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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Entenda por que o cordel tornou-se a poesia popular brasileira



da Livraria da Folha

Primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos

Como classificar as modalidades de versos na literatura de cordel? Surpreende-se quem pensa que os mais conhecidos são somente os dos brasileiros Patativa do Assaré, Ariano Suassuna, Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Roberto Câmara Benjamin e Carlos Alberto Azevedo. O francês Robert Mandrou e o espanhol Julio Caro Baroja também possuem escritos com raízes cordelistas profundas e difusas. Porém, os versos orais dos repentistas são aqueles que imperam nas estrofes.

A literatura de cordel brasileira possui origens portuguesas. Instalou-se primeiro em Salvador por meio dos colonizadores. De lá, irradiou-se para os demais estados do Nordeste. Por volta de 1750, os primeiros versos orais apareceram e o cordel tornou-se a poesia popular brasileira.

Atualmente, as estrofes são compostas por versos de quatro ou cinco sílabas até alexandrinos, de 12. Os cordelistas contemporâneos primam pela uniformização ortográfica e rítmica de seus escritos.

Conheça abaixo um panorama das modalidades de versos que foram desenvolvidas em cerca de 260 anos de história de literatura de cordel no Brasil.

*

1. A literatura de cordel oral no Brasil foi precursora da escrita. Os primeiros cordelistas não tinham compromisso com a métrica e com o número de versos. As disparidades residiam na brevidade ou no alongamento das estrofes. Porém, o entrave de palavras já era delineado --o interlocutor rimava a última palavra do seu verso com a última do parceiro.

2. Conhecida como "parcela" ou verso de quatro sílabas é a forma mais curta da literatura de cordel. A palavra não pode ser longa por conta do sentido e dos limites da métrica. A "parcela" --hoje em desuso-- tinha o objetivo de confundir o oponente nos combates poéticos. Não se tem indícios de sua autoria.

3. A parcela de cinco versos é recente. Também era cantada em ritmo acelerado e exigia uma rapidez de raciocínio do repentista. Tanto os versos de quatro quanto os de cinco surgiram quase um século depois das primeiras manifestações que continham quatro versos de sete sílabas.

4. A sextilha origina-se dos quatro versos de sete sílabas, acrescida de mais duas linhas. Indicada para os longos poemas romanceados, é a forma de cordel atual mais completa. Sua presença faz-se obrigatória no início de qualquer embate poético, em longas narrativas, e sátiras políticas e sociais. Apresenta cinco estilos: aberto, fechado, solto, corrido e desencontrado.

5. Já as setilhas --estrofes de sete versos de sete sílabas-- são indicadas para ser cantadas em reuniões festivas e em feiras.

6. "Oito Pés de Esquadrão" ou oitavas são compostas por estrofes de oito versos de sete sílabas. Há dois tipos: a de cunho popular e a clássica. O que difere ambas é a rima.

7. Com dez versos de sete sílabas, as décimas são as mais usadas pelos poetas e repentistas. São indicadas para delinear motes narrativos.

8. Criado pelo prof. Jaime Pedro Martelo, o "Martelo Agalopado" --estrofe de dez versos de dez sílabas-- é uma das modalidades mais antigas na literatura de cordel. As martelianas alongavam-se com rimas pares, até completar o sentido desejado. O estilo começou a ser esquecido a partir do desaparecimento do professor, em 1727. Foi retomado em 1898 pelo cordelista José Galdino da Silva. Há também o martelo de seis versos, que é mais refinado.

9. O chamado "Galope à Beira-Mar", com versos de onze sílabas, é mais longo que as martelianas. Já o "Galope Alagoano", que contém dez versos de dez sílabas, tem obrigatoriamente um mote.

10. A "Meia Quadra" ou versos de quinze sílabas possui rimas emparelhadas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Lygia Fagundes Telles recebe hoje prêmio de intelectual do ano

A escritora Lygia Fagundes Telles foi escolhida a intelectual do ano e recebe hoje o Troféu Juca Pato.

O prêmio existe desde 1963 e é concedido pela UBE (União Brasileira de Escritores). Será entregue pelo crítico literário Antonio Candido, vencedor no ano passado, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

O evento é aberto somente para associados da entidade.

Trajetória

Lygia Fagundes Telles nasceu e vive em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou ainda na adolescência o seu primeiro livro de contos, "Porão e Sobrado" (1938). Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o prêmio Camões, o mais importante da literatura portuguesa.

Fonte: Folha de S. Paulo

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Conheça os contos de Clarice Lispector preferidos por 22 personalidades


*da Livraria da Folha

O livro "Clarice na Cabeceira", lançamento da editora Rocco, traz 22 personalidades indicando e comentando contos de Clarice Lispector --cada um é acompanhado de um texto onde famosos revelam o quanto as palavras da escritora têm repercutido em suas vidas. Em seguida, há a íntegra do conto recomendado.

"Escrevi livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe", disse certa vez a autora.


Livro seleciona 22 contos indicados por leitores fãs de Clarice Lispector
Entre os títulos de Lispector mais citados, estão "A Via Crucis do Corpo", que a revista "Veja" chamou na época do lançamento de "lixo" e "lançamento inútil", como conta o jornalista Benjamin Moser na biografia "Clarice," (Cosac Naify).

Também são lembrados "Laços de Família", "A Legião Estrangeira", "A Bela e a Fera" e "Onde Estivestes de Noite". O livro foi organizado por Teresa Montero, doutora em letras pela PUC-RJ e autora de "Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector" (Rocco). A editora doou uma coleção de obras completas de Lispector para cada uma das bibliotecas indicadas pelos leitores convidados.

Confira as recomendações citadas no livro, em ordem alfabética dos leitores que participaram do projeto.

Adriana Falcão

Conto: Ruído de passos (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Adriana Lisboa

Conto: Menino a bico de pena (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Affonso Romano de Sant'Anna

Conto: Amor (do livro "Laços de Família")

-
Artur Xexéo

Conto: A Fuga (do livro "A Bela e A Fera")

-
Benjamin Moser

Conto: A procura de uma dignidade (do livro "Laços de Família")

-
Beth Goulart

Conto: Perdoando Deus (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Carla Camurati

Conto: Ele me bebeu (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Carlos Mendes de Sousa

Conto: O crime do professor de matemática ("do livro "Laços de Família")

-
Claire Williams

Conto: O ovo e a galinha (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Cora Rónai

Conto: A repartição dos pães (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Fernanda Takai

Conto: A língua do "p" (do livro "A Via Crucis do Corpo")

-
Fernanda Torres

Conto: A quinta história (do livro "A Legião Estrangeira")

-
José Castello

Conto: O relatório da coisa (do livro " Onde estivestes de noite")

-
Letícia Spiller

Conto: A bela e a fera ou a ferida grande demais (do livro "A Bela e a Fera")

-
Luis Fernando Verissimo

Conto: A menor mulher do mundo (do livro "Laços de Família")

-
Luis Fernando Carvalho

Conto: É para lá que eu vou (do livro "Onde estivestes de noite")

-
Lya Luft

Conto: Feliz aniversário (do livro "Laços de Família")

-
Malu Mader

Conto: Felicidade Clandestina (do livro "Felicidade Clandestina")

-
Maria Bethânia

Conto: Os desastres de Sofia (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Marina Colasanti

Conto: A imitação da Rosa (do livro "Laços de Família")

-
Mônica Waldvogel

Conto: Evolução de uma miopia (do livro "A Legião Estrangeira")

-
Rubem Fonseca

Conto: Uma galinha (do livro "Laços de Família")

*
"Clarice na Cabeceira"
Autora: Teresa Montero (organização)
Editora: Rocco
Páginas: 256
Quanto: R$ 32
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Análise: Estrela da Vida Inteira (Manuel Bandeira)


A Obra
A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.
(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza - Introdução in Estrela da vida inteira)

Pasárgada: a poesia das coisas mais simples
Quando Manuel Bandeira morreu, em outubro de 1968, um jornal dedicou-lhe a manchete Bandeira, enfim, Pasárgada! em referência ao seu mais conhecido poema - Vou-me embora pra Pasárgada. Neste poema o poeta evoca a vida que poderia ter sido e que não foi, uma espécie de paraíso pessoal, lugar de sonhos e de desejos, em que ele poderia realizar as felicidades mais simples, como andar em burro bravo, subir em pau-de-sebo, andar de bicicleta, tomar banho de mar...

A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples e despojadas já revela um dado biográfico que se transformará em fonte de muitos temas da poesia de Bandeira: a presença da morte, anunciada em plena adolescência, sob a forma de uma tuberculose, doença mortal na época (início do século XX). (...) fui vivendo, morre-não-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, médico-chefe do Sanatório de Clavadel, tentando-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos...

Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerário de Pasárgada)

A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência com sua presença - fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente numa descoberta essencial de vida, numa valorização intensa da existência mais cotidiana, redescoberta como única, irrepetível, insubstituível.

Não é possível separar a experiência de vida da experiência poética do autor de Pasárgada, embora sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - não possa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes de imagens, de emoções, de ritmos, transfigurados na alquimia da criação.

O critico Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, escreve: (...) veremos que a presença do biográfico é ainda poderosa mesmos nos livros de inspiração absolutamente moderna, como Libertinagem, núcleo daquele seu não-me-importismo irônico, e, no fundo, melancólico, que lhe deu uma fisionomia tão cara aos leitores jovens desde 1930.

O adolescente mau curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o carnaval da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigado distanciamento.

A sua obra, escrita ao longo de mais de meio século, atravessa praticamente toda a história do Modernismo no Brasil e apresenta muitos dos mais expressivos livros da poesia moderna, como Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã e outros.

Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi. Poesia, / Minha vida verdadeira.

Nascido na Recife, em 1886, tendo passado a infância principalmente no Rio e no próprio Recife, Manuel Bandeira publica seu primeiro livro de poema em 1917 - A cinza das horas, que será seguido por Carnaval, em 1919, em que apresenta pela primeira vez, versos livres na literatura brasileira. Conhece Mario de Andrade e os modernistas paulistas em 1921.

Não participa diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o seu poema Os sapos, paródia contundente dos parnasianos, provoca um dos momentos de maior escândalo, ao ser lido por Ronald de Carvalho, no Teatro Municipal de São Paulo, no dia 15 de fevereiro: o de maior polemica de toda a Semana.

A partir de então, não é possível pensar a poesia moderna no Brasil sem a presença de Bandeira, que atravessará todas as chamadas fases do Modernismo, com uma produção poética de mais alto nível. Já na fase heróica, de 1922, em que a ruptura com o passado e com as estruturas estabelecidas era a mais vital palavra de ordem, Mário de Andrade chamava o poeta de S. João Batista do Modernismo, reconhecendo o seu papel de anunciador da nova poesia.

Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos, mais comuns, dos momentos que aparentemente são banais e insignificantes. Do dia-a-dia mia desapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da vida.

Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade da essência mais profunda - e mais simples - da vida. O grande milagre da existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como algo intenso, único, irrepetível.

Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais expressivos da língua: grande intensidade, grande condensação, com imensa simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.

... a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatas.

Uma poética de iluminações da existência cotidiana, com a mais expressiva coloquialmente, e com intensa condensação de imagens e ritmos, a obra de Bandeira lembra muitas vezes a criação poética dos haicais japoneses, em que se flagram instante de plenitude, de frágil e plena percepção da vida, concentrada em um detalhe aparentemente banal.

Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa a mais longa convivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem ser dominado pelo desespero, sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações retóricas. Com amadurecida amargura.

Com ironia e auto-ironia, melancólicas. Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vida que poderia ter sido e que não foi e nem será.

Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos, interlocutora secreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada dia, de cada pessoa, de cada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre que não apenas os outros morrem - transformou-se, como em muitas correntes filosóficas, em sabedoria de vida. A importância da existência, de cada um: simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte, também milagre.

Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso pela vida. Uma sensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura melancólica pela infância perdida, e por seus personagens. Ternura ardente pelo corpo. A sua poesia amorosa revela-se como ardente lírica erótica.

Poesia do corpo, de grande intensidade. Os corpos se estendem, as almas não. Imagens eróticas que se tornam experiências sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade, o ardor e a intensidade da ternura. O físico se funde com o onírico, terna e desconcertantemente.

Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis fazedores de versos do modernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica e de ritmo vão desde as mais libertárias experiências de verso livre, dos fluxos mais soltos e irregulares até as estruturas mais tradicionais, de verso em redondilhas da lírica medieval, dos versos decassílabos clássicos e neoclássico e outros combinados com variadas formas fixas de estrófica regular, com sonetos, canções etc.

Um fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro domínio técnico e com grande erudição, capaz de traduzir de varias línguas e de escrever à moda de, imitando estilos os mais diversos, da época e autores.

Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com igual e desconcertante simplicidade. Nas constelações de imagens dos seus poemas percebemos um movimento oposto e complementar: por um lado, o cotidiano parece transfigurado, instante de iluminação, com aura de símbolo transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, o misterioso, o onírico aparecem configurados familiarmente, tornados próximos e confidentes, tornados íntimos do dia-a-dia.

Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais simples e mais despojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta capaz de simplicidade mais essencial e mais expressiva

domingo, 22 de novembro de 2009

'Violetas e Pavões', novo livro do escritor Dalton Trevisan


Contos misturam diferentes formas de narrativa, compondo ficção armada em rede, como um 'romance invisível'

*Augusto Massi, especial para o Estado de São Paulo


Para quem tem fama de recluso até que ele circula bastante. Está em cada esquina da cidade, tomando nota, ouvindo seus informantes. É um escritor ligado no mundo. Publicou mais de 30 livros, vasos comunicantes da nossa comédia humana, território real quase na periferia do imaginário. É difícil falar de Violetas e Pavões, coletânea de contos de Dalton Trevisan, sem incorporar ao comentário crítico dois de seus livros anteriores: O Maníaco do Olho Verde, de 2008, e Macho Não Ganha Flor, de 2006 (todos lançados pela Record). Digo isso porque as histórias se ramificam, se comunicam, se conectam em conjunto e, sob a aparente diferença dos volumes individuais, oculta-se uma ficção armada em rede, um romance invisível. Não é possível falar em ciclos, séries, relações de subordinação. O realismo de Dalton, um curitibano de 84 anos, parece se estruturar segundo circuitos de reciprocidade, onde versões complementares e/ou contraditórias sugerem novas combinações de leitura.


O mundo mudou. Curitiba mudou. Dalton mudou. Então por que a crítica mecanicamente fala em repetição? Destacar mudanças decisivas na experiência cotidiana de seus personagens é uma tarefa simples: os bêbados viraram drogados, diálogos telefônicos reduziram-se a interrogatórios policiais e o escritório de advocacia cedeu espaço para a delegacia. Em outras palavras: a classe média perdeu espaço para o coro dos coitados, acuados entre a violência do tráfico e a corrupção da polícia. O próprio Dalton, em Pico na Veia (2002), já havia disparado: "Curitiba - essa grande favela do primeiro mundo."



O interessante é que a degradação social encontra correspondência na forma literária. Enquanto o núcleo central do enredo é segregado na periferia das histórias, fiapos do tecido social esgarçado se entrelaçam nas farpas de uma fala ficcional. Numa primeira leitura, os 22 textos que compõem Violetas e Pavões parecem ter o seu horizonte narrativo dramaticamente reduzido. Antes de qualquer conversa, é dada voz de prisão; antes do boletim de ocorrência, a confissão é arrancada sob tortura. Diante da absoluta falta de mediação, há um grande esforço para captar a matéria bruta do fato no fio desencapado do flagrante. A frase é uma breve e intensa descarga elétrica, curto circuito entre verdade e mentira. As linhas de força do realismo se transformam em linhas de fuga.



Macho não Ganha Flor sugere um novo ponto de virada na trajetória de Dalton Trevisan. Os contos se expandem, voltam a crescer, retomam um modelo claramente narrativo. É dentro deste princípio que se inserem O Maníaco de Olho Verde e Violetas e Pavões; o conto inédito publicado nesta edição (leia na página 2) também confirma tal tendência. (Ressalva: os textos voltaram a ser longos mas os heróis continuam nanicos, pernetas e colibris.) Se por um lado os personagens transitam, traficam, num entra e sai de cena pelas páginas dos três livros, de outro, estão circunscritos ao mesmo espaço urbano: a Vila Zumbi, o Bar do Tiozinho, a célebre Rua Amintas, a casa 749.



Violetas e Pavões delimita e embaralha os contornos. Existem três tipos de registro literário. O primeiro é composto por cartas de amor, escritas sempre por mulheres. De início, elas adotam um tom confessional, culto e carinhoso, que aos poucos deriva para a mais pura libertinagem. Dalton explora esse gênero desde o seu livro de estreia (Sonata ao Luar, 1945), mas, agora estamos diante de um virtuose, um tarado cerebrino, um renomado punheteiro na arte da "palavra puxa palavra". Diante da solidão, as suas heroínas empunham as mil varas das variações de linguagem, querem conhecer a erudição enciclopédica do kamasutra, dissolver as fronteiras entre lirismo das alcovas e gozo místico. A descrição faz a delícia do realista: os detalhes miúdos, a estilização da língua, a pornografia do pormenor.

Reconhecemos a mão leve do autor. O dedo sacana de Dalton.



O segundo tipo de narrativa é mais experimental. Os textos são breves e imitam o corte de poemas. No geral, todos capturam a voz de um acusado diante do delegado: "Não tinha droga comigo não senhor" ou "ela vendia pó e pedra sim senhor". Guardam semelhança com a linguagem dos depoimentos, misto de reportagem de TV e pesquisa sociológica. Mas, aqui, as antigas justificativas para a violência sexual, pedofilia, roubo, assassinato respingam também na esfera familiar. O ato realista de contar-se trava um corpo a corpo com ficção, a verdade resvala pra versão, o conhecido negocia com o anonimato.



O terceiro é um depoimento mais detalhado, relato travestido de desmentido: "Esta história aí no papel não é a verdade" ou "Na verdade eu tava dormindo de favor na casa desse rapaz". Em alguma medida, aludem de forma dissimulada a mesma questão apresentada pelo documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. Através deles, travamos contato com uma cartilha para sobreviver na Polícia Federal ou na Delegacia de Entorpecentes, ora ele se apresenta nas brechas dos artigos em que as pessoas devem ser enquadradas, o 16, o 157 ou o 218, ora somos apresentados ao magistério das advogadas de porta de cadeia.



Deslocamentos



Mas, o leitor nunca deve perder de vista o conceito de rede associativa e vasos comunicantes. O que parece específico da fatura literária de Violetas e Pavões só se realiza plenamente com a leitura dos outros livros citados. Desta forma, os personagens perdem a invisibilidade, saem do anonimato e ressurgem de corpo inteiro por intermédio de pequenos índices de identidade. Por exemplo, mesmo sem ser nomeado, Tibinha, um dos assaltantes miúdos que domina de cabo a rabo Macho não Ganha Flor, pode ser reconhecido no conto O Recibo de Violetas e Pavões: moço gago, de boné vermelho, dentinho de ouro, olhão verde. Outro exemplo da recorrente dissolução de fronteira entre os três livros é a presença do traficante Buba, que onipresente em O Maníaco do Olho Verde, ressurge graças a um mandado de prisão equivocado no conto Não Sou o Buba - "Falo e repito que sou outro. Não o desgracido Buba. Euzinho, o velho Dimas da Silva, mais que disposto a colaborar."



Eu me pergunto, qual crítico consegue acompanhar os constantes deslocamentos de Dalton Trevisan? Quando compramos um livro raramente temos a consciência de que colaboramos para esgotá-lo. E esgotar um livro pode ter muitos significados. Um deles seria tirá-lo fisicamente de circulação. Outro, esgotar todas as possibilidades de leitura. Um terceiro, seria ficar inteiramente absorvido, sugado, esgotado. E neste caso, é o livro que nos tira de circulação. Nessa hora, a crítica é uma atividade clandestina.



Mas, no momento seguinte, ela pode se transformar em algo extremamente civilizada. De proprietário, colecionador, amante, o leitor pode passar a um profissional da crítica. Ler exige estratégias, alianças, adeptos. Da mesma forma que podemos emprestar um livro, podemos transmitir, trocar, partilhar nossa leitura. Por vezes, costumamos dizer que não entramos no livro. Outras, que não conseguimos mais largá-lo. Ler Dalton Trevisan é oscilar entre a dádiva e a danação:



"São dez segundinhos, porra. Te bate no pulmão. O bruto soco na cabeça. E o mágico tuimmm!

Na pedra, sabe? Tem um espírito vivo. Daí o craquinho fala direto comigo:

- Vai, Augusto. Vai fundo Mermão!"



Augusto Massi é professor de literatura brasileira na USP

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Resumo: Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Ruffato



LEIA O LIVRO NA ÍNTEGRA

Eles eram muitos cavalos” é o primeiro romance do escritor mineiro de Cataguases, Luiz Ruffato. Neste livro ele trata da vida de São Paulo, retratada em 70 capítulos que hora tem a aparência de contos, ora de poesia, ora de prosa poética, mas todos com aparência de recortes de um dia da vida cotidiana desta metrópole. Ao ler este romance, o leitor às vezes sente como se estivesse a observar uma fotografia da vida das personagens.

O Livro todo se passa numa terça-feira, 9 de maio de 2000, cita em vários recortes o dia das mães, que está próximo. Mescla recortes de jornal, com santinhos distribuídos em honra de uma graça alcançada, cartas, simpatias,recados de telefone, a vida política podre, a vida dos ricos, a vida dos pobres, a vida dos criminosos, desempregados, prostitutas, crianças de rua e da favela, a vida dos adolescentes da nossa atual geração, e a vida da classe média, que segundo um dos personagens “está acuada”, e alguns sonhos, no meio da rua. Retrata o sexo dos nossos dias, o crime, a política, o comportamento, as opiniões e as manifestações religiosas.


Características:



Por ser um livro contemporâneo, ele apresenta características das três fases do modernismo.

Não apresenta linearidade. Por exemplo:

filho que gostaria de ter tido
sim, claro, o filho um babaca o cocainômano passeia sua arrogância pelas salas da corretora,

sim, claro, o filho um babaca o cocainômano desfila seus esteróides por mesas de boates e barzinhos - que já quebrou -, por rostos de leões-de-chácara e de garotas de programa - que já quebrou -, por máquinas de escrever de delegacias - que também já

sim mas é meu filho

e suborna a polícia,

o delegado,

o dono da boate,

as garotas de programa,

os leões-de-chácara,

sim mas é meu filho

sim, claro, a filha mora no Embu, macrobiótica, artista plástica esotérica, os quadros sempre os mesmos

quem não tem olhos pra ver

riscos vermelhos, histéricos, espasmódicos, grossos, finos, fundo branco

não tem olhos pra ver

uma vez comeu ela horrível no estúdio entre pincéis e latas de tinta sobre uma mesa onde jazia esticada uma imensa tela em branco

isso é arte

ela cheiro de incenso

maconha é natural

nua sob a bata indiana, restos de sêmen na superfície branca

isso é arte

mais neguim pra se foder (pág. 12 e 13).


Há a presença de muitos neologismos e linguagem cotidiana, por vezes até chula, apresentada sem falsos moralismos, que retratam o modo de falar de diferentes pessoas, de diferentes idades, de diferentes classes sociais. Por exemplo:

mais neguim pra se foder(...)(pág 13)

E

o motor zunindo em-dentro do ouvido (zuuuummmm)(...)(pag 16)

O menino tem dez-onze anos(...) (pag 14)


“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”


O que você ganha com isso?, cadela!, o quê ? (Pausa) O quê que você ganha com o sofrimento dos outros, heim?(Pausa) Ver um filho chorando... a mãe... (voz esgarçada) O pai... tem... outra... (Descontrolada) Desgraçada! Desgraçada! O que que você ganha com isso? Filha da puta! Filha da puta! (pág 52)

Apresenta crítica social, e descrição, características do neo-realismo. Exemplo:

é que nossa mãe juntou várias vezes e tinha paciência nenhuma

com macho algum filho-da-puta que queria bater nela

trabalhadeira ganhava o próprio sustento

nunca precisou de homem não nossa mãe

todos eles dançaram por aí na mão dos meganhas

dos vagabundos ou de bobeira overdose

já o crânio meu irmão não fuma nem cheira(pág 99)


A chupeta suja, de bico rasgado, que o bebê mordiscava, escapuliu rolando por sob a irmãzinha de três anos, que, a seu lado, suga o polegar com a insaciedade de quando mamava nos seios da mãe. O peitinho chiou o sono inteiro e ela tossiu e chorou, porque o cobertor fino, muxibento, que ganharam dos crentes, o irmãozinho de seis anos enrolou-se nele. (pág 21)

(...)o cano do revolver na sua testa o rapaz voz engrolada Enfia o dinheiro aqui, anda! um saco plástico do Carrefour meio pão de cachorro-quente meia salsicha atravacando a língua o molho de tomate escorrendo vermelho pelo canto da boca vermelha(...)(pág 81)

a dor, as dores, as dádivas, a dor, as dores, as dores, edifícios, a chaminé, a fumaça, o cigarro, o fumo, a farinha, o feijão, o fogo, os fogos, o incêndio, as galinhas, as gentes, as traves do gol, os campos de futebol, jogadores, uniformes, cores quarando no varal, o chapéu, a bola, abelha, a bilha, os gatos, as galinhas, as janelas, os jipes, as jibóias, as janelas, as janelas, andarilhos, o medo, o mijo, os mortos, os montes, as montanhas, os mortos, os montes, as montanhas, os (pág 17)


E talvez a principal característica, que já ficou evidente pelos trechos apresentados, é a estética diferenciada, o que o torna um livro moderno, pela forma, e contemporâneo, pelo conteúdo. Um exemplo claríssimo desta estética são as páginas 147 e 148, que são quase totalmente preenchidas por um único retângulo negro.

Este livro é o que há de mais atual na literatura brasileira, e de melhor também. Retrata bem a nossa sociedade em todos os aspectos: sexual, social, comportamental, política e etc.

E, além de tudo, é muito interessante, com suas várias histórias e não é maçante, o que garante uma leitura ágil e extremamente interessante.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Resumo: Memorias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)


Memorias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

O Autor
Nasceu no dia 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro, mais precisamente no Morro do Livramento. Nasceu simplesmente um moleque de morro, franzino e doentio. Era filho de um pintor de paredes, Francisco José de Assis, e de uma portuguesa, Maria Leopoldina.
Quando ainda pequeno, ficou órfão de mãe. O pai casou-se novamente e a madrasta, Maria Inês, contrariando a lenda, substituiu em cuidados e carinhos a mãe verdadeira e também o pai, que morreria logo depois. Machado cresceu ao lado de Maria Inês, lavadeira e doceira, cujas balas o menino vendia na porta dos colégios que não podia freqüentar.
Naqueles tempos, escola era um privilégio dos mais afortunados. O menino, aliás, nunca freqüentaria qualquer escola. Machado é, hoje, o maior exemplo de autodidatismo no Brasil.
Tímido e introspectivo, Machado teve uma vida sóbria, comportada, sem grandes travessuras de criança, nem grandes aventuras de rapaz.

1855 - aos dezesseis anos, publica seu primeiro poema Ela na Marmota Fluminense. Esse poema só foi publicado porque Paula Brito, dono de uma tipografia e de uma livraria, simpatizou-se com o rapaz e fez dele seu protegido.

1856 e 1858 - Machado trabalha como topógrafo, primeiro na Imprensa Nacional e depois na tipografia de Paula Brito. Nessa época conhece um jornalista famoso, Manuel Antônio de Almeida, e outros intelectuais.

1858 e 1867 - Machado colabora assiduamente em muitos jornais e revistas cariocas, nos publicava contos, crônicas e crítica teatral. No ano de 1857 ingressa no funcionalismo público, em que sucessivamente teve funções cada vez mais importantes e chegou a ser um funcionário de prestígio.

1869 - casa-se com Carolina Xavier de Novais, irmã do poeta Faustino Xavier, que viera de Portugal para uma viagem cultural pelo Brasil. O casamento que iria durar 35 anos e ser dos mais felizes foi tumultuado, pois os pais de Carolina, portugueses preconceituosos, não queriam a união da filha com um mulato. Carolina viria a dar ao pacato e caseiro Machado de Assis a companhia ideal em sua fase de produção literária.

1870 - Machado nos premia com uma intensa atividade literária e com sucessivas publicações: contos, romances, poesia, teatro e crítica literária.

1881 - Machado atinge sua maturidade literária e publica Memórias Póstumas de Brás Cubas, um romance. Essa obra vem a ser um marco na história da Literatura Brasileira.

1882 - aparece Papéis Avulsos, uma seleção admirável de contos.

1891- aparece Quincas Borba, o mais filosófico dos romances machadianos.

1896 - é fundada a Academia Brasileira de Letras, e Machado de Assis, um ano depois, é aclamado seu presidente perpétuo.

1899 - surgem Dom Casmurro, romance, obra-prima de drama moral, e Páginas Recolhidas, seleção de contos.

1904 - é publicado o romance Esaú e Jacó, e também morre sua esposa Carolina.

1908 - morre Machado de Assis, festejado, em todos os sentidos, como o maior escritor brasileiro.

Obra
A classificação (rotulação) de Machado dentro de escolas e movimentos é problemática e atende apenas à comodidade didática. O mesmo ocorre com a divisão de sua obra em fases: a primeira (Romântica) e a segunda (Realista). O que houve em Machado foi um contínuo aperfeiçoamento.

Sua obra abrange os seguintes gêneros literários:

Poesia - Crisálidas, Falenas e Americanas (fase romântica) e Ocidentais (fase parnasiana)

Teatro - Desencantos, A Queda que as Mulheres têm para os Tolos, Quase Ministro, Os Deuses de Casa, Tu, Só Tu, Puro Amor, entre outras. É o aspecto menor da obra machadiana. São mais contos dialogados, que peças teatrais.

Crítica - Abrangendo literatura e teatro.

Crônica - Reunida no livro A Semana.

Conto - Tão importante quanto o romance machadiano. Contos Fluminenses, Histórias da Meia-Noite, Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Várias Histórias e Relíquias da Casa Velha.

Romance - Fase romântica: Ressureição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia. Apesar de rotulados "românticos" , há nesses romances elementos realistas: a análise psicológica e o fato de que as heroínas ajam por interesse na obtenção de "status" social e não por amor, mola central da narrativa romântica. Fase realista: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e D. Casmurro, que constituem a Trilogia Machadiana, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.

Considerações Gerais

A ruptura com a narrativa linear:
Os fatos e as ações não seguem um fio lógico ou cronológico, obedecem a um ordenamento interior, são relatados à medida que afloram à consciência ou à memória do narrador, num processo que se aproxima do impressionismo.

A organização metalingüística do discurso narrativo:
É comum, na ficção machadiana, que o narrador interrompa a narrativa para, com saborosa e bem-humorada bisbilhotice, comentar com o leitor a própria escritura do romance, fazendo-o participar de sua construção; ou ainda, para dialogar sobre uma personagem, refletir sobre um episódio do enredo ou tecer suas digressões sobre os mais variados assuntos.
Machado assume a posição de quem escreve e ao mesmo tempo se vê escrevendo. Esses comentários à margem da narração constituem o principal interesse, pois neles está a mensagem artística do escritor.

O universalismo
Machado captou na sociedade carioca do século XIX, os grandes temas de sua obra. O seu interesse jamais recaiu sobre o típico, o pitoresco, a cor local, o exótico, tão ao gosto dos românticos. Buscou, na sociedade do seu tempo, o universal, a essência humana, os grandes valores filosóficos: a essência e a aparência; o caráter relativo da moral humana; as convenções sociais e os impulsos interiores; a normalidade e a loucura, o acaso, o ciúme, a irracionalidade, a usura, a crueldade.
A pobreza de descrições, a quase ausência da paisagem são ainda desdobramentos dessa concentração na análise psicológica e na reflexão filosófica. As tramas dos romances machadianos poderiam, sem grandes prejuízos à narrativa, ser transplantadas para qualquer época e qualquer cidade.

Os grandes arquétipos
Uma das linhas mestras da ficção machadiana parte do aproveitamento dos arquétipos, que remontam à tradição clássica e aos textos bíblicos. (Arquétipo = modelo de seres criados; padrão exemplar; imagens psíquicas do inconsciente coletivo, e que são o patrimônio coletivo de toda a humanidade.)
Assim, o conflito dos irmãos Pedro e Paulo, em Esaú e Jacó, remonta ao arquétipo bíblico da rivalidade entre Caim e Abel; a psicose do ciúme de Bentinho, em D. Casmurro, aproxima-se do drama de Otelo e Desdêmona, de Shakespeare.

O pessimismo
Machado revela sempre uma visão desencantada da vida e do homem. Não acreditava nos valores do seu tempo e, a rigor, não acreditava em nenhum valor. Mais do que pessimista ou negativa, sua postura é niilista ("nil" - nada). O desmascaramento do cinismo e da hipocrisia, do egoísmo e do interesse, que se camuflavam sob as convenções sociais é o cerne de grande parte da ficção machadiana.
O capítulo final de Memórias Póstumas, o antológico das negativas, é exemplo cabal do pessimismo do autor:

Capítulo CLX
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

A ironia, o humor negro
A forma de revolta de Machado era o rir; quase sempre um riso amargo que exteriorizava o desencanto e o desalento ante a miséria física e moral de suas personagens. Observem o texto:

Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome , com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem... O que eu sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizeste patear a tragédia humana.



Resumo


Memórias póstumas de Brás Cubas conta a história de Brás Cubas a partir de sua morte, já que inicialmente o próprio narrador observa que para tornar a narrativa mais interessante e "galante" havia decidido começá-la pelo fim _ ; ele era, portanto, não um autor defunto mas um defunto autor _ . Assim, o primeiro capítulo começa justamente com a morte de Brás e seu enterro _ _ .

A causa de sua morte havia sido, oficialmente, uma pneumonia, da qual ele não cuidou de forma correta. Entretanto, sua morte de fato deve-se a uma idéia, segundo ele, grandiosa e útil, uma idéia que se transformou em fixação. Um dia de manhã, caminhando pela chácara onde vivia, pensou em inventar um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a melancólica humanidade _ . Para justificar a criação de tal emplasto frente às autoridades, Brás chamou a atenção de que a cura que traria seria algo verdadeiramente cristão, além de não negar as vantagens financeiras que tal produto traria. Contudo, já do outro lado do mundo, confessa que o real motivo era ver seu nome escrito nas caixinhas do medicamento e em todas as fontes publicitárias, pois as embalagens levariam seu nome _ _ .

Brás Cubas nasceu no dia 20 de outubro de 1805 _ . Foi uma grande festa para toda a família. Houve muitas visitas à sua casa e o pai estava orgulhoso por haver tido um filho homem. Todas as informações dadas são curtas, mas revelam os mimos recebidos pelo garoto durante toda a infância. Desde os cinco anos recebera o apelido de "menino diabo". Reconhece ele mesmo que, de fato, foi um dos mais malvados e travessos de seu tempo. Uma de suas diabruras foi ter quebrado a cabeça de uma escrava porque ela lhe negara uma colher de doce de coco, quando o menino tinha seis anos _ . Prudêncio, um moleque escravo da família, era seu cavalo de todos os dias _ . Brás conta ainda outras diabruras que fazia, entretanto, nada disso parecia ter importância para seu pai, que o admirava e, se lhe repreendia na presença dos outros, em particular lhe dava beijos _ .

Com nove anos, o garoto assistiu em sua casa a um jantar organizado pelo pai em comemoração à derrota de Napoleão. No final do jantar, Brás queria uma compota de doces, mas todos estavam distraídos escutando um dos letrados presentes, o doutor Vilaça, que fazia glosas e recebia, naquele momento, todas as atenções dos convidados. O menino começou a pedir o doce, depois gritou, berrou e foi tirado da sala por tia Emerenciana. Isso bastou para que sentisse uma enorme necessidade de vingança contra o doutor Vilaça. Ficou vigiando-o até surpreendê-lo numa moita beijando dona Eusébia, irmã de um sargento-mor. Para que todos soubessem, saiu pela chácara gritando o que havia visto _ .

Em seguida, após relatar tal episódio, Brás conta que cresceu normalmente. Foi à escola, que ele chama de enfadonha, onde teve aulas com um professor de nome Ludgero Barata. É justamente ali que conhece um de seus melhores amigos de infância, Quincas Borba, com quem se reencontrará mais tarde. Ambos os garotos revelam-se travessos e mimados, já que o Quincas era filho único, adorado pela mãe, que o vestia muito bem, mandando um pajem indulgente acompanhá-lo a todos os lugares.

Passado este período da vida do personagem, sobre o qual ele pouco fala, revela-nos seu caso com uma prostituta espanhola, a primeira mulher de sua vida. Brás a conheceu quando tinha dezessete anos. O jovem estava completamente envolvido pelos encantos da bela Marcela, a quem conseguiu conquistar, o que, contudo, lhe custou muitas jóias caras e presentes diversos. Brás confessa-se muito apaixonado neste período, motivo pelo qual o pai o enviou para estudar na Europa, receoso do envolvimento profundo do filho com uma prostituta.

Brás Cubas viaja para Portugal, onde estuda _ . Confessa haver sido um estudante medíocre, mas nem por isso deixou de conseguir o diploma _ . Nos tempos da universidade, apenas mencionados, preferia sair a fazer qualquer tipo de tarefa ou estudo. O diploma que lhe conferem estava longe de representar o conhecimento artificial que havia adquirido, artificialidade esta que marcou toda sua vida e as ações das pessoas que estavam à sua volta _ .

De volta ao Rio, Brás chega a tempo de ver sua mãe viva, mas já muito mal, à beira da morte, por causa de um câncer no estômago. Pela primeira vez, deparava-se com uma perda real e confessa que até então era um presunçoso que apenas havia se preocupado por coisas fúteis _ . Estava inconformado com a morte da mãe, pois lhe parecia uma enorme injustiça que uma pessoa tão santa, em seu julgamento, pudesse morrer de tão implacável doença. Por isso mesmo, após a missa de sétimo dia, resolveu passar algum tempo numa velha propriedade da família localizada na Tijuca. Levou consigo alguns livros, uma espingarda, roupas, charutos e Prudêncio. Ali ficou durante uma semana, quando então já se mostrava cansado da solidão e havia decidido voltar à cidade.

Justamente neste momento, o escravo conta ao patrão que na noite anterior havia se mudado para a casa ao lado uma antiga amiga da família, dona Eusébia, com uma filha. Brás reluta, não quer revê-la, já que se lembra da travessura de infância, quando denunciara a mulher e o doutor Vilaça que se beijavam às escondidas atrás de uma moita _ . Prudêncio, entretanto, recorda-lhe que fora dona Eusébia quem vestira sua mãe já morta. Ele decide, assim, visitá-la para retornar em seguida para a cidade.

Nesse mesmo dia, o pai de Brás sobe à chácara, pois quer sua volta à vida social. Traz consigo dois projetos para o filho: uma candidatura a deputado e um excelente casamento com uma moça de nome Virgília, filha do conselheiro Dutra, importante político. Brás reluta, mas o pai não se deixa vencer. Aconselha o filho, dizendo-lhe que ele não devia ficar ali, era preciso temer a obscuridade, as coisas pequenas. Conclui dizendo que o fundamental era valer pelo que a sociedade pensava _ . Brás concorda, finalmente, com os projetos e diz que descerá no dia seguinte, já que antes precisava visitar dona Eusébia _ _ .

De fato, a visita à velha amiga da família retardou a descida de Brás, que permaneceu ainda alguns dias na chácara. Foi ali que conheceu Eugênia, a quem ele mentalmente chamava "a flor da moita", pois a jovem era fruto das relações ilícitas entre dona Eusébia e o doutor Vilaça. O narrador simpatiza com a jovem e, mais que isso, pensa que pode tirar proveito da situação. Cinicamente, lembra-se de como era a mãe, motivo pelo qual espera conseguir algo da filha. Consegue, é verdade, beijá-la, entretanto, a moça revela-se dona de enorme dignidade, o que confunde Brás Cubas. Além disso, ele descobre que Eugênia tem um defeito de nascença: é coxa. Todos esses aspectos fazem com que ele confirme que não se deve envolver seriamente com ela, já que, além de tudo, ela estava em condição social inferior à sua _ .

Resolvido a terminar qualquer tipo de relacionamento, Brás volta à cidade, disposto a acatar os dois projetos do pai. Conhece Virgília, começam a namorar e ele está em vias de candidatar-se. Neste ínterim, passa por um ourives certo dia para consertar o vidro do relógio que lhe havia caído e depara com Marcela, que agora está com o rosto repleto de bexigas. A beleza de sua juventude desaparecera, dando lugar à deformação, que o narrador faz questão de descrever detalhadamente. Aquela visão o incomoda por algum tempo, entretanto não dura muito, como praticamente todos seus problemas _ .

Algum tempo depois de seu noivado com Virgília, surge, de repente, Lobo Neves, homem inteligente e astuto, que lhe arrebata Virgília e a candidatura. O pai não resistiu ao fracasso do filho, o que teria acelerado sua morte, quatro meses depois, tempo durante o qual ele repetia decepcionado a expressão "Um Cubas", inconformado com a sorte do herdeiro da família.

Passada a morte do pai, os irmãos Brás e Sabina, com a participação de Cotrim - marido de Sabina -, fazem a partilha dos bens. Arma-se uma grande e mesquinha discussão, os dois brigam por causa da herança deixada pelo pai, desde propriedades até a prataria, motivo de grande desavença, pois nenhum dos irmãos queria abrir mão da antiga relíquia da casa, usada em ocasiões importantes como o jantar em comemoração à derrota de Napoleão. No fim da disputa, os dois irmãos saíram brigados e já não conversavam entre si.

Por esta mesma época, Brás recebe de Luís Dutra, um primo de Virgília, a notícia de que ela estava voltando de São Paulo com o marido, então deputado. Encontram-se um dia e ela estava lindíssima _ . Algum tempo depois, como haviam se encontrado em dois outros bailes, o marido de Virgília convidou Brás Cubas para uma reunião íntima em sua casa. Brás, por essa época, escrevia textos literários e políticos em um jornal. Foi justamente nesta noite que os dois antigos noivos tiveram um maior contato. A partir daí, reataram sua antiga união, sobre a qual o narrador relata vários encontros e a paixão que sentiam naquele momento _ .

Certo dia, foi à casa de Virgília e encontrou-a triste, pois lhe parecia que seu marido desconfiava de alguma coisa. Para Brás, a melhor maneira de resolver o problema era que fugissem, mas Virgília não concordou. O marido chegou justamente nesse momento, e ela comportou-se como se nada houvesse acontecido, tratando friamente a Brás, o que lhe dá um terrível ódio de Virgília. No dia seguinte, ela o procurou com a idéia de que eles deveriam arrumar uma casinha onde se encontrariam, um lugar que seria só deles, já que sempre se encontravam na presença de outras pessoas, principalmente do marido .

A casinha da Gamboa foi, de fato, a saída encontrada pelos amantes para que pudessem continuar seu romance, pois grande parte da sociedade desconfiava de que havia algo entre os dois, por isso os comentários estavam cada vez maiores. Assim, a casinha foi importantíssima. Ali colocaram, D. Plácida, uma velha senhora amiga da família de Virgília e podiam encontrar-se com maior tranqüilidade _ .

Algum tempo depois, entretanto, Lobo Neves foi convidado a ocupar uma presidência da província no Norte. Os amantes ficaram desesperados, mas a saída foi dada pelo próprio marido, que convidou Brás a acompanhá-lo como seu secretário. Estava ainda relutante, pois toda a gente comentava seus amores com Virgília. Entretanto, o próprio Lobo Neves resolveu o problema ao recusar a nomeação. Tudo porque o decreto que o nomeava trazia o número 13, que ele considerava fatídico por vários acontecimentos tristes de sua vida _ . Dessa forma, o casal continuou vivendo seu relacionamento da mesma maneira que antes, na casinha da Gamboa.

Durante tais acontecimentos, Brás Cubas se reencontra com Quincas Borba, que está em uma situação deplorável, tornara-se um mendigo. Quincas acaba roubando o relógio de Brás Cubas neste encontro. Ainda nesse período, ocorre a reconciliação com a família, motivo de alegria para o narrador, que volta a visitar regularmente a irmã Sabina. Ela, como sempre, continua insistindo na idéia de que Brás precisava se casar, um homem em sua posição não podia continuar sem um herdeiro para o nome da família.

No entanto, o amor de Brás Cubas e Virgília, neste momento, vive seu ponto máximo, já que ambos haviam passado pela possibilidade de separação em virtude da nomeação de Lobo Neves, o que fortaleceu o sentimento que os unia. Além disso, Virgília disse estar grávida. Brás não perde a oportunidade de comentar que aquele era um embrião de "obscura paternidade", imaginava-o como sendo seu filho, dono de um belo futuro, vendo-o ir à escola, tornando-se bacharel e discursando na câmara dos deputados _ .

Contudo, Virgília perdeu o filho que estava esperando. Além do mais, o marido recebeu uma carta anônima acusando os dois amantes. A mulher negou veementemente que aquilo pudesse ter qualquer fundo de verdade, mas como Lobo Neves ficara desconfiado, Brás afastou-se da residência do casal, mesmo porque o espaço da Gamboa continuava resguardado. Algum tempo depois, Lobo Neves acabou reatando suas relações com o Ministério, desgastadas devido à sua recusa em aceitar o cargo anterior, conseguindo desta vez uma posição de presidente de província. O narrador brinca com o número do decreto, 31 agora, ressaltando que a simples inversão dos algarismos bastou para que a vida tomasse novo rumo.

Brás e Virgília mantém um curto diálogo antes da partida, despedem-se e ele conta que depois que ela viajou sentiu um misto de alívio e saudade em doses iguais. Não houve desespero, nem mesmo dor, o fato trouxe-lhe apenas alguns poucos dias de reclusão em sua casa e uma pequena amostra do que era a viuvez. Morreram seu tio cônego, Ildefonso, e dois primos, pelos quais ele não sofreu. Também nasceu sua segunda sobrinha. Segundo ele, esta era a filosofia das folhas velhas, que caem e morrem, enquanto outras nascem. Ele mesmo agitava-se de quando em quando e recorria às suas cartas de juventude _ .

Tal reclusão, entretanto, como qualquer de seus pensamentos mais profundos, passou rapidamente, em especial pelo reaparecimento de Quincas Borba e seu envolvimento com Dona Eulália, chamada familiarmente de Nhã-Loló. A jovem tinha dezenove anos, era filha de Damasceno, faltava-lhe certa elegância, segundo Brás, mas tinha belos olhos e uma expressão angelical. O narrador conheceu-a ainda quando Virgília estava no Rio de Janeiro e estava grávida. Sabina insistia na idéia de que Nhã-Loló seria uma excelente esposa para o irmão, que se esquivava por aquela época. Entretanto, quando se deu conta, estava praticamente nos braços da jovem e acabaram ficando noivos três meses após a viagem de Virgília. Acontece, porém, que a jovem morreu repentinamente, antes do casamento, fato que nos vem anunciado não pela voz do narrador, mas sim pela apresentação do epitáfio _ _ _ .

Em relação ao Quincas Borba, ele reaparece após ter recebido uma herança e voltado a ocupar boa posição social. O narrador observa que o amigo está com um comportamento um pouco estranho. Quincas defende uma filosofia criada por ele mesmo, o Humanitismo. Diz o filósofo que o mundo é uma projeção de Humanitas, que seria a substância de todas as coisas existentes, da qual elas emanam e para a qual convergem. Dito de outra maneira, para ele, todos os homens são iguais entre si, já que trazem consigo uma parte da tal substância original e todas suas atitudes têm uma explicação que busca o equilíbrio do mundo, mesmo que por meio da guerra e da violência, já que tudo deve voltar para onde começou.

Nesse sentido, ainda na visão do filósofo Quincas Borba, mesmo aquilo que nos parece negativo tem uma função essencial. Segundo o seu sistema, a dor e o sexo são excluídos do mundo, enquanto a guerra, a fome e outras formas de violência existem para que o meio possa selecionar aqueles que são mais fortes _ . Os mais fracos não sobrevivem e assim deve ser. Além de tudo, devem sentir-se felizes também, já que estão tomando parte do sistema do Humanitas. Em outros termos, estes mais fracos, mesmo derrotados, estariam servindo, de alguma maneira, ao princípio do qual descendem, que prevê tais injustiças como forma de equilibrar o mundo ou até mesmo de quebrar a monotonia universal _ _ .

Brás Cubas, desde que conhece os princípios do Humanitismo até o final de sua vida, esteve tentando entender melhor tal sistema, sempre relacionando-o a algum acontecimento cotidiano de sua vida, questionando sua validade ou não. Articula, então, uma série de teorias e preocupações filosóficas, presentes inclusive em seu delírio _ . Ali também o onça mata o novilho, pela sua sobrevivência, o mais forte vence o mais fraco. Segundo o Humanitismo, não há outra saída par a existência, de maneira que mesmo as coisas negativas devem ser vistas como necessárias e justificadas, por fazerem parte do sistema universal, por saírem daquela tal substância básica da qual saímos todos e para a qual voltaremos, segundo Quincas Borba.

Quincas será uma personagem com quem Brás se encontra muitas vezes a partir desse momento até a sua morte. Quanto à vida diária, depois de algum tempo Brás tornou-se deputado e Lobo Neves voltou ao Rio. Ambos estavam na mesma câmara e Brás ouvia um discurso proferido pelo marido de Virgília. Não sentiu nenhum tipo de remorso e reencontrou a antiga amante num baile em 1855. Observou que continuava muito bonita, ainda que fosse, claro, uma beleza diferente. Os dois conversaram muito, mas sem falar do passado. Brás teve alguns momentos de reflexão e uma certa tristeza. Tinha cinqüenta anos! Mas o Quincas garantiu-lhe que ele não poderia estar preocupado, já que era a idade da ciência e do amadurecimento. Brás decidiu então que participaria de maneira mais ativa das discussões, já que tinha sido sempre um político afastado dos problemas, assim como o era na vida pessoal. Almejava o cargo de ministro, coisa que também não conseguiu e nem mesmo a explicação através de Humanitas que lhe deu Quincas foi capaz de animá-lo.

Passado algum tempo, Brás recebe uma carta de Virgília pedindo-lhe que vá ver Dona Plácida, que está morrendo na miséria. Ele pensa recusar, mas acaba indo, ajuda a mulher que lhe serviu de alcoviteira durante tanto tempo. Morre Dona Plácida e Brás decide fundar um jornal, que era uma aplicação política do Humanitismo. Era um jornal oposicionista, o que preocupou Cotrim, que rompeu relações com o cunhado. Algum tempo depois, morreu Lobo Neves, Brás Cubas reconciliou-se novamente com o cunhado e filiou-se a uma Ordem Terceira, responsável por ajudar as pessoas necessitadas. Cansou-se depois de alguns meses. Na Ordem Terceira encontrou Marcela, que morreu no mesmo dia em que ele visitava um cortiço no qual encontrou Eugênia, segundo ele, tão coxa como a deixara e ainda mais triste _ _ .

Finalmente, Brás conta que Quincas Borba partiu para Minas Gerais algum tempo antes e, ao voltar, estava louco. E, o mais triste e paradoxal, tinha consciência de sua loucura. O narrador explica que entre a morte do Quincas Borba e a sua aconteceram os episódios narrados no começo do livro, em especial a idéia fixa da criação do emplasto Brás Cubas. Conclui sua longa e entrecortada narrativa através de um capítulo que busca resumir a vida pela negação: não alcançou a celebridade, não foi califa, não se casou, não foi ministro. Entretanto, observa que a negação também pode ser positiva: não padeceu a morte de Dona Plácida ou a demência do Quincas Borba. Assim, alguns leitores até poderiam imaginar que ele saiu quite com a vida. Mas não. A negativa última revela o ceticismo do narrador em relação ao mundo diz que ao não ter tido filhos seu saldo foi positivo, pois assim não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.



Personagens


Brás Cubas - narrador - morto aos 64 anos - “ainda próspero e rijo”, fidalgo

Marcela - Segundo grande amor de Brás Cubas, uma prostituta de elite, cujo amor por Brás duraria quinze meses e onze contos de réis.

Virgilia - filha do comendador Dutra, segundo o pai de Brás, Bento Cubas A “Ursa Maior” amante de Brás Cubas casa-se com Lobo Neves por interesse.

Quincas Borba - menino terrível que dava tombos no paciente professor Barata, colega de escola de Brás que o encontrará mais tarde mendigo que rouba-lhe um relógio mas retorna-o ao colega após receber uma herança. Desenvolve a filosofia do humanismo: “Ao vencedor as batatas ao vencido ódio ou compaixão”.

Eugênia - Filha de Eusébia e Vilaça, menina bela embora coxa.

Nhá Loló - moça simplória, tinha dotes de soprano - morre de febre amarela..

Cotrim - casado com Sabina, irmã de Brás; ambos interesseiros

Nhonhô - filho de Virgília

D. Plácida empregada de Virgília confidente e protetora de sua realção - extra conjungal

Lobo Neves - casado com Virgília, homem frio e calculista.

*Texto extraído de: www.setanet.com.br

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Resumos: O Uraguai (Basílio da Gama)


O Uraguai, de Basílio da Gama

Análise da obra

O Uraguai, poema épico de 1769, critica drasticamente os jesuítas, antigos mestres do autor Basílio da Gama. Ele alega que os jesuítas apenas defendiam os direitos dos índios para ser eles mesmos seus senhores. O enredo situa-se todo em torno dos eventos expedicionários e de um caso de amor e morte no reduto missioneiro.

Tema central: Pelo Tratado de Madri, celebrado entre os reis de Portugal e de Espanha, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos das Missões era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses. O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, exaltando os feitos do General Gomes Freire de Andrade. Basílio da Gama dedica o poema ao irmão do Marquês de Pombal e combate os jesuítas abertamente.

Personagens

General Gomes Freire de Andrade (chefe das tropas portuguesas); Catâneo (chefe das tropas espanholas); Cacambo (chefe indígena); Cepé (guerreiro índio); Balda (jesuíta administrador de Sete Povos das Missões); Caitutu (guerreiro indígena; irmão de Lindóia); Lindóia (esposa de Cacambo); Tanajura (indígena feiticeira).

Resumo da narrativa

A pobreza temática impele Basílio da Gama a substituir o modelo camoniano de dez cantos por um poema épico de apenas cinco cantos, constituídos por versos brancos, ou seja, versos sem rimas.

Canto I: Saudação ao General Gomes Freire de Andrade. Chegada de Catâneo. Desfile das tropas. Andrade explica as razões da guerra. A primeira entrada dos portugueses enquanto esperam reforço espanhol. O poeta apresenta já o campo de batalha coberto de destroços e de cadáveres, principalmente de indígenas, e, voltando no tempo, apresenta um desfile do exército luso-espanhol, comandado por Gomes Freire de Andrade.

Canto II: Partida do exército luso-castelhano. Soltura dos índios prisioneiros. É relatado o encontro entre os caciques Cepê e Cacambo e o comandante português, Gomes Freire de Andrade, à margem do rio Uruguai. O acordo é impossível porque os jesuítas portugueses se negavam a aceitar a nacionalidade espanhola. Ocorre então o combate entre os índios e as tropas luso-espanholas. Os índios lutam valentemente, mas são vencidos pelas armas de fogo dos europeus. Cepé morre em combate. Cacambo comanda a retirada.

Canto III: O General acampa às margens de um rio. Do outro lado, Cacambo descansa e sonha com o espírito de Cepê. Este incita-o a incendiar o acampamento inimigo. Cacambo atravessa o rio e provoca o incêndio. Depois, regressa para a sede. Surge Lindóia. A mando de Balda, prendem Cacambo e matam-no envenenado. Balda é o vilão da história, que deseja tornar seu filho Baldeta, cacique, em lugar de Cacambo. Observa-se aqui uma forte crítica aos jesuítas. Tanajura propicia visões a Lindóia: a índia “vê” o terremoto de Lisboa, a reconstituição da cidade pelo Marquês de Pombal e a expulsão dos jesuítas.

Canto IV: Maquinações de Balda. Pretende entregar Lindóia e o comando dos indígenas a Baldeta, seu filho. O episódio mais importante: a morte de Lindóia. Ela, para não se entregar a outro homem, deixa-se picar por uma serpente. Os padres e os índios fogem da sede, não sem antes atear fogo em tudo. O exército entra no templo. O poema apresenta então um trecho lírico de rara beleza:

"Inda conserva o pálido semblante

Um não sei que de magoado e triste

Que os corações mais duros enternece,

Tanto era bela no seu rosto a morte!"


Com a chegada das tropas de Gomes Freire, os índios se retiram após queimarem a aldeia.

Canto V: Descrição do Templo. Perseguição aos índios. Prisão de Balda. O poeta dá por encerrada a tarefa e despede-se. Expressa suas opiniões a respeito dos jesuítas, colocando-os como responsáveis pelo massacre dos índios pelas tropas luso-espanholas. Eram opiniões que agradavam ao Marquês de Pombal, o todo-poderoso ministro de D. José I. Nesse mesmo canto ainda aparece a homenagem ao general Gomes Freire de Andrade que respeita e protege os índios sobreviventes.

Apreciação crítica

O poema é escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes, mas é possível perceber a sua divisão em partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Abandona a linguagem mitológica, mas ainda adota o maravilhoso, apoiado na mitologia indígena. Foge, assim, ao esquema tradicional, sugerido pelo modelo imposto em língua portuguesa, Os Lusíadas. Por todo o texto, perpassa o propósito de crítica aos jesuítas, que domina a elaboração do poema.

A oposição entre rusticidade e civilização, que anima o Arcadismo, não poderia deixar de favorecer, no Brasil, o advento do índio como tema literário. Assim, apesar da intenção ostensiva de fazer um panfleto anti-jesuítico para obter as graças de Pombal, a análise revela, todavia, que também outros intuitos animavam o poeta, notadamente descrever o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.

Variedade, fluidez, colorido, movimento, sínteses admiráveis caracterizam os decassílabos do poema, não obstante equilibrados e serenos. Ele será o modelo do decassílabo solto dos românticos.

Além dessas, outras características notáveis do poema são:

Sensibilidade plástica: apreende o mundo sensível com verdadeiro prazer dos sentidos. Recria o cenário natural sem que a notação do detalhe prejudique a ordem serena da descrição.

Senso da situação: o poema deixa de ser a celebração de um herói para tomar-se o estudo de uma situação: o drama do choque de culturas.

Simpatia pelo índio, que, abordado inicialmente por exigência do assunto, acaba superando no seu espírito o guerreiro português, que era preciso exaltar, e o jesuíta, que era preciso desmoralizar. Como filho da “simples natureza”, ele aparece não só por ser o elemento esteticamente mais sugestivo, mas por ser uma concessão ao maravilhoso da poesia épica.

Devido ao tema do índio, durante todo o Romantismo, o nome de Basílio da Gama foi talvez o mais freqüente, quando se tratava de apontar precursores da literatura nacional. Convém, entretanto, distinguir neste poeta o nativismo do interesse exterior pelo exótico, havendo mesmo predomínio deste, pois o indianismo não foi para ele uma vivência, foi antes um tema arcádico transposto em linguagem pitoresca.

O preto africano lhe feriu a sensibilidade também, tendo sido o primeiro a celebrá-lo no poemeto Quitúbia, mostrando que a virtude é de todos os lugares.

Basílio foi poeta revolucionário com seu poema épico. Enquanto Cláudio trazia ao Brasil a disciplina clássica, Basilio, sem transgredi-la muito, mas movendo-se nela com maior liberdade estética e intelectual, levava à Europa o testemunho do Novo Mundo.

Texto — A morte de Lindóia (Canto IV)

Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!


Observe a ausência de estrofes regulares, os versos brancos (sem rima), o vigor descritivo.

LEIA O LIVRO NA ÍNTEGRA

VEJA O GUIA DE LEITURA EM PPT

*Créditos: Obra Formação da literatura brasileira, de Antônio Candido.
Extraído de: Passeiweb

sábado, 24 de outubro de 2009

Conto de Machado de Assis vai virar especial na Record


Formato voltará ao ar com "Uns Braços", que deve ir ao ar como especial de fim de ano

*Agência Estado

A Record vai retomar o projeto 200 Anos de Literatura, que adapta para a TV contos de grandes escritores. O formato voltará ao ar com "Uns Braços", conto de Machado de Assis, que deve ir ao ar como especial de fim de ano, em dezembro.

Adaptado pela produtora Contém Conteúdo - que em 2008 fez a versão televisiva de "Os Óculos de Pedro Antão", também de Machado -, a atração será gravada em novembro. Com base em incentivo fiscal, a produção deve ser a primeira de mais quatro obras que a emissora ainda pretende adaptar. “Estamos dando o último tratamento no roteiro e devemos ter umas três semanas de gravações”, conta Adolfo Rosenthal, roteirista e diretor do projeto.

Romance que envolve a paixão de um adolescente por uma mulher mais velha e casada, "Uns Braços" não trará estrelas da TV no elenco. A atriz de teatro Ana Peta viverá dona Severina, grande amor do jovem Inácio. A trama ainda terá um narrador oculto. “Acho um erro personificar o narrador, como foi feito em "Capitu", da Globo. O cara que deveria contar a história se transforma em um foco independente da trama. Confunde o espectador.”

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Conto Brasileiro: Idílio (Dalton Trevisan)

Idílio

Dobrando a esquina, na primeira sombra de árvore os dois se beijavam. Cecília tinha a ponta dos cabelos ainda molhados. Enfermeira, lidava no hospital até às seis horas. Banho de chuveiro, jantava e corria ao seu encontro. Às vezes trescalava a toalha úmida. Paulo a beijava com tanta aflição, por pouco engoliu o brinco de pérola falsa. Na rua até às dez horas, fechado o portão.
Ruazinha escura, encostados ao muro, beijavam-se. Ele a ensinou: boca pequena e
dócil, a descerrar os dentes, a titilar a língua. Um dentinho saliente e, se o beijo de muito amor, saía gota de sangue.
De uma a outra sombra (qual o nome daquela árvore tão negra?), em cada uma se
beijavam. Não se davam as mãos entre duas árvores, nunca ela lhe pegou no braço. Sem rumo, cruzavam apressados as ruas iluminadas.
Viam-se uma vez por semana, dia de folga do hospital. Em sandálias o dia inteiro, assistia os doentes e, das sete às dez da noite, acompanhava-o de salto alto. O moço esperava na esquina: ligeira, apesar de gorda, nos últimos passos corria ofegante.
Quando chovia, ela fechava a sombrinha, conchegados sob o guarda-chuva de Paulo. Rodavam entre as sombras, sem poder encostar-se às paredes. Mal seguro, o guarda-chuva os descobria a cada beijo.
Encontros noturnos e, seis meses depois, ao vê-la uma tarde na rua, achou-a mais velha e mais gorda. Espantou-se dos dedos lidos, não tomava sol, fechada no hospital. No branco rosto leve mancha de buço. De noite, à sombra da árvore, voltou a ser querida, no dentinho um vespeiro de beijos trabalhava o mel.
Bastante perigo nas ruas. Acendia-se a janela, uma bruxa de papelotes bradava se não tinham vergonha. Velho, não acendia a luz, espiando bem quieto. Os nichos ao longo dos muros disputados por outros casais. Hora do cinema, passava gente.
No meio do quarteirão, cada um vigiando uma das esquinas. Passos ao longe,
separavam-se. Ela arrumava os cabelos. Paulo enfiava a mão no bolso. Os outros chegavam-se devagar, olhando muito. Cecilia baixava o rosto. Ele falava — a única vez que falava.
Ah, e os faróis dos carros? Então escondia-lhe o rosto na sombra. Algum espião surgia na esquina, obrigados a sair para outra rua. Impossíveis os bancos de praça, por causa dos vagabundos; além do mais, os malditos guardiões.
O assunto, quando passava alguém, era o céu. "Esta noite não tem estrela" — dizia a moça. Ele olhava o céu aceso de janelas. Assim descobriu a miopia de Cecília. Para ela no céu não mais que a lua.
Certas noites erravam mais de uma hora até o primeiro beijo. Contra o muro a agarrava com tal fúria, que ela gemia e, ao separarem-se, tinha de segurá-la pelo braço, bem tonta. Podia beijar-lhe a boca, o nariz, os olhos, menos a orelha, cócega demais.
Passaram-se meses, um ano quem sabe. Paulo começou a brigar com ela, só dizia não. Cecília chorava e, ao esquecer o lenço, ele não emprestava o seu: devia enxugar as lágrimas na manga do casaquinho. Mais de uma noite inteira sem tocá-la, os dois marchando sem descanso debaixo das árvores.
Aconteceu uma noite.
— Agora tem de casar. Você tem de.
Primeira vez a mão pesou no braço.
— Por favor. Depressa não posso.
— Está melhor?
— Puxa, foi uma dor...
Paulo reparou nas duas sombras. Uma, albatroz selvagem da noite, abrindo asas na glória de arremeter vôo. A outra, gorda e grávida, um bule de chá.

domingo, 11 de outubro de 2009

Lula se aliou à "escória política", diz autor do "Rei do Cheiro"


Agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti, autor de ensaios, como "Devassos no Paraíso", e romances, como "Ana em Veneza", o escritor paulista João Silvério Trevisan, 65, avalia que o presidente Lula se aliou à "escória política" do país e que políticos e intelectuais apoiadores do PT agora estão mudos, pois viraram "elite cultural". Ele revela ainda que o escândalo do mensalão, revelado pela Folha em 2005, o motivou a terminar o romance "Rei do Cheiro", lançado em agosto deste ano.


Políticos e intelectuais de esquerda viraram elite e se calaram, afirma autor de "Rei do Cheiro"

"O que me parece acontecer no Brasil atual, e eu inseri isso no meu romance, é que nós temos uma vivência de utopia às avessas. Os sinais foram trocados, e nada é o que parece. Aparentemente, a nossa democracia é maravilhosa, mas o que nós temos é o presidente que se dizia de esquerda se juntando com a escória política desse país. Quem manda no Brasil é a elite econômica que financia esses candidatos políticos, e enquanto isso, os intelectuais estão mudos. Parece que não têm mais contribuição a dar sobre um projeto de poder", disse Trevisan à nova edição da revista gratuita "A Capa", que começou a ser distribuída nesta semana, em pontos GLS.

No dia 6 de junho de 2005, a Folha publicou entrevista com o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que denunciava o pagamento de mesada de R$ 30 mil a congressistas da base aliada em troca de apoio político, no escândalo que se tornou conhecido como "mensalão".


"Em 2005, com todas as denúncias do mensalão, interrompi outro romance que estava fazendo e disse: 'agora tenho que dar continuidade ao Rei do Cheiro. Eu estava vendo os personagens que projetava na ficção", afirmou Trevisan à publicação.

O livro mostra a formação dos novos-ricos de São Paulo a partir da história de um rapaz do interior que inicia fortuna ao começar a fabricar produtos cosméticos no fundo de sua loja na 25 de Março. Neste romance, o autor aproxima a ficção da realidade ao amarrar a trama do protagonista Ruan Carlos Coronado a personagens emblemáticos deste início de século, como os bandidos do PCC --que aqui vira Croc, Comando Revolucionário Organizado do Crime.

Nos últimos meses, o escritor viajou pelo país para lançar o "Rei do Cheiro". Agora ele quer retomar o livro "Quarto Escuro", interrompido na época do mensalão. A obra trará "histórias e vivências homossexuais", como descreve o autor, coletadas ao longo da vida. Por conta desse trabalho, ele diz estar lendo "Geração Beat", de Jack Kerouac (1922-1969).

Rei do Cheiro

Autor: João Silvério Trevisan
Editora: Record
Páginas: 320
Quanto: R$ 47,90

Há cinco anos Brasil perdia Fernando Sabino, um de seus maiores escritores


Em 80 anos de vida, o escritor publicou mais de 40 livros, editados no Brasil e no exterior

Considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira do século 20, Fernando Sabino morria há exatos cinco anos, em 11 de outubro de 2004, vítima de um câncer que surgiu em seu fígado e se propagou para outras áreas do corpo.

Autor de títulos de sucesso como "O Encontro Marcado", "O Homem Nu" e "O Grande Mentecapto", o escritor criou o seu próprio epitáfio, que diz: "Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino".

A morte do menino Sabino, nascido em Belo Horizonte no Dia das Crianças, ocorreu um dia antes do consagrado escritor completar 81 anos. Alfabetizado pela mãe aos sete anos, aos 12 ele já era locutor de um programa infantil de rádio. Aos 17, decidiu que seria gramático e escreveu uma crítica sobre o dicionário de Laudelino Freire, que foi publicada no jornal "Mensagem".

Ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, Sabino integrava o famoso e talentoso quarteto de escritores mineiros que publicava artigos literários em "O Diário".

Formado em direito, ele exerceu cargos públicos nas secretarias de Finanças e de Agricultura de Minas Gerais, no Registro de Interdições e Tutelas da Justiça, no Rio de Janeiro, na embaixada do Brasil em Londres e no Escritório Comercial do Brasil e no Consulado Brasileiro, em Nova York.

Em julho de 1999, Fernando Sabino ganhou da Academia Brasileira de Letras o prêmio "Machado de Assis" pelo conjunto de sua obra. Em 80 anos de vida, ele escreveu contos e crônicas para diversos jornais e revistas brasileiras, além de ter publicado mais de 40 livros, editados em diversos países.

Confira abaixo alguns dos títulos de Fernando Sabino
*


"O Encontro Marcado" - "Ele faria da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura, um encontro". Uma das obras mais conhecidas de Fernando Sabino, conta a trajetória de Eduardo Marciano, um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida.

História de adolescência e juventude, de prazeres fugidios, desespero, cinismo, desencanto, melancolia e tédio, que se acumulam no espírito do jovem, amadurecendo em um mundo desorientado. Ele vê seu matrimônio quebrar-se quando já não pode abdicar.

Por sua própria experiência, o suicídio deixa de ser uma solução. Nessa paisagem atormentada, ele deve renunciar a si mesmo, para comparecer ao encontro com uma antiga verdade.

Editora: Record
Páginas: 288
Quanto: R$ 31,41


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"Fernando Sabino" - Arnaldo Bloch faz de um encontro com o escritor numa livraria em Ipanema o ponto de partida para um mergulho nos mistérios que cercam a alma do autor. De uma narrativa que mistura memorialismo, reportagem, registro testemunhal, psicologia e drama, com um toque de linguagem ficcional, emerge um personagem ambivalente: metódico, atrapalhado, sereno, aflito, otimista, entrevado, menino, homem-feito, transparente, enigmático, generoso ciumento, místico, descrente, humano, anedótico. Ao leitor, o convite para desvendar a charada.

Editora: Relume Dumará
Páginas: 160
Quanto: R$ 24,21

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"O Homem Nu" - Após sua viagem a Cuba, em 1960, o autor compôs esta coletânea de contos. O volume, lançado originalmente no mesmo ano, nasceu a partir de um episódio curioso. E de episódios inusitados, o livro está cheio.

A história que origina o título do livro refere-se ao drama de um homem sem roupa que ao buscar o pão no corredor do seu prédio fica preso do lado de fora de seu apartamento.

A ideia foi parar no cinema, em 1967, interpretado por Paulo José e Leila Diniz, com direção de Roberto Santos. Sabino roteirizou o filme a seu modo. Transformou depois o material em novela ("A Nudez da Verdade"). Em 1994, entrou na trilogia "Aqui Estamos Todos Nus".

Editora: Record
Páginas: 192
Quanto: R$ 26,91

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"O Grande Mentecapto" - Dezoito dias de trabalho ininterrupto. Esse foi o período que Fernando Sabino levou para finalizar as aventuras e desventuras de Geraldo Viramundo, marcante personagem da ficção brasileira. A obra havia sido iniciada 33 anos antes, em 1946.

O volume elucida as peregrinações de uma figura que simboliza o povo brasileiro. Com uma linguagem que mescla loucura e razão, Sabino retrata um personagem, uma nação, uma sina que pode ser alterada.

A ação desenrola-se em Minas Gerais, porém assume uma universalidade que, por vezes, retoma as origens do romance picaresco medieval.

Editora: Record
Páginas: 240
Quanto: R$ 31,41


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"A Faca de Dois Gumes" - O livro narra a história do advogado Aldo Tolentino que, se vendo traído pela mulher com seu amigo e colega de escritório, em sua própria casa, planeja o crime perfeito. Ele prepara uma viagem de negócios e embarca para São Paulo a pedido do seu chefe Marco Túlio.

Na capital paulista, ele hospeda-se num hotel, o qual deixa discretamente e volta para Rio de Janeiro, de avião, com passaporte falso. Ao retornar, de surpresa para casa, promove um flagrante nos adúlteros e os mata.

No entanto, Paulo Sérgio, seu filho, chega em casa na madrugada do crime e encontra os cadáveres, tornando-se assim o principal suspeito do crime.

Editora: Record
Páginas: 240
Quanto: R$ 29,61

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"O Menino no Espelho" - Nesta obra, o menino Fernando, que vem a ser o próprio autor, vive todas as fantasias de sua infância, através de aventuras mirabolantes. Ensina uma galinha a conversar, aprende a voar com os pássaros, fica invisível, encontra-se com Tarzan e Mandrake, visita o sítio do Pica Pau Amarelo, torna-se agente secreto e campeão de futebol, vive aventuras na selva, enfrenta o valentão da sua escola.

E, no menino que vê refletido no espelho, descobre o melhor de si mesmo, a projeção do ideal de pureza que só uma criança pode alcançar - simbolizada na libertação dos passarinhos.

Editora: Record
Páginas: 176
Quanto: R$ 34,90

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"As Melhores Crônicas de Fernando Sabino" - reúne uma seleção primorosa do autor mineiro, trazendo crônicas publicadas em jornais e revistas durante sua carreira.

São relatos curtos de fatos colhidos ou inspirados na vida real, com tratamento de ficção, em linguagem nítida, sem os ornamentos da retórica tradicional, mas de apurada técnica literária.

As histórias, como a famosa "O Homem Nu", trazem semrpe episódios, incidentes, reflexões, encontros e desencontros vividos por Fernando Sabino, na realidade ou na imaginação.

Sob a aparente singeleza transparecem a sensibilidade, o humor, a ironia e, às vezes, o espírito satírico, mas sobretudo a simpatia do autor pela natureza humana.

Editora: Record
Páginas: 224
Quanto: R$ 29,61

*

"De Cabeça para Baixo" - Com reportagens literárias e jornalísticas, apresenta histórias vividas pelo consagrado cronista brasileiro, que passou por muitos países (para morar ou apenas conhecer) da Europa e até no extremo Oriente, onde se viu de cabeça para baixo.

Usando sua linguagem ágil, viva e predominantemente hilária, Sabino relata o melhor de suas andanças, tropelias e trapalhadas em quase 30 anos de viagens pelo mundo, além do constante "desejo de partir e a alegria de voltar".

Editora: Record
Páginas: 336
Quanto: R$ 29,61

Fonte: Folha Online

sábado, 3 de outubro de 2009

Finitude da vida inspira novo romance de João Ubaldo



Sem publicar um novo romance desde 2002, escritor, que é colunista do 'Estado', lança 'O Albatroz Azul'

*Texto do Caderno 2, do Estadão

As intempéries pessoais foram diversas (depressão, morte da mãe), mas João Ubaldo Ribeiro provou, como gosta de dizer, que é um homem de cota: na segunda-feira, as livrarias recebem 'O Albatroz Azul' (240 páginas, R$ 39,90), seu último livro a ser editado pela Nova Fronteira, que devia por obrigação contratual antes de acertar a transferência de toda a sua obra para a Alfaguara, no ano passado. "Não é o romance que comecei a escrever, mas foi esse o que acabou surgindo", contou Ubaldo ao Estado, por telefone, desde seu apartamento na Leblon, no Rio.


Nada, de fato, correu como previsto, mas 'O Albatroz Azul' - seu primeiro romance desde 2002 (quando saiu Diário do Farol) e que marca os 50 anos de sua estreia literária - reflete com extrema singeleza o estado de espírito do escritor. O livro acompanha a estranha trajetória do velho Tertuliano Jaburu que, depois de resignado pela profusão de filhas e netas, se convence de que a gravidez temporã de sua caçula Belinha lhe trará, finalmente, um neto varão. Nem mesmo o prognóstico contrário de Altina, parteira de palpites infalíveis, o desanima: um sopro que recebeu no ouvido, sem atinar de onde, lhe fez o peito palpitar - seria homem o rebento que (o avô decidiu por conta própria) ganharia o nome de Raymundo Penaforte, em homenagem a um dos santos glorificados naquele dia 7 de janeiro.



O menino também terá um afortunado destino conforme vislumbraram os olhos previdentes de Tertuliano, o que já é confirmado pela forma inusitada do parto. Como primeiro saíram as pernas, Raymundo nasceu literalmente com a bunda virada para a grande e brilhante lua que iluminava seu nascimento. Uma existência cuja felicidade se concretizaria com a passagem de Tertuliano para outro estágio material. Sim, ele sabe que vai morrer e em breve. Na verdade, uma transcendência, pois, se um holandês que vivera séculos antes na Bahia se transformara em uma pedra que fala com ele, por que o velho sábio não poderia adquirir o formato de um albatroz azul?



Aos 68 anos, o colunista do Estado preocupa-se com a finitude da vida, ainda que não deseje (nem espere) a morte próxima. Mas faz de uma forma lírica, mágica, com sua prosa contraditoriamente barroca e lapidada e sempre evocando, ainda que subliminarmente, sua Itaparica natal, como conta na seguinte entrevista.



O livro foi matutado há muito tempo?



Não exatamente. Eu tinha uma relação quase familiar com a Nova Fronteira - fiquei mais de 30 anos lá e tive amizade com quase todos os donos. Quando fui para a Alfaguara, eu sabia que ainda devia um livro por contrato. Até comecei a escrevê-lo, ele se chamaria Si e seria sobre a essência de um homem. Mas sofri uma série de contratempos - fiquei doente, troquei muito de computador, pois o meu pifava e provocava perda de arquivos - e, quando um romance é muito interrompido, especialmente em seu início, ele desanda. Você perde o contato. Então, o livro que eu escreveria teve várias partidas em falso e, no fim, esse romance me apareceu. Sou como Jorge Amado: esquematizo tudo e nada dá certo. O romance toma um caminho próprio, com personagem destinado para a morte sobrevivendo enquanto outro se casa quando deveria ficar solteiro. Já me acostumei com isso, mas, mesmo assim, sigo sempre uma ordem, escolhendo primeiro um título, depois a dedicatória, a epígrafe e por fim a história. Mas, se você me perguntar o porquê do título O Albatroz Azul, eu não tenho a menor ideia.



Você imaginava, ao menos, que ele teria esse tamanho?



Não, pensei que fosse um pouco menor que Viva o Povo Brasileiro, mas, ainda assim grande. Abri o livro com a embocadura de um livrão. Mas, no meio do primeiro capítulo, descobri que não era. Continuei escrevendo um livrão até me resignar - digo isso porque sou um escritor abundante - no meio do segundo capítulo: já sabia que não era.



Você continua criterioso na escolha das palavras - neste livro, elas são inventadas ou você as ouviu em sua ilha de Itaparica?



Dificilmente eu invento - se inventei, deve ter sido mais por ignorância ou porque achei que a palavra existia. Tenho muito pudor com neologismos. Eu estropio algumas palavras e espero que o leitor perceba. Usei algumas expressões usadas em Portugal e também regionais. Só quando tenho algum personagem pernóstico, como Nascimento Clarineta, que só fala difícil, aí utilizo sinônimos rebuscados, preciosos.



O final do livro é muito bonito, especialmente em seu tom fabular (a pedra que fala) e a luta contra a finitude da vida. São esses temas que o inspiraram?



Com certeza, alguma coisa rondava meu juízo. Embora não pareça, sou culturalmente católico. Não gosto de religião organizada, mas gosto de ler a Bíblia e, entre meus textos favoritos, está o Livro de Jó, uma obra-prima. Lá, depois das várias provações sofridas, Jó acaba ouvindo a voz de Deus, a célebre teofania, que o questiona sobre a criação do universo. A pequenez e a limitação humana, portanto, são reafirmadas. É inútil querer conhecer, com nossos cinco sentidos, as intenções de Deus. Talvez eu tenha dito isso por meio da sabedoria de Tertuliano que, na realidade, não sabe nada, só tapeia as coisas. Por mais que tivesse aprendido com outros sábios, ele não sabe de nada.



Esse é seu primeiro livro desde 2002, o que me faz lembrar de uma frase de Jorge Amado que dizia ser mais penoso escrever à medida que envelhecia. Isso também acontece com você?



Sim, é a mesma coisa. Jorge era meu compadre e, entre uma conversa pessoal e outra, ele dizia isso. Não sei se foi ele ou Rubem Fonseca que usou a expressão "desandar" em relação ao livro e a escrever com dificuldade. O mesmo acontece comigo. Pode ser bloqueio de escritor, sem que eu saiba. Também pode ser uma autocobrança maior. Ou ainda um certo pudor para se escrever frase como "A condessa saiu às 5 horas da tarde". Não sei a origem dessa história. Acabei concluindo que quem escreve com facilidade é um orador - e não tenho talento para discursar em público.

Com esse livro, você comemora 50 anos de literatura. O que isso lhe diz?

Que eu estou velho pra burro! (risos) Eu nem me lembrava disso, foi o pessoal da editora que me avisou.



E a passagem para o próximo livro?



Por enquanto, não tenho nada na gaveta. Desconfie se alguém apresentar algum poemazinho inédito ou ensaiozinho inacabado depois da minha morte - tudo que escrevo, publico. E não consigo iniciar nada enquanto o livro atual não é publicado. Nem sei se vou escrever outro. Provavelmente, vou. Tenho vontade (ainda vaga) de desenvolver meu pequeno universo de Itaparica. Aproveitar mais alguns personagens, como o de Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, que publiquei na internet. Utilizar esse e também os de outras histórias da ilha, como os personagens do Já Podeis da Pátria Filhos. Gostaria de completar a história daqueles que aparecem como figurantes nos contos. Mas esse desejo ainda não saiu do castelo do ar. Não sei se vou fazer.