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quarta-feira, 10 de março de 2010

Entrevista: Ferreira Gullar (Revista Bravo)


"A Poesia Surge do Espanto"
De repente, quando se ergue da cadeira, o poeta percebe que o fêmur de uma perna resvala no osso da bacia. Aquilo o intriga. “É desse tipo de surpresa que nasce um poema”, diz Ferreira Gullar


Por Armando Antenore

Certa manhã, enquanto fazia recortes para novas colagens, notou que umas tiras miúdas de papel salpicavam o piso da sala. Mal se abaixou com a intenção de recolhê-las, viu que formavam um desenho abstrato. A figura inusitada e bela surgira de modo espontâneo, à revelia de qualquer pretensão estética. O escritor, hipnotizado, apanhou os pedacinhos de papel e os fixou em uma cartolina amarronzada exatamente da maneira como caíram no chão. Batizou o trabalho de Por Acaso, Puro Acaso. Quem percorre o apartamento carioca logo avista a composição pendurada numa nesga de parede e um tanto oprimida pelas dezenas de outros quadros e gravuras que decoram o imóvel — a maioria de artistas tão míticos quanto Iberê Camargo, Rubem Valentim, Oscar Niemeyer e Marcelo Grassmann. "Todos bons amigos", comenta o dono da casa, com um híbrido de displicência e orgulho.

O episódio dos papéis revela muito sobre o jeito de o poeta enxergar a vida e o ato criativo. Para o autor do célebre Poema Sujo, viver (ou criar) é o resultado de um diálogo contínuo entre o arbítrio e o inesperado, a ordem e a desordem, a necessidade e o acaso. O assunto veio à tona numa tarde abafada de fevereiro, ao longo da conversa de três horas que Gullar manteve com BRAVO!. O apartamento de Copacabana, silencioso àquela altura do dia, serviu de cenário.

Viúvo, o maranhense namora a poetisa gaúcha Cláudia Ahimsa. Ele a conheceu durante a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994. Pouco tempo antes, amargara a morte da mulher, Thereza Aragão, e de um dos três filhos, o caçula Marcos. Inspirado pela atual companheira, escreveu os versos "Olho a árvore e já/ não pergunto 'para quê?'/ A estranheza do mundo/ se dissipa em você".

BRAVO!: O senso comum costuma apregoar que poetas nascem poetas. Poesia é destino?

Ferreira Gullar: Prefiro dizer que é vocação. O poeta traz do berço um modo próprio de lidar com a palavra. Não se trata, porém, de um presente dos deuses, de uma concessão divina, como se pregava em outras épocas. Trata-se de um fenômeno genético, biológico, sei lá. Há quem nasça com talento para pintar, jogar futebol ou roubar. E há quem nasça com talento para fazer poemas. Sem a vocação, o sujeito não vai longe. Pode virar um excelente leitor ou crítico de poesia, mas nunca se transformará num poeta respeitável. Quando um jovem me mostra originais, percebo de cara se é ou não do ramo. Leio dois ou três poemas e concluo de imediato. Por outro lado, caso o sujeito tenha a vocação e não trabalhe duro, dificilmente produzirá um verso que preste. Se não estudar, se não batalhar pelo domínio da linguagem, acabará desperdiçando o talento. "Nasci poeta, vou ser poeta." Não, não funciona assim. Converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade. Compreende a diferença? No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.

Nada escapa desse binômio?

Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.

Você não crê que Ele exista?

Gostaria de acreditar, mas não acredito. Uma pena... Poucas crenças podem ser mais reconfortantes do que a fé em Deus. Ele enche de sentido as nossas vidas sem sentido. "Eu não sou cachorro, não!", cantava o Waldick Soriano, lembra? Uma frase sugestiva, já que os homens realmente não se veem como cachorros. Os homens anseiam uma condição sublime. Não à toa, inventaram Deus: para que Deus os criasse. Se você pensar direito, todas as coisas abstratas ou concretas que a humanidade constrói têm a intenção de dar significado à vida — e, não raro, um significado especial. Nós, que frequentemente praticamos atos injustos, inventamos a justiça. Por quê? Porque desejamos ser melhores do que somos e tornar menos insolúvel o mistério de viver. A arte surge pelo mesmo motivo.

Conclui-se, então, que o poema também almeja dar significado à vida.

O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar uma história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas bateu no osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza. Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável de súbito ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso?, refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: "Hoje vou sentar e redigir um poema". A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: "Às vezes".

A falta de controle sobre o ato de escrever o angustia?

Não, em absoluto. A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar — só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente: tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.

Um poema deve sempre emocionar?

Sim, deve emocionar primeiro o poeta e depois o leitor.

O pernambucano João Cabral de Melo Neto, com quem você conviveu, pensava diferente, não? Ele preconizava uma poesia menos emotiva.

João Cabral gostava de mentir! (risos) Pegue o poema O Ovo de Galinha e veja se aquilo não comove o leitor. Você acha que o João também não se comoveu ao escrevê-lo? Lógico que se comoveu! Na verdade, João recusava a ideia de o poeta transformar a poesia em confessionário, em objeto do sentimentalismo. Daí proclamar que o poema tinha de ser uma construção intelectual. A razão lhe serviu de bússola. No entanto, paradoxalmente, inúmeros de seus versos não resultaram tão frios. À medida que o tempo passa, o João se revela cada vez mais complexo, uma soma de contradições — o que, no fim das contas, só aumenta a grandeza dele.

Você concorda quando os críticos apontam o Poema Sujo, de 1975, como sua obra máxima?

Difícil responder. Não me debrucei profundamente sobre o assunto... O Poema Sujo é, de fato, o que reúne o maior número de interrogações e descobertas — em parte, pela extensão (os versos se espalham por quase 60 páginas); em parte, pela febre criativa que me assaltou enquanto o redigia. Entre maio e outubro de 1975, fiquei imerso no que classifico de "estado poético". Nada me tirava daquele clima. Eu comentava, brincando, que me tornara uma espécie de rei Midas. Tudo em que botava a mão virava ouro, tudo virava poesia. Foi uma fase excepcional. Para mim, porém, trabalhos mais recentes podem ter importância idêntica à do Poema Sujo, por exprimirem reflexões novas, algo que não me ocorrera dizer antes.

Uma parcela da crítica sustenta que você é o maior poeta brasileiro vivo. É mesmo?

Imagine! E como se mede o tamanho de um poeta?, já perguntava Carlos Drummond de Andrade. Que régua consegue dimensionar um negócio desses? Claro que, quando escuto uma avaliação do gênero, me envaideço. Mas não me iludo. Cada poeta, vivo ou morto, é inigualável. O João Cabral, o próprio Drummond, o Vinicius de Moraes, o Mário Quintana nos transmitiram um legado riquíssimo. São inventores de um universo muito pessoal e insubstituível. Sem mencionar o Murilo Mendes, autor de pérolas tão lindas quanto "A mulher do fim do mundo/ Chama a luz com um assobio".

Poeticamente, você jamais permaneceu num único lugar e sempre procurou a renovação. Em contrapartida, como crítico, acabou recebendo a pecha de conservador, por rejeitar diversas manifestações da arte contemporânea. O rótulo o incomoda?

Não, não me incomoda. Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de "conservador" perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. O filósofo francês Jacques Maritain, católico, afirmava que a arte é "o Céu da razão operativa". Ou melhor: é o ápice do trabalho humano. Arte, portanto, pressupõe o "saber fazer". Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o "saber fazer". Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em consequência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do "novo". Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.

Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?

Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade... Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.

E a crise econômica que o mundo enfrenta atualmente? Não põe o capitalismo em xeque?

Sem dúvida atravessamos um momento delicadíssimo. Mesmo assim, estou convicto de que o capitalismo resistirá. Trata-se apenas de mais uma crise num sistema que vive de crises. Repito: o capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios. O capitalismo, à semelhança da natureza, se desenvolve espontaneamente. Não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como acontecia nos regimes socialistas. Em qualquer canto, há um cara inventando uma empresinha. De repente, no meio deles, aparece um Bill Gates. São multidões em busca de dinheiro! Impossível deter uma engrenagem tão eficiente. Podemos, no máximo, brigar para que as desigualdades geradas pelo capitalismo diminuam. Aliás, convém que briguemos. Não devemos abdicar de um mundo mais justo, ainda que capitalista.

Como você avalia o governo Lula?

Avalio mal. O Lula é um grande pelego. Sabe aquele indivíduo que se infiltra nos sindicatos para amortecer os conflitos entre trabalhadores e patrões? O Lula age exatamente assim. Por um lado, agrada os banqueiros e os empresários. Por outro, corrompe o povão com programas assistencialistas. Posa de líder popular, e a massa o aplaude. Viva o pai dos pobres! Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos...

Em setembro de 2010, você completa 80 anos. Sente-se realizado?

Olha, a vida é uma cesta em que, quanto mais se põe, mais se deseja colocar. Estamos sempre partindo do zero. Hoje pinto um quadro ou termino de ler um livro. Fico satisfeito. Mas, amanhã, me pergunto: e agora?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Receita de Ano Novo (Carlos Drummond de Andrade)


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Patativa, uma homenagem


Patativa, uma homenagem

Por Carla Freitas

Cem anos após o nascimento de Patativa do Assaré, a Universidade Federal do Ceará, nas edições de obras indicadas para o vestibular, homenageia o escritor, lançando uma edição especial da obra ``Cordéis e outros poemas``.

De cunho regionalista, o livro traz textos nos quais há a presença de temáticas sociais bastante recorrentes no dia-a-dia. Autor, também, de ``Inspiração nordestina``, obra principiante desse cearense, nessa ele traz, de maneira concisa, a vida do nordestino, principalmente, além das denúncias que faz à sociedade atual.

Graças à musicalidade, que aprendeu desde a infância, e mesmo com pouca educação, seus textos possuem uma singelidade e um telurismo ricos, que caracterizam seus escritos. Obedece às regras de metrificação e de rimas próprias de cantigas, tornando, assim, sua produção propícia à oralidade.

A universidade cearense já mencionada, graças a sua proposta de estudo e à análise de obras literárias, vem valorizando a literatura regional e, consequentemente, os seus respectivos autores. Vale ressaltar, ainda, que os escritores dos atuais livros indicados são naturais do Ceará.

``Cordéis e outros poemas``, que já, há algum tempo, faz parte das obras utilizadas pela UFC, esse ano, além de servir como exigência aos vestibulandos, tornar-se-á peça fundamental para o reconhecimento desse mestre da cultura popular cearense.

*Carla Freitas - COLEGIO TIRADENTES, PRÉ-VESTIBULAR & MANHÃ
** Texto do Jornal O Povo

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Análise: Poesias de Murilo Mendes


Sobre o autor

Iniciou-se na literatura escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia.
Os livros Poemas (1930), História do Brasil (1932) e Bumba-Meu-Poeta, escrito em 1930, mas só publicado em 1959, na edição da obra completa intitulada Poesias (1925-1955), são claramente modernistas, revelando uma visão humorística da realidade brasileira.

Tempo e Eternidade (1935) marca a conversão de Murilo Mendes ao catolicismo. Nesse livro, os elementos humorísticos diminuem e os valores visuais do texto são acentuados. Foi escrito em colaboração com o poeta Jorge de Lima.

Nos volumes da fase seguinte, Poesia em Pânico (1938), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944) e Mundo Enigma (1945), o poeta apresenta influência cubista, superpondo imagens e fazendo o plástico predominar sobre o discursivo. Poesia Liberdade (1947), como alguns outros livros do poeta, foi escrito sob o impacto da guerra, refletindo a inquietação do autor diante da situação do mundo.

Em 1954, saiu Contemplação de Ouro Preto, em que Murilo Mendes alterou sua linguagem e suas preocupações, reportando-se às velhas cidades mineiras e sua atmosfera. Daí por diante, o poeta lançou-se a novos processos estilísticos, realizando uma poesia de caráter mais rigoroso e despojado, como em Parábola (1946-1952) e Siciliana (1954-1955), publicados em Poesias (1925-1955). As características desse período atingem sua melhor realização no livro Tempo Espanhol (1959). Em 1970, Murilo Mendes publicou Convergência, um livro de poemas vanguardistas. Murilo Mendes também publicou livros de prosa, como O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), livro de memórias, e Poliedro ( 1972). Ao morrer, em Lisboa, deixou inéditas várias obras.



O Menino Experimental - Murilo Mendes

O Menino Experimental é uma antologia da obra de Murilo Mendes (1901, Juiz de Fora, MG/ 1975, Lisboa), poeta que ganhou notoriedade no Segundo Tempo Modernista (1930-45), quando se engajou na famosa Poesia Católica, de caráter espiritualista. No entanto, a obra analisada aqui não enfoca apenas esse lado do autor.

De fato, é-lhe característico o dom e a facilidade com que transita por inúmeras formas e temáticas, num experimentalismo raro em nossa literatura. Contraditoriamente – e aqui está a sua força – toda essa variação gira ao redor dos mesmo elementos.

Já se disse que sua produção, caleidoscópica, não se torna caótica porque reúne suas múltiplas faces em círculos concêntricos.

O primeiro volume a ser analisado é o de sua estréia, Poemas, que engloba textos de 1925 a 1929, ou seja, em plena iconoclastia do Primeiro Tempo Modernista. Note no poema abaixo o encaixe perfeito nos ideários da época.

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Destacam-se, além dos versos brancos e livres, a paródia à tradição romântica, pois o poema inverte o tom de sua matriz, o “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.

Há também o nacionalismo crítico, sintetizado em “Eu morro sufocado/ em terra estrangeira”, em que o poeta relativiza nosso ideário nacionalista – estamos inundados de elementos importados.

Existem também aspectos apoéticos colocados no corpo do poema, como “mas custam cem mil réis a dúzia”. Murilo Mendes mostra-se, nesta obra, fiel aos postulados de Mário e Oswald de Andrade.

Mas o artesão mineiro não foi apenas um epígono, um mero seguidor do que estava na moda.

Soube dar contribuições próprias, principalmente numa tendência intelectual – infelizmente provocador de um prosaísmo nocivo em boa parte de sua produção – que inovou o tecido poético do texto, além da sensualidade explosiva, uma das bases do tripé de seu fazer poético. É o que percebemos no poema abaixo.

AQUARELA

Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,

o mundo parece que nasceu agora,

mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,

talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas

pra namorar o sol, garotos jogam bola.

A baía arfa, esperando repórteres...

Homens distraídos atropelam automóveis,

acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,

meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,

estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos

saídos do banho e pensam longamente na forma

do vestido de noiva: que pena não ter decote!

Arrastarão solenemente a cauda do vestido

até a alcova toda azul, que finura!

A noite grande encherá o espaço

e os corpos decotados se multiplicarão em outros.


Note como o poema é ousado não só nas imagens eróticas, mas na associação que estabelece entre palavras. É de uma beleza estonteante a polissemia realizada no termo “aquarela” e a idéia de umidade, presente em inúmeros momentos.

Tudo sugere tanto a novidade, a inauguração, a festividade, como a sensualidade, numa massa compacta que o poeta vai diluindo diante de nossos olhos, como um aquarelista diluindo em água uma massa compacta de tinta.

A outra obra a ser representada é Bumba-Meu-Poeta (1930), que continuará a usar e valorizar a cultura popular, conforme as regras do Primeiro Tempo Modernista.

No entanto, por meio da redondilha maior o poeta fará girar todo o seu universo pessoal e social, uma oscilação muito comum em sua obra.

Há um aspecto crítico, meio frouxo porque panfletário, sobre a pouca valorização que a sociedade dá ao papel do poeta.

Em seguida há História do Brasil, de 1932, em que, no espírito dos poemas-piadas, todo o nosso passado “célebre” vai ser dessacralizado. Observe-se no poema abaixo transcrito esses aspectos:

DIVISÃO DAS CAPITANIAS

A primeira pros londrinos,

Pra assentarem telefones,

Bondes puxados a burros

Naturais deste país;

Cruzados nos emprestaram

A cinco por cento ao mês.

A segunda aos holandeses,

Pra ensinarem a fazer queijo,

Lidar direito com moinhos

E algumas regras de asseio.

A terceira pros franceses,

Que trouxeram nas fragatas

Muitos vidros de perfume,

Mulheres muito excitantes,

Maneiras finas, distintas

E romances de adultério.

Quem falou francês foi nós.

A quarta foi para os turcos,

Pra vender chitas, miçangas

Na porta das mamelucas.

Compraram a capitania

Em diversas prestações.

(...)


É importante perceber que o passado mistura-se ao presente de forma cômica e iconoclasta, servindo para criticar e explicar o presente.

Em O Visionário (1930-3) Murilo Mendes realiza um enorme salto, abarcando técnicas do Surrealismo (associação insólita entre idéias, como se fosse produto da escrita automática dominada por elementos oníricos ou do subconsciente).

A segunda e a mais famosa base do seu tripé poético estava alcançada. Inicia-se também aqui uma busca desesperada pelo Absoluto, pelo Infinito, pelo Eterno, que desencadeará uma agonia responsável, nas próximas obras, pela visão apocalíptica que derramará sobre o mundo.

Observe-se a beleza plástica inovadora presente em poemas como o seguinte:

METADE PÁSSARO

A mulher do fim do mundo

Dá de comer às roseiras,

Dá de beber às estátuas,

Dá de sonhar aos poetas.



A mulher do fim do mundo

Chama a luz com um assobio,

Faz a virgem virar pedra,

Cura a tempestade,

Desvia o curso dos sonhos,

Escreve cartas ao rio,

Me puxa do sono eterno

Para os seus braços que cantam.


Essa obsessão pelo absoluto desaguará na terceira base do tripé, que é a poesia mística de Tempo e Eternidade (1934), escrito em parceria com Jorge de Lima.

É um momento interessante, pois, se de uma lado sua tendência à prolixidade e prosaísmo vai-se exacerbar, graças à influência dos versículos bíblicos, tão em moda na época, Murilo Mendes vai-se destacar de seu momento ao fazer dessa busca religiosa nada mais do que algo mais ousado: a sondagem da linguagem mística e de seu aspecto mágico e poético. Assim, a força sagrada e encantatória dá beleza a textos como o seguinte:

NOVÍSSIMO JOB

-- Eu fui criado à tua imagem e semelhança.

Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,

Nem a neta de Madalena para me amar,

O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.

Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,

Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,

Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,

E o eco do teu grande grito de abandono:

Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.

Por que não me fizeste morrer pelo gládio de Herodes,

Ou por que não me fizeste morrer no ventre da minha mãe?

Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.

Já me julguei muito antes do teu julgamento.

E já estou salvo porque me deste a poeira por herança.

(...)


Esse livro concentrará o grande problema de Murilo Mendes: suas boas idéias – que são muitas – acabam prejudicadas, diluídas por sua prolixidade.
A solução surgirá graças a seu grande amigo e mestre, Ismael Nery, que lhe aconselha a concisão.

Esse ditame começa a ser observado em Os Quatro Elementos (1935), em que a imagética rica e o estilo enxuto detonarão no poeta uma energia intensa da conciliação e estabilização das contradições que vinha sempre sofrendo.
É quando expõe o barroquismo de seu fazer literário, como no texto abaixo:

ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer

E pelas ondas do ar

A vida e a morte são ligadas pelas flores

E pelos túneis futuros

Deus e o demônio são ligados pelo homem.


Essa tensão de conciliação das contradições acaba explodindo na visão apocalíptica de A Poesia em Pânico (1936-7). Note a força do poema a seguir:

O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.

Os sentidos em alarme gritam:

O demônio tem mais poder que Deus.

Preciso vomitar a vida em sangue

Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.

Passam ao largo os navios celestes

E os lírios do campo têm veneno.

Nem Job na sua desgraça

Estava despido como eu.

Eu vi a criança negar a graça divina

Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos

E a multidão me apontando como o falso profeta.

Espero a tempestade de fogo

Mais do que um sinal de vida.


Ainda assim, esse misticismo não tirará de campo a sensualidade e a idolatria erótica à amada.

Pelo contrário, haverá até momentos em que a imagem da mulher objeto sexual e a mulher depositário do sagrado (repetição do culto à Virgem Maria) estarão unidas numa única figura, como no poema “Igreja Mulher” (“A igreja toda em curvas avança para mim”).

Essa fusão também será encontrada em As Metamorfoses (1938-41), obra em que o delírio surrealista vai-se mostrar como fruto de uma busca incessante pelo Infinito.

É a busca por identidade ou algo que dê sentido à existência. É poesia do conhecimento. Veja como isso se manifesta no poema a seguir:

A MARCHA DA HISTÓRIA

Eu me encontrei no marco do horizonte

Onde as nuvens falam,

Onde os sonhos têm mãos e pés

E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,

Onde o sol recebe a luz da lua,

Onde a música é pão de todo dia

E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,

Onde espadas e granadas

Transformaram-se em charruas,

E onde se fundem verbo e ação.



Estamos próximos da maturidade de Murilo Mendes, já vislumbrada em Mundo Enigma (1942), do qual o poema abaixo atesta sua força imagética, além de ser quase uma súmula da capacidade do poeta:

POEMA BARROCO

Os cavalos da aurora derrubando pianos

Avançam furiosamente pelas portas da noite.

Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,

Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.

O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas

E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias

Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros

Atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer meu sistema de artérias

E saber até que ponto me sinto limitado

Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,

Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,

Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,

E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.

Preciso conhecer os porões de minha miséria,

Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,

Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,

E amordaçar a indefesa e nua castidade.

É então que viro a bela imagem azul-vermelha:

Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,

Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,

Aponta seu coração e também pede auxílio.



Os delírios discursivos parecem atingir, com um tempero barroquista, o máximo do inusitado, sempre na busca do Absoluto, em Poesia Liberdade (1943-5), obra cujo título, já se disse, simboliza o grande objetivo desse artista mineiro.

Um caminho novo é aberto em Sonetos Brancos (1946-8): o uso da rígida forma fixa. Por meio dos seus sonetos, vislumbramos a futura queda na elaboração poética de Murilo Mendes.

Se antes ele pecava por pender só para o conteúdo, melhorou ao conciliar, entre tantos opostos, a forma e o conteúdo. No entanto, a partir da presente obra podemos antecipar o relaxamento, a frouxidão que se resultará na dedicação quase que exclusiva ao outro eixo do discurso: a forma.

Em suma, Murilo Mendes não pode ser extremista – tem de buscar o equilíbrio. Porém, este livro ainda apresenta o vigor do poeta, como abaixo:

O ESPELHO

O céu investe contra o outro céu.

É terrível pensar que a morte está

Não apenas no fim, mas no princípio

Dos elementos vivos da criação.



Um plano superpõe-se a outro plano,

O mundo se balança entre dois galhos,

Ondas de terror que vão e voltam,

Luz amarga filtrando destes cílios.



Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?

Correspondo a um arquétipo ideal.

Signo de futura realidade sou.



A manopla levanta-se pesada,

Atacando a armadura inviolável:

Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.



Observe a constante noção de equilíbrio a ser rompido, a superposição de planos e objetos, os fortes dualismos de sabor barroquista, a busca pelo Absoluto, a sondagem da identidade e a visão apocalíptica.

Em outras palavras, ainda aqui se manifesta o tempero intelectual de Murilo Mendes.

*Fonte: www.vestibuol.com.br

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Análise: Estrela da Vida Inteira (Manuel Bandeira)


A Obra
A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.
(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza - Introdução in Estrela da vida inteira)

Pasárgada: a poesia das coisas mais simples
Quando Manuel Bandeira morreu, em outubro de 1968, um jornal dedicou-lhe a manchete Bandeira, enfim, Pasárgada! em referência ao seu mais conhecido poema - Vou-me embora pra Pasárgada. Neste poema o poeta evoca a vida que poderia ter sido e que não foi, uma espécie de paraíso pessoal, lugar de sonhos e de desejos, em que ele poderia realizar as felicidades mais simples, como andar em burro bravo, subir em pau-de-sebo, andar de bicicleta, tomar banho de mar...

A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples e despojadas já revela um dado biográfico que se transformará em fonte de muitos temas da poesia de Bandeira: a presença da morte, anunciada em plena adolescência, sob a forma de uma tuberculose, doença mortal na época (início do século XX). (...) fui vivendo, morre-não-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, médico-chefe do Sanatório de Clavadel, tentando-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos...

Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerário de Pasárgada)

A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência com sua presença - fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente numa descoberta essencial de vida, numa valorização intensa da existência mais cotidiana, redescoberta como única, irrepetível, insubstituível.

Não é possível separar a experiência de vida da experiência poética do autor de Pasárgada, embora sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - não possa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes de imagens, de emoções, de ritmos, transfigurados na alquimia da criação.

O critico Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, escreve: (...) veremos que a presença do biográfico é ainda poderosa mesmos nos livros de inspiração absolutamente moderna, como Libertinagem, núcleo daquele seu não-me-importismo irônico, e, no fundo, melancólico, que lhe deu uma fisionomia tão cara aos leitores jovens desde 1930.

O adolescente mau curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o carnaval da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigado distanciamento.

A sua obra, escrita ao longo de mais de meio século, atravessa praticamente toda a história do Modernismo no Brasil e apresenta muitos dos mais expressivos livros da poesia moderna, como Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã e outros.

Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi. Poesia, / Minha vida verdadeira.

Nascido na Recife, em 1886, tendo passado a infância principalmente no Rio e no próprio Recife, Manuel Bandeira publica seu primeiro livro de poema em 1917 - A cinza das horas, que será seguido por Carnaval, em 1919, em que apresenta pela primeira vez, versos livres na literatura brasileira. Conhece Mario de Andrade e os modernistas paulistas em 1921.

Não participa diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o seu poema Os sapos, paródia contundente dos parnasianos, provoca um dos momentos de maior escândalo, ao ser lido por Ronald de Carvalho, no Teatro Municipal de São Paulo, no dia 15 de fevereiro: o de maior polemica de toda a Semana.

A partir de então, não é possível pensar a poesia moderna no Brasil sem a presença de Bandeira, que atravessará todas as chamadas fases do Modernismo, com uma produção poética de mais alto nível. Já na fase heróica, de 1922, em que a ruptura com o passado e com as estruturas estabelecidas era a mais vital palavra de ordem, Mário de Andrade chamava o poeta de S. João Batista do Modernismo, reconhecendo o seu papel de anunciador da nova poesia.

Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos, mais comuns, dos momentos que aparentemente são banais e insignificantes. Do dia-a-dia mia desapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da vida.

Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade da essência mais profunda - e mais simples - da vida. O grande milagre da existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como algo intenso, único, irrepetível.

Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais expressivos da língua: grande intensidade, grande condensação, com imensa simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.

... a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatas.

Uma poética de iluminações da existência cotidiana, com a mais expressiva coloquialmente, e com intensa condensação de imagens e ritmos, a obra de Bandeira lembra muitas vezes a criação poética dos haicais japoneses, em que se flagram instante de plenitude, de frágil e plena percepção da vida, concentrada em um detalhe aparentemente banal.

Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa a mais longa convivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem ser dominado pelo desespero, sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações retóricas. Com amadurecida amargura.

Com ironia e auto-ironia, melancólicas. Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vida que poderia ter sido e que não foi e nem será.

Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos, interlocutora secreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada dia, de cada pessoa, de cada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre que não apenas os outros morrem - transformou-se, como em muitas correntes filosóficas, em sabedoria de vida. A importância da existência, de cada um: simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte, também milagre.

Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso pela vida. Uma sensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura melancólica pela infância perdida, e por seus personagens. Ternura ardente pelo corpo. A sua poesia amorosa revela-se como ardente lírica erótica.

Poesia do corpo, de grande intensidade. Os corpos se estendem, as almas não. Imagens eróticas que se tornam experiências sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade, o ardor e a intensidade da ternura. O físico se funde com o onírico, terna e desconcertantemente.

Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis fazedores de versos do modernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica e de ritmo vão desde as mais libertárias experiências de verso livre, dos fluxos mais soltos e irregulares até as estruturas mais tradicionais, de verso em redondilhas da lírica medieval, dos versos decassílabos clássicos e neoclássico e outros combinados com variadas formas fixas de estrófica regular, com sonetos, canções etc.

Um fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro domínio técnico e com grande erudição, capaz de traduzir de varias línguas e de escrever à moda de, imitando estilos os mais diversos, da época e autores.

Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com igual e desconcertante simplicidade. Nas constelações de imagens dos seus poemas percebemos um movimento oposto e complementar: por um lado, o cotidiano parece transfigurado, instante de iluminação, com aura de símbolo transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, o misterioso, o onírico aparecem configurados familiarmente, tornados próximos e confidentes, tornados íntimos do dia-a-dia.

Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais simples e mais despojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta capaz de simplicidade mais essencial e mais expressiva

Literatube: Poema Enjoadinho (Vinícius de Moraes) declamado por Paulo Autran

Análise: Antologia Poética (Vinícius de Moraes)


Antologia Poética

(Vinícius de Moraes)


Análise da obra
Jorge Viana de Moraes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
**Texto extraído de UOL Vestibular


Devido a certas semelhanças, Bach pode nos levar a Vinicius.

Foi em Eisenach, pequena cidade da Turíngia, na Alemanha central, que, em 1685, nasceu Johann Sebastian Bach. Ali passou os primeiros anos de sua infância, iniciou sua escolarização e recebeu as primeiras noções de música, tomando aulas de violino com o pai, Johann Ambrosius Bach - músico da corte municipal -, e de cravo e órgão, com o tio Johann Christoph.

Johann Sebastian era ainda uma criança quando deixou a cidade natal para percorrer os tortuosos caminhos que o levariam à imortalidade...

Quanto ao nosso poeta, foi em 1913, na cidade do Rio de Janeiro, que nasceu, em meio a um forte temporal, Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta (amigo de Olavo Bilac), violonista e cantor de modinhas, que iniciaria Vinicius na música. O tio mais moço, boêmio e seresteiro, também exerceu forte influência sobre ele. Além de sua mãe, Lydia Cruz, e o avô, que eram hábeis pianistas.

Como é possível notar, nascido no seio de uma família de músicos (e de poetas!), Vinicius, tal como Bach, terá forte presença dessa arte superior, que é a música, por toda sua vida.

Além dessas semelhanças, no mínimo curiosas, há algo maior que o liga ao mestre de Eisenach. Dentre os parceiros de Vinicius (...e eles não são poucos. Só para citar os mais conhecidos: irmãos Tapajós, Paulinho Soledade, Vadico, Pixinguinha, Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Villa-Lobos, Chico Buarque, Tom Jobim, Toquinho, etc.), Bach foi o mais inusitado de todos porque, obviamente, já estava morto e jamais tomou conhecimento de tal negócio! Em 1961, a Banda do Corpo de Bombeiros fluminense gravou "Rancho das Flores", marcha-rancho com versos do poeta sobre tema de "Jesus, Alegria dos Homens", do compositor clássico alemão.

Vinicius de Moraes foi diplomata, músico, boêmio, advogado, crítico de cinema e, sobretudo, poeta, que se auto-intitulava o "branco mais preto do Brasil".

Um crítico certa vez disse que Vinicius era um homem plural, e que essa pluralidade era percebida nas várias atividades que o poeta desenvolveu, nos vários amores que teve (seus biógrafos afirmam que teve, oficialmente, 9 mulheres), e no próprio nome: Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes.

Como diplomata, ele residiu em várias capitais do mundo. Além de formado em Direito, foi agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.


O que é uma antologia
Antes de qualquer coisa é preciso definir o que vem a ser "antologia". Antologia significa, etimologicamente, "coletânea de flores"; o termo remete à idéia de escolha, coleção. Sendo assim, antologia é uma coleção de trabalhos literários; neste caso, coleção de trabalhos poéticos.

A importância de se ler uma obra como esta ("Antologia Poética") está no fato de que estamos tendo contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor.


A divisão da obra de Vinicius
A obra poética de Vinícius de Moraes é tradicionalmente dividida pela crítica em três fases distintas.

A primeira inicia-se em 1933 e abrange os livros O caminho para a distância (1933); Forma e exegese (1935); Ariana, a mulher (1936). Nesse período encontramos um poeta místico, que escrevia versos longos, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária. O próprio poeta caracterizou esta fase como "o sentimento do sublime". Na "Advertência" à sua Antologia Poética ele afirmava que "a primeira [fase], transcendental, frequentemente mística, [era] resultante de sua fase cristã".

A segunda fase (ou como se costuma dizer: o segundo Vinicius) tem início em Cinco Elegias, de 1943. O novo tom, a nova linguagem, as novas formas e temas, que vinham desde Novos poemas, de 1933, intensificam-se e diversificam-se nos livros posteriores - Poemas, sonetos e baladas (1946) e Novos poemas II (1959) -, em que se mostram tanto as formas clássicas (soneto de tradição camoniana e shakespeariana) quanto a poesia livre (em "A última elegia", os versos têm forma de serpente). O poeta sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa.

Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo fortemente presentes na primeira, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".

Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza. Compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroshima".

O terceiro Vinicius é o compositor, letrista e cantor. Autor de mais de trezentas músicas (como atesta seu Livro de letras, lançado postumamente, em 1991, onde estão mais de 300 letras de músicas de sua autoria), difundidas pelo mundo com o grande acontecimento cultural e musical que foi a bossa nova. Seus parceiros, como vimos, vão desde Bach a Toquinho.

Embora a crítica fizesse (faça) tal divisão, colocando de um lado o poeta e de outro o showman, Vinicius nunca concordou que houvesse diferença entre seus sambas e seus poemas escritos, pois para ele tudo era igual.


Comentários sobre alguns poemas
Selecionamos alguns poemas representativos da primeira e segunda fase do poeta para uma breve análise. Demos maior ênfase aos sonetos que, como se sabe, é o forte da poesia de Vinícius. Vejamos:

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Rio de Janeiro, 1935



Comentário:
Diz o crítico Carlos Felipe Moisés que este é um dos primeiros poemas em que aparece a tentativa de representar a mulher amada e a experiência amorosa como ponto de encontro entre a transcendência e os apelos terrenos, entre espírito e matéria.

A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada


Comentário:
Numa postura humanista, em que cria figuras com fortes tintas, o poeta canta contra a guerra. Usando o verbo "pensar" no imperativo ("pensem"), "convida-nos" a todos a refletir diante das atrocidades causadas pela guerra; e, principalmente, a causada pelo mais novo rebento gerado pelo ser humano: a bomba atômica. A culpa não é apenas de um indivíduo ou outro. A culpa, a responsabilidade da destruição não é de um país X ou Y, mas de toda a humanidade. O que está em jogo aqui é a própria existência, ou melhor dizendo, a própria sobrevivência humana.


Os sonetos
Ao escrever sonetos, Vinicius de Moraes soma-se à distinta lista de poetas que versejaram em língua portuguesa, tais como Camões, Gregório de Matos, Bocage, Antero de Quental, Olavo Bilac, entre outros, e que escolheram como forma de expressão esta composição poética clássica.

Mas não é só; o motivo de tal escolha diz muito, também, sobre a atitude do poeta diante do fazer poético. O soneto, forma literária clássica fechada, é uma composição de quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos, seguindo variavelmente os seguintes esquemas de rima: abab / abab / ccd / ccd; abba / abba / cde / cde ou abba / abba / cdc / dcd., sendo que o metro mais utilizado tem sido o decassílabo (com acento na 4ª, 7ª e 10ª). Por encerrar o conceito fundamental do poema, o último verso constitui o que chamamos de "fecho de ouro" ou a "chave de ouro".

Tudo isso faz do soneto uma escolha formal lúcida para o poeta. Porque aí se observa a clareza e a concisão de linguagem, de características clássicas. Com ela, o poeta mantém a expressão de um lirismo controlado, ou seja, o sentimento e a emoção líricos contêm-se nos limites do equilíbrio e da harmonia. O poeta procura atenuar os impulsos do "eu", isto é, de sua subjetividade particular, em favor de uma visão impessoal ou objetiva. Daí dizer que nos sonetos existe a luta de um "eu" que ama e um "eu" que raciocina.

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma 1
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do
Highland Patriot, a caminho da
Inglaterra, 09.1938


Comentário:
Este soneto, um dos mais populares de Vinícius, é quase todo composto num jogo antitético, tais como: riso X pranto; calma X vento; triste X contente e próximo X distante. O emprego dessa figura de linguagem, ao longo do poema, revela as mudanças na relação amorosa que se processam de uma forma abrupta e inesperada. O poeta utiliza um outro recurso, num belíssimo arranjo de antíteses, para acentuar o dinamismo que caracteriza o poema: o emprego da forma verbal "Fez-se" e de sua forma contrária "desfez". Esse dinamismo expresso no soneto revela, sob certo aspecto, a própria inconstância na vida amorosa de Vinicius.

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que2 é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Estoril - Portugal, 10.1939


Comentário: Este é um dos mais conhecidos e apreciados sonetos de Vinicius de Moraes. Observam-se nele a clareza e a concisão de linguagem, características clássicas que substituem a tendência alegórica e o derramamento declamatório dominantes na fase inicial do poeta.

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço

De noite ardo A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Nova York, 1950



Comentário:
Segundo Carlos Felipe Moisés (ver bibliografia), a sequência vertical da primeira estrofe manhã-dia-tarde-noite obedece a um encadeamento lógico: a passagem natural do tempo. Tal encadeamento é rompido na linha horizontal, já no primeiro verso ("escureço" se opõe à "manhã") e ganha ambiguidade no quarto, em que "ardo" conota claridade, em oposição ao escuro da noite, mas, sobretudo, ganha passionalidade (arder, ardor de amor). Isso aproxima parcialmente os extremos, dia e noite, e sugere a passagem do tempo como sucessão de contrates, negação de expectativas, em um clima de intenso subjetivismo (1ª pessoa).

Na segunda estrofe, numa atitude de liberdade, de anticonvencionalismo, o eu lírico diz-se guiar pelo "este" e não pelo "norte" como todos fazem. O último verso da última estrofe privilegia o circunstancial (não é "aquilo que" acontece, mas o "momento quando" acontece que realmente importa), valorizando a disponibilidade do instante presente, para que seja intensamente vivido. Observando o aspecto formal do poema, parece haver ali um soneto renovado. Isso confirma a valorização da liberdade e do individualismo, da insubordinação e da disponibilidade, também para o ato de criação poética.


Curiosidade
Na saída de um show em Portugal, diante de estudantes salazaristas que protestavam contra ele na porta do teatro, Vinicius declama os versos de "Poética" (De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo). Um dos jovens tirou a capa do seu traje acadêmico e a colocou no chão para que Vinicius pudesse passar sobre ela - ato imitado pelos outros estudantes e que, em Portugal, é uma forma tradicional de homenagem acadêmica.

*Jorge Viana de Moraes é mestre em Letras pela Universidade de São Paulo. Atua como professor em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Haikais em forma de twitter e saraus celebram Leminski


Artistas vão interagir com o público criando "twitcais" em tempo real e público será convidado a fazer o mesmo

Fonte: O Estado de S. Paulo


Em julho, o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski, o jornalista, poeta e cantor Ademir Assunção, esteve em Curitiba, acompanhado do cenógrafo da exibição, o fotógrafo Miguel Paladino. Foi pesquisar nos "baús" do autor, 18 caixas mantidas no centro da capital paranaense por uma das filhas do artista, Áurea Leminski, com cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, livros, fotografias e até carteirinha de clube.


"Se perguntarem a alguém o nome de um escritor curitibano, certamente os mais citados serão Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Mas não há na cidade uma única instituição, um único centro cultural destinado à divulgação da obra de Leminski", admira-se Assunção.



A tarefa de fazer circular o legado leminskiano fica por conta dos esforços da família. A filha Áurea Leminski, de 38 anos, é mãe de Lorena, 5 anos (o poeta tem outro neto, Leon, filho de Estrela, de 28 anos). Ela acha que o pai "aos poucos se torna mais um mito ou um personagem, e não se renova o interesse pela obra dele, o que é fundamental". Ela tenta organizar e disponibilizar virtualmente o acervo do poeta em Curitiba, mas ainda não encontrou interessados em financiar ou participar de tal projeto. "Eu estou muito preocupada agora com a formatação disso, o jeito como tudo será disponibilizado. Não há ainda um custo, um orçamento", explicou Áurea.



"É claro que a poesia nunca atingiu a grande massa. A fama do meu pai se deu muito mais por meio da música, da inclusão de uma canção numa novela da Globo. O interesse, no entanto, persiste, tem muito estudante que procura a gente para obter informações. Não seria correto dizer que ele está esquecido."



Cantora, baterista e compositora, Estrela Ruiz Leminski vai cantar na quarta-feira, na abertura da exposição no Itaú Cultural - ela integra as bandas Dona Zica, Casca de Nós e Trash pour 4. Os shows musicais terão as participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil. Durante a "ocupação", escritores como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, vão interagir com o público criando em tempo real uma série de "twitcais" (haicais em forma de mensagem do twitter), e o público será convidado a fazer o mesmo.



Leminski teria 65 anos. Experimentar era seu credo. "A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco... só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colmeias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?", diz trecho do seu livro Catatau.



A poeta Alice Ruiz (que foi casada com o escritor durante 20 anos, deu-lhe três filhos e foi parceira em boa parte da sua obra) divertiu-se ao imaginar como seria se o poeta fosse confrontando com as novas mídias sociais e tecnologia. Ela e Leminski chegaram a trabalhar com o artista visual Julio Plaza, mas considera o experimento apenas um trabalho "à parte" na obra de Plaza, e não uma experiência particular sua.



"É muito difícil pensar nisso (Leminski no Twitter). Ele nem chegou perto do computador, fazia em máquina de escrever. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Não sei se faria poemas na internet, não sei responder a essa questão, mas desconfio que não. Acho que ele preferiria criar do jeito tradicional e passar para alguém processá-los."



A "pilhagem" que os curadores fizeram nas caixas de Leminski, minuciosa e respeitosa, revelou preciosidades que deixaram até os pesquisadores boquiabertos. "Em uma dessas pastas encontrei um caderno espiral, daqueles de estudante, com nada menos que os manuscritos do Catatau. Quando abri esse caderno e vi a letra de Paulo Leminski e comecei a ler e saquei a gênese desse que é um dos livros mais geniais da literatura brasileira, fiquei emocionado pra caramba. Mais de 30 anos depois, eu tinha a oportunidade de ler a gênese do Catatau!", admira-se Assunção.



"Mas não tinha nada perdido lá. Tava tudo muito bem guardadinho", ressalta Alice Ruiz, responsável pelo armazenamento dos documentos após a morte do artista. Nada do que foi garimpado será publicado, o seu uso será apenas visual, para dar uma ideia do processo de criação do autor. Alice pensa da seguinte forma: se Leminski não publicou, é porque tinha plena certeza de que não queria aquilo publicado.



Ter acesso aos inéditos garimpados, de qualquer forma, é um saboroso exercício: "feliz/ macaco do passeio público/ nas tardes de domingo/ os guris / jogam pipocas/ a mão dos pais/ pinga esmolas/ na pata dos mendigos."



"Leminski é a síntese de um poeta e intelectual que sofreu o impacto das rebeliões, de linguagem e comportamentais, da contracultura, do rock’n’roll, da Segunda Guerra Mundial, da comunicação de massas, de um lado, mas também com uma forte erudição, o domínio de várias línguas, o conhecimento profundo do zen-budismo, a prática de artes marciais. Na minha visão, ele não é somente o resultado disso tudo, mas a síntese e ao mesmo tempo a atuação crítica no cenário contemporâneo", diz Ademir Assunção.



Obras Fundamentais



POESIA

Polonaises. Ed. do Autor, 1980

Não Fosse Isso e Era Menos/ Não Fosse Tanto e Era Quase. Zap, 1980

Tripas. Ed. do Autor, 1980

Caprichos e Relaxos. Brasiliense, 1983

Hai Tropikais. Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985

Um Milhão de Coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985

Caprichos e Relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987

Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987

La Vie en Close. Brasiliense, 1991 (reimpresso em 1999)

Winterverno. Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2.ª edição Editora Iluminuras, 2001)

O Ex-Estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996



PROSA

Catatau. Curitiba, Ed. do Autor, 1975

Agora É Que São Elas. São Paulo, Brasiliense, 1984

Gozo Fabuloso. São Paulo, Editora DBA, 2004

Biografias: Paulo Leminski


Filho de pai polonês e mãe negra, Leminski amou a linguagem

'Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude', escreveu no fim da vida

Paulo Leminski consumiu-se velozmente em sua trajetória, confundindo às vezes sua vida e sua obra. "De colchão em colchão/descubro - minha casa é no chão", escreveu, num haicai melancólico sobre sua derradeira condição, a de alcoólatra em queda vertiginosa.


Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba (PR), filho de pai polonês e mãe negra, foi um erudito com alma de boêmio. Começou cedo: em 1964, teve poemas publicados na revista de poesia concreta Invenção. De 1970 a 1989, trabalhou como publicitário, professor de cursinho, jornalista, tradutor.



Compositor, teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela banda A Cor do Som, além de uma dezena de parceiros. Em 1975 publicou o romance experimental Catatau e foi tradutor de obras de James Joyce, John Lennon, Samuel Beckett, Alfred Jarry, além de haicais de Bashô. Colaborou com o jornal Folha de S. Paulo e com a revista Veja.



Leminski passou a vida dedicado à poesia e à escrita. Aprendeu diversas línguas, segundo dizia, para se tornar um poeta cada vez melhor. Morreu no dia 7 de junho de 1989, em sua terra natal. Até hoje, a sua obra influencia jovens poetas e todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema Sintonia para Pressa e Presságio foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.



Leminski teve um fim melancólico. Morreu aos 44 anos de cirrose. Cheio de energia e vitalidade no seu auge, era evitado até por antigos amigos no final. "Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar." Num bilhete deixado para os posteriores, falou de seu sentimento em relação a esse desapego ao mundo. "Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude."

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Flor e a Náusea (Carlos Drummond de Andrade)

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade ganha site oficial


Um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade completa 25 anos no catálogo da Editora Record em 2009. Para homenagear o homem que libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra, a editora acaba de lançar o site oficial do autor www.carlosdrummonddeandrade.com.br , com informações sobre sua vida e obra.

Com uma ampla obra que transita entre a poesia e o conto, Drummond escreveu incansavelmente até o fim de sua vida. Uma mente tão criativa e produtiva que, mesmo depois de sua morte, ainda foram lançados diversos materiais inéditos de sua autoria. O site traz uma lista completa de livros do autor publicados pela Editora Record, além de fotos e vídeos de Drummond em momentos de cotidiana beleza ou apaixonadas homenagens, feitas por aqueles que admiram sua obra. Atualizado semanalmente, o site contará ainda com poesias, contos e algumas curiosidades, como fotos pessoais e manuscritos, fornecidos por Pedro Drummond, neto do autor.

Outra novidade é a Rádio Drummond, que apresenta alguns de seus principais poemas musicados. Em breve, entrarão no ar também entrevistas e trechos de poesias declamados pelo próprio Drummond. Os leitores podem baixar no site papéis de parede com imagens do autor e participar de promoções quinzenais, nas quais serão premiados com livros do escritor.


Fonte: O Globo

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Relançamento valoriza a loucura lúcida de Mario Quintana


A poesia de Mario Quintana (1906-1994) sempre representou um mistério para os especialistas - apesar de complexa, sua obra exibe uma simplicidade estética que a torna muito popular. Com a disposição de elucidar (ou, ao menos, apontar caminhos) esse enigma, a coleção dos "Cadernos de Literatura Brasileira" ganha uma nova edição, a 25ª de sua história, dedicada ao poeta que gostava de espalhar relatos de sua vida ao longo dos textos, que tanto retratavam seu mundo interior como investigavam sua própria trajetória.

"A simples existência dessa lírica - que concilia (e por isso desconcerta) a retomada da tradição do soneto e a invenção de gêneros próprios com igual excelência - já seria razão suficiente para incluir o escritor gaúcho no repertório dos Cadernos", anuncia o texto de apresentação do volume (156 páginas, R$ 60). Como de hábito, a edição vem recheada de depoimentos de pessoas que conviveram com Quintana, além de manuscritos e inéditos e o ensaio fotográfico de Edu Simões, que busca retratar os contrastes entre Alegrete, a cidade do poeta, e Porto Alegre, a capital que o abrigou até a morte.

Autor de uma obra heterogênea, mas marcada por uma precisa unidade, Quintana tornou-se quase um desconhecido para as novas gerações de leitores, uma vez que seus livros acabaram esgotados. A falha só começou a ser reparada em 2006, quando a editora Globo iniciou a reedição de seus livros por conta do centenário de nascimento. Uma boa oportunidade para se observar a poesia de Quintana, marcada por um romantismo tardio e um simbolismo que faz a ponte para a modernidade.

É sobre esse tema que se debruça o jornalista e escritor Antonio Hohlfeldt em seu ensaio: "Entre a memorialística cidadezinha interiorana e antiga, duplamente distante no tempo e no espaço, e a contraditória e agressiva cidade atual de novas formas arquitetônicas, Mario Quintana reconstrói e valoriza os espaços livres que a real Porto Alegre lhe permitiu e assim idealiza uma cidade utópica."

As frases cunhadas por Quintana, no entanto, que o tornaram famoso e querido, ocupam um espaço especial no volume, que relembra belas tiradas como "a diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco... Porque a poesia é uma loucura lúcida".


Fonte:
Agência Estado

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"O Supremo Castigo" (Mário Quintana)



"Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe - quem é que não viu? - aquele cartaz... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio - até que uma dia também tenham os seus próprios arqueólogos - estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra.

E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!"

domingo, 9 de agosto de 2009

Dia dos Pais: As mãos do meu pai (Mário Quintana)


As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

(Mario Quintana)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poesia Brasileira: A Idéia (Augusto dos Anjos)


A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Resumos e Análises: Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos


A obra Eu, único livro de Augusto dos Anjos, foi editada pela primeira vez em 1912. Outras Poesias acrescentaram-se às edições posteriores. Na primeira edição, a capa branca exibia o título com grandes e vermelhas maiúsculas impressas no centro. No alto, as letras pretas com o nome do autor e, em baixo, cidade, Rio de Janeiro, e data, 1912. Falecido o poeta em 1914, Órris Soares reuniu à coletânea original (Eu) a produção recente de Augusto dos Anjos, incluindo mesmo um poema inacabado, A Meretriz. A Imprensa Oficial do Estado da Paraíba editou, em 1920, Eu e Outras Poesias, prefaciado pelo organizador. Augusto dos Anjos assombrou a elite letrada do país com seus versos que não eram parnasianos, nem antecipavam o modernismo. Eram apenas seus. E tamanha era a putrefação que seus versos representavam que, ainda hoje, ele é inclassificável em uma escola, e admirado como um poeta original. Considerado pelo público e pela critica, habituados á elegância parnasiana, um livro de mau gosto, malcriado, alguns dos poemas de Eu são vistos como os mais estranhos de toda a nossa literatura, por vários motivos. Dentre eles, ressaltamos o vocabulário pouco comum, repleto de palavras com forte carga cientificista; a multiplicidade de influências literárias que recebe, tornando difícil, se não impossível, sua classificação estilística e principalmente o desespero radical com que tematiza o fim de todas as ilusões românticas, a fatalidade da morte como apodrecimento inexorável do corpo, a visão do cosmos em seu processo irreversível de demolição de valores e sonhos humanos.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


A obra surgida em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativa do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do Eu um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma.

Em outras palavras, considerando a produção literária desse poeta, pode-se dizer que traduz sua objetividade pessimista em relação ao homem e ao cosmos, por meio de um vocabulário técnico-científico-poético.

Transformado em catecismo pelos pessimistas e em bíblia dos azarados e malditos, o livro Eu é de uma instigante popularidade, resistente a todos os modismo, impermeável às retaliações da crítica e aos vermes do tempo. Foi o poeta mais original de nossa literatura.

As leitura precoces de Darwin, Haeckel, Lamarck e outros, feitas na biblioteca de seu pai, fundamentaram a postura existencial do poeta; a adesão ao Evolucionismo de Darwin e Spencer e a angústia funda, leta, ante a fatalidade que arrasta toda a carne para a decomposição. Fundem-se a visão cósmica e o desespero radical, produzindo uma poesia violenta e nova na língua portuguesa. Temos, portanto, em Eu e outras poesias, além da linguagem científica e extravagante, a temática do vazio da coisas (o nada) e a morte (finitude da vida) em seus estágios mais degradados: a putrefação, a decomposição da matéria. Simultaneamente, reflete em seus versos a profunda melancolia, a descrença e o pessimismo frente ao ser e à sociedade, elaborando, assim, uma poesia de negação: nega as falsas ideologias, a corrupção, os amores fúteis e as paixões transitórias:

"Melancolia! Estende-me a tua asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!"

O asco ao prazer é expresso de maneira contundente; a relação entre os sexos é apenas "a matilha espantada dos instintos" ou "parodiando saraus cínicos, / bilhões de centrossomos apolínicos / na câmara promíscua do vitellus." Reduzindo o amor humano à cega e torpe luta da células, cujo fim é senão criar um projeto de cadáver, o poeta aspira à imortalidade gélida, mas luminosa, de outros mundos onde não lateje a vida-instinto, a vida-carne, a vida-corrupção.

Augusto dos Anjos vale-se muitas vezes de técnicas expressionistas na montagem de seus textos. O Expressionismo, corrente estética Modernismo, representou uma reação contra o Impressionismo, contra o gosto pela nuance, contra o refinamento e sutileza na captação do momento.

A imagem é intencionalmente deformada e agrupada de maneira desconcertante, através da transfiguração da realidade. Em lugar da delicadeza e da suavidade, a imagem é deformada, por meio de um desenho violento, que acentua e barbariza a forma, aproximando-se, às vezes, do grotesco e da caricatura.

Daí o “mau gosto”, o “apoético" que, em Augusto dos Anjos, são convertidos em poesia. O jargão científico e o termo técnico, tradicionalmente prosaicos, não devem ser abstraídos de um contexto que os exige e os justifica. Fazia-se mister uma simbiose de termos que definissem toda a estrutura da vida (vocabulário físico, químico e biológico) e termos que exprimem o asco e o horror ante a existência.

Apoiando-se em hipérboles e paradoxos, e na exploração de efeitos sonoros, Augusto dos Anjos funde a inflexão simbolista e a retórica científica, criando uma dicção singular, que projeta a hipersensibilidade e a visão trágica e mórbida da existência.

*do portal Passeiweb

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Poema Escolhido


Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vida e obra do poeta Manoel de Barros é tema de "Só Dez Por Cento É Mentira"


Depois de um longo percurso por mostras e festivais do país, como o Festival do Rio, a Mostra de São Paulo, o É Tudo Verdade a Flip, o documentário "Só dez por cento é mentira", de Pedro Cezar, foi exibido na noite desta terça no 2º Festival de Paulínia. O filme, que tem estreia prevista para setembro, foi um dos mais aplaudidos pelo público na competição de documentários.


O poeta Manoel de Barros é retratado no documentário "Só Dez Por Cento É Mentira"
No começo da projeção, um susto: a imagem sumiu da tela, deixando o público apenas com o áudio por alguns minutos. O problema foi resolvido rapidamente e o filme recomeçou de um ponto anterior ao problema. Foi um pequeno e pouco comprometedor incidente na projeção do Teatro Municipal de Paulínia, cuja qualidade tem sido elogiada quase todas as noites pelos realizadores dos filmes em competição.

"Só dez por cento é mentira" investiga um pouco da vida e muito da obra do escritor sul-mato-grossense Manoel de Barros, o poeta que mais vende livros no Brasil. Avesso a entrevistas, Barros conversou com o diretor Pedro Cezar em quatro oportunidades diferentes. No documentário também estão os depoimentos de artistas envolvidos de alguma forma com o trabalho do poeta, familiares e até mesmo depoimentos ficcionais, no espírito do próprio Manoel de Barros, que escreve: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".

Cezar disse que sua ideia inicial era estrear o filme no aniversário de 90 anos do poeta, mas se deu conta de que seu material resultaria em um filme muito discursivo. "Tinha muita falação. Durante dois anos paramos tudo e fomos vamos buscar o universo visual da poesia de Manoel de Barros", disse o diretor, que citou o próprio autor: "As imagens são palavras que nos faltaram".

Uma das soluções encontradas pelo diretor foi mostrar na tela as poesias curtas de Manoel de Barros. "A partir do momento em que a gente deixa um verso escrito na tela, a gente também está usando imagem", disse Cezar, que se surpreendeu com a recepção que seu filme teve no festival de Paulínia: "Fiquei impressionado com o público reagindo com o texto, dando risada com os versos. Foi uma reação parecida com a da Flip, de um povo que gosta de literatura", comentou.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Resumos e Análises: Marília de Dirceu (Tomás Antonio Gonzaga)

‘MARÍLIA DE DIRCEU’

Obra representativa do Setecentismo brasileiro, a obra Marília de Dirceu deve ser analisada em sua complexidade, levando-se em conta a sua inserção no Arcadismo (estética racional e permeada por convencionalismos) e, ao mesmo tempo, sua relação com as experiências amorosas e políticas do autor que conferem caráter subjetivo (Pré-Romântico) ao texto.

Aspectos biográficos – reflexos da vida do poeta em sua obra

Quando concebeu as primeiras liras de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu é seu pseudônimo), então com aproximadamente 40 anos, vivia no Brasil e gozava de estabilidade econômica, pois ocupava um alto cargo judiciário. Nesse contexto, apaixona-se por Maria Dorotéia (a quem cabe o pseudônimo Marília), adolescente com pouco mais de 17 anos. Porém, o envolvimento com a Inconfidência Mineira, somado à relação tumultuada que tinha com as autoridades locais (Luís da Cunha Meneses, o governador satirizado em Cartas Chilenas) leva Gonzaga à prisão e, posteriormente ao exílio em Moçambique.
A interferência desses fatos no poema em estudo fica evidente. Como vamos ver em seguida, há uma grande diferença entre o equilíbrio objetivo da primeira parte e o sentimentalismo melancólico do segundo momento da obra.
Estrutura - A obra se divide em 3 partes:

 Primeira parte (1792) – Composta por 33 liras, mostra o poeta apaixonado, otimista, fazendo planos para uma vida conjugal harmoniosa. Aqui se revelam com mais intensidade as tradições árcades.
 Segunda parte (1799) – Composta por 38 liras, revela um homem angustiado, envelhecendo e, sobretudo, sentindo-se injustiçado na prisão, longe de sua amada. Com a vazão aos sentimentos do poeta, podemos afirmar o caráter Pré-Romântico da obra.
 Terceira parte (1812) – É uma coletânea de textos. Envolve 8 liras que não figuraram nas partes anteriores da obra, e textos que teriam sido escritos antes do envolvimento amoroso com Maria Dorotéia (1 canção, 15 sonetos e 1 ode).

RESUMO E ANÁLISE DE MARÍLIA DE DIRCEU

Primeira parte – Convencionalismo amoroso

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!


O poeta, dirigindo-se à Marília, se apresenta exaltando qualidades que o fariam digno do amor da donzela: sua condição social, seu aspecto físico e suas habilidades. Isso é feito em um cenário típico do Arcadismo: a atmosfera bucólica, o ideal de vida simples, pastoril.

Lira 2


Pintam, Marília, os Poetas
A um menino vendado,
Com uma aljava de setas,
Arco empunhado na mão;
Ligeiras asas nos ombros,
O tenro corpo despido,
E de Amor, ou de Cupido
São os nomes, que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego,
Que assim seja Amor; pois ele
Nem é moço, nem é cego,
Nem setas, nem asas tem.
Ora pois, eu vou formar-lhe
Um retrato mais perfeito,
Que ele já feriu meu peito;
Por isso o conheço bem.[...]


Uma característica árcade é o uso de alusões mitológicas, que retomam a Antiguidade Clássica. Aqui, o poeta personifica o amor na figura do cupido. A seguir o poeta faz uma detalhada descrição física de Marília e arremata:

Tu, Marília, agora vendo
De Amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo,
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto,
Que ele foi quem me venceu.



Quanto à descrição física de Marília, observe:

Os teus cabelos são uns fios d'ouro;
(Lira 1)


Os seus compridos cabelos,
Que sobre as costas ondeiam,
São que os de Apolo mais belos;
Mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;

(Lira 2)

Surpreso? Nesse trecho evidencia-se o convencionalismo amoroso. Contrasta a Marília ‘real’, menina brasileira de olhos e cabelos escuros com a beleza européia que se costumava cantar, imitando os precursores do estilo Neoclássico.

Lira 14
Minha bela Marília, tudo passa;
A sorte deste mundo é mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
[...]
Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.


O poeta reflete sobre a passagem do tempo e propõe à Marília que aproveitem o momento presente. Trata-se da versão neoclássica do Carpe diem, tema já explorado pelo barroco.

Lira 22
Tu não habitarás palácios grande,
Nem andarás no coches voadores;
Porém terás um Vate, que te preze,
Que cante os teus louvores.
O tempo não respeita a formosura;
E da pálida morte a mão tirana
Arrasa os edifícios dos Augustos,
E arrasa a vil choupana.
Que belezas, Marília, floresceram,
De quem nem sequer temos a memória!
Só podem conservar um nome eterno
Os versos, ou a história.


Nesse trecho o poeta evidencia sua concepção de indivíduo ilustrado. Reafirma o ideal de vida simples e prefere ao poder e à riqueza, a glória de eternizar em versos a beleza de Marília.
Essa idéia é ratificada na lira 27, em que o poeta se considera verdadeiro herói por ter conquistado sua musa.

O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói pobre,
Como o maior Augusto.
Eu é que sou herói, Marília bela,
Segundo da virtude a honrosa estrada:
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! não manchei a espada,
Não roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro
Uns tão ditosos laços.


Para finalizar, na lira 33 o poeta pede a seu amigo Glauceste (Cláudio Manuel da Costa) que cante e pinte a figura de Marília.

Pega na lira sonora,
Pega, meu caro Glauceste;
E ferindo as cordas de ouro,
Mostra aos rústicos Pastores
A formosura celeste
De Marília, meus amores.
Ah! pinta, pinta
A minha Bela!
E em nada a cópia
Se afaste dela.



Segunda parte – Vazão aos sentimentos
(Tendências Pré-Romanticas)


Lira 1

Já não cinjo de louro a minha testa;
Nem sonoras canções o Deus me inspira:
Ah! que nem me resta
Uma já quebrada,
Mal sonora Lira!
[...]
Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora
Teu retrato fizeram, e tão forte,
Que entendo, que agora
Só pode apagá-lo
O pulso da Morte.


Aqui encontramos Dirceu enclausurado, deprimido, sem inspiração. Permanece, porém a lembrança de Marília, que só se apagará com a morte.
Na lira 2, o poeta reclama das injustiças às quais foi submetido e arremata com a célebre passagem:

Eu tenho um coração maior que o mundo!
Tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração..., e basta,
Onde tu mesma cabes.


Na lira 3 o poeta angustiado reflete sobre as constantes mudanças da vida e pergunta a Marília por que a sua sorte não muda. Na lira seguinte passa a admitir a mudança do envelhecimento.

Lira 3
Sucede, Marília bela,
À medonha noite o dia;
A estação chuvosa e fria
À quente seca estação.
Muda-se a sorte dos tempos;
Só a minha sorte não?


Lira 4
Já, já me vai, Marília, branquejando
Louro cabelo, que circula a testa;
Este mesmo, que alveja, vai caindo
E pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas cores,
E vão-se sobre os ossos enrugando,
Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
Tudo se vai mudando.


Na lira 12 o poeta não admite a idéia de que sua amada sofra.

Lira 12
Ah! Marília, que tormento
Não tens de sentir saudosa!
[...]
Quando levares, Marília,
Teu ledo rebanho ao prado,
Tu dirás: “Aqui trazia
“Dirceu também o seu gado.”
Verás os sítios ditosos
Onde, Marília, te dava
Doces beijos amorosos
Nos dedos da branca mão.
Mandarás aos surdos Deuses
Novos suspiros em vão.
[...]


Aqui observamos também uma característica constante dessa segunda parte: o contraste entre o passado feliz e a tristeza do presente. A lira 15 é ainda mais elucidativa nesse sentido, pois resgata os versos de abertura da primeira parte:

Lira 15

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
Vestia finas lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
De mor rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabelos
Ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo
Além de um puro amor, de um são desejo.


A seguir, Dirceu ainda se revela esperançoso:

Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo;
Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de um bom rebanho


Entretanto, na lira 20 transparece a insegurança:

Se me viras com teus olhos
Nesta masmorra metido,
De mil idéias funestas,
E cuidados combatido,
Qual seria, ó minha Bela,
Qual seria o teu pesar?


Na lira 33 revelam-se a indignação, o estado físico e a preocupação com a defesa da honra.

Mas vivo neste mundo, ó sorte impia,
E dele só me mostra a estreita fresta
O quando é noite, ou dia.
Olhos baços, e sumidos,
Macilento, e descarnado,
Barba crescida, e hirsuta,
Cabelo desgrenhado;
Ah! que imagem tão digna de piedade!
Mas é, minha Marília, como vive
Um réu de Majestade.
[...]
Tu, Marília, se ouvires,
Que ante o teu rosto aflito
O meu nome se ultraja
C’o suposto delito,
Dize severa assim em meu abono:
“Não toma as armas contra um Cetro justo
“Alma digna de um trono.”


Terceira parte
Como já constatamos, trata-se de uma publicação confusa, irregular e, portanto, de menor valor. Ressalvamos, porém, a antológica lira 3, onde o poeta rompe com a condição ideal de pastor, assumindo sua verdadeira condição social e imaginando a vida conjugal com Marília.

Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
No fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,
E decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
E os cantos da poesia.
Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.