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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

RESUMOS UFSC 2016: Análise de "Os Cavalos Brancos de Napoleão", conto de Caio Fernando Abreu

OS CAVALOS BRANCOS DE NAPOLEÃO 
Napoleão é um advogado bem sucedido, típico cidadão burguês que ostenta um padrão de vida de de classe média alta à custa de uma rotina estressante. O sucesso econômico e profissional contrasta com a frustração na vida íntima. Repare na forma irônica como o narrador transforma metaforicamente a casa de Napoleão em um tribunal onde o protagonista é sempre o réu:

“Em sua própria casa, à hora das refeições, todos dias sempre se desenrolavam movimentadíssimos julgamentos. Dos quais ele era o réu. Acusado de não dar um anel de brilhantes para a esposa nem um fusca para o filho nem uma saia maryquantiana para a filha. Eventuais visitas faziam corpo de jurados, onde às vezes colaboravam criados mais. Íntimos, sempre concordando com a esposa, promotora tenaz e capciosa.”
O conflito se instaura quando Napoleão, durante as férias na praia (momento de liberdade em que deixa de cumprir o papel de advogado bem sucedido), passa a ter visões de cavalos brancos galopando pelos ares (o que também remete simbolicamente à liberdade desejada).
Chama a atenção que a esposa é incapaz de compreendê-lo e sequer de comunicar-se com ele:
“Tão natural achou que cutucou a esposa deitada ao lado, apontando, olha só, Marta, cavalos brancos nas nuvens. Não havia espanto nem temor nas suas palavras. Apenas a reação espontânea de quem vê o belo: mostrar. Marta disse não enche, Napoleão, coisa chata cutucar com este calor.“
Napoleão passa a constituir um mundo particular em torno de seus cavalos imaginários. No retorno das férias, de volta à rotina, o protagonista teme não ver mais os cavalos, mas após dois dias sem as visões...
“Mas eles voltaram. Entraram pela janela aberta do tribunal num dia em que ele estava especialmente inflamado na defesa de um matricida. A princípio ainda tentou prosseguir, fingiu não os ver, traição, opção terrível, entre o amor e a justiça, como na telenovela a que sua mulher assistia. Eles não estavam doces. Depois de entrarem pela janela, instalaram-se ríspidos entre os jurados. De onde observavam, secos, inquisidores. Sem sentir, Napoleão começou a falar cada vez mais baixo, mais lento, até a voz esfarelar-se num murmúrio de desculpas, em choque como murmúrio de revolta crescendo dos parentes do réu. Napoleão olhou ansioso para os cavalos, que não fizeram nenhum gesto de aprovação ou ternura. Rígidos, álgidos: esperavam.”
Após o vexame no tribunal, a mulher e um amigo, também advogado tentam consolar Napoleão.
“AMIGO -Isso acontece, Napoleão.

MARTA- Não se desespere, querido.

AMIGO -Você não teve culpa.

MARTA -Você estava nervoso.

NAPOLEÃO (obsessivo) -Mas vocês repararam na atitude deles? Repararam mesmo?

AMIGO (conciliador) -Natural que ficassem revoltados, Napoleão. Afinal, são parentes, clientes, pagaram os tubos. Queriam um serviço bem feito.

MARTA- Claaaaaro. E, enfim, o cara pegou só sete anos. Não é tanto assim, você pode apelar, pedir o tal de habeas-corpus.

NAPOLEÃO (erguendo-se brusco da poltrona) - Parentes? Clientes? Réu? Habeas-corpus? Mas eu estou falando é dos cavalos, entendem? Dos cavalos, caralho! Os parentes, os réus, os jurados, que se fodam, entendem? Que se fodam. Sem vaselina! O que me interessa são os cavalos!”
Perceba que Napoleão defendia um matricida no tribunal e Marta e o amigo não têm qualquer preocupação ética, a não ser com o dinheiro (“pagaram os tubos, queriam um serviço bem feito”). O protagonista explode (repare nos palavrões) e só se importa com os cavalos, ou seja com seu delírio de liberdade.
A partir daí, Napoleão, incompreendido, é submetido a tratamentos médicos, psicológicos e psiquiátricos. É interrogado, julgado e rotulado.
“Numa noite, deu-se o desfecho. Que, aliás, se armara inevitável desde o princípio. Mais arde, os enfermeiros comentaram terem ouvido risos, segundo alguns, ou lágrimas, segundo outros. Mas ao certo mesmo, ninguém ficou sabendo como Napoleão morreu. Quando o médico entrou no quarto pela manhã, deparou com o corpo dele rígido sobre a cama. Parada-cardíaca-provocada-por-inanição, atestou logo entre alívio e piedade. Mandou chamar a esposa, filhos, colegas, criados, que vieram em tardias lágrimas inÚteis. Sobre a mesinha de cabeceira, em tinta azul, ficava sua última (ou talvez primeira) exigência. Queria ser conduzido para o cemitério num coche puxado por sete cavalos. Brancos, naturalmente. Foi. Culpada, a esposa gastou no enterro quase todo o seguro prévia e prudentemente feito. Sete palmos, Napoleão foi enterrado. Tivessem aberto o caixão, talvez notassem qualquer coisa como um vago sorriso transcendendo a dureza dos maxilares para sempre cerrados. Ninguém abriu. Tempos depois o zelador espalhou pelas redondezas que vira um homem estranho, nu em pêlo, cabelos ao vento, galopando em direção ao Crepúsculo montado em amáveis cavalos. Brancos, naturalmente.”
O desfecho aponta para o fato de que o protagonista, impedido de expressar sua singularidade assume uma condição marginal, seja pela loucura, seja pela própria morte.

O tema da loucura já é sugerido no próprio nome do personagem: loucos com mania de grandeza julgam ser Napolão Bonaparte. O conto, no prórpio título faz uma referência à conhecida anedota sobre o cavalo branco de Napoleão, que sugere a possibilidade de ver-se uma cor diversa daquela que é afirmada como óbvia.



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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Análise: Poesias de Murilo Mendes


Sobre o autor

Iniciou-se na literatura escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia.
Os livros Poemas (1930), História do Brasil (1932) e Bumba-Meu-Poeta, escrito em 1930, mas só publicado em 1959, na edição da obra completa intitulada Poesias (1925-1955), são claramente modernistas, revelando uma visão humorística da realidade brasileira.

Tempo e Eternidade (1935) marca a conversão de Murilo Mendes ao catolicismo. Nesse livro, os elementos humorísticos diminuem e os valores visuais do texto são acentuados. Foi escrito em colaboração com o poeta Jorge de Lima.

Nos volumes da fase seguinte, Poesia em Pânico (1938), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944) e Mundo Enigma (1945), o poeta apresenta influência cubista, superpondo imagens e fazendo o plástico predominar sobre o discursivo. Poesia Liberdade (1947), como alguns outros livros do poeta, foi escrito sob o impacto da guerra, refletindo a inquietação do autor diante da situação do mundo.

Em 1954, saiu Contemplação de Ouro Preto, em que Murilo Mendes alterou sua linguagem e suas preocupações, reportando-se às velhas cidades mineiras e sua atmosfera. Daí por diante, o poeta lançou-se a novos processos estilísticos, realizando uma poesia de caráter mais rigoroso e despojado, como em Parábola (1946-1952) e Siciliana (1954-1955), publicados em Poesias (1925-1955). As características desse período atingem sua melhor realização no livro Tempo Espanhol (1959). Em 1970, Murilo Mendes publicou Convergência, um livro de poemas vanguardistas. Murilo Mendes também publicou livros de prosa, como O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), livro de memórias, e Poliedro ( 1972). Ao morrer, em Lisboa, deixou inéditas várias obras.



O Menino Experimental - Murilo Mendes

O Menino Experimental é uma antologia da obra de Murilo Mendes (1901, Juiz de Fora, MG/ 1975, Lisboa), poeta que ganhou notoriedade no Segundo Tempo Modernista (1930-45), quando se engajou na famosa Poesia Católica, de caráter espiritualista. No entanto, a obra analisada aqui não enfoca apenas esse lado do autor.

De fato, é-lhe característico o dom e a facilidade com que transita por inúmeras formas e temáticas, num experimentalismo raro em nossa literatura. Contraditoriamente – e aqui está a sua força – toda essa variação gira ao redor dos mesmo elementos.

Já se disse que sua produção, caleidoscópica, não se torna caótica porque reúne suas múltiplas faces em círculos concêntricos.

O primeiro volume a ser analisado é o de sua estréia, Poemas, que engloba textos de 1925 a 1929, ou seja, em plena iconoclastia do Primeiro Tempo Modernista. Note no poema abaixo o encaixe perfeito nos ideários da época.

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Destacam-se, além dos versos brancos e livres, a paródia à tradição romântica, pois o poema inverte o tom de sua matriz, o “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.

Há também o nacionalismo crítico, sintetizado em “Eu morro sufocado/ em terra estrangeira”, em que o poeta relativiza nosso ideário nacionalista – estamos inundados de elementos importados.

Existem também aspectos apoéticos colocados no corpo do poema, como “mas custam cem mil réis a dúzia”. Murilo Mendes mostra-se, nesta obra, fiel aos postulados de Mário e Oswald de Andrade.

Mas o artesão mineiro não foi apenas um epígono, um mero seguidor do que estava na moda.

Soube dar contribuições próprias, principalmente numa tendência intelectual – infelizmente provocador de um prosaísmo nocivo em boa parte de sua produção – que inovou o tecido poético do texto, além da sensualidade explosiva, uma das bases do tripé de seu fazer poético. É o que percebemos no poema abaixo.

AQUARELA

Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,

o mundo parece que nasceu agora,

mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,

talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas

pra namorar o sol, garotos jogam bola.

A baía arfa, esperando repórteres...

Homens distraídos atropelam automóveis,

acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,

meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,

estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos

saídos do banho e pensam longamente na forma

do vestido de noiva: que pena não ter decote!

Arrastarão solenemente a cauda do vestido

até a alcova toda azul, que finura!

A noite grande encherá o espaço

e os corpos decotados se multiplicarão em outros.


Note como o poema é ousado não só nas imagens eróticas, mas na associação que estabelece entre palavras. É de uma beleza estonteante a polissemia realizada no termo “aquarela” e a idéia de umidade, presente em inúmeros momentos.

Tudo sugere tanto a novidade, a inauguração, a festividade, como a sensualidade, numa massa compacta que o poeta vai diluindo diante de nossos olhos, como um aquarelista diluindo em água uma massa compacta de tinta.

A outra obra a ser representada é Bumba-Meu-Poeta (1930), que continuará a usar e valorizar a cultura popular, conforme as regras do Primeiro Tempo Modernista.

No entanto, por meio da redondilha maior o poeta fará girar todo o seu universo pessoal e social, uma oscilação muito comum em sua obra.

Há um aspecto crítico, meio frouxo porque panfletário, sobre a pouca valorização que a sociedade dá ao papel do poeta.

Em seguida há História do Brasil, de 1932, em que, no espírito dos poemas-piadas, todo o nosso passado “célebre” vai ser dessacralizado. Observe-se no poema abaixo transcrito esses aspectos:

DIVISÃO DAS CAPITANIAS

A primeira pros londrinos,

Pra assentarem telefones,

Bondes puxados a burros

Naturais deste país;

Cruzados nos emprestaram

A cinco por cento ao mês.

A segunda aos holandeses,

Pra ensinarem a fazer queijo,

Lidar direito com moinhos

E algumas regras de asseio.

A terceira pros franceses,

Que trouxeram nas fragatas

Muitos vidros de perfume,

Mulheres muito excitantes,

Maneiras finas, distintas

E romances de adultério.

Quem falou francês foi nós.

A quarta foi para os turcos,

Pra vender chitas, miçangas

Na porta das mamelucas.

Compraram a capitania

Em diversas prestações.

(...)


É importante perceber que o passado mistura-se ao presente de forma cômica e iconoclasta, servindo para criticar e explicar o presente.

Em O Visionário (1930-3) Murilo Mendes realiza um enorme salto, abarcando técnicas do Surrealismo (associação insólita entre idéias, como se fosse produto da escrita automática dominada por elementos oníricos ou do subconsciente).

A segunda e a mais famosa base do seu tripé poético estava alcançada. Inicia-se também aqui uma busca desesperada pelo Absoluto, pelo Infinito, pelo Eterno, que desencadeará uma agonia responsável, nas próximas obras, pela visão apocalíptica que derramará sobre o mundo.

Observe-se a beleza plástica inovadora presente em poemas como o seguinte:

METADE PÁSSARO

A mulher do fim do mundo

Dá de comer às roseiras,

Dá de beber às estátuas,

Dá de sonhar aos poetas.



A mulher do fim do mundo

Chama a luz com um assobio,

Faz a virgem virar pedra,

Cura a tempestade,

Desvia o curso dos sonhos,

Escreve cartas ao rio,

Me puxa do sono eterno

Para os seus braços que cantam.


Essa obsessão pelo absoluto desaguará na terceira base do tripé, que é a poesia mística de Tempo e Eternidade (1934), escrito em parceria com Jorge de Lima.

É um momento interessante, pois, se de uma lado sua tendência à prolixidade e prosaísmo vai-se exacerbar, graças à influência dos versículos bíblicos, tão em moda na época, Murilo Mendes vai-se destacar de seu momento ao fazer dessa busca religiosa nada mais do que algo mais ousado: a sondagem da linguagem mística e de seu aspecto mágico e poético. Assim, a força sagrada e encantatória dá beleza a textos como o seguinte:

NOVÍSSIMO JOB

-- Eu fui criado à tua imagem e semelhança.

Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,

Nem a neta de Madalena para me amar,

O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.

Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,

Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,

Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,

E o eco do teu grande grito de abandono:

Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.

Por que não me fizeste morrer pelo gládio de Herodes,

Ou por que não me fizeste morrer no ventre da minha mãe?

Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.

Já me julguei muito antes do teu julgamento.

E já estou salvo porque me deste a poeira por herança.

(...)


Esse livro concentrará o grande problema de Murilo Mendes: suas boas idéias – que são muitas – acabam prejudicadas, diluídas por sua prolixidade.
A solução surgirá graças a seu grande amigo e mestre, Ismael Nery, que lhe aconselha a concisão.

Esse ditame começa a ser observado em Os Quatro Elementos (1935), em que a imagética rica e o estilo enxuto detonarão no poeta uma energia intensa da conciliação e estabilização das contradições que vinha sempre sofrendo.
É quando expõe o barroquismo de seu fazer literário, como no texto abaixo:

ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer

E pelas ondas do ar

A vida e a morte são ligadas pelas flores

E pelos túneis futuros

Deus e o demônio são ligados pelo homem.


Essa tensão de conciliação das contradições acaba explodindo na visão apocalíptica de A Poesia em Pânico (1936-7). Note a força do poema a seguir:

O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.

Os sentidos em alarme gritam:

O demônio tem mais poder que Deus.

Preciso vomitar a vida em sangue

Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.

Passam ao largo os navios celestes

E os lírios do campo têm veneno.

Nem Job na sua desgraça

Estava despido como eu.

Eu vi a criança negar a graça divina

Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos

E a multidão me apontando como o falso profeta.

Espero a tempestade de fogo

Mais do que um sinal de vida.


Ainda assim, esse misticismo não tirará de campo a sensualidade e a idolatria erótica à amada.

Pelo contrário, haverá até momentos em que a imagem da mulher objeto sexual e a mulher depositário do sagrado (repetição do culto à Virgem Maria) estarão unidas numa única figura, como no poema “Igreja Mulher” (“A igreja toda em curvas avança para mim”).

Essa fusão também será encontrada em As Metamorfoses (1938-41), obra em que o delírio surrealista vai-se mostrar como fruto de uma busca incessante pelo Infinito.

É a busca por identidade ou algo que dê sentido à existência. É poesia do conhecimento. Veja como isso se manifesta no poema a seguir:

A MARCHA DA HISTÓRIA

Eu me encontrei no marco do horizonte

Onde as nuvens falam,

Onde os sonhos têm mãos e pés

E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,

Onde o sol recebe a luz da lua,

Onde a música é pão de todo dia

E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,

Onde espadas e granadas

Transformaram-se em charruas,

E onde se fundem verbo e ação.



Estamos próximos da maturidade de Murilo Mendes, já vislumbrada em Mundo Enigma (1942), do qual o poema abaixo atesta sua força imagética, além de ser quase uma súmula da capacidade do poeta:

POEMA BARROCO

Os cavalos da aurora derrubando pianos

Avançam furiosamente pelas portas da noite.

Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,

Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.

O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas

E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias

Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros

Atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer meu sistema de artérias

E saber até que ponto me sinto limitado

Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,

Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,

Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,

E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.

Preciso conhecer os porões de minha miséria,

Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,

Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,

E amordaçar a indefesa e nua castidade.

É então que viro a bela imagem azul-vermelha:

Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,

Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,

Aponta seu coração e também pede auxílio.



Os delírios discursivos parecem atingir, com um tempero barroquista, o máximo do inusitado, sempre na busca do Absoluto, em Poesia Liberdade (1943-5), obra cujo título, já se disse, simboliza o grande objetivo desse artista mineiro.

Um caminho novo é aberto em Sonetos Brancos (1946-8): o uso da rígida forma fixa. Por meio dos seus sonetos, vislumbramos a futura queda na elaboração poética de Murilo Mendes.

Se antes ele pecava por pender só para o conteúdo, melhorou ao conciliar, entre tantos opostos, a forma e o conteúdo. No entanto, a partir da presente obra podemos antecipar o relaxamento, a frouxidão que se resultará na dedicação quase que exclusiva ao outro eixo do discurso: a forma.

Em suma, Murilo Mendes não pode ser extremista – tem de buscar o equilíbrio. Porém, este livro ainda apresenta o vigor do poeta, como abaixo:

O ESPELHO

O céu investe contra o outro céu.

É terrível pensar que a morte está

Não apenas no fim, mas no princípio

Dos elementos vivos da criação.



Um plano superpõe-se a outro plano,

O mundo se balança entre dois galhos,

Ondas de terror que vão e voltam,

Luz amarga filtrando destes cílios.



Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?

Correspondo a um arquétipo ideal.

Signo de futura realidade sou.



A manopla levanta-se pesada,

Atacando a armadura inviolável:

Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.



Observe a constante noção de equilíbrio a ser rompido, a superposição de planos e objetos, os fortes dualismos de sabor barroquista, a busca pelo Absoluto, a sondagem da identidade e a visão apocalíptica.

Em outras palavras, ainda aqui se manifesta o tempero intelectual de Murilo Mendes.

*Fonte: www.vestibuol.com.br

Resumo e Análise: O Caso da Vara (Machado de Assis)


O CASO DA VARA - 1891

*Material elaborado por Diego Lock Farina, professor de literatura brasileira, pesquisador e graduando em Letras (UFRGS)

Personagens

Damião – Jovem medroso que fugira do seminário por não querer seguir a carreira religiosa imposta pelo pai. Apesar da piedade que tem em relação à Lucrécia, deixa-se levar pelo egoísmo do interesse próprio.

Sinhá Rita – Viúva, “quarenta anos com olhos de vinte e sete, apessoada, viva, patusca, mas quando convinha era brava e firme como o diabo”. Vivia de ensinar bordado para escravas e mantinha relações com João Carneiro não bem entendidas por Damião. Aceita ajudar o jovem para provar seu autoritarismo sobre o “amante”. Impunha castigos a suas escravas, como surras de vara.

João Carneiro – Padrinho de Damião e suposto amante de Rita. Molenga, sem vontade, por si só não fazia nada útil. Amigo do falecido marido de Rita e submisso às determinações da viúva.

Lucrécia – Escrava de apenas onze anos que bordava na casa de Rita: frágil, magricela, marcada por uma cicatriz e uma queimadura, tímida ria e tossia para dentro. Vítima da vara da patroa.

RESUMO

Damião fugiu do seminário numa manhã de agosto anterior a 1850. Espantado, medroso e desorientado por desconhecer as ruas, não sabia onde se refugiar. Voltar para casa era inviável: seu pai o devolveria aos padres e aplicar-lhe-ia um bom castigo. Lembrou-se do padrinho, mas logo descartou a idéia por saber de seu caráter mole, além de ter sido o próprio que o levara ao seminário e lhe apresentara ao reitor: “trago-lhe o grande homem que há de ser”, “venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja humilde e bom. A verdadeira grandeza é singela, moço...”. Depois de forçar a memória lembrando-se de amigos e parentes, lembrou-se de Sinhá Rita, única capaz de convencer seu padrinho a interceder em seu favor com seu pai. Damião, menino ingênuo ainda, tinha algumas idéias vagas sobre o relacionamento dos dois. Em seguida encaminhou-se esbaforido para casa de Rita. Assustada, a viúva recebeu-lhe tentando acalmá-lo. Enquanto Damião explicava a situação, todas as crias, de casa e de fora, em volta da sala, diante de suas almofadas de renda, fizeram parar os bordados em mãos. O jovem contara todo o desgosto que lhe dera o seminário e implorava que Rita ajudasse em prol de sua salvação. No primeiro momento a viúva tenta se esquivar alegando não se meter em “negócios de família que mal conhece”, ainda mais se tratando do pai do menino, famoso pela casmurrice. Desesperado, Damião ajoelha-se a ela e afirma-lhe que é a única possuidora de firmeza para salvá-lo. Lisonjeada com as súplicas do moço, Sinhá Rita questionou-lhe por que não havia falado diretamente com seu padrinho: “Meu padrinho? Este é ainda pior que meu pai, não me atende e nunca dá ouvido a ninguém!”. “Não atende? Interrompeu Rita ferida em seus brios de orgulho – Ora, eu lhe mostro se não atende!”. Chamou um moleque serviçal e mando-lhe chamar imediatamente João Carneiro. Para aliviar a tensão de ambos, começaram a contar anedotas, quando neste instante Sinhá Rita pegou uma criada – Lucrécia - rindo, interrompendo seu bordado para mirar o moço: “Lucrécia, olha a vara – ameaçou-lhe Rita, afirmando que se o trabalho não estivesse concluído até de noites sofreria o castigo”. Damião comovido com a fragilidade e acanhamento da escrava de onze anos, prometeu a si mesmo apadrinhá-la, acreditava assim, que se caso precisasse, Rita não negaria perdão, por que, além disso, Lucrécia rira de uma piada sua, não tinha culpa. João Carneiro chega à casa, empalidecendo ao ver o afilhado e repreendendo-lhe por ter vindo incomodar “pessoas estranhas”. Rita manda-lhe parar com as ameaças e ir logo interceder a favor de Damião com seu compadre. Para o padrinho não importava se o afilhado seria médico, padre ou vadio, desde que não se precisa falar com o pai. Falou para si mesmo: “Por que Rita não pediu outra coisa? Faria qualquer outra coisa. Ah, seu o rapaz caísse agora morto, seria uma solução cruel, porém definitiva”. Depois da reflexão, atordoado pelas ordens da viúva, o padrinho vai ao encontro do compadre. Damião esteve menos alegre na janta, não confiava no caráter mole do padrinho. Cinco vizinhas chegaram para tomar café com a dona da casa. Sinhá Rita pediu ao jovem para repetir a piada da manhã, da qual tinha gostado muito, a mesma que havia feito Lucrécia desvirtuar-se do serviço. Mesmo tentando se esquivar sentiu-se na obrigação de contar; teve sucesso entre as amigas, porém dessa vez a escrava não ria, ou teria rido para dentro, com medo do castigo. Com a chegada da noite, a alma de Damião fez-se tenebrosa pela demora do padrinho. Neste meio tempo Rita já havia arranjado roupas – possivelmente esquecidas por João Carneiro – para Damião se livrar da batina. Logo em seguida um escravo do padrinho veio trazer uma carta afirmando que o negócio ainda não estava composto, que o pai ficara enfurecido e encaminharia novamente o rebelde vicioso para o seminário. Rita foi breve com a resposta: “Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos”. Acalmou o menino dizendo-lhe que o negócio agora era dela: “hão de ver o quanto presto; que não sou de brincadeiras!”. Na hora corriqueira da recolha dos trabalhos só Lucrécia não havia finalizado o bordado, Rita, furiosa, agarrou-lhe pelas orelhas: “ah, malandra, nem nossa senhora protege vadias, onde está a vara? Senhor Damião, dê-me aquela vara, por favor?” O seminarista ficara frio naquele cruel instante, havia jurado apadrinhar a pequena, a negrinha, em pleno acesso de tosses ainda implorava pela ajuda do jovem. Damião sentiu pena, contudo precisava absolutamente da ajuda de Sinhá Rita: pegou a vara e entregou à viúva.

Análise
Narrado em terceira pessoa, com menor preocupação em analisar psicologicamente os personagens, fato que não retira a profundidade abordada no relato. Temos aqui a crítica explícita ao interesse e egoísmo reinante nas posições sociais. Damião tem consciência que se interceder a favor da jovem escrava a salvará do desumano castigo imposto por Rita, contudo, não pode ir contra as convicções da senhora que estava lhe ajudando a sair do seminário. Por mais que haja comoção, dó e piedade em relação à Lucrécia, seu objetivo está acima de qualquer situação, o interesse subjetivo é somente o que importa. A mesquinhez do jovem é o reflexo de sua posição, tanto financeira quanto interior. Machado foi sensível às crueldades da escravidão, porém, declarou que o conto em questão não tratou da escravidão propriamente e sim da falta de princípios da classe social vigente perante perspectivas que visem apenas instâncias individuais. “Não há outro episódio na literatura pré-abolicionista brasileira que dê tão bem e de modo tão flagrante a vida da criança urbana escrava”. A submissão do padrinho em relação aos caprichos da amante, juntamente com a ousadia e autoritarismo feminino para a época, são fatores também merecedores de relevante olhar.

disponível em: http://monologodemimmesmo.blogspot.com/2009/10/aula-sobre-os-contos-machadianos-ufrgs.html

Resumo e Análise: Fogo Morto (José Lins do Rego)


Fogo Morto
(José Lins do Rego)


O regionalismo de 30

Publicado em 1943, Fogo Morto é a última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a década de 30.

A prosa de ficção dos anos 30 deu continuidade ao projeto dos primeiros modernistas, a chamada fase heróica, de 1922, de aprofundamento nos problemas brasileiros através de uma literatura regionalista, de caráter neo-realista, preocupada em apresentar os problemas e as desigualdades sociais do Brasil.

Prevalece uma narrativa direta, sem as ousadias formais dos romances de Oswald de Andrade, como Memórias Sentimentais de João Miramar, ou do Macunaíma de Mário de Andrade.

Linguagem

Os regionalistas de 30, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enfatizam, assim como o modernismo inicial, o uso da linguagem coloquial, popular, na obra de arte literária. Mas há uma diferença fundamental.

Enquanto os modernistas de 22 procuravam "escrever errado", reproduzindo as incorreções gramaticais da fala popular de maneira programática na linguagem literária, os regionalistas de 30, já livres das convenções da linguagem parnasiana acadêmica, escrevem com simplicidade, apenas ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa.

O ciclo da cana-de-açúcar

Fogo Morto é também o último suspiro da série de romances a que o próprio José Lins do Rego, grande contador de histórias, diretamente influenciado pelo regionalismo do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, haveria de chamar de O ciclo da cana-de-açúcar, que têm como matéria básica o engenho Santa Rosa, do velho José Paulino, avô de seu alter-ego, Carlos de Melo.

Em nota à primeira edição de Usina (1936), considerado por José Lins como o último romance da série, o próprio escritor nos explica suas intenções ao realizar este ciclo de romances:

Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de "Ciclo da Cana-de-açúcar".

A história desses livros é bem simples -- comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.

Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior.

Veio, após o Menino de Engenho, Doidinho, em seguida Bangüê. Carlos de Melo havia crescido, sofrido e fracassado. Mas, o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar, os chamados "moleques de bagaceira", os Ricardos.

Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. Pode ser que se pareçam.

Viveram tão juntos um do outro, foram tão íntimos na infância, tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. Pelo contrário.

Depois do Moleque Ricardo veio Usina, a história do Santa Rosa arrancado de suas bases, espatifado, com máquinas de fábrica, com ferramentas enormes, com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas.

Carlos de Melo, Ricardo e o Santa Rosa se acabam, têm o mesmo destino, estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Carlinhos foge, Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome, se escraviza. Rio de Janeiro, 1936.J. L. R.

Em Menino de Engenho (1932), primeiro romance do ciclo, José Lins do Rego mostra, de maneira lírica e saudosista, o ambiente de engenho em que o garoto Carlinhos é criado após seu pai, desequilibrado mental, ter assassinado a mãe.

Criado entre os "moleques de bagaceira", o garoto cresce sob o poder patriarcal avassalador do avô José Paulino. Aos doze anos, conhece a sexualidade através da "rapariga" Zefa Cajá, de quem contrai uma "doença do mundo". Por fim, é mandado ao colégio interno, para "endireitar", perder os hábitos da "bagaceira", e se tornar um legítimo "senhor de engenho".

Após descrever a vida de Carlos de Melo no colégio interno, em Doidinho (1933), José Lins do Rego nos mostra o seu retorno ao Santa Rosa, aos 24 anos, já formado em Direito, no seu romance seguinte, Bangüê (1934). Carlinhos tenta, então, se readaptar ao engenho, sempre permeado por uma sensação de impotência frente ao espírito autoritário de seu velho avô.

Após a morte do velho José Paulino, Carlos acaba por levar o Santa Rosa à ruína, vende o engenho ao tio Juca, e abandona para sempre as suas terras. Considerado por José Lins o último livro do ciclo, Usina (1936) apresenta o engenho transformado na usina Bom Jesus.

Dirigida pelo Dr. Juca, a usina vai perdendo a sua força. Pressionada por interesses estrangeiros e pela usina Santa Fé, que domina toda a região, acaba invadida por miseráveis em busca de alimentos e, por fim, o Dr. Juca a vende e a abandona melancolicamente. Mas o engenho Santa Rosa, assim como alguns de seus moradores, voltaria a aparecer na obra-prima de José Lins do Rego, Fogo Morto.

Decadência

O ciclo apresenta, portanto, o processo de decadência dos engenhos da zona da mata nordestina, que perdem seu poder e são engolidos pelas forças emergentes da usina e do capitalismo moderno.

Obra-prima

Embora desse o ciclo por encerrado com a publicação de Usina, em 1936, José Lins do Rego lançaria Fogo Morto sete anos mais tarde. Nesta obra, retoma a mesma idéia nuclear dos romances anteriores, assim como o engenho Santa Rosa e a figura do coronel José Paulino, ainda que de maneira periférica.

O romance, portanto, pode ser considerado com um integrante tardio do "ciclo" que José Lins havia considerado acabado.

Mais do que isso, acaba por ser a maior obra deste mesmo ciclo, pois, ao minimizar o caráter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes, o romancista paraibano acrescenta à sua extraordinária facilidade de narrar, que mais lembra um contador de histórias marcado pela oralidade e pela naturalidade, a objetividade e a consciência compositiva que o caráter sentimental e espontâneo das obras anteriores encobria.

Em Fogo Morto, portanto, o romancista maduro e consciente se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obra-prima: síntese, aprofundamento e condensação de todas as outras.

Espaço e tempo

O romance se passa no município de Pilar, na Zona da Mata paraibana, às margens do Rio Paraíba, distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa, próxima a Itabaiana. A maior parcela da ação se desenvolve nas terras do engenho Santa Fé, nos arredores do Pilar. Na cidade, passa-se boa parte da última seção da obra.

O desenrolar dos acontecimentos se dá durante os primeiros anos do século XX, com uma regressão temporal à época da fundação do engenho Santa Fé, em 1850. E embora seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado, as ações em si não duram mais do que alguns meses.

O título

Os "engenhos" do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Com a ascensão das usinas, que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta, a cana de açúcar ainda não processada, para fabricar o açúcar, a maior parte desses engenhos foi, aos poucos, deixando de "botar", moer a cana para a fabricação do açúcar.

Passam, então, apenas a vender a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos "de fogo morto". Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. É como se encontra, ao final de Fogo Morto, o decadente engenho Santa Fé.

Estrutura Triangular

Fogo Morto é dividido em três partes. Cada uma delas traz no título o nome de um dos três personagens principais do romance. Mas as três partes se entrecruzam, os personagens aparecem ao longo de todo o livro.

O coronel Lula de Holanda, senhor de engenho inepto e decadente, o mestre José Amaro, seleiro pobre e orgulhoso, e Vitorino Carneiro da Cunha, o papa-rabo, herói quixotesco, defensor estabanado dos oprimidos. É Vitorino, misto de Dom Quixote e Sancho Pança, em suas andanças e na sua busca ingênua de justiça, quem estabelece as relações entre todas as personagens, servindo como ponto central da narrativa.

Primeira Parte: O Mestre José Amaro

A primeira parte do romance centra-se na casa, à beira da estrada no engenho Santa Fé, do Mestre José Amaro, seleiro orgulhoso e machista, que recusa-se a ser dominado por qualquer um, só trabalha para quem escolhe e admira o cangaceiro Antônio Silvino.

Boa parte deste trecho da obra se constrói através dos diálogos travados por José Amaro com os passantes. Entre estes está o compadre Vitorino Carneiro da Cunha, apelidado pelas crianças de Papa-rabo. O Mestre irrita-se com o Coronel Lula de Holanda, dono das terras em que mora, e que sempre vê cruzando a estrada em seu cabriolé, sem jamais parar para cumprimentá-lo.

Vai adiando, portanto, atender ao chamado do Coronel para que vá com ele conversar na casa grande. Vemos o lento processo de enlouquecimento de Marta, sua filha, em quem José Amaro bate para tentar curar.

O Mestre recebe uma encomenda de compras de Antônio Silvino e sente-se muito orgulhoso em poder ajudá-lo. Seu caráter fechado e ranzinza vale-lhe a fama de se transformar em "lobisomem", e as pessoas temem encontrar com ele à noite. Por fim, tem que mandar a filha para o hospício em Recife e acaba por atender ao chamado do coronel Lula, que lhe ordena que se retire de suas terras.

Segunda Parte
O Engenho de Seu Lula


No início da segunda parte do livro, temos uma regressão temporal, com o narrador retornando a 1850 ao contar a fundação do engenho Santa Fé pelo Capitão Tomás Cabral de Melo. Mudando-se para a região antes de 1848, compra as terras e funda o engenho que acaba por fazer prosperar. Casa sua filha Amélia com Lula Chacon de Holanda, seu primo, que pouco interesse ou aptidão tem para dirigir o engenho. Adoentado, deixa sua mulher, D. Mariquinha, dirigir os negócios.

Quando morre, Lula entra em disputa com a sogra e acaba por tomar-lhe as terras e o poder. Castigando os escravos com requintes de crueldade, andando com seu cabriolé para cima e para baixo, Seu Lula vai se afastando cada vez mais do povo de Pilar e seu engenho entra em total decadência quando vem a Abolição e seus escravos debandam. Autoritário, impede os homens de se aproximarem da filha.

Epilético, tem um ataque na igreja e passa a se dedicar com fervor à religião. Empobrecido, gasta até as últimas moedas de ouro que lhe deixou o sogro. Sente uma inveja enorme de seu vizinho José Paulino e de seu engenho Santa Rosa e despreza o espírito quixotesco de Vitorino Carneiro da Cunha. Esta parte se encerra com a frase melancólica: "Acabara-se o Santa Fé".

Terceira parte: O Capitão Vitorino

Na terceira e última parte do romance predomina a ação. O capitão Antônio Silvino invade a cidade do Pilar, saqueia as casas e lojas. Invade o engenho Santa Fé, ameaça os moradores em busca do ouro escondido. Tentando defender o engenho, Vitorino é agredido e só a intervenção de José Paulino faz com que os cangaceiros desistam.

Vitorino apanha também da polícia, José Amaro e seus companheiros são presos e agredidos. No final, após serem libertados, Vitorino e o mestre José Amaro seguem rumos diferentes. O primeiro pensa em influir politicamente na região. O segundo, abandonado pela mulher, com a filha louca e expulso de sua casa, acaba por cometer o suicídio, enquanto o cabriolé de Lula passa pela estrada e o Santa Fé virou "engenho de fogo morto".

As filhas e as mulheres

Há uma sinistra simetria entre a sofredora filha de José Amaro, Marta, solteirona que aos poucos enlouquece e as duas dos senhores do engenho Santa Fé, seus antagonistas. A filha mais nova do Capitão Tomás Cabral de Melo, Olívia, enlouquece e perturba o silêncio áspero da casa grande com seus gritos.

Já a filha do Coronel Lula de Holanda, Neném, impedida pelo pai de casar-se, é melancólica e soturna. Sem filhos homens, os opositores, ensimesmados, machistas e teimosos, acabam destruindo suas filhas. As mulheres dos protagonistas também se assemelham em muito.

Sinhá Velha e Sinhá Adriana são mais práticas e racionais do que os maridos José Amaro e Vitorino, mas pouco podem contra o machismo e a teimosia dos homens. Na engenho Santa Fé, as mulheres sempre se mostram mais decididas e práticas do que o impotente Lula Chacon. Sua sogra, D. Mariquinha, comanda o engenho até a morte do marido, quando é passada para trás por Lula, que se mostra muito menos competente no comando do engenho, que acaba por ser dirigido, sutilmente, por sua mulher, D. Amélia.

Polícia ou bandido

Polícia e bandido em muito se assemelham. Tanto o capitão Antônio Silvino, o cangaceiro, quanto o tenente Maurício, chefe das tropas policiais, abusam da violência, ameaçam a todos, espancam o sonhador Vitorino, e espalham o terror por onde passam.

Mesmo se o povo, representado por José Amaro, respeita mais ao cangaceiro, as suas ações não deixam de comprovar, como o constata Vitorino, que utiliza métodos abusivos e muito próximos do terror implantado por seu opositor.

Biografia

José Lins do Rego nasceu no engenho Corredor, município de Pilar (Paraíba), em 3 de junho de 1901 e morreu no Rio de Janeiro em 1957. Era órfão de mãe e, com o pai ausente, foi criado, como sua personagem Carlos de Melo, no engenho do avô materno. Estudou inicialmente no interior da Paraíba, em Itabaiana, e depois na capital. Fez o curso superior na Faculdade de Direito em Recife, Pernambuco.

Começou a escrever contos e artigos de temática política ainda estudante. Nessa época, iniciou sua amizade com José Américo de Almeida e Olívio Montenegro. Em 1923, conheceu Gilberto Freyre (1900-1987), recém-chegado da Europa. Junto com eles, integrou o chamado grupo modernista do Recife.

José Lins dizia que, após conhecer Gilberto Freyre - sociólogo e escritor, autor de Casa-grande & Senzala (1933) - sua vida nunca mais foi a mesma: "de lá pra cá foram outras as minhas preocupações, ...os meus planos, as minhas leituras, os meus entusiasmos". E foi sob a influência de Gilberto Freyre que começou a escrever seus romances regionalistas.

Em 1924, casa-se com Philomena Massa (D. Naná). Do casamento, teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Cristina.

Em 1925, foi promotor público em Minas Gerais. Em 1926, transfere-se para Maceió (Alagoas), onde trabalha como fiscal de bancos por nove anos e convive com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima e outros.

O contato com esses e outros artistas formou uma consciência regionalista em torno da vida nordestina, que marcou a obra de todos eles, especialmente a de José Lins do Rego. Em Maceió escreve os três primeiros romances: Menino de Engenho, Doidinho e Bangüê.

Seu livro de estréia, Menino de Engenho, é publicado em 1932 e recebe o prêmio da Fundação Graça Aranha. Muito bem recebida pela crítica, a edição de dois mil exemplares foi quase totalmente vendida no Rio de Janeiro.

Em 1935, nomeado fiscal do imposto de consumo, vai para o Rio de Janeiro, onde passaria o resto de sua vida. Esteve em países sul-americanos, na Europa e no Oriente. É eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 15 de setembro de 1955. Dois anos depois, em 12 de setembro de 1957, morre e é enterrado no mausoléu da Academia, no cemitério São João Batista.

Obra

José Lins do Rego publicou doze romances, um volume de memórias (Meus Verdes Anos), um de literatura infantil (Histórias da Velha Totônia), além de livros de viagem, conferências e crônicas. Seus romances são normalmente classificados em "ciclos", séries de obras versando sobre os mesmos temas:

• "Ciclo da cana-de-açúcar": Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, Usina e Fogo Morto.
• "Ciclo do cangaço, misticismo e seca": Pedra Bonita e Cangaceiros.
• Obras com implicações nos dois ciclos indicados: O Moleque Ricardo, Pureza, Riacho Doce.
• Obras desligadas desses ciclos: Água-mãe e Eurídice.


José Lins X Graciliano Ramos

Graciliano e José Lins: a aridez do agreste e a exuberância da zona da mata.

Outro dos grandes escritores surgidos durante a década de 30 dedicados ao romance regionalista, Graciliano Ramos (1892 - 1953) foi, desde o seu encontro em Maceió no início dos anos 30, grande amigo e admirador de José Lins do Rego. Mesmo quando, em 1945, polemizaram pelos jornais sobre o partido comunista, no qual Graciliano Ramos ingressara, este encerra seu artigo com estas palavras de amizade: "Sinto discordar do meu velho amigo José Lins, grande cabeça e enorme coração".

Graciliano jamais poderia esquecer que José Lins do Rego fora um dos brasileiros mais empenhados em conseguir sua libertação quando o velho Graça fora aprisionado, durante o ano de 1936, pela ditadura Vargas. Mas suas diferenças não foram apenas políticas. Enquanto a escrita de Graciliano era seca e contida como o sertão que descreve em Vidas Secas, a de José Lins era exuberante e derramada como a natureza pródiga da Zona da Mata que abriga os engenhos de seus romances.

Mas Fogo Morto, o mais contido e elaborado romance de José Lins, aproxima-se do colega alagoano ao apresentar a desumanização do homem nordestino. No romance São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, o narrador Paulo Honório, trabalhador braçal semi-alfabetizado, enriquece e compra, além da fazenda São Bernardo, sua esposa, a professora Madalena. Acometido de crises de ciúmes que remetem ao Dom Casmurro, de Machado de Assis, Paulo Honório é abandonado por todos após o suicídio da esposa.

Descreve-se, então, como "um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes." Esse homem que se destrói na incapacidade de refletir ou de sentir além da ganância e dos instintos básicos, animalizado e monstruoso, descreve-se como um "lobisomem". É como um "lobisomem" que o povo da região vê o mestre José Amaro, é como um "papa-rabo" que vêem o Capitão Vitorino.

Disponível em: http://www.mundovestibular.com.br/articles/2437/1/FOGO-MORTO---Jose-Lins-do-Rego-Resumo/Paacutegina1.html

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Análise: Antologia Poética (Vinícius de Moraes)


Antologia Poética

(Vinícius de Moraes)


Análise da obra
Jorge Viana de Moraes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
**Texto extraído de UOL Vestibular


Devido a certas semelhanças, Bach pode nos levar a Vinicius.

Foi em Eisenach, pequena cidade da Turíngia, na Alemanha central, que, em 1685, nasceu Johann Sebastian Bach. Ali passou os primeiros anos de sua infância, iniciou sua escolarização e recebeu as primeiras noções de música, tomando aulas de violino com o pai, Johann Ambrosius Bach - músico da corte municipal -, e de cravo e órgão, com o tio Johann Christoph.

Johann Sebastian era ainda uma criança quando deixou a cidade natal para percorrer os tortuosos caminhos que o levariam à imortalidade...

Quanto ao nosso poeta, foi em 1913, na cidade do Rio de Janeiro, que nasceu, em meio a um forte temporal, Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta (amigo de Olavo Bilac), violonista e cantor de modinhas, que iniciaria Vinicius na música. O tio mais moço, boêmio e seresteiro, também exerceu forte influência sobre ele. Além de sua mãe, Lydia Cruz, e o avô, que eram hábeis pianistas.

Como é possível notar, nascido no seio de uma família de músicos (e de poetas!), Vinicius, tal como Bach, terá forte presença dessa arte superior, que é a música, por toda sua vida.

Além dessas semelhanças, no mínimo curiosas, há algo maior que o liga ao mestre de Eisenach. Dentre os parceiros de Vinicius (...e eles não são poucos. Só para citar os mais conhecidos: irmãos Tapajós, Paulinho Soledade, Vadico, Pixinguinha, Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Villa-Lobos, Chico Buarque, Tom Jobim, Toquinho, etc.), Bach foi o mais inusitado de todos porque, obviamente, já estava morto e jamais tomou conhecimento de tal negócio! Em 1961, a Banda do Corpo de Bombeiros fluminense gravou "Rancho das Flores", marcha-rancho com versos do poeta sobre tema de "Jesus, Alegria dos Homens", do compositor clássico alemão.

Vinicius de Moraes foi diplomata, músico, boêmio, advogado, crítico de cinema e, sobretudo, poeta, que se auto-intitulava o "branco mais preto do Brasil".

Um crítico certa vez disse que Vinicius era um homem plural, e que essa pluralidade era percebida nas várias atividades que o poeta desenvolveu, nos vários amores que teve (seus biógrafos afirmam que teve, oficialmente, 9 mulheres), e no próprio nome: Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes.

Como diplomata, ele residiu em várias capitais do mundo. Além de formado em Direito, foi agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.


O que é uma antologia
Antes de qualquer coisa é preciso definir o que vem a ser "antologia". Antologia significa, etimologicamente, "coletânea de flores"; o termo remete à idéia de escolha, coleção. Sendo assim, antologia é uma coleção de trabalhos literários; neste caso, coleção de trabalhos poéticos.

A importância de se ler uma obra como esta ("Antologia Poética") está no fato de que estamos tendo contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor.


A divisão da obra de Vinicius
A obra poética de Vinícius de Moraes é tradicionalmente dividida pela crítica em três fases distintas.

A primeira inicia-se em 1933 e abrange os livros O caminho para a distância (1933); Forma e exegese (1935); Ariana, a mulher (1936). Nesse período encontramos um poeta místico, que escrevia versos longos, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária. O próprio poeta caracterizou esta fase como "o sentimento do sublime". Na "Advertência" à sua Antologia Poética ele afirmava que "a primeira [fase], transcendental, frequentemente mística, [era] resultante de sua fase cristã".

A segunda fase (ou como se costuma dizer: o segundo Vinicius) tem início em Cinco Elegias, de 1943. O novo tom, a nova linguagem, as novas formas e temas, que vinham desde Novos poemas, de 1933, intensificam-se e diversificam-se nos livros posteriores - Poemas, sonetos e baladas (1946) e Novos poemas II (1959) -, em que se mostram tanto as formas clássicas (soneto de tradição camoniana e shakespeariana) quanto a poesia livre (em "A última elegia", os versos têm forma de serpente). O poeta sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa.

Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo fortemente presentes na primeira, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".

Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza. Compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroshima".

O terceiro Vinicius é o compositor, letrista e cantor. Autor de mais de trezentas músicas (como atesta seu Livro de letras, lançado postumamente, em 1991, onde estão mais de 300 letras de músicas de sua autoria), difundidas pelo mundo com o grande acontecimento cultural e musical que foi a bossa nova. Seus parceiros, como vimos, vão desde Bach a Toquinho.

Embora a crítica fizesse (faça) tal divisão, colocando de um lado o poeta e de outro o showman, Vinicius nunca concordou que houvesse diferença entre seus sambas e seus poemas escritos, pois para ele tudo era igual.


Comentários sobre alguns poemas
Selecionamos alguns poemas representativos da primeira e segunda fase do poeta para uma breve análise. Demos maior ênfase aos sonetos que, como se sabe, é o forte da poesia de Vinícius. Vejamos:

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Rio de Janeiro, 1935



Comentário:
Diz o crítico Carlos Felipe Moisés que este é um dos primeiros poemas em que aparece a tentativa de representar a mulher amada e a experiência amorosa como ponto de encontro entre a transcendência e os apelos terrenos, entre espírito e matéria.

A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada


Comentário:
Numa postura humanista, em que cria figuras com fortes tintas, o poeta canta contra a guerra. Usando o verbo "pensar" no imperativo ("pensem"), "convida-nos" a todos a refletir diante das atrocidades causadas pela guerra; e, principalmente, a causada pelo mais novo rebento gerado pelo ser humano: a bomba atômica. A culpa não é apenas de um indivíduo ou outro. A culpa, a responsabilidade da destruição não é de um país X ou Y, mas de toda a humanidade. O que está em jogo aqui é a própria existência, ou melhor dizendo, a própria sobrevivência humana.


Os sonetos
Ao escrever sonetos, Vinicius de Moraes soma-se à distinta lista de poetas que versejaram em língua portuguesa, tais como Camões, Gregório de Matos, Bocage, Antero de Quental, Olavo Bilac, entre outros, e que escolheram como forma de expressão esta composição poética clássica.

Mas não é só; o motivo de tal escolha diz muito, também, sobre a atitude do poeta diante do fazer poético. O soneto, forma literária clássica fechada, é uma composição de quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos, seguindo variavelmente os seguintes esquemas de rima: abab / abab / ccd / ccd; abba / abba / cde / cde ou abba / abba / cdc / dcd., sendo que o metro mais utilizado tem sido o decassílabo (com acento na 4ª, 7ª e 10ª). Por encerrar o conceito fundamental do poema, o último verso constitui o que chamamos de "fecho de ouro" ou a "chave de ouro".

Tudo isso faz do soneto uma escolha formal lúcida para o poeta. Porque aí se observa a clareza e a concisão de linguagem, de características clássicas. Com ela, o poeta mantém a expressão de um lirismo controlado, ou seja, o sentimento e a emoção líricos contêm-se nos limites do equilíbrio e da harmonia. O poeta procura atenuar os impulsos do "eu", isto é, de sua subjetividade particular, em favor de uma visão impessoal ou objetiva. Daí dizer que nos sonetos existe a luta de um "eu" que ama e um "eu" que raciocina.

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma 1
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do
Highland Patriot, a caminho da
Inglaterra, 09.1938


Comentário:
Este soneto, um dos mais populares de Vinícius, é quase todo composto num jogo antitético, tais como: riso X pranto; calma X vento; triste X contente e próximo X distante. O emprego dessa figura de linguagem, ao longo do poema, revela as mudanças na relação amorosa que se processam de uma forma abrupta e inesperada. O poeta utiliza um outro recurso, num belíssimo arranjo de antíteses, para acentuar o dinamismo que caracteriza o poema: o emprego da forma verbal "Fez-se" e de sua forma contrária "desfez". Esse dinamismo expresso no soneto revela, sob certo aspecto, a própria inconstância na vida amorosa de Vinicius.

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que2 é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Estoril - Portugal, 10.1939


Comentário: Este é um dos mais conhecidos e apreciados sonetos de Vinicius de Moraes. Observam-se nele a clareza e a concisão de linguagem, características clássicas que substituem a tendência alegórica e o derramamento declamatório dominantes na fase inicial do poeta.

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço

De noite ardo A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Nova York, 1950



Comentário:
Segundo Carlos Felipe Moisés (ver bibliografia), a sequência vertical da primeira estrofe manhã-dia-tarde-noite obedece a um encadeamento lógico: a passagem natural do tempo. Tal encadeamento é rompido na linha horizontal, já no primeiro verso ("escureço" se opõe à "manhã") e ganha ambiguidade no quarto, em que "ardo" conota claridade, em oposição ao escuro da noite, mas, sobretudo, ganha passionalidade (arder, ardor de amor). Isso aproxima parcialmente os extremos, dia e noite, e sugere a passagem do tempo como sucessão de contrates, negação de expectativas, em um clima de intenso subjetivismo (1ª pessoa).

Na segunda estrofe, numa atitude de liberdade, de anticonvencionalismo, o eu lírico diz-se guiar pelo "este" e não pelo "norte" como todos fazem. O último verso da última estrofe privilegia o circunstancial (não é "aquilo que" acontece, mas o "momento quando" acontece que realmente importa), valorizando a disponibilidade do instante presente, para que seja intensamente vivido. Observando o aspecto formal do poema, parece haver ali um soneto renovado. Isso confirma a valorização da liberdade e do individualismo, da insubordinação e da disponibilidade, também para o ato de criação poética.


Curiosidade
Na saída de um show em Portugal, diante de estudantes salazaristas que protestavam contra ele na porta do teatro, Vinicius declama os versos de "Poética" (De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo). Um dos jovens tirou a capa do seu traje acadêmico e a colocou no chão para que Vinicius pudesse passar sobre ela - ato imitado pelos outros estudantes e que, em Portugal, é uma forma tradicional de homenagem acadêmica.

*Jorge Viana de Moraes é mestre em Letras pela Universidade de São Paulo. Atua como professor em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Resumo e Análise: Primeiras Estórias (Guimarães Rosa)


Primeiras Estórias

(Guimarães Rosa)



VEJA UMA ANÁLISE COMPLETA DA OBRA (.PDF)

Gênero literário: estória (conto breve);

Época: Modernismo brasileiro (terceiro tempo);

Contexto histórico-cultural:

Brasil - anos JK, o "presidende bossa-nova"; euforia desenvolvimentista; industrialização acelerada do país = Plano de Metas = "50 anos em 5"; fundação de Brasília; instalação da indústria automobilística; Concretismo = poesia verbivocovisual: Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Paulo Paes, Pedro Xisto, José Lino Grunewald; Bossa nova: João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Luis Bonfá, Sérgio Ricardo, Juca Chaves, Jorge Ben (jor), Maysa, Agostinho dos Santos e alguns mais; cinema novo: Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Gláuber Rocha; Teatro: fim da geração TBC e início das gerações Arena e Oficina; Futebol: seleção brasileira bicampeã do mundo (1958 e 1962); juventude transviada: geração coca-cola; atuação permanente da UNE. Mundo - vacina Sabin (pólio, 1955); Sputnik I (1957, URSS inicia a corrida espacial); XX Congresso do PC da URSS (1958: a desestalinização); Revolução Cubana (1958); Existencialismo: Jean-Paul Sartre; Novelle Vague: cinema de Louis Malle, François Truffaut, Jean-Luc Godard; explosão do roxk-and-roll: Elvis Presley, Bill Halley, Little Richard, Chuck Berry, Paul Anka.

ENREDOS

I - "As margens da alegria". Um menino descobre a vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião, deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore).

II - "Famigerado". O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com um problema vocabular: ouviu a palavra "famigerado" de um moço do governo e vai procurar o farmacêutico, pessoa letrada do lugar, para saber se tal termo era um insulto contra ele, jagunço.

III - "Sorôco, sua mãe, sua filha". Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de Sorôco, para conduzí-las ao manicômio de Barbacena. Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco, elas começam surpreendentemente a cantar. Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma canção, e os amigos da cidadezinha, solidariamente, cantam junto.

IV - "A menina e lá". Nhinhinha possuía dotes paranormais: seus desejos, por mais estranhos que fossem, sempre se realizavam. Isolados na roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno, para dele tirar proveito. As reticentes falas da menina tinham caráter de premonição: por exemplo, o pai reclamara da impiedosa seca. Nhinhinha "quis" um arco-íris, que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando ela pede um caixãozinho cor-de-rosa com efeites brilhantes ninguém percebe que o que ela queria era morrer...

V - "Os irmão Dagobé". O valentão Damastor Dagobé, depois de muito ridicularizar Liojorge, é morto por ele. No arraial, todos dão como certa a vingança dos outros Dagobé: Doricão, Dismundo e Derval. A expectativa da revanche cresce quando Liojorge comunica a intenção de participar do enterro de Damastor. Para surpresa de todos, os irmãos não só concordam, como justificam a atitude de Liojorge, dizendo que Damastor teve o fim que mereceu.

VI - "A terceira margem do rio". Um homem abandona família e sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio de um grande rio. Com o tempo, todos, menos o filho primogênito, desistem de apelar para o seu retorno e se mudam do lugar. O filho, por vínculo de amor, esforça-se para compreender o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos. Já de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir o pai na canoa e comunica-lhe sua decisão. Quando o pai faz menção de se aproximar, o filho se apavora e foge, para viver o resto de seus dias ruminando seu "falimento" e sua covardia.

VII - "Pirlimpsiquice". Um grupo de colegiais ensaia um drama para apresentá-lo na festa do colégio. No dia da apresentação, há um imprevisto, e um dos atores se vê obrigado a faltar. Como não havia mais possibilidade de se adiar a apresentação, os adolescentes improvisam uma comédia, que é entusiasticamente bem recebida pela platéia.

VIII - "Nenhum, nenhuma". Uma criança, não se sabe se em sonho ou realidade, passa férias numa fazenda, em companhia de um casal de noivos, de um homem triste e de uma velha velhíssima, de quem a noiva cuidava. O casal interrompe o noivado, e o menino, que conhecera o Amor observando-os, volta para a casa paterna. Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais ao notar que eles se suportavam, pois tinham transformado seu casamento num desastre confortável.

IX - "Fatalidade". Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha, queixando-se de que Herculinão Socó vivia cantando sua esposa. A situação tornara-se tão insuportável que o casal mudara de arraial. Não adiantou: o Herculinão foi atrás. O delegado, misto de filósofo, justiceiro e poeta, depois de ouvir pacientemente a queixa, procura o conquistador e, sem a mínima hesitação, mata-o, justificando o fato como necessário, em nome da paz e do bem-estar do universo.

X - "Seqüência". Uma vaca fugitiva retorna a sua fazenda de origem. Decidido a resgatá-la, um vaqueiro persegue-a com incomum denodo. Ao chegar à fazenda para onde a vaca retornara, o vaqueiro descobre que havia outro motivo para sua determinação: a filha do fazendeiro, com quem o rapaz se casa.

XI - "O espelho". Um sujeito se coloca diante de um espelho, procurando reeducar seu olhar. apagando as imagens do seu rosto externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo, conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.

XII - "Nada e a nossa condição". O fazendeiro Tio Man'Antônio, com a morte da esposa e o casamento das filhas, sente-se envelhecido e solitário. Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas e genros. A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui entre os empregados, estipulando em testamento uma condição que só deveria ser revelada quando morresse. Quando o fato ocorre, os empregados colocam seu corpo na mesa da sala da casa-grande e incendeiam a casa: a insólita cerimônia de cremação era seu último desejo.

XIII - "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era um velho italiano de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado, que convocam o empregado da chácara de "seo Giovânio", Reivalino, para um interrogatório. Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso, o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino e para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado. Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo de seu irmão Josepe, desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido de enterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano morre.

XIV - "Um moço muito branco". Os habitantes de Serro Frio, numa noite de novembro de 1872, têm a impressão de que um disco voador atravessou o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos, aparece na fazenda de Hilário Cordeiro um moço muito branco, portando roupas maltrapilhas. Com seu ar angelical, impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios: os negócios de Hilário Cordeiro, o fazendeiro que o acolheu, têm uma guinada espantosamente positiva. Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço desaparece do memo modo que chegara.

XV - "Luas-de-mel". Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza recebem em sua fazenda um casal fugitivo, versão sertaneja de Romeu e Julieta. Certos de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la, todos se preparam para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se num castelo fortificado. É nesse clima de tensão que se celebra o casamento dos jovens, a que se segue a lua-de-mel, que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho casal de anfitriões, cujo amor fora reavivado com o fato. Na manhã seguinte, a expectativa se esvazia com a chegada do irmão da donzela, que propõe solução satisfatória para o caso.

XVI - "Partida do audaz navegante". Quatro crianças, três irmãs e um primo, brincam dentro de casa, aguardando o término da chuva. A caçula, Brejeirinha, brinca com o que lhe dava mais prazer: as palavras. Inventa uma estória do tipo Simbad, o marujo, que ganha novos elementos quando todos vão brincar no quintal, à beira de um riacho. Liberando sua fantasia, Brejeirinha transforma um excremento de gado no "audaz navegante", colocando-o para navegar riacho abaixo.

XVII - "A benfazeja". Mula-Marmela era mulher de Mumbungo, sujeito perverso que se excitava com o sangue de suas vítimas. Esse vampiro tinha um filho, Retrupé, cujo prazer só diferia do do pai quanto à faixa etária das vítimas: preferia as mais frescas. Apesar de amar seu homem e ser correspondida, Mula-Marmela não hesitara em matá-lo e depois cegar Retrupé, de quem se torna guia. Passado algum tempo, resolve assassiná-lo: percebe que esta seria a única maneira de refrear o instinto de lobisomem do rapaz.

XVIII - "Darandina". Um sujeito bem-vestido rouba uma caneta, é surpreendido e, para escapar dos que o perseguem, escala uma palmeira. Uma multidão acompanha atentamente os esforços das autoridades, que procuram convencer o rapaz a descer. Resistindo, ele diz frases desconexas e tira toda a roupa, revelando notável equilíbrio físico. A sessão de nudismo leva um médico a nova tentativa de diálogo. Ao se aproximar, o médico percebe que o sujeito voltara à normalidade e que, envergonhado, pedia socorro. A multidão, sentindo-se ludibriada, não aceita essa sanidade repentina e se dispõe a linchá-lo. Sentindo o risco, o sujeito berra um grito de louvor à liberdade, motivo bastante para a multidão ovacioná-lo e carregá-lo nos ombros.

XIX - "Substância". O fazendeiro Sionésio apaixona-se por sua empregada Maria Exita, que fora abandonada pela família e criada pela peneireira Nhatiaga. Na fazenda, o ofício de Maria Exita era o de quebrar polvilho, trabalho duro mas que a moça realizava com prazer e competência. Embora preocupado com a ascendência da moça, Sionésio sente que a paixão é maior que o preconceito e pede-a em casamento.

XX - "Tarantão, meu patrão". O fazendeiro João-de-Barros-Dinis-Robertes tem uma surpreendente explosão de vitalidade em sua velhice caduca. Como se fora um Quixote, determina-se a matar seu médico: o Magrinho, seu sobrinho-neto. Ao longo da viagem rumo à cidade, recruta um bando de desocupados, ciganos e jagunços, que acatam sua liderança, pelo carisma natural do velho. Chegando à "frente de batalha", Tarantão percebe que era dia de festa: uma das filhas de Magrinho fazia aniversário. O susto inicial, provocado pela invasão do "exército", transforma-se em alívio quando o velho discursa, dizendo de seu apreço pela família e pelos novos amigos, colecionados ao longo da última cavalgada.

XXI - "Os cimos". O menino da primeira estória revela agora a face do sofrimento, causado pela doença da Mãe, fato que apressa sua viagem de volta à casa paterna. Os últimos dias de férias são de preocupação. O Menino só relaxava quando via, todas as manhãs e sempre à mesma hora, um tucano se aproximar da casa dos rios, onde se hospedava. Num processo de sublimação, desencadeado pela beleza da ave, o Menino ganha energia para resistir e para transferir à Mãe uma carga de fluidos mentais positivos, que lhe permitam superar a doença. Quando o Tio o procura para comunicar a melhora da Mãe, o Menino experimenta momentos de êxtase, pois só ele sabia do motivo da cura.

FOCO NARRATIVO

As indicações feitas a seguir são pontuadas com os algarismos que indicam a ordem de pubicação de cada estória no livro. Assim, dez delas têm o foco relato centrado na terceira pessoa:

I-"As margens da alegria"; II-"Famigerado";III-"Sorôco, sua mãe, sua filha"; IV-"A menina de lá"; V-"Os irmãos Dagobé"; VIII-"Nenhum, nenhuma"; X-"Seqüência"; XIV-"Um moço muito branco"; XIX-"Substância" e XXI-"Os cismos".

As onze estórias restantes são relatadas em primeira pessoa:

VI-"A terceira margem do rio"; VII-"Pirlimpsiquice"; IX-"Fatalidade"; XI-"O espelho"; XII-"Nada e a nossa condição"; XIII-"O cavalo que bebia cerveja"; XV-"Luas de mel"; XVI-"Partida do audaz navegante"; XVII-"A benfazeja"; XVIII-"Darandina" e XX-"Tarantão, meu patrão". Dessas onze estórias, apenas duas apresentam o narrador como protagonista: "O espelho" e "Pirlimpsiquice"; nas outras, o relato é feito por um espectador privilegiado, que presencia a ação e registra suas impressões a respeito do que assiste. O narrador pode ser também um personagem secundário da estória, com laços de parentesco ou e amizade com o protagonista.

Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo.

ESPAÇO


A maioria das estórias se passa em ambiente rural não especificado, em sítios e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos, arraiais ou vilas. Os ambientes são apresentados com poucos mas precisos toques: moldura de altos morros, vastos horizontes, grandes rios, pastos extensos, escassas lavouras. Duas estórias, no entanto - "O espelho" e "Darandina" -, transcorrem em cidades, pressupostas até como grandes centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência de secretarias de governo, hospício, corpo de bombeiros, jornalistas, parques de diversões, prédios de repartições públicas e outros serviços tipicamente urbanos.

PERSONAGENS


Embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, as personagens se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Resumo e Análise: CONCERTO CAMPESTRE (LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL)



CONCERTO CAMPESTRE
(LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL)



VEJA AQUI: AULA EM PPT E ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE O LIVRO E O FILME

1. A orquestra

A sociedade da pequena Vila de São Vicente reúne-se na capela da estância do Major Antônio Eleutério de Fontes situada nas margens do rio Santa Maria para prestigiar o concerto de Páscoa da orquestra da Lira de Santa Cecília. O Major, potentado em terras e charqueador, tomou gosto pela música após ouvir dois índios missioneiros tocadores de guitarra espanhola e rabeca que cruzavam por aquelas bandas meio mortos de fome. Desconfiado dos índios e por achar a música uma diversão de "borrachos e putas", pensou em mandá-los embora, mas, após ouvir os acordes que enchiam a casa de um clima de igreja, ofereceu-lhes morada, contrariando D. Brígida de Fontes, sua esposa.
O gosto do Major por música logo se espalhou pela região e apareceram tocadores desocupados em busca de emprego. Os índios desapareceram e os tocadores passaram a viver numa verdadeira orgia de bebedeiras e banhos no Santa Maria. O Major só não os mandou embora a pedido do Vigário que visitava a fazenda regularmente e lhe disse que encontraria urna solução para o caso.
Em janeiro, acompanhado de um baú de partitura, um bandolim, uma pequena mala e um penico, o Maestro chegou à estância com uma carta de recomendação do religioso. Dominado pela idéia de montar uma orquestra, o Major tinha resolvido aceitá-lo, sem antes lhe recomendar severidade para botar ordem naquela malta de degenerados e virtude se quisesse manter a pele.
Mais tarde o Vigário explicaria à família que o Maestro não era baiano como todos pensavam, mas sim, procedente de Vila Rica, em Minas Gerais, onde adquirira conhecimentos musicais com os sacerdotes. Depois de algumas andanças, viera para o Rio Grande e fora aprisionado durante a Revolução de 1835. Posto em liberdade, oferecera seus trabalhos ao Vigário de São Vicente, mostrando que era um grande conhecedor de instrumentos e músicas. Vivera assim por três anos até que, vencido pela indolência e luxúria ou pela vaidade, armara um escândalo ao seduzir uma criada de família. A fim de abafar o caso e proteger o harmonista, o Vigário resolvera enviá-lo à estância.
A chegada do Maestro causou espanto em todos. Clara Vitória, única filha mulher do Major, sentiu um certo asco ao ver entrar em casa aquele homem de pele escura crivada de manchas, mas ficou a espiá-lo enquanto o pai lia a carta do Vigário. O Maestro notou a presença dela e ficou encantado com a beleza da jovem. O Major Eleutério concedeu-lhe então o quarto de hóspedes que fazia divisa com o quarto de sua filha. A proximidade do quarto permitia à Clara Vitória ouvir todos os ruídos do músico e, já na primeira noite, perdeu o sono a escutar os movimentos do recém chegado.
O Maestro veio para a estância disposto a mudar de vida. Aos trinta e poucos anos, o trabalho civil era a ocasião esperada. Quando chegou, foi logo expulsando os bêbados e organizando um pequeno grupo de músicos, comandados com dureza. No galpão da estância, o Maestro preparava ensaios exaustivos sem conseguir muitos resultados. O padre, certa feita, em visita à estância, pediu-lhe urgência em apresentar algo satisfatório, pois o Major já estava ficando descontente. Nesta ocasião, o Vigário quis ir até a tapera do boqueirão, a fim de conhecer o lugar asqueroso onde crescia a videira responsável pelas famosas uvas fantasmas, corno eram chamadas pelos escravos.
O Major e o Vigário partiram acompanhados de escravos para aquele lugar retirado algumas léguas da estância onde havia uma tapera, abandonada há muito tempo. O padre surpreendeu-se com o aspecto infernal do lugar, mas, ao mesmo tempo, deliciou-se com as saborosas uvas colhidas ali. De volta em casa, os dois acompanharam um ensaio do Maestro, assustando-se com a demência sonora, o que levou o Vigário a comparar aquilo tudo com o início dos tempos, "do caos surgira a ordem", assim como também as uvas fantasmas haviam surgido no boqueirão, um lugar primitivo. Depois, o Vigário resolveu batizar a orquestra de Lira Santa Cecília, em homenagem à padroeira da música.

2. A paixão

Os encontros entre Clara Vitória e o Maestro tornaram-se freqüentes no pátio da estância. Aos poucos, a jovem começava a demonstrar interesse pela música e conseqüentemente também pelo Maestro, que fingia não perceber quando ela acompanhava seus ensaios às escondidas. Certa tarde, ao voltar do campo, o Major finalmente ouviu uma música tocada pela orquestra e maravilhou-se com o som harmonioso: agora sim aquilo lembrava a música dos índios. Com permissão do Major, o Maestro partiu para Porto Alegre a fim de buscar o que faltava para organizar uma verdadeira orquestra. Durante sua ausência, Clara Vitória se ocupou em bordar o enxoval em companhia de D. Brígida, que demonstrava grande interesse pelo casamento da filha com Silvestre Pimentel moço. órfão, mas de família importante, futuro herdeiro das posses do Barão de Três Arroios.
Na cidade, o Maestro visitou a Igreja Matriz e conheceu o famoso maestro Mendanha. Os dois conversaram e, após um desafio, Mendanha se espantou com o conhecimento musical do Maestro, convidando-o para vir fazer parte da orquestra da Matriz. O Maestro recusou o convite e, na cidade, percorreu os lugares de "má vida" em busca de músicos. Em um café, encontrou o rabequista carioca José Grilo, conhecido por todos como Rossini. O sujeito era grande conhecedor de música e de ópera e se orgulhava de ter tocado sob a regência do famoso Mestre José Maurício. Rossini aceitou o convite de fazer parte da Lira Santa Cecília. Após um mês na cidade, o Maestro retomou à fazenda devolvendo a alegria à Clara Vitória e ao Major.
Com ajuda de Rossini, iniciou a organização da orquestra. Por esta ocasião, o Maestro cometeu seu primeiro delito: passou uma noite com a cozinheira da estância que fora visitá-lo no quarto. Ele, por saber que a menina escutava tudo do outro lado, não pode deixar de provar sua hombridade. Na manhã seguinte, o fato espalhou-se, pois a menina contara tudo o que ocorrera à ama-de-casa. A cozinheira tinha sido mandada embora e o Major resolveu passar por cima do fato, deixando que o Maestro permanecesse na estância, pois "os homens mais erram pelas audácias das fêmeas".
Algum tempo depois, o Major Eleutério anunciou o concerto de Páscoa, a fim de mostrar para toda sociedade da vila sua pequena orquestra. Dona Brígida aceitou o evento com a pretensão de aproximar a filha. de Silvestre Pimentel. Na data marcada, reuniram-se na capela da estância os vizinhos do Major, entre eles o importante amigo Paracleto Mendes, o qual vinha com a família prestigiar aquela loucura do Major. Clara Vitória estava arrumada para encantar Silvestre Pimentel.
O concerto realizou-se com sucesso enchendo o Major de orgulho. Após a apresentação, todos se dirigiram à casa para se livrar do temporal que se armava. Clara Vitória, que tratara o sobrinho do Barão de Três Passos com total indiferença, ficou para trás a fim de elogiar o Maestro. Aproveitando-se da chuva torrencial, o músico conduziu a moça até a casa, protegendo-a com seu casaco. No seu quarto, passou a querer ardentemente a jovem em um desejo maior do que podia suportar. A moça, por sua vez, não conseguia dormir pensando no Maestro que revelava, pelos ruídos produzidos no quarto ao lado, também sofrer de insônia.
Na semana seguinte, D. Brígida visitou o enfermo Barão de Três Arroios para arranjar o casamento de Clara Vitória com Silvestre Pimentel, marcando as bodas para o Natal. A fim de manter uma proximidade entre os jovens, durante o inverno foram organizados bailes após a apresentação da Lira. Mesmo com a nova do casamento, a moça não deixava, no entanto, de pensar no Maestro. Os encontros entre os dois agora se realizavam com mais freqüência às escondidas de D. Brígida. O Maestro declarou, então, que compunha uma música para ela. Agora, ele sabia que Rossini tinha razão: amava a filha do Major.
A orquestra foi convidada para tocar na Igreja da Vila de São Vicente. Enquanto esperava a apresentação, Clara Vitória lembrou-se da tarde em que, ao ver que o Maestro compunha em seu quarto, aproximou-se e entrou. Ele explicou-lhe a música, mas não conseguiu disfarçar o olhar de desejo. A jovem lembrou-se também da noite em que roubara um vinho da cozinha e, após ter tomado um copo, adquirira coragem e foi até o quarto do Maestro. Os dois trocaram carinhos e ele a beijara na boca. Ela voltara para o quarto e não tinha conseguido dormir.
Na noite seguinte, depois que todos dormiram, Clara Vitória foi ao quarto de hóspedes. Tomados de desejo, os dois entregaram-se ao sexo. Assim, enquanto D. Brígida preparava o casamento, a filha encontrava-se no quarto com o Maestro em intensas noites de amor. Nas tardes de primaveras, a orquestra realizava suas tocatas para a família e convidados à sombra de um umbu, razão pela qual o Vigário, lembrando-se de um a antiga água-forte de um pintor italiano, deu nome ao acontecimento de Concerto Campestre.

3. Crime e castigo

Retomando seus pensamentos, Clara Vitória lembrou-se da tarde que havia passado com Silvestre Pimentel no pomar durante a visita ao Barão de Três Arroios. Ali soube que não poderia se casar com aquele homem tão formoso e tão inútil. Durante o concerto na capela da Vila, Silvestre Pimentel desmaiou e foi levado para a casa do Presidente da Câmara, sob os cuidados dela. Sozinha com o moço, ela sentiu um amargor na boca. E veio junto também a certeza de que estava grávida.
Os dias corriam plácidos rumo ao verão. Clara Vitória convivia com a gravidez sem ter com quem comentar o fato. Porém os sinais iam aparecendo: certa vez vomitou pelo quarto, o que fez com que a ama, que tinha a qualidade de saber de tudo, desconfiasse da condição da jovem. Durante a prova do vestido de noiva, a costureira notou o crescimento da barriga. Desesperada, a menina pensou em visitar Siá Parteira, anciã moradora das proximidades, conhecida por impedir algumas crianças de nascer, mas desistiu ao lembrar do estado em que ficavam as criadas depois dos abortos. Atormentada, procurou o Vigário em uma das suas visitas à Estância e, em confissão, pensou em lhe contar o que escondia de todos, mas não teve coragem. O padre notou a aflição de Clara Vitória e desconfiou que, durante o passeio ao pomar, a menina tivesse se entregado a Silvestre Pimentel.
A morte do Barão de Três Arroios obrigou a orquestra a compor marchas fúnebres. Durante o funeral, Clara Vitória mostrou-se carinhosa com Silvério Pimentel e com o filho dele, pedindo que o rapaz deixasse de chamá-lo de Afilhado e o re-conhecesse como filho. Algum tempo depois da morte do Barão, Clara resolveu procurar finalmente a anciã, mas não era mais possível retirar a criança, pois já havia passado tempo demais. Atormentada, a moça procurou o músico naquela noite pensando em contar tudo a ele, mas o Maestro a esperava com uma surpresa. Com a desculpa ao Major que a orquestra precisava ensaiar em céu aberto, longe dos ruídos, levou a amante para o campo, onde a orquestra tocou a música que havia composto para ela. Neste momento, colocou a mão sobre a barriga de Clara Vitória, mostrando-lhe que já sabia de tudo e que agora só bastava escolher o nome da criança.
A moça foi tomada de pavor por se sentir descoberta e voltou desesperada para casa. Agora faltava pouco para que todos soubessem e a sua morte chegasse. Pensou em não mais esconder a barriga e mostrá-la à ama Siá Gonçalves, mas recuou, pensou em falar para Bobó, seu irmão mais moço, mas não teve coragem. Por fim, também não mais apareceu no quarto de hóspedes. O Maestro tentava fazer contato à noite quando percebia que ela não conseguia dormir, mas era em vão. Aconselhado por Rossini, aproveitou a madrugada e foi ao quarto de Clara Vitória. Ficou surpreso pela imagem da jovem que parecia esperá-lo para uma obrigação. Então, ele recuou, angustiado.
O luto pela morte do Barão não demorou muito. Logo os concertos e os bailes na estância do Major recomeçaram. Silvestre Pimentel e Clara Vitória eram vistos por todos como noivos. Em um desses eventos, a jovem passara mal e fora socorrida pelo Vigário. Em segredo de confissão, ela contou o que se passava ao Vigário, que se sentiu culpado, traído pelo Maestro em quem depositara tanta confiança. Sem saber que rumo tomar, decidiu se aconselhar com o cônego de São Gabriel, mas foi em vão, pois o mesmo estava muito velho e nem o escutava mais direito. Resolvido a tomar alguma decisão, chamou Silvestre para uma conversa e disse a ele que a moça estava muito doente e precisava casar-se para que, se algo acontecesse, a morte a encontrasse em pleno estado do matrimônio. O Vigário lembrou que essa obra de caridade faria com que ele se livrasse da culpa por não ter aceito como filho aquele que todos conheciam como o Afilhado.
O padre, então, tentou convencer o Major e D. Brígida a antecipar a data do casamento, dizendo que a moça estava "desgraçada de amor". Os pais recusaram o pedido, pois desonrariam o nome da família se casassem a filha antes do tempo marcado. Foi numa tarde em que a moça não quis receber Silvestre, que a mãe, levando-a para sala, tentou entender o que se passava. Então, como se um sopro de Santo Antonio chegasse aos seus ouvidos, ela descobriu a gravidez da filha. "Você está grávida!"
Partiu para cima da filha e, se não fosse a intervenção de Siá Gonçalves, tê-la-ia assassinado ali mesmo. Depois, D. Brígida procurou o marido e contou-lhe tudo. Tomado de raiva, e em companhia do filho e do capataz, foi à casa de Silvestre Pimentel a fim de matar o rapaz e lavar sua honra. Silvestre tentou lhe explicar que tudo não passava de um terrível engano. Em vão. Debaixo de uma saraivada de tiros, o jovem caiu ferido. O Major, imaginando-o morto, voltou para casa.
No dia seguinte, chegou a notícia de que ele apenas se encontrava ferido. O Major Antônio Eleutério ordenou, então, que o capataz levasse a menina para a tapera no boqueirão. Em seguida mandou, sobre protesto de D. Brígida, pôr fogo no enxoval de Clara Vitória, determinado a apagar de vez a lembrança dela na casa. O Maestro, com remorso pelo ocorrido, quis ir até a tapera rever seu amor, mas foi barrado pelos capangas do Major. Siá Gonçalves lhe disse que o desejo da jovem era que ele fosse embora de vez. Ele, para fugir da morte, resolveu seguir para Porto Alegre.
As notícias da menina chegavam através do capataz, responsável por levar às escondidas um cesto de comida a pedido de Siá Gonçalves. A moça, imersa em solidão e entregue à própria sorte, esperava o bebê. O Vigário ainda tentara uma solução junto a Silvestre Pimentel, mas este preparava sua mudança para São Gabriel. Em Porto Alegre, Rossini e o Maestro encontraram trabalho na orquestra da Catedral. Entregavam-se a noitadas, porém o músico não conseguia esquecer o seu amor.
A estância era agora evitada por todos. Ninguém aceitava a atitude do Major, que chegou a proibir o Vigário de aparecer por lá e depois entrou em profunda depressão, bebendo compulsivamente. Aos domingos, na capela, passou a ter alucinações enquanto acompanhava os concertos invisíveis da Lira. Os filhos tentavam manter a ordem na estância e D. Brígida consumia-se na solidão de seu quarto. De certa feita, o capataz voltou do boqueirão dizendo que a menina estava banhada em sangue. Em companhia de Siá Parteira, Siá Gonçalves foi para lá e descobriu que Clara Vitória já havia do a luz a uma menina. Então, a criança foi entregue aos cuidados de uma negra da estância, sem que o Major soubesse.

4. A Redenção

Enquanto isso, em uma pensão de Porto Alegre, o Maestro recuperava suas forças, após uma doença que o deixara de cama. Na missa da catedral, havia tocado a música feita para Clara Vitória. Dias depois, arrebanhou alguns músicos e resolveu voltar à estância. Ao vê-los chegar, o Major foi assaltado por uma estranha alegria e resolveu organizar um concerto no domingo seguinte, data de seu aniversário. Convidou todos os moradores da região, mas foi avisado por Paracleto Mendes que ninguém compareceria. Com efeito, teve de almoçar sozinho e, num acesso de raiva e loucura, ordenou que o concerto fosse realizado da mesma maneira, sob o umbu.
O drama atinge seu apogeu: D. Brígida assiste a tudo com alegria vingativa. O Vigário chega ao cair da tarde e, vendo a cena, sente que algo extraordinário vai acontecer. No boqueirão, Clara Vitória ouve a música da orquestra e intui que o Maestro tinha voltado.
De repente, arma-se um temporal e, mesmo assim, o Major ordena que os músicos continuem tocando. Surpreso, o Vigário percebe que são pingos de sangue que caem do céu. O Major Antônio Eleutério, já totalmente bêbado, é colocado em sua poltrona, porém sem largar um revólver que carregava consigo, apesar do protesto dos filhos. Aproveitando-se da situação, o Maestro parte para o boqueirão. Um tiro então ecoa e o Vigário vê que o Major havia se suicidado. Rossini assiste a tudo como se tudo não passasse de uma verdadeira ópera.
A chuva já não caía e, no boqueirão, Clara Vitória percebe que alguém caminha em sua direção e logo ela descobre de quem se trata. Abre os braços e entrega-se ao "primeiro beijo de todos os beijos de sua longa vida".

O que observar

a) Publicada em 1997, a novela Concerto campestre assinala, na obra de Luís Antonio de Assis Brasil, um abandono dos grandes registros históricos que vinha produzindo nos anos anteriores, como Videiras de cristal (1990) e a trilogia Um castelo no pampa (1992-1994) e um retomo à notação mais intimista, voltada para os dramas pessoais e familiares, a exemplo de Manhã transfigurada (1982) e As virtudes da casa (1985).
b) Mesmo que o escritor rejeite a classificação de narrativas históricas conferida a suas ficções, alegando que apenas os relatos com personagens e fatos extraídos efetivamente das páginas da História mereceriam esta designação, o certo é que todas as suas obras - exceto O homem amoroso - situam-se no passado remoto da província (em especial, nos séculos XVIII e XIX), isto é, num tempo bastante anterior à existência concreta do autor. Este se vê, pois, obrigado a pesquisar a matéria-prima de seus textos, procurando em documentos e outros testemunhos escritos, os costumes, as circunstâncias e os princípios de vida de épocas irremediavelmente desaparecidas. O fato de fazê-las ressurgir cheias de vitalidade e frescor diante de nossos olhos não impede que estes romances e novelas sejam rotulados como históricos. São históricos, em síntese, por se reportarem a mundos mortos que não foram vivenciados diretamente pelo ficcionista.
c) Concerto campestre estrutura-se sobre dois temas interligados. O primeiro é o entusiasmo do Major Antonio Eleutério pela música que o leva a constituir uma orquestra em sua fazenda. O segundo são as conseqüências dramáticas que advêm da criação da orquestra, centradas no conflito entre a paixão e os valores patriarcais, núcleo central do enredo.
d) A afeição do Major pela música é um dos achados do texto. Ela ocorre quando o fazendeiro e charqueador já se encontra em idade madura e surpreende pelo fato dele ser um homem rústico, sem educação, a quem a arte nunca interessara. Montar a orquestra toma-se a sua obsessão e assim nasce, com o apoio do Vigário de São Vicente e com a direção do Maestro, um músico mineiro, este estranho conjunto formado por instrumentistas semi-vagabundos, capaz de espantar e mesmo de comover gente de uma sociedade tosca e primitiva. É de tal ordem a importância da orquestra (Lira Santa Cecília) para o Major que, após a dispersão do grupo, nada mais tem sentido em sua vida.
e) A música pontua todos os momentos dramáticos da narrativa. É ouvindo o maestro tocar bandolim em seu quarto que Clara Vitória descobre se apaixonada. (Não há como ignorar a sugestão do episódio em que Ana Terra se deixa seduzir pela emoção ouvindo Pedro Missioneiro executar sua flauta em O continente.) É também a peça composta para ela pelo Maestro que desencadeia os sentimentos vulcânicos que terminarão por conduzir a jovem à cama do mulato mineiro. Contudo, é no epílogo da novela que a referida composição exerce um papel decisivo e paradoxal: por um lado, acompanha a autodestruição do Major, em meio à tempestade e à chuva de sangue; por outro, anuncia à Clara Vitória, prisioneira no boqueirão, que o seu amado retomou e está lhe enviando um sinal exasperado de afeto.
f) o motivo do amor proibido pelas convenções - tema essencial da obra - é muito antigo na história literária e encontra seu apogeu no movimento romântico, sendo Os sofrimentos de Werther, de Goethe, a expressão mais perfeita deste enfrentamento quase sempre trágico. (Trágico porque em geral os amantes estão fadados à derrota diante dos obstáculos familiares, morais ou sociais.) Na literatura brasileira do século XIX, encontramos vários romances que lidam com essa temática: Inocência, do Visconde de Taunay, O seminarista, de Bernardo Guimarães, Lucíola, de José de Alencar ou até mesmo Dom Casmurro, de Machado de Assis.
g) As proibições familiares são mais impositivas e rígidas na sociedade agrária, onde os pais exercem um domínio despótico sobre os filhos. (Lembremos outra vez de Ana Terra.) Por isso, é nos romances de cenário rural que o confronto entre as normas patriarcais e a paixão dos amantes mais se intensifica, chegando quase sempre, em seu epílogo, à violência física e moral, quando não à destruição completa, em geral a dos enamorados.
Em Concerto campestre, a imposição dos valores paternos e o próprio ambiente rural, sintetizado na fazenda e na realidade fantasmagórica do boqueirão, parecem indicar que tudo marcha para um desfecho trágico, o que afinal acaba não ocorrendo.
h) A paixão de Clara Vitória pelo Maestro é terrivelmente transgressora tanto por razões étnicas quanto por razões morais e sociais. Etnicamente, a jovem branca não pode se apaixonar por um mulato. Moralmente, ela está comprometida (pela mãe) com outro jovem. Além disso, se entrega ao amante, num procedimento então inaceitável. Por fim, socialmente, ela é rica e o músico, um pobre-diabo, e o casamento entre jovens de classes distintas jamais se consumava, pelo menos no campo, onde os preconceitos eram mais fortes que na cidade.
i) O casamento arranjado pelos pais - fonte de muito infortúnio para os jovens da época - cristaliza se na escolha que D. Brígida faz de Silvestre Pimentel para ser o marido da filha, naturalmente sem consultá-la. Na ocasião, o Maestro emite uma lúcida reflexão sobre os dramas que tais escolhas geravam:
Esses matrimônios resolvidos pelos pais eram comuns entre as famílias bem-postas, em qualquer lugar do Brasil. Sabia o resultado: mulheres doentes de solidão e desespero, mastigando rezas infindáveis em frente às vidraças de seus oratórios seculares e vivendo nos limites do pecado; a conter tanta seiva, a aspereza dos maridos, a diligência dos padres e o terror do inferno.
j) Os apaixonados formam uma dupla de personagens verossímeis e plenos de humanidade. O Maestro, talentoso e mulherengo, mas ressentido com a questão de sua cor, representa o poder de sedução do artista sobre os corações sensíveis. Já Clara Vitória - na linha de inúmeras protagonistas de Assis Brasil - traduz um tal gosto pela vida, uma tal ânsia de ser feliz e de exercer sem repressões a sensualidade exuberante, um tamanho desejo de escolher seu próprio destino, que os leitores ficam a seu lado e admiram sua coragem de enfrentar o sistema patriarcal.
k) A visão anti-preconceituosa que Clara Vitória tem sobre a existência manifesta-se não apenas no amor que nutre por um mulato pobre, mas na forma despachada com que ela trata o problema do Afilhado (filho natural de Silvestre), induzindo o rapaz a assumir a criança como filho legítimo.
l) O instinto de sobrevivência e vontade de manter a lucidez de Clara Vitória sintetizam-se na belíssima cena em que ela, sozinha no boqueirão, percebe estar caindo em um abismo de mudez, e passa então, com gritos, a designar as coisas que a rodeiam:
Clara Vitória baixou a cabeça e de imediato deu-se conta de que mandara embora o capataz sem nenhuma palavra, e que logo não saberia mais falar, e, alucinada, começou a gritar para o que via: passarinho! árvore! nuvem! sol! sol! nuvem!
m) Na galeria de personagens importantes ainda que não examinados em sua interioridade avultam D. Brígida, personalidade caricatural em sua ignorância e visão mesquinha da existência, e a figura de Silvestre Pimentel, o "prometido" de Clara Vitória, que condensa os valores opostos aos do Maestro: apesar de branco, rico e fisicamente atraente, é a um só tempo tosco e insensível.
n) Entre os personagens secundários destacam-se o Vigário de São Vicente, admirador da música e bastante tolerante e humano se comparado aos padres de sua época; Rossini, o rabequista amigo e confidente do Maestro, e que desenvolve uma teoria vinculando o amor proibido à ópera. (Aqui, há forte ressonância de Dom Casmurro, pois Marcolini, um velho tenor italiano, apresenta a Bento Santiago a teoria da similitude entre a vida e a ópera.)
Já os criados Siá Gonçalves e o capataz - embora originalmente fiéis a seus patrões - acabam comovidos com o drama de Clara Vitória e, por piedade, tratam de ajudá-la, cada qual a sua maneira.
o) O titula da novela nasce dos concertos campestres promovidos pelo Major na fazenda:
Logo começavam os calores de uma primavera precoce, aturdindo os pássaros e despertando a letargia das árvores. Houve o início dos concertos campestres. A Lira Santa Cecília vinha para frente da casa e, sob o umbu, realizava suas tocatas para a família e os convidados.
Os concertos campestres correspondem também ao momento em que Clara Vitória começa a se entregar com loucura ao Maestro, descobrindo-se totalmente apaixonada:
Tudo, seu corpo, as pessoas, os campos, tudo era novo, pleno de uma nova existência.
p) Outro achado do texto é o boqueirão. Cenário de grande apelo dramático, este ermo, dominado por aranhas, morcegos, ventos gélidos, ruídos assustadores e gritos inumanos, como se de fantasmas, é quase um espaço gótico com seus horrores e sua desolada solidão.

Estrutura narrativa e linguagem

a) Relatada por um narrador onisciente em terceira pessoa, a história é linear em sua superfície, já que na camada mais profunda da mesma há, nos dois primeiros capítulos, um sutil desvio na seqüência cronológica. O processo é o seguinte: o narrador revela os acontecimentos (a primeira apresentação da orquestra, por exemplo) e, páginas adiante, retorna aos mesmos, mas agora sob novos ângulos e visões, acrescentando outros significados a eventos que já nos tinham sido mostrados. No caso, as perspectivas de D. Brígida e Clara Vitória sobre a formação da Lira Santa Cecília e sobre o que iria acontecer no dia do concerto de Páscoa modificam e ampliam o teor daquilo que antes fora apenas uma apresentação musical. Também a paixão de Clara pelo Maestro é revelada antes que as circunstâncias que a desencadearam e a tornaram possível.
b) À linguagem elevada e precisa - que sempre o caracterizou - Assis Brasil incorpora certas expressões de época, certo gosto passadista nos vocábulos e imagens, certa tendência a um tom sentencioso, como se pode ver nos exemplos abaixo:
"percorreu os lugares de má-vida onde havia música..."
"ainda não descobrira os confortos da moralidade"
"Ficaria à espera, pois a paciência é a qualidade de quem ama. "
"Achava-o engraçado, o primeiro passo para aniquilar qualquer possibilidade de amor."
c) Os recursos plásticos (visuais) - um dos aspectos mais positivos do ficcionista sul-riograndense - são visíveis em várias e inesquecíveis cenas. A mais espetacular é a chuva de sangue que ocorre em meio à tempestade que acompanha o desabamento do mundo pessoal do Major. Enquanto este, totalmente bêbado, dança ao som da orquestra em sua última apresentação na fazenda, as gotas viscosas de sangue caem sobre as pessoas como se fosse o apocalipse.
Há outros momentos de grande beleza visual, como a última cena da novela (Clara Vitória nua no arroio à espera do seu amado); ou ainda, a apresentação especial da orquestra para a jovem realizada ao amanhecer, no meio do campo; ou mesmo sua chegada ao fantasmagórico boqueirão, com seu arroio de "águas de chumbo", suas "nuvens baixas e inexplicáveis", seus "uivos de alma penada".

* Fonte: Leituras Obrigatórias Ufrgs 2009, Editora Leitura XXI. Análise de Juares Souza e Sergius Gonzaga