A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.
Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.
Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.
Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."
sexta-feira, 22 de maio de 2009
A Crônica e o Ovo (Luís Fernando Veríssimo)
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Teoria Literária: O que é Crônica?
Se recorrermos à etimologia, perceberemos a crônica vinculada à noção de tempo (do grego chronos) ou, mais especificamente, para efeitos literários, de um breve registro de um determinado momento (a expressão latina chronica).
Modernamente, pode-se entender a crônica como um gênero discursivo em que o autor registra suas impressões sobre aspectos da vida hodierna, em especial, sobre episódios do cotidiano, estabelecendo a partir disso, uma relação de proximidade com o público leitor.
Embora inserida, normalmente em meio jornalístico, difere do texto noticioso, por estar impregnada da subjetividade de quem a produz. Mesmo tratando de eventos da realidade objetiva e dotada desse caráter de atualidade, traz consigo um olhar particular do escritor que lhe confere propriedade literária.
Por imbricar-se com a simplicidade das coisas da vida ordinária, cristaliza-se, de modo geral, em linguagem igualmente simples, despojada, o que corrobora a idéia de ser a crônica um texto despretensioso. Ademais, esse gênero afigura-se também despretensioso quanto a uma suposta perenidade presumida para a literatura em geral: é veiculado originalmente em meios como jornais e revistas, estando, a princípio, condenados à efemeridade de tudo aquilo que consideramos datado.
Curiosamente, é essa aura modesta, de “gênero menor”, que coloca a crônica na preferência do grande público, o que permite o estabelecimento de uma relação interessante entre o cronista e seu leitor: há uma certa cumplicidade, algo como um pacto implícito que se firma entre o colunista de um periódico e aqueles que se dispõem a lê-lo habitualmente. Alguns autores passam a adquirir certa estabilidade a partir de um estilo peculiar, já esperado por aqueles que consumirão seus textos.
Esse fenômeno faz com que escritores de destaque no gênero tenham seus textos reunidos e publicados em antologias. A crônica então passa de um veículo efêmero, periódico, para a perenidade dos livros em casos especiais como o de Rubem Braga, que se dedicou especialmente a essa modalidade textual.
É importante observar que o estilo singular de quem escreve, passa a ser muito mais definidor da crônica como a conhecemos hoje do que os aspectos formais do texto. Sobre isso, Luis Fernando Veríssimo, um mestre do gênero, reflete com seu habitual senso de humor:
A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.
[...]
Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato.
(In: VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Nariz e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1998. pp.3-4)
O conceito de crônica, portanto, passa pela dificuldade de se precisar características formais uniformes, mas respeita certas convenções, como forma de expressão consagrada e reconhecida em suas especificidades.
A crônica pode ser conceituada, portanto, como gênero discursivo breve, escrito de forma livre e pessoal (podendo assumir traços dissertativos, líricos, narrativos, descritivos ou uma combinação deles), veiculado originalmente em periódicos e que tem como temas, via de regra, fatos ou idéias da atualidade. Pode, portanto, assumir traços dissertativos, líricos, narrativos, descritivos ou uma combinação deles.
