sábado, 19 de setembro de 2015

RESUMOS UFSC 2016: O SANTO E A PORCA



        O SANTO E A PORCA – IMITAÇÃO NORDESTINA DE PLAUTO


Escrita em 1957 (pós-modernismo), por Ariano Suassuna (1927/2014), “O Santo e a Porca” é um texto do gênero dramático (teatro). Trata-se de uma comédia em três atos. Inspirado na Aululária, peça teatral do autor latino Plauto, escrita no século II a.C. e que aborda o tema da avareza. Apesar da linguagem simples e do riso fácil, o texto de Suassuna traz camadas mais profundas para análise:
      a)      O registro de usos e costumes e da cultura popular nordestina, inspirada na literatura de Cordel.       
      b)      A brasilidade no sentido da esperteza, na linhagem de Memórias de um Sargento de Milícias, Macunaíma e da obra do próprio autor, o Auto da Compadecida. Sobre esta última, cabe destacar o personagem João Grilo, mentiroso e astuto, diferente de Leonardinho e Macunaíma, trabalhava muito e, mesmo assim vivia miseravelmente. Suas armações eram, na verdade, um mecanismo de sobrevivência. Em “O Santo e a Porca”, Caroba, a empregada de Euricão é quem manipula com criatividade as situações para conseguir casar e ter onde morar, mas também se preocupa em fazer a felicidade dos demais.
       c)       Uma reflexão sobre o homem dividido entre a espiritualidade (o Santo) e o materialismo (a porca) aponta o caráter moralizante da obra.
PERSONAGENS
Euricão - Eurico Árabe, velho mesquinho conhecido como "Engole Cobra", é o protagonista da peça. Sua avareza é caricatural: acumula dinheiro dentro de uma porca de madeira e vive como um miserável, reclamando da pobreza (seu bordão: “Ai a crise, ai a carestia”) submetendo todos que o cercam a privações. Após ser abandonado pela esposa, passa a considerar a porca como seu bem mais precioso:
Euricão: Ai minha porquinha adorada! (...) querem levar meu sangue, minha carne meu pão de cada dia, a segurança de minha velhice, a tranquilidade de minhas noites, a depositária de meu amor!
Margarida - filha de Euricão (que queria casá-la com um homem rico) namora Dodó em segredo, mas é pretendida pelo pai do rapaz, o endinheirado Eudoro Vicente.
Dodó – filho de Eudoro é submisso ao pai (o próprio apelido ‘Dodó’ é uma redução do nome paterno) e não tem coragem de dizer-lhe que abandonou os estudos para viver ao lado de Margarida; apesar da covardia, faz de tudo para ficar ao lado da amada: vive miseravelmente na casa de Euricão (sob o pretexto de vigiar a moça para a família) usando um disfarce de corcunda para ficar acima de qualquer suspeita.
Eudoro Vicente – Fazendeiro de posses, mesmo sendo mais velho, deseja casar com Margarida, por sentir-se solitário. No passado, chegou a ser noivo de Benona, irmã de Euricão.
Benona – Seu nome é uma alusão à personagem de Plauto, Eunomia (do grego, “ordem bem regulada”); por seu pudor excessivo, acabou rompendo o noivado com Eudoro quando jovem e ficou solteirona. 

Caroba - empregada de Euricão, desejava casar com o noivo, Pinhão. Com esperteza e criatividade, desenvolve toda uma rede de intrigas e quiproquós* a fim de conseguir dinheiro para o matrimônio. Não deixa de ser solidária, pois se preocupa em arranjar os casamentos de Margarida e Dodó e de Benona e Eudoro.

Pinhão – homem simples, suas falas são recheadas de ditados populares. Noivo de Caroba, trabalha para Eudoro  e é um tipo malandro e oportunista: descobre a porca de Euricão e chega a roubá-la.

O Santo e a Porca – A porca de madeira representa a avareza de Euricão. É o elemento profano em oposição ao Santo. Santo Antônio, por sua vez, é a representação do sagrado. De devoção popular, é considerado “achador” e “casamenteiro”, o que remete, ao mesmo tempo à fortuna escondida de Euricão e ao enredo amoroso que envolve os outros seis personagens.
*quiproquó: Do latim quid pro quo, "uma coisa pela outra". Originalmente referia-se a um diálogo em que uma pessoa era confundida com outra, acarretando uma situação cômica. Em sentido mais amplo, utiliza-se o termo quiproquó como referência a uma confusão de palavras ou a um equívoco qualquer.

ESPAÇO
O espaço da ação é a casa de Euricão. Também são referidos a fazenda de Eudoro (onde Margarida passara a festa de São João), o Hotel de Dadá (onde Eudoro ficaria hospedado) e o cemitério (onde Euricão passou a esconder a Porca).
TEMPO
A ação se passa no período de um dia (manhã, tarde e noite).
Primeiro Ato (Manhã)- Temos a apresentação do conflito: Euricão recebe uma carta de Eudoro dizendo que este iria lhe tomar seu mais precioso tesouro (trata-se de Margarida, mas o avarento pensa que seja a porca). Aqui, a tensão é marcada pela espera por Eudoro e o ato se encerra após Eudoro pedir uma entrevista com Margarida.
Segundo Ato (Tarde)- As intrigas antes da entrevista movimentam este segundo ato. Dodó não aceita a ideia do encontro entre a amada e Eudoro briga com a namorada e Caroba, que se prontificara a ir no lugar da mocinha, acaba também brigando com Pinhão.
Terceiro Ato (Noite)- Após a entrevista, temos as revelações do enredo. As mentiras são descobertas e os conflitos resolvidos.

LINGUAGEM
O Santo e a Porca é um texto escrito para teatro (gênero dramático), em linguagem simples, diálogos espontâneos e repletos de ambiguidade.Para que o leitor não se confunda com os quiproquós (mal-entendidos cômicos), é preciso prestar atenção nas rubricas (indicações do autor para a contextualizar as cenas e orientar a representação dos personagens), que aparecem ao longo do texto em itálico.

ENREDO
PRIMEIRO ATO
Eudoro Vicente manda, pelo empregado Pinhão, uma carta a Eurico, que entra em desespero pensando se tratar de um pedido de empréstimo. Euricão, Caroba e Pinhão discutem sobre o conteúdo da carta quando chegam Margarida e Dodó, que usa um disfarce.
A moça, pensando que o pai descobrira seu namoro secreto com Dodó quase conta toda a verdade, mas é interrompida por Pinhão, que revela a origem da carta.
Após a insistência de Margarida, Eurico decide abri-la.

MARGARIDA    Mas  o  que  é  que  tem  a  carta?    cá, deixe  eu  ver! Onde é?
EURICÃO – Aí onde diz "de minha chegada aí". Ah carta amaldiçoada! Ai a crise, ai a carestia!
MARGARIDA  – De  minha  chegada  aí,  mas  quero  logo  avisá-lo: pretendo privá-lo de seu mais precioso tesouro!
EURICÃO – Está vendo? Esse ladrão! Esse criminoso! Meteu na cabeça que  eu  tenho  dinheiro  escondido  e  quer  roubá-lo.  Estão  me  roubando! Ladrões, só pensam nisso! Mas vou tomar minhas providências! Saiam, saiam imediatamente! Vou trancá-los, entrem   aqui imediatamente! Entrem, entrem! 
Empurra os quatro num quarto  qualquer,  que  tranca  por  fora.  Tranca também  as  portas  e janelas  com  barras  de  madeira  e abre  pelo  meio uma  grande  porca  de  madeira,  velha  e  feia,  que  deve  estar  em  cena, atirada  a  um  canto,  como  se  fosse  coisa  sem  importância  Dentro  dela, pacotes  e  pacotes  de  dinheiro.  EURICÃO,  enquanto  ergue  e  deixa  cair amorosamente  os  pacotes,  vai  falando,  ora  consigo  mesmo, ora com Santo Antônio, cuja imagem também deve estar em cena.

Euricão interpreta essa expressão em sentido literal, pensando que Eudoro deseja apoderar-se de sua porca de madeira, na qual escondia secretamente todo o seu dinheiro.
Desesperado, o árabe não quer receber o fazendeiro em sua casa. Dodó sugere o homem fique hospedado no hotel (e pague sua própria despesa!). Euricão concorda e vai para a cidade fazer a reserva.
Margarida imagina que Eudoro possa ter descoberto que Dodó não fora estudar em Recife e que estava justamente na casa de Euricão para namorá-la, mas Caroba desvenda o motivo da carta e da visita: Eudoro vinha pedir a mocinha em casamento pois era solitário e simpatizara muito com ela quando esta passara a festa de São João em sua fazenda.

 A atuação de Caroba é fundamental na peça. Com sua esperteza e criatividade (à semelhança de João Grilo de O Auto da Compadecida), ela toma a frente da situação, tramando uma estratégia para resolver o impasse de Margarida e Dodó e ainda ganhar dinheiro para casar com Pinhão.
Caroba começa a tramar. Quando Euricão volta da cidade, a empregada convence o avarento de que Eudoro viria mesmo pedir dinheiro emprestado. Caroba dá uma ideia ao patrão (em troca de uma comissão): sugere que Eurico peça vinte contos primeiro (que ela planeja usar em um jantar). Em seguida, convence Benona de que Eudoro viria pedi-la em casamento. Quando o fazendeiro aparece, Benona lança-lhe um olhar provocante:

Entra EUDORO VICENTE. BENONA lança-lhe um olhar provocante e terno.
BENONA — Eudoro, meu irmão vem já. Com licença, malvado! (Sai.)
EUDORO — Que foi que houve aqui, meu Deus, para Benona me olhar assim. Que coisa esquisita!
CAROBA — Ah, e o senhor ainda não soube de nada não?
EUDORO — Não, o que foi que houve?
CAROBA — O que houve, Seu Eudoro, foi que o povo daqui está desconfiado de que o senhor veio noivar.
EUDORO — E por que estão pensando nisso?
CAROBA — O senhor mandou dizer na carta que ia roubar o tesouro de Seu Euricão e todo mundo está pensando que isso quer dizer "casar com Dona Margarida".
EUDORO — Pois estão pensando certo, Caroba. Desde que Dodó saiu de casa para estudar, estou me sentindo muito só. Simpatizei com a filha de Euricão e resolvi pedi-la, apesar da diferença de idade.

Caroba continua sua trama, prometendo ajudar Eudoro intermediando seu pedido junto a Euricão. Em seguida, a empregada induz o pai de Margarida a acreditar que o fazendeiro pretendia desposar Benona, de quem, aliás, já fora noivo.

CAROBA — Seu Euricão, o senhor sabe perfeitamente que Seu Eudoro gostou de uma pessoa de sua família.
EURICÃO — Sei, mas pensei que isso já tivesse passado.
CAROBA — Ora passado, agora foi que começou! A simpatia que essa pessoa inspirou a Seu Eudoro só fez aumentar com a separação. Pois bem, Seu Eudoro veio pedi-la em casamento.
EURICÃO — Está dada, pode se considerar noivo. Mas eu preciso de vinte contos emprestados para fazer a festa do casamento.
EUDORO — Mas eu ainda não sei se ela aceita!
EURICÃO — A responsabilidade é minha, pode se considerar noivo! Não está vendo que eu não vou perder uma oportunidade dessa? Você está noivo, Eudoro, e eu preciso de vinte contos, esse é que é o fato.
EUDORO — Então mande chamar Margarida.
EURICÃO — Margarida? Pra quê?
CAROBA — Seu Eudoro quer vê-la depois de tanto tempo, é perfeitamente natural, Seu
Euricão. Ele já viu Dona Benona, agora quer ver Dona Margarida!

O plano de Caroba dá certo: Euricão e sua irmã acreditam que Benona, e não Margarida, é a pretendida de Eudoro. Este, por sua vez, acredita que conseguiu a mão da filha de Eurico em casamento.
Surge, porém, outra intriga: Eudoro deseja uma entrevista com Margarida, a sós. A moça, horrorizada, diz que prefere ir para um convento.

MARGARIDA — Já disse que prefiro ir para um convento. E vá marcar entrevista com gente de sua idade, está ouvindo? E saia daqui com seu casamento! Saia daqui porque eu...
CAROBA põe o dedo nos lábios e faz-lhe sinal para que ela saia. Margarida se interrompe bruscamente e começa a chorar, saindo arrebatadamente da sala, acompanhada sempre pelo fiel DODÓ.
EUDORO — Mas Eurico...
CAROBA — Coitada, foi pega de surpresa pela notícia, é muito apegada com a família, principalmente com Dona Benona, e está com medo de perdê-la.
EURICÃO — É isso mesmo. Não se ofenda, Eudoro, vou acalmá-la. Uma conversa comigo e em dois tempos ela vai ser a primeira a apoiar a ideia. (Sai.)
EUDORO — A apoiar que ideia? A da entrevista?
CAROBA — Não, a do casamento.
EUDORO — Bem que eu não queria fazer isso, assim de repente! Agora a moça está nervosa!
CAROBA — Isso passa, deixe comigo! Ela faz isso porque está na frente do pai. Mas quando ela falar com o senhor a sós, há de ver que ela quer o casamento.

Repare que Caroba manipula a situação fazendo com que Eurico acredite que a entrevista com Margarida seria apenas pela simpatia do fazendeiro pela moça, que ficara hospedada em sua fazenda nos festejos de São João. A reação da moça seria, segundo a empregada, se devia ao fato de ela ser muito apegada a Benona, não admitindo que a tia deixasse a família para se casar.
Caroba promete a Eudoro arranjar uma entrevista com Margarida, à noite, quando Euricão estiver dormindo.

Durante o jantar, Eudoro manifesta interesse em comprar a porca de Eurico, imaginando ser um simples objeto de antiguidade. O árabe reage chamando o fazendeiro de ladrão. Eudoro fica sem entender nada. Na saída, Eudoro depara com Benona, que se insinua para ele.

BENONA — Deixe de preconceitos, homem! Agora estou diferente, a vida me ensinou a ser menos tola! Não quer? Bem, então fica para mais tarde. Vou me vestir para o jantar. Mas não deixo você sair sem lhe dar um beliscão no espinhaço de jeito nenhum, quero me lembrar dos velhos tempos. Chegue aqui esse espinhacinho, safado!
EUDORO — Benona!
BENONA — Ai meu Deus, quanta timidez, como é lindo isso! Esse Dodó sempre foi doidinho! Não tem isso não, lá vai beliscão!
EUDORO — (Correndo.) Benona! Diabo de povo mais esquisito! Benona! Ai! (Sai correndo, com BENONA atrás.)
EURICÃO — Ai minha porquinha adorada, ai minha porquinha do coração! Querem roubá-la, querem levar meu sangue, minha carne, meu pão de cada dia, a segurança de minha velhice, a tranquilidade de minhas noites, a depositária de meu amor! Mas parece que Santo Antônio me abandonou por causa da porca. Que santo mais ciumento, é “ou ele ou nada”! É assim?
Pois eu fico com a porca. Fui seu devoto a vida inteira: minha mulher me deixou, a porca veio para seu lugar. E nunca nem ela nem você me deram a sensação que a porca dá. Ah, minha bela, ah, minha amada! Aqui você fica muito à vista de todos, todo mundo deseja a sua beleza, a sua bondade. É melhor levá-la para um lugar escondido. A mala do porão, é lá! Aí você ficará em segurança e eu poderei dormir de novo.
Entra num socavão sob a escada, sobraçando a grande porca de madeira, e volta sem ela.
EURICÃO — Agora, sim. E você, Santo Antônio, deve se contentar agora com minha pobreza e minha devoção. Eu não o esqueci. Não deixe que esses urubus descubram meu dinheiro! Faça isso, meu santo, e a banda de jerimum que eu ia dar a Caroba será sua. Menos as sementes, viu? As sementes eu quero para fazer xarope e vender no armazém. Ganha-se pouco, mas sempre é alguma coisa para se enfrentar a crise e a carestia! (Persigna-se e sai.)   

Benona, que no passado perdera Eudoro por ser excessivamente recatada e conservadora, agora imagina que vai casar com o ex-noivo e está disposta a tudo para agarrá-lo.
Atenção para o trecho sublinhado: Euricão, depois de perceber o interesse de Eudoro na porca, reclama do Santo Antônio por não protegê-la e afirma que entre o Santo e a Porca, fica com a Porca. Mais tarde, o árabe avarento será punido por isso.

SEGUNDO ATO
Dodó briga com Caroba por causa da entrevista arranjada entre Margarida e Eudoro. O rapaz, com ciúmes, termina por brigar também com a namorada. A empregada consola Margarida prometendo ir em seu lugar à entrevista, usando um vestido da moça. Agora é Pinhão quem briga com Caroba.
Os rapazes conversam entre si e acreditam que as duas mulheres marcaram entrevistas.

DODÓ — Chegaram uns homens aí fora.
PINHÃO — São os dois empregados do hotel, certamente vêm com a porca. Arranjei uma porca assada para nós.
DODÓ — Então, pelo menos, hoje se tira a barriga da miséria! Estou aqui há dois meses, é a segunda vez que vou comer de noite. Vá receber a porca.
PINHÃO — (Gritando para fora, enquanto sai.) É a porca? Levem lá para trás, nossa alegria hoje é essa porca. É a porca? (Sai. EURICÃO cruza a cena, transtornado.)
EURICÃO — Ai, a porca! Pega, pega o ladrão!
Sai no encalço de PINHÃO. Ouvem-se gritos, som de pancadas, imprecações. PINHÃO entra correndo, com EURICÃO atrás, ameaçador. EURICÃO vai investir sobre PINHÃO, que puxa uma faca.
EURICÃO — Pega, pega o ladrão! Assassino, ladrão!
DODÓ — O que é isso, Seu Eurico? Que é isso, Pinhão? Guarde essa faca imediatamente.
EURICÃO — Não, deixe ele assim, quero mesmo que a polícia veja! Pega, pega o ladrão! Vou denunciá-lo à polícia!

Outro quiproquó: Pinhão encomendara uma porca assada e Euricão pensa se tratar de sua porca de madeira.
Após averiguar se a porca permanecia em seu esconderijo, Eurico se reclama mais uma vez do Santo Antônio, enquanto Pinhão espia a cena e desconfia do segredo do avarento. Pinhão vai ao esconderijo da Porca, é afugentado por Euricão, mas volta escondido ao lugar e fica espiando.

EURICÃO — (Cruzando os braços.) Vai ou não?
PINHÃO — (Dando meia-volta rápida e saindo.) Vou! (Mesmo movimento anterior de ambos.)
EURICÃO — Não quero mais vê-lo!
Saem, sendo que PINHÃO na carreira. Ele dá uma volta por fora da cena; subentende-se que ele rodeou a casa; então, pula uma janela, novamente para dentro de cena, e esconde-se. EURICÃO volta por onde saiu.
EURICÃO — Ah, agora estou só. Estará escondido? O quarto está vazio. E aqui? Ninguém. Agora, nós, Santo Antônio! Isso é coisa que se faça? Pensei que podia confiar em sua proteção mas ela me traiu! Você, que dizem ser o santo mais achador! É isso, Santo Antônio é achador e está ajudando a achar minha porca! Eu devia ter me pegado era com um santo perdedor! Agora não deixo mais meu dinheiro aqui de jeito nenhum. O cemitério da igreja! É aqui perto e é lugar seguro. Entre o túmulo de minha mulher e o muro, há um socavão: é lá que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos à dos vivos, e ali minha porca ficará em segurança. Com medo dos mortos, os vivos não irão lá e os mortos, ah, os mortos não desejam mais nada, não têm mais nenhum sonho a realizar, nenhuma desgraça a remediar. Ao cemitério! Escondo a porca no socavão e à noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra e hei de enterrá-la o mais fundo que puder. E você, Santo Antônio, fique-se aí com sua proteção e seu poder de encontrar. Lá, meu ouro, meu sangue, estará em segurança: o mundo dos mortos é mais tranquilo, e, digam o que disserem os idiotas, lá é o lugar em que se perde tudo e não se acha nada!

Euricão sai com a porca para escondê-la no cemitério, mas Pinhão já conhece o segredo do velho. Caroba percebe que o velho leva algo debaixo da capa e brinca, batendo na barriga do patrão a perguntar se está com fome. Pinhão, ao flagrar a cena, fica com ciúmes e briga com Caroba e, em seguida, dirige-se ao cemitério.

TERCEIRO ATO
Mesma sala. Entram CAROBA e MARGARIDA. CAROBA aponta a MARGARIDA um lugar qualquer onde ela deve se esconder. MARGARIDA assente com a cabeça e se esconde. Então CAROBA joga um pacote que deverá conter o vestido, de que depois ela virá a precisar, atrás de um móvel qualquer. Um barulho de fim de jantar e vozes que se aproximam. CAROBA se esconde no mesmo lugar com MARGARIDA. Entram EURICÃO, BENONA e EUDORO.

Eurico se retira para dormir, despedindo-se de Eudoro. O fazendeiro fica à sós com Benona e os dois conversam sobre o passado:

BENONA — Eu era muito moça, Eudoro. Eurico não me deixava sair para lugar nenhum, eu não conhecia o mundo, não conhecia você direito, nada! Bem, naquela noite em sua casa... Você sabe o que foi, fiquei com medo de você.
EUDORO — Mas Benona, foi só por causa daquilo? E você, por tão pouco, estragar nosso casamento! Se eu soubesse, teria vindo e falado de tal maneira, que você me perdoaria e teria talvez casado comigo.
A conversa é interrompida por Euricão, que chama a irmã para arrumar os lençóis da cama.
Eudoro fica sozinho na sala e Caroba vai até ele para confirmar a “entrevista”. Euricão grita ordenando que a empregada tranque todas as portas, pois a rua é “cheia de ladrões”.
Eudoro sai, entra Margarida, trazendo para Caroba o vestido que servirá de disfarce. A empregada diz que é melhor que Margarida fique escondida no quarto. Caroba tranca a moça e fica com a chave. Em seguida, chama Benona:
BENONA — Qual foi a combinação com Eudoro?
CAROBA — A senhora fica em seu quarto. Eu vou escutar na porta de Seu Euricão, depois na de Dona Margarida. Se eles estiverem agarrados no sono, eu tiro o vestido de Dona Margarida e vou entregá-lo à senhora. Aí destranco a porta de entrada e fico esperando Seu Eudoro. Quando ele vier, canto como gia, chamo a senhora e desapareço.

Benona vai para o quarto e Caroba pede a ajuda de Santo Antônio para que tudo dê certo e sai.
Chega Pinhão, carregando a porca que roubou dentro de um saco de estopa. Dodó aparece e Pinhão disfaça. Os dois se escondem quando aparece Euricão, com um candeeiro e uma pá, pronto para ir ao cemitério enterrar a porca.

Entra CAROBA, vestida de MARGARIDA.
CAROBA — Tudo pronto. Agora, só falta o noivo.
DODÓ — O noivo está aqui.
CAROBA — Seu Eudoro?
DODÓ — Não, sou eu, Margarida! Sou eu, que vim me certificar de sua traição!
CAROBA — (Trancando a porta.) Mas Seu Dodó...
DODÓ — Não me chame assim, pelo amor de Deus!
CAROBA — O senhor não sabe de nada e veio foi atrapalhar tudo!
DODÓ — Tudo está esclarecido.
VOZ DE EUDORO — (Fora.) Margarida!
CAROBA — Meu Deus, é seu pai. Que é que eu faço agora, meu Deus? Com esta eu não contava! Entre aqui neste quarto, é o jeito.
DODÓ — Nunca! Vou ficar e contar tudo a meu pai!
CAROBA — Homem, quer saber do que mais? Entre e não converse mais não! (Empurra DODÓ no quarto de MARGARIDA e tranca a porta. Enquanto fala, tira o vestido de MARGARIDA.)

Em seguida, Caroba vai ao quarto de Benona e as duas trocam de vestido. A empregada encontra Eudoro e se insinua para o fazendeiro (se fazendo passar por Benona).

EUDORO — Mas Benona, podem falar de nós!
CAROBA — Falar o quê? Que é que você está pensando? Que eu vou tentar contra você o que você tentou contra mim, é? Eu sou uma mulher séria, Eudoro, incapaz de atentar contra os viúvos honestos!
EUDORO — Você é incomparável, Benona, como você nunca existirá outra!
CAROBA — Então entre. Entre e tudo se explicará! (Dá uma pancada nele, com o próprio traseiro, empurrando-o.)

Pinhão imagina que flagrou Benona com Eudoro e tenta tirar proveito.

PINHÃO — A senhora pode já ter passado a primeira mocidade, mas eu lhe digo uma coisa, Dona Benona, é nesse tempo que eu acho as mulheres mais bonitas! E a senhora pode não ser mais muito moça, mas é enxuta que faz gosto!
CAROBA — (À parte.) Ah, safado!
PINHÃO — A senhora não estava procurando as chaves?
CAROBA — Estava!
PINHÃO — Eu tirei todas duas! Pelo que a senhora disse, elas são muito importantes. Assim, a gente podia fazer um acordo. Eu lhe dava as chaves e... A senhora não repare não, mas já que estamos aqui e Seu Eudoro dormiu no ponto, a gente bem que podia entrar num acordo e fazer um amorzinho, para passar o tempo!
CAROBA — Você está muito enganado! Eu estava deixando você falar, para ver até onde ia seu atrevimento! Mas vou gritar! Vou gritar e você vai se arrepender da graça.

A empregada, ainda disfarçada de Benona, ameaça fazer um escândalo e bate em Pinhão. Em seguida, volta à cena como Caroba, diz ter ouvido tudo e dá outra surra no namorado.

PINHÃO — Ai, Caroba, ai Carobinha, ai Carobinha do meu coração! (Consegue beijá-la por entre as tapas, abraça-a, CAROBA vai diminuindo as tapas, retribui o beijo, depois o abraço.)
CAROBA — Safado!
PINHÃO — Beleza!
CAROBA — Pinhão!
PINHÃO — Caroba! Agora, podemos casar! Vamos casar amanhã e você vai ser a mulher mais rica daqui!
CAROBA — Mentiroso! Ai, as chaves! (Destranca os dois quartos e entra, abraçada com PINHÃO, num terceiro quarto. DODÓ e MARGARIDA saem do quarto.)
MARGARIDA — Está vendo? Está aberta! Graças a Deus! Você está zangado comigo, meu amor?
DODÓ — Não, pelo contrário, você estava certa e eu fui quem perdi a cabeça.
MARGARIDA — E não vai me desprezar porque eu o repeli?
DODÓ — Pelo contrário, cada vez aprendo a respeitá-la mais. Eu é que devo pedir perdão a você por ter me descontrolado.  

Euricão volta do cemitério desesperado com a perda da porca. Mais um mal-entendido: Dodó tenta se explicar, achando que o velho está lamentando por ter perdido a filha, quando, na verdade, se refere à porca.

DODÓ — Agi mal, confesso, minha falta é grave mas vim exatamente pedir que me perdoe.
EURICÃO — Como é que você teve coragem de tocar naquilo que não lhe pertencia?
DODÓ — Espere aí! Apesar das circunstâncias serem um tanto esquisitas, o que aconteceu foi coisa sem importância! O que eu toquei nela foi muito pouco!
EURICÃO — O que, canalha? Tanto assim que se você tocasse em meu tesouro, seria um crime inominável! Com que direito você foi tocar naquilo que era meu?
[...]
DODÓ — Bem, tocar, toquei, mas não foi nada que pudesse ofendê-la. Mas já que o senhor considera essa tolice um crime, por que não aceita os fatos e não me dá de vez esse tesouro?
EURICÃO — Como é, assassino? Você quer ficar com meu tesouro? Contra minha vontade?
DODÓ — Eu não estou lhe pedindo? A coisa que eu mais desejo no mundo é ficar com ela!
[...]
EURICÃO — Ah, não, você tem que devolver!
DODÓ — Devolver? Eu não já disse que não tirei nada? Devolver o quê?
EURICÃO — Aquilo que me pertencia e que você tirou!
DODÓ — Que eu tirei? De onde? Afinal, o que é que você quer?
EURICÃO — (Irônico, amargo.) Você não sabe?
DODÓ — Você não diz!
EURICÃO — O que eu quero é minha porca que você confessou ter roubado!
MAGARIDA — Ai, meu Deus, por que o senhor me insulta?
DODÓ — Isso é coisa que o senhor diga? Porca por quê? Sua filha é a mais pura das
moças, portou-se com toda a prudência e o senhor a trata com essa grosseria!
EURICÃO — Minha filha? Que é que minha filha tem a ver com isso? Que é que você está fazendo aqui, Margarida?
MARGARIDA — Mas papai, eu não...
DODÓ — Não é ela que o senhor está reclamando?
EURICÃO — Olhe a inocência do ladrão! O que eu quero é minha porca, cheia de dinheiro, que você confessou ter roubado!

Caroba aparece e explica que Dodó estava se desculpando por ter “comprometido” Margarida. Em seguida, conta também que Benona e Eudoro tinham se trancado no quarto para “matar as saudades”. Conforme o plano de Caroba, Euricão exige que todos se casem.
Desmascarado, Dodó pede desculpas ao pai por ter abandonado os estudos dizendo tê-lo feito por ter se apaixonado por Margarida.
Euricão segue inconsolável pela perda da porca e Margarida acusa Pinhão, que confessa o roubo e acaba aceitando devolvê-la em troca de vinte contos que usaria para casar com Caroba.
Tudo se resolve para os casais, mas Euricão é alertado por Eudoro sobre o fato de que o dinheiro antigo, contido na porca já era “recolhido”, não valia mais nada.

INTERTEXTUALIDADE: Euricão é muito semelhante ao velho Libório, personagem secundário de “O Cortiço” que vivia mendigando, mas guardava dinheiro em garrafas. Libório morre em um incêndio e João Romão se apodera da fortuna escondida. Boa parte do dinheiro não valia mais nada, mas o português repassa as cédulas aos clientes como troco em sua taverna. 

Entendendo ser uma cilada de Santo Antônio, Euricão pede para ficar só, negando o convite de Margarida para ir morar com ela e Dodó. Todos vão embora e Euricão fica só, com o Santo e a Porca, tentando compreender o sentido do que acontecera:

Saem todos, menos EURICÃO.
EURICÃO — Bem, e agora começa a pergunta. Que sentido tem toda essa conjuração que se abate sobre nós? Será que tudo isso tem sentido? Será que tudo tem sentido? Que quer dizer isso, Santo Antônio? Será que só você tem a resposta? Que diabo quer dizer tudo isso, Santo Antônio?

ATENÇÃO: O tema da avareza aparece em outras leituras obrigatórias do vestibular da UFSC:
- Em “Várias Histórias”, no conto “Entre Santos” (semelhante, inclusive no conflito entre valores materiais e espirituais).
- Em “O Cortiço”, com os personagens João Romão e Libório





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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

RESUMOS UFSC 2016: Análise de "Os Cavalos Brancos de Napoleão", conto de Caio Fernando Abreu

OS CAVALOS BRANCOS DE NAPOLEÃO 
Napoleão é um advogado bem sucedido, típico cidadão burguês que ostenta um padrão de vida de de classe média alta à custa de uma rotina estressante. O sucesso econômico e profissional contrasta com a frustração na vida íntima. Repare na forma irônica como o narrador transforma metaforicamente a casa de Napoleão em um tribunal onde o protagonista é sempre o réu:

“Em sua própria casa, à hora das refeições, todos dias sempre se desenrolavam movimentadíssimos julgamentos. Dos quais ele era o réu. Acusado de não dar um anel de brilhantes para a esposa nem um fusca para o filho nem uma saia maryquantiana para a filha. Eventuais visitas faziam corpo de jurados, onde às vezes colaboravam criados mais. Íntimos, sempre concordando com a esposa, promotora tenaz e capciosa.”
O conflito se instaura quando Napoleão, durante as férias na praia (momento de liberdade em que deixa de cumprir o papel de advogado bem sucedido), passa a ter visões de cavalos brancos galopando pelos ares (o que também remete simbolicamente à liberdade desejada).
Chama a atenção que a esposa é incapaz de compreendê-lo e sequer de comunicar-se com ele:
“Tão natural achou que cutucou a esposa deitada ao lado, apontando, olha só, Marta, cavalos brancos nas nuvens. Não havia espanto nem temor nas suas palavras. Apenas a reação espontânea de quem vê o belo: mostrar. Marta disse não enche, Napoleão, coisa chata cutucar com este calor.“
Napoleão passa a constituir um mundo particular em torno de seus cavalos imaginários. No retorno das férias, de volta à rotina, o protagonista teme não ver mais os cavalos, mas após dois dias sem as visões...
“Mas eles voltaram. Entraram pela janela aberta do tribunal num dia em que ele estava especialmente inflamado na defesa de um matricida. A princípio ainda tentou prosseguir, fingiu não os ver, traição, opção terrível, entre o amor e a justiça, como na telenovela a que sua mulher assistia. Eles não estavam doces. Depois de entrarem pela janela, instalaram-se ríspidos entre os jurados. De onde observavam, secos, inquisidores. Sem sentir, Napoleão começou a falar cada vez mais baixo, mais lento, até a voz esfarelar-se num murmúrio de desculpas, em choque como murmúrio de revolta crescendo dos parentes do réu. Napoleão olhou ansioso para os cavalos, que não fizeram nenhum gesto de aprovação ou ternura. Rígidos, álgidos: esperavam.”
Após o vexame no tribunal, a mulher e um amigo, também advogado tentam consolar Napoleão.
“AMIGO -Isso acontece, Napoleão.

MARTA- Não se desespere, querido.

AMIGO -Você não teve culpa.

MARTA -Você estava nervoso.

NAPOLEÃO (obsessivo) -Mas vocês repararam na atitude deles? Repararam mesmo?

AMIGO (conciliador) -Natural que ficassem revoltados, Napoleão. Afinal, são parentes, clientes, pagaram os tubos. Queriam um serviço bem feito.

MARTA- Claaaaaro. E, enfim, o cara pegou só sete anos. Não é tanto assim, você pode apelar, pedir o tal de habeas-corpus.

NAPOLEÃO (erguendo-se brusco da poltrona) - Parentes? Clientes? Réu? Habeas-corpus? Mas eu estou falando é dos cavalos, entendem? Dos cavalos, caralho! Os parentes, os réus, os jurados, que se fodam, entendem? Que se fodam. Sem vaselina! O que me interessa são os cavalos!”
Perceba que Napoleão defendia um matricida no tribunal e Marta e o amigo não têm qualquer preocupação ética, a não ser com o dinheiro (“pagaram os tubos, queriam um serviço bem feito”). O protagonista explode (repare nos palavrões) e só se importa com os cavalos, ou seja com seu delírio de liberdade.
A partir daí, Napoleão, incompreendido, é submetido a tratamentos médicos, psicológicos e psiquiátricos. É interrogado, julgado e rotulado.
“Numa noite, deu-se o desfecho. Que, aliás, se armara inevitável desde o princípio. Mais arde, os enfermeiros comentaram terem ouvido risos, segundo alguns, ou lágrimas, segundo outros. Mas ao certo mesmo, ninguém ficou sabendo como Napoleão morreu. Quando o médico entrou no quarto pela manhã, deparou com o corpo dele rígido sobre a cama. Parada-cardíaca-provocada-por-inanição, atestou logo entre alívio e piedade. Mandou chamar a esposa, filhos, colegas, criados, que vieram em tardias lágrimas inÚteis. Sobre a mesinha de cabeceira, em tinta azul, ficava sua última (ou talvez primeira) exigência. Queria ser conduzido para o cemitério num coche puxado por sete cavalos. Brancos, naturalmente. Foi. Culpada, a esposa gastou no enterro quase todo o seguro prévia e prudentemente feito. Sete palmos, Napoleão foi enterrado. Tivessem aberto o caixão, talvez notassem qualquer coisa como um vago sorriso transcendendo a dureza dos maxilares para sempre cerrados. Ninguém abriu. Tempos depois o zelador espalhou pelas redondezas que vira um homem estranho, nu em pêlo, cabelos ao vento, galopando em direção ao Crepúsculo montado em amáveis cavalos. Brancos, naturalmente.”
O desfecho aponta para o fato de que o protagonista, impedido de expressar sua singularidade assume uma condição marginal, seja pela loucura, seja pela própria morte.

O tema da loucura já é sugerido no próprio nome do personagem: loucos com mania de grandeza julgam ser Napolão Bonaparte. O conto, no prórpio título faz uma referência à conhecida anedota sobre o cavalo branco de Napoleão, que sugere a possibilidade de ver-se uma cor diversa daquela que é afirmada como óbvia.



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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Fuga (conto de Caio Fernando Abreu)

Leia, na íntegra, o primeiro conto do livro "Além do Ponto e outros contos", de Caio Fernando Abreu.

Fuga


Eles tinham seis anos de idade e iam fugir juntos. Lento, o menino enfiou o pião no bolso, sua única posse, e encaminhou-se para a porta. De dentro chegou a voz da mãe num prenúncio de reclamação está quase na hora do jantar, onde é que você vai? Não respondeu. Em silêncio, começou a concretizar o que há dois dias se desenrolava dentro dele. A segurança da coisa construída em imaginação durante horas de quietude emprestava a seus passos um precisão até então inédita, permitindo-lhe a audácia de não responder, ignorando eventuais palmadas. O trinco quase machucou a mão no ato de fechar a porta, mas ele já começava a criar das coisas que formavam "o que ficava". E o que ficava era tanto que praticamente não tinha nada\além de: um pião no bolso e uma idéia na cabeça. O morrer do sol colocava uma cor também de fuga nas casas, nas coisas, nas pessoas que cruzavam numa melancolia de anoitecer. Em breve as sombras se afirmariam em escuro e ele não estaria mais ali. A idéia poderia quebrá-lo por dentro, porque era duro de repente não estar mais num lugar. Mas ele nem se machucava, há tanto já adivinhara os movimentos interiores prevenindo os receios, precavendo-se contra a série de sentimentaloidices que se amontoariam bruscas sobre seu coração de seis anos de vida. Por tanto, estava preparado. Dentro do tempo que vive era, dois dias era uma longa preparação de esqueci mento que se impusera com método, recusando ternuras, comida na boca, cafuné antes de dormir. Estava todo delineado. E fugia. Caminhava devagar, a coisa remexendo-se com gosto dentro dele. Num esquecimento de que era insípida, quase estalava a língua de puro prazer. Mãos nos bolsos, cabeça baixa, ah nunca se sentira tão definitivo. Era seu primeiro crime, e tão longamente premeditado que não havia espanto nem temor. Como um profissional da fuga, ia indo pela calçada comprida, rente ao muro. O sol espichava sua sombra para trás, vezenquando ele se voltava para ver se ela ainda o acompanhava. Ainda. Expressava seu alívio em forma de suspiro, e prosseguia. Permitia-se apenas esse medo, o de estar sozinho. Mas aquela sombra imensa e achatada contra o cimento não deixava de ser uma segurança, embora disforme. Pegou uma pedrinha branca e começou a riscar o calçamento. Depois enfiou-a no bolso, numa sabedoria de coisa decidida: poderiam segui-lo através do risco fino, irregular. Ainda mais seguro, olhou quase vesgo de satisfação para uma senhora com a bolsa grávida de compras. A mulher encarou-o com desconfiança. Ele parou, o medo se transformando em desafio nos olhos que meio furavam a natureza da mulher. Suspensos no meio da tarde, mediam-se expectantes. Pensou em correr, depois riu um risinho cínico que aprendera na televisão -ela não sabia de seu crime. Então esperou. Até que a mulher abriu a bolsa e estendeu-lhe dois biscoitos. Balbuciou um agradecimento de espanto com tanta inocência humana e enfiou-os no bolso, junto com a pedrinha branca. A silhueta da mulher morria na esquina quando ele se interrogou, numa primeira incompreensão. Saíra de casa apenas com o pião, agora já tinha dois biscoitos, uma sombra, uma pedrinha branca e um acontecimento. Fugir não era então ir se despojando de coisas? Não entendeu, mas o poste que marcava longe o lugar do encontro suspendeu a dúvida. Preocupado, encaminhou-se para lá. Não via a menina. Correu para o poste, investigou as pessoas que passavam mas nenhuma tinha jeito-de-menina-que-ia-fugir. Coçou a cabeça. Num desânimo, esperar. Acomodou a irritação no meio-fio, tirou as posses do bolso. Começava por um biscoito, depois brincava com o pião, depois o outro biscoito, depois desenhava no chão com a pedrinha branca, depois pensava na coisa acontecida. Detestava a improvisação, por isso ficou um pouco abalado com a ausência da menina e teve que planejar ações em que não havia pensado. Começava a desconfiar seriamente da honestidade do sexo oposto. Acumulou um série de queixas que abalaram o prestígio da menina, e preparava-se para pensá-las quando o biscoito sobre a calça fez um jeito fascinante, assim meio pedindo para ser comido. Havia-se recusado tantas coisas nos últimos dois dias que guardava mesmo um pouco de fome formando um espaço branco no estômago. Rompendo com o planejamento, devorou voraz os dois biscoitos, depois misturou pedaços de unhas aos farelos restantes. Quase saciado, girou o pião de leve no cimento. Um menino que passava olhou fixo, invejando. Lembrou da impontualidade da menina e perguntou objetivo: -Quer fugir comigo? Inexperiente dessas coisas, o outro arregalou os olhos: -Quê? -Quer fugir comigo? -Pra onde? -Não sei ainda. Qualquer lugar. -Pode ser Vênus? -Pode. -E Gotham City? -Pode. -E. ..e. ..(a geografia falhava). -Quer ou não quer? -Não sei, o que é que você me dá se eu fugir com você? . O menino investigou as posses desfalcadas. Percebeu o brilho de cobiça nos olhos do outro: -O pião. Quer? O outro fez cara de dúvida: -Sei não. Isso presta? -Quer ou não quer? ("É pegar ou largar", dizia o gangster na televisão). -Quero. Estendeu a mão. O menino fez um movimento esquivo de dissimulação. -Agora não. Só depois que a gente chegar lá. -Lá onde? -No lugar, ora. -Que lugar? -O lugar para onde agente vai fugir . -Mas você não disse que não sabe onde é? -Disse. -Então pode levar anos. -E daí? -Dai que eu quero o pião agora. Desacostumado a argumentar, estendeu o pião. Antes que pudesse fazer qualquer gesto, o outro já ai longe, risada dobrando a esquina, o pião roubado, a promessa não cumprida. Todo magoado com a desonestidade alheia voltou a pensar na menina. Encaminhou-se para a casa dela. Bateu devagar na porta. A mãe da menina espiou pela janela. -A Lucinha está? -Não. Foi no aniversário da menina aqui ao lado. Meio que tropeçou no inesperado da coisa. Devia ter ficado pálido, porque a mãe-da-menina-que-ia-fugir dobrou-se para ele, perguntando se estava sentindo alguma coisa. Estava. Mas como desconhecia aquela onda verde bem claro que se quebrava incompleta dentro dele, não teve palavras para explicar. Disse não, não tenho nada, e foi saindo de cabeça baixa. Já não só duvidava da menina, mas principalmente de si próprio. Parecia-lhe um pouco culpa sua aquele amontoado de desencontros. De dez minutos para cá aconteciam coisas tão incompreensíveis que estava quase desistindo. Por uma questão de dignidade, bateu na porta da casa de menina-que-estava-de-aniversário, que apareceu de vestido cor-de-rosa perguntando se ele tinha trazido presente. Ele desentendeu um pouco mais, ainda assim fez voz firme e pediu para falar com a menina-que-ia-fugir. Com o maior cinismo do mundo, ela brotou de repente duma nuvem de babadinhos, a cara limpa, o cabelo penteado com uma fita -ela, a falsa, que vivia com os fios na boca. Mais grave: um copo de guaraná e uma cocada nas mãos. Nunca a vira tão Lucinha em toda a sua vida. Teve vontade de dar um tiro nela. Mas estava tão desarmado que só conseguiu perguntar com voz meio irregular: -Você não ia fugir comigo? -Ia -disse a menina mordendo a cocada. E ai! O espaço branco da fome cintilou dentro dele. -Esperei você até agora. Por que que você não foi? -Por causa do aniversário, ué. -E o que que tem isso? -Tem que fugir a gente pode todos os dias, mas aniversário é só de vezenquando. Tinha selecionado uma porção de adjetivo pejorativos para jogar em cima dela, mas o pretexto era de uma lógica tão irrecusável que ele ficou parado uma porção de tempo, sentindo o tudo que preparara lento em dois longos dias de meditação ir-se desfazendo como a cocada na boca da menina. Ela olhava para ele, ele pensava na frase, pensava, pensava, ai, o espaço branco aumentando por dentro, uma baita raiva da menina, da mulher que dera os biscoitos, do moleque que fugira com o pião, vontade de bater neles todos ou, na impossibilidade, sapatear até ficar roxo e a mãe chamar o médico num susto. Mas os barulhos da festa cresciam lá dentro, o sol morrendo dourava ainda mais o guaraná, o espaço em branco aumentava até o não-suportar-mais. Indeciso ainda, virou o pé leve no chão. Até que deixou de lado o pudor e perguntou: -Será que ela deixa eu entrar sem presente?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

CONTO: AQUELES DOIS



Aqueles dois
(História de aparente mediocridade e repressão)
Caio Fernando Abreu

Para Rofran Fernandes:


"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)

A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.


*Extraído do livro "Além do Ponto e outros contos"

quarta-feira, 15 de abril de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Vestibular de Inverno FAG (Cascavel)

A FAG oferece vagas para medicina em seu concurso Vestibular de Inverno 2015!

Inscrições: de 27 de abril a 2 de junho
Prova: 6 de junho

Confira a nota lançada no site da instituição:

A Faculdade Assis Gurgacz realiza, no dia 06 de junho, processo seletivo para o preenchimento de vagas remanescentes em 12 cursos. Serão ofertadas vagas nos cursos de: Administração, Agronomia, Arquitetura e Urbanismo, Ciências Contábeis, Direito, Educação Física, Engenharia Civil, Engenharia Mecânica, Engenharia Elétrica, Medicina Veterinária, Pedagogia e Medicina.
A prova será realizada no campus da FAG, no período da tarde, das 14h às 18h. Os portões de acesso às salas de prova serão abertos às 13 horas e fechados às 14 horas.
O candidato deverá comparecer ao local da prova com antecedência, portando: cédula de Identidade (original), comprovante de inscrição e caneta esferográfica azul ou preta.
A prova será dividida em duas partes: Redação e Questões específicas. A Redação será realizada no horário das 14h às 16h, e a Parte II - que compreende questões de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Língua Estrangeira, Matemática, Biologia, Química, Física e Conhecimentos Gerais - das 16h às 18h.
O resultado do Processo Seletivo será publicado no dia 10 de junho de 2015. E as matrículas acontecem em 1ª Chamada dias 15 e 16 de junho, 2ª Chamada no dia 17 de junho, 3ª Chamada dia 18 de junho. Se outras chamadas forem necessárias acontecerão a partir do dia 18 de junho.
Interessados devem fazer a inscrição no período de 27 de abril a 02 de junho, exclusivamente pela Internet (www.fag.edu.br).