Professor diz que Enem pode prejudicar ensino de literatura
Extraído do Portal Terra - 11 de outubro de 2011 • 14h08 • atualizado às 15h25
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Uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com base nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 1998 a 2010 apontou que poesias e letras de canções aparecem em 42% das questões de literatura. Romances estão presentes em cerca de 12% das perguntas, e contos em apenas 3%. Enquanto isso, histórias em quadrinhos ocupam 19% do teste. Para o professor de literatura brasileira da universidade, Luís Augusto Fischer, os resultados são "assustadores e podem prejudicar o ensino nas escolas".
O pesquisador afirma que a prova foca na vertente da linguagem, e não da cultura. "O Enem prestigia mais a literatura enquanto leitura do que a literatura enquanto aprendizagem cultural", afirma. Fischer explica que a primeira vertente - que é a mais utilizada no teste - é mais simples, pois implica somente na leitura direta de um texto, seja ele letra de música, quadrinhos ou um conto. Um exemplo de questão é pedir para o candidato analisar um romance e afirmar se o discurso utilizado é direto ou indireto, por exemplo.
De acordo com Fischer, pensar a literatura como cultura exige mais complexidade, uma vez que um texto será analisado pelo conhecimento da sua história, enredo e características do autor. "As duas são imprescindíveis, mas a prova foca somente em uma. Com esse privilégio à leitura, se perde muita coisa do vasto patrimônio cultural letrado que já existe e ao qual todos devem ter acesso na escola", defende.
O estudo mostra que há, por ano, uma média de 13% de questões que mencionam textos literários e semiliterários. Além disso, a frequência de autores foi considerada baixa ao se avaliar todos os testes, de 1998 a 2010 (inclusive a prova de 2009 que vazou). Carlos Drummond de Andrade apareceu 19 vezes; em segundo lugar, vêm Machado de Assim e Manuel Bandeira, com sete citações. Nenhum outro autor aparece mais de cinco vezes. Graciliano Ramos e João Cabral aparecem três vezes cada, menos do que Jim Davis, do Garfield, e Bob Thaves, da tira Frank e Ernest, com quatro referências cada.
"Acredito no sistema do Enem de desprezar a decoreba de certos vestibulares, mas o caso é que a prova trata o texto literário como um texto qualquer. Um poema de Drummond, por exemplo, é colocado no mesmo nível de uma tira em quadrinhos", afirma o professor.
Na visão de Fischer, o fato pode prejudicar o ensino literário na escola, uma vez que o ensino médio se molda à demanda do processo seletivo de ingresso às universidades. "Na escola brasileira, a literatura tem sido porta de acesso não apenas a livros, mas também a outras artes. Sem isso, me parece que vamos perder esse acesso, além de perdermos parte importante, talvez fundamental, da formação cultural dos alunos nesses campos", completa.
'É melhor ler com autonomia o Garfield do que decorar clássicos', diz educador
Apesar de concordar que o Enem precisa evoluir, o professor de literatura do cursinho Universitário, de Porto Alegre (RS), Edir Alonso defende o uso que a prova faz de textos mais populares. "O modelo de avaliação tradicional, com base na leitura dos clássicos, acaba por enfrentar uma dura realidade: está distante da vida do jovem leitor médio", diz.
Alonso afirma que isso não significa que a academia deva se conformar apenas com a leitura de tirinhas e canções populares, mas ressalta que não se pode negar que elas são uma forma legítima de aproximar a prova do universo cultural da maioria dos candidatos. "A imposição de um rol de leituras obrigatórias que contemple Os Lusíadas ou O Uraguai mostra uma universidade incapaz de dialogar com o jovem leitor. Nesse sentido, presta um desserviço à formação cultural do vestibulando, o qual passa a associar o fenômeno literário a algo enfadonho, distante", completa, dizendo que é melhor ler com autonomia o Garfield do que apenas decorar clássicos para o teste.
"Acho que a prova do Enem precisa evoluir. Pode e deve ampliar o espaço dedicado à leitura e compreensão do texto literário na prova. Mas ainda assim, me parece ser uma proposta avaliativa mais interessante", fala.
Outro defensor da avaliação do exame nacional é Manoel Neves, especialista em Letras de Belo Horizonte (MG) que desenvolve pesquisa para cursos pré-vestibulares em língua portuguesa e literatura. Contudo, Neves discorda do uso de tiras e quadrinhos no teste, mas considera a prova muito bem elaborada. "Ela contempla tanto elementos da teoria quanto da história. Para responder às questões, é preciso ter noções desses dois campos", diz.
Como exemplo, o professor analisa o Enem de 2009. "Naquele ano, apareceram questões que contemplavam conhecimentos específicos de Teoria Literária, como a noção de espaço narrativo na questão envolvendo os textos de Dalton Trevisan e Jorge Amado", explica.
Neves também cita uma pergunta sobre o soneto de Álvares de Azevedo que abordava especificamente os conhecimentos acerca do tratamento dado por esse poeta à desilusão amorosa. "Sem a leitura do poema e o conhecimento de como a decepção amorosa é tratada no Romantismo e nos textos do autor da Lira dos vinte anos, seria impossível resolver a questões", diz.
"O Enem cobra uma compreensão aprofundada dos aspectos técnicos, históricos e temáticos da literatura brasileira. O que a prova demanda dos alunos é a capacidade de perceber tais elementos¿, explica, completando que não se trata de ler um livro e decorar os elementos históricos, temáticos e formais, mas de conferir a capacidade que o aluno tem de perceber esses elementos em qualquer texto.
Posição do Inep
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirmou, por meio de sua assessoria, que "a prova do Enem não valoriza, em suas questões de literatura, a memorização de características ou periodização descontextualizada". De acordo com o órgão, o objetivo da prova é avaliar a habilidade do candidato em estabelecer relações entre o texto literário e os contextos histórico, social e político; em relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário; e em reconhecer a presença de valores sociais e humanos no patrimônio literário nacional.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Enem ou vestibular tradicional? "É melhor ler com autonomia o Garfield do que decorar clássicos", diz Prof. Edir.
sábado, 19 de dezembro de 2009
De fato e ficção (por Daniel Piza)

De fato e ficção
No mundo inteiro, inclusive no Brasil, hoje são lidos mais livros de não-ficção do que de ficção. Ou seja, há mais exemplares e títulos de biografias, ensaios, reportagens, história, autoajuda, didáticos, científicos e outros do que de romances e contos. Mesmo com sucessos como os da série Crepúsculo, histórias românticas de vampiros adolescentes escritas por Stephenie Meyer, o predomínio já não é da novelística. Houve um tempo, como se sabe, em que a narrativa ficcional ocupava o centro da cultura, era a espinha e medula da troca de valores e costumes. No século 19, por exemplo, o grande romance, que mesclava panorama histórico e análise psicológica, como em Tolstoi, Balzac ou George Eliot, dava a medida de uma civilização. Hoje, não mais. Curiosamente, tal mudança não se restringe ao mundo literário. É claro que há mais filmes de ficção, por exemplo, mas o número de documentários no cinema e na TV só tem aumentado (e influenciado até mesmo filmes não documentais). Nas salas brasileiras, um quarto dos filmes em cartaz pertence ao gênero.
O que explica isso? Num arco de tempo mais curto, pode-se pensar que há relação com um mundo cada vez mais globalizado, de notícias que correm na velocidade da luz (ou das trevas), e fatos como os atentados de 11 de setembro de 2001 provocam nas pessoas uma necessidade de entender melhor a realidade que as afeta de modos tão imprevisíveis. Indo um pouco mais atrás, pode-se atribuir a perda de importância da ficção à explosão de outros meios e linguagens, à concorrência de formatos audiovisuais, internet, novas tecnologias etc., que, além de consumir tempo e dividir atenção, têm uma eloquência mais direta; não exigem o grau de concentração que os clássicos exigem. E, num recuo ainda maior, até a virada para o século XX, a ficção tem enfrentado também a ascensão de uma série de disciplinas antes vagas, sem método nem consistência, e que hoje usam e abusam de ferramentas como a estatística – a exemplo da sociologia, da psicologia e da economia.
Eu arrisco outra hipótese adicional, que tem a ver com os rumos tomados pela própria ficção. Talvez porque pressionados por essa multiplicação das fontes de conhecimento e entretenimento, os romances abandonaram parcialmente aquilo que mais os distinguia até a geração modernista de Proust, Mann, Joyce e Kafka: a força dos personagens. Pense em qualquer grande obra literária e pensará num(a) protagonista, não raro citado(a) já no título: Hamlet, Anna Karenina, Bovary, Fausto, Dom Quixote, Pai Goriot, Dom Casmurro... Mas depois dos anos 30 parece que a ficção optou pela metalinguagem, pelo chororô do autor, ou então pelas crônicas policiais ou fantásticas que são lidas para diversão no verão, quando queremos escapar da chatice da rotina. E ainda não querem perder a “briga” para as biografias de figuras históricas e complexas? Mesmo assim, confesso minha nostalgia pelos grandes romances, com seus personagens fortes e suas ambições estéticas. Romances medianos podem facilmente ser substituídos por histórias reais. Obras-primas, não.
*Texto publicado em 17.12.09, no Estadão
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
31/08: O dia do Blog

Hoje é comemorado mundialmente o dia do Blog. Não poderíamos deixar de fazer a referência à data aqui neste espaço.
Cabe aqui destacar o fato de que o Weblog é um grande passo no sentido de realmente democratizar a cultura da informação. A liberdade de pensamento está diretamente relacionada à livre difusão da informação, e nesse sentido, até pouco tempo atrás, vivíamos a ilusão da livre circulação de idéias, que camuflava o poder do monopólio da 'verdade'. Nosso país é um prodigioso exemplo de como se pode, através dos meios de comunicação de massa, uniformizar o pensamento e anestesiar a população diante de toda a sorte de canalhices.
Nesse sentido, o blog é um meio de comunicação revolucionário: antes apenas a recepção da informação era universal, agora, qualquer um, ao menos em tese, pode veicular seus textos, difundir suas idéias em escala global. O problema passa a ser outro: o volume absurdo de informação disponível jamais poderá ser integralmente processado pelo leitor. O que é realmente digno de ser lido/visto na web?
Alguns críticos patrocinados pela indústria da informação já tentam descredibilizar a blogosfera. Alegam que a informação passa a ser veiculada por amadores e que suas opiniões passam a concorrer com as 'verdades' do noticiário. Mas um verdadeiro ambiente democrático supõe a pluralidade de opiniões. O que é realmente nocivo é a massificação, a padronização do pensamento promovida pelos detentores do poder econômico.
O Blog está incomodando os 'donos da verdade' e transformando o mundo!
Viva a blogosfera!
