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sábado, 24 de outubro de 2009

Lobo Antunes apresenta "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?"


"Criar - ou tentar criar - é um ofício de trevas", defendeu hoje, António Lobo Antunes, no lançamento do seu novo livro, "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?". O escritor apresentou o livro esta quinta-feira no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz em Lisboa.


Depois de afirmar que "é muito difícil falar de um livro" e de citar o seu falecido amigo José Cardoso Pires, que dizia que nenhum escritor gostava de falar sobre o que escrevera, Lobo Antunes tentou, embora admitindo: "Há ali uma parte que me escapa".

Falou de um verso de Ovídio que sempre o obcecou e continua a obcecar - "Lentos, lentos ide, ó cavalos da noite" - do seu quadro preferido, "As Meninas" de Velásquez, e de uma frase de Einstein citada pelo pianista Alfred Brendel: "É preciso fazer as coisas o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso".

Observou, depois, que "a arte é a nossa única hipótese de vitória sobre a morte".

"Daí o medo que existe da arte - é que ela contém em si uma outra forma de olhar para as coisas, que nós recusamos. Então, é muito tranquilizador as telenovelas, aquilo a que chamam 'literatura light', que não sei o que é... todas essas formas de expressão de sentimentos que nos impedem, de facto, de entrar no íntimo de nós", referiu.

Editado pela Dom Quixote, do grupo Leya, "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?" foi apresentado pela vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, amiga de Lobo Antunes, com sala cheia.

A Professora catedrática começou por falar de toda a obra do escritor, para atribuir o seu sucesso a "um paradoxo de enunciação relativamente simples: os romances de Lobo Antunes fascinam apesar de nos incomodarem e, em larga medida, fascinam porque nos incomodam".

Considerando que "estes cavalos saem da mesma matriz que alimentou os livros precedentes", Cristina Robalo Cordeiro sustentou que, "em modo sempre obsessivo, são três as grandes oposições que marcam o texto, como motivos estruturantes e configuradores".

"A primeira - enumerou - incide no próprio tecido textual que, embora desenhado pelas forças da polifonia e do caos, da dissecação de figuras disfóricas e da obstinação de memórias labirínticas, tão nossas conhecidas, controla o fluxo verbal em rigorosa ordenação compositiva".

A segunda oposição - prosseguiu - "desorienta a leitura e instaura uma 'estética do desprazer', provocando no leitor uma oscilação entre o desconforto e a fruição".

Por fim, a terceira oposição - aquela que a académica classificou como "a mais surpreendente" - "inscreve-se de imediato no título: porquê enunciar com uma frase tão lírica o universo sórdido da triste realidade humana em que a narrativa nos fará entrar?".

A terminar a sua intervenção, António Lobo Antunes anunciou a intenção de "continuar a viver com a orgulhosa humildade" com que sempre tem vivido e concluiu com uma frase de Newton: "Não sei o que o futuro pensará de mim. Sempre me imaginei uma criança a brincar na praia, que às vezes encontra um seixo mais polido, uma conchinha mais bonita, enquanto o grande oceano da verdade permanece intacto à minha frente".

Lusa

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura




DANIEL BENEVIDES
do portal UOL

Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.

Capa do mais recente livro de Lobo Antunes lançado no Brasil

LEIA TRECHO DO LIVRO
"Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00 (vinte e duas horas e zero minuto) na direcção da Amadora onde julga-se que por volta das 22h30 (vinte e duas horas e trinta minutos) hipótese sujeita a confirmação após interrogatório quer dos suspeitos quer de eventuais testemunhas até ao momento não localizadas furtaram pelo método denominado da chave-mestra (sujeito a confirmação também e que adiantamos como provável derivado ao conhecimento do modus operandi do grupo) 2 (duas) viaturas particulares de média potência estacionadas nas imediações da igreja a curta distância uma da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos (vandalismo ou situação natural?)permitiam actuar com maior discrição após o que se dirigiram para a saída de Lisboa no sentido da auto-estrada do norte utilizando a via rápida que por não se acharem as ditas viaturas munidas do dispositivo magnético necessário à sua utilização registou as matrículas conforme fotocópia anexa aliás não muito nítida e previne-se peitosamente o comando para a urgência de melhoramentos no equipamento caduco: fotocópia número 1 (um) embora perceptível é verdade com uma lupa decente.

Temos motivos para adiantar com base em actuações pretéritas essas sim já aferidas que os suspeitos se distribuíram nos veículos de acordo com a ordem habitual ou seja o chamado Capitão de 16 (dezasseis) anos mestiço, o chamado Miúdo de 12 (doze) anos mestiço, o chamado Ruço de 19 (dezanove) anos branco e o chamado Galã de 14 (catorze) anos mestiço na dianteira e os restantes quatro, o chamado Guerrilheiro de 17 (dezassete) anos mestiço, o chamado Cão de 15 (quinze) anos mestiço, o chamado Gordo de 18 (dezoito) anos preto e o chamado Hiena de 13 (treze anos mestiço assim apelidado em consequência de uma malformação no rosto (lábio leporino) e de uma fealdade manifesta que ousamos sem receio embora avessos a julgamentos subjectivos classificar de repelente (vacilámos entre repelente e hedionda) a que se juntava uma clara dificuldade na articulação vocabular muitas vezes substituída por descoordenação motora e guinchos logo atrás, salientando-se a importância do chamado Ruço ser o único caucasiano (raça branca em linguagem técnica) e todos os companheiros semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado à margem do presente relatório sobre a justeza da política de imigração nacional. Cerca das 23h00 (vinte e três horas e zero minutos) as duas viaturas alcançaram a primeira estação de serviço do trajecto Lisboa-Porto a cerca de 30 (trinta) quilómetros das portagens tendo parado com os motores a trabalharem
(existia apenas uma furgoneta numa das bombas) diante do estabelecimento envidraçado no qual se efectua a liquidação do montante de gasolina adquirida e onde se pode malbaratar dinheiro em revistas jornais tabaco (espero bem que não álcool) pastilhas elásticas e ninharias. No citado estabelecimento encontrava-se o empregado a conversar sentado à caixa registadora com o condutor da furgoneta e outro empregado mais idoso a varrer o soalho adjacente a uma porta de escritório ou compartimento de arrumos (deseja-se que não destinado à venda clandestina de bebidas espirituosas)
com a placa Interdita A Entrada mal aparafusada à madeira. Os suspeitos apetrecharam-se de gorros de lã e óculos escuros e ingressaram sem pressa no local (de acordo com o depoimento do empregado da caixa um deles e ignora a especificação do indivíduo assobiava) transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército e concedo-me uma breve digressão no meu entender não inteiramente despicienda para sublinhar no caso de me autorizarem uma nota íntima que as estações de serviço à noite iluminadas na beira do caminho me fazem sentir menos desditoso e só quando regresso de Ermesinde aos domingos de madrugada da visita mensal à minha filha, o mundo com as suas árvores confusas e as suas povoações logo perdidas cujo nome desconheço me surge demasiado grande para conseguir entendê-lo e as bombas de gasolina próximas, nítidas, ia escrever cúmplices mas retive-me a tempo me garantem que apesar de tudo possuo um lugar ainda que ínfimo no concerto do universo, alguém talvez me espere tomara descobrir em que sítio com a chávena de um sorriso numa toalha amiga e eu comovido senhores, eu grato, peço perdão de inserir num documento oficial e em papel do Estado este desabafo importuno e este desejo absurdo de companhia: rodar a fechadura e escutar na despensa, na sala, não ouso sugerir que no quarto uma voz que pronuncia o meu nome
- És tu?
em vez do silêncio do costume e da indiferença das coisas de modo que as estações de serviço à noite, escrevia eu, se avizinham da noção de felicidade que há tanto tempo procuro. Adiante. Prosseguindo o presente relatório de que sem desculpa
(estou cônscio do erro e penitencio-me dele) me desviei os suspeitos transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército ingressaram sem pressa
(um deles, e a dúvida de qual deles, assobiava) no local sem que o empregado da caixa ou o condutor da furgoneta lhes dessem atenção ocupados a comentarem a notícia
de um periódico desportivo e foi o empregado que varria o soalho adjacente ao escritório ou compartimento de arrumos (o qual não continha, acrescento com alegria, bebidas espirituosas embora não ponha de parte, que vigaristas não faltam, a hipótese de as haverem ocultado antes da minha visita) quem se apercebeu do assalto erguendo a vassoura e prevenindo o sócio - Olha estes miúdos pretos César
sem oportunidade para mais considerações dado que uma das espingardas de canos serrados disparou 5 (cinco) projécteis consecutivos não se lhe notando sangue na roupa, o sangue na parede atrás dele depois de cair em estremeções sucessivos isto é poisando as nádegas no chão a olhar os suspeitos ou não olhando ninguém conforme o meu padrasto levantava a cabeça cega das palavras cruzadas a remoer sinónimos e a baixava de novo preenchendo os quadradinhos em maiúsculas triunfais, a mão direita
(do empregado não do meu padrasto) alongou-se, o médio, que durou mais que os outros dedos encolheu um tudo nada (estou a vê-lo daqui) e pondero se o vento tocava os arbustos lá fora ou os deixava em paz: durante séculos em criança pensei que as árvores sofriam, os teixos por exemplo uma mágoa quieta, eu às pancadinhas nos
troncos
- O que se passa com vocês?

e nenhuma resposta, dores secretas como em geral os ramos, fingem continuar, disfarçam-nas e no entanto quando pensam que os não vemos fabricam um lagarto numa ranhura da casca que é a sua forma de segregarem lágrimas, o condutor da furgoneta julgou recuar um passo e proteger-se com uma pilha de revistas sem recuar passo algum, uma coronha de pistola apanhou-lhe o ombro e a metade esquerda dos ossos que uma sobrancelha a tremer amparava, desajustou-se da direita o meu padrasto esse aguentava a cólica renal com o auxílio não da sobrancelha, da palma empurrando-a para o interior da cintura
- Não me atormentes agora

e tenho a certeza que os arbustos da estação de serviço a sacudirem flores miúdas sem nome, tantas folhas a vibrarem desejando que as socorrêssemos
- Eu eu

um dos suspeitos deu a volta ao balcão e entornou a gaveta da caixa num saco, um automóvel desceu para as bombas de gasolina porque buxos novos surgiram do escuro, uma claridade geométrica fixou-se no tecto, aumentou e o que eu não pagava para observar os buxos, o condutor da furgoneta indiferente a eles mancou um passo na direcção dos faróis com a sobrancelha a puxá-lo e a metade que não pertencia à sobrancelha um peso mole a resistir, o cano da pistola um fuminho, ninguém se apercebeu do ruído (ter-me-ia apercebido do ruído se estivesse com eles?) o condutor da furgoneta de joelhos contra a vontade da sobrancelha indignada com a desobediência
- O que é isto?

e isto é um peito que tomba, não uma pessoa, um sapato a dilatar-se, a argola das chaves que se desprendeu da algibeira e a argola que esquisito um ruído imenso, lento, o empregado da caixa sem entender o sapato enorme e as chaves, um nariz que escorregou para a boca (engole-o não o engole?) os (não engole) suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram a estação de serviço às 23h10 (vinte e três horas e dez minutos), continuaram para Santarém e os arbustos serenos, a certeza que num ponto do escuro, talvez na minha cabeça (creio que na minha cabeça) uma janela a bater, o meu padrasto para a minha mãe do interior das palavras cruzadas
- A janela

(de tempos a tempos quando menos espero um incómodo de gonzos, a voz dele
- A janela

eu a espreitar em torno, nem uma corrente de ar para amostra e no entanto a certeza de um estranho respirando-me no pescoço comigo a perguntar
- Qual janela?)

as viaturas furtadas cortaram à direita 12 (doze) quilómetros acima e o dispositivo magnético esquecido da sua obrigação
(- Qual janela?)

não assinalou as matrículas, pinheiros bravos, carvalhos (não sou forte em Botânica e estava aqui a pensar se arrisco castanheiros ou não, não arrisco, como descrever um castanheiro em condições?) vivendas de emigrantes algumas por completar
(quase todas por completar, basta de imprecisões rapaz, gosto de me tratar por rapaz aos sessenta e três anos, dá-me a ilusão que a morte, deixemos o assunto, siga a banda) um cozinheiro de cerâmica de tamanho natural com a ementa em riste a anunciar uma churrascaria ou seja uma esplanada de cadeiras empilhadas e guarda-sóis recolhidos, a sedazinha turva de um gato a escorrer almofadado de um tapume, um rádio numa varanda aberta que os suspeitos não escutaram, depois do chafariz uma travessa, duas travessas, a nossa casa que podia ser acolá e não era, a minha mãe para o meu padrasto

- Fazias melhor se largasses o jornal e vedasses a janela

insistem que me pareço com a minha mãe e argumento que não, comparando com o retrato
(não me lembro em pormenor das feições) talvez as orelhas e o contorno do queixo, a expressão nem sonhar, de acordo com a minha mãe de resto eu o meu pai por uma pena
- Já não me bastou um tenho que aturar outro quando o meu pai um pacífico coitado, depois da reforma cantava no orfeão da paróquia e via a chuva cair, tardes e tardes no sofá murmurando não imagino o quê
(a minha mãe imaginava- Lá estás tu)

a ver a chuva cair, uma travessa, duas travessas, no fim da segunda travessa um largo e no largo uma loja de telemóveis, o meu pai trabalhou na Polícia também não como agente de investigação claro, faltavam-lhe miolos, nos Serviços Gerais, copiava minutas, carimbava, contava as moscas no estore, o chefe do fundo
- A pensar na morte da bezerra Gusmão?

quatro dos suspeitos, 23h48 (vinte e três horas e quarenta e oito minutos) saíram dos bancos da retaguarda das viaturas furtadas e quebraram a montra sem se preocuparem com o alarme que principiou aos uivos, não uma campainha, uma espécie de sereia a sacudir o sistema solar a mãos ambas, onde moro as ambulâncias descolam-me o lustre com os seus berros de esfaqueadas e os pingentes arrepiam-se trocando de posição enquanto os vizinhos
- Que susto

os suspeitos encheram as bagageiras de caixotes cabos instrumentos acessórios e decorridos onze minutos precisamente, às 23h59 (vinte e três horas e cinquenta e nove minutos) seguiram em sentido inverso de regresso a Lisboa, a segunda travessa, a primeira travessa, o chafariz com uma torneira de latão que mesmo fechada
continuava a pingar, a música do rádio que não escutavam enquanto a sereia transmitia as suas ânsias num deserto de sombras, os pinheiros bravos, os carvalhos, a via rápida que desta vez(há coisas que funcionam valha-nos isso num país em decadência)
fotografou as matrículas conforme consta do respectivo documento apenso
(no caso de não ter caído ao chão)
que se o meu pai continuasse vivo e escriturário
(não tenho vergonha do meu pai não se acredite nisso)
lhe passaria pela mesa para o visto de entrada
(não se demorava a lê-lo pois não senhor?)
terminando no colega que os despejava num cesto em que não se mexia, mais maçadas para quê o que não falta são crimes
(- Desculpe se a contrario mãe mas o que herdei do meu pai?)
hesitaram na estação de serviço na volta entramos não entramos, principiaram a travar, guinaram para um cachorro vadio sem conseguir atingi-lo, desistiram da estação de serviço e do bicho que aliás desapareceu numa madeixa de moitas, preferiram um casal num carro, o homem ao volante todo pinoca e a mulher a pentear-se inclinada para a frente no espelho da pala, colocaram o carro do casal entre as viaturas furtadas
(não tenho vergonha do meu pai?)
e foram abrandando tocando-lhe de leve, a mulher deixou de pentear-se e diminuiu no banco, o pinoca tentou obliquar para a outra faixa e uma batida no ângulo do pára-choques impediu-o de maneira que o carro e o casal imobilizados aos poucos, 00h14 (zero horas e catorze minutos) de acordo com o depoimento da mulher sujeito ao erro do medo, na minha opinião eu que refiz o percurso 00h30 (zero horas e trinta minutos) no mínimo e um espaço à direita
para os postes de chamada de quando os radiadores avariam, experimentei-o e uma mudez comprida
(afinal nem uma só coisa trabalha num país em decadência)
eu para ali feito parvo de aparelho no ar e o meu ajudante pelo vidro descido
- Largue isso
cheio de opiniões o presunçoso, faça assim não faça assim, mais alto que eu, com dois terços da minha idade e o cabelinho abundante, decidido a tomar-me o lugar e há-de tomar-me o lugar é uma questão de meses porque neste Purgatório injusto são os que sabem agradar aos patrões não os que trabalham quem ganha
(tenho sentido isso na carne, não me promovem há anos, a mesma função, o mesmo ordenado e agradece)
e ao tomar-me o lugar não me atreverei a palpites pelo vidro descido
- Largue isso
fico à espera obediente, composto, tem razão senhora, eis o meu pai chapadinho, dêem-me um carimbo e eu feliz, humedeço-o na almofada e o escudo da República brilhante de tinta no ângulo superior direito das páginas, o carro do casal adornado na berma com as viaturas furtadas encostando-se a ele, não árvores desta feita e por conseguinte não hipótese de castanheiros que não me atreveria a descrever, pinheiros e carvalhos vá lá, castanheiros
não, tenho consciência dos meus limites, não árvores, um carril de protecção a impedir um valado com um ribeiro em baixo, visto que lodo a saltar entre caniços e na primavera seixos transformados em rãs que ganham pernas, se arqueiam, diz-se que comem mosquitos, os suspeitos fora das viaturas sem gorros nem óculos, um branco,
um preto e seis mestiços
(creio ter mencionado isto tudo)
de idades compreendidas
(curiosa expressão, quem compreende as idades?)
entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos, o mais velho o branco a que chamam Ruço e não mandava um cisco, o pinoca a travar as portas, a mulher esquecida do cabelo
- Jesus
não se estava na primavera e portanto não rãs, seixos que não ligavam aos mosquitos e ervinhas com ambições de juncos não realizadas por enquanto, os suspeitos utilizaram as chaves-mestras nas portas, um camião passou por eles com um atrelado de vitelos de que se distinguiam reflexos de pêlo, mandíbulas, baba, um dos pneus solto ia dançando no eixo e o sujeito na cabine com uma ferradura no tejadilho a dar sorte, nunca acreditei em amuletos, ferraduras figas trevos de quatro folhas de esmalte, ou se nasce de cu para a lua ou não se nasce, não nasci e acabou-se não vou chorar por isso embora haja ocasiões em que uma lágrima não me caísse mal, impeço-a de chegar ao olho empurrando-a com o polegar e que remédio tem ela senão voltar para dentro e desistir, adeus lágrima, a porta do pinoca e a porta da mulher escancaradas, o pinoca"


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Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".

Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros", de 1981). Mais ou menos porque o papel do leitor é um tanto difícil, exige dedicação e tenacidade.

Ainda que Antunes considere seus livros fáceis, fato é que sua escrita tem a densidade e o emaranhamento de uma selva profunda, com poucas clareiras. Mas também é verdade que, ao se aventurar pelas frases incomuns de seus romances, o leitor chega ao final recompensado por uma experiência literária única, estimulante.

"O Meu Nome é Legião" é uma verdadeira polifonia de vozes, tempos e registros diferentes. Começa na forma de um relatório policial sobre os crimes cometidos por uma gangue de garotos da periferia de Lisboa: "um branco, um preto e seis mestiços (...) de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos". Há muita violência e a forte sugestão de ódio racial, o que remete ao período colonial. Aos poucos, o policial em final de carreira que anota os fatos deixa-se levar por memórias e pensamentos aparentemente aleatórios.

O escritor português António Lobo Antunes durante entrevista em Paraty (RJ), onde esteve para participar da Flip (03/07/2009)

A narração então se esparrama por vias de curvas quase impossíveis e cruzamentos bruscos. A impressão é que o livro ganha vida autônoma, toma as rédeas para si. A pontuação se rebela, os parágrafos são cortados no meio por estranhos parênteses, as falas surgem inesperadamente, confundindo-se com os fluxos de consciência, nem sempre com o habitual travessão. Imagens variadas passam pelos olhos à medida em que as vozes e testemunhos se alternam e/ou se sobrepõem.

Ora sabemos o que pensa a mãe de um dos criminosos, o chamado Miúdo, ora a irmã de outro, o Hiena; ora deparamos com o depoimento íntimo de uma prostituta branca, amante do Gordo, o mais silencioso da gangue, ora mergulhamos nas impressões de um avô desencantado.

Nesse meio tempo, a polícia vai fechando o cerco e matando alguns dos delinqüentes com requintes de crueldade.

Perto do final, "ouvimos" a versão dos miúdos, de como foram mal amados, maltratados, excluídos na infância. O livro que tratava das desigualdades -- raciais, sociais, geográficas --, da violência urbana extremada e, em última instância, do Mal que nos invade como demônios, fala agora de Amor, amor pela humanidade, compaixão. É assim que o próprio escritor vê seu romance, que considera um de seus melhores.

O título, resumo simbólico do enredo, surgiu para Antunes só no final da escrita. Vem de um episódio no Evangelho de São Lucas. Jesus se encontra com um homem nu e desfigurado, possuído por espíritos malignos, e pergunta por seu nome. "O meu nome é legião", responde o infortunado, "porque somos muitos".



Em "Explicação dos Pássaros", Lobo Antunes trata do fim de um relacionamento


"Explicação dos Pássaros"
Trata-se do quarto romance de António Lobo Antunes e o primeiro propriamente de ficção, surgido depois dos autobiográficos "Memória de Elefante" (1979), "Os Cus de Judas" (1979) e "Conhecimento do Inferno" (1980), que tratam de sua experiência como psiquiatra em Lisboa e como médico na guerra de Angola.

"Explicação dos Pássaros" traz já a marca de seus escritos mais audaciosos, adotando a técnica polifônica, com andamentos para trás e para a frente no tempo.O autor declarou ser esse o primeiro livro do qual não se envergonha. E que foi o único a lhe sair rápido: escreveu-o em apenas seis meses ("um milagre").

A história trata do fim de um relacionamento, mas também, de certa maneira, de Portugal. O professor universitário Rui S. viaja da carro com sua segunda mulher, Marília, por quatro dias. Atormentado por recordações, está decidido a pedir-lhe a separação.

Lobo Antunes recebeu em 2007 o Prêmio Camões e em 2008 o Juan Rulfo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

António Lobo Antunes aplaudido de pé em Paraty


Festa literária internacional recebeu escritor português

por Isabel Coutinho (Público.PT)

"A amizade é como o amor. A gente encontra um homem e fica amigo de infância. Descobre um passado comum e há um princípio de vasos comunicantes que começa ali." Foi assim que António Lobo Antunes iniciou a sua conversa com o jornalista e escritor brasileiro Humberto Werneck, no sábado à noite, na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Primeiro ouviu sem dizer palavra a apresentação do jornalista - ignorando algumas perguntas que este lhe ia fazendo - mas quando resolveu começar a falar nunca mais parou. De tal maneira que, no final, nem houve espaço para perguntas do público.

"Nós almoçámos juntos ontem e foi um encontro maravilhoso", disse o escritor português acerca do autor do livro O Santo Sujo - A vida de Jayme Ovalle que ali estava com a função de o apresentar e de lhe fazer perguntas. Talvez por isso foi um António Lobo Antunes em estado de graça - divertido, bem-disposto, a fazer piadas, a contar histórias de infância, a aconselhar livros - aquele que em Paraty conquistou a multidão que o aplaudiu de pé no final da palestra que decorreu na Tenda dos Autores e tinha como título Escrever é preciso. Lá fora, na Tenda do Telão, os bilhetes para a sessão também estavam esgotados. E, tal como aconteceu já em outras conferências, havia gente de pé que não conseguiu bilhete. A meio da conferência, o escritor disse para a plateia: "Se vocês continuarem aplaudindo, não vamos sair daqui nunca".

O escritor português tinha começado a ler o livro sobre Jayme Ovalle escrito pelo seu companheiro de palestra no dia anterior e isso fez com que voltasse atrás no tempo. A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará do século XIX que o seu avô fazia. E serviu de mote para início de conversa.

"Para mim, o Brasil não é um país. São os cheiros, os sabores, os doces da minha avó e das minhas tias, a comida, uma maneira de viver e de falar e é sobretudo o meu avô, que está aqui presente em toda a parte. É a terra dele, é a terra da minha família. É a terra de onde vêm os meus nomes Lobo e Antunes", e por isso para o escritor é "muito comovente" estar de novo no Brasil, onde - apesar de ainda aqui ter família - já não vinha desde 1983.

"Os meus bisavós [que viviam em Belém do Pará] mandavam engomar a roupa à Europa e iam todos os anos a águas a Vichy. Viviam como nababos. E uma vez passaram em Lisboa e deixaram o meu avô no Colégio Militar." Era o seu avô António Lobo Antunes, que era oficial de cavalaria e depois entrou na revolução monárquica em 1918. Foi preso, desterrado para África e acabou depois por ficar em Portugal. Este avô de Lobo Antunes falava com sotaque de Belém do Pará.

Os livros que havia em casa deste avô de António eram só livros brasileiros. Machado de Assis, José de Alencar, Azevedo, Monteiro Lobato, toda essa geração. Embora o avô de Lobo Antunes lê-se pouco. "Um dia, quando eu tinha doze anos, o meu avó mandou-me chamar ao escritório. Estava com um ar muito severo, muito zangado. Mandou-me sentar em frente dele e disse-me: 'Ouvi dizer que você escreve versos'. Fez-se um silêncio. 'Você é veado?'", conta Lobo Antunes enquanto a plateia se ri às gargalhadas. "Para o meu avô, oficial de cavalaria, quem escrevia versos tinha que ser veado [homossexual]. Eu não sabia o que era ser veado mas disse logo que não. 'Não, não, não'. Então fui tirar informação. E aquilo que me disseram ainda me tornou mais confuso."

Sonetos a Cristo

António Lobo Antunes começou a escrever versos "por necessidade material". O seu outro avô tinha morrido e a sua avó era uma mulher "muito piedosa, tinha um oratório em casa, estava sempre rezando". Então, António Lobo Antunes fazia "sonetos a Cristo" que depois vendia à sua avó. "Isso foi muito bom porque me salvou de andar a pedir esmolas nas esquinas. Entregava-lhe um soneto, fazia um ar triste, ela tinha um oratório muito grande - a minha avó portuguesa - e, à frente do oratório, não sei porquê, é uma relação curiosa, tinha o cofre do dinheiro, mesmo em frente dos santos. Santos, santos, santos e por baixo, o dinheiro. Eu entregava-lhe o soneto a Cristo, que ela punha no oratório, ficava a olhar para ela com olhos de cão batido, até que ela dizia: 'Quanto queres, filho?'." Risos por toda a plateia.

O Prémio Camões 2007 tem seis irmãos, todos homens, e entre ele e o quarto irmão existem cinco anos de diferença. A avó do autor de Os Cus de Judas, a determinada altura, tinha uma cozinheira "muito bonita". Os rapazes iam à missa com a avó ao domingo. A seguir, corriam para casa antes que a avó chegasse para andarem à volta da cozinheira. E, contou António Lobo Antunes, a senhora resolveu "o problema" de uma maneira muito diplomática. "Disse-nos: 'A partir de agora, vocês têm conta aberta na pastelaria, podem comer todos os bolos que quiserem. E, como os bolos da pastelaria eram melhores que o 'bumbum' da criada, nós, em vez de irmos para casa, passámos a ir comer bolos para a pastelaria."

Como eram muitos irmãos com a mesma idade, quando adoecia um, adoeciam todos. "O meu pai, que era médico, era muito severo. O meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de karaté. Tínhamos que ser bons em tudo." Mas foi graças ao pai que aprendeu a gostar de ler poesia, era o pai que lhes lia poesia (Manuel Bandeira, por exemplo, que está a ser homenageado nesta FLIP) quando estava doente. Ao longo de toda a conversa, António Lobo Antunes teve alguns problemas com o microfone e chegaram mesmo a enviar um bilhete aos oradores a pedir que ele aproximasse o micro da boca. Isso serviu para o escritor, durante a conferência, ir fazendo piadas sobre a sua "má relação com aqueles objectos". E dizer: "Se o meu avô estivesse aqui, perguntaria...", a propósito da conotação fálica do microfone. Por vezes, apesar do aparelho que tinha no ouvido, pedia a Humberto que repetisse a pergunta. Aconteceu quando o entrevistador lhe perguntou se era verdade que ele "era bom de briga"? António contou que, quando chegava a casa e estava a explicar ao pai que quem lhe tinha batido era maior do que ele, este aconselhava: "Mordias-lhes os ovos!".

Humberto Werneck, na sua apresentação, lembrou que alguns críticos consideram que a Academia sueca "cometeu um erro grave de português", numa referência à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago. A meio, disse que "o outro" vinha ao Brasil mais vezes. Lobo Antunes nunca se desmanchou, ficou impávido e sereno.

Por fim, Humberto lembrou que, numa entrevista que os pais de Lobo Antunes deram à jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, o pai do escritor disse que não lia os seus livros e a mãe disse que lia mas que ficava um pouco contrariada.

"Eu também pensava que ele não tinha lido. Mas depois da morte dele encontrei os meus livros todos anotados e uma carta que ele me deixou de 600 páginas. Deve ter levado uns dois anos a escrever aquela carta", revelou o escritor, emocionando a plateia, de onde se ouviu uma exclamação de surpresa. "A minha família era engraçada. Eu acho que nós nascemos todos por causa da Alemanha. O meu pai, para se especializar na sua área da Medicina, teve que ir para a Alemanha, onde havia a escola de Anatomia Patológica e então vinha uma vez por ano a Lisboa e ficava uma semana. Cada vez que ele vinha, e, depois, quando se ia embora, a barriga da minha mãe começava a crescer. E quando ele deixou de ir para a Alemanha a barriga da minha mãe deixou de crescer. Ainda hoje não sei o que há na Alemanha que faz crescer a barriga. Pelo menos a da minha mãe."

Regresso à escrita?

Lobo Antunes, que escreveu 21 romances em 30 anos, contou como os seus primeiros livros foram recusados por várias editoras e o que passou para chegar ao reconhecimento internacional que tem agora. O seu trabalho foi elogiado pelos académicos e críticos George Steiner e Harold Bloom. "Tive a infinita sorte de ter os elogios dos dois", disse.

Lembrou a sua amizade por Jorge Amado e por João Ubaldo Ribeiro, de quem se tornou amigo quando o escritor brasileiro viveu em Lisboa. E quem chateava por não escrever, por considerar que era preguiçoso. "Íamos a casa de João às duas da manhã e lá estava ele fazendo feijoada de chinelo e calção. Ele vivia o Inverno de Lisboa, que é frio, como se estivesse no Verão da Baía. E às quatro da manhã se comia a feijoada. Depois, não escrevia. Então deu uma entrevista a um jornal, em que lhe perguntavam: 'João Ubaldo Ribeiro, você já não escreve?' E ele respondeu: 'Escrevo. Meu pseudónimo é António Lobo Antunes.'"

E vendo toda a paixão de Lobo Antunes a falar sobre como escreve os seus romances, Humberto disse-lhe que não percebia como é que, com toda essa paixão de artista que transparecia na sua conversa, ele estava a anunciar que ia deixar de escrever. António Lobo Antunes respondeu: "É que, às vezes, eu tenho caprichos de cocotte. Você lembra daquela bailarina francesa cheia de plumas no 'bumbum', Zizi Jeanmaire?! Às vezes gosto de dar uma de Zizi a abanar as plumas do 'bumbum'. Há alturas em que se fica desesperado e se pensa que não se vai ser mais capaz. E se pensa: 'Para quê escrever? Vou deixar de escrever'. É a nossa alegria e o nosso tormento".

No entanto, na Pousada da Marquesa onde está hospedado em Paraty, António Lobo Antunes tem escrito todos os dias.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Romance de Lobo Antunes aborda comportamento violento de jovens


da Folha Online

Um dos nomes de peso da 7ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 1º a 5 de julho, o escritor português António Lobo Antunes, 67, conversa com o público no sábado (4), às 19h, na mesa "Escrever é Preciso".


Autor de mais de 20 romances, Antunes foi vencedor do prêmio Camões em 2007 e é tido como o maior escritor lusitano após Eça de Queirós.

Formado em Medicina e especializado em psiquiatria, começou sua carreira de escritor depois de retornar da Guerra Colonial Portuguesa em Angola (1961-1974). Suas primeiras obras destacaram-se pelo forte caráter autobiográfico, enquanto as demais versam sobre os mais diversos temas.

Seu romance "Meu Nome é Legião" (Alfaguara, 2009), recém lançado no Brasil, conta a história de um grupo de jovens que roubam dois carros e praticam crimes bárbaros pela autoestrada. Recontando os acontecimentos inicialmente sob a forma de um relatório escrito por Gusmão, policial em fim de carreira, a obra passa a entrelaçar os pensamentos desse homem solitário aos depoimentos dos outros personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligados ao destino dos jovens criminosos.

Aparentemente técnico e objetivo, o texto aos poucos se transforma em uma trama narrativa de múltiplas vozes, criando um mosaico de contrastes sobre a injustiça e a dor.

Leia trecho do livro "Meu Nome é Legião" (Alfaguara, 2009) abaixo.

*
Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00 (vinte e duas horas e zero minuto) na direcção da Amadora onde julga-se que por volta das 22h30 (vinte e duas horas e trinta minutos) hipótese sujeita a confirmação após interrogatório quer dos suspeitos quer de eventuais testemunhas até ao momento não localizadas furtaram pelo método denominado da chave-mestra (sujeito a confirmação também e que adiantamos como provável derivado ao conhecimento do modus operandi do grupo) 2 (duas) viaturas particulares de média potência estacionadas nas imediações da igreja a curta distância uma da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos (vandalismo ou situação natural?) permitiam actuar com maior discrição após o que se dirigiram para a saída de Lisboa no sentido da auto-estrada do norte utilizando a via rápida que por não se acharem as ditas viaturas munidas do dispositivo magnético necessário à sua utilização registou as matrículas conforme fotocópia anexa aliás não muito nítida e previne-se respeitosamente o comando para a urgência de melhoramentos no equipamento caduco: fotocópia número 1 (um) embora perceptível é verdade com uma lupa decente.

Temos motivos para adiantar com base em actuações pretéritas essas sim já aferidas que os suspeitos se distribuíram nos veículos de acordo com a ordem habitual ou seja o chamado Capitão de 16 (dezasseis) anos mestiço, o chamado Miúdo de 12 (doze) anos mestiço, o chamado Ruço de 19 (dezanove) anos branco e o chamado Galã de 14 (catorze) anos mestiço na dianteira e os restantes quatro, o chamado Guerrilheiro de 17 (dezassete) anos mestiço, o chamado Cão de 15 (quinze) anos mestiço, o chamado Gordo de 18 (dezoito) anos preto e o chamado Hiena de 13 (treze) anos mestiço assim apelidado em consequência de uma malformação no rosto (lábio leporino) e de uma fealdade manifesta que ousamos sem receio embora avessos a julgamentos subjectivos classificar de repelente (vacilámos entre repelente e hedionda) a que se juntava uma clara dificuldade na articulação vocabular muitas
vezes substituída por descoordenação motora e guinchos logo atrás, salientando-se a importância do chamado Ruço ser o único caucasiano (raça branca em linguagem técnica) e todos os companheiros semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado à margem do presente relatório sobre a justeza da política de imigração nacional.

Cerca das 23h00 (vinte e três horas e zero minutos) as duas viaturas alcançaram a primeira estação de serviço do trajecto Lisboa-Porto a cerca de 30 (trinta) quilómetros das portagens tendo parado com os motores a trabalharem (existia apenas uma furgoneta numa das bombas)
diante do estabelecimento envidraçado no qual se efectua a liquidação do montante de gasolina adquirida e onde se pode malbaratar dinheiro em revistas jornais tabaco (espero bem que não álcool) pastilhas elásticas e ninharias. No citado estabelecimento encontrava-se o empregado a conversar sentado à caixa registadora com o condutor da furgoneta e outro empregado mais idoso a varrer o soalho adjacente a uma porta de escritório ou compartimento de arrumos (deseja-se que não destinado à venda clandestina de bebidas espirituosas) com a placa Interdita A Entrada mal aparafusada à madeira.

Os suspeitos apetrecharam-se de gorros de lã e óculos escuros e ingressaram sem pressa no local (de acordo com o depoimento do empregado da caixa um deles e ignora a especificação do indivíduo assobiava) transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército e concedo-me uma breve digressão no meu entender não inteiramente despicienda para sublinhar no caso de me autorizarem uma nota íntima que as estações de serviço à noite iluminadas na beira do caminho me fazem sentir menos desditoso e só quando regresso de Ermesinde aos domingos de madrugada da visita mensal à minha filha, o mundo com as suas árvores confusas e as suas povoações logo perdidas cujo nome desconheço me surge demasiado grande para conseguir entendê-lo e as bombas de gasolina próximas, nítidas, ia escrever cúmplices mas retive-me a tempo me garantem que apesar de tudo possuo um lugar ainda que ínfimo no concerto do universo, alguém talvez me espere tomara descobrir em que sítio com a chávena de um sorriso numa toalha amiga e eu comovido senhores, eu grato, peço perdão de inserir num documento oficial e em papel do Estado este desabafo importuno e este desejo absurdo de companhia: rodar a fechadura e escutar na despensa, na sala, não ouso sugerir que no quarto uma voz que pronuncia o meu nome
- És tu?

*
"Meu Nome é Legião"
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Alfaguara
Páginas: 336
Quanto: R$ 53,90