos estreitos limites do seu aprendizado.

Era algo assombroso. Durante todo o curso, estive a seu lado, com um sentimento semelhante ao de uma mãe pelo filho entrevado. Scoresby salvava-se sempre... aparentemente por simples milagre.

Apesar disso, o seu ponto fraco, que o liquidaria definitivamente, seriam as matemáticas. Resolvi amenizar sua queda no que fosse possível. Preparei-o, enchi-o de noções, seguindo o tipo de perguntas mais prováveis pelos examinadores, e abandonei-o ao seu destino. Pois bem, senhor... imagine, se é possível, o resultado! Ante minha consternação, Scoresby obteve o primeiro prêmio! E com ele, toda uma longa ovação como aplauso.

Sonho? Não houve sonhos para mim durante toda uma semana. Minha consciência me atormentava dia e noite. Fizera aquilo por caridade, apenas para salvá-lo na queda. Jamais sonhara com resultados tão absurdos como aqueles que ocorreram. Sentia-me tão culpado e aflito como Frankestein. Havia aqui uma casca grossa a quem eu jogara no caminho das promoções. rutilantes e das responsabilidades perigosas. Só podia ocorrer uma coisa, ele e suas responsabilidades ruiriam por terra na primeira oportunidade.

Acabava de estourar a guerra na Criméia. Logo agora vai ter uma guerra, pensei. Não podia haver paz, dando àquele asno uma oportunidade de morrer antes de ser desmascarado? Esperei o terremoto. Chegou. Scoresby foi oficialmente declarado comandante de uma companhia de um regimento que ia para a frente. Há homens melhores que envelhecem e ficam brancos antes de chegarem a uma posição tão alta como esta. E quem poderia prever que poriam a carga de semelhante responsabilidade sobre os ombros tão inexperientes e inadequados? Custaria a crer se o tivesse nomeado simplesmente porta-estandarte! Mas... capitão?.. Imagine você! Foi um golpe muito duro para mim.

Preste atenção no que fiz... eu, que amo tanto o repouso e a inatividade convenci-me de que era responsável diante da Nação por aquilo, e que devia acompanhar Scoresby, protegendo assim o País dele, no que fosse passível. De maneira que reuni meus magros capitais, conseguidos à custa de três anos de trabalho e de penosa economia, e fui, com um suspiro, adquirir o lugar de porta-estandarte no seu regimento. Depois, partimos para o campo de batalha.

E ali... Oh! Deus meu! Foi terrível. Erros? Scoresby não fazia outra coisa senão cometê-los. Observe, porém, que nada ficava em segredo. Todos encaravam com prevenção a Scoresby, e forçosamente interpretavam de forma errônea sua atuação em todas as oportunidades. Tomavam seus estúpidos erros como geniais inspirações. Realmente! Seus menores erros eram suficientes para fazerem um homem de juízo chorar. E eles, em verdade, me fizeram chorar... Irritavam-me, levando-me ao desespero. O que cada vez mais me fazia transpirar de apreensão, era o fato de que a cada novo erro cometido por ele, o brilho da sua reputação aumentava. Eu pensava: "Subirá tanto, que um dia, quando descobrirem, sua queda será como a de um sol que desabasse dos céus".

Foi subindo de posto em posto sobre os cadáveres de seus superiores até que, finalmente, no mais culminante da batalha de..., morreu nosso coronel, e o coração me subiu à garganta, porque era Scoresby quem iria substituí-lo. Eis aí, pensei, dentro de dez minutos iremos todos parar no inferno.

O combate era terrível. Os aliados cediam terreno em toda a extensão do campo. Nosso regimento ocupava uma posição vital: um erro, agora, seria a destruição. Naquele momento crítico... que fez aquele imbecil imortal? Desviou o regimento do seu lugar, e ordenou uma carga contra uma colina próxima, onde não havia sequer a sombra de um inimigo.

— Eis aí, pensei. — Agora é mesmo o fim.

E para lá nos dirigimos, franqueando o alto da colina, antes que aquele movimento absurdo pudesse ser descoberto e detido. E com quem nos encontramos? Com todo um insuspeitável exército de reserva! E que aconteceu? Fomos aniquilados? Isso teria forçosamente ocorrido em noventa e nove de cem anos. Mas, não! Os russos imaginaram que um regimento isolado não viria pastar naqueles campos em semelhante circunstância. Aquilo devia ser todo o exército inglês. Era evidente que o astuto jogo russo fora adivinhado e bloqueado. De maneira que eles nos voltaram as costas e fugiram em grande confusão, franqueando a colina. Nós os perseguimos. E em menos tempo do que leva um galo para cantar, presenciamos a mais tremenda fuga até agora vista, e a derrota dos aliados se transformou numa avassaladora e esplêndida vitória. O marechal Canrobert contemplou aquilo, aturdido, cheio de assombro. E imediatamente mandou chamar Scoresby e o abraçou, condecorando-o no campo de batalha, na presença de todos os exércitos.

Que erro Scoresby cometera dessa vez? Confundira, simplesmente, sua mão direita com a esquerda. Eis tudo. Recebera ordens de retroceder e de apoiar nossa direita, e em lugar de assim proceder, retrocedera para diante, flanqueando a colina pela esquerda. Mas a fama que nesse dia conquistou como gênio militar foi difundida pelo mundo inteiro e a glória jamais será empalidecida enquanto durarem os livros de história.

Scoresby é o que de bom, amável, simpático e modesto pode ser um homem, mas não sabe o suficiente para regressar à casa quando chove. Isto é absolutamente verdadeiro. E o asno supremo do universo. E até meia hora antes, além dele e de mim, ninguém sabia disto. Scoresby tem sido perseguido, dia a dia, ano a ano, por uma sorte realmente fenomenal e assombrosa. Tem sido um brilhante soldado em todas as nossas guerras durante uma geração. Toda sua vida militar está cheia de erros, e no entanto não cometeu um só erro que não o tenha convertido em cavaleiro, barão, lorde, ou algo parecido. Olhe seu peito: parece, simplesmente, que ele está vestido de condecorações nacionais e estrangeiras. Pois bem, meu caro senhor, cada uma dessas condecorações é o documento vivo de tal ou qual alarmante estupidez. Tomadas em conjunto, são a prova de que o melhor que pode ocorrer a um homem neste mundo é nascer com sorte. Volto a repetir-lhe o que disse no banquete: Scoresby é um perfeito animal.