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sábado, 19 de dezembro de 2009

De fato e ficção (por Daniel Piza)


De fato e ficção

No mundo inteiro, inclusive no Brasil, hoje são lidos mais livros de não-ficção do que de ficção. Ou seja, há mais exemplares e títulos de biografias, ensaios, reportagens, história, autoajuda, didáticos, científicos e outros do que de romances e contos. Mesmo com sucessos como os da série Crepúsculo, histórias românticas de vampiros adolescentes escritas por Stephenie Meyer, o predomínio já não é da novelística. Houve um tempo, como se sabe, em que a narrativa ficcional ocupava o centro da cultura, era a espinha e medula da troca de valores e costumes. No século 19, por exemplo, o grande romance, que mesclava panorama histórico e análise psicológica, como em Tolstoi, Balzac ou George Eliot, dava a medida de uma civilização. Hoje, não mais. Curiosamente, tal mudança não se restringe ao mundo literário. É claro que há mais filmes de ficção, por exemplo, mas o número de documentários no cinema e na TV só tem aumentado (e influenciado até mesmo filmes não documentais). Nas salas brasileiras, um quarto dos filmes em cartaz pertence ao gênero.

O que explica isso? Num arco de tempo mais curto, pode-se pensar que há relação com um mundo cada vez mais globalizado, de notícias que correm na velocidade da luz (ou das trevas), e fatos como os atentados de 11 de setembro de 2001 provocam nas pessoas uma necessidade de entender melhor a realidade que as afeta de modos tão imprevisíveis. Indo um pouco mais atrás, pode-se atribuir a perda de importância da ficção à explosão de outros meios e linguagens, à concorrência de formatos audiovisuais, internet, novas tecnologias etc., que, além de consumir tempo e dividir atenção, têm uma eloquência mais direta; não exigem o grau de concentração que os clássicos exigem. E, num recuo ainda maior, até a virada para o século XX, a ficção tem enfrentado também a ascensão de uma série de disciplinas antes vagas, sem método nem consistência, e que hoje usam e abusam de ferramentas como a estatística – a exemplo da sociologia, da psicologia e da economia.

Eu arrisco outra hipótese adicional, que tem a ver com os rumos tomados pela própria ficção. Talvez porque pressionados por essa multiplicação das fontes de conhecimento e entretenimento, os romances abandonaram parcialmente aquilo que mais os distinguia até a geração modernista de Proust, Mann, Joyce e Kafka: a força dos personagens. Pense em qualquer grande obra literária e pensará num(a) protagonista, não raro citado(a) já no título: Hamlet, Anna Karenina, Bovary, Fausto, Dom Quixote, Pai Goriot, Dom Casmurro... Mas depois dos anos 30 parece que a ficção optou pela metalinguagem, pelo chororô do autor, ou então pelas crônicas policiais ou fantásticas que são lidas para diversão no verão, quando queremos escapar da chatice da rotina. E ainda não querem perder a “briga” para as biografias de figuras históricas e complexas? Mesmo assim, confesso minha nostalgia pelos grandes romances, com seus personagens fortes e suas ambições estéticas. Romances medianos podem facilmente ser substituídos por histórias reais. Obras-primas, não.

*Texto publicado em 17.12.09, no Estadão

domingo, 27 de setembro de 2009

'Um gênero que renega a si mesmo', por Walter Siti


'Um gênero que renega a si mesmo'

Entre todos os gêneros literários, o romance é o único que tem necessidade de renegar-se a si mesmo. O século XVIII, aquele em que o gênero se consolida, está repleto de romances que negam sua natureza: "hoje, o mundo se acha tomado de romances e de contos de aventura em tal grau, que é difícil uma história fatual ser tomada por verdadeira", escreve Defoe no prefácio a Moll Flanders; "esse romance não é um romance", escreve Rousseau no segundo prefácio de A nova Heloísa; "mas isso não é um romance", assegura Diderot em Jacques, o fatalista. Já no final do século XVII, Madame de La Fayette, escrevendo ao cavalheiro de Lescheraine, falava acerca da Princesa de Clèves, "não é de forma alguma um romance: são, exatamente, algumas memórias"; e, ainda no final do século xix, os veristas se recusam a chamar de romances os seus textos (Louis Desprez, defendendo-se no processo contra Autour d'un clocher, declara em aula: "a palavra romance não convém mais aos nossos estudos sociais").


"Se este fosse um romance"; "não como ocorre nos romances" etc., tornam-se a tal ponto lugares-comuns que alguns romancistas fazem uma reivindicação de segundo grau: contrariamente àquilo que todos dizem, o meu, em vez disso, é justamente um romance. "Se tu és algum deles, a quem basta dizer que são verdadeiros os acontecimentos para que neles acreditem, ou a quem não seja admissível gozá-los porque são falsos, és por demais sério, por demais crédulo, e não escrevi para ti", assim Giovanni Ambrogio Marini, no prefácio a Calloandro fedele, demonstra o orgulho pela própria invenção; com mais malícia iluminista, Laclos adverte, "não garantimos a autenticidade desta coletânea, pois temos fortes razões para crer que se trate apenas de um romance", e acrescenta que as personagens das Relações perigosas manifestam tão maus costumes, que "é impossível supor que tenham vivido em nosso século".



Os paratextos (prefácios, notas, posfácios, advertências do editor etc.) são usados para desculpar-se, para justificar-se. Os motivos pelos quais o romance envergonha-se de si mesmo são concretamente dois: 1. o romance provoca nos leitores devastações psicológicas e, no grau máximo, faz enlouquecer; 2. o romance é conspurcado pelo dilúvio de romancistas péssimos e superficiais. Assim, quando o Berger extravagant se apresenta como "antirromance" e o Ercole tedesco, de Bucholtz, como "romance anti-Amadis", isso se deve ao primeiro motivo; quando Jacques, o fatalista ou Tristram Shandy pensam em si mesmos como "antirromances", fazem-no sobretudo pelo segundo motivo.



Na verdade, tem razão Gotthard Heidegger, um pastor luterano, autor de uma invectiva proferida em 1698 contra os romances: "um romance sempre se reduz à sátira venenosa de um outro". Haveria As relações perigosas sem A nova Heloísa, ou A princesa de Clèves sem Astrée, ou Anna Kariênina sem Madame Bovary?



Comecemos pelo segundo motivo: o romance é, desde o início de sua história, e onde quer que tenha aparecido, um gênero desacreditado. Difundido de modo notável no mundo grego, em pouquíssimos casos os romances chegaram até nós, porque eram indignos de consideração e de comentários, e escritos geralmente sobre bases péssimas. Na literatura chinesa, enquanto os livros de poesia e os ensaios eram conservados com grande escrúpulo filológico, os romances foram mutilados e sofreram inserções de toda ordem. Os literatos, que não obstante os escreviam e compravam, ter-se-iam sentido menosprezados quando lhes reconhecessem a paternidade.



Aristóteles, na Poética, não fala dos romances; Horácio, na Ars poetica, silencia sobre eles; Tasso os considera um desvio da epopeia; Boileau, tocando de leve no assunto, com uma condescendência que é pior do que o silêncio, diz que em um romance frívolo pode-se perdoar tudo porque nada se pode pretender, basta que, transcorrendo, divirta. Ainda em 1774, von Blanckenburg, perguntando-se por que não teria havido até aquele momento na Alemanha uma reflexão crítica sobre o romance, responde "porque se acreditou que não valesse a pena refletir sobre um gênero de escritos voltados apenas ao entretenimento das massas". Sem leis nem regras, sem sequer necessitar daquele pouco de técnica necessária para os versos, o romance serve para qualquer um e qualquer um pode escrevê-lo; "a composição de romances, ao contrário, requer apenas papel, pena e tinta, e a capacidade manual de servir-se deles", assim escreve Fielding em Tom Jones. Muitos dos romances processados no correr dos séculos são de jovens desenfreados, que "escrevem aquilo segundo seu capricho […] não sabem nada, escrevem segundo o que lhes vem à cabeça", como lamenta o núncio apostólico Francesco Vitelli, denunciando em 1642 à Cúria romana o Corriero svaligiato, de Ferrante Pallavicino. A acusação geral é que os romances baixam o nível cultural, promovem a curiosidade e o mexerico em prejuízo da "littérature savante". Os romances acabam com o hábito de pensar: "não se relê um romance", escreve Vauvenargues ainda em 1745.



Em média, os romances custam menos do que outros livros, têm grandes tiragens e, portanto, dependem do índice de aceitação do público. Tasso conta que o padre Bernardo decidira compor o Amadis com base numa única ação, segundo as regras de Aristóteles, mas ocorreu que "quando ele começou a ler, os aposentos estavam cheios de gentis-homens que ouviam, mas, ao fim e ao cabo, todos haviam desaparecido; disso deduziu que a unidade da ação era pouco agradável por sua natureza". O fato de "agradar ao vulgo" é a acusação que Trissino dirige ao Orlando furioso, e Tasso admite, escrevendo a Scipione Gonzaga, haver procurado na Jerusalém libertada "o aplauso dos homens medíocres". Em 1642, em Gênova, Anton Giulio Brignole Sale se apresta a publicar os primeiros quatro livros de sua Storia spagnola, temendo que "a comichão de tais composições" deixe de "prurir", candidamente intentado a "secundar o curso da torrente, enquanto durar". O romance do século XVIII inglês seria impensável sem a busca do sucesso de público: o próprio Fielding, que é o mais culto e que tenciona reagir ao descrédito do romance, admoesta que "um autor deveria considerar-se não como um senhor que dá um banquete particular ou beneficente, mas como quem dirige um restaurante". Certamente, não faltam defensores do romance (e romancistas) que tentaram reabilitá-lo aproximando-o da epopeia e da tragédia, ou que afirmam,



como Pierre-Daniel Huet em 1670, que um romance "não é julgado pelo número, mas pela competência de quantos o estimam". É necessário, porém, chegar a Rousseau para que se ouça qualquer um dizer que "um romance deve ser vaiado, odiado, feito em pedaços pelas pessoas elegantes". Nos séculos XIX e XX, um setor do romance se torna um gênero de elite, mas um outro setor muito amplo continua a ser um gênero de massa: as acusações que se faziam ao romance são as mesmas que ora se fazem à ficção televisiva.



As autoridades civis e religiosas, condenando o romance, sempre e em toda parte estiveram preocupadas com sua ampla difusão (tanto é verdade que um leitmotiv nas alocuções dos advogados de defesa é que, ao contrário, cada romance custa muito, e é escrito de maneira tão difícil, que não está ao alcance dos incultos); para proteger os fracos da obscenidade e da sedição, naturalmente, mas também (e nisso tiveram sempre como aliados os pedantes da academia e os críticos da alma bela) para defender a honra da cultura contra a vulgaridade de um círculo vicioso que, a pretexto de se adequar à demanda, acaba por perverter o gosto das massas mediante uma oferta de qualidade inferior.



A se fazer bem as contas, justamente a vocação que tem de obedecer ao prazer dos leitores é que leva o romance para perto daqueles centros delicados em que o prazer entra em atrito com a realidade; sua vulgaridade, em suma, é condição daquela perspicácia antissistemática que constitui sua força; costear (e cortejar) o "discurso dos ignorantes" favorece as "intensidades livres" (como as chama Gianni Celati) do romance, e lhe promove uma forma particular de consciência que consiste, mais do que num generalizante "eu penso", numa "série de 'eu sinto' que é fruída por descontinuidade". A concessão proteiforme e indisciplinada às dobras do presente, o "não ter a honra", impele o romance a territórios pantanosos em que os outros gêneros não penetram. Exemplares são, acerca disso, as vicissitudes da língua; o desmazelo linguístico, que desde o início lhe é atribuído, abre as portas à "língua comum", entendida como adequação entre uma personagem e seu modo de falar - do "latim dos libertos" na "Ceia de Trimalquião", passando pela grosseria engraçada nas Facezie de Poggio Bracciolini, que foi o humanista descobridor da "Ceia" ("há coisas que não posso dizer de modo mais elegante, porque devo me referir a elas como as disseram as personagens que introduzi nessas conversas"), até a atenção dos romances epistolares do século XVIII à conservação das imperfeições linguísticas dos remetentes etc.



"A publicidade clamorosa e romântica é uma perigosa sugestão aos espíritos fracos ou enfraquecidos. Eu disse o mesmo para as tragédias passionais a dois"; esse telegrama de Mussolini, de janeiro de 1926, endereçado aos diretores de jornais e não aos romancistas, atesta que o peso da repressão já se deslocara; o romance não assusta mais porque é lido por uma minoria. Ao mesmo tempo, atribuindo aos "fatos relevantes" o mesmo influxo maléfico que sempre foi censurado nos romances, Mussolini involuntariamente faz o melhor elogio daquele "romance potencial" que todo o tempo se recusa à própria institucionalização como gênero, e que obstinadamente tenta reduzir (sem anular) a distância entre o acidente informe da vida e o abstrato absoluto da beleza.



Em 1735, père Bougeant distinguia entre "Basse" e "Haute Romancie"; mas, desde suas origens, o romance foi marcado por um destino de duplicidade. Aquiles Tácio e Heliodoro são já romancistas "reflexivos", que jogam ironicamente com os mecanismos triviais do gênero; o mesmo se diga do enorme esnobismo de Petrônio. Por isso, o romance se renega a si próprio, porque deve buscar a própria profundidade virando-se do avesso como uma luva. Nos Discorsi dell'arte poetica, Tasso teoriza acerca da possibilidade de um nível duplo de escrita, capaz de atrair quer o vulgo quer os "entendidos".



Poder-se-ia afirmar que até mesmo o realismo nasce no romance em virtude dessa "obsessão de duplicidade": não é a Loucura de Erasmo que diz que sem as ilusões, sua dádiva, "por trás de Minerva se encontra uma porca"? Tal será a experiência do pobre Dom Quixote, mas já o autor refinado do Lazarilho purgava e parodiava nos infortúnios do pícaro os sonhos de aventura "nobre". A grande voga do Dom Quixote no século xviii inglês relaciona-se ao fato de que a forma modesta e agressiva do novel se legitima no contraste paródico com os preciosos in-fólio dos romance franceses. Uma vez fixado que o nível trivial do entretenimento é o da aventura fabulosa e elevada, o problema do realismo moderno é sobredeterminar o cotidiano para torná-lo significativo e simbólico sem recorrer aos "truques" da fábula. A oposição "corriqueiro/extraordinário" não é senão um caso particular da oposição "verossímil/maravilhoso". Se uma escritora de romances como Mademoiselle de Montpensier foi obrigada a desdobrar o lugar exótico e fabuloso de Paflagônia na mais conhecida Paris ("nada se parecia mais com a place Royale do que a praça onde estava o seu palácio"), nas Cartas de Valincour sobre a Princesa de Clèves se faz notar que a recusa "extravagante" de casar Némours transporta a protagonista "ao reino dos Amadis", e Charles Gildon critica Defoe, dizendo que, no fundo, o seu Robinson Crusoé "é só um romance". O autor, escreve Smollett no prefácio a Roderick Random, "representando cenas familiares de pontos de vista divertidos e incomuns, as investe do atrativo da novidade, ao passo que em todos os particulares se refere à natureza"; mas Rousseau pergunta a si mesmo, em A nova Heloísa, "vale a pena registrar o que alguém pode ver todos os dias em sua casa, ou na casa do seu vizinho?". A resposta que o romance ocidental realista se dará a si mesmo será a psicologia, o "caráter surpreendente e insondável do coração".



Duplo por natureza, se o trivial é identificado na cansada repetição de estereótipos pseudorrealistas, eis que o romance reivindica seu próprio direito à fantasia: é o caso, obviamente, de Roussel ou de Borges, mas também de Blixen e de Morante (sem contar o "renascimento do romance" que foi provocado pelo entrecruzamento de tradições fabulatórias extraeuropeias, e o "romance coagido" produzido no Leste Europeu como reação ao otimismo censório e programático). Gênero bastardo e "parvenu", mas também imperialista, o romance contamina e macula os gêneros nobres (a tragédia, a lírica) com as próprias necessidades de banalidade, mas contemporaneamente corrompe as escrituras "positivas" (a história, o sermão moral) com os infantilismos do "querer ser". Não errava, pois, em demasia, o abade Porée, na conferência que fez contra o romance apresentada no Collège Louis-le-Grand em 1736 (e traduzida ao francês para que também as mulheres a pudessem ler): "[os romances] com seu contágio estragam todos os gêneros literários com que mantêm alguma relação".

É possível pensar o mundo moderno sem o romance? (Mario Vargas Llosa)


É possível pensar o mundo moderno sem o romance?

Trecho do ensaio de Mario Vargas Llosa na série O Romance

Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, especificando: "É para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura". E eu lhe pergunto, de imediato: "E o senhor, não é? Não gosta de ler?".


A resposta chega pontual, quase sempre: "Bem, sim, é claro que gosto, mas eu sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é". Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele, têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção bastante difundida, a literatura é uma atividade de que se pode prescindir, um entretenimento, seguramente elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de muito tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.



É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, naturalmente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham das calças de goleada. A explicação que disso se dá é que, na classe média, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a considerar-se mais justificadas do que os homens quanto ao tempo dedicado à fantasia e à ilusão. Sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, de maneira que não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: os leitores de literatura - há muitos leitores, mas de lixo impresso - são, em geral, cada vez menos e, entre eles, as mulheres prevalecem. E o mesmo ocorre em quase todo o mundo. Na Espanha, uma pesquisa organizada recentemente pela sgae (Sociedad General de Autores Españoles) forneceu um dado alarmante: metade dos habitantes daquele país jamais leu um livro. A pesquisa revelou, também, que na minoria leitora, o número de mulheres que declaram ler é superior em 6,2% ao dos homens, e a tendência é que a diferença aumente. Muito me alegro pelas mulheres, é claro, mas me preocupo pelos homens, e pelos milhões de seres humanos que, podendo ler, renunciaram a fazer isso. Não só porque desconhecem o prazer que perdem, mas porque, de uma perspectiva menos hedonista, estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura foi relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário - essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade.



Proponho-me, nestas linhas, a formular algumas razões contra a ideia de que a literatura, e em especial o romance, seja um passatempo de luxo; ao contrário, proporei considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e fecundas da alma humana, uma atividade insubstituível para a formação do cidadão numa sociedade moderna e democrática, de indivíduos livres, e que, por isso, deveria ser inculcada nas famílias desde a infância e deveria fazer parte de todos os programas de educação como uma das disciplinas básicas. Sabemos que ocorre o oposto, que a literatura tende a ser posta à parte e a desaparecer totalmente dos currículos escolares, como se se tratasse de um ensinamento de que se pode prescindir.



Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques, tendência que não poderá senão se acentuar nos anos por vir. A especialização traz consigo, sem dúvida, muitos benefícios, porque permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e sentir-se de algum modo solidários. A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em estabelecimentos ou guetos culturais de técnicos e especialistas a que linguagem, alguns códigos e informação progressivamente setorizada e parcial relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo - de povos ou indivíduos - gera paranoias e delírios, aquelas deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.



A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhe determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstói, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração. Nada, mais do que os bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas, também, aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos, em nossa integridade humana, com os nossos atos e os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias - como as chamava Isaiah Berlin - de que é feita a condição humana.



Esse conhecimento totalizador e imediato do ser humano, hoje, encontra-se apenas no romance. Nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas - como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes - puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao profano, porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns. Não é nem pode ser o caso da literatura, embora alguns críticos e teóricos se empenhem em transformá-la em uma ciência, porque a ficção não existe para investigar uma área determinada da experiência, mas para enriquecer de maneira imaginária a vida, a de todos, a vida que não pode ser desmembrada, desarticulada, reduzida a esquemas ou fórmulas, sem que desapa-reça. Por isso, Marcel Proust disse: "A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, plenamente vivida, é a literatura". Não exagerava, guiado pelo amor a essa vocação que praticou com talento superlativo: simplesmente, queria dizer que, graças à literatura, a vida se compreende e se vive melhor, e entendê-la e vivê-la melhor significa vivê-la e partilhá-la com os outros.

'O Romance' reúne o mais ambicioso estudo sobre o gênero



Franco Moretti organizou os cinco volumes, com colaboradores do porte de Vargas Llosa e Umberto Eco

*Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo

Quando o professor italiano de literatura Franco Moretti começou a organizar o primeiro dos cinco volumes que compõem a coleção O Romance, cujo primeiro (A Cultura do Romance) está sendo lançado pela Cosac Naify (1.120 págs., tradução de Denise Bottman, R$ 130), sabia que contava para o monumental projeto com estudiosos não necessariamente alinhados com sua visão - a de que o modelo interpretativo de análise literária isolada de obras (o chamado ‘close reading’) está ultrapassado. Pluralista, Moretti defende um novo modelo analítico, transformando a crítica num verdadeiro laboratório, em que o cientista literário terá de dominar várias disciplinas - da antropologia à geografia, passando pela biologia - para evitar o vício canônico de um Harold Bloom. Sobre ele e sua coleção, cujos próximos volumes serão lançados um a cada semestre, Moretti, cujo sobrenome trai seu parentesco com o irmão cineasta Nanni Moretti (O Quarto do Filho), falou pelo telefone com o Estado, destacando a participação de dois dos seus colaboradores brasileiros, Roberto Schwarz e Luiz Costa Lima.




São nomes estelares numa constelação de críticos e escritores entre os 178 colaboradores de 99 instituições do mundo inteiro. A lista impressiona: fazem parte do comitê científico que supervisiona a coleção o peruano Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, e o crítico literário norte-americano Fredric Jameson. Entre os outros colaboradores, destacam-se o teórico e romancista italiano Umberto Eco, o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, o antropólogo inglês Jack Goody, o escritor italiano Claudio Magris e a crítica argentina Beatriz Sarlo. Talvez seja o suficiente para convencer o mais cético dos leitores sobre a proposta de fazer dessa uma obra de referência para a atual e as próximas gerações de estudiosos.


Originalmente publicada em italiano pela Einaudi, entre 2001 e 2003, a coleção teve uma versão reduzida (dois volumes) lançada na Inglaterra há três anos e foi saudada pelo crítico David Trotter, do London Review of Books, como um marco entre os estudos literários. Com justiça. O gênero romance é dissecado no "microscópio" de Moretti não só por especialistas em literatura como por antropólogos, sociólogos e filósofos. Num mundo globalizado, que ignora peculiaridades locais e em que cada vez mais fica difícil distinguir entre literatura francesa, angolana ou brasileira, Moretti propõe um seminário de crítica menos parecido com um simpósio da academia platônica e mais próximo de seu laboratório, em que bancos da dados críticos possam suprir as necessidades teóricas dos estudiosos.



Mudança na história literária



"No futuro teremos praticamente todos os textos literários online e as pessoas não saberão o que fazer com essa massa de informações, porque ter recursos disponíveis não significa nada", observa o italiano Franco Moretti, atualmente professor da Universidade de Stanford. "É preciso, mais que obter respostas interessantes, propor perguntas desafiadoras", diz. "É isso o que faz a crítica consequente", conclui o coordenador da coleção O Romance, que tem outros livros publicados no Brasil (entre eles o essencial A Literatura Vista de Longe, publicado pela Arquipélago Editorial).



De fato, qualquer internauta pode encontrar na rede um porto - mesmo inseguro - que assegure ser o primeiro romance moderno O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, ou garanta a James Joyce os direitos de criação do monólogo interior e do fluxo da consciência por conta de Ulisses. No entanto, é preciso um filósofo como o italiano Sergio Givone para mostrar como se dá a construção da interioridade no romance moderno, de Cervantes a Joyce - o que o autor de Hybris e Melancolia faz com mestria no primeiro volume de O Romance. É um dos grandes ensaios do livro. Nele, Givone se empenha em mostrar como o cavaleiro D. Quixote de Cervantes se assemelha ao marinheiro Robinson Crusoé de Defoe, cuja reclusão numa ilha ele compara à jornada do Wilhelm Meister de Goethe em busca do conhecimento do mundo. Não satisfeito, passa pela aventura espiritual da dupla Bouvard e Pécuchet de Flaubert para abordar a regressão à barbárie do Kurtz de Conrad e chegar às profundezas da consciência do Zeno criado por Svevo. Em todos eles, Givone, também um grande estudioso de Dostoievski, detecta uma atração pelo abismo, como se apenas um gigantesco desastre cósmico pudesse devolver a saúde ao planeta, livrando a Terra, como queria Zeno, "dos parasitas e das enfermidades".

Esse conflito entre destino e sujeito no romance moderno é destacado logo a seguir por Roberto Gilodi ao analisar o Anton Reiser de Karl Philipp Moritz. Como classificá-lo? Não é, evidentemente, um Bildungsroman, um romance de formação, mas, antes, um romance psicológico protofreudiano. O protagonista tem 7 anos quando começa a história (baseada em fatos reais) e chega aos 20, privado, portanto de "Bildung". Não amadureceu. É um romance tão bom como o Wilhelm Meister de Goethe, mas por que ficou esquecido ou lido, por equívoco, como um "documento secularizado de introspecção pietista"? Justamente pelo motivo que levou Moretti a conceber a coleção: pela ideia de cânone, de hierarquia, defendida por Harold Bloom. "Não encontro originalidade em Bloom e gostaria de observar que a história da literatura obedece a ciclos regulares, sendo preciso analisar as formas narrativas como a biologia evolutiva estuda a formação dos seres", justifica Moretti, propondo acabar com essa lista dos dez mais, como se a literatura fosse concurso de miss. "Não entendo como alguém pode investir energia nisso."

Moretti está mais interessado em preservar a tradição do romance numa época de fundamentalismo religioso e intolerância política. Lembra, a propósito, do ensaio O Romance sob Acusação, de Walter Siti, crítico e curador da obra completa de Pasolini para a Mondadori. Nesse texto, publicado já no primeiro volume, Siti mostra como os romances e os livros sagrados correm perigo "toda vez que predomina uma ideologia de guerra", citando a Inquisição, que identificava no "livre pensar" seu demônio ideológico. Não por outra razão, segundo Siti, o romance é o único "que tem necessidade de renegar-se a si mesmo" entre todos os gêneros literários, citando como exemplo o século 18 (quando o gênero se consolidou), "repleto de romances que negam sua natureza". Defoe, como Rousseau e Diderot, temendo que os leitores identificassem o romance como uma falsificação da realidade, chegaram a abjurar o gênero que os consagrou.

Desacreditado, ele atravessou séculos e sobreviveu a ataques de religiosos e autoridades civis (Vargas Llosa diz que as culturas religiosas produziram poesia e teatro, mas nunca grandes romances). E, se Moretti selecionou críticos de formação marxista para contribuir com sua coleção, o fez pensando justamente em oferecer uma visão histórica para a reabilitação do romance, que, hoje, corre o risco de declínio por excesso de autorreferência e falta de imaginação. "Não organizei a coleção por simpatia ideológica (Moretti é marxista e colabora com a New Left Review), mas por respeito a esses críticos." E é com a crença de que, análogo ao procedimento de Darwin, o romance possa ser analisado como um processo de seleção natural - em que Flaubert, Proust e Jane Austen teriam o mesmo DNA -, que Moretti preparou os outros quatro volumes da coleção, que vão discutir as formas literárias (volume 2), a história e a geografia do romance (volume 3), os temas e heróis (volume 4) e as lições do gênero (volume 5). A principal delas, segundo Moretti: "Hoje, quando o videogame toma o lugar do romance, mais do que nunca, é preciso ter espírito crítico."