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domingo, 22 de novembro de 2009

Conto: A Carta de Ronaldinho (Mia Couto)


A Carta de Ronaldinho

"O problema não é ser mentira.
É ser mentira desqualificada"
Provérbio da Munhava


Uns aprendem a andar. Outros aprendem a cair. Conforme o chão de um é feito para o futuro e o de outro é rabiscado para sobrevivência. Filipão Timóteo pisava ou era pisado pelo chão ? O mundo do velho já semelhava a um relvado de futebol: ali ele fintava o tempo, esticando a partida com a vida para período de compensação.
- Me restam duas saídas, sorria ele, ou perder ou ser vencido.
E o dente avulso, já de tão solto, abanava com riso. No bar da Munhava, o velho reformado retorcia a volta ao destino. No meio do cervejeiral, Filipão se vingava. Prova era o salto fantástico e o grito que, de quando em quando, se escutava na rua:
- Gooolooo !
O pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo. A alegria de Filipão só podia ser medida em asas, tanto de céu eram seus brados. Sozinho no Bar, o velho celebrava o golo da sua equipe. As pessoas passavam e olhavam pelo vidro Filipão aos saltos festejando vitórias. Como um peixe dentro do aquário, esperando que a vidraça afastasse a chegada do fim.
Quando saltava, caía-lhe o aparelho da surdez e ele passava o resto do tempo, de gatas, procurando o salvador instrumento entre as imundícies do chão. Para tão pouco voo, tanto quadrupedar-se pelo chão !
As pessoas sabiam: não havia televisor. O bar era pobre e, para além do balcão, não sobrava apetrecho. O que havia na parede era um desenho de um ecrã rabiscado a carvão. Filipão desenhara o televisor com detalhe de engenheiro. E ali estavam compostos com perfeição os botões, a antena, os fios. Pobre não festeja por causa da alegria. A alegria é que se instala, convidada, e faz a festa ter casa e causa.
Filipão chegava manhã cedo, carregava no falso botão do inexistente aparelho e se sentava na habitual mesa, ao fundo da sala. Pedia a habitual cerveja e sorvia o líquido como se bebesse pelos olhos lentos. Bebia todo ele, a sua alma era uma boca. Estalava a língua nos dentes, ruidosamente. Depois rabiscava num velho e seboso papel uns desenhos: as tácticas do jogo. Filipão organizava os esquemas tácticos, arquitectava a força anímica. Que se estava em pleno Mundial, a distracção é a morte do guarda-redes.
Depois, já deitadas as instruções, o velho vinha à porta da taberna e gritava para o exterior:- Já começou !
E se adentrava para assistir a mais um desses jogos que só ele testemunhava na sua imaginação.
Até que, um dia, vieram buscá-lo. Eram os filhos que viviam na cidade. O mais velho disse:
- Venha pai, não queremos que continue sozinho aqui na vila.
- Já todos se riem, pai - confirmava o mais novo.
Filipão ajustou o aparelho auditivo como se não estivesse ouvindo bem. Não iria nem arrastado. Que ali estava seguindo o Mundial. Mais que isso: dando instruções técnicas. Ele o "mister", o senhor sem anéis.
- Desde quando pai ? Desde quando é que esse Mundial se arrasta ?
Os outros fizeram sinal para que não se usasse os argumentos da realidade. Seria pior. Deixassem-no crer que nesse imaginário televisor desfilavam verdadeiros jogos, capazes de fabricar autenticas alegrias. A realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos ?
E assim se ficou. Filipão no sonho do jogo, os outros no jogo dos sonhos. Um dia, o filho mais novo trouxe uma carta. Era um papel sério, com carimbo e redigido em máquina.
- O que é isso ?
- Isso é para o senhor, meu pai.
- Não sabe que eu não leio letras ?
O filho ajustou os óculos e leu em voz alta. Era uma convocatória da Federação Nacional de Futebol. Congratulando-o pelo seu contributo para o desporto e pelos os galardões alcançados pela selecção. Chamavam-no para ir para a capital. Para descansar junto da família.
- Essa carta é falsa !
- Como falsa ?! Tem carimbo, tem assinatura, tem tudo.
-Veja esta outra carta !
E o pai estendeu um envelope ao filho. Tinha selo do Brasil e estava assim endereçada: Senhor Filipão Timóteo, Bar da Munhava. Assim, sem emenda nem gatafunho. Em baixo, a assinatura bem desenhada: Ronaldinho Gaúcho. O moço foi saindo, sem fôlego para palavra. A voz do pai o fez parar.
- E já agora, meu filho...
- Sim? - o filho perguntou, sem se virar.
- Você pode-me trazer lá da cidade um pauzinho de giz que é para eu desenhar um televisor novinho ?

Conto do livro "O Fio das Missangas", de Mia Couto (Ed. Companhia das Letras)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Literatura Africana: Nas Águas do Tempo (Mia Couto)


Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.

- Mas vocês vão aonde?

Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.

- Voltamos antes de um agorinha, respondia.

Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede ficava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Entrávamos no barquinho, nossos pés pareciam bater na barriga de um tambor. A canoa solavanqueava, ensonada. Antes de partir, o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mão em concha, E eu lhe imitava.

- Sempre em favor da água, nunca esqueça!

Era sua advertência. Tirar água no sentido contrário ao da corrente pode trazer desgraça. Não se pode contrariar os espíritos que fluem.

Depois viajávamos até ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Tudo o que ali se exibia, afinal, se inventava de existir. Pois, naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. Aquelas inquietas calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O avô, calado, espiava as longínquas margens.
Tudo em volta mergulhava em cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente ensonada. Ficávamos assim, como em reza, tão quietos que parecia-mos perfeitos.

De repente, meu avô se erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém. Nunca, nem por pinte, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava seu pano.

- Você não vê lá, na margem? por trás do cacimbo?

Eu não via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos.

- Não é lá. É lááá. Não vê o pano branco, a dançar-se?

Para mim havia era a completa neblina e os receáveis aléns, onde o horizonte se perde.
Meu velho, depois, perdia a miragem e se recolhia, encolhido no seu silêncio. E regressávamos, viajando sem companhia de palavra.

Em casa, minha mãe nos recebia com azedura. E muito me proibia, nos próximos futuros. Não queria que fôssemos para o lago, temia as ameaças que ali moravam. Primeiro, se zangava com o avô, desconfiando dos seus não-propósitos. Mas depois, já amolecida pela nossa chegada, ela ensaiava a brincadeira:

- Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhávamos vantagem de uma boa sorte...

O namwetxo moha era o fantasma que surgia à noite, feito só de metades: um olho, uma perna, um braço. Nós éramos miúdos e saíamos, aventurosos, procurando o moha. Mas nunca nos foi visto tal monstro. Meu avô nos apoucava. Dizia ele que, ainda em juventude, se tinha entrevisto com o tal semifulano. Invenção dele, avisava minha mãe. Mas a nós, miudagens, nem nos passava desejo de duvidar.

Certa vez, no lago proibido, eu e vovô aguardávamos o habitual surgimento dos ditos panos. Estávamos na margem onde os verdes se encaniçam, aflautinados. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. O primeiro homem? Para mim não podia haver homem mais antigo que meu avô. Acontece que, dessa vez, me apeteceu espreitar os pântanos. Queria subir à margem, colocar pé em terra não-firme.

- Nunca! Nunca faça isso!

O ar dele era de maiores gravidades. Eu jamais assistira a um semblante tão bravio em meu velho. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era só um pedacito de tempo. Mas ele ripostou:

- Neste lugar não há pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.

Eu tinha um pé meio-fora do barco, procurando o fundo lodoso da margem. Decidi me equilibrar, busquei chão para assentar o pé. Sucedeu-me então que não encontrei nenhum fundo, minha perna descia engolida pelo abismo. O velho acorreu-me e me puxou. Mas a força que me sugava era maior que o nosso esforço. Com a agitação, o barco virou e fomos dar com as costas posteriores na água. Ficámos assim, lutando dentro do lago, agarrados às abas da canoa. De repente, meu avô retirou o seu pano do barco e começou a agitá-lo sobre a cabeça.

- Cumprimenta também, você!

Olhei a margem e não vi ninguém. Mas obedeci ao avô, acenando sem convicções. Então, deu-se o espantável: subitamente, deixámos de ser puxados para o fundo. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. Voltámos ao barco e respirámos os alívios gerais. Em silêncio, dividimos o trabalho do regresso. Ao amarrar o barco, o velho me pediu:

- Não conte nada o que se passou. Nem a ninguém, ouviu?

Nessa noite, ele me explicou suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos.

- Me entende?

Menti que sim. Na tarde seguinte, o avô me levou uma vez mais ao lago. Chegados à beira do poente ele ficou a espreitar. Mas o tempo passou em desabitual demora. O avô se inquietava, erguido na proa do barco, palma da mão apurando as vistas. Do outro lado, havia menos que ninguém. Desta vez, bem o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos. De súbito, ele interrompeu o nada:

- Fique aqui!

E saltou para a margem, me roubando o peito no susto. O avô pisava os interditos territórios? Sim, frente ao meu espanto, ele seguia em passo sabido. A canoa ficou balançando, em desequilibrismo com meu peso ímpar. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. Até que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem. Fiquei ali, com muito espanto, tremendo de um frio arrepioso. Me recordo de ver uma garça de enorme brancura atravessar o céu. Parecia uma seta trespassando os flancos da tarde, fazendo sangrar todo o firmamento. Foi então que deparei na margem, do outro lado do mundo, o pano branco. Pela primeira vez, eu coincidia com meu avô na visão do pano. Enquanto ainda me duvidava foi surgindo, mesmo ao lado da aparição, o aceno do pano vermelho do meu avô. Fiquei indeciso, barafundido. Então, lentamente, tirei a camisa e agitei-a nos ares. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando, em desmaio de cor. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões.

Enquanto remava um demorado regresso, me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gémeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando vislumbrar os brancos panos da outra margem.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Acordo ortográfico teve 'falsos argumentos', diz Mia Couto

Maputo, 8 jul (Lusa) - O escritor moçambicano Mia Couto disse nesta quarta-feira que foram usados "falsos" argumentos para introdução do novo acordo ortográfico, principalmente para a literatura, e afirmou sentir-se "ambíguo" em relação às novas regras.

"Tenho posição ambígua porque acho que houve quem estudou o assunto e sabe mais que eu. Houve linguistas que estiveram anos trabalhando sobre isso", disse a jornalistas, em relação à nova grafia do português na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

"Provavelmente, há algumas áreas em que nós saímos todos beneficiados, como por exemplo, na área do livro escolar, da aprendizagem da língua. O fato de os manuais angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos poderem ser feitos no Brasil ou Portugal, indiferentemente. Isso, se calhar, essas são questões práticas que pesam", afirmou.

Mia Couto, autor de "O Gato e o Escuro", que narra uma aventura de um gatinho amarelo que se delicia em contrariar os conselhos da mãe, foi recentemente premiada no Brasil, falou à imprensa sobre a premiação.

No Brasil, o escritor apresentou também o seu mais recente romance "Jesusalém", com título alterado para "Antes do Nascer do Mundo".

O livro conta a história de Silvestre Vitalício, um homem que, abalado pela morte da mulher, Dordalma, se afasta do mundo, com os dois filhos, Mwanito e Ntunzi, e um velho criado ex-militar, refugiando-se num lugar remoto, a que dá o nome de Jesusalém e onde aguarda a chegada de Deus, para pedir desculpa aos homens.

Acordo

Questionado pela Lusa sobre como encara o novo acordo ortográfico, Mia Couto afirmou que vai se ajustar à convenção, até porque não é "um militante contra o acordo", embora se distancie da "falsificação das razões" apresentadas para introdução do pacto.

"Do ponto de vista literário, não acho necessário, acho dispensável, terei dificuldades em escrever da maneira nova e acho que grande parte dos argumentos que foram feitos a favor do acordo são argumentos falsos", disse o escritor moçambicano.

"Muitas vezes se argumenta que este acordo é necessário porque os nossos países (CPLP) viviam distantes e agora a nova ortografia comum vai aproximar-nos. Acho que isto é uma mentira", afirmou Mia Couto, que também é biólogo.

Para o escritor, a distância entre os países se deve ao fato de existirem "razões de diferentes políticas, da falta de vontade de criar uma proximidade e apostas geoestratégicas diferentes".

"O Brasil tem aquele universo da América Latina, tem a sua posição no mundo, Portugal tem outra, os africanos têm outra, estas são as grandes razões (..), mas vou ter que me ajustar" às novas regras da língua portuguesa, disse.

Moçambique ainda não aderiu ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mia Couto: Antes de nascer o mundo

por Ruy Neto no blog da Livraria Cultura

O escritor moçambicano Mia Couto é um homem simples, nada afeito a rotina de um escritor profissional - e nem quer ter esse estilo. Gosta de ter outro tipo de relação com as pessoas, realizar trabalhos em equipe, trocando experiências e informações. Por isso faz questão de manter como ganha pão sua atividade como biólogo - foi até neste exercício que encontrou inspiração para desenvolver seu último trabalho Antes de nascer o mundo (ou simplesmente Jesusalém, adotado em Portugal, por exemplo - Mia deu os dois títulos como opção para suas editoras). Na conversa que teve com o público, que lotou o teatro Eva Herz - para minha surpresa já que não trata-se de um nome “pop” da literatura universal - ele deixou um recado interessante quando foi questionado sobre como divide o seu tempo para conseguir publicar obras. Ele disse: “o importante na escrita não é os termos técnicos que nós temos, mas sim o tempo para estarmos com os personagens, o tempo pra nós próprios sermos um dos personagens que criamos. É isso que me obriga a ser cada vez mais um escritor insone”. Mia diz acordar entre três e quatro da manhã, assombrado pela histórias e pelos personagens dentro de si. Esquece as horas e se põe a escrever. Taí um exemplo de que falta de tempo não é motivo para deixar de produzir literatura. Aqui segue um trecho do que é o livro e o que a obra representa para o escritor. Depois do jump peguei mais trechos das respostas que ele deu a perguntas feitas pela sua editora no Brasil. Veja também aqui a entrevista que fizemos com Mia na edição de fevereiro da Revista da Cultura.






inspiração
“A condição desta família é inventada. Mas em meu trabalho como biólogo pelo interior de moçambique conheço muitas famílias. E recentemente em uma viagem a um deserto conheci uma que vivia tão isolada do mundo que parecia a reencarnação daquilo que havia imaginado. Mas depois de estar lá, conhecer o espírito do lugar, percebi a rede que no mundo não permite que se construa uma lugar totalmente como ilha. Sim, existem povoados, existem pequenas aldeias que me inspiraram a criar essa condição, que é uma condição delirante, de não querer apenas esquecer-se do mundo como do próprio passado, por razões que no final da história ele vê que eram equivocadas”.


Guerra

“A guerra [civil moçambicana] ajudou a fragmentar uma sociedade que foi muito criada através das redes de trocas, redes de ajuda. Mas a guerra não explica tudo. Comentei com algumas pessoas da editora como fiquei marcado pelo encontro com a família do interior de Moçambique porque de repente há um velho que é o chefe desta família, um caçador. Ele é convocado sempre quando é necessário matar um animal. E ele tem uma ligação com o espirito dos animais. E esse homem me marcou porque numa certa manhã ele me guiou por atalhos que apenas ele conhecia para chegar em um lugar chamado gruta, que é onde as hienas nasciam. E mais tarde, a noite – e estou resumindo a história ao máximo – quando eu pedi para que ele me levasse num lugar ele disse: “Eu não posso pois sou cego, eu não vejo”. Fiquei surpreso porque ele havia me conduzido por atalhos e me mostrado coisas que só era possível se a pessoa enxergasse. E ele respondeu que não via com os olhos dele, mas sim através dos olhos de outro alguém. E há semelhança com a minha história que notei quando o livro já havia chegado em minhas mãos. O narrador dessa história confessa ao irmão que tem a mesma doença do pai: “eu só vejo sombras”; e o irmão pergunta como ele escreveu isto, que é a sua própria história. E ele responde: “eu só vejo quando escrevo”.

A mulher
“Nessa história todos os personagens são homens. E que se retiraram do mundo por causa de uma mulher e é exatamente uma mulher que acabará fazendo retornar ao mundo. É um circulo que se fecha por uma mão feminina. Mas mesmo enquanto a história está dominada por personagens masculino escolhi como epígrafe para os capítulos o texto de autoras. É uma tentativa de estabelecer diálogo entre o lado masculino e o feminino, mas não sei se alguém sabe o que é esse lado masculino e o lado feminino da humanidade – não que eu esteja confuso quanto a identificação dos sexos não é isso – mas eu mesmo não sei onde está a fronteira destes lados. De qualquer maneira, acho que as mulheres nas minhas histórias ocupam sempre esse lugar central, de organizadoras daquilo que seria o tempo, responsáveis por entregar as gerações próximas a promessa do que seria uma outra vida. E creio que não tenho isso apenas como uma obsessão literária, mas sim como uma obsessão profunda. Não presto uma homenagem as mulheres por conta de simpatia, mas porque acho que elas ocupam uma papel central em todos os aspectos. São elas que transportam literalmente o mundo nas costas”

Guimarães Rosa
O livro de Mia tem proximidade com o conto A terceira margem do Rio, publicado no livro Primeiras estórias, que trata de um homem que se isola também do mundo navegando rio abaixo.
Não pensei no conto. Mas tenho que dizer que esse conto me marcou muito.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contos do Mundo: Lixo, Lixado (Mia Couto)


Autor: Mia Couto
País de Origem: Moçambique



Lixo, Lixada

Orolando Mapanga não tinha onde cair vivo? É a impura verdade. Dele se fica sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há no não.acontecer da vida. Lugar de viver de Orolando era na lixeira, lá no interior, primeira transversal, à direita. Com boas vistas para o mar, mesmo na vertente de um monte de desperdicio. Apanhando boa brisa, mau grado os péssimos odores. Ali ele despachava os seus afazeres. Ao fim da tarde, saía a procurar restos de comida, gordurazinhas, singelas putrefacções. Raspava o fundo das latas, auscultava o ventre dos sacos. Ao ler seu constante sorriso, dir-se-ia que a felicidade é coisa encontrável mesmo na imundície. Orolando bem que defendia as vantagens do lugar:
- Aqui não chega nenhum bandido.
Lugar seguro de viver, isso ele garantia. Sossegado, também. Só no fim da madrugada o silêncio se sujava com os camiões trazendo o lixo. Mas, para ele, aquele barulho era o anunciar da mantimentação. Nunca se aproximou dos camiões. Ele não queria mostrar a sua vivência a ninguém, chamar a inveja dos outros. Essa gente quer coisas completas, cheias. A mim me basta o bocadinho da metade era o pensar dele enquanto empurrava um velho carrinho de mão pelas ruelas da lixeira. Outra vantagem era a guerra morar longe. É verdade que ali sempre se escutavam disparos. Mas era coisa da distancia, lá no lugar dos citadinos. Certa noite, ao buscar adomercimento, Mapanga escutou um ronco.
- É um porco, isso.
Sabia, o campo lhe ensinara. Voz de bicho era sua sapiência. Pelo cantar de uma só galinha ela adivinhava o tamanho de toda a criação. Pelo balido do cabrito ele sabia a cor do bicho. Desta vez, porém, ao invés da doce lembrança dos campos, seus olhos se nevoaram de ódio. Afinal, havia outro ser disputando as sobras. E ali mesmo jurou morte ao intruso. Desde então se dedicou a perseguir o suíno. Saía manhã cedinho à procura dele. A lixeira nunca lhe parecera tão grande. Ele conhecia os recantos, os fedores, os charcos. Porém, não havia maneira. O bicho esburacava nos monturos, sacana, não ficava nem rasto do cheiro. Vantagem do porco é ter um focinho polivalente, dá para escavar também. Até que, numa madrugada, Orolando desapertou com um bafo que se despejava em seu rosto. Berrou, borrou-se.
- Maiuê, as hienas me comem o nariz!
Palpou o escuro, deu de mãos numa pele lisa, agarrou com força. Foi como se espremesse um saco cheio de gritos. Era o porco em aflição. Segurou a presa com força, que a bicheza é inteligente há muito mais tempo que os homens. Amarrou-lhe as pernas e ficou-se longo tempo a contemplar a berraria do prisioneiro. Primeiro, lhe chegou um sentimento que há muito tempo não experimentava. Ali estava um vencido implorando as clemencias. Gozou aquele poder, em desconhecimento fundo de sua alma. Afinal, agora ele era proprietário, não de restos mas de uma vida inteira e recheada. Enquanto matutinava este sentimento, de quando em quando, despachava uns pontapés no bicho. Nesse dia, nem saiu a procurar abastecimento. Só ficou ali, olhando o novo habitante, escolhendo o destino a lhe aplicar. Indecidia-se morte haveria de ser. Mas o porco merecia ser comido? Deixou o despacho para mais tarde aquela era sentença que não viria do pensamento. A noite chegou, cansada do seu trabalho na outra face do mundo. Orolando Mapanga anotou o frio, juntou velhos jornais à sua volta. Mas o cacimbo lhe trouxe arrepios, esgotados que estavam seus agasalhos. Então ele se chegou ao porco, abraçou-lhe como só merece uma mulher. E, aos poucos, se foi contagiando com o quentinho de uma outra vida. No seguinte dia, ele se polemicava mais vale a fome ou o calor de uma companhia? Pelo sim pelo talvez, decidiu adiar a sentença do bicho. E quando, entre os lixos, descobriu uma velha corda, lhe deu uso de trela e levou o suíno a passear. Mesma coisa os brancos fazem com os cães. O bicho de estimação mereceu até nome téksmanta. [Texmanta nome de uma fabrica textil em Moçambique] Agora, quem passar pela lixeira pode ver um porco, com dignidade canina, encaminhando seu dono pelos detritos, oferecendo seu faro para a escolha da migalhas da sobrevivência. Dizem o Mapanga se vai esquecendo da lingua humana, soletrando só a fonética do bicho. Afinal, vivendo na porcaria ele combina melhor com o idioma dos porcos é o parecer dos trabalhadores do lixo quando se despedem dos domínios de Orolando Mapanga.
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O AUTOR:
Mia Couto (Beira, 1955) é um escritor moçambicanos. António Emílio Leite Couto foi nominado Mia devido a seu irmãozinho não conseguir dizer "Emílio". Segundo o próprio autor, a utilização deste apelido tem a ver com sua paixão pelos gatos, dizia a seus familiares desde sua infância que queria ser um deles.

Nasceu na Beira, a segunda cidade de Moçambique, em 1955. Ele disse uma vez que não tinha uma "terra-mãe" - tinha uma "água-mãe", referindo-se à tendência daquela cidade baixa e localizada à beira do Oceano Índico para ficar inundada.

Iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que se iniciava no jornalismo e abandonou aquele curso para se dedicar a tempo inteiro à segunda ocupação. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e mais tarde tirou o curso de Biologia, profissão que exerce até agora.