quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Análise: Poesias de Murilo Mendes

Sobre o autor
Iniciou-se na literatura escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia.
Os livros Poemas (1930), História do Brasil (1932) e Bumba-Meu-Poeta, escrito em 1930, mas só publicado em 1959, na edição da obra completa intitulada Poesias (1925-1955), são claramente modernistas, revelando uma visão humorística da realidade brasileira.
Tempo e Eternidade (1935) marca a conversão de Murilo Mendes ao catolicismo. Nesse livro, os elementos humorísticos diminuem e os valores visuais do texto são acentuados. Foi escrito em colaboração com o poeta Jorge de Lima.
Nos volumes da fase seguinte, Poesia em Pânico (1938), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944) e Mundo Enigma (1945), o poeta apresenta influência cubista, superpondo imagens e fazendo o plástico predominar sobre o discursivo. Poesia Liberdade (1947), como alguns outros livros do poeta, foi escrito sob o impacto da guerra, refletindo a inquietação do autor diante da situação do mundo.
Em 1954, saiu Contemplação de Ouro Preto, em que Murilo Mendes alterou sua linguagem e suas preocupações, reportando-se às velhas cidades mineiras e sua atmosfera. Daí por diante, o poeta lançou-se a novos processos estilísticos, realizando uma poesia de caráter mais rigoroso e despojado, como em Parábola (1946-1952) e Siciliana (1954-1955), publicados em Poesias (1925-1955). As características desse período atingem sua melhor realização no livro Tempo Espanhol (1959). Em 1970, Murilo Mendes publicou Convergência, um livro de poemas vanguardistas. Murilo Mendes também publicou livros de prosa, como O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), livro de memórias, e Poliedro ( 1972). Ao morrer, em Lisboa, deixou inéditas várias obras.
O Menino Experimental - Murilo Mendes
O Menino Experimental é uma antologia da obra de Murilo Mendes (1901, Juiz de Fora, MG/ 1975, Lisboa), poeta que ganhou notoriedade no Segundo Tempo Modernista (1930-45), quando se engajou na famosa Poesia Católica, de caráter espiritualista. No entanto, a obra analisada aqui não enfoca apenas esse lado do autor.
De fato, é-lhe característico o dom e a facilidade com que transita por inúmeras formas e temáticas, num experimentalismo raro em nossa literatura. Contraditoriamente – e aqui está a sua força – toda essa variação gira ao redor dos mesmo elementos.
Já se disse que sua produção, caleidoscópica, não se torna caótica porque reúne suas múltiplas faces em círculos concêntricos.
O primeiro volume a ser analisado é o de sua estréia, Poemas, que engloba textos de 1925 a 1929, ou seja, em plena iconoclastia do Primeiro Tempo Modernista. Note no poema abaixo o encaixe perfeito nos ideários da época.
CANÇÃO DO EXÍLIO
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Destacam-se, além dos versos brancos e livres, a paródia à tradição romântica, pois o poema inverte o tom de sua matriz, o “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.
Há também o nacionalismo crítico, sintetizado em “Eu morro sufocado/ em terra estrangeira”, em que o poeta relativiza nosso ideário nacionalista – estamos inundados de elementos importados.
Existem também aspectos apoéticos colocados no corpo do poema, como “mas custam cem mil réis a dúzia”. Murilo Mendes mostra-se, nesta obra, fiel aos postulados de Mário e Oswald de Andrade.
Mas o artesão mineiro não foi apenas um epígono, um mero seguidor do que estava na moda.
Soube dar contribuições próprias, principalmente numa tendência intelectual – infelizmente provocador de um prosaísmo nocivo em boa parte de sua produção – que inovou o tecido poético do texto, além da sensualidade explosiva, uma das bases do tripé de seu fazer poético. É o que percebemos no poema abaixo.
AQUARELA
Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,
o mundo parece que nasceu agora,
mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,
talhadas para se unirem a homens fortes.
A montanha lavada inaugura toaletes novas
pra namorar o sol, garotos jogam bola.
A baía arfa, esperando repórteres...
Homens distraídos atropelam automóveis,
acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,
meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,
estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos
saídos do banho e pensam longamente na forma
do vestido de noiva: que pena não ter decote!
Arrastarão solenemente a cauda do vestido
até a alcova toda azul, que finura!
A noite grande encherá o espaço
e os corpos decotados se multiplicarão em outros.
Note como o poema é ousado não só nas imagens eróticas, mas na associação que estabelece entre palavras. É de uma beleza estonteante a polissemia realizada no termo “aquarela” e a idéia de umidade, presente em inúmeros momentos.
Tudo sugere tanto a novidade, a inauguração, a festividade, como a sensualidade, numa massa compacta que o poeta vai diluindo diante de nossos olhos, como um aquarelista diluindo em água uma massa compacta de tinta.
A outra obra a ser representada é Bumba-Meu-Poeta (1930), que continuará a usar e valorizar a cultura popular, conforme as regras do Primeiro Tempo Modernista.
No entanto, por meio da redondilha maior o poeta fará girar todo o seu universo pessoal e social, uma oscilação muito comum em sua obra.
Há um aspecto crítico, meio frouxo porque panfletário, sobre a pouca valorização que a sociedade dá ao papel do poeta.
Em seguida há História do Brasil, de 1932, em que, no espírito dos poemas-piadas, todo o nosso passado “célebre” vai ser dessacralizado. Observe-se no poema abaixo transcrito esses aspectos:
DIVISÃO DAS CAPITANIAS
A primeira pros londrinos,
Pra assentarem telefones,
Bondes puxados a burros
Naturais deste país;
Cruzados nos emprestaram
A cinco por cento ao mês.
A segunda aos holandeses,
Pra ensinarem a fazer queijo,
Lidar direito com moinhos
E algumas regras de asseio.
A terceira pros franceses,
Que trouxeram nas fragatas
Muitos vidros de perfume,
Mulheres muito excitantes,
Maneiras finas, distintas
E romances de adultério.
Quem falou francês foi nós.
A quarta foi para os turcos,
Pra vender chitas, miçangas
Na porta das mamelucas.
Compraram a capitania
Em diversas prestações.
(...)
É importante perceber que o passado mistura-se ao presente de forma cômica e iconoclasta, servindo para criticar e explicar o presente.
Em O Visionário (1930-3) Murilo Mendes realiza um enorme salto, abarcando técnicas do Surrealismo (associação insólita entre idéias, como se fosse produto da escrita automática dominada por elementos oníricos ou do subconsciente).
A segunda e a mais famosa base do seu tripé poético estava alcançada. Inicia-se também aqui uma busca desesperada pelo Absoluto, pelo Infinito, pelo Eterno, que desencadeará uma agonia responsável, nas próximas obras, pela visão apocalíptica que derramará sobre o mundo.
Observe-se a beleza plástica inovadora presente em poemas como o seguinte:
METADE PÁSSARO
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.
Essa obsessão pelo absoluto desaguará na terceira base do tripé, que é a poesia mística de Tempo e Eternidade (1934), escrito em parceria com Jorge de Lima.
É um momento interessante, pois, se de uma lado sua tendência à prolixidade e prosaísmo vai-se exacerbar, graças à influência dos versículos bíblicos, tão em moda na época, Murilo Mendes vai-se destacar de seu momento ao fazer dessa busca religiosa nada mais do que algo mais ousado: a sondagem da linguagem mística e de seu aspecto mágico e poético. Assim, a força sagrada e encantatória dá beleza a textos como o seguinte:
NOVÍSSIMO JOB
-- Eu fui criado à tua imagem e semelhança.
Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,
Nem a neta de Madalena para me amar,
O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.
Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,
Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,
Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,
E o eco do teu grande grito de abandono:
Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.
Por que não me fizeste morrer pelo gládio de Herodes,
Ou por que não me fizeste morrer no ventre da minha mãe?
Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.
Já me julguei muito antes do teu julgamento.
E já estou salvo porque me deste a poeira por herança.
(...)
Esse livro concentrará o grande problema de Murilo Mendes: suas boas idéias – que são muitas – acabam prejudicadas, diluídas por sua prolixidade.
A solução surgirá graças a seu grande amigo e mestre, Ismael Nery, que lhe aconselha a concisão.
Esse ditame começa a ser observado em Os Quatro Elementos (1935), em que a imagética rica e o estilo enxuto detonarão no poeta uma energia intensa da conciliação e estabilização das contradições que vinha sempre sofrendo.
É quando expõe o barroquismo de seu fazer literário, como no texto abaixo:
ANTI-ELEGIA Nº 1
O dia e a noite são ligados pelo prazer
E pelas ondas do ar
A vida e a morte são ligadas pelas flores
E pelos túneis futuros
Deus e o demônio são ligados pelo homem.
Essa tensão de conciliação das contradições acaba explodindo na visão apocalíptica de A Poesia em Pânico (1936-7). Note a força do poema a seguir:
O EXILADO
Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.
Ainda assim, esse misticismo não tirará de campo a sensualidade e a idolatria erótica à amada.
Pelo contrário, haverá até momentos em que a imagem da mulher objeto sexual e a mulher depositário do sagrado (repetição do culto à Virgem Maria) estarão unidas numa única figura, como no poema “Igreja Mulher” (“A igreja toda em curvas avança para mim”).
Essa fusão também será encontrada em As Metamorfoses (1938-41), obra em que o delírio surrealista vai-se mostrar como fruto de uma busca incessante pelo Infinito.
É a busca por identidade ou algo que dê sentido à existência. É poesia do conhecimento. Veja como isso se manifesta no poema a seguir:
A MARCHA DA HISTÓRIA
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.
Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores.
Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.
Estamos próximos da maturidade de Murilo Mendes, já vislumbrada em Mundo Enigma (1942), do qual o poema abaixo atesta sua força imagética, além de ser quase uma súmula da capacidade do poeta:
POEMA BARROCO
Os cavalos da aurora derrubando pianos
Avançam furiosamente pelas portas da noite.
Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,
Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.
O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas
E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias
Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros
Atravessam o céu de açucenas e bronze.
Preciso conhecer meu sistema de artérias
E saber até que ponto me sinto limitado
Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,
Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,
Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,
E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.
Preciso conhecer os porões de minha miséria,
Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,
Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,
E amordaçar a indefesa e nua castidade.
É então que viro a bela imagem azul-vermelha:
Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,
Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,
Aponta seu coração e também pede auxílio.
Os delírios discursivos parecem atingir, com um tempero barroquista, o máximo do inusitado, sempre na busca do Absoluto, em Poesia Liberdade (1943-5), obra cujo título, já se disse, simboliza o grande objetivo desse artista mineiro.
Um caminho novo é aberto em Sonetos Brancos (1946-8): o uso da rígida forma fixa. Por meio dos seus sonetos, vislumbramos a futura queda na elaboração poética de Murilo Mendes.
Se antes ele pecava por pender só para o conteúdo, melhorou ao conciliar, entre tantos opostos, a forma e o conteúdo. No entanto, a partir da presente obra podemos antecipar o relaxamento, a frouxidão que se resultará na dedicação quase que exclusiva ao outro eixo do discurso: a forma.
Em suma, Murilo Mendes não pode ser extremista – tem de buscar o equilíbrio. Porém, este livro ainda apresenta o vigor do poeta, como abaixo:
O ESPELHO
O céu investe contra o outro céu.
É terrível pensar que a morte está
Não apenas no fim, mas no princípio
Dos elementos vivos da criação.
Um plano superpõe-se a outro plano,
O mundo se balança entre dois galhos,
Ondas de terror que vão e voltam,
Luz amarga filtrando destes cílios.
Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?
Correspondo a um arquétipo ideal.
Signo de futura realidade sou.
A manopla levanta-se pesada,
Atacando a armadura inviolável:
Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.
Observe a constante noção de equilíbrio a ser rompido, a superposição de planos e objetos, os fortes dualismos de sabor barroquista, a busca pelo Absoluto, a sondagem da identidade e a visão apocalíptica.
Em outras palavras, ainda aqui se manifesta o tempero intelectual de Murilo Mendes.
*Fonte: www.vestibuol.com.br
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Análise: Estrela da Vida Inteira (Manuel Bandeira)
A Obra
A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.
(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza - Introdução in Estrela da vida inteira)
Pasárgada: a poesia das coisas mais simples
Quando Manuel Bandeira morreu, em outubro de 1968, um jornal dedicou-lhe a manchete Bandeira, enfim, Pasárgada! em referência ao seu mais conhecido poema - Vou-me embora pra Pasárgada. Neste poema o poeta evoca a vida que poderia ter sido e que não foi, uma espécie de paraíso pessoal, lugar de sonhos e de desejos, em que ele poderia realizar as felicidades mais simples, como andar em burro bravo, subir em pau-de-sebo, andar de bicicleta, tomar banho de mar...
A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples e despojadas já revela um dado biográfico que se transformará em fonte de muitos temas da poesia de Bandeira: a presença da morte, anunciada em plena adolescência, sob a forma de uma tuberculose, doença mortal na época (início do século XX). (...) fui vivendo, morre-não-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, médico-chefe do Sanatório de Clavadel, tentando-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos...
Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerário de Pasárgada)
A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência com sua presença - fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente numa descoberta essencial de vida, numa valorização intensa da existência mais cotidiana, redescoberta como única, irrepetível, insubstituível.
Não é possível separar a experiência de vida da experiência poética do autor de Pasárgada, embora sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - não possa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes de imagens, de emoções, de ritmos, transfigurados na alquimia da criação.
O critico Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, escreve: (...) veremos que a presença do biográfico é ainda poderosa mesmos nos livros de inspiração absolutamente moderna, como Libertinagem, núcleo daquele seu não-me-importismo irônico, e, no fundo, melancólico, que lhe deu uma fisionomia tão cara aos leitores jovens desde 1930.
O adolescente mau curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o carnaval da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigado distanciamento.
A sua obra, escrita ao longo de mais de meio século, atravessa praticamente toda a história do Modernismo no Brasil e apresenta muitos dos mais expressivos livros da poesia moderna, como Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã e outros.
Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi. Poesia, / Minha vida verdadeira.
Nascido na Recife, em 1886, tendo passado a infância principalmente no Rio e no próprio Recife, Manuel Bandeira publica seu primeiro livro de poema em 1917 - A cinza das horas, que será seguido por Carnaval, em 1919, em que apresenta pela primeira vez, versos livres na literatura brasileira. Conhece Mario de Andrade e os modernistas paulistas em 1921.
Não participa diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o seu poema Os sapos, paródia contundente dos parnasianos, provoca um dos momentos de maior escândalo, ao ser lido por Ronald de Carvalho, no Teatro Municipal de São Paulo, no dia 15 de fevereiro: o de maior polemica de toda a Semana.
A partir de então, não é possível pensar a poesia moderna no Brasil sem a presença de Bandeira, que atravessará todas as chamadas fases do Modernismo, com uma produção poética de mais alto nível. Já na fase heróica, de 1922, em que a ruptura com o passado e com as estruturas estabelecidas era a mais vital palavra de ordem, Mário de Andrade chamava o poeta de S. João Batista do Modernismo, reconhecendo o seu papel de anunciador da nova poesia.
Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos, mais comuns, dos momentos que aparentemente são banais e insignificantes. Do dia-a-dia mia desapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da vida.
Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade da essência mais profunda - e mais simples - da vida. O grande milagre da existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como algo intenso, único, irrepetível.
Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais expressivos da língua: grande intensidade, grande condensação, com imensa simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.
... a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatas.
Uma poética de iluminações da existência cotidiana, com a mais expressiva coloquialmente, e com intensa condensação de imagens e ritmos, a obra de Bandeira lembra muitas vezes a criação poética dos haicais japoneses, em que se flagram instante de plenitude, de frágil e plena percepção da vida, concentrada em um detalhe aparentemente banal.
Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa a mais longa convivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem ser dominado pelo desespero, sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações retóricas. Com amadurecida amargura.
Com ironia e auto-ironia, melancólicas. Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vida que poderia ter sido e que não foi e nem será.
Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos, interlocutora secreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada dia, de cada pessoa, de cada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre que não apenas os outros morrem - transformou-se, como em muitas correntes filosóficas, em sabedoria de vida. A importância da existência, de cada um: simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte, também milagre.
Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso pela vida. Uma sensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura melancólica pela infância perdida, e por seus personagens. Ternura ardente pelo corpo. A sua poesia amorosa revela-se como ardente lírica erótica.
Poesia do corpo, de grande intensidade. Os corpos se estendem, as almas não. Imagens eróticas que se tornam experiências sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade, o ardor e a intensidade da ternura. O físico se funde com o onírico, terna e desconcertantemente.
Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis fazedores de versos do modernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica e de ritmo vão desde as mais libertárias experiências de verso livre, dos fluxos mais soltos e irregulares até as estruturas mais tradicionais, de verso em redondilhas da lírica medieval, dos versos decassílabos clássicos e neoclássico e outros combinados com variadas formas fixas de estrófica regular, com sonetos, canções etc.
Um fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro domínio técnico e com grande erudição, capaz de traduzir de varias línguas e de escrever à moda de, imitando estilos os mais diversos, da época e autores.
Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com igual e desconcertante simplicidade. Nas constelações de imagens dos seus poemas percebemos um movimento oposto e complementar: por um lado, o cotidiano parece transfigurado, instante de iluminação, com aura de símbolo transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, o misterioso, o onírico aparecem configurados familiarmente, tornados próximos e confidentes, tornados íntimos do dia-a-dia.
Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais simples e mais despojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta capaz de simplicidade mais essencial e mais expressiva
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A Flor e a Náusea (Carlos Drummond de Andrade)
A flor e a náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
(Carlos Drummond de Andrade)
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Carlos Drummond de Andrade ganha site oficial

Um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade completa 25 anos no catálogo da Editora Record em 2009. Para homenagear o homem que libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra, a editora acaba de lançar o site oficial do autor www.carlosdrummonddeandrade.com.br , com informações sobre sua vida e obra.
Com uma ampla obra que transita entre a poesia e o conto, Drummond escreveu incansavelmente até o fim de sua vida. Uma mente tão criativa e produtiva que, mesmo depois de sua morte, ainda foram lançados diversos materiais inéditos de sua autoria. O site traz uma lista completa de livros do autor publicados pela Editora Record, além de fotos e vídeos de Drummond em momentos de cotidiana beleza ou apaixonadas homenagens, feitas por aqueles que admiram sua obra. Atualizado semanalmente, o site contará ainda com poesias, contos e algumas curiosidades, como fotos pessoais e manuscritos, fornecidos por Pedro Drummond, neto do autor.
Outra novidade é a Rádio Drummond, que apresenta alguns de seus principais poemas musicados. Em breve, entrarão no ar também entrevistas e trechos de poesias declamados pelo próprio Drummond. Os leitores podem baixar no site papéis de parede com imagens do autor e participar de promoções quinzenais, nas quais serão premiados com livros do escritor.
Fonte: O Globo
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Há metafísica bastante em não pensar em nada (Alberto Caeiro)
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Dia do Amigo: "Um dia a maioria de nós irá separar-se" (Fernando Pessoa)

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...
Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...
Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...
Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...
Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...
Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Homenageado da Flip 2009, Manuel Bandeira tem destacada a faceta cronista

Poeta será tema da conferência de abertura e de duas mesas do evento.
Festa Literária Internacional de Paraty tem início nesta quarta-feira (1º).
Shin Oliva Suzuki
do portal G1
Dentro da tradição da Festa Literária Internacional de Paraty, a edição 2009 terá Manuel Bandeira como mais uma figura importante das letras brasileiras a ser homenageada pela programação do evento.
O nome do poeta sucede os de Vinicius de Moraes, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Machado de Assis, lembrados nas seis edições anteriores da Flip. A sétima edição do festival começa nesta quarta-feira (1º).
Dentro da Flip, Bandeira (1886-1968) será tema da conferência de abertura, às 19h, a cargo de Davi Arrigucci Jr., que escreveu ensaios importantes sobre o escritor, identificado com o movimento modernista (apesar de não ter participado da Semana de 1922).
Na sexta-feira, às 10h, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas, representantes da nova geração de poetas brasileiros, conversam sobre por que ainda é importante ler Bandeira. No domingo, último dia de Flip, às 16h15, Edson Nery da Fonseca, correspondente e amigo do poeta conversa com o jornalista Zuenir Ventura – discípulo bandeirista.
Ainda haverá leitura de poemas pela rádio digital Lettera Libris (quinta, às 15h10), uma releitura do “Guia de Ouro Preto”, a exibição do curta “O poeta do castelo”, de Joaquim Pedro de Andrade (sexta, às 17h30), um show de Francis e Olivia Hime (sexta, às 22h), todos voltados à obra do poeta nascido no Recife e que morou boa parte de sua vida no Rio de Janeiro. Entre seus livros fundamentais estão “Libertinagem” (1930) e “Itinerário de Pasárgada” (1954).
O mercado editorial aproveitou a deixa e planejou uma série de lançamentos na esteira da homenagem feita pela Flip. A editora Cosac Naify publica a tradução de “Macbeth”, de Shakespeare feita por Bandeira, “Apresentação da poesia brasileira”, um antologia de nomes importantes da produção nacional com vistas ao leitor de fora, e “Crônicas inéditas 2”, reunião de trabalhos feitos para jornais e revistas. É nesse livro, organizado por Júlio Castañon Guimarães, pesquisador da Fundação Casa Rui Barbosa, em que aparece Bandeira em momentos como crítico duro ou que entabula de maneira mais informal a comunicação com o leitor.
Guimarães concorda que pode se enxergar uma influência do movimento modernista, com um “tom de brincadeira, de ironia” em suas crônicas.
A editora Nova Aguilar também lançará “Poesia completa e prosa” e a Nova Fronteira programa “Estrela da vida inteira” – que ainda inclui um CD com leituras de poemas feitas pelo próprio Bandeira.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Textos inéditos de Fernando Pessoa são publicados em nova coleção
Lisboa, 24 jun (EFE).- Vários textos inéditos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) foram reunidos em uma coleção, que foi apresentada hoje em Lisboa por seu organizador, o colombiano Jerónimo Pizarro.
Com o título "Fernando Pessoa: o guardador de papéis", Pizarro, junto com um grupo de estudiosos do autor, reuniu escritos nunca antes divulgados ou muito pouco conhecidos, entre os quais destaca-se um sobre o encontro entre o literato luso e o ocultista inglês Aleister Crowley (1875-1947).
"Chegamos a cada documento de maneiras diferentes. Unimos o que fisicamente estava disperso", disse o investigador colombiano, considerado um dos maiores especialista na obra de Pessoa, à Agência Efe.
Entre os documentos mais valiosos, o organizador do livro destacou também uma dissertação do poeta sobre o fenômeno religioso do santuário luso de Fátima, onde milhares de católicos se reúnem desde o início do século XX, para celebrar as aparições de Nossa Senhora.
Pessoa, uma das figuras mais destacadas da literatura portuguesa, tem uma extensa obra que foi motivo de várias polêmicas, entre elas o leilão de seus documentos, realizado em novembro em Lisboa e na qual herdeiros e o Estado pediram os direitos sob suas obras.
Para o colombiano, "Pessoa representa um universo plural. Tem tamanha variedade de estilos que é difícil se cansar de suas obras", afirmou e se lamentou que, apesar de haver escrito em português, francês e inglês, seus trabalhos ficaram famosos tarde, fora de Portugal.
O fato de escrever em três línguas, segundo Pizarro, faz de Pessoa, o único escritor a "desafiar" a literatura nacional.
O poeta, que dominava o inglês por ter passado boa parte de sua juventude na África do Sul, onde seu padrasto foi diplomata, escreveu grande parte de suas obras assinando com pseudônimos diferentes.
Entres suas obras, publicou o livro de poemas "Mensagem" (1934) e o romance "O Livro do Desassossego", o mais popular e reconhecido, que ficou famoso anos depois de seu falecimento, no dia 30 de novembro de 1935.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Períodos Literários: O Modernismo e as Vanguardas Européias
Modernismo
Contexto: (início do séc. XX)
Europa: Avanço do processo industrial; disputa por mercados e matéria-prima; I Guerra Mundial (1914-18); Rev. Russa (1917); Crack da Bolsa de Nova Iorque (1929); eletricidade; telégrafo; rádio; cinema; automóvel; avião.
Brasil: Coronelismo no Nordeste; oligarquias no Sul e Sudeste; Ciclo de Greves; Partido Comunista do Brasil; Revolta do Forte de Copacabana; Coluna Prestes.
Lisbon Revisited (1923)
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
(Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa)
O espírito moderno está diretamente associado ao desenvolvimento tecnológico e à urbanização. A eletricidade, o telégrafo, o rádio, o automóvel e o avião geram uma sensação de aceleração: as noções de tempo e de espaço já não são as mesmas. Paradoxalmente, as metrópoles oferecem múltiplas possibilidades de realização (pessoal, amorosa, intelectual, de consumo...) e a proporcional sensação de frustração, de mal-estar, solidão, angústia existencial. O sacrifício inútil de milhões de vidas durante a Iª Guerra não permite mais as ilusões propostas pelo liberalismo burguês, no sentido de uma estabilidade social, da valorização do ser-humano e do progresso infinito.
Assim, a arte moderna constitui-se como expressão global dessas transformações radicais no contexto sócio-político-econômico ocorridas em todo o mundo.
As Vanguardas Européias
Futurismo: Movimento idealizado pelo italiano Marinetti, propunha a rejeição ao passado, às tradições e ao academicismo. Preconizava o verso livre, a destruição da sintaxe. Em síntese, valoriza a construção de um novo mundo, dominado por homens superiores, senhores da tecnologia e da velocidade (assume, portanto, um caráter fascista).Giacomo Balla: velocità astratta - l'auto é passata
Cubismo: Com a tela As senhoras de Avignon, Picasso propõe a destruição das imagens convencionais, estáticas. Formas e planos descontínuos rompem com o realismo fotográfico, constituindo imagens multifacetadas, tridimensionais. Destaca-se também a técnica da colagem.
Dadaísmo: Dadá seria algo infantil, pré-lógico, incompreensível. Tal como a vida, a arte não possui, necessariamente um significado.
Receita para se fazer um poema
Pegue um jornal
Pegue uma tesoura
Escolha um artigo do jornal na dimensão
que você quer dar ao seu poema
Recorte o artigo
Depois recorte alguns palavras do artigo
e as ponha numa pequena bolsa
Sacuda-a suavemente
Tire em seguida cada palavra uma após outra
Copie honestamente na ordem em que saíram da bolsa
E o poema estará pronto e parecido com você
E você será um poeta de original,
fascinante sensibilidade,
ainda que a plebe não o compreenda.
Surrealismo: Liderado por André Breton, e tendo a adesão de Salvador Dali, René Magritte e Luis Buñuel, o movimento buscava uma explorar o inconsciente humano. Preconizava a escrita automática, um fluxo de palavras sem qualquer esforço de controle moral ou estético.Salvador Dalí: A Persistência da Memória
Expressionismo: A arte que revela a expressão como reflexo do universo interior do indivíduo. A exteriorização de mitos, sonhos, devaneios, enfim, de aspectos ilógicos, faz com que tenhamos imagens com traços violentos, que se aproximam do grotesco, por suas distorções.
O Grito – Munch
Nas próximas postagens veremos o Modernismo no Brasil.
domingo, 31 de maio de 2009
Conto Brasileiro: Gaetaninho (Alcântara Machado)
"- Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
- Eh! Gaetaninho Vem pra dentro.
Grito materno sim : até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
- Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza , rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO.
Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a Tia Filomena com mania de cantar o "Ahi, Mari!" todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio. Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
- Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
- Meu pai deu uma vez na cara dele.
- Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
- Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atraplhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
- Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
- Vá dar tiro no inferno!
- Cala a boca, palestrino!
- Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
Agurizada assustada espalhou a notícia na noite.
- Sabe o Gaetaninho?
- Que é que tem?
- Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Lá no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino."
*do livro Brás, Bexiga e Barra Funda
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O AUTOR:ANTÔNIO CASTILHO DE ALCÂNTARA MACHADO D'OLIVEIRA nasceu em São Paulo em 25 de maio de 1901. De família ilustre, o pai fora escritor e professor da Faculdade de Direito de São Paulo. Forma-se em direito no ano de 1924, mas não exerce a profissão, pois se dedica ao jornalismo, chegando a ocupar o cargo de redator-chefe do Jornal do Comércio.
No ano de 1925 realiza sua segunda viagem à Europa, onde já estivera quando criança. De lá traz crônicas e reportagens que originaram seu livro de estréia, Pathé-Baby (1926), prefaciado por Oswald de Andrade.
Em 1922 não participa da Semana de Arte Moderna, mas, no ano de 1926, junto com A.C. Couto de Barros, funda a revista Terra Roxa e Outras Terras. Em 1928 publica a obra "Brás, Bexiga e Barra Funda". Na primeira edição dessa obra o prefácio é substituído prefácio por um texto intitulado "Artigo de fundo", disposto em colunas, como as de uma página de jornal, onde afirmava:
"Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo".
Essa introdução revela uma característica fundamental de sua obra: a narrativa curta, muito semelhante à linguagem jornalística. Nessa obra Alcântara Machado revela a sua preocupação em descrever os habitantes e os costumes das pessoas que habitam os bairros humildes da capital paulistana. Assim, fez surgir um novo tipo de personagem na literatura brasileira: o ítalo-brasileiro.
Em 1928 une-se a Oswald de Andrade para fundar a Revista de Antropofagia. Alcântara Machado, juntamente com Raul Bopp, foi o diretor dessa revista no período de maio de 1928 a fevereiro de 1929. Ainda em 1929 lança a obra "Laranja da China".
Em 1931 dirige a Revista Hora, junto com Mário de Andrade. Ingressando na política, muda-se para o Rio de Janeiro, onde exerce também a crítica literária. Candidata-se ao cargo de deputado federal. Eleito, não chega a ser empossado, pois falece em conseqüência de complicações de uma cirurgia de apêndice, no Rio de Janeiro, em 14 de abril 1935. (biografia do Mundo Cultural)
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SAIBA MAIS SOBRE O AUTOR E SUA OBRA:
Alcântara Machado: A vozdos Ítalo-Paulistas (Aline Soler Parra - Unicamp)
O artigo contém dados sobre a biografia do autor, seu contexto de produção e a análise do conto "Gaetaninho".
Download do livro BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA
sábado, 11 de abril de 2009
Literatube: Carlos Drummond de Andrade (Arquivo N)
Documentários especial sobre a vida e a obra do maior poeta brasileiro do século XX: Carlos Drummond de Andrade.
quinta-feira, 5 de março de 2009
A Morte do Leiteiro
Curta metragem de animação stop-motion. Uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade e Paulo Autran. Um filme de Merson Eller e Thales Mion.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
A Rosa do Povo - Resumo, Análise e Guia de Leitura
Saudações a todos!
Este é um dos últimos posts do ano, e traz um material que eu já tinha colocado aqui no blog. Trata-se de um guia para "A Rosa do Povo", de Drummond. Considerada por muitos a grande obra do maior poeta brasileiro de todos os tempos, A Rosa do Povo se insere na fase da poesia social do autor, profundamente afetada pelo momento histórico: Segunda Guerra Mundial e Era Vargas são referências indiscutíveis.
Cabe destacar a multiplicidade técnica e temática da obra, que vai do soneto ("Áporo") ao verso livre, demonstrando a maturidade da chamada Geração de 30 em relação aos radicalismos do pessoal de 22. Se Oswald de Andrade e companhia privilegiaram uma revolução estética, Drummond foi revolucionário sob o ponto de vista ideológico. Assim como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queirós,Erico Verissimo e Cyro Martins no chamado Romance de 30.
Assim, para Drummond a bandeira do socialismo e a luta contra todas as formas de opressão são o cerne da poesia; a forma segue de forma coerente o conteúdo.
Ao estudo!
Resumo e Análise:
10 A ROSA DO POVO
Guia de Leitura:
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Amar, Verbo Intransitivo - Resumo e Análise
Outra obra selecionada para o vestibular da UFPel. Romance de Mário de Andrade, está inserido na fase heróica do Modernismo brasileiro (Geração de 1922). Questiona, portanto, o romance tradicional, o que se evidencia nas constantes intromissões do narrador-autor, nas inovações no terreno da linguagem (como sugere o próprio título) e em estranhezas como a palavra "fim" antes do término da narrativa. Dentro desse espírito modernista nacional, também promove uma reflexão sobre a brasilidade, a partir da oposição entre os valores nativos e os valores eurpeus representados por "Fraülein".
Aos estudos!
9 Amar Verbo Intransitivo
E aí, o que achou do livro? Deixe aqui seu comentário!
