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sexta-feira, 26 de março de 2010

Rússia proíbe livro de Hitler para combater extremismo

Rússia proíbe livro de Hitler para combater extremismo

Reuters

Promotores russos proibiram nesta sexta-feira o livro semi-autobiográfico de Adolf Hitler "Mein Kampf" (Minha Luta), de 1925, em uma tentativa de combater a crescente fascinação por políticas de extrema direita.

Banido na Alemanha desde a 2a Guerra Mundial, o livro delineia a visão de Hitler de supremacia racial. Apesar de incluir trechos anti-semitas e anti-russos, o livro tem sido promovido por alguns grupos russos de extrema direita.

O livro tem uma "perspectiva militar que justifica a discriminação e a destruição de raças não-arianas e reflete ideias que, quando implementadas, deram início à 2a Guerra Mundial", disse em comunicado promotoria-geral russa.

"Até agora, o 'Mein Kampf' não era reconhecido como extremista", disse o comunicado, anunciando a proibição do livro e sua inclusão numa lista federal de materiais extremistas. O livro estava disponível nas lojas e online, segundo o comunicado.

Extremistas russos atacaram trabalhadores imigrantes de nações pobres da Ásia Central e do Cáucaso que vão à Rússia e frequentemente buscam empregos subalternos e vivem em condições precárias, assim como estudantes africanos e asiáticos e russos sem aparência eslava.

Ao menos 60 pessoas morreram e 306 ficaram feridas em ataques racistas na Rússia no ano passado, de acordo com a Sova, organização não-governamental em Moscou que rastreia violência racista.

A proibição foi instaurada depois que um departamento regional da promotoria buscou novas formas de combater o extremismo e descobriu que o livro estava sendo distribuído na região de Ufa.

Hitler ditou o livro para seu assistente Rudolf Hess enquanto estava em uma prisão na Baviera depois da frustrada tentativa de golpe conhecida como o "Putsch de Munique" em 1923. O livro explica sua doutrina de supremacia racial alemã e suas ambições de anexar áreas gigantescas da União Soviética.

Na Alemanha, é ilegal distribuir o livro exceto em circunstâncias especiais, como para pesquisa acadêmica. Mas o livro está disponível em outros lugares, com a livraria online amazon.co.uk.

Mas a proibição fará pouco para restringir material que promove o nazismo na Rússia, disse Galina Kozhevnikova, do Sova.

"Eu tenho a sensação de que pessoas precisavam divulgar que estavam combatendo o extremismo", disse ela sobre a proibição do livro. "Ainda estará disponível na Internet, é impossível impedir que seja distribuído", disse ela.

terça-feira, 9 de março de 2010

Mais de 80 anos depois de morrer, Kafka ganha primeira biografia tcheca

Fonte: Agência EFE

Mais de oito décadas após sua morte, foi lançada em Praga a primeira biografia do escritor tcheco Franz Kafka escrita em sua terra natal.

No livro "A luta por escrever: sobre o compromisso vital de Franz Kafka", o filólogo tcheco Josef Cermak tenta "abordar as relações de Kafka com o 'mundo tcheco', que são mais amplas do que muitos pensam", explica o autor à Agência Efe.

Nascido em 1883 em Praga na época do Império Austro-Húngaro e falecido em 1924 perto de Viena, Kafka só escrevia em alemão, o idioma falado por grande parte da comunidade judaica da atual capital da República Tcheca.

Esta formosa edição para colecionadores, com uma tiragem de 2.500 exemplares, tem muito material inédito, como fotos, cartões postais escritos em suas viagens ao exterior e manuscritos relacionados a assuntos familiares.

Tudo isso deveria ter sido publicado nos anos 60. Entretanto, à época, a diretoria da editora Odeon hesitou ao pensar que "se tratava de um pequeno cidadão de Praga sem importância", lembra Cermak, "e então entraram os tanques soviéticos" para combater a Primavera de Praga de 1968.

Então, foi publicada a biografia do estudioso alemão Klaus Wagenbach, com quem Cermak deveria ter colaborado, pois teve acesso ao rico legado mantido pela sobrinha de Kafka, Vera Saudkova.

Atualmente com 88 anos, Vera vive em Praga e é filha da irmã mais nova do escritor, a falecida Ottla. Junto com seus três filhos, são os únicos parentes vivos de Kafka.

Cermak defende a tese de que Kafka entendia muito bem o idioma tcheco, pois "foi capaz de apreciar a qualidade literária de um autor como Vladislav Vancura, que tem uma linguagem muito peculiar, muito bela, mas deformada".

A produção de Kafka ficou proibida na época da Tchecoslováquia socialista porque era considerado um autor "reacionário", diz Cermak. Por isso, os estudiosos de sua obra foram perseguidos pelo regime.

O próprio Cermak se viu obrigado a publicar sua primeira pesquisa na vizinha Alemanha sob um pseudônimo. Só após a queda do comunismo na então Tchecoslováquia, em 1989, foram traduzidas para o tcheco obras como a célebre "O Processo" (1997).

Mais de vinte anos depois da redemocratização, Kafka é uma das figuras recorrentes da paisagem urbano de Praga, mas "sua obra é mais conhecida fora do que dentro do país", reconhece Marketa Malisova, diretora da Sociedade Franz Kafka, em entrevista à Efe.

Apesar das muitas placas comemorativas, bustos e estátuas em sua homenagem, fora a praça que leva seu nome e de um centro que populariza sua obra, a inércia do passado impediu que Kafka tivesse o mesmo reconhecimento que tem no exterior e que faça parte da bagagem literária de seus compatriotas.

De qualquer forma, a capital tcheca foi a cidade onde Kafka se educou, pela qual passeou e da qual se nutriu, em meio a suas depressões, de seu autêntico horror ao barulho e seu senso de responsabilidade, algo que acabou se tornando quase insuportável, lembrou Cermak ao falar sobre Kafka, que trabalhava em uma seguradora de acidentes industriais.

Praga foi também o lugar que inspirou suas obras, onde sua genialidade aflorou e onde teve seus amores, nenhum dos quais acabou em casamento, apesar de ter se comprometido duas vezes com Felice Bauer.

"Não me canso de Kafka", afirma o autor da nova biografia.

O que chegou até os dias de hoje se deve principalmente ao também escritor Max Brod, que administrou o legado de Kafka até morrer, em 1968, em Israel, para onde emigrou em 1939 após a ocupação nazista da Tchecoslováquia.

Por este motivo, Malisova também quis conceder um prêmio em memória do autor da primeira biografia de Kafka, escrita em 1937.

"Foi Brod que se encarregou de publicar sua obra, e não queimá-la, mas propagá-la. Se não tivesse sido por ele, ninguém hoje conheceria Kafka", garante a tcheca, em cujo escritório se conserva a escrivaninha do autor de "A Metamorfose".

Kafka morreu em um hospital nos arredores de Viena vítima de tuberculose. Seu corpo foi levado para a Praga, onde agora repousa no novo cemitério judeu da capital tcheca.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Morre o autor de "O Apanhador no Campo de Centeio"


Escritor americano J.D. Salinger morre recluso, aos 91 anos

(AFP)

O romancista americano J.D. Salinger, que morreu nesta quarta-feira, aos 91 anos, foi um gigante da literatura americana, e sua obra-prima, "O apanhador no campo de centeio", tornou-se um ícone da angústia e do desespero sentidos por gerações de adolescentes deslocados.

Com o sucesso de Holden Caufield, seu lacônico anti-herói do romance de 1951, Salinger se tornou um dos mais admirados e influentes escritores dos Estados Unidos. No entanto, vivia completamente recluso, parou de publicar suas histórias em 1965 e, desde 1980, não concedia uma entrevista sequer.
Salinger morreu na casa onde vivia, no estado de New Hampshire, informou nesta quinta-feira sua agência literária, a Harold Ober Associates. A causa da morte não foi revelada.
A maior parte de sua vida nas últimas cinco décadas é cercada de mistério. Irritado com a fama, Salinger se retirou da vida pública, isolando-se em uma casa afastada de tudo, construída sobre uma colina cercada de bosques na pequena cidade de Cornish, New Hampshire.

Livros de memórias escritos recentemente por sua filha, Margaret, e por uma ex-amante, Joyce Maynard, afirmam que Salinger ainda escrevia, embora não desse nenhum sinal de pretender publicar uma só linha.
Em uma rara entrevista concedida em 1980 ao jornal Boston Sunday Globe, Salinger disse: "Eu amo escrever, e garanto a você que escrevo regularmente. Mas eu escrevo para mim mesmo, e quero ser deixado absolutamente sozinho para fazê-lo".
Jerome David Salinger nasceu em 1º de janeiro de 1919 em Manhattan, Nova York, filho de pai judeu de origem polonesa e mãe irlandesa, convertida ao judaísmo.
Começou a escrever histórias ainda adolescente. Em 1940, publicou sua primeira história, "The young ones", na revista Story.
Pouco depois, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, e o jovem Salinger foi recrutado em 1942. Ele participou da invasão da Normandia no Dia D, e acredita-se que as experiências vividas na época da guerra o marcaram para sempre.
Depois da guerra, Salinger se casou com uma alemã, mas poucos meses depois o casal se separou.

Em 1948, publicou o conto "A perfect day for bananafish" na New Yorker, no qual apresentou ao mundo a família Glass e suas sete crianças: Seymour, Buddy, Boo Boo, Walt, Waker, Zooey e Franny, que apareceriam depois em várias histórias.
No entanto, foi com "O apanhador no campo de centeio", seu primeiro romance, publicado três anos depois, que J.D. Salinger selou sua reputação. O livro alcançou sucesso imediato, e até hoje é leitura obrigatória em muitas escolas - vende cerca de 250.000 cópias por ano.
As aventuras e desventuras de Holden Caufield, que aos 16 anos foge do colégio do qual havia sido expulso e passa alguns dias sozinho em Nova York antes de voltar para casa, fascinaram inúmeras gerações de jovens.
Na época, o livro foi criticado pelo uso liberal de palavrões e pelas referências abertas à sexualidade. Em alguns países, chegou a ser proibido.
Salinger sempre foi uma pessoa reservada, e a fama tornou-se-lhe verdadeiramente opressiva. Em 1953, deixou a agitada Nova York para se instalar em Cornish, na esperança de ser poupado dos holofotes.

Outras coletâneas de contos e romances bem-sucedidos se seguiram ao "Apanhador no campo de centeio", como "Franny e Zooey", até 1965, quando "Hapworth 16: 1924" foi puvlicado na revista New Yorker.

"Há uma paz maravilhosa quando não se publica. É pacífico", afirmou Salinger em 1974, quando quebrou mais de 20 anos de silência em uma entrevista dada por telefone ao jornal The New York Times.

"Publicar é uma terrível invasão da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas eu escrevo apenas para mim e para meu próprio prazer", decretou.
Em 1955, casou-se novamente, desta vez com Claire Douglas, na época uma jovem estudante, com quem teve dois filhos, Margaret e Matt. Em seu livro de memórias "The dream catcher", a filha descreve o pai como um homem autoritário que mantinha sua mãe "praticamente como uma prisioneira".

O casal se divorciou em 1967, e em 1972 Salinger inciou seu longo relacionamento com Joyce Maynard, então com 18 anos, que conheceu trocando cartas.
Em 1999, algumas das cartas escritas pelo romancista a Maynard foram leiloadas por mais de 150.000 dólares.

Salinger permaneceu na casa de Cornish até o último dia de sua vida. Desde os anos 80, era casado com Collen O'Neill. Ele defendia sua privacidade com unhas e dentes, mesmo quando aparecia nos tribunais para processar a eventual publicação de alguma de suas cartas.

Ele recusou todas as ofertas feitas para adaptar "O apanhador no campo de centeio" para o cinema, ou mesmo para escrever uma continuação para a história.

"Não há mais nada sobre Holden Caulfield. Leia o livro novamente. Está tudo lá. Holden Caulfield é apenas um momento congelado no tempo", disse Salinger certa vez ao Boston Globe.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Editora Peirópolis lança versão em quadrinhos de “O Corvo”, um dos poemas mais conhecidos do poeta norte-americano Edgar Allan Poe



O célebre poema O Corvo (The Raven), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), ganha nova versão em HQ neste ano de 2009, em que se completam 200 anos de nascimento de seu autor. Nesta versão da coleção “Clássicos em quadrinhos”, da Editora Peirópolis, O Corvo renasce das mãos do quadrinista Luciano Irrthum, que expressa sua reverência pela obra imprimindo-lhe o lirismo, a força e a visceralidade de seu traço.

O interesse de Irrthum por Poe começou quando o quadrinista ganhou do avô um livro antigo do mestre do terror e do mistério. Ao abrir aquele exemplar ensebado encontrou, no meio das páginas amareladas, um recorte de jornal que narrava um fato curioso sobre o túmulo do escritor: todos os anos, uma garrafa de conhaque e três rosas são deixadas sobre sua lápide no dia de sua morte.

A notícia intrigou para sempre o jovem Irrthum. Depois de ler todos os contos de Poe, que inspirou a alma e a obra dos poetas mais elevados de todos os tempos, ele decidiu adaptar para os quadrinhos o poema mais conhecido do clássico escritor americano, O Corvo (The Raven).

Esta é a terceira versão do artista para essa adaptação. A primeira, Irrthum publicou em formato de fanzine. A segunda foi um exercício criativo, em que Irrthum transferiu o cenário do poema para uma favela carioca. Esta edição da Peirópolis, a primeira em que Irrthum pôde trabalhar com o poema na íntegra, esconde aqui e ali referências aos contos de Poe lidos pelo quadrinista, e é considerada por ele a versão definitiva.

A opção pela tradução para o português de Machado de Assis busca promover o encontro de Machado com um de seus escritores favoritos no ano do bicentenário de Poe, em que se comemora também o centenário de morte do brasileiro.

Edgar Allan Poe (1809-1849) é reconhecido mundialmente como um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica. Nasceu em Boston de pai e mãe atores, mas foi criado pela abastada família Allan depois do falecimento da mãe. Poe escreveu poemas, contos e novelas e influenciou autores como Baudelaire, Maupassant e Dostoiévski. Considerada uma obra prima, o poema O Corvo deu a Poe a fama que ele cultivava escrevendo e publicando prosa, e atravessou dois séculos inspirando a admiração de grandes nomes da literatura.

Luciano Irrthum nasceu em 3 de junho de 1972 em João Monlevade (MG), e vive em Belo Horizonte. Formado em design gráfico pela Fuma, é ilustrador, quadrinista e artista plástico. Publica seus quadrinhos e desenhos em revistas independentes, como Graffiti 76% Quadrinhos, Legenda e Front. Participou de várias exposições coletivas no Brasil e no exterior. É autor de A comadre do Zé, da Graffiti.

Editora Peirópolis: Criada em 1994, a Editora Peirópolis tem como missão contribuir para a construção de um mundo mais solidário, justo e harmônico, publicando literatura que ofereça novas perspectivas para a compreensão do ser humano e do seu papel no planeta. Suas linhas editoriais oferecem formas renovadas de trabalhar temas como ética, cidadania, pluralidade cultural, desenvolvimento social, ecologia e meio ambiente – por meio de uma visão transdisciplinar e integrada. Além disso, é pioneira em coleções dedicadas à literatura indígena, à mitologia africana e ao folclore brasileiro. A editora está afinada com os propósitos do terceiro setor, participando ativamente do crescente movimento de sua profissionalização. [ www.editorapeiropolis.com.br]

Lançamento do livro O Corvo em quadrinhos, de Luciano Irrthum, dia 05/12/09, das 11h às 13h30, no Café com Letras – www.cafecomletras.com.br | Rua Antônio de Albuquerque, 781 – Savassi – Belo Horizonte, Telefone: (31) 3225-9973.

O Corvo em quadrinhos, autor Edgar Allan Poe, com adaptação: Luciano Irrthum, 48 páginas | ISBN: 978-85–7596-168–1 | Capa: Brochura | Formato: 20,5 X 27 | Preço: R$ 35,00.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Novo romance de Saramago será sobre indústria do armamento


Escritor portugês questiona por que não há greves no setor e afirma que o fascismo ainda não acabou

Efe

O escritor português José Saramago revelou nesta segunda-feira, 2, que seu próximo romance, que já começou a escrever, não será sobre o Corão, mas sobre algo tão importante como todos os livros sagrados do mundo: a ausência de greves na indústria do armamento.


"Por que não há greves na indústria do armamento?", questionou Saramago ao apresentar seu romance, "Caim", na Casa da América de Madri e revelar o segredo que costuma guardar até o final sobre o livro que tem em andamento em cada ocasião.



A greve à qual se refere o Nobel de Literatura não é movida pelos trabalhadores em busca de melhores salários, mas a qual os trabalhadores (na maioria engenheiros) parem de construir armas pelo simples fato de as mesmas servirem para matar as pessoas. "Esse é o tema: as armas, quem as faz, quem as trafica. Estão por todas as partes. A televisão mostra continuamente cenas de violência com as quais fica claro que a vida não tem nenhuma importância", explicou o escritor.



O assunto surgiu a partir da pergunta de um jornalista colombiano que questionou: por que em seu país, de tradição esquerdista, a luta armada levou a ascensão da extrema-direita? Sem referir-se concretamente à Colômbia, Saramago admitiu a dificuldade de saber hoje em dia onde está a esquerda, a extrema-direita e o fascismo, que não acabou. "Tudo se mistura e é corruptível. Se à extrema-direita gosta de aproveitar-se da luta armada, está na natureza das coisas".



O escritor demonstrou preocupação "com o desvio de rota dos movimentos de esquerda e acredita que a palavra mais importante deveria estar na ponta da língua de todos, um simples não, algo tão pequeno e que tanto compromete". Falar em extrema-direita lembra o fascismo, embora Saramago tenha repugnância pelo termo. "Mas está aí, esperando na porta, e Itália é um caso claríssimo".



Saramago impregnou seu romance "Caim" de ironia e bom humor, e salpicou suas intervenções, quando perguntou o que fez Deus antes de criar o universo: "não consta, e era uma eternidade". Depois "decidiu criar o Universo, o fez em seis dias e, ao sétimo, descansou. E segue descansando até agora", brincou o escritor.

sábado, 24 de outubro de 2009

Conto de Machado de Assis vai virar especial na Record


Formato voltará ao ar com "Uns Braços", que deve ir ao ar como especial de fim de ano

*Agência Estado

A Record vai retomar o projeto 200 Anos de Literatura, que adapta para a TV contos de grandes escritores. O formato voltará ao ar com "Uns Braços", conto de Machado de Assis, que deve ir ao ar como especial de fim de ano, em dezembro.

Adaptado pela produtora Contém Conteúdo - que em 2008 fez a versão televisiva de "Os Óculos de Pedro Antão", também de Machado -, a atração será gravada em novembro. Com base em incentivo fiscal, a produção deve ser a primeira de mais quatro obras que a emissora ainda pretende adaptar. “Estamos dando o último tratamento no roteiro e devemos ter umas três semanas de gravações”, conta Adolfo Rosenthal, roteirista e diretor do projeto.

Romance que envolve a paixão de um adolescente por uma mulher mais velha e casada, "Uns Braços" não trará estrelas da TV no elenco. A atriz de teatro Ana Peta viverá dona Severina, grande amor do jovem Inácio. A trama ainda terá um narrador oculto. “Acho um erro personificar o narrador, como foi feito em "Capitu", da Globo. O cara que deveria contar a história se transforma em um foco independente da trama. Confunde o espectador.”

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Autores chineses acusam Google de violar direitos autorais

REUTERS

Um grupo que representa escritores da China acusa o Google de violar direitos autorais com a sua biblioteca digital, algo que o serviço de buscas nega, afirmando respeitar os tratados internacionais.

Muitos escritores e editoras já moveram ações contra o Google por digitalizar suas obras e supostamente violar direitos autorais. O Google já digitalizou 10 milhões de livros.

Num caso que tem ampla repercussão na imprensa local, a Sociedade dos Direitos Autorais de Obras Escritas da China acredita que o Google tenha scaneado milhares de livros, de mais de 500 autores chineses, para incluí-los na sua biblioteca digital, sem que obter permissão ou oferecer compensação, segundo Chen Qirong, porta-voz da entidade.

"Seja você uma pequena companhia ou uma grande companhia, é preciso respeitar os direitos dos autores", disse Chen.

O Google alega que recebeu autorização de mais de 50 editoras chinesas para digitalizar mais de 30 mil livros, que podem ser parcialmente acessados pela Internet. "Acreditamos que a busca de livros cumpra a lei internacional de copyright", disse Courtyney Hohne, assessora de imprensa do Google.

A biblioteca digital do Google é elogiada por alguns por facilitar o acesso aos livros, mas recebe críticas por questões de formação de cartéis, direitos autorais e privacidade.

O Google tem enfrentado inúmeros problemas na China, um mercado onde ainda está atrás do gigante local de buscas Baidu. Em junho, uma autoridade chinesa acusou o Google de difundir conteúdo obsceno, e na véspera disso vários serviços do Google, inclusive o mecanismo de buscas e o Gmail, ficaram inacessíveis a muitos usuários do país.

A pirataria de produtos intelectuais é disseminada no país, onde a mídia costuma sofrer censura na divulgação de conteúdos eróticos ou políticos, entre outros.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

García Márquez foi vigiado durante 20 anos pelos serviços secretos do México


O escritor colombiano Gabriel García Márquez foi espiado pelos serviços secretos do México e qualificado de "agente de propaganda" de Cuba em 1982, revelou hoje o jornal El Universal.

De acordo com o diário mexicano, o Prémio Nobel da Literatura em 1982 foi vigiado pela Direcção Federal de Segurança do México de 1967 até meados dos anos 1980.


Na documentação da polícia política dada a conhecer pelo actual governo mexicano refere-se o papel de García Márquez como mediador entre movimentos da esquerda latino-americana e o então presidente de França, François Miterrand, que visitaria o país em 1982.

Há ainda referência a uma conversa telefónica entre "Gabo" e o director da agência de notícias de Cuba, Jorge Timossi, na qual o escritor afirma ceder os direitos do livro "Crónica de uma Morte Anunciada" ao governo de Cuba.

Entre as décadas de 1960 e 1980, a polícia política mexicana, equivalente à CIA e ao KGB, levou a cabo várias operações de espionagem em busca de elementos subversivos e defensores das ideologias de esquerda entre as figuras das artes e da cultura.

Apesar destas revelações, o governo mexicano mantém em segredo as informações referentes ao escritor desde 1985 até à actualidade.

Gabriel García Márquez, actualmente com 82 anos, vive no México desde os anos 1960.

Em 1981, um ano antes de ser galardoado pela Academia Sueca, o escritor pediu oficialmente asilo ao México depois de ter sido acusado pelo governo colombiano de colaborar com a guerrilha do seu país.


Agência lusa

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Brasil ganha edição comemorativa de "Cem Anos de Solidão"



EFE

Romance teve seu texto revisado pelo próprio García Marquez

A versão em português da edição comemorativa dos 40 anos de "Cem Anos de Solidão", do escritor colombiano Gabriel García Márquez, começa a ser vendida nesta semana nas livrarias brasileiras, mais de dois anos depois de seu lançamento em espanhol.

O romance teve seu texto revisado pelo próprio García Marquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1982, e foi editada no Brasil pela editora Record.

A obra foi traduzida para o português pelo escritor brasileiro Eric Nepomuceno, tradutor das obras dos principais autores ibero-americanos e amigo de García Márquez.

"Como a obra foi revisada pelo autor, fizemos uma tradução completamente nova", disse Nepomuceno à agência de notícias Efe.

Segundo um comunicado divulgado hoje pela Record, a versão brasileira da edição comemorativa de 40 anos de "Cem anos de solidão" tem prensagem inicial de 15 mil exemplares e inclui um prólogo escrito por Nepomuceno, o discurso que García Márquez fez quando recebeu o Nobel de Literatura e a árvore genealógica da família Buendía.

Na nota, a Record diz que Nepomuceno faz em seu prólogo "um passeio pela carreira literária de García Márquez desde seu começo" e relata a história da amizade entre os dois.

Foram retirados da edição em português os comentários escritos para o livro comemorativo em espanhol pelos escritores Álvaro Mutis (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México) e Víctor García de la Concha (Espanha), além do escritor franco-espanhol Claudio Guillén.

A nova edição em português de "Cem Anos de Solidão" terá 448 páginas e será vendida por R$ 49,90.

A edição em espanhol foi considerada um sucesso de vendas e vendeu 25 mil exemplares na Espanha em apenas um dia.

Escritora Kathrin Schmidt ganha Prêmio Alemão do Livro de 2009

Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Schmidt e a obra premiadaEntre os escritores que concorriam ao prêmio estava a Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller. Escolha do livro "Du stirbst nicht", de Kathrin Schmidt, é considerada uma surpresa.

Por seu romance Du stirbst nicht (Você não morre), a escritora Kathrin Schmidt recebeu o Prêmio Alemão do Livro de 2009. O romance da escritora berlinense de 51 anos foi considerado o melhor lançamento literário do ano. O prêmio foi entregue nesta segunda-feira (12/10) em Frankfurt.

A escolha de Schmidt foi uma surpresa, já que, entre os cinco outros romances que concorriam ao prêmio concedido pela Associação Alemã do Comércio Livreiro estava Atemschaukel, da Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, antes considerado o favorito.

Retorno à vida

Em seu romance de cunho autobiográfico, Schmidt conta a história de uma mulher que acorda de um coma num hospital após ter sofrido um derrame cerebral. Além de perder a fala, ela não consegue movimentar o corpo, que não mais lhe obedece. O lento e duro retorno à vida é o tema da obra.

Sobre o livro, a jornalista literária Iris Radisch, uma das juradas do prêmio, afirmou que nele "vivencia-se um nascimento. Lê-se como um ser humano se forma, como uma identidade se forma."

Nesse processo, o reaprendizado da língua é fundamental para a heroína, que é escritora de profissão. De forma emocionante e lacônica, Schmidt conta, com humor negro, como é reconquistar o mundo palavra por palavra, frase por frase.


Uma escritora da história

"Seu ponto forte", disse a autora sobre a protagonista, "é que ela não é depressiva. E isso se parece muito com minha própria história". Na cerimônia de premiação, Schmidt afirmou que seu ocasional humor negro e mordaz também a salvou durante a doença. Ela somente escreveu uma história ficcional, todavia, após ter processado o acontecido, acresceu.

Assim, o romance é tudo menos literatura de autoconhecimento. Isso também não combinaria com a autora, cuja obra compreende justamente o relato da história através da biografia de seus personagens. No caso de Du stirbst nicht, trata-se dos anos entre a reunificação alemã e o início do século 21.

As vivências da autora como psicóloga social foram certamente de grande ajuda. Já em seu fulminante romance de estreia Die Gunnar-Lennefsen-Expedition, de 1998, Schmidt desenvolveu toda uma crônica do século – logicamente a partir da perspectiva das mulheres de uma família.

Também em seus dois romances posteriores Koenigs Kinder (2002) e Seebachs Schwarze Katzen, o tema principal gira em torno de estudos psicológicos de pessoas e meios sociais.

A crítica literária Frauke Meyer-Gosau acertou em denominá-la "historiógrafa psicosocial". E isso se aplica principalmente à elaboração do passado na antiga República Federal da Alemanha (RDA), o que sempre reaparece em seus textos.

Escritora de "tempo integral"

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Schmidt nasceu na antiga Alemanha OrientalKathrin Schmidt nasceu em Gotha, na antiga Alemanha Oriental, em 1958. Após haver estudado Psicologia Social, trabalhou como psicóloga infantil. Entre 1983 e 1990, foi colaboradora assistente no Instituto de Pesquisa Social Comparada em Berlim Oriental.

Nos tempos de mudança política e da reunificação, ela deixou o emprego para engajar-se politicamente, entre outros, na chamada "Mesa Redonda" em Berlim Oriental, conferência que tinha por objetivo colaborar com a democratização.

Desde 1994, Schmidt é escritora de "tempo integral". Além de romances, ela escreveu contos e principalmente poesias. Lançado no início do ano, Du Stirbst nicht é seu quarto romance.

Com o fôlego de uma corredora

Um livro que se parece com ela, como afirmou a escritora na cerimônia de entrega do Prêmio Alemão do Livro. Schmidt disse ser ruim em corrida de curta de distância, mas muita boa em provas de fôlego, o que aconteceu de certa forma com este livro.

"No lançamento, no início do ano, o livro não decolou, mas então ele começou a ser lido por cada vez mais pessoas. E, assim, eu quero agradecer ao livro, pois ele aprendeu um pouco comigo."

Trata-se de uma avaliação pertinente também à sua obra. Com muito fôlego, um estilo especial de escrever e um enfoque dos efeitos da história sobre a vida das pessoas, Schmidt conseguiu chegar ao primeiro escalão dos autores alemães contemporâneos.

Fonte: dw-world.de

Autora: Gabriela Schaaf / Carlos Albuquerque

Revisão: Alexandre Schossler

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Editora gaúcha publica conto de vencedora do Nobel; leia trecho


Um conto da escritora alemã Herta Müller foi publicado em português pela editora gaúcha L&PM na coletânea "Escombros e Caprichos: o melhor do conto alemão no século 20", de 2004.

"A canção de marchar" é o nome do conto. O livro foi organizado por Rolf G. Renner e Marcelo Backes e também traz um texto da austríaca Jelinek, agraciada com o Nobel de Literatura em 2004.

O único livro de Herta Müller publicado no Brasil é "O Compromisso" (leia trecho), traduzido pela escritora Lya Luft.


"O Compromisso" retrata a vida de jovem na Romênia comunista
Em Portugal, são duas obras da autora traduzidas em português: "O Homem É um Grande Faisão sobre a Terra" e "A Terra das Ameixas Verdes".

Leia trecho inicial do conto "A canção de marchar":

"Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.

Um dia os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços, ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo."

Gonçalo M. Tavares elogia escolha de Nobel para Herta Mueller


O escritor Gonçalo M. Tavares elogiou hoje a Academia Sueca por ter atribuído à autora romeno-alemã Herta Mueller o Prémio Nobel da Literatura 2009, porque a sua escrita «não é nada doce», comparando-a a Elfriede Jelinek e Rosa Liksom

«É uma escritora muito, muito forte. Acho que tem um estilo muito radical, com frases curtas, muito forte. O que eu acho que é importante dizer é que ela pertence a um grupo de escritoras de uma violência de escrita muito grande», disse à Lusa Gonçalo M. Tavares.

Nesse grupo, o autor de Jerusalém colocaria, além de Herta Mueller, também Elfriede Jelinek, que também foi Prémio Nobel, e uma escritora finlandesa que é pouco conhecida, Rosa Liksom.

«A Herta Mueller pertence um bocado a esta família de escritoras cuja escrita não é nada doce. E eu acho que é muito significativo o facto de o Prémio Nobel premiar escritoras com este grau de risco na escrita», sublinhou.

Gonçalo M. Tavares escreveu há cerca de um ano uma coluna no Jornal de Letras sobre Herta Mueller, depois de ler as duas obras da autora publicadas em Portugal: A Terra das Ameixas Verdes (Cotovia) e O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra (Difel).

«O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra é um livro fortíssimo e é, dos dois livros dela que eu li, aquele que mais me marcou, porque é muito fragmentado, tem um tipo de escrita que me agrada, porque tenta dizer rapidamente o que quer dizer», frisou o escritor de 39 anos, que publicou a sua primeira obra em 2001, venceu o Prémio José Saramago e é um dos mais prolíficos autores portugueses, com 25 títulos publicados em oito anos.

A escritora romeno-alemã Herta Mueller, de 56 anos, foi quinta-feira distinguida pela Academia Sueca com o Prémio Nobel da Literatura 2009, por uma obra que, «com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, pinta as paisagens dos desfavorecidos».

Lusa / SOL

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Peter Handke lança livro que tem "Dom Quixote" como referência



*Texto da Folha de S.Paulo

O austríaco Peter Handke, 67, escolheu como personagem para seu romance "A Perda da Imagem ou Através da Sierra de Gredos", que é lançado agora no Brasil, uma banqueira que decide fazer uma completa revisão de sua vida.

O livro foi lançado em 2002 na Europa, bem antes do quase colapso econômico que deixou o sistema financeiro em xeque e arrasou a imagem de seus agentes. Pode, portanto, ser considerado uma espécie de curiosa antevisão de um mundo que precisava fazer um balanço de seus valores.

Mas, como se trata do "enfant terrible" da literatura de língua alemã, um escritor de vanguarda que forçou uma revisão nos valores da geração que criou um novo realismo no pós-guerra, a obra de quase 600 páginas é escrita como parábola. Não há referências de cidades, o livro é atemporal.

Trata-se de um dos trabalhos mais ousados de sua carreira. Eterno candidato ao Prêmio Nobel, o escritor, dramaturgo, poeta, roteirista e cineasta Peter Handke comenta em entrevista sua obra, porém não dá pistas sobre o espaço mítico e medieval que retrata nesse livro. Mas se disse um leitor da literatura medieval e, surpreendentemente, dos brasileiros Guimarães Rosa e Euclydes da Cunha.

Handke fala das consequências da polêmica em que se envolveu durante o conflito nos Bálcãs, quando compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, então acusado de crimes de guerra. Mas evita comentar as comemorações pelos 20 anos da queda do Muro de Berlim. "Sou austríaco", disse.

sábado, 3 de outubro de 2009

Finitude da vida inspira novo romance de João Ubaldo



Sem publicar um novo romance desde 2002, escritor, que é colunista do 'Estado', lança 'O Albatroz Azul'

*Texto do Caderno 2, do Estadão

As intempéries pessoais foram diversas (depressão, morte da mãe), mas João Ubaldo Ribeiro provou, como gosta de dizer, que é um homem de cota: na segunda-feira, as livrarias recebem 'O Albatroz Azul' (240 páginas, R$ 39,90), seu último livro a ser editado pela Nova Fronteira, que devia por obrigação contratual antes de acertar a transferência de toda a sua obra para a Alfaguara, no ano passado. "Não é o romance que comecei a escrever, mas foi esse o que acabou surgindo", contou Ubaldo ao Estado, por telefone, desde seu apartamento na Leblon, no Rio.


Nada, de fato, correu como previsto, mas 'O Albatroz Azul' - seu primeiro romance desde 2002 (quando saiu Diário do Farol) e que marca os 50 anos de sua estreia literária - reflete com extrema singeleza o estado de espírito do escritor. O livro acompanha a estranha trajetória do velho Tertuliano Jaburu que, depois de resignado pela profusão de filhas e netas, se convence de que a gravidez temporã de sua caçula Belinha lhe trará, finalmente, um neto varão. Nem mesmo o prognóstico contrário de Altina, parteira de palpites infalíveis, o desanima: um sopro que recebeu no ouvido, sem atinar de onde, lhe fez o peito palpitar - seria homem o rebento que (o avô decidiu por conta própria) ganharia o nome de Raymundo Penaforte, em homenagem a um dos santos glorificados naquele dia 7 de janeiro.



O menino também terá um afortunado destino conforme vislumbraram os olhos previdentes de Tertuliano, o que já é confirmado pela forma inusitada do parto. Como primeiro saíram as pernas, Raymundo nasceu literalmente com a bunda virada para a grande e brilhante lua que iluminava seu nascimento. Uma existência cuja felicidade se concretizaria com a passagem de Tertuliano para outro estágio material. Sim, ele sabe que vai morrer e em breve. Na verdade, uma transcendência, pois, se um holandês que vivera séculos antes na Bahia se transformara em uma pedra que fala com ele, por que o velho sábio não poderia adquirir o formato de um albatroz azul?



Aos 68 anos, o colunista do Estado preocupa-se com a finitude da vida, ainda que não deseje (nem espere) a morte próxima. Mas faz de uma forma lírica, mágica, com sua prosa contraditoriamente barroca e lapidada e sempre evocando, ainda que subliminarmente, sua Itaparica natal, como conta na seguinte entrevista.



O livro foi matutado há muito tempo?



Não exatamente. Eu tinha uma relação quase familiar com a Nova Fronteira - fiquei mais de 30 anos lá e tive amizade com quase todos os donos. Quando fui para a Alfaguara, eu sabia que ainda devia um livro por contrato. Até comecei a escrevê-lo, ele se chamaria Si e seria sobre a essência de um homem. Mas sofri uma série de contratempos - fiquei doente, troquei muito de computador, pois o meu pifava e provocava perda de arquivos - e, quando um romance é muito interrompido, especialmente em seu início, ele desanda. Você perde o contato. Então, o livro que eu escreveria teve várias partidas em falso e, no fim, esse romance me apareceu. Sou como Jorge Amado: esquematizo tudo e nada dá certo. O romance toma um caminho próprio, com personagem destinado para a morte sobrevivendo enquanto outro se casa quando deveria ficar solteiro. Já me acostumei com isso, mas, mesmo assim, sigo sempre uma ordem, escolhendo primeiro um título, depois a dedicatória, a epígrafe e por fim a história. Mas, se você me perguntar o porquê do título O Albatroz Azul, eu não tenho a menor ideia.



Você imaginava, ao menos, que ele teria esse tamanho?



Não, pensei que fosse um pouco menor que Viva o Povo Brasileiro, mas, ainda assim grande. Abri o livro com a embocadura de um livrão. Mas, no meio do primeiro capítulo, descobri que não era. Continuei escrevendo um livrão até me resignar - digo isso porque sou um escritor abundante - no meio do segundo capítulo: já sabia que não era.



Você continua criterioso na escolha das palavras - neste livro, elas são inventadas ou você as ouviu em sua ilha de Itaparica?



Dificilmente eu invento - se inventei, deve ter sido mais por ignorância ou porque achei que a palavra existia. Tenho muito pudor com neologismos. Eu estropio algumas palavras e espero que o leitor perceba. Usei algumas expressões usadas em Portugal e também regionais. Só quando tenho algum personagem pernóstico, como Nascimento Clarineta, que só fala difícil, aí utilizo sinônimos rebuscados, preciosos.



O final do livro é muito bonito, especialmente em seu tom fabular (a pedra que fala) e a luta contra a finitude da vida. São esses temas que o inspiraram?



Com certeza, alguma coisa rondava meu juízo. Embora não pareça, sou culturalmente católico. Não gosto de religião organizada, mas gosto de ler a Bíblia e, entre meus textos favoritos, está o Livro de Jó, uma obra-prima. Lá, depois das várias provações sofridas, Jó acaba ouvindo a voz de Deus, a célebre teofania, que o questiona sobre a criação do universo. A pequenez e a limitação humana, portanto, são reafirmadas. É inútil querer conhecer, com nossos cinco sentidos, as intenções de Deus. Talvez eu tenha dito isso por meio da sabedoria de Tertuliano que, na realidade, não sabe nada, só tapeia as coisas. Por mais que tivesse aprendido com outros sábios, ele não sabe de nada.



Esse é seu primeiro livro desde 2002, o que me faz lembrar de uma frase de Jorge Amado que dizia ser mais penoso escrever à medida que envelhecia. Isso também acontece com você?



Sim, é a mesma coisa. Jorge era meu compadre e, entre uma conversa pessoal e outra, ele dizia isso. Não sei se foi ele ou Rubem Fonseca que usou a expressão "desandar" em relação ao livro e a escrever com dificuldade. O mesmo acontece comigo. Pode ser bloqueio de escritor, sem que eu saiba. Também pode ser uma autocobrança maior. Ou ainda um certo pudor para se escrever frase como "A condessa saiu às 5 horas da tarde". Não sei a origem dessa história. Acabei concluindo que quem escreve com facilidade é um orador - e não tenho talento para discursar em público.

Com esse livro, você comemora 50 anos de literatura. O que isso lhe diz?

Que eu estou velho pra burro! (risos) Eu nem me lembrava disso, foi o pessoal da editora que me avisou.



E a passagem para o próximo livro?



Por enquanto, não tenho nada na gaveta. Desconfie se alguém apresentar algum poemazinho inédito ou ensaiozinho inacabado depois da minha morte - tudo que escrevo, publico. E não consigo iniciar nada enquanto o livro atual não é publicado. Nem sei se vou escrever outro. Provavelmente, vou. Tenho vontade (ainda vaga) de desenvolver meu pequeno universo de Itaparica. Aproveitar mais alguns personagens, como o de Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, que publiquei na internet. Utilizar esse e também os de outras histórias da ilha, como os personagens do Já Podeis da Pátria Filhos. Gostaria de completar a história daqueles que aparecem como figurantes nos contos. Mas esse desejo ainda não saiu do castelo do ar. Não sei se vou fazer.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado vai ser digitalizado


Os aproximadamente 250 mil itens que compõem o acervo da Fundação Casa de Jorge Amado (FCJA) vão ser digitalizados. Entre os documentos e objetos estão os originais datilografados de livros, cartas, artigos, fotografias e as mais diversas publicações do escritor baiano.

Todo o material será scaneado e transformado em arquivos digitais disponibilizados num banco de dados, na internet e na sede da instituição, no Centro Histórico de Salvador. O projeto batizado de “Salve Jorge” tem o apoio financeiro do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), que está investindo R$ 181,5 mil na digitalização.

Para o superintendente regional do Banco na Bahia, Nilo Meira, o BNB entende que cultura também é desenvolvimento e, por isso, apoia iniciativas como essa. “A Bahia tem a maior economia da região e a 6ª maior do país, tem uma riqueza cultural enorme, e, nessa área, “o Salve Jorge” se destaca pela importância de Jorge Amado”.

O governador Jaques Wagner ressaltou a importância da iniciativa do BNB, que teve a sensibilidade para apoiar a preservação da memória do escritor. “Jorge é a cara da Bahia, é a cara da nossa cultura, um expoente que levou nosso estado aos quatro cantos do mundo. Sua obra não pode se perder e o BNB dá uma contribuição importante nesse sentido”.

Com a digitalização vai ser reduzido o uso e a manipulação do acervo, preservando as obras e dando sobrevida ao material. Para o presidente da FCJA, Artur Guimarães Sampaio, o acervo também ganha segurança. “Ele passará a ser guardado em dois ou três lugares diferentes, o que previne a perda total no caso de catástrofes ou acidentes, que são a maior causa da perda de acervos no mundo”.

Acervo

Entre os itens que serão digitalizados estão verdadeiras preciosidades como as várias versões do romance Jubiabá, escrito por Jorge Amado, em 1934. “Ele escrevia direto na máquina e costumava reescrever várias vezes o mesmo romance. Esses originais preservam as razuras, correções e observações feitas por ele enquanto criava as histórias”, conta a diretora executiva da FCJA, Miriam Fraga.

Boa parte desse material já está em condições de fragilidade por causa do tempo. “Os pesquisadores queriam ter acesso a esse material. Era difícil, porque, mesmo com toda a tecnologia para não dar acesso direto, ele se estraga. Agora, a memória de Jorge vai poder ser consultada com segurança e de qualquer lugar do mundo”, enfatizou Fraga.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Veja quem são os vencedores do Prêmio Jabuti 2009


A Câmara Brasileira do Livro divulgou hoje a lista com os três primeiros colocados de cada uma das 21 categorias do 51º Prêmio Jabuti. Os vencedores das categorias Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção serão revelados durante a cerimônia de premiação, no dia 4 de novembro, na Sala São Paulo.

Tradução

1º lugar -"A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin", Marise Moassaba Curioni (Iluminuras).
2º lugar -"Satíricon", Cláudio Aquati (Cosac Naify).
3º lugar -"Os Irmãos Karamázov - 2 Volumes", Paulo Bezerra (Editora 34).

Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes

1º lugar - "Coleção Princesa Isabel - Fotografia do Século XIX", Bia e Pedro Corrêa Lago (Capivara Editora)
2º lugar - "Árvores Notáveis - 200 Anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro" (livro e guia de bolsa), Andréa Jakobsson Estúdio Editorial (Andréa Jakobsson Estúdio Editorial)
3º lugar - "Tarsila do Amaral", Lygia Eluf (Imprensa Oficial do Estado)

Teoria/Crítica Literária

1º lugar -"Monteiro Lobato: Livro a Livro", Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Editora Unesp / Imprensa Oficial)
2º lugar -"Pensamento e 'Lirismo Puro' na Poesia de Cecília Meireles", Leila V. B. Gouvêa (Editora Universidade de São Paulo)
3º lugar -"Literatura da Urgência Lima Barreto no Domínio da Loucura", Luciana Hidalgo (Annablume Editora)

Projeto Gráfico

1º lugar -"Fazendas Mineiras", Marcelo Drummond & Marconi Drummond (Cemig)
2º lugar -"A História do Brazil de Frei Vicente de Salvador", Maria Lêda Oliveira (Versal Editores)
3º lugar -"Isay Weinfeld", Roberto Cipolla (Bei Editora)

Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil

1º lugar -"O Matador", Odilon Moraes (Editora Leitura) - BH
2º lugar -"De Passagem", Marcelo Cipis (Schwarcz)
3º lugar - "Alfabeto de Histórias", Gilles Eduar (Editora Ática)

Ciências Exatas, Tecnologia e Informática

1º lugar - "Introdução à Quimica da Atmosfera - Ciência, Vida e Sobrevivência", Ervim Lenzi e Luzia Otilia Bortotti Favero (LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora)
2º lugar - "Fundamentos de Metrologia Científica e Industrial", Armando Albertazzi G. Jr. e André R. de Souza (Editora Manole)
3º lugar - "Mapa do Jogo", Lucia Santaella e Mirna Feitoza (Cengage Learning Edições)

Educação, Psicologia e Psicanálise

1º lugar -"A Voz e o Tempo", Roberto Gambini (Ateliê Editorial)
2º lugar -"Religiosidade e Psicoterapia", Claudia Bruscagin, Adriana Sávio, Fátima Fontes e Denise Mendes Gomes (Editora Roca)
3º lugar - "Educação à distância: o Estado da Arte", Fredric Michael Litto (Pearson Education do Brasil)

Reportagem

1º lugar -"O Livro Amarelo do Terminal", Vanessa Bárbara (Cosac Naify)
2º lugar -"O Sequestro dos Uruguaios - uma Reportagem dos Tempos da Ditadura", Luiz Cláudio Cunha (L&P Editores)
3º lugar -"1968 - o que Fizemos de Nós", Zuenir Ventura (Editora Planeta do Brasil)

Didático e Paradidático

1º lugar - "História e Cultura Africana e Afro-Brasileira", Nei Lopes (Barsa Planeta Internacional)
2º lugar - "Meu primeiro álbum de piano solo", Dulce Auriemo (D.A. Produções Artísticas)
2º lugar - "Coleção cidade educadora - Diário de bordo do aluno 1 - Volume Amarelo", Áureo Gomes Monteiro Júnior, Célia Cris Silva e Júlia Scandiuci Figueiredo (Aymará Edições e Tecnologia)
3º lugar - "Literatura Infantil Brasileira: um Guia para Professores e Promotores de Leitura", Vera Maria Tietzmann Silva (Cânone Editorial)

Economia, Administração e Negócios

1º lugar - "Valores Humanos & Gestão. Novas Perspectivas", Maria Luisa Mendes Teixeira (organizadora) (Editora Senac São Paulo)
2º lugar -"Estratégia e Competitividade Empresarial - Inovação e Criação de Valor", Luiz Carlos Di Serio e Marcos Augusto de Vasconcelos (Saraiva)
3º lugar - "Meio Ambiente e Crescimento Econômico: Tensões Estruturais", Gilberto Dupas (Editora Unesp)

Direito

1º lugar - "Introdução ao Pensamento Jurídico e à Teoria Geral do Direito Privado", Rosa Maria de Andrade Nery (Editora Revista dos Tribunais)
2º lugar -"Execução", José Miguel Garcia Medina (Editora Revista dos Tribunais)
3º lugar -"Código de Processo Civil - Comentado Artigo por Artigo", Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni (Editora Revista dos Tribunais)
3ºlugar - "Atual Panorama da Constituição Federal", Carlos Marcelo Gouveia (Saraiva)

Biografia

1º lugar - "O Sol do Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (Schwarcz)
2º lugar -"José Olympio, o Editor e sua Casa", José Mario Pereira (GMT Editores)
3º lugar -"O Santo Sujo: a Vida de Jayme Ovalle", Humberto Werneck (Cosac Naify)

Capa

1º lugar - "Moby Dick", Luciana Facchini (Cosac Naify)
2º lugar -"Jovem Stálin", João Baptista da Costa Aguiar (Schwarcz)
3º lugar -"Introdução à filosofia", Rex Design (Editora WMF Martins Fontes)

Poesia

1º lugar -"Dois em um", Alice Ruiz S. (Editora Iluminuras)
2º lugar -"Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa", Instituto Moreira Salles (Instituto Moreira Salles)
3º lugar -"Cinemateca", Eucanaã Ferraz (Schwarcz)
3ºlugar - "Outros barulhos", Reynaldo Bessa (edição do autor)

Ciências Humanas

1º lugar - "História do Brasil - Uma Interpretação", Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota (Editora Senac São Paulo)
2º lugar - "Veneno Remédio", José Miguel Wisnik (Schwarcz)
3º lugar - "A Aparição do Demônio na Fábrica", José de Souza Martins (Editora 34)

Ciências Naturais e Ciências da Saúde

1º lugar - "Fundamentos de Dermatologia", Marcia Ramos-e-Silva e Maria Cristina Ribeiro de Castro (Editora Atheneu)
2º lugar -"Oftalmogeriatria", Marcela Cypel e Rubens Belfort Jr. (Editora Roca)
3º lugar - "Guia de Propágulos & Plântulas da Amazônia", José Luís Campana Camargo et al (Inpa)

Contos e Crônicas

1º lugar -"Canalha! - crônicas", Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)
2º lugar -"Ostra feliz não faz pérola", Rubem Alves (Editora Planeta do Brasil)
3º lugar -"Os comes e bebes nos velórios das gerais e outras histórias", Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora)

Infantil

1º lugar - "A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim", Braulio Tavares (Editora 34)
2º lugar -"No Risco do Caracol", Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes (Autêntica Editora)
3º lugar - "Era Outra Vez um Gato Xadrez", Leticia Wierzchowski (Editora Record)

Juvenil

1º lugar -"O fazedor de velhos", Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)
2º lugar -"Cidade dos deitados", Heloisa Prieto (Cosac Naify)
3º lugar -"A distância das coisas", Flávio Carneiro (Edições SM)

Romance

1º lugar -"Manual da Paixão Solitária", Moacyr Scliar (Schwarcz)
2º lugar -"Órfãos do Eldorado", Milton Hatoum (Schwarcz)
3º lugar -"Cordilheira", Daniel Galera (Schwarcz)

Tradução de obra literária Francês-Português

1º lugar -"O Conde de Monte Cristo", André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar Editor)
2º lugar - "Topografia Ideal para uma Agressão Caracterizada", Flávia Nascimento (Editora Estação Liberdade)
3º lugar - "A Elegância do Ouriço", Rosa Freire D'aguiar (Schwarcz)

Romance de Moacyr Scliar vence Prêmio Jabuti 2009

Foram anunciados hoje, em São Paulo, os vencedores da 51ª edição do Prêmio Jabuti. A organização do prêmio literário divulgou os três ganhadores (primeiro, segundo e terceiro lugares) em cada uma das 21 categorias do concurso.

O escritor Moacyr Scliar, venceu na categoria romance com o livro "Manual da Paixão Solitária".

Os prêmios serão entregues no dia 4 de novembro, em cerimônia que acontece na Sala São Paulo. Na ocasião, serão anunciados os vencedores nas categorias livro do ano ficção e livro do ano não ficção.

O primeiro lugar em cada categoria recebe R$ 3 mil, e os autores dos melhores livros do ano de ficção e não-ficção ganham a quantia de R$ 30 mil cada um.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Autores finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Romance comentam as indicações


*da Folha Online

Entre surpresa, felicidade e postagens no Twitter, os dez autores de romances que integram a lista dos finalistas do Prêmio Jabuti 2009 demonstraram diversos tipos de reações ao saber da indicação. De maneira análoga, as dez obras que disputam a láurea mais tradicional das letras brasileiras apresentam uma grande multiplicidade de estilos, formatos e temáticas. Quem ganha com isso, mais do que estes notórios escritores, é a literatura brasileira e os seus leitores.

Segundo a CBL (Câmara Brasileira do Livro), os três vencedores em cada categoria serão anunciados no dia 29 de setembro. Já a cerimônia de premiação, quando serão divulgados os Livros do Ano de ficção e não-ficção, está prevista para acontecer em 4 de novembro, na Sala São Paulo (região central da capital paulista).

A pedido da Livraria da Folha, os dez autores finalistas na categoria Romance responderam a quatro perguntas cada, versando sobre suas reações e as características de suas obras. Confira:

*
Lista dos finalistas na categoria Romance

"A Parede no Escuro", de Altair Martins

"Flores Azuis", de Carola Saavedra

"Cordilheira", de Daniel Galera

"Um Livro em Fuga", de Edgard Telles Ribeiro

"O Livro dos Nomes", de Maria Esther Maciel

"Órfãos do Eldorado", de Milton Hatoum

"Manual da Paixão Solitária", de Moacyr Scliar

"Galiléia", de Ronaldo Correia de Brito

"Heranças", de Silviano Santiago

"Satolep", de Vitor Ramil

*
Altair Martins


O escritor o gaúcho Altair Martins discute a falência das instituições
Qual foi a sua reação ao saber que "A Parede no Escuro" estava entre os finalistas do Jabuti?
Altair - Bem, o Jabuti é a mais tradicional premiação do Brasil, e isso me deixa honrado. Já fui finalista com meus dois livros anteriores, de contos, e me senti, por isso, premiado. Estar na lista novamente é, para mim, o recomeço a que eu aspirava: estar sendo lido e referendado como um dos livros que fizeram 2008.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Altair - Creio que tematizo a falência da "firma social" a partir da decadência dos referentes --o pai, o estado, a família, a palavra verdadeira, o professor, o homem. Enfim, o romance aborda o esfarelamento dessas paredes que sustentam nossa sociedade. Diagnosticando uma vida cuja tônica é a superficialidade, busco discutir nosso tempo: como num cataclismo de dominós, vivemos numa época na qual nada mais se sustenta. Há ainda a consideração dos leitores de que a imagem que reproduzo do sistema educacional brasileiro, fruto das minhas experiências como professor de vários níveis, é atualizada e legítima.

A obra foi uma das vencedoras do Prêmio São Paulo de Literatura
Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?

Altair - "A Parede no Escuro" tem seu forte na linguagem. Proponho narradores múltiplos sem divisão entre eles. Reconhecemos quem narra tão somente pela linguagem. Para isso, busquei fazer laboratório léxico para cada personagem, guardando particularidades linguísticas em envelopes. Onira, por exemplo, usa um verbo "pegar" como auxiliar para suas ações ("peguei e fui beber água"), além de plurais econômicos e vocabulário próprio, no qual se resgatam termos arcaicos que ainda sobrevivem na linguagem oral.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Altair - O romance nasceu da ideia de discutir a paternidade como instituição falida no Brasil. Como um país sem pai, órfão de referências, imitamos, falsificamos e desfazemos nossa realidade a todo instante. Como resolver um tema assim em narrativa? Pensei justamente no atropelamento de uma figura paterna, da qual emanassem todos os desmoronamentos morais. A estrutura busca, justamente, lançar escuridão nas paredes que, enquanto realidade, nos sustentam.

*
Carola Saavedra


A obra de Carola Saavedra oferece diversas possibilidades de leitura, trazendo os personagens que vivem situações limite
Qual foi a sua reação ao saber que "Flores Azuis" estava entre as finalistas do Jabuti?
Carola - Fiquei muito contente. Quem publica, normalmente o faz porque espera algum tipo de reconhecimento, e estar entre os finalistas de um prêmio com o prestígio do Jabuti é um desses claros sinais de que o seu trabalho está sendo bem recebido.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Carola - É muito difícil para o autor fazer esse tipo de análise, já que gostar ou não de um livro é algo muito subjetivo. Acredito que o "Flores Azuis" de alguma forma correspondeu ao que os críticos consideram literatura de qualidade, com algo novo a dizer.

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Carola - Gosto que ela tem várias possibilidades de leitura, desde a mais superficial, uma história de amor, até a mais complexa, um pequeno ensaio sobre as relações entre escrita e leitura.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Carola - A ideia surgiu do que para mim é interessante na literatura, ou seja, a possibilidade de criar um enredo que agrade ao leitor mas que ao mesmo tempo não subestime a sua inteligência. E surgiu também da minha necessidade de criar uma história na qual a protagonista vivesse uma situação limite. No meu livro anterior, o "Toda Terça", os personagens eram bastante covardes na sua forma de se relacionar com o mundo, e eu queria trabalhar com o outro extremo, com personagens corajosos, de uma coragem quase suicida.


*
Daniel Galera



O autor Daniel Galera, que postou sobre a indicação no Twitter, espera que sua obra motive diversão e reflexão nos leitores
Qual foi a sua reação ao saber que "Cordilheira" estava entre os finalistas do Jabuti?
Daniel - Mencionar o fato no meu Twitter.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Daniel - Realmente não sei dizer, e como autor não acho que estou em posição de apontar méritos do meu próprio livro. Isso é para a comissão julgadora, críticos e leitores.

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Daniel - Gosto do jogo entre imaginação e realidade e dos detalhes metaficcionais e metaliterários que procurei embutir no romance. Esses trechos foram divertidos de escrever e são resultado de uma reflexão séria sobre o assunto. Espero que possam motivar diversão e reflexão no leitor também.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Daniel - As primeiras ideias que usaria no "Cordilheira" surgiram ainda em 2006, logo depois da publicação do "Mãos de Cavalo". Comecei a bolar uma história protagonizada por uma jovem autora que se envolvia com uma seita de escritores que se interessavam por um personagem de um livro dela. Mais tarde incluí a obsessão da narradora em ter um filho sozinha. Por fim, a viagem a Buenos Aires que fiz pelo projeto "Amores Expressos" (www.amoresexpressos.com.br/) consolidou o conceito do romance.

*
Edgard Telles Ribeiro


O diplomata Edgar Telles Ribeiro se disse surpreso com a indicação
Qual foi a sua reação ao saber que "Um Livro em Fuga" estava entre os finalistas do Jabuti?
Edgard - De surpresa, pois não esperava mesmo. É a terceira vez que entro nessa lista dos dez, sendo que nas duas anteriores tirei um segundo lugar, na categoria Contos, com um livro intitulado "Histórias Mirabolantes de Amores Clandestinos", pela editora Record; e um terceiro lugar, na categoria Romance, para um livro chamado "Olho de Rei", também pela Record (e que logo depois ganhou o Prêmio de Melhor Obra de Ficção 2006 da Academia Brasileira de Letras --vá você entender dessas coisas!). Mas nada esperava para "Um Livro em Fuga" porque, de todos meus nove livros (entre romances e contos), esse foi o que menos críticas recebeu. O silêncio foi quase geral e as vendas têm sido modestas (o que ocorre comigo com certa frequência...). Daí minha surpresa (agradável, diga-se passagem...).

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Edgard - O romance trata de perdas e seguramente os eleitores, ou membros do júri, se terão aberto para um tema com o qual, mal ou bem, cedo ou tarde, todos nós convivemos de um forma ou outra. No caso de meu livro, o personagem, funcionário internacional da ONU há muitos anos, vive em um país asiático imaginário (sou, eu próprio, diplomata de carreira há quarenta anos e vivo, no momento, na Tailândia, de onde te escrevo). Meu personagem, então, para voltar a ele, vive e trabalha nesse país imaginário (uma colagem que fiz a partir da Tailândia, Laos, Camboja, Mianmar, Vietnã, países que fui conhecendo por viver nestas bandas), e é contra esse pano de fundo, tão distinto do nosso, brasileiro (e, nas coisas essenciais, tão parecido ao nosso) que ele, digamos, "lambe suas feridas existenciais". Estas têm a ver, entre outras, com mais um casamento desfeito; com uma mãe idosa indo devagarinho para outras dimensões; com o desencanto frente a um mundo no qual os valores se desfazem em quase todos os planos; com a perda da juventude face à idade que avança; etc. etc..

A obra trata de perdas, mas abre também espaço para a esperança

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Edgard - Ao fim das contas, o espaço que se abre para a esperança. (Essa é, pelo menos, uma de minhas "leituras" do livro.). Porque o tempo todo em que a linha narrativa se desenvolve, o personagem escreve um livro --"um livro em fuga"--, obra que escapa continuamente a seu controle, como se corresse sempre a sua frente... Mas que ele persegue assim mesmo. Em dois momentos da história, o personagem faz uma breve viagem ao Brasil. Nas duas ocasiões, confronta de mais perto cada uma dessas vertentes de suas perdas e desafios (a ex-mulher, que a essa altura já refez sua vida, o que provoca nele um mal-estar inesperado e certa dose de arrependimento; a velha mãe, meio perdida em suas neblinas mentais; um antigo amigo com quem vive um momento marcado pela nostalgia; uma antiga namorada com quem volta e meia recomeçava um caso, e que aqui, fiel a essa tradição, se entrega a ele uma vez mais --para, chegado o momento da despedida, informar que vai se casar em breve (o que representa mais uma porta que se fecha...), etc. etc. O clima predominante é de melancolia, mas a maneira com que a história é contada também abre espaço para o humor, o que confere ao livro sua leveza. Esse equilíbrio acaba gerando (pelo menos foi essa minha intenção) uma brecha para a esperança a que aludi acima.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Edgard - O livro é muito calcado em minha vida (funcionário internacional da ONU é o que mais se aproxima de um diplomata) e no fato de viver em um país distante há mais de três anos, "onde durmo quando meus compatriotas estão acordados e trabalho quando eles dormem" (estou me citando meio de orelhada); lidava, além do mais, na época, com a saúde de minha mãe que, muito fragilizada, vivia momentos de perda de lucidez (desde então ela felizmente se recuperou, mas acompanhei de perto esse processo e chego até a achar que ajudei a retirá-la dessa ''neblina" com... um jogo de dominós, a que se seguiu um baralho, que a fez jogar, muito timidamente, e cheia de hesitações, uma primeira paciência. Daí passamos ao desafio de escrevermos um conto juntos (cada qual contribuindo com uma frase ou duas), etc. etc. Tudo isso aconteceu em minha vida real --e tudo foi parar no livro. Em minha vida particular, embora esteja casado, tive dois divórcios, que terão deixado suas marcas. E, por força de minha profissão, sinto-me cada vez mais exposto a um mundo marcado pela injustiça, por força de todo tipo de pressões (sociais, demográficas, políticas) ou perigos (militares, terroristas), quase sempre frutos, esses últimos, de intransigências (por incompreensões, ou conflitos herdados do passado e mal resolvidos no presente). Contra esse pano de fundo, contudo, o artista, apesar de tudo, insiste: e escreve seu livro. Só que... Se trata de um livro em fuga... Que de tanto fugir acabou se refugiando entre outros nove em Jabutiland. Foi salvo por seus aliados! E agora torce por cada um deles...

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Maria Esther Maciel

Branca Maria de Paula/Divulgação

Maria Esther já se sente premiada por estar entre os dez finalistas
Qual foi a sua reação ao saber que "O Livro dos Nomes" estava entre os finalistas do Jabuti?
Maria Esther - O que senti foi uma mistura de surpresa e alegria. Ter um livro entre os dez finalistas de um prêmio de tanto prestígio como o Jabuti é motivo para qualquer escritor brasileiro já se sentir premiado, independentemente do resultado final. Além disso, estou muito bem acompanhada: é uma lista que inclui autores que muito admiro, o que reforça ainda mais a minha satisfação.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Maria Esther - Eu mesma me faço essa pergunta. Um júri se compõe de diferentes subjetividades, preferências, exigências e expectativas. Cada jurado tem seus próprios critérios, ainda que estes possam coincidir com os de outros. Portanto, não arrisco a levantar com firmeza os possíveis méritos que teriam sido considerados para a escolha do meu livro. Talvez os jurados tenham considerado o caráter híbrido e desmontável do livro, visto que ele ultrapassa os limites convencionais dos gêneros literários para se afirmar, simultaneamente, como um romance, um conjunto de narrativas e uma espécie de enciclopédia ficcional. Podem ter valorizado o fato de que cada leitor, assumindo um papel ativo na construção da obra, pode compor --a partir da combinação dos vários nomes, personagens e histórias-- um romance diferente. Quem sabe teriam levado em conta o trabalho com a linguagem? Mas pode não ter sido nada disso também.


"O Livro dos Nomes" conta histórias entrelaçadas de 26 personagens

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Maria Esther - Gosto da ideia de jogo que a atravessa. Me diverti muito ao escrever "O Livro dos Nomes", mesmo não tendo sido fácil estruturá-lo. Foi um árduo exercício de pesquisa e montagem, mas que me deu muito prazer. Digo que um dos desafios foi aliar experimentalismo e experiência vital, usar algumas estratégias formais e, ao mesmo tempo, não permitir que estas ofuscassem os dramas cotidianos vividos pelos personagens. Estou convicta de que a verdadeira matéria-prima que sustenta este livro é a vida.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?

Maria Esther - Os dicionários e as enciclopédias sempre me interessaram, desde criança. Durante muito tempo cultivei o desejo de compor um livro nesse formato, mas com fins poético-ficcionais. Também sempre tive apreço pelo ato de contar histórias e encaixá-las uma dentro da outra. Foi assim que surgiu a ideia de "O Livro dos Nomes". Primeiro fiz uma longa lista de nomes próprios e depois me pus a pesquisar dicionários onomásticos e obras afins. A escolha dos 26 nomes que integram o livro não seguiu nenhum critério preestabelecido. Foi, sim, bem arbitrária. Eu já tinha também rascunhos mentais de vários personagens, além de uma coleção de histórias vividas, ouvidas e inventadas. Restava-me, então, combinar tudo isso e criar o romance. O que me deu mais trabalho foi costurar as partes, armar a trama genealógica, entrelaçar de forma coerente os detalhes de vida dos personagens. A maneira que encontrei para não me perder foi escrever o livro de forma não-sequencial. Ao invés de seguir a ordem alfabética de A a Z, optei por um viés, digamos, mais relacional. Comecei pelo Antônio, depois parti para Sílvia (mulher dele), os filhos Eugênia, Ulisses e Vanessa, a empregada da casa (Irene) e a avó desta, Quitéria. E assim por diante. Dessa maneira, tive um controle maior do conjunto e me preservei da dispersão.

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Milton Hatoum



O escritor amazonense Milton Hatoum dedicou a obra a sua mãe
Qual foi a sua reação ao saber que "Órfãos do Eldorado" estava entre os finalistas do Jabuti?
Milton - Fiquei contente. Acredito que o meu contentamento tenha contagiado os personagens do livro.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Milton - Essa resposta cabe aos editores e críticos que elegeram o livro. Quando se trata da minha obra, prefiro não mencionar méritos ou qualidades.

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Milton - A novela é um gênero difícil porque, além de ser um texto conciso, exige uma tensão constante no desenvolvimento do enredo. Por isso, foi difícil juntar muitas questões numa narrativa de cem páginas. O que me deixou mais contente foi o fato de minha mãe, que estava muito doente, ter tido tempo para ler um livro dedicado a ela.


Em uma narrativa enxuta, o livro conta o mito da "cidade encantada"


Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Milton - "Órfãos do Eldorado" faz parte da coleção "Mitos", da editora escocesa Canongate. A ideia dessa coleção é escrever um texto ficcional a partir de um mito escolhido pelo autor. Escolhi a "cidade encantada", um mito amazônico e também universal, pois os mitos são narrativas que pertencem a muitas culturas. A fonte principal de "Órfãos do Eldorado" foi uma história contada pelo meu avô materno, que era um grande narrador oral. No começo, alimentei a expectativa de escrever um romance, mas depois de alguns meses de trabalho percebi que o assunto se ajustava a uma narrativa mais enxuta, mais seca e despojada. O que seria uma árvore frondosa, tornou-se uma palmeira nua. Foi um exercício narrativo de concisão e contenção, um desafio que enfrentei com muito trabalho, mas também com muito prazer.

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Moacyr Scliar


Inspirado na história do patriarca bíblico Judá, o autor Moacyr Scliar tentou equilibrar emoção e humor em "Manual da Paixão Solitária"
Qual foi a sua reação ao saber que "Manual da Paixão Solitária" estava entre os finalistas do Jabuti?
Moacyr - Foi de grande satisfação. O Jabuti é hoje um prêmio que venceu a barreira do tempo, que se impôs pela consistência, pela seriedade. Para qualquer escritor brasileiro ele representa um invejável reconhecimento.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Moacyr - Fiz o melhor livro que pude. E o fiz buscando inspiração num texto que é fundamental para a nossa cultura, o Antigo Testamento; baseei-me numa narrativa que nos comove não pelo caráter religioso, mas porque mergulha fundo na condição humana. Escrevi com prazer, escrevi com emoção, escrevi valorizando a forma literária --e acho que todas essas coisas, de alguma maneira, aparecem.

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Moacyr - É a combinação de emoção com humor, uma combinação que busco em tudo que leio e nos textos que escrevo.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Moacyr - A narrativa bíblica que deu origem a meu livro, a história do patriarca Judá, de seus filhos e de Tamar, com quem todos, de uma forma ou outra, tem relação é tão intensa quanto sintética. E, por ser sintética, desafia-nos a criar uma história que preencha os enigmas. Desafio irresistível!


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Ronaldo Correia de Brito


A obra "Galiléia", do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, já venceu o Prêmio São Paulo de Literatura como melhor livro do ano
Qual foi sua reação ao saber que "Galiléia" estava entre os finalistas do Jabuti?
Ronaldo - Fiquei feliz porque o Jabuti é um prêmio literário de muito prestígio e tradição.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Ronaldo - Acredito que "Galiléia" traz propostas novas para o romance brasileiro. O livro revisita paisagens e temas que pareciam esgotados por Euclydes, Guimarães Rosa, Graciliano e Suassuna, para citar apenas esses. Ao fazê-lo, atualiza o imaginário em torno desse lugar real e mítico chamado sertão.

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?

Ronaldo - Gosto dos experimentos com a linguagem, das várias formas de narrativas e do enredo. O livro trata de questões bem atuais, como a busca de um lugar pelos personagens, que percorreram o mundo e não o encontram; retornam às origens e constatam que ali eles também já não podem viver.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Ronaldo - O livro surgiu da observação dos movimentos migratórios e da inadaptação de algumas sociedades ao mundo globalizado. Demorei oito anos escrevendo "Galiléia". Sou lento ao escrever e mais ainda para publicar. Meu primeiro conto, "Lua Cambará", saiu publicado no livro "Faca", da Cosac Naify, trinta e três anos após ter sido escrito. Trabalho com a "memória inventada", como Fellini se referia aos seus filmes. É bem difícil de alcançar esse ponto em que a história se transforma em ficção, através de metáforas, da poesia e da metafísica.

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Silviano Santiago



Silviano Santiago ressalta os contrapontos que compõem o livro
Qual foi a sua reação ao saber que "Heranças" estava entre os finalistas do Jabuti?
Silviano - De alegria, porque é um prêmio que respeito. Tem tradição e grande prestígio nacional. Ao reconhecer um romance escrito na terceira idade é como se estivessem reconhecendo a extensa e multifacetada obra que venho executando a duras penas. O fardo da vida literária fica mais leve.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Silviano - Numa época em que narrador e personagens padecem do raquitismo congênito aos gêneros ficcionais curtos (e me refiro também aos livros mais bem realizados), "Heranças" é um romance que batalha por apresentar ao leitor a dramatização dum espectro abrangente de homens e de mulheres da classe alta que, ao desenharem os próprios destinos, construíam a nação brasileira.


O autor buscou inspiração nos romances franceses do século 19

Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Silviano - Gosto da composição geral do livro, expressa pelo número dois. Dois computadores, por exemplo. Num se escreve o romance, noutro as escrituras do comércio. Duas cidades, Belo Horizonte até a velhice, Rio de Janeiro às vésperas da morte. A irmã e o irmão, dum lado, e o Pico Dois Irmãos, no Leblon, do outro. Retrato do Brasil e viagens pelo estrangeiro. Homens fracos ou confusos em contraponto a mulheres fortes e decididas. E assim por diante. Gosto da composição binária por enredar o leitor e não ser (acredito) pesada.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Silviano - Vem de longe. E não estaria sendo pedante ao dizer que a ideia inicial tinha algo a ver com o romance francês do século 19, que conheço razoavelmente bem, com Machado de Assis e certo Graciliano Ramos e com leituras recentes do "Rei Lear", de Shakespeare. O processo criativo do romance tem tudo a ver com minhas raízes mineiras. No passado, pouco me debrucei sobre meu estado natal, e devia esta aos meus conterrâneos.

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Vitor Ramil


Vitor Ramil destaca a combinação entre textos e imagens da obra
Qual foi a sua reação ao saber que "Satolep" estava entre os finalistas do Jabuti?
Vitor - Eu não estava esperando. Acabava de chegar de Buenos Aires, onde havia gravado um disco, e minha cabeça estava no mundo da música. Então foi uma surpresa. E uma alegria, claro, porque é o Jabuti, um prêmio sério e de imenso prestígio, o mais importante. Para quem, como eu, está em seu segundo livro, é o maior dos estímulos.

Quais você acredita serem os méritos que levaram o seu livro a figurar como finalista do prêmio?
Vitor - É difícil para mim responder a essa pergunta, falar de meu próprio livro. Posso recorrer aos comentários do meu editor. Segundo ele, para quem sou um autor novo, mas de estilo muito marcante, é um livro pouco comum para os tempos atuais: além da forma original, talvez única, em sua combinação de texto e imagens, de texto de fôlego e pequenas histórias, é um livro de muitas "entradas", pois pode ser lido como ficção, história, suspense, memória, poesia, como romance de ideias, como literatura experimental. O que sim posso dizer com segurança é que a edição é primorosa, como costumam ser os livros da Cosac Naify. É aquele tipo de livro que a gente quer guardar e cuidar. Eu me refiro à sua qualidade gráfica e editorial.


A obra retrata a cidade de Pelotas, invertendo seu nome no título


Quais as características que você mais gosta nesta obra especificamente?
Vitor - Ao escrever me deliciei muito com o desafio formal, e também com o trabalho de encontrar uma voz racional, clássica para um personagem que luta para provar sua lucidez enquanto descreve algo que aponta para sua loucura. Gostei de dar forma a uma cidade com a qual sonho desde a infância, e de ter conseguido que o texto, em sua diversidade, correspondesse à diversidade dessa cidade e de seus habitantes. Muitos leitores me afirmam tê-lo lido como quem experiencia algo. Era exatamente o que eu buscava.

Fale um pouco do processo criativo deste livro. Como surgiu a ideia para este romance?
Vitor - Comecei escrevendo pequenas ficções para fotos da cidade de Pelotas tiradas em 1922. O projeto, originalmente, se resumiria a isto: instantâneos literários para instantâneos fotográficos. Já me parecia uma forma bem interessante. Depois, uma das pequenas histórias se estendeu e terminei desenvolvendo um texto longo que seria costurado pelas pequenas histórias, ou que as costuraria. Essa pequena história que se estendeu tinha um narrador que voltava de trem para Satolep. A trama do romance se desenvolveria a partir dele. Achei que essa forma era ainda mais interessante e desafiadora. E gosto do trabalho de desenvolver o texto longo, de diariamente deixar esse nosso mundo por outro. O processo de escritura deve ter levado, com muitas interrupções, uns oito anos. Acho que esse tempo foi fundamental para o resultado do texto. Uma cidade não se faz rapidamente.

Finalistas em Contos e Crônicas falam sobre chances de vencer Jabuti


*da Folha Online

A Câmara Brasileira do Livro anunciará, nesta terça-feira (29), os três vencedores de cada uma das categorias do 51º Prêmio Jabuti. Já a cerimônia de premiação está marcada para acontecer na Sala São Paulo (região central da capital paulista), em 4 de novembro.

Para saber mais sobre as obras finalistas na categoria Contos e Crônicas, a Livraria da Folha pediu para que os autores falassem sobre seus livros e revelassem se realmente esperam conquistar o prêmio. Veja abaixo a lista dos indicados e a opinião dos autores:

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Lista dos finalistas na categoria Contos e Crônicas

"Canalha!" (Fabrício Carpinejar)
"101 Crônicas - Ungáua!" (Ruy Castro)
"Ó" (Nuno Alvares Pessoa de Almeida Ramos)
"Rasif" (Marcelino Freire)
"Ostra Feliz Não Faz Pérola" (Rubem Alves)
"Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e Outras Histórias" (Déa Rodrigues da Cunha Rocha)
"Ping Pong: Chinês por um Mês" (Felipe Machado)
"Crônicas e Outros Escritos de Tarsila do Amaral" (organizado por Laura Taddei Brandini)
"Antologia Pessoal" (Eric Nepomuceno)
"Cheiro de Terra - Contos Fazendeiros" (Lucília Junqueira de Almeida Prado)
"O Silêncio dos Amantes" (Lya Luft)
"Vatapaenses Vasos Comunicantes" (Sergio de Almeida Bruni)
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FABRÍCIO CARPINEJAR

Fabrício Carpinejar apresenta um retrato poético e divertido do homem contemporâneo

Como você sintetiza "Canalha!"?Fabrício - Crônicas de um homem que busca se recolocar no corpo mais do que no mercado. Que aprendeu a ser feminino sem abdicar da virilidade. Que combate preconceitos e seduz à luz do dia. "Canalha" é um jeito de amar; a franqueza é coragem. Posso dizer ao leitor que ponho as gafes fora porque são as melhores histórias. Só homem sério fica envergonhado. O homem que ri tem autocrítica suficiente para tirar proveito dos seus defeitos. O livro é um pouco disso: humor e poesia, confissão e invenção, é olhar um pouco mais demorado para nossa vida que ela logo deixa de ser insignificante.

Ficou surpreso com a indicação?
Fabrício - Sim, não sou de esnobar aniversário, muito menos presentes fora de hora.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Fabrício - Tenho bons colegas ao meu lado, não farei book maker ou jogo do bicho. Depois que deixei minha adolescência, tudo é vitória. Quando perco, escrevo. Quando ganho, escrevo. Escrever já é minha comemoração.

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RUY CASTRO

"Ungáua!", do colunista Ruy Castro, traz 101 crônicas publicadas na Folha de S.Paulo

Como você sintetiza "Ungáua!"?
Ruy - É a minha primeira experiência no texto curto -- aliás, curtíssimo! Cada texto do "Ungáua!" tem, no máximo, 1.770 caracteres de computador, o que não deixa de ser um desafio para quem está acostumado a produzir livros como "Carmen - Uma Biografia", vencedor do Prêmio Jabuti de 2005, e que tinha 2 milhões de caracteres! (risos) E, como se sabe, quanto mais curto, mais difícil de escrever. O desafio está em tentar passar todas as ideias pertinentes ao tema que se escolheu, usando um mínimo de palavras e, mesmo assim, apenas as palavras eficientes, as indispensáveis. Não há espaço para cascata. E tudo isso tentando não perder o humor e um certo charme da escrita. Realmente, é um desafio!

Ficou surpreso com a indicação?
Ruy - Juro que sim. "Ungáua!", por mais que eu me orgulhasse dele, vinha tendo, por vários motivos, uma carreira modesta. Um dos motivos é o de que, por ser composto de artigos publicados originalmente na Folha, foi ignorado pelos outros jornais. Parecia destinado a se tornar um livro "cult" na minha obra, querido apenas pelos poucos que o leram nesse formato. De repente, o livro tirou a sorte grande com a indicação ao Jabuti.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Ruy - Sem dúvida. O difícil é passar pela peneira dos dez. Chegando lá, tenho tantas chances quanto os outros nove indicados. E eu gosto muito de ganhar o Jabuti.

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Nuno Ramos classifica seu livro como "próximo da poesia", com textos entrelaçados
NUNO ALVARES PESSOA DE ALMEIDA RAMOS

Como você sintetiza "Ó"?
Nuno - Diria que o "Ó" é um livro próximo da poesia. O seu veículo são ensaios, falsos ensaios, que vão se entrelaçando, passando livremente de um assunto ao outro.

Ficou surpreso com a indicação?
Nuno - Totalmente surpreso.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Nuno - Sinceramente, não faço ideia.

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MARCELINO FREIRE


Marcelino Freire diz que os seus contos falam de saudade, de identidade e de guerras

Como você sintetiza "Rasif"?
Marcelino - Mais um livro de contos de um pernambucano que só tem fôlego para escrever contos e eta danado! Nesse volume, e desta vez, contos (cirandas) que falam de saudade, de identidade, de guerras particulares e nucleares. No "Rasif", volto enviesado ao Recife. "Rasif" é a origem do nome Recife, em árabe. "Mar que Arrebenta", subtítulo do livro, é a origem tupi-guarani do nome "Pernambuco". Em resumo: "Rasif" é o lugar que inventei, digamos, para habitar meus personagens, a saudade que sinto, as falas que ouço e ave!

Ficou surpreso com a indicação?
Marcelino - Juro a você que, quando escrevo um livro, não fico pensando em prêmios. Se eles vêm, amém e ótimo. Bom que venham "destacar" um trabalho assim, feito sem nenhuma concessão. Agradeço, mas sem maiores expectativas. Nem de surpresa nem de exagerada alegria.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Marcelino - Juro, repito, que prefiro não ficar medindo o tamanho das minhas chances. Estou com uma obra em andamento, em construção. Agradeço a indicação ao Jabuti, divido a honraria com a Editora Record, mas o que tenho de fazer é continuar escrevendo, escrevendo, escrevendo. O resto sai na purpurina, entende? E vamos que vamos.

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RUBEM ALVES


Para Rubem Alves, o que um artista deseja é ver a sua obra reconhecida e amada

Como você sintetiza "Ostra Feliz Não Faz Pérola"?
Rubem - Esse título é uma metáfora. Metáfora é uma palavra ou conjunto de palavras que significa uma outra coisa, parecida. A palavra "ostra" parece sugerir que estou falando sobre moluscos... Mas não estou... Ostra feliz não faz pérola: ela continua simplesmente a ser ostra, boa para ser comida. Mas a ostra infeliz, ostra que tem um grão de areia a lhe fazer sofrer, essa ostra trata de fazer uma pérola em torno do grão de areia, para deixar de sofrer. Da dor nasce da beleza! Isso é uma parábola para a criatividade: as pessoas que sofrem tratam de fazer coisas bonitas --música, quadros, jardins, poemas, livros, para deixar de sofrer... Beethoven, Cecília Meireles, Van Gogh eram ostras que sofriam e, por isso, produziram o belo.

Ficou surpreso com a indicação?
Rubem - Fiquei... Agradavelmente surpreso. Todos somos como Narciso que se apaixonou por sua imagem --ao ponto de morrer. O que um artesão ou artista deseja é ver a sua obra reconhecida e amada. Para mim ser incluído entre os escolhidos já é uma alegria.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Rubem - Eu acho que o livro "Ostra Feliz Não Faz Pérolas" tem algum valor. Já recebi muitas demonstrações de pessoas que leram o livro e gostaram dele. Seria uma alegria ganhar o Prêmio Jabuti. Mas não tenho critérios para dizer "tenho chances grandes" ou "minhas chances não são grandes".

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DÉA RODRIGUES DA CUNHA ROCHA


Em seu livro, Déa Rodrigues fala sobre a comida mineira e de histórias típicas do interior

Como você sintetiza "Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e Outras Histórias"?
Déa - Eu acho que ele é um livro despretensioso. Foi uma captação da história de Minas Gerais, da comida mineira e de histórias bem típicas do interior do Estado. Aí esta o valor do livro, porque é uma coisa muito singela, onde todos os contos são autênticos, fruto de uma pesquisa em busca das receitas mineiras. Eu acabei colecionando histórias engraçadas de velórios, onde algumas dessas receitas eram servidas. Histórias malucas, engraçadas e algumas picantes. Muitas pessoas disseram que meu livro era muito desrespeitoso, imoral, mas não tem nada disso.

Ficou surpresa com a indicação?
Déa - Eu estava vindo de Minas para São Paulo quando me ligaram pra avisar. Eu fiquei um pouco assustada, porque é muita responsabilidade, mas fiquei muito honrada. Foi gratificante e totalmente inesperado, porque meu livro não é uma superliteratura, é um livro singelo, na linguagem do povo.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Déa - De jeito nenhum, já foi uma honra de grande tamanho ter sido indicada. Eu não tenho nenhuma pretensão, porque pra mim isso já foi uma homenagem e um alento, no sentido de que eu posso continuar nessa linha, que não é tão maluca quanto algumas pessoas me fizeram acreditar.

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FELIPE MACHADO


Felipe Machado conta as aventuras de um jornalista brasileiro pela China Olímpica

Como você sintetiza "Ping Pong - Chinês por um Mês"?
Felipe - Ele nasceu de um blog e é uma mistura de diário e guia sobre a China; a parte "diário" trata de agosto de 2008, mês da Olimpíada de Pequim, e traz reflexões sobre o que eu chamo no livro de "Revolução Olimpíca". A parte "guia" traz muitas dicas e serviços de Pequim e Xangai, em uma abordagem divertida que serve para quem quer viajar ou simplesmente conhecer melhor a China. E ainda há uma bela coleção de imagens, feitas pelo fotógrafo Nilton Fukuda.

Ficou surpreso com a indicação?
Felipe - Fiquei bastante surpreso, sim, até porque nem sabia que a editora Artepaubrasil inscreveria o livro na categoria Contos e Crônicas. Achei que seria apenas na categoria Projeto Gráfico, e aí acho que não teria sido tão surpreendente porque acho que o projeto do Daniel Kondo, que traz uma série de referências ao famoso livro vermelho do Mao Tse-Tung, ficou muito legal. Mas saber que "Ping Pong", um livro despretensioso que nasceu de um blog, foi considerado um dos dez melhores lançamentos do ano em uma categoria nobre como Contos e Crônicas foi, sim, uma surpresa maravilhosa.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Felipe - Ah, difícil dizer, não é? Gostaria de ganhar o prêmio, claro, mas já estou bastante feliz por ter sido indicado. Mesmo assim, vou torcer muito e acompanhar as próximas fases da premiação. E aproveito para agradecer à CBL e aos jurados que o escolheram. Xie Xie! (obrigado).

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LAURA TADDEI BRANDINI

Vinicius Brandini/Divulgação

Laura Brandini foi indicada por obra que reúne todas as crônicas publicadas por Tarsila
Como você sintetiza "Crônicas e Outros Escritos de Tarsila do Amaral"?
Laura - Este livro reúne pela primeira vez todas as crônicas publicadas por Tarsila em jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como artigos publicados em outros periódicos, poemas, o único conto da pintora e um manuscrito, misto de narrativa e de estudo para uma tela. O livro apresenta uma grande quantidade de material inédito sobre Tarsila, figura emblemática da cultura brasileira, jogando luzes sobre facetas muito pouco conhecidas da pintora. Com a leitura do conjunto de textos compilado, anotado e estudado no volume, três Tarsilas vêm à tona: a Tarsila saudosa dos áureos anos 20, quando privou da companhia de alguns dos mais importantes artistas e intelectuais radicados em Paris, como Picasso, Fernand Léger, Blaise Cendrars, Jean Cocteau e outros; a Tarsila curiosa e pesquisadora, sempre buscando aprimorar seu conhecimento enciclopédico por meio de leituras; e a Tarsila ativa participante de seu tempo, durante os anos 30, 40 e 50, divulgando eventos culturais, estimulando os novos talentos da literatura e das artes e tomando posição em polêmicas da época.

Ficou surpresa com a indicação?
Laura - Fiquei surpresa por eu ser uma estreante, pelo fato de o livro ser o resultado de meu primeiro trabalho de pesquisa, iniciado durante minha graduação. Fiquei sobretudo bastante contente com a indicação, e não posso deixar de pensar em Tarsila, pois afinal são os textos dela que estão sendo tão bem avaliados, que têm despertado tanto interesse. Gostaria que ela tivesse podido saborear esse reconhecimento todo, presente também em um campo que não o da pintura.

Acha que suas chances de vencer são grandes?

Laura - Para ser sincera, eu nunca acompanhei a dinâmica de prêmios literários e não sei bem qual é o perfil de um ganhador do Prêmio Jabuti. Sei que são todos grandes livros, mas não sei se normalmente se premiam obras de caráter mais literário, ou se o júri pode preferir obras de vocação documental, por exemplo. Todos os demais finalistas da categoria Contos e Crônicas são fortíssimos candidatos, e não sei se "Crônicas e Outros Escritos" pode sagrar-se vencedor. Vou esperar o resultado com serenidade.

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ERIC NEPOMUCENO



Eric Nepomuceno foi indicado pelo livro que mostra sua trajetória de 35 anos de escrita
Como você sintetiza "Antologia Pessoal"?
Eric - É a reunião de contos escritos entre 1973 e 2008. Está lá o primeiro conto que escrevi, e estão dois até agora inéditos. É o que selecionei da minha trajetória de 35 anos de escrita, de contos que estavam espalhados em seis livros publicados no Brasil, na Argentina e no México... Em resumo: para alguém que nunca leu nenhum livro meu, essa antologia traz o que eu gostaria de dizer.

Ficou surpreso com a indicação?
Eric - De certa forma, sim. Nunca espero ser indicado, nunca penso no assunto. Aliás, o Jabuti é um prêmio em que o autor não se inscreve, isso é feito pelo editor. Não estava nem pensando nisso.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Eric - Na verdade, não estou preocupado com isso, não crio expectativas. Se ganhar, ótimo. Se não ganhar, nada muda. Estou é preocupado com terminar meu livro novo, que devo entregar à Record no começo de 2010.

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LYA LUFT


Coletânea de contos feitos por Lya Luft (foto) marca o retorno da autora ao gênero da ficção
Como você sintetiza "O Silêncio dos Amantes"?
Lya - É como toda a minha ficção, meu verdadeiro território, embora eu também escreva ensaio, cronica, poesia e infantil. Meus "Amantes" falam do drama existencial na sua crueza, dor e também magia. Só lendo mesmo...

Ficou surpresa com a indicação?
Lya - Não sou uma autora muito premiada, de modo que nunca pensei ser indicada. Acho que, sim, foi uma surpresa. Eu nao fazia idéia de nada, até ver na imprensa que eu estava entre os indicados... entao fiquei surpresa,sim.

Acha que suas chances de vencer são grandes?
Lya - Não faço idéia, sinceramente. Muita gente boa concorrendo...

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SERGIO DE ALMEIDA BRUNI

Sergio Bruni diz que seu livro busca transparecer toda a magia da Bahia
Como você sintetiza "Vatapaenses Vasos Comunicantes"?
Sergio - Uma síntese da minha obra poderia ser a tentativa de, através de abaianantes crônicas, engravidar nossos sonhos apresentando dez escritos que buscam passar um pouco da magia das gentes, da natureza, do espírito e do ecumenismo religioso que conformam aquele espaço que atende pelo aromático nome de Bahia de Todos os Santos. Começa com a Crucifixação do Pau-Brasil e vai aspergindo gotas de cores, em suas malagueteantes páginas, chegando enluaradamente a Pierre Verger, o bruxo franco-baiano-mundano...

Ficou surpreso com a indicação?
Sergio - Fiquei surpreso, mas com a humildade que Deus me deu, o aspecto mais apetitoso do livro foi sua integral doação para a Pastoral do Menor, da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

Acha que suas chances de vencer são grandes?

Sergio - Quanto às chances de vencer, creio que todos os selecionados têm. Espero que o melhor ganhe. Para mim, só de estar entre os 10 escolhidos, minhas escrevinhações estão em festa!