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sexta-feira, 31 de julho de 2009

"Pai" do Pequeno Príncipe, Exupéry desapareceu há 65 anos

*Claudio R S Pucci - Portal Terra

Reduzir Normal Aumentar Imprimir Não há quem não conheça a história do Pequeno Príncipe, a profunda, metafórica e enigmática obra de Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry, um piloto e escritor francês que desapareceu em um vôo de reconhecimento em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial e virou uma lenda.

Saint-Exupéry nasceu no dia 29 de junho de 1900 em uma família nobre de Lyon, seu pai era visconde. Quando estava se formando em arquitetura na Escola de Belas Artes, acabou alistando-se no exército francês em 1921, primeiramente na cavalaria leve e depois passando por um treinamento para piloto, apesar do descontentamento de seus pais e se sua então noiva, a futura escritora Louise Leveque de Vilmorin.

A partir de 1926, sua paixão por voar o colocou no serviço postal entre Toulouse e Dakar, em uma época onde aviões eram precariamente equipados. Em 1929, passou um tempo na Argentina, onde foi diretor da Companhia Aeropostal daquele país. Foi nesse ano que publicou seu primeiro livro, Correio do Sul. De volta ao norte da África, passou a fazer a rota Casablanca-Dakar.

Em 1931, suas experiências profissionais o inspiram a lançar mais uma obra, Vôo Noturno. Também neste ano, casou-se com a artista plástica e escritora salvadorenha Consuelo Suncin. O matrimônio, muito tumultuado, o levava a ficar mais tempo no ar do que em casa, por conta disso, tinha uma série de amantes por onde passava.

Em 1935, Exupéry e seu navegador sofreram um acidente no setor líbio do deserto do Saara quando tentavam bater o recorde de tempo entre Paris e Saigon. Apesar de saírem relativamente ilesos da queda, os dois passaram quatro dias vagando pelo inóspito local até serem encontrados por um beduíno. A desidratação era tão evidente que os dois nem mais suavam. Segundo o escritor, os dois experimentaram alucinações visuais e auditivas e a experiência que o inspiraria a escrever O Pequeno Príncipe, onde a história é justamente contada por um piloto que cai no deserto.

Com a segunda guerra mundial, ele voltou a se alistar e primeiramente fez parte da Força Aérea Francesa. Com a capitulação de seu país à Alemanha nazista, Antoine migrou para os Estados Unidos onde viveu em Nova York e em Long Island, mudando-se posteriormente para Quebec, no Canadá. Foi em 1942 que escreveu sua obra mais famosa, sobre o principezinho no planeta do tamanho de uma casa e com três vulcões (dois ativos e um inativo) e a bela flor.



As muitas mortes de Exupéry


Em 1944, de volta à Europa para lutar ao lado das Forças Livres da França, ele decolou de sua base na Córsega em uma missão de reconhecimento e nunca mais foi visto. Uma mulher reportou ter visto um avião caindo em 1º de agosto na costa de Carqueiranne, em Toulon, na França. Um corpo de uma soldado francês foi encontrado alguns dias depois, mas não foi possível identificar quem era e o corpo acabou sendo enterrado em Carqueiranne.

Em 1998, um pescador encontrou um bracelete de prata com os nomes de Saint-Exupéry e de sua mulher, Consuelo. Dois anos depois, o mergulhador Luc Vanrell encontrou um avião P-38 Lightning, o mesmo do voo fatídico do escritor na costa de Marselha. Em 2003, partes do aeroplano foram resgatadas. Investigadores do Departamento de Arqueologia Submarina da França confirmaram se tratar do avião de Exupéry, mas não encontraram marcas de balas na fuselagem.

Finalmente em março de 2008, o ex-piloto alemão da Luftwaffe, Horst Rippert, declarou ao jornal La Provence que fora ele quem derrubou o aeroplano de Exupéry. Segundo ex-piloto, ele derrubou um avião francês no dia 31 de julho de 1944, quando mais tarde soube que havia matado um de seus escritores favoritos, preferiu guardar segredo. O grande problema é que a versão de Rippert foi negada até pelo governo alemão, já que nos arquivos de sua força aérea não há qualquer menção sobre o fato. O mistério continua e, provavelmente, o mundo nunca saberá a verdade, apesar de ser sabido que Exupéry era o recordista de acidentes de sua companhia.

Após a morte de Exupéry, mais sete livros de sua autoria foram lançados. Sua importância na literatura francesa é imensa e sua história já foi contada em filmes como A Vida de Saint-Exupéry, de 1996, com Bruno Ganz como o escritor, e Wings of Courage, de Jean-Jacques Annaud. Seu último voo inspirou o livro The Last Flight of the Little Prince, de Jean-Pierre de Villers, e até mesmo um dos grandes mestres do quadrinho, o sensacional Hugo Pratt, chegou a imaginar essa aventura derradeira em Saint-Exupéry : Le Dernier Vol.

Eterno no imaginário das pessoas, Saint-Exupéry deixou valiosas lições de moral e ética e chegou a afirmar: "Se a vida não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa ultrapassasse em valor a vida humana... Mas o quê?". Acreditamos que no caso dele foi o amor por voar.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A Morta (Guy de Maupassant)


Eu a amara perdidamente! Porque amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e no boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.

Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, evolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta de maneira que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.

E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.

Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.

O que aconteceu? Não sei mais.

Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspuiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"

Não soube de mais nada, nada. Vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.

Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! Meu Deus!

Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.



Ontem, regressei a Paris.

Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, dequelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.

E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.

Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho - toquei-o - estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes são os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."

Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.

Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.

E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!

Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.

Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvores verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.

E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.

Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.

Vaguei durante muito, muito tempo, não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava, como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Não a encontrava!

Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!

Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.

E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente ela se movia, como se a estivessem levantando com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."

O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escrever com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:

"Aqui jaz jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."

Quando acabou de escrever o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.

E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonetos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.

Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.

Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.

Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.

E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera: "Ela amou, foi amada, e morreu", divisei:

"Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu."



Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.