"Criar - ou tentar criar - é um ofício de trevas", defendeu hoje, António Lobo Antunes, no lançamento do seu novo livro, "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?". O escritor apresentou o livro esta quinta-feira no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz em Lisboa.
Depois de afirmar que "é muito difícil falar de um livro" e de citar o seu falecido amigo José Cardoso Pires, que dizia que nenhum escritor gostava de falar sobre o que escrevera, Lobo Antunes tentou, embora admitindo: "Há ali uma parte que me escapa".
Falou de um verso de Ovídio que sempre o obcecou e continua a obcecar - "Lentos, lentos ide, ó cavalos da noite" - do seu quadro preferido, "As Meninas" de Velásquez, e de uma frase de Einstein citada pelo pianista Alfred Brendel: "É preciso fazer as coisas o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso".
Observou, depois, que "a arte é a nossa única hipótese de vitória sobre a morte".
"Daí o medo que existe da arte - é que ela contém em si uma outra forma de olhar para as coisas, que nós recusamos. Então, é muito tranquilizador as telenovelas, aquilo a que chamam 'literatura light', que não sei o que é... todas essas formas de expressão de sentimentos que nos impedem, de facto, de entrar no íntimo de nós", referiu.
Editado pela Dom Quixote, do grupo Leya, "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?" foi apresentado pela vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, amiga de Lobo Antunes, com sala cheia.
A Professora catedrática começou por falar de toda a obra do escritor, para atribuir o seu sucesso a "um paradoxo de enunciação relativamente simples: os romances de Lobo Antunes fascinam apesar de nos incomodarem e, em larga medida, fascinam porque nos incomodam".
Considerando que "estes cavalos saem da mesma matriz que alimentou os livros precedentes", Cristina Robalo Cordeiro sustentou que, "em modo sempre obsessivo, são três as grandes oposições que marcam o texto, como motivos estruturantes e configuradores".
"A primeira - enumerou - incide no próprio tecido textual que, embora desenhado pelas forças da polifonia e do caos, da dissecação de figuras disfóricas e da obstinação de memórias labirínticas, tão nossas conhecidas, controla o fluxo verbal em rigorosa ordenação compositiva".
A segunda oposição - prosseguiu - "desorienta a leitura e instaura uma 'estética do desprazer', provocando no leitor uma oscilação entre o desconforto e a fruição".
Por fim, a terceira oposição - aquela que a académica classificou como "a mais surpreendente" - "inscreve-se de imediato no título: porquê enunciar com uma frase tão lírica o universo sórdido da triste realidade humana em que a narrativa nos fará entrar?".
A terminar a sua intervenção, António Lobo Antunes anunciou a intenção de "continuar a viver com a orgulhosa humildade" com que sempre tem vivido e concluiu com uma frase de Newton: "Não sei o que o futuro pensará de mim. Sempre me imaginei uma criança a brincar na praia, que às vezes encontra um seixo mais polido, uma conchinha mais bonita, enquanto o grande oceano da verdade permanece intacto à minha frente".
Lusa
sábado, 24 de outubro de 2009
Lobo Antunes apresenta "Que Cavalos são Aqueles que fazem Sombra no Mar?"
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Dan Brown repete fórmula de 'O Código Da Vinci' em novo livro
da BBC
The Lost Symbol (''O Símbolo Perdido'', em tradução livre), novo livro do escritor americano Dan Brown, está sendo lançado nesta terça-feira no mercado anglo-saxônico e deve adicionar mais alguns cifrões à conta do autor de O Código Da Vinci
No novo trabalho de Brown, o herói das aventuras do escritor, o professor da Universidade de Harvard Robert Langdon, está envolvido em uma trama que envolve a maçonaria, tendo como cenário a capital dos Estados Unidos, Washington.
A localização pode ter mudado, mas o modelo do novo livro é bastante parecido com o de O Código Da Vinci, de 2003, e o de Anjos e Demônios, de 2000.
Há o vilão zeloso, a companheira inteligente, um laboratório secreto, uma corrida contra o tempo para decifrar códigos esotéricos e, obviamente, há aqueles personagens que aparentam ser quem não são.
"Escândalo delicioso"
Há uma passagem no início de The Lost Symbol em que Dan Brown parece comentar toda a confusão em volta das ''revelações'' ficcionais de O Código Da Vinci sobre Maria Madalena e o Santo Graal.
Em determinado trecho, Robert Langdon se encontra com uma mulher em um aeroporto. Ela diz que ela e seus amigos leram seu livro sobre o sagrado feminino e a Igreja. "Que escândalo delicioso que isto causou. Você gosta mesmo de colocar a raposa no galinheiro", diz a mulher.
Langdon então responde à mulher que "não era sua intenção causar escândalo".
Em outra passagem do livro, enquanto cita o nome de diversos supostos membros da maçonaria, como o ex-presidente americano George Washington, Langdon também fala muitas vezes sobre a ''desinformação'' acerca dos maçons e classifica um ritual como "bizarro e inócuo".
Mesmo assim, é improvável que alguém ou algum grupo fique contrariado com o novo livro de Brown. A trama sobre a maçonaria é usada como ponto de partida para abordar temas mais abrangentes, como a ciência moderna e o misticismo antigo.
Fórmula
O que deve irritar um pouco os leitores, no entanto, é o quase constante uso de letras em itálico para indicar monólogos interiores, o que ocorre já na primeira frase do livro.
Além disso, há muito jargão técnico, flashbacks estranhos e passagens onde o sabe-tudo Langdon parece ter uma enciclopédia na cabeça.
Apesar disso, as 509 páginas de The Lost Symbol prendem o leitor. Dan Brown criou uma fórmula de sucesso e se prendeu a ela.
Washington pode não ser tão sedutora como o Vaticano ou o Louvre, palcos dos livros anteriores, mas Brown consegue tirar tantas histórias deste cenário que tornam o passeio fascinante.
Além disso, ele insere à trama diversas referências contemporâneas: personagens fazem buscas no Google usando celulares, mandam mensagens por seus iPhones e fazem piadas sobre o Twitter.
Com o estilo descritivo de Brown, ao terminar a última página da obra, a impressão é que você não apenas leu o livro, mas também assistiu ao filme.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Caio, que era tantos
Missivista compulsivo, Caio Fernando Abreu remeteu cartas para amigos, parentes, amantes. reunidas por Paula Dip em Para sempre teu, Caio F., as epístolas compõem um amplo painel afetivo
Henrique Araújo, especial para o jornal O POVO
Caio Fernando Abreu viveu 47 anos. Morreu em 1996 vítima da Aids, doença cujas aparições em suas crônicas e contos são vistas hoje como premonitórias, morbidamente premonitórias. Embora na época – os anos perdidos da década perdida - fossem apenas presença, como o vulto da aniquilação nuclear foi para a geração pós-II Guerra. Numa das tantas cartas que escreveu, Caio registra: “Voltei da Europa em junho de 1994 me sentindo doente. Febres, suores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e à revelia dele fiz O TESTE. Aquele”. Positivo para HIV. Ano provável da infecção: 1985.
Nessa época, o escritor & mago & jornalista & viajante desassossegado andava às mil aventuras. Como não houvesse coragem alguma que o fizesse romper o lacre do envelope contendo o vaticínio, pediu que a amiga Graça Medeiros tratasse disso. Ela obedeceu. A cena que se segue é narrada por Paula Dip em Para sempre teu, Caio F. (Record, 495 páginas. R$ 59,90). Nela, vemos o escritor gaúcho desesperar-se. Lívido, ameaça saltar da janela. Dali a algumas horas, seria internado. Queria morrer, tinha de morrer. Mas não morreu, não ali, não naquele instante. Viveria tempo suficiente para falar da própria doença em programas de televisão e nas crônicas para O Estado de S. Paulo.
Das cartas
Uma biografia carteada. Paula Dip é jornalista, amiga muito próxima de Caio Fernando. Trabalharam juntos na Around, revista jovem e descolada bastante popular. Depois disso, cruzaram-se inúmeras vezes. Ela mesma confessa: quando estava sem emprego, Caio a convidava e vice-versa. A amizade, que começou na redação, num torpedinho timbrado com a logomarca da editora Abril atirado por um homem magricela e enigmático do outro lado da sala, cresceu. Virou febre. Tinham suas rusgas, porque, além de jovem, bonito, culto, Caio era difícil, ferino, instável, dramático em excesso. E Dip o admirava.
A correspondência entre ambos sempre foi volumosa. Depois da morte do “Ney Matogrosso da literatura brasileira”, como o próprio Caio gostava de se definir, passaram-se dez anos até que a jornalista pudesse reunir coragem suficiente para reler as missivas. E as releu. E em seguida colocou em prática o compromisso assumido por eles: quem restasse vivo escreveria a história do outro.
Por meio das dezenas de cartas trocadas, e também de depoimentos colhidos para o livro, Paula Dip reatou o compromisso. De modo ora difuso, ora perturbadoramente denso, a história de Caio F. é contada. Vêm à luz a infância em Santiago do Boqueirão, no extremo sul do Brasil, os anos de desbunde na Europa, os amores torcidos, a era de Aquário, a doença, as paixões, o jornalismo, a impressão que lhe causou uma jovem poeta carioca, jovem e deprimente, jovem, bela e deprimente: Ana Cristina César. Os dias passados na Casa do Sol, residência-castelo da escritora-bruxa Hilda Hilst, também estão lá, manuscritos.
Ali, Caio viveria um episódio curioso: a mudança do timbre da voz. Se antes o escritor tinha vergonha de falar, se se escondia nos cantos, se evitava conversas e passava por tímido ou pedante, era porque tinha vergonha da voz, fina, aguda, estridente. Um dia ele escreve à família: “Esta é uma carta só de boas notícias, portanto preparem-se. Em primeiro lugar MINHA VOZ MELHOROU! Foi uma mudança completa: estou com a voz muito bonita, grave, forte, perfeitamente normal...”. Bruxaria da velha Hilda? Estudioso da influência das órbitas de planetas e estrelas na vida das pessoas, para o escritor, a responsável pela mudança foi uma estrela cadente. Quando viu seu rastro, fez três pedidos: ganhar um prêmio de literatura, viajar à Europa e engrossar a voz. Em poucos dias, obteve as três graças.
Outro dado engraçado: a primeira carta em que Caio Fernando Abreu assina apenas Caio F., referência à dependente química alemã Christiane F., cujo relato se tornaria um dos livros mais vendidos na Europa naqueles anos perdidos de uma década perdida.
PARA SEMPRE TEU, CAIO F.
(Record, 495 páginas. R$ 59,90), de Paula Dip.
Saramago se despede de seu blog para escrever outro livro
AFP) - O escritor português José Saramago, de 86 anos, deu uma pausa em seu blog com o objetivo de se dedicar em tempo integral à concepção de um novo livro, anunciou.
"Sempre conveio às despedidas que fossem breves (...) Então, adeus. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar todo o meu tempo a ele. Já verá por quê, se tudo correr bem", explicou na última entrada de seu blog "O Caderno de Saramago".
"Enquanto isso, aqui está 'Caim'", oferece o escritor, prêmio Nobel de Literatura 1998, referindo-se ao título de seu último romance, que será publicado em vários idiomas nos próximos meses.
"Caim", que segue "A viagem do elefante", publicado no ano passado, é o décimo sexto romance de Saramago, que também é poeta, dramaturgo e ensaísta, tendo como tema esse personagem bíblico.
O autor de "A caverna", de "O evangelho segundo Jesus Cristo" e de "Ensaio sobre a cegueira", que em 2007 sofreu uma grave pneumonia, avisa que a despedida de seu blog, que iniciou há cerca de um ano, não é definitiva.
"Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno", adverte.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Saramago redime Caim em seu novo romance

Escritor ataca o catolicismo ao apontar Deus 'como autor intelectual do crime' cometido por Caim
EFE
O escritor português José Saramago volta a atacar a religião em Caim, seu novo romance, que será publicado em outubro e no qual redime o protagonista do assassinato de Abel e aponta Deus "como o autor intelectual do crime, ao desprezar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido".
O romance será levado à Feria do Livro de Frankfurt, que ocorre de 14 a 18 de outubro e no final do mesmo mês chegará às livrarias de Portugal, América Latina e Espanha.
Saramago vai falar pela primeira vez de seu novo livro no lançamento mundial, em Lisboa. Mas o escritor, que passa o verão em sua casa na ilha espanhola de Lanzarote e prepara as malas para voltar a Lisboa, falou à Efe por e-mail que o que pretende dizer com Caim é que "Deus não é de se fiar. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?
Quase 20 anos depois de seu discutido livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que foi vetado pelo governo português para competir pelo Prêmio Europeu de Literatura, o Nobel português faz uma irreverente, irônica e mordaz leitura por diversas passagens da Bíblia, mas não teme que voltem a crucificá-lo.
"Alguns talvez o façam - afirma Saramago - mas o espetáculo será menos interessante. O Deus dos cristãos não é esse Jeová. E mais, os católicos não leem o Antigo Testamento. Se os judeus reagirem não me surpreenderei. Já estou habituado."
No entanto, acrescentou: "Mas é difícil para mim compreender como o povo judeu fez do Antigo Testamento seu livro sagrado. Isso é uma enxurrada de absurdos que um homem só seria incapaz de inventar. Foram necessárias gerações e gerações para produzir esse texto".
José Saramago não considera esse romance seu particular e definitivo ajuste de contas com Deus, porque "as contas com Deus não são definitivas, mas sim com os homens que O inventaram", disse. "Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos", assinalou o autor.
O escritor nega que o fato de ter chegado perto da morte há um ano, quando foi hospitalizado por conta de uma pneumonia, o tenha feito pensar mais em Deus. "Tenho assumido que Deus não existe, portanto não tive de chamá-Lo em uma situação gravíssima na qual me encontrava. Mas se eu o chamasse, e ele aparecesse, que poderia dizer ou pedir a Ele, que prolongasse minha vida?" Saramago diz ainda que "morreremos quando tivermos que morrer. E diz que quem o salvou foram os médicos, Pilar (sua esposa e tradutora) e o excelente coração que tenho, apesar da idade. O resto é literatura, da pior espécie".
Há um ano o escritor surpreendeu seus leitores pela ironia e humor que destilam as páginas de Viagem do Elefante, e agora volta com Caim. Para Saramago é um mistério. "Não foi deliberada nem premeditada, a ironia e o humor que aparecem nas primeiras linhas de ambos os livros. Poderia ter usado uma narrativa solene, mas seria uma estupidez rechaçar o que está sendo me oferecido numa bandeja de prata.
O escritor começou a pensar em Caim há muitos anos, mas começou a escrever o romance em dezembro de 2008, concluindo o texto em menos de quatro meses. "Estava em uma espécie de transe. Nunca havia me sucedido tal coisa, pelo menos com essa intensidade, com essa força", lembra.
Saramago, que uma vez escreveu que "somos contos de contos contando contos, nada" e assim continua. Escreve mais e mais rápido do que nunca (três livros em um ano), talvez a melhor maneira de continuar vivo.
"É verdade. Talvez a analogia perfeita seja a da vela que lança uma chama mais alta no momento em que vai se apagar. De toda maneira, não se preocupem, não penso em me apagar tão rapidamente", conclui.
Em seu blog (blog.josesaramago.org)aparece hoje o anúncio do novo romance e uma carta da presidente da Fundação Saramago, Pilar del Río, em que diz aos leitores do Nobel que este Caim não os deixará indiferentes.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Sociólogo de renome internacional, Boaventura de Sousa Santos lança livro de poesias em BH
Intitulada “Janela Presa no Andaime”, a obra revisita temas, pessoas e lugares caros ao autor
Nome de grande prestígio nos meios acadêmicos internacionais e entre os militantes políticos de esquerda, especialmente na América Latina, o cientista social português Boaventura de Sousa Santos está em Belo Horizonte para promover o lançamento, hoje, de seu livro de poesias "Janela Presa no Andaime".
Apesar de pouco conhecida, sua relação com esse gênero literário remonta a meados da década de 60, quando deu início à produção poética que já rendeu títulos como "O Rosto Quotidiano" (1966), "Têmpora" (1980), "Viagem ao Centro da Pele" (1995) e "Madison e Outros Lugares" (1989).
Em "Janela Presa no Andaime", o autor revisita alguns de seus temas e livros, instaurando, dessa maneira, um diálogo intratextual através do qual reinaugura a confrontação do sujeito consigo mesmo e com o mundo.
Os poemas que compõem o livro estão divididos em sete tomos distintos, que carregam títulos como "História das Portas Futuras", "Cartas com Paisagens" e "Palavras Sobrepostas em Ângulo Raso".
Na apresentação do livro, Rogério Barbosa da Silva, doutor em literatura comparada pela UFMG, destaca que a geração de Boaventura viveu, nas décadas de 60 e 70, um intenso movimento marcado pela renovação da linguagem poética e por embates ideológicos acentuados, devido tanto à oposição ao salazarismo quanto aos conflitos entre os escritores ligados ao neorrealismo e ao experimentalismo no embate das ideias.
Livro reúne posts polêmicos do blog de José Saramago
"O Caderno" (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 45) é, de certa forma, uma contradição em termos. Quem quiser consultar o blog do escritor José Saramago pode acessar diretamente na internet o endereço caderno.josesaramago.org. Então qual é o sentido de reunir em livro seus posts escritos entre setembro de 2008 e março de 2009? Os textos são os mesmos, a ordem cronológica permanece, não há apêndices.
Mas, como Saramago é Saramago, a publicação virou um acontecimento e gerou polêmica que correu o mundo, por conta das impertinências do autor contra políticos. A crítica que detonou a crise teve como alvo o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.
No texto "Berlusconi & Cia.", Saramago escreveu: "Na terra da máfia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?".
Até aí, a provocação seria apenas mais uma entre tantas que se multiplicam sem consequências pela internet. Mas a Einaudi, que pertence a Berlusconi e publica Saramago na Itália, se recusou a publicar "O Caderno", que inclui esse post. Saramago reagiu, e a polêmica atraiu a imprensa, lembrando a censura branca que "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" sofreu em Portugal, episódio emblemático em sua carreira.
Agora, depois de dar entrevistas indignadas e escrever artigos duros, inclusive no espanhol "El País", Saramago minimiza o episódio. Em entrevista por e-mail à Folha, disse que os dois incidentes "são casos diferentes". Segundo ele, "em Portugal, a decisão foi do governo, na Itália foi a própria editora que, por temor às consequências, resolveu não publicar. De certa maneira, a editora foi mais papista que o papa".
Isso não quer dizer que tenha mudado de opinião: "Que [Berlusconi] promove a corrupção, toda a gente o sabe. Quanto a ser comparável, no seu comportamento, a um 'capo' da máfia, é uma opinião pessoal minha, de que, evidentemente, se pode discordar. Mas os fatos são eloquentes e permitem as piores comparações. Os escândalos [sobre sua relação com garotas de programa] provam o pouco caso que Berlusconi faz das funções que exerce como primeiro-ministro, salvo quando estão em causa os seus interesses".
Bush e Sarkozy
O veto da editora italiana a "O Caderno" certamente não afetará a difusão de Saramago no país ("mais de 30 editoras da Itália se ofereceram para publicar o livro"). Berlusconi não é o único alvo. George W. Bush ("inteligência medíocre, ignorância abissal") e Nicolas Sarkozy ("irresponsável") também despertaram adjetivos no autor, assim como a esquerda ("continua sem ter uma puta ideia do mundo em que vive").
Quando Saramago lançou seu blog, muito se especulou sobre as implicações dessa produção em sua literatura. Qual a sua opinião? "A internet nem estimula nem atrapalha. São dois campos diferentes. A internet poderia desaparecer que eu continuaria com o meu trabalho, sem lhe sentir a falta."
Isso não quer dizer que despreze a repercussão do blog: "Realmente surpreendeu-me. A penetração é enorme".
Os textos reunidos em "O Caderno" permitem compreender as motivações de Saramago e, especialmente, sua relação próxima com o Brasil. Os textos coincidem com sua última viagem ao país, quando começou a escrever seu próximo romance, que ainda não tem título e será lançado até o final do ano.
sábado, 1 de agosto de 2009
Conto Brasileiro: Aqueles Dois (Caio Fernando Abreu)
Aqueles dois
(História de aparente mediocridade e repressão)
Para Rofran Fernandes:
"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.
Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.
Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.
Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.
II
Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.
Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.
Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.
Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.
III
Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.
Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.
Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.
Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.
Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.
IV
Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.
Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.
Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.
V
Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.
No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.
Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.
Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.
Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.
Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.
Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.
Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.
Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura
DANIEL BENEVIDES
do portal UOL
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.
Capa do mais recente livro de Lobo Antunes lançado no Brasil
LEIA TRECHO DO LIVRO
"Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00 (vinte e duas horas e zero minuto) na direcção da Amadora onde julga-se que por volta das 22h30 (vinte e duas horas e trinta minutos) hipótese sujeita a confirmação após interrogatório quer dos suspeitos quer de eventuais testemunhas até ao momento não localizadas furtaram pelo método denominado da chave-mestra (sujeito a confirmação também e que adiantamos como provável derivado ao conhecimento do modus operandi do grupo) 2 (duas) viaturas particulares de média potência estacionadas nas imediações da igreja a curta distância uma da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos (vandalismo ou situação natural?)permitiam actuar com maior discrição após o que se dirigiram para a saída de Lisboa no sentido da auto-estrada do norte utilizando a via rápida que por não se acharem as ditas viaturas munidas do dispositivo magnético necessário à sua utilização registou as matrículas conforme fotocópia anexa aliás não muito nítida e previne-se peitosamente o comando para a urgência de melhoramentos no equipamento caduco: fotocópia número 1 (um) embora perceptível é verdade com uma lupa decente.
Temos motivos para adiantar com base em actuações pretéritas essas sim já aferidas que os suspeitos se distribuíram nos veículos de acordo com a ordem habitual ou seja o chamado Capitão de 16 (dezasseis) anos mestiço, o chamado Miúdo de 12 (doze) anos mestiço, o chamado Ruço de 19 (dezanove) anos branco e o chamado Galã de 14 (catorze) anos mestiço na dianteira e os restantes quatro, o chamado Guerrilheiro de 17 (dezassete) anos mestiço, o chamado Cão de 15 (quinze) anos mestiço, o chamado Gordo de 18 (dezoito) anos preto e o chamado Hiena de 13 (treze anos mestiço assim apelidado em consequência de uma malformação no rosto (lábio leporino) e de uma fealdade manifesta que ousamos sem receio embora avessos a julgamentos subjectivos classificar de repelente (vacilámos entre repelente e hedionda) a que se juntava uma clara dificuldade na articulação vocabular muitas vezes substituída por descoordenação motora e guinchos logo atrás, salientando-se a importância do chamado Ruço ser o único caucasiano (raça branca em linguagem técnica) e todos os companheiros semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado à margem do presente relatório sobre a justeza da política de imigração nacional. Cerca das 23h00 (vinte e três horas e zero minutos) as duas viaturas alcançaram a primeira estação de serviço do trajecto Lisboa-Porto a cerca de 30 (trinta) quilómetros das portagens tendo parado com os motores a trabalharem
(existia apenas uma furgoneta numa das bombas) diante do estabelecimento envidraçado no qual se efectua a liquidação do montante de gasolina adquirida e onde se pode malbaratar dinheiro em revistas jornais tabaco (espero bem que não álcool) pastilhas elásticas e ninharias. No citado estabelecimento encontrava-se o empregado a conversar sentado à caixa registadora com o condutor da furgoneta e outro empregado mais idoso a varrer o soalho adjacente a uma porta de escritório ou compartimento de arrumos (deseja-se que não destinado à venda clandestina de bebidas espirituosas)
com a placa Interdita A Entrada mal aparafusada à madeira. Os suspeitos apetrecharam-se de gorros de lã e óculos escuros e ingressaram sem pressa no local (de acordo com o depoimento do empregado da caixa um deles e ignora a especificação do indivíduo assobiava) transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército e concedo-me uma breve digressão no meu entender não inteiramente despicienda para sublinhar no caso de me autorizarem uma nota íntima que as estações de serviço à noite iluminadas na beira do caminho me fazem sentir menos desditoso e só quando regresso de Ermesinde aos domingos de madrugada da visita mensal à minha filha, o mundo com as suas árvores confusas e as suas povoações logo perdidas cujo nome desconheço me surge demasiado grande para conseguir entendê-lo e as bombas de gasolina próximas, nítidas, ia escrever cúmplices mas retive-me a tempo me garantem que apesar de tudo possuo um lugar ainda que ínfimo no concerto do universo, alguém talvez me espere tomara descobrir em que sítio com a chávena de um sorriso numa toalha amiga e eu comovido senhores, eu grato, peço perdão de inserir num documento oficial e em papel do Estado este desabafo importuno e este desejo absurdo de companhia: rodar a fechadura e escutar na despensa, na sala, não ouso sugerir que no quarto uma voz que pronuncia o meu nome
- És tu?
em vez do silêncio do costume e da indiferença das coisas de modo que as estações de serviço à noite, escrevia eu, se avizinham da noção de felicidade que há tanto tempo procuro. Adiante. Prosseguindo o presente relatório de que sem desculpa
(estou cônscio do erro e penitencio-me dele) me desviei os suspeitos transportando espingardas de canos serrados e pistolas do Exército ingressaram sem pressa
(um deles, e a dúvida de qual deles, assobiava) no local sem que o empregado da caixa ou o condutor da furgoneta lhes dessem atenção ocupados a comentarem a notícia
de um periódico desportivo e foi o empregado que varria o soalho adjacente ao escritório ou compartimento de arrumos (o qual não continha, acrescento com alegria, bebidas espirituosas embora não ponha de parte, que vigaristas não faltam, a hipótese de as haverem ocultado antes da minha visita) quem se apercebeu do assalto erguendo a vassoura e prevenindo o sócio - Olha estes miúdos pretos César
sem oportunidade para mais considerações dado que uma das espingardas de canos serrados disparou 5 (cinco) projécteis consecutivos não se lhe notando sangue na roupa, o sangue na parede atrás dele depois de cair em estremeções sucessivos isto é poisando as nádegas no chão a olhar os suspeitos ou não olhando ninguém conforme o meu padrasto levantava a cabeça cega das palavras cruzadas a remoer sinónimos e a baixava de novo preenchendo os quadradinhos em maiúsculas triunfais, a mão direita
(do empregado não do meu padrasto) alongou-se, o médio, que durou mais que os outros dedos encolheu um tudo nada (estou a vê-lo daqui) e pondero se o vento tocava os arbustos lá fora ou os deixava em paz: durante séculos em criança pensei que as árvores sofriam, os teixos por exemplo uma mágoa quieta, eu às pancadinhas nos
troncos
- O que se passa com vocês?
e nenhuma resposta, dores secretas como em geral os ramos, fingem continuar, disfarçam-nas e no entanto quando pensam que os não vemos fabricam um lagarto numa ranhura da casca que é a sua forma de segregarem lágrimas, o condutor da furgoneta julgou recuar um passo e proteger-se com uma pilha de revistas sem recuar passo algum, uma coronha de pistola apanhou-lhe o ombro e a metade esquerda dos ossos que uma sobrancelha a tremer amparava, desajustou-se da direita o meu padrasto esse aguentava a cólica renal com o auxílio não da sobrancelha, da palma empurrando-a para o interior da cintura
- Não me atormentes agora
e tenho a certeza que os arbustos da estação de serviço a sacudirem flores miúdas sem nome, tantas folhas a vibrarem desejando que as socorrêssemos
- Eu eu
um dos suspeitos deu a volta ao balcão e entornou a gaveta da caixa num saco, um automóvel desceu para as bombas de gasolina porque buxos novos surgiram do escuro, uma claridade geométrica fixou-se no tecto, aumentou e o que eu não pagava para observar os buxos, o condutor da furgoneta indiferente a eles mancou um passo na direcção dos faróis com a sobrancelha a puxá-lo e a metade que não pertencia à sobrancelha um peso mole a resistir, o cano da pistola um fuminho, ninguém se apercebeu do ruído (ter-me-ia apercebido do ruído se estivesse com eles?) o condutor da furgoneta de joelhos contra a vontade da sobrancelha indignada com a desobediência
- O que é isto?
e isto é um peito que tomba, não uma pessoa, um sapato a dilatar-se, a argola das chaves que se desprendeu da algibeira e a argola que esquisito um ruído imenso, lento, o empregado da caixa sem entender o sapato enorme e as chaves, um nariz que escorregou para a boca (engole-o não o engole?) os (não engole) suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram a estação de serviço às 23h10 (vinte e três horas e dez minutos), continuaram para Santarém e os arbustos serenos, a certeza que num ponto do escuro, talvez na minha cabeça (creio que na minha cabeça) uma janela a bater, o meu padrasto para a minha mãe do interior das palavras cruzadas
- A janela
(de tempos a tempos quando menos espero um incómodo de gonzos, a voz dele
- A janela
eu a espreitar em torno, nem uma corrente de ar para amostra e no entanto a certeza de um estranho respirando-me no pescoço comigo a perguntar
- Qual janela?)
as viaturas furtadas cortaram à direita 12 (doze) quilómetros acima e o dispositivo magnético esquecido da sua obrigação
(- Qual janela?)
não assinalou as matrículas, pinheiros bravos, carvalhos (não sou forte em Botânica e estava aqui a pensar se arrisco castanheiros ou não, não arrisco, como descrever um castanheiro em condições?) vivendas de emigrantes algumas por completar
(quase todas por completar, basta de imprecisões rapaz, gosto de me tratar por rapaz aos sessenta e três anos, dá-me a ilusão que a morte, deixemos o assunto, siga a banda) um cozinheiro de cerâmica de tamanho natural com a ementa em riste a anunciar uma churrascaria ou seja uma esplanada de cadeiras empilhadas e guarda-sóis recolhidos, a sedazinha turva de um gato a escorrer almofadado de um tapume, um rádio numa varanda aberta que os suspeitos não escutaram, depois do chafariz uma travessa, duas travessas, a nossa casa que podia ser acolá e não era, a minha mãe para o meu padrasto
- Fazias melhor se largasses o jornal e vedasses a janela
insistem que me pareço com a minha mãe e argumento que não, comparando com o retrato
(não me lembro em pormenor das feições) talvez as orelhas e o contorno do queixo, a expressão nem sonhar, de acordo com a minha mãe de resto eu o meu pai por uma pena
- Já não me bastou um tenho que aturar outro quando o meu pai um pacífico coitado, depois da reforma cantava no orfeão da paróquia e via a chuva cair, tardes e tardes no sofá murmurando não imagino o quê
(a minha mãe imaginava- Lá estás tu)
a ver a chuva cair, uma travessa, duas travessas, no fim da segunda travessa um largo e no largo uma loja de telemóveis, o meu pai trabalhou na Polícia também não como agente de investigação claro, faltavam-lhe miolos, nos Serviços Gerais, copiava minutas, carimbava, contava as moscas no estore, o chefe do fundo
- A pensar na morte da bezerra Gusmão?
quatro dos suspeitos, 23h48 (vinte e três horas e quarenta e oito minutos) saíram dos bancos da retaguarda das viaturas furtadas e quebraram a montra sem se preocuparem com o alarme que principiou aos uivos, não uma campainha, uma espécie de sereia a sacudir o sistema solar a mãos ambas, onde moro as ambulâncias descolam-me o lustre com os seus berros de esfaqueadas e os pingentes arrepiam-se trocando de posição enquanto os vizinhos
- Que susto
os suspeitos encheram as bagageiras de caixotes cabos instrumentos acessórios e decorridos onze minutos precisamente, às 23h59 (vinte e três horas e cinquenta e nove minutos) seguiram em sentido inverso de regresso a Lisboa, a segunda travessa, a primeira travessa, o chafariz com uma torneira de latão que mesmo fechada
continuava a pingar, a música do rádio que não escutavam enquanto a sereia transmitia as suas ânsias num deserto de sombras, os pinheiros bravos, os carvalhos, a via rápida que desta vez(há coisas que funcionam valha-nos isso num país em decadência)
fotografou as matrículas conforme consta do respectivo documento apenso
(no caso de não ter caído ao chão)
que se o meu pai continuasse vivo e escriturário
(não tenho vergonha do meu pai não se acredite nisso)
lhe passaria pela mesa para o visto de entrada
(não se demorava a lê-lo pois não senhor?)
terminando no colega que os despejava num cesto em que não se mexia, mais maçadas para quê o que não falta são crimes
(- Desculpe se a contrario mãe mas o que herdei do meu pai?)
hesitaram na estação de serviço na volta entramos não entramos, principiaram a travar, guinaram para um cachorro vadio sem conseguir atingi-lo, desistiram da estação de serviço e do bicho que aliás desapareceu numa madeixa de moitas, preferiram um casal num carro, o homem ao volante todo pinoca e a mulher a pentear-se inclinada para a frente no espelho da pala, colocaram o carro do casal entre as viaturas furtadas
(não tenho vergonha do meu pai?)
e foram abrandando tocando-lhe de leve, a mulher deixou de pentear-se e diminuiu no banco, o pinoca tentou obliquar para a outra faixa e uma batida no ângulo do pára-choques impediu-o de maneira que o carro e o casal imobilizados aos poucos, 00h14 (zero horas e catorze minutos) de acordo com o depoimento da mulher sujeito ao erro do medo, na minha opinião eu que refiz o percurso 00h30 (zero horas e trinta minutos) no mínimo e um espaço à direita
para os postes de chamada de quando os radiadores avariam, experimentei-o e uma mudez comprida
(afinal nem uma só coisa trabalha num país em decadência)
eu para ali feito parvo de aparelho no ar e o meu ajudante pelo vidro descido
- Largue isso
cheio de opiniões o presunçoso, faça assim não faça assim, mais alto que eu, com dois terços da minha idade e o cabelinho abundante, decidido a tomar-me o lugar e há-de tomar-me o lugar é uma questão de meses porque neste Purgatório injusto são os que sabem agradar aos patrões não os que trabalham quem ganha
(tenho sentido isso na carne, não me promovem há anos, a mesma função, o mesmo ordenado e agradece)
e ao tomar-me o lugar não me atreverei a palpites pelo vidro descido
- Largue isso
fico à espera obediente, composto, tem razão senhora, eis o meu pai chapadinho, dêem-me um carimbo e eu feliz, humedeço-o na almofada e o escudo da República brilhante de tinta no ângulo superior direito das páginas, o carro do casal adornado na berma com as viaturas furtadas encostando-se a ele, não árvores desta feita e por conseguinte não hipótese de castanheiros que não me atreveria a descrever, pinheiros e carvalhos vá lá, castanheiros
não, tenho consciência dos meus limites, não árvores, um carril de protecção a impedir um valado com um ribeiro em baixo, visto que lodo a saltar entre caniços e na primavera seixos transformados em rãs que ganham pernas, se arqueiam, diz-se que comem mosquitos, os suspeitos fora das viaturas sem gorros nem óculos, um branco,
um preto e seis mestiços
(creio ter mencionado isto tudo)
de idades compreendidas
(curiosa expressão, quem compreende as idades?)
entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos, o mais velho o branco a que chamam Ruço e não mandava um cisco, o pinoca a travar as portas, a mulher esquecida do cabelo
- Jesus
não se estava na primavera e portanto não rãs, seixos que não ligavam aos mosquitos e ervinhas com ambições de juncos não realizadas por enquanto, os suspeitos utilizaram as chaves-mestras nas portas, um camião passou por eles com um atrelado de vitelos de que se distinguiam reflexos de pêlo, mandíbulas, baba, um dos pneus solto ia dançando no eixo e o sujeito na cabine com uma ferradura no tejadilho a dar sorte, nunca acreditei em amuletos, ferraduras figas trevos de quatro folhas de esmalte, ou se nasce de cu para a lua ou não se nasce, não nasci e acabou-se não vou chorar por isso embora haja ocasiões em que uma lágrima não me caísse mal, impeço-a de chegar ao olho empurrando-a com o polegar e que remédio tem ela senão voltar para dentro e desistir, adeus lágrima, a porta do pinoca e a porta da mulher escancaradas, o pinoca"
.........................................................................................................
Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".
Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros", de 1981). Mais ou menos porque o papel do leitor é um tanto difícil, exige dedicação e tenacidade.
Ainda que Antunes considere seus livros fáceis, fato é que sua escrita tem a densidade e o emaranhamento de uma selva profunda, com poucas clareiras. Mas também é verdade que, ao se aventurar pelas frases incomuns de seus romances, o leitor chega ao final recompensado por uma experiência literária única, estimulante.
"O Meu Nome é Legião" é uma verdadeira polifonia de vozes, tempos e registros diferentes. Começa na forma de um relatório policial sobre os crimes cometidos por uma gangue de garotos da periferia de Lisboa: "um branco, um preto e seis mestiços (...) de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos". Há muita violência e a forte sugestão de ódio racial, o que remete ao período colonial. Aos poucos, o policial em final de carreira que anota os fatos deixa-se levar por memórias e pensamentos aparentemente aleatórios.
O escritor português António Lobo Antunes durante entrevista em Paraty (RJ), onde esteve para participar da Flip (03/07/2009)
A narração então se esparrama por vias de curvas quase impossíveis e cruzamentos bruscos. A impressão é que o livro ganha vida autônoma, toma as rédeas para si. A pontuação se rebela, os parágrafos são cortados no meio por estranhos parênteses, as falas surgem inesperadamente, confundindo-se com os fluxos de consciência, nem sempre com o habitual travessão. Imagens variadas passam pelos olhos à medida em que as vozes e testemunhos se alternam e/ou se sobrepõem.
Ora sabemos o que pensa a mãe de um dos criminosos, o chamado Miúdo, ora a irmã de outro, o Hiena; ora deparamos com o depoimento íntimo de uma prostituta branca, amante do Gordo, o mais silencioso da gangue, ora mergulhamos nas impressões de um avô desencantado.
Nesse meio tempo, a polícia vai fechando o cerco e matando alguns dos delinqüentes com requintes de crueldade.
Perto do final, "ouvimos" a versão dos miúdos, de como foram mal amados, maltratados, excluídos na infância. O livro que tratava das desigualdades -- raciais, sociais, geográficas --, da violência urbana extremada e, em última instância, do Mal que nos invade como demônios, fala agora de Amor, amor pela humanidade, compaixão. É assim que o próprio escritor vê seu romance, que considera um de seus melhores.
O título, resumo simbólico do enredo, surgiu para Antunes só no final da escrita. Vem de um episódio no Evangelho de São Lucas. Jesus se encontra com um homem nu e desfigurado, possuído por espíritos malignos, e pergunta por seu nome. "O meu nome é legião", responde o infortunado, "porque somos muitos".
Em "Explicação dos Pássaros", Lobo Antunes trata do fim de um relacionamento
"Explicação dos Pássaros"
Trata-se do quarto romance de António Lobo Antunes e o primeiro propriamente de ficção, surgido depois dos autobiográficos "Memória de Elefante" (1979), "Os Cus de Judas" (1979) e "Conhecimento do Inferno" (1980), que tratam de sua experiência como psiquiatra em Lisboa e como médico na guerra de Angola.
"Explicação dos Pássaros" traz já a marca de seus escritos mais audaciosos, adotando a técnica polifônica, com andamentos para trás e para a frente no tempo.O autor declarou ser esse o primeiro livro do qual não se envergonha. E que foi o único a lhe sair rápido: escreveu-o em apenas seis meses ("um milagre").
A história trata do fim de um relacionamento, mas também, de certa maneira, de Portugal. O professor universitário Rui S. viaja da carro com sua segunda mulher, Marília, por quatro dias. Atormentado por recordações, está decidido a pedir-lhe a separação.
Lobo Antunes recebeu em 2007 o Prêmio Camões e em 2008 o Juan Rulfo.
sábado, 18 de julho de 2009
Entrevista com Chico Buarque: "mas Chico é nome de escritor ruim"
*matéria do Publico.pt
Na sua primeira entrevista sobre "Leite Derramado", Chico Buarque abre a porta de casa e do novo romance. "Making of" de um livro, de um músico, de um escritor e de um herói brasileiro, não necessariamente por esta ordem
Esqueçam os olhos, o sorriso, a classe e o charme. Chico Buarque, 65 anos, é muito mais do que isso. "Eran las cinco en punto de la tarde" quando o escritor e compositor brasileiro abriu a porta de casa, no Alto Leblon, no Rio de Janeiro, para dar a sua primeira entrevista sobre "Leite Derramado". Dias antes, tinha sido a atracção da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty, onde participou numa divertida mesa-redonda com o escritor brasileiro Milton Hatoum e falou pela primeira vez sobre este romance que saiu no Brasil há meses e pouco depois foi publicado em Portugal pela Dom Quixote.
"Leite Derramado" foi escrito depois do sucesso mundial de "Budapeste" (Prémio Jabuti 2004, cuja adaptação ao cinema está em exibição nas salas brasileiras) e há quem o considere o romance "mais hábil" e "mais inspirado" do autor. Chico criou Eulálio, um velho centenário que, deitado numa cama de hospital, conta às enfermeiras, ao médico, aos maqueiros e à filha a história da decadência da família. É um monólogo delirante, pontuado por momentos de humor, onde, em 200 páginas, o autor de "Estorvo" e "Benjamim" condensa a história dos últimos dois séculos brasileiros.
Quando se entra na sala de Chico, não é o piano do século XIX que pertenceu ao seu pai ali, nem são os quadros nas paredes, nem são os livros na estante (sobre Oscar Niemeyer ou Vinicius de Moraes, e um dicionário que é uma relíquia) que retêm a atenção. É a varanda e janela que não termina mais, e de onde se avista o Leblon e Ipanema até à pedra do Arpoador. "Em dias límpidos", diz o escritor, "chega-se a ver a costa de Niterói".
Depois de desaparecer a assobiar na cozinha onde foi fazer um "cafezinho", sentou-se no sofá e, entre receber telefonemas e toques de campainha, durante quase duas horas falou de si, do seu trabalho, do velho Eulálio e de Matilde. Com simpatia e gentileza extremas, respondeu a todas as perguntas e ainda tirou dúvidas por "e-mail". A mãe, dona Maria Amélia, está quase a fazer 100 anos e leu o romance. "Gostou do livro e aprovou as referências históricas. Só fez um reparo ao turbante da [personagem] Matilde". Não se pode ser perfeito em tudo.
Na Festa Literária de Paraty afirmou que sabia que, quando voltasse à ficção, não podia escrever nada parecido com "Budapeste". E se nesse romance escreveu sobre uma cidade que nunca viu, em "Leite Derramado" achou que podia escrever sobre um tempo onde nunca esteve. Mas por aqui passa também um fascínio pelo navio francês transatlântico "Lutétia", muito referido ao longo do livro pelo narrador.
Essa foi uma das ideias. Eu estava determinado a escrever um livro. Tinha terminado o meu ciclo musical, com canções novas, espectáculos. Parei e disse: "Está na hora de voltar à literatura". Durante meses, só me dedicava a querer escrever, sem escrever nada. Ia escrevendo, procurando caminhos. Procurei vários até encontrar esse de "Leite Derramado". Foi a partir do momento em que comecei a namorar a ideia de situar o núcleo da história no começo do século passado que por algum motivo fui dar nesse navio. Conversas que ia tendo ao longo do tempo.
Conversava com quem?
Tenho uma mãe centenária, vai fazer 100 anos em Janeiro. Tenho a impressão que foi ela a primeira pessoa a me falar sobre esses navios. Ela mora em Copacabana, aqueles navios ali passando... Alguns dos navios nomeados - o "Cap Polónio", alemão; o "Lutétia", da França; o "Arlanza", inglês - são navios de que ela me falou. Como precisava de um caminho para o livro, comecei a me interessar por esses navios. Comecei a ler sobre o "Lutétia" e havia várias histórias interessantes ali.
Li sobre várias viagens, a última viagem do Santos Dumont [aviador] da Europa para o Brasil foi a bordo do "Lutétia"; o grupo Oito Batutas - que era do Pixinguinha com músicos brasileiros que pela primeira vez se apresentaram na Europa, em Paris, com grande sucesso - voltou no "Lutétia". Le Corbusier [o arquitecto] e Josephine Baker [a cantora] fizeram nele uma viagem do Rio para Bordeaux.
Como músico você fez, com Toquinho, a primeira parte dos espectáculos da Josephine Baker numa "tournée" em Itália.
Achei engraçado. Juntar o meu encontro com a Josephine Baker com o meu grande interesse por arquitectura. Sou ex-estudante de arquitectura, muito amigo de Oscar Niemeyer, e achei curioso esse encontro de Le Corbusier com a Josephine Baker no "Lutétia". Nessa altura pensei: "Por alguma intuição é nesse navio que eu vou. É por aí que eu vou começar essa história". Enfim. A história não começou por aí, mas comecei a me localizar naquele ano, em 1929, a partir daí. Claro que o navio, no fim das contas, tem um papel secundário no livro. Mas a isca foi o "Lutétia".
Aconteceu-lhe também ter ouvido a canção "O Velho Francisco", que foi escrita por si em 1987, numa versão recente na voz de Mónica Salmaso.
Isso foi o que me encaminhou para a ideia de o narrador ser um sujeito com idade avançada e com memórias. Não quis escrever um romance situado em 1929, quis dar um relato actual com essas memórias, algo confusas, como são as memórias de um velho. Não tanto quanto "O Velho Francisco", que foi quem me deu essa luz. Esse é um velho absolutamente delirante - o da canção. O meu tem momentos de delírio, mas tem momentos de lucidez. Supostamente aquela história aconteceu com ele. Ele não está a inventar nada. Talvez esteja a tergiversar, não quer contar exactamente como foi. E há também essa confusão própria de um homem de 100 anos. Obsessões, recordações que voltam sempre modificadas, aqui e ali há lapsos de memória, há esquecimentos voluntários. Tudo isso.
Isso faz parte do que há de melhor neste livro...
Eu achei que o processo de recordação de um velho indicava um caminho literário. O processo da memória do velho me pareceu um processo moderno de narrativa. Muitas vezes, essas histórias que aparecem e mais adiante reaparecem, contadas de outra forma, eu já usei em outros livros mas talvez como um exercício de estilo. Aí não, é próprio dele, próprio da maneira daquele velho relembrar a sua história.
Porque é que deu à personagem o nome de Eulálio? O seu tetravô também se chamava Eulálio.
Como é que você sabe disso?!
Está no livro "Tantas Palavras, Todas as Letras & Reportagem biográfica de Humberto Werneck" (Companhia das Letras) que ele se chamava Eulálio da Costa Carvalho.
(risos) É verdade, é verdade. Não, não foi em homenagem ao meu tetravô, não.
Em Paraty disse que as lembranças da família tinham sido muito importantes.
Relatos de família, coisas que ouvi, estão no livro. Mas o nome Eulálio não. O nome Eulálio é um nome que existe na minha família e que se repete. Meu tetravô e também um tio que se chamava Eulálio. [Já anoiteceu, o escritor olha através da janela e perde-se: "Ai, que lua. Linda mesmo!"] O curioso é que o nome não foi pensado no início, mas há essas coincidências que são instigantes. Quando começo a encontrar coincidências, tenho a impressão de que estou no caminho correcto. Já com o livro encaminhado fui descobrir o significado da palavra eulalia. A minha preocupação com a narrativa era tornar a fala ou a escrita - que é uma verborragia constante desse velho - fluida. Queria dar uma fluidez a essa narrativa que permite alguns capítulos sejam, na verdade, parágrafos únicos.
Ia fazer-lhe essa pergunta, sobre a ausência de parágrafos ao longo de "Leite Derramado". São longos parágrafos onde pretendo que não haja nenhum tropeço. Que não haja solução de continuidade, que uma coisa puxe a outra, que puxe a outra, que puxe a outra e que não fique forçado. Não quero fazer um artifício gráfico. É como se fossem golfadas de memória desse velho. A eulalia é o falar agradável. Eu não sabia disso quando dei o nome de Eulálio. Mas no meio do caminho eu me interessei: Eulálio de onde vem isso aí? A eulalia significa fluência no falar, assim como a cacolalia, caco é feio, não é?, é o falar mal, falar com defeitos ou até com erros de linguagem, solecismos. Taquilalia é o falar depressa [risos]. E o nome honestamente não foi escolhido por isso, mas poderia ter sido. Tem a ver com esse desejo do velho de falar, de falar, de falar, de encontrar interlocutores e quando não há interlocutores ele inventa, ele confunde. E quando não há nenhum mesmo, ele fala para as paredes mas não pára de falar. Ou se pára, pára para dormir e recomeça na página seguinte. No capítulo, parágrafo seguinte. Com um novo impulso e vai até ao fim pretendendo dar essa fluidez.
Escreveu este romance sequencialmente? Quando se sentou para escrever o livro começou do princípio ao fim?
Sim. Já tinha algumas coisas esboçadas aqui e ali. Pouca coisa. Quando eu julguei que tinha o livro, que tinha história boa, a história que me interessava à mão, comecei a escrever do princípio e fui até ao fim. Evidentemente, uma outra vez, mas pouco, retornei a trechos anteriores por causa de acontecimentos que sucediam ali adiante. Fui obrigado a retocar algumas coisas mas isso foi muito pouco. Na verdade, ele foi acontecendo de cabo a rabo. Geralmente o que acontecia antes é que provocava [risos], é que tinha consequências ali adiante. Uma ou outra vez confesso que não. Alguma coisa que me interessava que acontecesse ali adiante, precisava que eu alterasse uma coisinha ou outra que já estava escrita. Mas de modo geral foi escrito do começo ao fim, na ordem que está no livro.
Sempre que recomeçava a escrita deste romance, lia o que já tinha escrito para trás. Lia alto, lia só para si?
Não cheguei a ler alto, não. Mas era como se lesse alto. Eu só me satisfazia com a escrita quando ela soava bem. Mas para soar bem, não preciso falar alto. Me soa bem um pouco como uma música dentro da cabeça. Quando digo música, digo música de propósito porque tem a ver. Acho que é evidente. Quem sabe que sou músico, que trabalho com música, ou mesmo talvez para quem não soubesse, daria para se perceber que esse autor mexe com música. É um autor que tem um ouvido musical. Agora eu, para pensar numa música, não preciso necessariamente de cantá-la. Dentro da minha cabeça tenho a melodia. E a melodia de cada frase do livro tinha que soar bem dentro da minha cabeça. Não me aconteceu de falar alto para ver se soava bem, não foi necessário. Há uma cadência, um ritmo dentro de cada frase que obedece a um critério musical. Isso já disse em relação a outros livros meus e é facto.
Como é que tratou a linguagem neste romance? De vez em quando o velho diz: "...em mil seiscentos e lá vai pedra". Usam-se estas expressões agora no Brasil?
"E lá vai fumaça!" Engraçado que eu quase usei uma expressão portuguesa, "mil novecentos e carqueja". Li não sei onde, mas não está nos meus dicionários e acabei por deixar de lado. Aqui ninguém ia perceber. "E lá vai fumaça" era o mais usado no Brasil, mas também fora de moda. Se você falar na rua "mil e oitocentos e lá vai fumaça" vai-se entender. Se falar "mil oitocentos e lá vai pedregulho" também. Agora eu acho que a linguagem do velho tem alguns anacronismos, principalmente quando ele se decide a falar com uma certa afectação. Quando ele lida com pessoas mais humildes, é uma forma de ele se valorizar por intermédio da linguagem, de criar uma distância de classe até, e então ele começa a falar de uma certa forma empolada. Ao mesmo tempo, aqui e ali, ele fala um português ou um brasileiro quase coloquial. Evidentemente que não escrevo como falo, nem pretendo reproduzir a linguagem oral, mas não creio que o livro inteiro seja escrito numa linguagem "démodée". Acho que muitas vezes propositadamente é, mas não ao longo do livro todo.
Falou nas lembranças de família. Há críticos que consideram que há neste livro grande influência da obra do seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor de "Raízes do Brasil".
Conscientemente não há influência dos livros de meu pai. Há a presença do meu pai porque ele é um historiador e os estudos e o trabalho dele normalmente vazavam para a conversa do dia-a-dia. Não que se fosse conversar sobre a história do Brasil o tempo todo. Inclusive eu citei lá coisas anedóticas que ele gostava muito. O que ele não podia usar, porque não cabia no tom dos livros dele, os restos dessas histórias, a pequena história, eram assuntos lá em casa. Pequenas coisas sem importância que nas pesquisas ele descobria, que eram engraçadas, mas não faziam parte do repertório dele oficial, do que era escrito. Mas que ele comentava. Eu naturalmente sou interessado em História, em História do Brasil especialmente, mas não sou um grande estudioso nem sequer da obra do meu pai.
É como se houvesse uma sombra, como se a obra do seu pai fosse demasiado grande? Deve ser complicado ser filho do seu pai, como deve ser complicado, para as suas filhas, serem suas filhas.
Vou lhe falar a verdade. O meu pai, o nome dele na minha juventude e na minha infância, não pesavam sobre mim. Até pelo contrário, as pessoas perguntavam é se eu era filho do Aurélio. O Aurélio é um dicionarista [risos]. É um primo distante do meu pai. E eu ficava aborrecido de me falarem sempre do Aurélio. E saía no jornal "Chico, filho do Aurélio" ou "Chico, sobrinho do Aurélio", nem sobrinho eu sou! E eu dizia: "Sou filho do Sérgio" [diz com entoação]. Não tive esse problema com o meu pai. Poderia ter uma rejeição pelo peso que ele tem. Mas os livros dele são livros para historiadores. Eu conheço o que o meu pai escreveu, mas não sou profundo conhecedor. Agora o assunto, sim, me interessa. História talvez seja mais até genético do que resultado de aprendizado. Leio um jornal, há referências históricas, eu vou ali. Como se há um mapa das Honduras, vou olhar o mapa. Se há uma referência a uma guerra no Afeganistão, gosto de ir ver de onde é que vem isso, tenho um interesse natural por História. Mas repito: não sou um estudioso. Não tenho a pretensão com o meu livro de estar interpretando a história do Brasil.
Para a crítica há neste livro influência de Machado de Assis. Concorda? De novo vou ter que dizer que não tenho consciência de tudo o que são as minhas influências. Tão-pouco sou um conhecedor da obra de Machado de Assis. Vou contar uma história. Eu comecei a me interessar por literatura por influência do meu pai. O meu pai antes de ser historiador foi crítico literário. Quando ele era muito jovem, tinha 20 anos, foi correspondente no Rio de Janeiro da revista "Klaxon", criada pelos modernistas de São Paulo como veículo de divulgação de seu movimento. Era amigo de Mário de Andrade, daquela gente toda. E a vocação dele era literária. Foi para a Alemanha nos anos 30, lá entrevistou o Thomas Mann, trouxe da Alemanha informações sobre autores que eram pouquíssimo conhecidos no Brasil. Talvez tenha sido a primeira pessoa a escrever sobre Kafka e Joyce. Então a minha biblioteca de formação eram os livros que estavam na estante de meu pai. Interessava-me, um pouco, talvez porque eu me quisesse aproximar do meu pai por esse intermédio da literatura. E eu não me lembro de Machado de Assis na estante do meu pai.
E?
Depois perguntei a pessoas próximas, professores que o conheceram, se sabiam da ligação de meu pai com Machado de Assis. Disseram-me que respeitavam mas que não era um apaixonado por Machado de Assis. Porque o movimento modernista, em 1922, precisou esconder Machado de Assis para se afirmar como uma nova literatura no Brasil. E essa era a literatura que interessava mais a meu pai. Então estudei, li Machado de Assis, como li Eça de Queirós na escola. Eu li "Dom Casmurro", "O Alienista". Não li "Memórias Póstumas de Brás Cubas" [risos] e têm citado muito ele.
Eu sou um leitor muito indisciplinado, leio muito e sem uma direcção determinada. Não tenho tempo de ler tudo o que quero, evidentemente. O ano passado foi um ano em que se falou muito de Machado de Assis por causa do centenário. Não li literatura enquanto estava escrevendo, mas claro que os jornais eu lia. E Machado esteve muito presente. O facto de ter lido o Machado nos meus 15, 16 anos, isso conta muito. Foi lido lá atrás, na nossa adolescência. De alguma forma percorre algum caminho e pode transparecer na escrita. Não recuso isso, não. Pode ser que seja muito mais forte do que eu possa imaginar. E talvez a leitura dos jornais sobre Machado, sobre "Dom Casmurro", tenha reavivado no meu inconsciente a presença de Machado de Assis. Agora é claro que quando a gente fala do Rio, o livro puxa pela história do Rio. Nem só a história, como a geografia. O urbanismo, as mudanças arquitectónicas que algumas eu acompanhei, outras são memórias emprestadas. Passa até pelo tempo, fim do século XIX, o tempo de Machado: as relações sociais de parte do meu livro são mais ou menos aquelas que estão na obra de Machado. O meu livro passa pelo tempo de Machado de Assis.
Queria que esta personagem e o seu discurso representassem a decadência do Rio de Janeiro como centro político, económico e cultural? Pensou nisso?
Bom, há a decadência da própria família, daquela família que foi influente na passagem do século XIX para o século XX até ao ano de 1929/30, que é o fim da Velha República, que significava toda a riqueza, todo o fausto, todo o poder da família do meu velho, a família Assumpção. A decadência começa a partir daí e a decadência do Rio acompanha isso. O Rio como centro de decisão política já vinha sendo ameaçado desde o fim da Velha República. É a chamada República Café-com-leite porque havia alternância entre São Paulo e Minas Gerais. A partir de 1930 chega uma gente de fora que são os gaúchos que se instalam aqui no Rio. Agora a riqueza e mesmo a importância do Rio de Janeiro como cidade em termos de urbanismo e de arquitectura prossegue até à mudança da capital para Brasília. Vai-se modificando, saem os chalés, entram os arranha-céus, os altos prédios com influência do Art Déco francês. Isso eu vi, está presente aí, alguma coisa do que restava. Ainda há exemplos desse tipo de chalé que eu menciono no livro em alguns bairros do Rio. Enfim, arquitectonicamente passa daí, vai para os prédios Art Déco e da arquitectura modernista por influência de Le Corbusier, Oscar Niemeyer e muitos outros.
Havia alguma intenção, programa, com a escrita deste livro, ao abordar temas como a corrupção, o racismo, etc.
É evidente que sobretudo na Velha República nem sequer se falava em corrupção. Era natural naquelas poucas famílias, na oligarquia que mandava no Brasil, naquelas poucas famílias que dividiam o poder, a prática de nepotismo, o tráfego de influências, a confusão entre público e privado; o que hoje é um escândalo nacional era tratado com a maior naturalidade. Eu quis que esse meu velho visse as coisas assim. Para ele era um país herdado, que ele foi perdendo. Mas que para ele, desde a sua infância, do que ele viu e ouviu falar dos seus antepassados, era natural. Era natural que ele herdasse aquela casa, era natural que herdasse o poder que acabou perdendo. Era natural que se perpetuasse como membro de uma família poderosa. E ele perde esse poder, perde essa riqueza, mas não perde a pose, se julga ainda um membro da oligarquia.
Mas no fim do livro ele fica muito perto do crime, há as favelas, os evangélicos, é um retrato duro.
Não é um retrato nobre, mas ele mantém-se à margem disso. Isso é um pouco do pensamento da classe dominante que ainda existe hoje. Evidentemente que o narcotráfico não é bem visto, mas se é o meu neto que é traficante dá-se um desconto, porque foi um desvio, foram as más companhias [risos]. Então, esse sentido de família nele permanece, é uma coisa que vem lá de trás e evidentemente já virou um delírio. Mas ele pensa assim. Eu não quero ter um olhar de fora para com o meu narrador. Eu tenho que ver com simpatia. Não quero sequer ter uma piscadela de olho para dizer, olha como sou corrupto, olha como sou a-ético. Não. Pretendo que isso seja dito com a cabeça dele, com a mentalidade dele. Ele acha tudo isso natural, os maiores desastres do tataraneto ser traficante são contingências mas tudo vai voltar ao normal. O normal está lá atrás no status social dele, que se perdeu mas que para ele está vivo.
Já confundiram o discurso deste narrador com o do autor?
Sem dúvida essa confusão entre narrador e autor é recorrente. Eu acho que não tenho nada a ver com ele mas enquanto autor procuro olhar com o olho dele. Não quero que o autor se descole do narrador a ponto de dizer: "Olha, esse narrador é um crápula". Eu não preciso disso, acho que é evidente, o autor não é o narrador.
Samuel Titan Jr., moderador na mesa em Paraty, lembrou que Roberto Schwarz tinha dito que aqui existe uma figura feminina poderosa feita de quase nada. Como é que construiu esta Matilde? E as mulheres que escutam este homem numa cama de hospital?
Ele se dirige quase que o tempo todo a mulheres (mas também fala com o médico e com os carregadores). Tem a enfermeira que seria a namorada dele, tem a enfermeira-chefe, é tudo vago. Tem a filha que às vezes ele confunde com a mãe. E Matilde, a mulher, eu até pensei mas não consegui. Tem coisas que você pretende fazer e que depois a escrita se recusa a fazer. Cheguei a imaginar ele se dirigindo à mulher como se ela estivesse viva. Mas não coube, era impossível porque a ausência dela é muito presente no livro inteiro. A ausência dela é muito determinante na história toda.
Há mesmo quem diga que ela é a personagem principal deste romance.
A história toda gira em torno dela. É a obsessão do velho. Ele dá voltas e voltas e cai nela, volta para ela. E é feito de quase nada porque é muito breve a existência dela. A convivência dela com ele é breve, seria um ano e meio, e ela é feita de quase nada porque é feita das lembranças dele. E as lembranças dele não são confiáveis. Quando se trata da mulher dele, ele volta, repete sempre as mesmas coisas, mas sempre de uma forma diferente. O ciúme que ele sentia dela aparece várias vezes no livro contado de formas distintas. O desaparecimento dela é narrado de várias formas diferentes, há várias versões que ele passa geralmente para a filha.
A sua editora brasileira, Maria Emília Bender, contou que durante muito tempo o Chico não lhe enviou nada deste romance. Mas que, a meio da escrita, lhe disse qual era o título.
Eu não consegui mandar o livro antes de ficar pronto.
Acontece-lhe sempre isso?
O primeiro livro, "Estorvo", escrevi por estímulo, quase provocação de Rubem Fonseca e de Luiz Schwarcz, o meu editor [da Companhia das Letras]. Comecei a escrever, tinha dez páginas, não tinha ideia da minha capacidade de escrever um romance. Então, submeti o início do livro ao editor. Que me disse: "Vai em frente". Mostrei ao Rubem Fonseca uma coisa ou outra durante a escrita. Quando terminei "Estorvo", mandei para o Rubem Fonseca que fez algumas observações. Umas eu aceitei, outras não. Houve essa partilha. Já depois, não. Os livros entrego prontos. Existe um certo pudor.
Voltando ao título, "Leite Derramado".
Durante a escrita isso começou a atormentar-me um pouquinho. Apareceu a cena do leite derramado na pia, eu acho curioso isso de usar uma expressão batida - leite derramado, chorar sobre leite derramado -, mas o leite derramado, literalmente, está ali na pia. Quando escrevi aquela cena - eu falo cena como se fosse um filme - achei interessante utilizar esse título. Eu gostava e não gostava. É um título que parece um cliché, um pouco vulgar. Até hoje penso um pouquinho: "Parece título de livro ruim"! [risos]. Depois pensei: "Mas Chico também é um nome de escritor ruim" [mais risos].
Ninguém lhe chama Francisco?
Ninguém me chama Francisco. Quando foi publicado "Budapeste" em Espanha, o meu editor espanhol sugeriu que se usasse o meu nome Francisco. Lá, além de mais, Chico tem sentido de pequeno. Ninguém pode levar a sério um sujeito chamado Chico [risos]. Mas eu acho um pouquinho afectado usar o outro nome para o escritor. Como se eu considerasse o escritor um sujeito mais sério que o compositor de músicas. Isso faço questão de não pensar, essa ideia bastante disseminada de que a literatura está acima, num patamar superior à música popular. Isso no Brasil acho que não faz nenhum sentido.
Cenas à volta do que é dar de mamar são recorrentes no livro. É engraçado ser um homem a escrever com tanto pormenor sobre amamentação.
Eu consultava minhas filhas. E quando o livro saiu elas perguntaram qual era o título e quando eu falei "Leite Derramado" elas riram muito. Foi escrito por um homem com três filhas.
"Leite Derramado" está nas listas dos livros mais vendidos no Brasil. Aliás, nos livros de ficção, você é o único autor brasileiro de ficção a estar nos tops.
Eu já reparei que tem uns escritores que estão na minha frente. São todos estrangeiros.
Sendo o Chico Buarque, é privilegiado pela crítica ou é vítima da crítica?
As duas coisas. Não posso me queixar. Tive críticas muito boas mas há uma reacção a essas críticas. O cuidado que procuro tomar... esta é a primeira entrevista que eu estou a dar.
Porque é que não deu outras antes desta que está a dar para sair em Portugal?
Tento não ocupar um espaço que não é legítimo para um escritor. Eu não quero sobrepor-me ao livro. Porque uma entrevista que se faça comigo aqui no Brasil, ela vai abordar música popular, política nacional e em último lugar literatura. Vou ter um espaço que não é o espaço do meu livro. Vou ganhar páginas do jornal que não se devem ao lançamento do livro. Então prefiro que o livro caminhe sozinho, que fale por mim. Mesmo assim o espaço que ele vai ganhar no jornal, eu sei disso, já é maior do que o espaço de um outro escritor.
Como ignorar Chico Buarque, não é? Não se pode ignorar Chico Buarque.
Sim porque há um interesse por parte de um público que não lê livros também. Eu procuro evitar a confusão entre a figura pública e o livro. Como já lhe disse não quero ser o Francisco, o escritor, e o Chico, o compositor. Mas para mim são dois trabalhos bastantes diferentes.
As pessoas olham para si como um artista perfeito. Como se a avaliação que fazem de si nunca fosse...
... isenta. E para cada um que me julga um artista perfeito, há dois que me odeiam com a mesma intensidade. É normal isso, é natural.
Como é que lida com esta ideia de no Brasil ser uma espécie de herói? Alguém que até se admite que pode ter falhas, que se desculpa, mas que é visto como um herói de qualquer maneira?
Não estou interessado na imagem do artista, interesso-me pelo meu trabalho. O resto não me diz respeito. Se estou a caminhar na praia e vem um fotógrafo tira fotografias e depois diz que eu estou barrigudo, que eu estou bem, que eu estou jovem, que estou velho. É claro que se me dizem ‘saiu uma foto sua horrorosa', é chato, que pena. ‘Saiu uma foto sua bonita', óptimo, que bom, me faz bem. Mas parou aí. Eu só me interesso pelo meu trabalho. O que eu gosto mesmo é de trabalhar. Passei um ano e meio escrevendo esse livro. Só fazia isso. Claro que eu saía para jogar futebol, para passear, porque não posso passar o dia trancado. Mas a minha cabeça estava nisso. O que eu queria escrever era esse livro, agora acabou o livro, eu me desligo. Eu termino o livro, como qualquer canção, eu termino e digo eu dei o melhor de mim, fiz o melhor que pude, isso está muito bom, está óptimo, irretocável, fecho.
E consegue mesmo fazer isso?
As primeiras reacções, do meu editor, mexem muito comigo. Passei um ano e meio no trabalho e estou muito sensível. Quando o livro está na livraria, já me desliguei. Não é que não goste mais do livro, eu me desinteressei. Existe quase uma repulsa. Não quero saber. É uma defesa do criador porque se ele achar que já fez tudo, fez o melhor que podia fazer, não faz mais nada. Então me despojo do livro como de qualquer canção. Vou fazer outra melhor. Quando quiser escrever outro livro não vou ler o que se falou bem ou mal do anterior. Tenho que estar livre do que se fala de mim. Se ficar pensando nisso, fico maluco. Eu não fico procurando, não vou na Internet saber o que se fala. Não é falta de vaidade. Vaidosos todos somos, acho óptimo que haja a Festa Literária de Paraty para os escritores levarem a vaidade a passear. Porque a vaidade de escritor é fechada dentro do quarto [risos]. Agora no meu caso, não. A minha vaidade já está bastante rodada.
No tempo da ditadura você teve um pseudónimo, o Julinho da Adelaide, para conseguir ultrapassar a censura. Nunca pensou escrever os livros sob pseudónimo, para ninguém saber que eram de Chico Buarque?
Pensei. No "Estorvo" cheguei a pensar. Falo um pouco sobre isso no "Budapeste". Seria insuportável depois permanecer anónimo. Haveria algum momento em que eu teria que dizer: ‘Sou eu! Sou eu!' [gargalhadas]. Eu me trairia, entende? É uma coisa muito difícil de carregar. Seria doentio. Mas pensei. Cogitei.
Para se libertar deste velho foi difícil e até partiu uma perna. Lembrou-se de Guimarães Rosa e de "A Fazedora de Velas". Conte-nos essa história.
No livro "Tutaméia (Terceiras estórias)", João Guimarães Rosa afirma que por formação não acredita muito em fenómenos paranormais. Porém cita vários exemplos de contos que foram sonhados, quase que soprados. Conta também que a meio da escrita do romance "A Fazedora de Velas" foi tomado pela tristeza daquele livro e guardou-o numa gaveta. Mas essa personagem ficou rondando na sua cabeça e meses depois Guimarães Rosa ficou doente com uma doença que imitava, ponto por ponto, a do narrador do seu livro. Lembrei disso antes de escrever "Leite Derramado". Achei que não deveria tomar esse velho como narrador, um velho de 100 anos. Pensei: "Me vai fazer mal". Isso me perseguiu o tempo todo. Escrever é sofrido. Quando alguma coisa me sai com facilidade, eu desconfio. Eu escrevo pelo prazer de ler; quando se passa do pensamento para o papel, alguma coisa sempre se perde. Durante alguns momentos de crise na escrita, eu disse: "Maldita a hora em que eu fui escolher escrever sobre este velho!" E aí me lembrava da história de Guimarães Rosa e dizia: "Este velho vai-me envelhecer. Este velho vai-me fazer mal. Eu vou sair desse livro mais velho do que sou!" E o que aconteceu até foi pequeno. Não quebrei o fémur, mas quebrei a fíbula, antigo perónio, mudou de nome.
Por falar em mudar de nome, teve a preocupação de entregar o livro à sua editora já seguindo as regras do novo acordo ortográfico, não foi?
Na hora de entregar comunicaram-me que sairia na nova ortografia. A minha primeira reacção foi de renegar. Ideia e geleia sem acento? Mas depois eu mesmo fiz as correcções. Era fácil. Eu fiz e procurei me acostumar. Ainda não entendi até agora qual foi a utilidade dessa reforma ortográfica. Mas a gente se acostuma, como a tudo.
disponível em http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=236612
Escritor Junot Díaz une pop e letras em "spanglish"
MARCOS STRECKER
da Folha de S.Paulo
Já faz algum tempo que a nova literatura britânica aprendeu a beber na fonte multiculturalista. O choque pós-colonial e a crise entre imigrantes têm fertilizado a prosa inglesa e produzido nomes como Zadie Smith e Hanif Kureishi, para citar só dois entre os mais famosos do universo pop.
Nos EUA, o fenômeno é mais recente, mas já tem pelo menos um nome de peso: Junot Díaz. Esse dominicano-americano já era apontado como uma grande promessa desde 1996, quando chegou às livrarias a coletânea de contos "Afogado" (lançado pela Record, com tradução de Renato Aguiar).
Em 2007, com seu primeiro romance, "A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao", que chega agora ao Brasil, veio a consagração. A obra consumiu mais de dez anos do perfeccionista Díaz, mas o esforço compensou. Valeu o Pulitzer de ficção de 2008 e um elogio rasgado do sóbrio "New York Times".
Díaz ganhou a fama de quem quebrou barreiras no mundo anglófono. Foi considerado o grande representante do "spanglish", a mistura de inglês e espanhol que migrou das ruas para a literatura. Mas o autor rejeita rótulos. Também não se identifica com sua geração.
"Nunca li nada de Jonathan Safran Foer. Me sinto mais em comunhão com Patrick Chamoiseau [francês de origem martinicana] do que com Dave Eggers", disse à Folha.
O autor se projetou nos EUA pré-Obama, em que a ascensão da comunidade latina assustava o establishment "wasp" (branco, anglo-saxônico e protestante). Na América em lua de mel com Obama, chegou o momento dos latinos?
"Eu sou a pessoa errada para falar se a literatura latina é mais aceita. Sou um vencedor. Os que não conseguem publicar é que devem responder. Olhando à minha volta, vejo uma quantidade enorme de latinos que não são publicados."
Para o autor, é difícil dizer se a eleição de um afrodescendente vai mudar a aceitação dos imigrantes. "Há mudanças maravilhosas em curso, mas o racismo ainda é enorme, assim como o preconceito."
Junot [o nome vem do francês] é uma espécie de Spike Lee da literatura, mas alia a atitude política ao humor. "Oscar Wao" pode ser lido como uma epopeia picaresca da diáspora dominicana sob a ditadura Rafael Trujillo, narrada por um anti-herói, em tom de farsa.
Além de divertido, o texto de Díaz é fluente. É uma mistura de gêneros, que começa com epígrafe do "Quarteto Fantástico", do Stan Lee, lembra uma paródia moderna de Rabelais e acaba em tragédia.
Professor associado de escrita criativa no MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), Díaz afirma que a forma híbrida "existia desde o início". Para ele, a ideia de um romance "enciclopédico" tem a ver com o Caribe, "que abriga todo o mundo". O autor diz que procurou fazer "um espelho" do lugar de onde veio. "Foi uma decisão estética e formal."
O livro pode ganhar as telas. Uma das possibilidades é a direção de Walter Salles com roteiro de Jose Rivera, o que reeditaria a dupla de "Diários de Motocicleta". Mas é apenas uma possibilidade, dizem o cineasta e o escritor.
