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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Receita de Ano Novo (Carlos Drummond de Andrade)


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Flor e a Náusea (Carlos Drummond de Andrade)

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade ganha site oficial


Um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade completa 25 anos no catálogo da Editora Record em 2009. Para homenagear o homem que libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra, a editora acaba de lançar o site oficial do autor www.carlosdrummonddeandrade.com.br , com informações sobre sua vida e obra.

Com uma ampla obra que transita entre a poesia e o conto, Drummond escreveu incansavelmente até o fim de sua vida. Uma mente tão criativa e produtiva que, mesmo depois de sua morte, ainda foram lançados diversos materiais inéditos de sua autoria. O site traz uma lista completa de livros do autor publicados pela Editora Record, além de fotos e vídeos de Drummond em momentos de cotidiana beleza ou apaixonadas homenagens, feitas por aqueles que admiram sua obra. Atualizado semanalmente, o site contará ainda com poesias, contos e algumas curiosidades, como fotos pessoais e manuscritos, fornecidos por Pedro Drummond, neto do autor.

Outra novidade é a Rádio Drummond, que apresenta alguns de seus principais poemas musicados. Em breve, entrarão no ar também entrevistas e trechos de poesias declamados pelo próprio Drummond. Os leitores podem baixar no site papéis de parede com imagens do autor e participar de promoções quinzenais, nas quais serão premiados com livros do escritor.


Fonte: O Globo

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dia dos Namorados - Poesias de Amor: Amar (Carlos Drummond de Andrade)


Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Literatube: Poemas declamados por Paulo Autran

Três poemas antológicos na interpretação do mestre Paulo Autran.

Meus Oito Anos (Casemiro de Abreu)



Poema em Linha Reta (Álvaro de Campos)


Eu, Etiqueta (Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 11 de abril de 2009

Literatube: Carlos Drummond de Andrade (Arquivo N)

Documentários especial sobre a vida e a obra do maior poeta brasileiro do século XX: Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 5 de março de 2009

A Morte do Leiteiro


Curta metragem de animação stop-motion. Uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade e Paulo Autran. Um filme de Merson Eller e Thales Mion.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A Rosa do Povo - Resumo, Análise e Guia de Leitura

Saudações a todos!

Este é um dos últimos posts do ano, e traz um material que eu já tinha colocado aqui no blog. Trata-se de um guia para "A Rosa do Povo", de Drummond. Considerada por muitos a grande obra do maior poeta brasileiro de todos os tempos, A Rosa do Povo se insere na fase da poesia social do autor, profundamente afetada pelo momento histórico: Segunda Guerra Mundial e Era Vargas são referências indiscutíveis.

Cabe destacar a multiplicidade técnica e temática da obra, que vai do soneto ("Áporo") ao verso livre, demonstrando a maturidade da chamada Geração de 30 em relação aos radicalismos do pessoal de 22. Se Oswald de Andrade e companhia privilegiaram uma revolução estética, Drummond foi revolucionário sob o ponto de vista ideológico. Assim como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queirós,Erico Verissimo e Cyro Martins no chamado Romance de 30.

Assim, para Drummond a bandeira do socialismo e a luta contra todas as formas de opressão são o cerne da poesia; a forma segue de forma coerente o conteúdo.

Ao estudo!

Resumo e Análise:

10 A ROSA DO POVO



Guia de Leitura: