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domingo, 1 de novembro de 2009

Vídeo-Aula: Noite na Taverna - Bertram (parte 2)

Veja antes a PARTE 1

domingo, 5 de julho de 2009

Biografias: Lord Byron


George Gordon Nöel Byron nasceu em Londres em 22 de janeiro de 1788. Em 1798 herdou o título nobiliárquico do tio-avô William, tornando-se o sexto Lord Byron. Aos 21 anos ingressou na Câmara dos Lords, partindo pouco depois em viagem pela Europa e o Oriente Médio.

A obra e a personalidade romântica de Byron tiveram, no início do século XIX, grande projeção no panorama literário europeu e exerceram enorme influência em seus contemporâneos, por representarem o melhor da sensibilidade da época, conferindo-lhe muito de sedução e elegância mundana.

Sua mãe, Catherine Gordon Byron vinha da família dos Gordons escocês, uma família tradicional e muito conhecida por sua ferocidade e violência. Seu pai, John Byron, era um bon-vivant. Havia, junto com a esposa, imigrado para a França para fugir das cobranças de credores. Porém, como ela não queria que seu rebento nascesse em solo francês, não hesitou em voltar à ilha da rainha. John ficou e encontrou abrigou na casa de sua irmã. Em 1791, ele encontrou a morte, aparentemente por suicídio.

Logo após o seu nascimento, sua mãe o levou para a Aberdeen, Escócia, onde uma deformidade em seu pé logo ficou evidente. Ganhou botas especiais e passou por inúmeros tratamentos mas logo deixou estas dolorosas experiências para trás. O pequeno George vivia mergulhado em leituras, com atenção especial para a história de Roma. Seu sonho mais comum era de ser um comandante de um regimento de soldados alucinados e heróicos, acima de tudo.

Mas sua infância não se resumia a isto. Ele era marcado pelo amor. Aos sete anos, Byron se apaixonou perdidamente por sua prima, Mary Duff. Aos nove, sua babá o introduziu aos prazeres da carne.

Aos 10 anos, ele se tornou oficialmente Lorde Byron. Assumiu o poder da casa de Newstead, mas como ela se encontrava em total ruínas, ele e sua mãe se mudaram para Nottingham. As finanças minguavam. Tudo o que remetia ao nome dos Byron era motivo de processos por dívidas. O pequeno Byron foi enviado para a academia do doutor Glennie em Dulwich e logo em seguida para Harrow, onde se tornou o alvo predileto para zombarias dos demais alunos. Durante um Natal, ele retornou para Newstead, que havia sido alugada por Lorde Ruthyn, que o iniciou no bissexualismo. Apaixonou-se perdidamente por Mary Ann Chaworth, uma vizinha. Ficou tão obcecado que se recusou a voltar. Ruthyn praticamente o obrigou a retornar a força.

Em sua adolescência, Byron foi tomando consciência de seu poder. Possuidor de carisma, beleza e poder de sedução, ele logo começou a aproveitar seus dons. Em uma visita a Lorde Grey, acabou se envolvendo sexualmente com seu hospedador. Mulheres e homens no local desejavam aquele adolescente rebelde. Em seu retorno à escola, Byron foi além. Envolveu-se com colegas, empregadas, professores, prostitutas e garotas que adoravam um título de nobreza.

Em 1805, Byron teve um grande choque. Mary Ann casou-se. Logo, ele se torna mais rebelde ainda. Arrumou um trabalho em Cambridge mas nunca trabalhava, já que esta era a moda para os descolados da época. Era o tédio, o spleen. Era a forma que o então românticos viviam a vida. E da qual Byron foi o mestre supremo. Escrevia versos e mais versos e gastava muito dinheiro. Não demorou e todo o seu dinheiro foi embora, o que o levou a recorrer à empréstimos de familiares. E ele tinha apenas 17 anos. Chegou, inclusive, a pedir ajuda para sua meia-irmã Augusta Byron Leigh.

Ao passar um temporada com a mãe, coisa que ele odiava, Byron foi encorajada a publicar seus poemas por uma vizinha. Em 1806, o livro Fugitive Pieces foi lançado. Ele enviou cópias para dois amigos. Um deles respondeu que o poema To Mary era muito chocante para ser lido pelo público. Byron acreditou e mandou queimar todas as cópias da obra. Em 1806, o livro foi republicado com o nome de Hours of Idleness, excluído o tal poema. Cópias e mais cópias foram vendidas mas a crítica se dividia. Byron respondeu a seus detratores com a sátira English Bards and Scotch Reviewers.

Em junho de 1809, Byron e seus amigos John Cam Hobhouse e William Fletcher resolveram fazer um giro pela Europa. Acabaram conhecendo Portugal, Espanha, Grécia, Albânia, Malta e Turquia. Durante a viagem, ele entrou em choque com o conservadorismo português e quase protagonizou um duelo contra um marido enfurecido. Byron também conheceu Ali, o paxá da Albânia, muito conhecido por ser um carniceiro. O poeta ficou impressionado com o governante. Foi justamente nesta época que começou a escrever uma de suas obras-primas, "Childe Harold's Pilgrimage". Seus amigos retornaram à Inglaterra, mas Byron ficou na Grécia, vivendo numa escola para garotos. Manteve um tórrido caso com Nicolo Giraud, um jovem grego que chegou a salvar sua vida quando pegou malária. Em gratidão, o poeta pagou toda a educação de Nicolo. Mais tarde, retornou para a Inglaterra. Mas ele já não se reconhecia ali. Sua mãe havia morrido, um de seus melhores amigos morrera afogado e o casamento de sua irmã estava falido. Nesta época, abandonou a poesia. Mas por insistência de um amigo, os primeiros dois cantos de Chile Harold foram publicados em fevereiro de 1812. Foi um sucesso brutal. Ele se tornou uma sensação. Mulheres se jogavam em seu colo.

Lady Caroline Lamb era a mais notória e determinada a conquistar Byron. Emocional e excêntrica, Caroline Lamb era da alta corte e casada. Ela chegou, inclusive, a lhe enviar seus pelos pubianos. Byron, para escapar das garras de Caroline, confessou sua preferência sexual por garotos. Então, ela apareceu em seu quarto, vestido de oficial do exército, na tentativa de conquistá-lo. Foi a gota d'água. Com medo de seu genro, a mãe da apaixonada dama convenceu Byron a romper o romance. Para se confortar, ele mergulhou nos braços de Lady Oxford. Em seguida, tentou conquistar Annabella Milbanke, prima de William Lamb. Annabella o recusou e ele entrou em depressão.

Em 1813, Augusta o visitou, fugindo de credores e problemas pessoais. Os dois acabaram por ter um caso. Em 1814, Byron investiu novamente em Annabella. Desta vez deu certo. Em 2 de janeiro de 1815, os dois se casaram. Annabella era uma leitora assídua da literatura gótica. Tentou bancar a heroína e converter Byron. Em dezembro do mesmo ano, ela deu a luz à Augusta Ada. Dois meses depois, Annabella não o agüentava mais e pediu o divórcio. Caroline aproveitou para se vingar. Espalhou boatos sobre a sodomia do poeta. A fofoca se espalhou. Annabella não se manifestou, já que a história a favorecia no divórcio e lhe dava um ar de mulher de moral. Com isto, a sociedade londrina fechou as portas para Byron.

Em abril, ele decide voltar ao continente. Seguido por Hobhouse e Fletcher, ele arrumou mais um companheiro: John Polidori. Em maio, o grupo se encontrou com Percy Bysshe Shelley e Mary Godwin (mais tarde, Shelley), que viviam uma vida de desejos e pecados, já que Percy era casado e Mary era sua amante. O casal estava acompanhado de Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary, que guiou a excursão a fim de se encontrar com Byron, com quem já se correspondia. Byron resolveu passar um tempo em Diodati, na Suíça. Os novos amigos se juntaram a ele. Hobhouse e Fletcher decidiram ficar na Inglaterra

Byron, precisando muito de um amigo, se ligou a Shelley. Passam horas discutindo filosofias e poesias. Navegavam pelo lago e visitavam os cenários da Nova Heloísa, de Rousseau. Chegaram, inclusive, a trocar rosas e carícias... Após visitar o Chateau de Chillon, Byron se inspirou a escrever um de seus mais belos poemas: The Prisoner of Chillon. Numa noite chuvosa em Diodati, o grupo decidiu compor histórias macabras. Nasceu ali Frankenstein de Mary Shelley e O Vampiro, de Polidori.

Com tudo indo bem, Byron se viu num novo dilema. Mantinha Claire ocupada, copiando suas poesias até que ela lhe revelou estar grávida. Byron concordou em cuidar da crianças mas se recusou a continuar o caso com ela. Mudou-se para Veneza, onde, mais uma vez, apaixonou-se. Ali, terminou Childe Harold, escreveu Manfred, The Lament of Tasso, Mazeppa, Beppo e começou Don Juan. Sua vida sexual era frenética e lendária. Manteve várias amantes. Seu gondoleiro lhe trazia prostitutas todas as noites. Byron, inclusive, alugou um pequeno apartamento para se encontrar com estrelas da ópera e condessas.

Claire levou sua filha Allegra para a Itália. Byron ficou extasiado mas se recusou a encontrar com a mãe. Permitiu apenas que Shelley o visitasse. Foi o fim da ligação entre Byron e Claire. Em 1819, ele assumiu Teresa, a condessa Guicioli, como amante. Foi um escândalo. Não somente porque ela era casada mas também porque ele, Teresa e o marido dela viviam na mesma casa. No ano seguinte, envolveu-se com a política, juntando-se a combatentes pela independência italiana. Mas, aos poucos, sua vida iria mudar.

Em 1822, Shelley morreu afogado. Allegra, sua filha, morreu de febre. Byron ficou devastado. No ano seguinte, se juntou à causa grega pela independência da Turquia. Viajou até a Grécia mesmo convencido de que iria encontrar a morte. Encontrou abrigo com as tropas do príncipe Mavrocordato e financiou um navio de guerra. Em fevereiro de 1824, teve um ataque epilético. Dois meses depois, após enfrentar uma tempestade enquanto cavalgava, pegou um resfriado do qual nunca se recuperou. Em 19 de abril do mesmo ano, na cidade de Missolonghi, um domingo de Páscoa chuvoso, aos 36 anos de idade, sua voz se calou após sofrer de delírios por dias a fio. O mundo perdia um dos mais empolgantes escritores de todos os tempos.

Com sua morte, ele não pode ler as cartas que chegaram da Inglaterra, que comunicavam que a Inglaterra havia formalmente o perdoado por suas indiscrições. Também se livrou da tormenta que se abateu sobre o jovem grego Lukas, que havia se tornado objeto de afeto de Byron. Na época, o poeta até se mortificou com uma dieta de água e biscoitos, que era uma prescrição medieval para curar a luxúria homossexual. Infelizmente, um homem fraco não poderia agüentar a pressão de uma guerra. Seu ataque epilético, muito provavelmente, foi causado por anorexia nervosa, mas seu médico diagnosticou como sendo uma doença cerebral causada por sua vida sexual conturbada. Pior, o incompetente médico não percebeu os sintomas de malária em Byron e preferiu fazer uma sangria no poeta. "Meus médicos me mataram", foi uma de suas últimas frases para seu criado. Após sua morte, foi feito uma autopsia. Os médicos encontraram lesões no cérebro, o que, para eles, comprovava que a morte foi causada por sua promiscuidade sexual.

Adorado na Grécia, ele foi embalsamado e seu coração foi retirado e enterrado em solo grego. Os restos mortais foram transportados para Inglaterra, mesmo contrário aos seus desejos. Ao chegar em Londres, a Abadia de Westminster se recusou a receber o funeral, alegando que ele era um pecador irreparável. Mesmo assim, o cortejo fúnebre foi assistido por milhares de pessoas. Byron foi enterrado na igreja Hucknall Torkard, próxima da Abadia de Newstead, ao lado de sua mãe e demais gerações de sua família. E conta uma lenda que Susan Vaughn, uma criada galesa que havia recusado as investidas de Byron, deixou sobre o seu túmulo os últimos tomos de Don Juan, publicados um mês antes de sua morte e que durante muito tempo, o exemplar ficou em bom estado, como se alguém cuidasse dele eternamente. Curiosamente, 145 anos após sua morte, em 1969, a Abadia de Westminster construiu um memorial em homenagem ao mais libertino dos poetas ingleses.

(Fonte: Passeiweb)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Poesia Comentada: Meu Sonho (Álvares de Azevedo)


Meu Sonho

Eu

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?


O Fantasma

Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…



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Localizado na terceira parte de Lira dos vint’anos, o poema constitui uma espécie de diálogo entre o Eu e o Fantasma. O eu-lírico descreve um sonho em que um cavaleiro perambula pelo reino da morte. Bem de acordo com a estética ultra-romântica, a cena se dá em um ambiente onírico, noturno, e misterioso. Em verdade, esta situação constitui uma metáfora para a angústia sexual do Eu. Isso se evidencia na colocação do símbolo fálico (Com a espada sangüenta na mão), no ritmo de galope conferido pelos versos eneasílabos (acentuando a tensão e a sugestão de movimentos repetidos numa alusão implícita à masturbação), e, por fim, na atmosfera de trevas, que metaforiza o sentimento de culpa do Eu-lírico.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Lobo da Costa (2)

Se um grito de fera açoute
Estruge no ar austero
Não tremas: é o quero-quero
Quem vem te dar a boa noite.



Segue aqui o tributo a Lobo da Costa. Na seqüência, temos um programa de rádio, reconstituindo as circunstâncias da morte do poeta e contando um pouco de sua história.



Programa "Patrimônio pé de ouvido" : Lobo da Costa - BAIXAR (.mp3)

Para enriquecer a pesquisa sobre o poeta, temos ainda o texto de Mario Osório Magalhães, publicado no jornal Diário Popular.

Ainda Lobo da Costa

Em São Paulo - não na capital, mas em Campinas -, Lobo da Costa irá publicar, com o auxílio do poeta e teatrólogo porto-alegrense Carlos Ferreira, o seu livro Lucubrações, de 142 páginas e reunindo o melhor da sua poesia.
Na capital paulista irá estudar para os preparatórios; irá conviver com os estudantes e os intelectuais da sua época. Haverá de escrever bastante, mas, sobretudo, de afeiçoar-se à boemia, como era regra geral entre os poetas do seu tempo. E não trará de volta o tão sonhado título acadêmico; no ano seguinte - em 1875 - já retorna ao Sul, doente, fixando-se por algumas semanas na Ilha do Desterro, atual Florianópolis, onde colabora em jornais e, restabelecido, exerce durante poucos dias as funções de oficial de gabinete do presidente da Província.
De volta a Pelotas, em 1876, nunca mais conseguirá ajustar-se, por um período razoável de tempo, às convenções da sociedade. A frustração dos seus sonhos só pode ser compensada na bebida, e a bebida o conduz ao desregramento social. Por esse motivo dá-se o rompimento com Elvira. São desse ano as admiráveis estrofes de Vingança, em que o autor, amargurado, acusa de traição a mulher que o abandonara:
"Que sinto eu? Desejos de vingança!
De um crime hediondo ela tornou-se ré!
E o ídolo que adorei reduzo a cinzas
e sobre as cinzas me coloco em pé!"
Conta a tradição oral que esse poema foi lido diante de Elvira, numa reunião familiar, havendo a moça desmaiado durante a declamação.
Lobo da Costa tem agora 24 anos. A partir daí a sua biografia será caracterizada por um aparente contraste: de um lado, o reconhecimento do valor da sua obra, a consagração literária, o prestígio de que passou a desfrutar como poeta; de outro, a censura à sua vida, o controle social, a condenação do seu comportamento boêmio. Por este último motivo, com toda a certeza, não se fixa por muito tempo em Pelotas entre 1877 e 1885: viaja a Rio Grande, Porto Alegre, Arroio Grande, Jaguarão, Dom Pedrito e Bagé.
Em Jaguarão, no ano de 1879, toma uma atitude inesperada: casa-se com uma jovem de 17 anos, natural de Rio Grande e de origem humilde. Nessa oportunidade, um embuste seu é de fácil explicação psicológica: faz com que o escrivão o registre, na certidão de casamento, como bacharel em Direito.
De Carolina Augusta Carnal, a esposa, nunca se ouvira falar antes; depois, sabe-se apenas que dessa união resultou uma filha, de nome Amanda e de rara beleza.
Em 1881 vai para Porto Alegre, como secretário de uma companhia ginástica.
Em 1883, na então vila de Dom Pedrito, hospedado numa casa comercial, escreve uma peça, um drama em versos, sob encomenda de uma sociedade amadora local. A peça tem o título de O filho das ondas e a principal personagem feminina tem o nome de Elvira. No dia da estréia Lobo da Costa não pode assistir ao espetáculo, devido aos efeitos de um vinagre de álcool, um irresistível "espírito de vinho"...
É semelhante a esse episódio o que ocorrera em Pelotas, alguns meses antes, nesse mesmo ano de 1883. Só que é mais representativo daquele contraste, a que me referi, entre a consagração e a censura nessa fase biográfica de Lobo da Costa. Durante a apresentação da menina-prodígio Julieta dos Santos, no Teatro Sete de Abril, uma jovem da sociedade pelotense declamara uns versos que ao poeta havia inspirado a prestigiada atrizinha; seu autor, porém, fora barrado às portas do teatro, por encontrar-se visivelmente bêbado...
Revelei em primeira mão há cerca de dez anos, e repito agora, o que, segundo entendo, representa uma descoberta altamente significativa para a biografia de Lobo da Costa: Elvira, a musa do poeta, havia morrido em janeiro de 1883, solteira, com a idade de 22 anos, vítima de tuberculose, alguns meses antes dos episódios do Teatro Sete de Abril e de Dom Pedrito, ocorridos respectivamente em fins de março e em fins de setembro.
Os dois fatos são sintomáticos, nos permitem constatar e, mesmo que não dêem a medida exata, nos autorizam a imaginar a enorme repercussão daquele acontecimento, o abalo que causou na sensibilidade do poeta...


(Coluna de Mário Osório Magalhães no jornal Diário Popular - 29.06.2003)

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A Morte de Lobo da Costa

Tão relevantes me pareciam os dois fatos - os episódios do Teatro Sete de Abril e da casa comercial, em Dom Pedrito - que passei a investigar, com cuidado especial, a década de 1880 na biografia de Lobo da Costa. Como disse, acabei por descobrir - e publiquei, pela primeira vez - um atestado de óbito, no qual se registra que Elvira Arruda, a Elvira de verdade, a paixão do poeta, morrera em janeiro desse ano, solteira, com 22 anos, vítima de tuberculose. A partir daí fiquei sabendo, por uma notícia do Correio Mercantil, que "mais alguns dias e a inditosa jovem ter-se-ia unido matrimonialmente a um distinto mancebo".
Como desconfiava, os episódios de Pelotas e de Dom Pedrito não são apenas reveladores - conforme salientam os seus biógrafos - da obsessão alcoólica de Lobo da Costa, no final da vida: mais do que isso, são componentes trágicos de um muito triste ritual de luto.
Por outro lado, é significativo lembrar que Francisco Lobo da Costa durou mais cinco anos, ora internando-se na Santa Casa, ora percorrendo ruas, ora freqüentando bares; Elvira, prometida a um outro cidadão, "a um distinto mancebo", teve menor resistência. Foi vítima, também ela, do Romantismo - mesmo sem ingerir absinto nem "Parati", muito menos vinagre de álcool, e sem haver elaborado, ao que se saiba, um único poema.
Em 1885, retornando de Bagé, o poeta é internado pela primeira vez na Santa Casa de Misericórdia. Observe-se o modo grotesco como o jornal A Discussão, ao informar os seus leitores, justifica o estado de saúde do autor de Vingança, generalizando-o como fatalidade irreversível, extensiva a todos os literatos:
"De Bagé chegou ontem a esta cidade o ilustre vate pelotense senhor Francisco Lobo da Costa, cujas inúmeras produções poéticas são testemunhos do seu robusto talento. Como todos aqueles que cultivam as letras, Lobo da Costa acha-se gravemente enfermo, cumprindo assim a sina imposta aos infatigáveis obreiros das letras. Dos seus dedicados amigos Lobo da Costa tem recebido as maiores provas de apreço e simpatia."
Receberá dos amigos, igualmente, auxílio material. Reunidos em assembléia, os moços do Grêmio Literário dos Lunáticos decidem publicar um livro, em 1887, revertendo a renda em benefício do poeta. Graças ao prestígio de Lobo da Costa, em seguida se esgota a primeira edição. Só que o livro, em vez de enfeixar os inéditos do beneficiado, como seria lógico, lança os originais dos próprios beneméritos. Uma maneira, enfim, de conciliar o útil com o agradável...
Entre 1885 e 1888, Lobo da Costa transita entre o hospital e os bares. Em ambos escreve sofregamente, seja em retribuição às visitas que lhe fazem, seja em pagamento da bebida que o seu organismo reclama. Dorme muitas vezes ao relento. Fora do hospital, proveniente dos bares, "vagueia pelas ruas, indiferente a tudo e a todos".
No dia 18 de junho de 1888, na hora da sesta, abandona a Santa Casa e, de posse de 20 mil réis - último saldo do livro Charitas, que lhe é entregue pelo mordomo - dirige-se a um bar, na região leste do centro da cidade. No fim da tarde de inverno já o encontram caído, na valeta de uma rua isolada e deserta. Mas só na manhã seguinte é que uma carroça recolhe o seu corpo nu, verificando-se, pois, que ele fora saqueado durante a noite...
Diante das circunstâncias trágicas da morte de Lobo da Costa, procurou-se provar, mais tarde, que o corpo do poeta foi conduzido à Santa Casa, no dia 19, com algum resquício de vida. É uma honesta tentativa de esfregar um pouco essa possível "mancha" da história local. Tenha êxito ou não essa "reparação", na verdade o que importa é que o autor do Adeus, abandonando este mundo, o fez espiritualmente enfermo, bêbado e jogado ao relento, desencantado com a sociedade e, talvez, consigo mesmo. Assim como viveu, morreu poeta, conforme o modelo da sua época.
Um modelo, aliás, mais ideal do que real. No Brasil, geralmente, ao adquirir seu diploma, os jovens estudantes passavam à condição de ex-literatos, punham as rimas de lado. Lobo da Costa, porém, não conseguiu se formar; só conseguiu se manter, o tempo todo, no patamar da crise. Em conseqüência, foi um dos raros, foi um dos poucos românticos brasileiros que de fato sucumbiram.

(Coluna de Mário Osório Magalhães no jornal Diário Popular - 06.07.2003)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Noite na Taverna - Resumo e Análise

Já comentamos aqui no blog a obra de Álvares de Azevedo (ver arquivo). Noite na Taverna é uma das leituras obrigatórias para o vestibular da UFPel. Segue o material para estudo.


2 noitenataverna



Clique aqui para baixar o livro completo.

O QUE VOCÊ ACHOU DE NOITE NA TAVERNA? DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO!!!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Álvares de Azevedo morre!

O estilo gótico como rejeição aos padrões sociais de comportamento vem conquistando a juventude ao longo dos séculos, desde Mary Shelley (Frankenstein) e Bram Stoker (Drácula). O decadentismo e o desajuste em relação aos valores vigentes assumiram formas contemporâneas com o punk, o dark e o metal, e até mesmo o romantismo mais ingênuo é vivido hoje pela tribo "emo". Não é espantoso, portanto, que nenhum autor do século XIX desperte tanto interesse na gurizada de hoje como Álvares de Azevedo. O Satanismo e a morbidez de Macário e, principalmente, de Noite na Taverna, são alimento para a imaginação mais delirante. Mas as poesias de amor, do desejo irrealizado, da dificuldade adolescente em aproximar-se do sexo oposto também atraem o jovem leitor. A própria biografia do poeta é repleta de mitos e curiosidades. Alguns afirmam que ele teria nascido no salão da Biblioteca da Faculdade de Direito em São Paulo. Conta-se também que ele, por sugestão dos amigos, tendo já uma aparência cadavérica, teria simulado o próprio velório no saguão da faculdade para que a turma arrecadasse dinheiro para a boemia. Muitos contestam essa fama de boêmio com o argumento de que, dada a esquisitice de Azevedo, ele teria morrido virgem. Mas o certo é que ele, como outros gênios da época, morreu cedo, aos 21 anos. Mas sua obra ficou imortalizada e fortemente identificada com a juventude. Tanto que eu poderia dizer: Álvares de Azevedo ainda vive! Mas, considerando-se a obsessão do poeta pela morte...

Duas boas pedidas então:

"A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.


- Que levas aí?

A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.

- É minha mulher, que vai desmaiada...

- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.

- É uma defunta

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda."
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“Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia (canto uníssono) amorosa, vem a sátira que morde” . Assim o próprio Álvares de Azevedo define sua obra, dividindo-a em duas facetas uma de confessionalismo amoroso juvenil e outra de ironia e sarcasmo.
A obra se divide em três partes. A primeira e a terceira parte da obra são marcadas pelo sentimentalismo e pelo egocentrismo típicos de sua geração. Em textosa como Sonhando e O Poeta, o eu-lírico idolatra virgens pálidas em uma atmosfera de delírio e suavemente sensual. Ainda nessa primeira parte, poemas como Lembrança de morrer e Saudades, o poeta aborda com seriedade a temática da morte.
“Cuidado, leitor, ao virar esta página!”: a segunda parte revela um poeta mórbido e sarcástico, capaz de tratar de assuntos mais mundanos e explícitos. Aqui o poeta é capaz de ironizar inclusive a si próprio. Destaque para É ela! É ela! É ela! É ela!, em que o eu-lírico revela sua paixão pela lavadeira; Namoro a Cavalo, em que o poeta trata das dificuldades por que passa o namorado para encontrar sua namorada que mora longe; e a auto-piedade em Idéias Íntimas.
Soneto
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!