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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Resumo e Análise: Fogo Morto (José Lins do Rego)


Fogo Morto
(José Lins do Rego)


O regionalismo de 30

Publicado em 1943, Fogo Morto é a última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a década de 30.

A prosa de ficção dos anos 30 deu continuidade ao projeto dos primeiros modernistas, a chamada fase heróica, de 1922, de aprofundamento nos problemas brasileiros através de uma literatura regionalista, de caráter neo-realista, preocupada em apresentar os problemas e as desigualdades sociais do Brasil.

Prevalece uma narrativa direta, sem as ousadias formais dos romances de Oswald de Andrade, como Memórias Sentimentais de João Miramar, ou do Macunaíma de Mário de Andrade.

Linguagem

Os regionalistas de 30, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enfatizam, assim como o modernismo inicial, o uso da linguagem coloquial, popular, na obra de arte literária. Mas há uma diferença fundamental.

Enquanto os modernistas de 22 procuravam "escrever errado", reproduzindo as incorreções gramaticais da fala popular de maneira programática na linguagem literária, os regionalistas de 30, já livres das convenções da linguagem parnasiana acadêmica, escrevem com simplicidade, apenas ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa.

O ciclo da cana-de-açúcar

Fogo Morto é também o último suspiro da série de romances a que o próprio José Lins do Rego, grande contador de histórias, diretamente influenciado pelo regionalismo do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, haveria de chamar de O ciclo da cana-de-açúcar, que têm como matéria básica o engenho Santa Rosa, do velho José Paulino, avô de seu alter-ego, Carlos de Melo.

Em nota à primeira edição de Usina (1936), considerado por José Lins como o último romance da série, o próprio escritor nos explica suas intenções ao realizar este ciclo de romances:

Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de "Ciclo da Cana-de-açúcar".

A história desses livros é bem simples -- comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço de vida o que eu queria contar.

Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior.

Veio, após o Menino de Engenho, Doidinho, em seguida Bangüê. Carlos de Melo havia crescido, sofrido e fracassado. Mas, o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar, os chamados "moleques de bagaceira", os Ricardos.

Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa a sua história que é tão triste quanto a do seu companheiro Carlinhos. Foi ele do Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. Pode ser que se pareçam.

Viveram tão juntos um do outro, foram tão íntimos na infância, tão pegados (muitos Carlos beberam do mesmo leite materno dos Ricardos) que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem. Pelo contrário.

Depois do Moleque Ricardo veio Usina, a história do Santa Rosa arrancado de suas bases, espatifado, com máquinas de fábrica, com ferramentas enormes, com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas.

Carlos de Melo, Ricardo e o Santa Rosa se acabam, têm o mesmo destino, estão tão intimamente ligados que a vida de um tem muito da vida do outro. Uma grande melancolia os envolve de sombras. Carlinhos foge, Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome, se escraviza. Rio de Janeiro, 1936.J. L. R.

Em Menino de Engenho (1932), primeiro romance do ciclo, José Lins do Rego mostra, de maneira lírica e saudosista, o ambiente de engenho em que o garoto Carlinhos é criado após seu pai, desequilibrado mental, ter assassinado a mãe.

Criado entre os "moleques de bagaceira", o garoto cresce sob o poder patriarcal avassalador do avô José Paulino. Aos doze anos, conhece a sexualidade através da "rapariga" Zefa Cajá, de quem contrai uma "doença do mundo". Por fim, é mandado ao colégio interno, para "endireitar", perder os hábitos da "bagaceira", e se tornar um legítimo "senhor de engenho".

Após descrever a vida de Carlos de Melo no colégio interno, em Doidinho (1933), José Lins do Rego nos mostra o seu retorno ao Santa Rosa, aos 24 anos, já formado em Direito, no seu romance seguinte, Bangüê (1934). Carlinhos tenta, então, se readaptar ao engenho, sempre permeado por uma sensação de impotência frente ao espírito autoritário de seu velho avô.

Após a morte do velho José Paulino, Carlos acaba por levar o Santa Rosa à ruína, vende o engenho ao tio Juca, e abandona para sempre as suas terras. Considerado por José Lins o último livro do ciclo, Usina (1936) apresenta o engenho transformado na usina Bom Jesus.

Dirigida pelo Dr. Juca, a usina vai perdendo a sua força. Pressionada por interesses estrangeiros e pela usina Santa Fé, que domina toda a região, acaba invadida por miseráveis em busca de alimentos e, por fim, o Dr. Juca a vende e a abandona melancolicamente. Mas o engenho Santa Rosa, assim como alguns de seus moradores, voltaria a aparecer na obra-prima de José Lins do Rego, Fogo Morto.

Decadência

O ciclo apresenta, portanto, o processo de decadência dos engenhos da zona da mata nordestina, que perdem seu poder e são engolidos pelas forças emergentes da usina e do capitalismo moderno.

Obra-prima

Embora desse o ciclo por encerrado com a publicação de Usina, em 1936, José Lins do Rego lançaria Fogo Morto sete anos mais tarde. Nesta obra, retoma a mesma idéia nuclear dos romances anteriores, assim como o engenho Santa Rosa e a figura do coronel José Paulino, ainda que de maneira periférica.

O romance, portanto, pode ser considerado com um integrante tardio do "ciclo" que José Lins havia considerado acabado.

Mais do que isso, acaba por ser a maior obra deste mesmo ciclo, pois, ao minimizar o caráter autobiográfico e nostálgico das obras precedentes, o romancista paraibano acrescenta à sua extraordinária facilidade de narrar, que mais lembra um contador de histórias marcado pela oralidade e pela naturalidade, a objetividade e a consciência compositiva que o caráter sentimental e espontâneo das obras anteriores encobria.

Em Fogo Morto, portanto, o romancista maduro e consciente se sobrepõe ao memorialista nostálgico para construir sua obra-prima: síntese, aprofundamento e condensação de todas as outras.

Espaço e tempo

O romance se passa no município de Pilar, na Zona da Mata paraibana, às margens do Rio Paraíba, distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa, próxima a Itabaiana. A maior parcela da ação se desenvolve nas terras do engenho Santa Fé, nos arredores do Pilar. Na cidade, passa-se boa parte da última seção da obra.

O desenrolar dos acontecimentos se dá durante os primeiros anos do século XX, com uma regressão temporal à época da fundação do engenho Santa Fé, em 1850. E embora seja traçada rapidamente a história do engenho até o momento narrado, as ações em si não duram mais do que alguns meses.

O título

Os "engenhos" do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Com a ascensão das usinas, que passaram a comprar dos engenhos sua produção bruta, a cana de açúcar ainda não processada, para fabricar o açúcar, a maior parte desses engenhos foi, aos poucos, deixando de "botar", moer a cana para a fabricação do açúcar.

Passam, então, apenas a vender a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos "de fogo morto". Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. É como se encontra, ao final de Fogo Morto, o decadente engenho Santa Fé.

Estrutura Triangular

Fogo Morto é dividido em três partes. Cada uma delas traz no título o nome de um dos três personagens principais do romance. Mas as três partes se entrecruzam, os personagens aparecem ao longo de todo o livro.

O coronel Lula de Holanda, senhor de engenho inepto e decadente, o mestre José Amaro, seleiro pobre e orgulhoso, e Vitorino Carneiro da Cunha, o papa-rabo, herói quixotesco, defensor estabanado dos oprimidos. É Vitorino, misto de Dom Quixote e Sancho Pança, em suas andanças e na sua busca ingênua de justiça, quem estabelece as relações entre todas as personagens, servindo como ponto central da narrativa.

Primeira Parte: O Mestre José Amaro

A primeira parte do romance centra-se na casa, à beira da estrada no engenho Santa Fé, do Mestre José Amaro, seleiro orgulhoso e machista, que recusa-se a ser dominado por qualquer um, só trabalha para quem escolhe e admira o cangaceiro Antônio Silvino.

Boa parte deste trecho da obra se constrói através dos diálogos travados por José Amaro com os passantes. Entre estes está o compadre Vitorino Carneiro da Cunha, apelidado pelas crianças de Papa-rabo. O Mestre irrita-se com o Coronel Lula de Holanda, dono das terras em que mora, e que sempre vê cruzando a estrada em seu cabriolé, sem jamais parar para cumprimentá-lo.

Vai adiando, portanto, atender ao chamado do Coronel para que vá com ele conversar na casa grande. Vemos o lento processo de enlouquecimento de Marta, sua filha, em quem José Amaro bate para tentar curar.

O Mestre recebe uma encomenda de compras de Antônio Silvino e sente-se muito orgulhoso em poder ajudá-lo. Seu caráter fechado e ranzinza vale-lhe a fama de se transformar em "lobisomem", e as pessoas temem encontrar com ele à noite. Por fim, tem que mandar a filha para o hospício em Recife e acaba por atender ao chamado do coronel Lula, que lhe ordena que se retire de suas terras.

Segunda Parte
O Engenho de Seu Lula


No início da segunda parte do livro, temos uma regressão temporal, com o narrador retornando a 1850 ao contar a fundação do engenho Santa Fé pelo Capitão Tomás Cabral de Melo. Mudando-se para a região antes de 1848, compra as terras e funda o engenho que acaba por fazer prosperar. Casa sua filha Amélia com Lula Chacon de Holanda, seu primo, que pouco interesse ou aptidão tem para dirigir o engenho. Adoentado, deixa sua mulher, D. Mariquinha, dirigir os negócios.

Quando morre, Lula entra em disputa com a sogra e acaba por tomar-lhe as terras e o poder. Castigando os escravos com requintes de crueldade, andando com seu cabriolé para cima e para baixo, Seu Lula vai se afastando cada vez mais do povo de Pilar e seu engenho entra em total decadência quando vem a Abolição e seus escravos debandam. Autoritário, impede os homens de se aproximarem da filha.

Epilético, tem um ataque na igreja e passa a se dedicar com fervor à religião. Empobrecido, gasta até as últimas moedas de ouro que lhe deixou o sogro. Sente uma inveja enorme de seu vizinho José Paulino e de seu engenho Santa Rosa e despreza o espírito quixotesco de Vitorino Carneiro da Cunha. Esta parte se encerra com a frase melancólica: "Acabara-se o Santa Fé".

Terceira parte: O Capitão Vitorino

Na terceira e última parte do romance predomina a ação. O capitão Antônio Silvino invade a cidade do Pilar, saqueia as casas e lojas. Invade o engenho Santa Fé, ameaça os moradores em busca do ouro escondido. Tentando defender o engenho, Vitorino é agredido e só a intervenção de José Paulino faz com que os cangaceiros desistam.

Vitorino apanha também da polícia, José Amaro e seus companheiros são presos e agredidos. No final, após serem libertados, Vitorino e o mestre José Amaro seguem rumos diferentes. O primeiro pensa em influir politicamente na região. O segundo, abandonado pela mulher, com a filha louca e expulso de sua casa, acaba por cometer o suicídio, enquanto o cabriolé de Lula passa pela estrada e o Santa Fé virou "engenho de fogo morto".

As filhas e as mulheres

Há uma sinistra simetria entre a sofredora filha de José Amaro, Marta, solteirona que aos poucos enlouquece e as duas dos senhores do engenho Santa Fé, seus antagonistas. A filha mais nova do Capitão Tomás Cabral de Melo, Olívia, enlouquece e perturba o silêncio áspero da casa grande com seus gritos.

Já a filha do Coronel Lula de Holanda, Neném, impedida pelo pai de casar-se, é melancólica e soturna. Sem filhos homens, os opositores, ensimesmados, machistas e teimosos, acabam destruindo suas filhas. As mulheres dos protagonistas também se assemelham em muito.

Sinhá Velha e Sinhá Adriana são mais práticas e racionais do que os maridos José Amaro e Vitorino, mas pouco podem contra o machismo e a teimosia dos homens. Na engenho Santa Fé, as mulheres sempre se mostram mais decididas e práticas do que o impotente Lula Chacon. Sua sogra, D. Mariquinha, comanda o engenho até a morte do marido, quando é passada para trás por Lula, que se mostra muito menos competente no comando do engenho, que acaba por ser dirigido, sutilmente, por sua mulher, D. Amélia.

Polícia ou bandido

Polícia e bandido em muito se assemelham. Tanto o capitão Antônio Silvino, o cangaceiro, quanto o tenente Maurício, chefe das tropas policiais, abusam da violência, ameaçam a todos, espancam o sonhador Vitorino, e espalham o terror por onde passam.

Mesmo se o povo, representado por José Amaro, respeita mais ao cangaceiro, as suas ações não deixam de comprovar, como o constata Vitorino, que utiliza métodos abusivos e muito próximos do terror implantado por seu opositor.

Biografia

José Lins do Rego nasceu no engenho Corredor, município de Pilar (Paraíba), em 3 de junho de 1901 e morreu no Rio de Janeiro em 1957. Era órfão de mãe e, com o pai ausente, foi criado, como sua personagem Carlos de Melo, no engenho do avô materno. Estudou inicialmente no interior da Paraíba, em Itabaiana, e depois na capital. Fez o curso superior na Faculdade de Direito em Recife, Pernambuco.

Começou a escrever contos e artigos de temática política ainda estudante. Nessa época, iniciou sua amizade com José Américo de Almeida e Olívio Montenegro. Em 1923, conheceu Gilberto Freyre (1900-1987), recém-chegado da Europa. Junto com eles, integrou o chamado grupo modernista do Recife.

José Lins dizia que, após conhecer Gilberto Freyre - sociólogo e escritor, autor de Casa-grande & Senzala (1933) - sua vida nunca mais foi a mesma: "de lá pra cá foram outras as minhas preocupações, ...os meus planos, as minhas leituras, os meus entusiasmos". E foi sob a influência de Gilberto Freyre que começou a escrever seus romances regionalistas.

Em 1924, casa-se com Philomena Massa (D. Naná). Do casamento, teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Cristina.

Em 1925, foi promotor público em Minas Gerais. Em 1926, transfere-se para Maceió (Alagoas), onde trabalha como fiscal de bancos por nove anos e convive com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima e outros.

O contato com esses e outros artistas formou uma consciência regionalista em torno da vida nordestina, que marcou a obra de todos eles, especialmente a de José Lins do Rego. Em Maceió escreve os três primeiros romances: Menino de Engenho, Doidinho e Bangüê.

Seu livro de estréia, Menino de Engenho, é publicado em 1932 e recebe o prêmio da Fundação Graça Aranha. Muito bem recebida pela crítica, a edição de dois mil exemplares foi quase totalmente vendida no Rio de Janeiro.

Em 1935, nomeado fiscal do imposto de consumo, vai para o Rio de Janeiro, onde passaria o resto de sua vida. Esteve em países sul-americanos, na Europa e no Oriente. É eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 15 de setembro de 1955. Dois anos depois, em 12 de setembro de 1957, morre e é enterrado no mausoléu da Academia, no cemitério São João Batista.

Obra

José Lins do Rego publicou doze romances, um volume de memórias (Meus Verdes Anos), um de literatura infantil (Histórias da Velha Totônia), além de livros de viagem, conferências e crônicas. Seus romances são normalmente classificados em "ciclos", séries de obras versando sobre os mesmos temas:

• "Ciclo da cana-de-açúcar": Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, Usina e Fogo Morto.
• "Ciclo do cangaço, misticismo e seca": Pedra Bonita e Cangaceiros.
• Obras com implicações nos dois ciclos indicados: O Moleque Ricardo, Pureza, Riacho Doce.
• Obras desligadas desses ciclos: Água-mãe e Eurídice.


José Lins X Graciliano Ramos

Graciliano e José Lins: a aridez do agreste e a exuberância da zona da mata.

Outro dos grandes escritores surgidos durante a década de 30 dedicados ao romance regionalista, Graciliano Ramos (1892 - 1953) foi, desde o seu encontro em Maceió no início dos anos 30, grande amigo e admirador de José Lins do Rego. Mesmo quando, em 1945, polemizaram pelos jornais sobre o partido comunista, no qual Graciliano Ramos ingressara, este encerra seu artigo com estas palavras de amizade: "Sinto discordar do meu velho amigo José Lins, grande cabeça e enorme coração".

Graciliano jamais poderia esquecer que José Lins do Rego fora um dos brasileiros mais empenhados em conseguir sua libertação quando o velho Graça fora aprisionado, durante o ano de 1936, pela ditadura Vargas. Mas suas diferenças não foram apenas políticas. Enquanto a escrita de Graciliano era seca e contida como o sertão que descreve em Vidas Secas, a de José Lins era exuberante e derramada como a natureza pródiga da Zona da Mata que abriga os engenhos de seus romances.

Mas Fogo Morto, o mais contido e elaborado romance de José Lins, aproxima-se do colega alagoano ao apresentar a desumanização do homem nordestino. No romance São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, o narrador Paulo Honório, trabalhador braçal semi-alfabetizado, enriquece e compra, além da fazenda São Bernardo, sua esposa, a professora Madalena. Acometido de crises de ciúmes que remetem ao Dom Casmurro, de Machado de Assis, Paulo Honório é abandonado por todos após o suicídio da esposa.

Descreve-se, então, como "um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes." Esse homem que se destrói na incapacidade de refletir ou de sentir além da ganância e dos instintos básicos, animalizado e monstruoso, descreve-se como um "lobisomem". É como um "lobisomem" que o povo da região vê o mestre José Amaro, é como um "papa-rabo" que vêem o Capitão Vitorino.

Disponível em: http://www.mundovestibular.com.br/articles/2437/1/FOGO-MORTO---Jose-Lins-do-Rego-Resumo/Paacutegina1.html

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cyro Martins: Porteira Fechada e A Trilogia do Gaúcho a pé


CYRO MARTINS (1908-1995)



VIDA: Nasceu em Quarai, na fronteira sudoeste, filho de um pequeno comerciante da região. Com 12 anos, mudou-se para Porto Alegre a fim de fazer o antigo ginásio e o curso científico no colégio Anchieta. Ingressou na Faculdade de Medicina em 1928, formando-se em 1933. Retornou a sua cidade natal, lá exercendo a atividade médica durante três anos. Conheceu então a miséria social instituída pela crescente modernização do latifúndio na campanha rio-grandense e que, em seguida, documentaria em sua obra narrativa, pois Sem rumo, que abre a célebre trilogia do gaúcho a pé, é de 1937. No ano de 1938, Cyro Martins estudou neurologia no Rio de Janeiro. Ao voltar, fixou-se de vez em Porto Alegre, de onde sairia apenas no período 1951-1955, vivendo em Buenos Aires onde realizou sua formação psicanalítica. Dividido entre a psicanálise e a literatura, o ensaio e a ficção, converteu-se numa das figuras intelectuais mais respeitadas no Rio Grande do Sul.

OBRAS PRINCIPAIS

A trilogia do gaúcho a pé: Sem rumo (1937); Porteira fechada (1944); Estrada nova (1954).
Outras obras: Campo fora (1934); Um menino vai para o colégio (1942); Sombras na correnteza (1979); O príncipe da vila (1982); Gaúchos no Obelisco (1984).

Além disso, escreveu ensaios psicanalíticos e literários.

O esforço documental, a transformação dos indivíduos em representações explícitas de classes sociais, o didatismo com que se apresenta a vida econômica e política de uma região e a descrição implacável da miséria a que estão condenadas as camadas populares que ali vivem constituem o receituário do neo-realismo de 1930, do qual Cyro Martins é uma das expressões mais acabadas.

De certa maneira, Cyro Martins parte da mesma temática de Erico Verissimo: o Rio Grande pastoril, das imensas fazendas, da grande produção de couros e carne. Mas a diferença entre ambos está no grupo social que expressam: Erico prefere fazer a saga da classe dominante de sua origem à sua decadência; Cyro opta pelos desvalidos do pampa: pequenos arrendatários, agregados, posteiros, peões, carreteiros, gente que perdeu o pouco que possuía e que vaga sem destino pela campanha.

No plano da escrita, Erico, mantém invariavelmente o padrão culto da língua, ao passo que autor da trilogia do gaúcho a pé introduz em seus textos, em especial nos diálogos, vocábulos e expressões regionais. O léxico gauchesco, de origem platina, é usado, entretanto, de maneira circunstancial, pois a linguagem dominante de suas narrações é também a urbana culta.

A TRILOGIA DO GAÚCHO A PÉ

Nas primeiras décadas do século XX, o transporte ferroviário, as cercas de arame farpado, as pastagens artificiais e a divisão das grandes propriedades tinham reduzido a necessidade de mão-de-obra na atividade pastoril. Em um conjunto de romances pungentes – designados como trilogia do gaúcho a pé*(Sem rumo, Porteira fechada, Estrada nova) – Cyro Martins fixa este processo de expulsão dos trabalhadores do campo, face à inexorável modernização capitalista das estâncias.

Despejados das fazendas, esses tipos rudes marcham para os cinturões de miséria que envolvem as cidades do pampa, sem possuir qualquer qualificação para o trabalho citadino. O desemprego é inevitável assim como a bebida e a depressão. Sem alternativas, voltam-se nostalgicamente para o passado, que pintam como uma época de ouro. Daí à marginalização é apenas um passo.


SEM RUMO



Órfão, desconhecendo pai e mãe, Chiru é criado livremente numa fazenda. Muito jovem, torna-se peão. Como é humilhado e espancado continuamente pelo capataz, o protagonista ainda adolescente foge da estância. Vira carreteiro, mas embriaga-se pela primeira vez na vida e é despedido. Nos anos seguintes, tenta sobreviver como mascate, barqueiro, pipeiro. Rouba uma “chinoca” e experimenta a nostalgia de um tempo épico:



E o que seria, se vivesse naquele outro tempo, no tempo das adagas grandes, das pilchas prateadas, das onças sonantes, das distâncias sem fim? Seria um campeiro guapo, um andarengo, um valente!

Neste momento, Chiru adere à campanha de um político oposicionista, o Dr. Rogério, que apresenta uma mensagem renovadora. Há uma forte pressão sobre Chiru para que vote no candidato da situação, mas no dia das eleições (inaugurava-se o voto secreto no Rio Grande do Sul), ele se atrapalha de tal forma na hora de depositar a cédula, que o fato é visto pelos fiscais governistas como prova de infidelidade. Dias depois é demitido de seu emprego (colocava dormentes nas obras de uma ferrovia do governo) por ser de oposição. Está agora sem horizonte, sem nenhum rumo.

PORTEIRA FECHADA

Do ponto de vista literário, Porteira fechada é o melhor resolvido dos romances de Cyro Martins. Ele começa pelo final, o suicídio João Guedes, antigo posteiro (pequeno arrendatário). Em seguida, temos um mergulho no passado do protagonista que vivia razoavelmente nas terras de um fazendeiro. Este, contudo, imerso em dívidas se enforcara. Quando a propriedade muda de mãos, o novo dono – desejoso de maior área para a criação de seu gado – expulsa Guedes, a mulher e cinco filhos. Guedes vende a ponta de gado e as benfeitorias que possuía e ruma para a cidade com a família. Sem conseguir emprego, começa a freqüentar um bolicho onde se reúnem beberrões. A falta de alternativas, leva-o a roubar pelegos de ovelhas.

Ao mesmo tempo que ingressa no crime, Guedes é corroído por grande saudade dos antigos tempos de fartura e dignidade. Até que um dia é preso em flagrante dentro de uma fazenda. Enquanto está na prisão, a esposa tenta inutilmente o auxílio de parentes ricos, uma das filhas foge de casa e outra morre de tuberculose, dada a falta de recursos. Meses depois Guedes é solto. Restam-lhe agora, do passado feliz, apenas os arreios, mas ele é obrigado a vendê-los, o que aumenta a sua humilhação e a sua disposição ao suicídio, Mata-se então com um tiro na cabeça.

O final do romance é excepcionalmente irônico. No campo, onde Guedes e a família viviam, pastam agora os bois em completa paz:


A tarde desse dia, nos campos, caiu serena, sem um frêmito. (...)

Aquilo agora era um rincão despovoado. Não se avistava um vulto de campeiro, não se ouvia um latido de cachorro numa porta de toca, não tremulava um pala endomingado, não chiava uma carreta, os arados não rompiam a terra.

Mas que engorde dava aquela invernada! Para um fim de safra, então, já com caídas para o inverno, não havia campo que se lhe igualasse. Seiscentos novilhos pastavam folgadamente entre altas cercas de sete fios e madeirama de lei que a tapavam.

O sol entrou sem grandes esplendores. A noitinha caiu suavemente.

Que paz naqueles campos!

ESTRADA NOVA

É o romance em que Cyro Martins melhor descreve o processo sócio-econômico da modernização e as mudanças que ela na vida pastoril gaúcha. O relato começa com o suicídio de Policarpo, um velho gaúcho que expulso do campo, viera para Porto Alegre. Assiste a seu enterro, Ricardo, jovem contabilista, oriundo da campanha. O pai de Ricardo, Janguta, é um pequeno arrendatário e o rapaz temeroso de que o pai terminasse seus dias sozinho e na miséria, como Policarpo, resolve visitá-lo.

As terras onde vive o pai de Ricardo pertencem ao coronel Teodoro, estancieiro conservador e aterrorizado com a expansão mundial do comunismo. Teodoro quer o fim do arrendamento e ordena ao delegado de polícia que expulse Janguta imediatamente. Ricardo, recém-chegado, enfrenta o latifundiário que passa a ver o rapaz como um perigoso bolchevista.

A partir daí, de maneira mais ou menos desordenada, o foco narrativo muda para a cidade próxima, onde forças políticas conservadoras e progressistas se defrontam. O prefeito, aberto às mudanças políticas, identifica em Ricardo um lutador da evolução social, mas este, perseguido pelos esbirros do coronel Teodoro, resolve voltar para a capital, com a certeza de que um futuro melhor – alicerçado na luta política – já se desenha no horizonte. E é a mesma esperança que dá forças a seu pai, Janguta. Ainda que mandado embora das terras do coronel Teodoro, o velho ruma para a cidade com a esperança em dias de maior justiça e igualdade.


Estrada nova (Ainda o processo de expulsão da terra, mas agora atenuado pela perspectiva de uma sociedade mais justa Neste romance, Ricardo, filho de um peão, migra para Porto Alegre, consegue um emprego e toma consciência do servilismo e da falta de perspectivas dos gaúchos pobres do campo. )

* Não se trata de uma trilogia como O tempo e o vento, pois não há uma seqüência geracional-familiar entre os romances. O que os unifica, de fato, é que mostram o mesmo mundo sob a mesma ótica dos setores marginalizados. Pode-se especular, todavia, que há neles uma continuidade sócio-histórica da seguinte ordem: Sem rumo é o princípio do processo de expulsão do campo, Porteira fechada expressa o momento de maior desespero do gaúcho a pé, levado ao suicídio, e Estrada nova, por fim, já desenha uma esperança para os pobres da campanha.

Extraído de: Terra Educação - Prof. Sergius Gonzaga

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado vai ser digitalizado


Os aproximadamente 250 mil itens que compõem o acervo da Fundação Casa de Jorge Amado (FCJA) vão ser digitalizados. Entre os documentos e objetos estão os originais datilografados de livros, cartas, artigos, fotografias e as mais diversas publicações do escritor baiano.

Todo o material será scaneado e transformado em arquivos digitais disponibilizados num banco de dados, na internet e na sede da instituição, no Centro Histórico de Salvador. O projeto batizado de “Salve Jorge” tem o apoio financeiro do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), que está investindo R$ 181,5 mil na digitalização.

Para o superintendente regional do Banco na Bahia, Nilo Meira, o BNB entende que cultura também é desenvolvimento e, por isso, apoia iniciativas como essa. “A Bahia tem a maior economia da região e a 6ª maior do país, tem uma riqueza cultural enorme, e, nessa área, “o Salve Jorge” se destaca pela importância de Jorge Amado”.

O governador Jaques Wagner ressaltou a importância da iniciativa do BNB, que teve a sensibilidade para apoiar a preservação da memória do escritor. “Jorge é a cara da Bahia, é a cara da nossa cultura, um expoente que levou nosso estado aos quatro cantos do mundo. Sua obra não pode se perder e o BNB dá uma contribuição importante nesse sentido”.

Com a digitalização vai ser reduzido o uso e a manipulação do acervo, preservando as obras e dando sobrevida ao material. Para o presidente da FCJA, Artur Guimarães Sampaio, o acervo também ganha segurança. “Ele passará a ser guardado em dois ou três lugares diferentes, o que previne a perda total no caso de catástrofes ou acidentes, que são a maior causa da perda de acervos no mundo”.

Acervo

Entre os itens que serão digitalizados estão verdadeiras preciosidades como as várias versões do romance Jubiabá, escrito por Jorge Amado, em 1934. “Ele escrevia direto na máquina e costumava reescrever várias vezes o mesmo romance. Esses originais preservam as razuras, correções e observações feitas por ele enquanto criava as histórias”, conta a diretora executiva da FCJA, Miriam Fraga.

Boa parte desse material já está em condições de fragilidade por causa do tempo. “Os pesquisadores queriam ter acesso a esse material. Era difícil, porque, mesmo com toda a tecnologia para não dar acesso direto, ele se estraga. Agora, a memória de Jorge vai poder ser consultada com segurança e de qualquer lugar do mundo”, enfatizou Fraga.