quinta-feira, 22 de maio de 2014
UFSM não terá mais Vestibular
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Leituras Obrigatórias UFSM 2011
Segue a lista de livros para o novo vestibular da UFSM:
Prova Seletiva 1, referente aos conteúdos da 1a série do Ensino Médio
- A poesia de Gregório de Matos Guerra.
- O Uraguai de Basílio da Gama – Cantos I, II e III.
- Marília de Dirceu de Thomás Antônio Gonzaga.
Prova Seletiva 2, referente aos conteúdos da 2a série do Ensino Médio
- Grandes Poemas do Romantismo Brasileiro – Nova Fronteira
- Memórias de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida.
- O cortiço de Aluísio de Azevedo.
- Contos de Machado de Assis - Ed. L&PM.
Prova Seletiva 3, referente aos conteúdos da 3a série do Ensino Médio
- Libertinagem e Estrela da Manhã de Manuel Bandeira.
- A rosa do povo de Carlos Drummond de Andrade.
- Antologia Poética de Vinícius de Moraes – Companhia das Letras.
- Primeiras estórias de Guimarães Rosa.
- Laços de família de Clarice Lispector.
- O Continente (vol. 1) de Érico Veríssimo.
- O matador de Patrícia Melo.
- Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato.
Novos resumos serão postados aqui no blog em breve. Fique ligado!
UFSM abre inscrições para o vestibular 2011 nesta segunda
A UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), no Rio Grande do Sul, abre nesta segunda-feira (2) o período de inscrições para o processo seletivo 2011 (seriado e único) e para o Peies (Programa de Ingresso ao Ensino Superior) 2010.
As inscrições podem ser efetuadas pela internet, até o dia 10 de setembro. O valor da taxa de inscrição é R$ 75 para o vestibular único e R$ 35 para o seriado e o Peies.
O candidato poderá solicitar isenção de taxa até o dia 6 de agosto. Para concorrer ao beneficio é preciso estar inscrito no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal) e ser membro de família de baixa renda. O resultado dos pedidos de isenção será divulgado em 12 de agosto.
A partir deste ano, a seleção da UFSM será dividida em Processo Seletivo Seriado e Processo Seletivo Único. O Peies terá sua última edição em 2011. Confira aqui a nova estrutura do vestibular.
As provas do Peies 2010 serão realizadas no dia 12 de dezembro, no período da tarde. O exame para o processo único e seriado será realizado de 05 a 07 de janeiro de 2011. A nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2010 vai representar 20% da nota do candidato no processo único.
Outras informações podem ser obtidas no site da universidade ou pelo telefone (55) 3220 8170.
INSCRIÇÃO VESTIBULAR UFSM 2011
EDITALVESTIBULAR UFSM 2011
LEITURAS OBRIGATÓRIAS UFSM 2011
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Listão UFSM 2010: Aprovados no vestibular serão conhecidos no sábado
Aprovados no vestibular da UFSM 2010 serão conhecidos no sábado
Lista dos novos bixos da Federal de Santa Maria será divulgada às 9h, na Câmara de Vereadores
O tão esperado listão dos aprovados no Vestibular de Verão da Universidade Federal de Santa Maria de 2010 será divulgado no próximo sábado, dia 30, a partir das 9h, na Câmara de Vereadores de Santa Maria.
A confirmação foi dada na manhã desta quarta-feira pela Comissão Permanente do Vestibular (Coperves), durante a divulgação da lista dos aprovados pelo Peies. As provas do vestibular ocorreram de 13 a 15 deste mês. São 3.642 vagas.
Fonte: ClicRBS
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Começa vestibular 2010 da UFSM; provas seguem até sexta

Começaram nesta quarta-feira, às 8h, as provas do vestibular 2010 da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), do Rio Grande do Sul. Até as 12h, os candidatos encaram as provas de Biologia (10 questões), Filosofia (5), Física (10), Geografia (10), História (10) e Química (10).
Na quinta, 14, com início também às 8h e igualmente com até 4 horas de duração, são aplicados os testes de Filosofia (5), Língua Portuguesa (10), Literatura Brasileira (10), Matemática (10) e Língua Estrangeira (10).
Na sexta, 15, o vestibular se encerra com a aplicação da prova de Redação, que tem início às 14h. Os vestibulandos dispõem de 2 horas para compor o texto.
Os candidatos devem se apresentar no local de realização das provas 30 minutos antes do seu início, portando a sua ficha de inscrição (no primeiro dia de provas), um documento de identificação e uma caneta esferográfica de tinta azul ou preta.
Os gabarito são divulgados às 15h, nos dias de realização das provas.
Neste ano, 18.542 se inscreveram no vestibular da UFSM. Eles disputam 2.825 vagas em Santa Maria, 316 em Frederico Westphalen, 285 em Palmeira das Missões e 160 em Silveira Martins. Cinco cursos estreiam neste vestibular: Sistemas de Informação - Noturno (em Frederico Westphalen), Ciência Econômica - Noturno (em Palmeira das Missões), Serviço Social - Noturno, Licenciatura em Teatro e Tecnologia em Sistemas para Internet (estes três em Santa Maria).
O resultado está previsto para o dia 29 de janeirom, duas semanas após o término das provas.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Resumos: Laços de Família (Clarice Lispector)

LAÇOS DE FAMÍLIA
(Clarice Lispector )
Prof. Teotônio Marques Filho
(com a colaboração da Profa. Deisa Chamahum Chaves)
LEIA A ANÁLISE COMPLETA DO CONTO "AMOR"
VÍDEO: ENTREVISTA COM CLARICE LISPECTOR
INTRODUÇÃO
Estreando em 1944, com Perto do coração selvagem, Clarice Lispector for recebida com entusiasmos pela crítica brasileira. Sérgio Miliet saudou o romance como “a mais séria tentativa de romance introspectivo entre nós”, enquanto Antônio Cândido antevia na jovem escritora (tinha, então, 19 anos), a afirmação de “um dos valores mais sóbrios e, sobretudo, mais originais de nossa literatura”, dada “a intensidade com que sabe escrever e a rara capacidade de vida interior”.
Além do romance citado, sua obra romanesca compõem-se de O lustre (1946), A cidade sitiada (1949), A maça no escuro (1961), A paixão segundo G.H. (1964), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969) e A hora da estrela (1977). Na área do conto, destacam-se as coletâneas Laços de Família (1960), A legião estrangeira (1964), Felicidade clandestina (1971) e A imitação da rosa (1973). Além de romances e contos, Clarice Lispector é também autora de livros de crônicas (Visão de esplendor, de 1975) e obras infantis (O mistério do coelhinho pensante, de 1967, A mulher que matou os peixes, de 1969, e A vida íntima de Laura, de 1974).
De origem russa (nasceu numa cidadezinha da Ucrânia em 1925), Clarice Lispector, ainda criança, vem com a família para o Brasil, onde se fixa (Nordeste inicialmente, e depois Rio de Janeiro). Sua formação intelectual e literária dá-se, pois, totalmente no Brasil. Casada com um diplomata (Maury Gurgel Valente), acompanha-o pela Europa e Estados Unidos onde nascem os seu dois filhos: Pedro (Suíça) e Paulo (Estados Unidos). De volta ao Brasil, separa-se do marido e passa a levar uma vida bastante isolada em seu apartamento, no Rio de Janeiro, ao lado do cão Ulisses, seu companheiro inseparável. A solidão, bem como a presença de animais, é um dos aspectos freqüentes em sua obra. Em 1977, morre de câncer, um dia antes de seu aniversário, 9 de dezembro.
“Questões filosóficas profundas, como a verdade e a condição humana, estão colocadas nos romances, contos e crônicas de Clarice. Essa reflexão é sempre despertada a partir de um fato aparentemente banal, e jorra como produto incontrolável de um fluxo de consciência. A tomada de consciência pelas personagens de Clarice obedece muitas vezes a um ritual reflexivo, tortuoso e, até mesmo, doloroso. E é precisamente nesse momentos que a obra da autora se revela em toda a sua beleza e profundidade, embora isso incomode a visão estereotipada e pacata corrente na classe média urbana, onde ela preferia localizar suas personagens" ("Literatura Comentada"- Abril Educação).
Na ficção de Clarice Lispector, destaca-se a introspecção, que ao pé da letra, quer dizer visão para dentro, e é mais ou menos isso que vamos observar na autora: partindo da vida interior de suas personagens, preocupa-se a escritora "menos em desvendar-lhes o mecanismo psicológico dos atos que a própria razão metafísica do seu estar no mundo". Partindo sempre de casos aparentemente banais (o leitor que lhe buscar apenas o enredo sairá certamente frustrado), a escritora se volta para o mundo interior das personagens, dissecando-as com a sua máquina de raios-X, fazendo-as divagar sobre o sentido de sua existência e sobre os eu estar no mundo. O resultado é extremamente doloroso e angustiante: a existência humana não tem sentido, se captada racionalmente. Só resta então uma solução: viver inconsciente e massificado, integrando-se nas estruturas e convenções que o mundo oferece, ou então marginalizar-se. É exatamente essa consciência do existir que "estabelece uma angustiosa dualidade na inteireza do ser" (José Paulo Paes).
Assim, é de notar-se que essa conscience malheuse, essa problematicidade da existência em face do universo, aflora nas personagens de Clarice Lispector, por via de um momento de iluminação intuitiva, por vezes de um incidente aparentemente trivial", como aquela brusca freada que aparece em "Amor" e "Os laços de família", a qual desperta a personagem para ver as coisas além da casca da rotina em que vive atolada. De um modo geral, todos os meus contos apresentam essa visão introspectiva. Outro exemplo é "O crime do professor de Matemática", em que, ao enterrar um cão morto, " o protagonista da narrativa se dá conta do que em si havia de culpa metafisicamente irresponsável" (José Paulo Paes).
É a partir daí que o iluminado se desprende dos laços convencionais da vida comunitária para viver, na nudez da autoconsciência, o seu drama existencial. Esse é o momento de introspecção, em que a personagem se desliga do mundo para se interiorizar no seu mundo e nas suas indagações metafísicas.
Depois tudo volta à normalidade, e a vida continua corrida e besta como ela é, pautada pela rotina e pelo artificialismo das convenções sociais.
Com relação aos contos de Laços de família, pode-se dizer que Clarice Lispector inovou, não apresentando aquela estrutura rigorosa que o conto tradicional requer como espécie literária. É que,, para o escrito pós-modernista, as regras têm função mais descritiva que normativa, embora os meus contos apresentem uma característica básica do conto como espécie literária: a concisão.
Como salienta o crítico Massaud Moisés, Clarice Lispector, com Laços de família, "deu ao conto sem ou quase sem enredo, uma dimensão nova graças à sua singular capacidade introspectiva", e alguns deles, como "Os laços de família", "O crime do professor de Matemática", "Feliz aniversário", "Uma galinha", "O búfalo" e "A imitação da rosa", consagram definitivamente a autora e acrescentam à literatura brasileira uma dimensão sobremaneira original e enriquecedora.
OS CONTOS DE LAÇOS DE FAMÍLIA: SÍNTESE E PROBLEMÁTICA
1) Devaneio e embriaguez de uma rapariga. O conto enfoca uma situação de fastio e tédio que envolvem as pessoas que se deixam enclausurar pela rotina da vida moderna, enjaulando-se no dia-a-dia de um apartamento.
Cenas vagas, aéreas, vão-se deslizando pela mente embriagada de uma rapariga - casada e mãe. Os devaneios são constantes. A realidade presente, concreta - rara - muito rara.
Densa angústia a deprime e comprime. Esmaga-a o dia-a-dia, sempre cercada das mesmas coisas e do mesmo afeto.
"— Ai que não me maces! Não me venhas a rondar como um galo velho!"(7). Enclausurada no seu mundo, esmagada pela rotina diária, nada lhe agrada: "Mas ela nem sequer a responder-lhe, a alçar os ombros com um muxoxo amuado, importunada, que não me venhas a maçar com carinhos; desiludida, resignada, empanturrada, casada, contente, a vaga náusea"(15).
O protetor do marido passa-lhe pela mente. Roça-lhe o pé "por baixo da mesa, e por cima da mesa a cara dele" (15). Tinha o direito e quebrar a rotina? "— Cadela, disse a rir"(16).
Tecnicamente, o conto é narrado sob a forma de um monólogo interiorizado - o que lhe confere em caráter nitidamente introspectivo.
Nem foi preciso dizer que a personagem é portuguesa: a própria linguagem se encarregou disso. É o que se pode depreender a partir do uso de certos vocábulos ("elétricos", "miúdos", "fato", "peúgas", "pasto" etc.); construções frásicas ("estava a se pentear", "estivessem à casa", "se mo permite"); uso do sufixo diminutivo - ito ("frecurazita", "vestidito", "dedito" etc); e uso do apóstrof em muitas expressões ("d'impaciência", "d'enfeites", "d'arte" etc).
2) Amor. Esquematicamente, diríamos que o tema deste conto é o mundo de rotina x cego (libertação).
"Amor" é semelhante ao conto anterior: está também sob o signo da rotina, onde a personagem vive sem refletir que há todo um mundo à sua volta, diferente a cada minuto, novo a cada momento. Ana é uma bem comportada mãe de família com filhos, marido e apartamento a cuidar: "Assim, ela o quisera e o escolhera"(19).
O seu mundo, porém, está prestes a desmoronar: o sossego de sua vida-agradável-burguesa dilui-se com uma freada brusca do ônibus e com um cego que mascava chicles. A partir daqui a insegurança domina-a, dilacera-a, e Ana se desprende da pacatez do seu mundo de rotinas: Ana já não era a mesma. Tem medo de perder o seu refúgio, de desmoronar o seu lar em que "tudo foi feito de modo que um dia se seguisse ao outro" (22) e em que "se podia escolher pelo jornal o filme da noite" (30).
Então tenta desesperadamente se reencontrar. Densa angústia: “Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa!”(27). Tenta desesperadamente se fechar, se enclausurar no seu mundo interior -–no mundo de sua rotina, “afastando-se do perigo de viver”(30).
Livre do cego que a faz enxergar o mundo que a rodeia e os anseios a que renunciara como esposa, Ana, nos braços seguros do marido, “sem nenhum mundo no coração”, deita tranqüila e em paz: ”Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia”(30).
3) Uma galinha. “Uma galinha” é um conto que mais parece uma cr6onica. Trata-se de uma galinha que foge à morte e ao almoço dominical de uma família. Perseguida pelo chefe-de-família, o bichinho “tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça”(32).
“Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada”(32). E, cansada de fugir, acaba sendo presa pelo perseguidor.
Mas definitivamente, aquela família não teria carne de galinha naquele domingo: “de pura afobação a galinha pôs um ovo”(33). E o chefe-de-família então decidiu:
“— Se você mandar matar esta galinha, nunca mais comerei galinha na minha vida!” (33).
E assim a galinha passou a “morar com a família”, até que seu convívio virasse rotina.
“Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se os anos”(34).
Ela era sempre uma galinha – desde “o começo dos séculos”, e seria capaz de atuar sobre seu próprio destino e a sua própria condição galinácea.
Tendo, mais uma vez, o mundo restrito da pequena burguesia tradicional como pano de fundo, o conto volta a insistir numa temática básica de Clarice: “a alteração do cotidiano atuando profundamente nos sentimentos das personagens. É interessante observar que o próprio fato voltará a ser rotina e as pessoas esquecerão suas emoções”.
4) A imitação da rosa. A realidade exterior, ou seja, o motivo de “A imitação da rosa” é aparentemente banal: Laura, a personagem central do conto, vê-se envolvida com relações rotineiras: jantar em casa de amigos, e, à espera do marido (Armando), hesita em enviar à anfitriã (Carlota) um buquê de rosas que comprara para si.
É nessa hesitação que o drama interior da personagem vai-se revelando: Laura revive um passado de angústias, imersas nas suas próprias reflexões, abandonada num mundo vazio, onde não há filhos em que a rotina e a normalidade eram um imperativo avassalador. Laura se angustia e se autoflagela com seus devaneios tortuosos de torturas.
A beleza das rosas revela a sua obsessão pela perfeição: “sinceramente, nunca vi na minha vida coisa mais perfeita”(50). E as rosas, que passam a representar uma presença no apartamento vazio, são suas: “eram lindas e eram suas” (49).
Tendo ainda como meta o perfeccionismo, outra obsessão sua é a ordem, o método, o detalhe: “seu velho gosto pelo detalhe”(40); “seu minucioso gosto pelo método”(36); enfim, “ magoava-a que Carlota desprezasse seu gosto pela rotina”.
5) Feliz aniversário. “Trata-se do conto mais irônico do livro. Por isso o mais mordaz, o que enxerga a vida com mais negativismo. Há um a perversidade implícita na forma da velhice e da vida. A rotina deixa de ser habitual para ser constante, existencial. E a ruptura dela é anual, vem de fora do mundo cansado que nos envolve, porque ele é nossa própria obra”.
O entrecho do conto, o seu ponto de partida, é um aniversário – aniversário de uma velha de 89 anos, que mora com a filha Zilda, a única que tinha condições de hospedá-la.
À noitinha, os filhos vão chegando, cada um mais superficial que o outro, o que a velha vai percebendo através do seu monólogo interior e seu aparente mau humor.
A superficialidade do tratamento fraternal, as rixas entre noras, as diferenças econômicas entre os vários irmãos, a educação diferente dos netos e bisnetos, os presentes imbecis e sem utilidades, s conversas vazias e forçadas, as aparências para “manter os laços” vão surgindo no conto e evidenciando a degradação da instituição familiar. Tudo isso deprime e escangalha a aniversariante, que, rancorosa, desabafa o seu ódio e a sua angústia:
“— Que vovozinha que nada!” explodiu amarga a aniversariante. “Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundos!”(68).
Depois todos se vão, e a aniversariante, quase nonagenária, permanece “sentada à cabeceira da mesa, ereta, definitiva, maior do que ela mesma... Será que hoje não vai Ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério”(75).
6) A menor mulher do mundo. Um explorador francês (Marcel Prete) descobre na África Equatorial a menor tribo de pigmeus do mundo e, dentro dela, a menor mulher do mundo: um ser humano de apenas, 0,45cm de altura a quem batizou como a carinhoso apelido de Pequena Flor. E descobre o francês: Pequena Flor, bem como a sua tribo (likoulas) estavam na iminência de ser exterminados: os bântus vivam caçando-os com redes e devoravam-nos. Na longínqua África, um ser humano (embora de 0,45cm...) estava em perigo de morte.
O achado foi publicado em jornal “onde coube em tamanho natural”(79). Mas, em vez de provocar sentimentos de piedade nas pessoas grandes, “a menor mulher do mundo” “causa sensacionalismo e uma curiosidade mórbida motivando diferentes reações: “aflição”, “perversa ternura”, “tristeza de bicho”. Em apenas uma criança de cinco anos, a reação é espontânea e sincera.
“— Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! Olhe só como ela é tristinha!”(80)
No conto, como é fácil perceber, a sociedade rejeita qualquer ser ou coisa que não se enquadra na sua estrutura convencional e preestabelecida: “Deus sabe o que faz”(86).
7) O jantar. É o primeiro conto em que a personagem principal é masculina.
Num restaurante, entra um velho esfomeado para jantar. Num outro canto, alguém lhe espreita e acompanha os mínimos movimentos, do início ao fim da refeição. Observa-lhe as indecisões, os gesto, as mãos peludas, e mesmo os dentes postiços. Procura captar-lhe “as profundezas”, “mas é inútil. A grande aparência que vejo é desconhecida, majestosa, cruel e cega” (91).
Aqui, mais uma vez, sobressai a temática freqüente de Clarice: pessoas que fogem dos meus sentimentos, escondendo-se sob uma casca dura através de si mesmas. Pessoas que, para fugirem da própria fraqueza, chegam à impessoalidade, à quase inumanidade. É o caso do velho, que, por trás da aparente tranqüilidade, certamente traz no seu íntimo um vulcão de problemas.
É exatamente isso que motiva a explosão de raiva de que é portador o narrador e observador do velho:
“Mas eu sou um homem ainda.
Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, eu perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer – eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue” (92-93)
8) Preciosidade. Novamente uma figura feminina volta a ser a personagem central: uma estudante de 15 anos, que não era bonita, mas que trazia dentro de si uma preciosidade - algo "que era intenso como uma jóia. Ela"(95).
Introspectiva, tímida, medrosa, excessivamente pudica, ela se esconde de tudo e de todos, procurando passar sempre despercebida, utilizando um aparência sóbria e fria como seu único meio de defesa: "Estou sozinha no mundo" Nunca ninguém vai me achar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!".
Este "estar sozinha no mundo" era a sua preciosidade. Até que um ida foi tocada e o mistério de sua preciosidade maculado por passos que a seguem na madrugada sombria e algodoada. Então passa a ser mulher e "ganhou os sapatos novos"(108): ela se enquadra na estrutura e convenções sociais.
9) Os laços de família. Aqui é mãe (Severina) e filha (Catarina) que não se entendem.
O genro (Antônio), casado com Catarina, completa o triângulo da rotina e do desamor, reaparecendo, plenamente, a temática fundamental de Clarice: "não esqueci de nada? Perguntava pela terceira vez a mãe" (109). Sim. Ela esquecera alguma coisa: o sentimento, o amor que não existe entre elas, "como se mãe e filha" fosse "vida e repugnância" (112). "Mas agora era tarde demais. Parecia-lhe (a Catarina) que deveriam um dia Ter dito assim: sou tua mãe, Catarina E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha" (113). Entre elas não havia mais sentimento. E, para perceberem isso, foi preciso, mais uma vez uma "freada brusca" que as despertasse. A rotina superficializada os sentimento; o enquadramento social exigira comportamentos pré-determinados, palavras necessárias e vazias de significado; entre elas só havia palavras carregadas de atrito, de desencontro, de monotonia e irritação.
No seu apartamento, onde "tudo corria bem", trancado nas quatro paredes do seu "Sábado", o genro lê indiferentemente:
"— Catarina, esta criança ainda é inocente!"
Por trás dessa situação está uma verdade terrível: ou viver dentro da rotina ou quebrá-la, provocando neste último caso, o caos, o colapso, o pânico: o desvendamento de uma verdade monstruosa; verdade esta tão gritante, tão caótica, que ameaça a ruína completa. A única solução, então, "o único refúgio é a remodelação paciente da rotina, para que a verdade novamente seja contida: a fuga eterna dos homens de si mesmos!"
"— Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem (120).
Com relação à técnica, é curioso observar como a autora realça os olhos de Catarina: analisa-a pela expressão dos seus olhos, porque os olhos, sem dúvida, são a janela da alma.
10) Começos de uma fortuna. Aqui são colocados dois problemas que aprecem ser responsáveis por grande parte das angústias, desequilíbrios mentais e crimes da atualidade: o dinheiro e a falta de comunicação dentro do próprio lar. Na sociedade moderna, dita "de consumo", o homem tece um mundo de sonhos e aspirações "totalmente" impossíveis sem o dinheiro que ele, na maioria das vezes, não tem. Só se lhe apresentam duas saídas: ele toma emprestado e vai-se envolvendo em dívidas sempre maiores: "Mas depois eu tenho de devolvê-lo a você e já estou devendo ao irmão de Antonio"(126), ou perde-se em conjectura: "se eu tivesse dinheiro... pensava Artur"(121). Artur, menino ainda, dá os primeiros passos na construção do que será um dia a sua fortuna: talvez uma dezena de quimeras, talvez centenas de promissórias.
"Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas; papai, como são promissórias?" (129).
Artur vai aprendendo as manhas da vida e das pessoas: "Pelo visto, disse desviando do amigo a raiva, pelo visto basta você Ter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima" (126).
As circunstâncias vão crescendo em importância, a necessidade de ser aceito se impõe, e Artur, "... à porta do cinema não pode deixar de pedir emprestado a Carlinhos, porque lá estava Glorinha com uma amiga"(127).
Dentro do lar, sua mãe, entregue demais às obrigações, não entendia seu problema: "A mão olhou-o seca como a um estranho, No entanto ele era mais parente que seu pai, que, por assim dizer, entrara na família"(122).
Patenteia-se neste conto, como em outros, também a situação dramática da mulher dona de casa, esposa e mãe, associada ao fogão e a trabalhos domésticos, sem outra função que a de procriar e aprontar roupa e comida para os hóspedes: marido e filhos.
"Coma mais batatas, Artur, tentou a mãe inutilmente arrastar os dois homens para si"(129).
Mas eles estavam perdidos sem seu mundo, falando de promissórias.
"Promissórias, dizia o pai afastando o prato, é assim: digamos que você tenha uma dívida"(129)
11) Mistério em São Cristóvão. Neste conto, podemos observar tendências surrealistas. Clarice explora o subconsciente construindo uma simbologia complexa e difusa. A partir do próprio título, verificamos, de certa forma, o caráter velado do acontecimento. O caso se dá numa noite de maio, em casa de uma família onde "as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade (19 anos), e a avó atingiu um estado!"(132). Nessa noite, após cada um ir se deitar, seguindo os padrões de uma vida sem graça, sem novidades, tem lugar o episódio: três mascarados, um galo, um touro e um demônio, invadem o jardim da casa para colher jacintos. “Um jacinto para pregar na fantasia” (133). O intuito dos três não é consumado porque descobrem o rosto da jovem olhando-os justamente quando haviam quebrado a haste de uma das flores.
“Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados eles se olhavam” (134).
“Um galo, um touro, um demônio e um rosto de moça haviam desatado a maravilha do jardim...” (135).
Algo aconteceu entre estas quatro criaturas, algo que as perturbou profundamente, algo que quebrou a rotina maçadora de suas vidas comuns. No jardim, por instantes, os quatro se fixaram, e algum mistério de não sei onde, se fez ou desfez. No entanto, “era um toque perigoso para as quatro imagens” (135).
Pressentindo o perigo, os três mascarados fogem, e a moça grita. A família volta sua atenção e cuidados para a mocinha cuja única expressão fora o grito, e, entre seus cabelos, apareceu um fio branco. Por instantes, a família, com exceção das crianças, se preocupa com o fato. De alguma forma o acontecimento os toca, e eles se tornam “atentos e inquieto?. “A mocinha já não vivia a perscrutar” (136), e tudo aos poucos volta ao de sempre: “...a avó, de novo pronta a se ofender, o pai e a mãe fatigados, as crianças insuportáveis...” (137).
Tal como nos contos “Os laços de família” e “Amor’, onde a freada do táxi e a arrancada do bonde representam momentos de tomada de consciência, aqui, em “O mistério de São Cristóvão”, o momento crucial se dá quando há o grito da moça, sinal de uma dor e de um espanto que se sucedem à experiência mágica que interrompe o fluir monótono dos dias sem sentido.
12) O crime do professor de Matemática. Este é outro conto que apresenta uma personagem masculina no papel principal. Trata-se de um professor de Matemática que encontra um cachorro morto numa esquina e resolve enterrá-lo, buscando, com isso, punir-se pelo fato de ter abandonado seu próprio cão numa outra cidade. Após fazê-lo, o professor sente-se livre e começa a pensar no seu cão. Assim, através de um monólogo de grande beleza e profundidade, Clarice vai deixando suas pinceladas de filosofia de vida: o cão (José) pertencera desde filhotinho ao professor de Matemática e juntos haviam brincado e se entendido. No entanto, o que não permitiu a continuidade deste relacionamento foi uma exigência do cão: “De si mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem” (144).
O professor, incapaz de cumprir tal requisito, escolheu abandonar o cão, e, com ele, a preocupação de procurar satisfazer a exigência. Abandona-o com alivio.
“Com alivio sim pois exigias com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heróico - que eu fosse um homem” (145).
O monólogo prossegue e a lucidez do professor vai aumentando. Ele conclui que, na verdade, cometera tal crime por ser uni “crime menor”, pelo qual “ninguém vai para o inferno”. Ninguém poderia condená-lo por ter somente largado um certo cão à sua própria sorte. Ao ver o outro cão, porém, o professor sente que deveria compensar sua atitude. Lembramos aqui a “lei da equivalência das janelas” ou “lei da compensação moral”, explicada em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, através da qual o homem busca sempre justificar seus atos ou idéias com outros atos e idéias. O processo de aclaramento da visão interior continua e o professor reflete que talvez “o cão abandonado exigisse dele muito mais que a mentira”, exigisse que ele ‘fosse um homem - e como homem assumisse o seu crime” (147). Premido por este raciocínio, o professor desenterra o outro cão que há pouco enterrara e volta para a sua casa, a sua família. Cremos perceber no José o chamamento para um exercício consciente de uni papel - o papel de HOMEM -, ao qual os homens quase sempre querem fugir. José é tudo aquilo que nos impele à atitude, nos exige um parecer, nos lembra da vida. Se o professor tivesse compensado o seu crime com o enterro de outro cão, ele estaria se esquecendo do chamamento do próprio intimo para a realização como HOMEM.
13) O búfalo. A exemplo de “Os laços de família”, temos aqui uni conto de grande intensidade dramática. Focaliza uma mulher infeliz no amor, rejeitada pelo homem a quem só sabe amar e “cujo crime único era o de não amá-la” (151).
Esta mulher trazia no peito, “que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a secreta vontade de matar, a necessidade de odiar “(155).
“Onde aprender a odiar para n~2’o morrer de amor? E com quem?” (155).
A mulher vai ao jardim zoológico na tentativa de aprender com os animais este sentimento que procura, mas, como é primavera “o mundo das bestas se cristianiza em patas que arranham mas não dói...” (155).
Presa de si mesma, enjaulada no seu amor, ela tudo enxerga transbordando AMOR. Até que viu o búfalo negro ao entardecer. Seja pelo cansaço, por ser pôr-
-de-sol, por ele ser grande e negro, seja pelo que for, o fato é que o búfalo a faz sentir o que buscava: “a vontade vagarosa de matar”, o ódio, enfim. E copiando a tranqüilidade nervosa do bicho, ela pode dizer: “Eu te amo”, com ódio. O conhecimento do ódio de certo modo a faz morrer um pouco e ela cai, perto da cerca do búfalo guardando a imagem de contornos suaves e duros, olhos pequenos e calmos.
O ESTILO DE ÉPOCA
A obra de Clarice Lispector se localiza na terceira fase do Modernismo, que muitos preferem chamar de Pós-Modernismo.
1) Como é próprio dos autores (pós)-modernistas, a maneira de fazer literatura de Clarice Lispector marca-se pela originalidade e pelo modo anti-convencio-nal com que organiza o texto. O autor (pós)-modernista, e especialmente Clarice Lispector, sempre foge das convenções estabelecidas e da linguagem estereotipada, o que, aliás, já vai expressando o conteúdo temático de sua obra - tirar a máscara das formalidades e revelar a verdade subjacente em cada uni.
2) Coerente com essa postura do autor (pós)-modernista, é freqüente nas obras desse estilo de época o emprego da técnica surrealista, em que a narrativa vai brotando à mercê do fluxo da consciência do condutor da estória.
Essa visão surrealista que perpassa alguns dos contos pode ser notada sobretudo em “Amor” (a imagem do cego a perseguir a personagem, a necessidade que Ana tem de amar o cego representa bem sua ânsia de se entregar ao seu mundo obscuro e desconhecido) e em “Mistério em São Cristóvão” (a coincidência fatalista que envolve aquelas “quatro máscaras” numa noite de magia).
3) Nessa linha de raciocínio, as obras (pós)-modernistas, concebidas e elaboradas à maneira surrealista, sempre provocam discussões e polêmicas por porte do leitor. É a concepção da obra aberta, sujeita a interpretações várias, em que o autor não entrega o produto mastigadinho - pronto para ser consumido.
Como ressaltam Youssef-Abdalla a propósito da obra da autora, em “Lite-ratura Comentada”, “Clarice respeita o seu leitor, por isso ela cria, na viagem de suas personagens, um novo espaço de liberdade, dentro do jogo ficcional. É um jogo onde todos - narrador, personagens e leitor - devem participar de forma ativa”. Laços de família sem dúvida, enquadra-se perfeitamente nessa concepção de obra aberta.
4)A realidade brasileira, em que sempre se embasa a literatura modernista, pode ser detectada em Laços de Família em que traços da nossa cultura podem ser vislumbrados.
Essa aparência brasileira, entretanto, é altamente enganosa no livro como, aliás, em todos os grandes autores (pós)-modernistas. O homem aqui é visto como ser humano na sua dimensão universal: é o homem moderno, de qualquer espaço, alienado e esmagado pela rotina, descaracterizado e perdido no anonimato dos grandes centros urbanos.
5) Embora correta, apesar das inovações, a linguagem de Clarice Lispector, como é comum no (Pós)-Modernismo, apresenta traços da linguagem coloquial em que as normas morfo-sintáticas não são observadas. Isso, evidentemente, faz sentido, pois o que a autora pretende é adequar a linguagem à personagem, fazendo o registro do seu modo próprio de falar.
ESTILO / LINGUAGEM
A maneira de escrever de Clarice Lispector é bastante coerente com o seu
modo de ser e com o estilo de época em que se enquadra. Como já observamos, a
forma de expressão utilizada por ela - original e desestereotipada - revela bem o
conteúdo temático apresentado.
1) Clarice Lispector não se preocupa em contar uma estória. Sua preocupação maior é com as impressões, como ela própria observa: “os meus livros não se preocupam com os fatos em si, porque para mim o importante é a repercussão dos fatos no indivíduo”.
2) “Rompe-se assim a narrativa referencial ligada a fatos e acontecimentos. Em lugar dela, emerge uma narrativa interiorizada, centrada num momento de vivencia interior da personagem (ou narrador)” - observam Youssef- Abdalla, em “Literatura Comentada”. O seu estilo, pois, - que lembra Machado de Assis - é arrastado, anda devagar, porque a sua preocupação é desvendar a verdade subjacente em cada um, mascarada pela casca da rotina.
3) Essa tendência para a introspecção gera, em Clarice Lispector, um certo cerebralismo manifestado através da linguagem paradoxal, mais em nível do pensamento e da idéia. É uma literatura de reflexão, que exige do leitor muito esforço para entender e desvendar o mistério que envolve aquilo que a autora quer transmitir. Essa postura da autora está evidentemente bem coerente com a concepção de obra aberta da literatura (pós)-modernista.
4) Outra preocupação da autora é casar forma com conteúdo. E o que observa a dupla Youssef-Abdalla: “É admirável sua consciência técnica adequando forma e conteúdo. Por exemplo dissocia as unidades narrativas para mostrar a falta de ligações mais profundas na sociedade. Organiza a narrativa em ritmo lento, para contrastar com o movimento da vida nas grandes cidades. Filtra todos os fatos através de uma consciência que se isola do conjunto - eis ai a solidão do homem moderno”.
5) Como ressalta o crítico Luis Costa Lima, “a linguagem de Lispector contém como que uma armadilha: a sua simplicidade enganosa, podendo dar ao leitor a impressão de uma planura sem fim, de uma superfície horizontal”. Eis outro elemento básico para a compreensão de Clarice. Não se iluda o leitor: por trás dessa aparente simplicidade lingüística muitas verdades dolorosas se escondem: “toda a clareza tem seu reverso e mesmo na coisa comum podemos condensar perguntas que não se desejam”.” Para que conto mais simples do que “Uma galinha”? Entretanto, por trás daquela história, muitas verdades se escondem.
É curioso observar aqui que essa linguagem comum, revestindo aparente-mente um desenrolar de ocorrências, “é um correlato, ao nível da linguagem, da opacidade do mundo” (Luís Costa Lima).
6) Outro aspecto que marca bem o estilo de Clarice Lispector é a sua tendência para os seres frágeis e irracionais - próximos do “coração selvagem”. Essa busca, que remonta “ao mundo pré-vegetal anterior aos símbolos e à cultura”, esta bem coerente com a profunda introspecção que configura suas obras. Dessa forma essa “simplicidade enganosa” mascara problemas existenciais, subjacentes no recôndito do homem. O que a autora pretende é exatamente desvendar o mistério que se esconde sob essa casca de simplicidade.
7) Mascaradas pela rotina do dia-a-dia, suas personagens sempre têm, como observou o poeta Affonso Romano, um momento de “epifania”, “quando acontece um evento ou incidente que ilumina a vida da personagem”.
8) Coerente com essa tendência, a obra de Clarice Lispector é povoada de “bichos”: cavalo, galinha, barata, aranha, búfalo, gato, cão etc. Essa presença revela bem a sua busca do “coração selvagem”, irracional, que configura um mundo de harmonia, sem a complicação do mundo dos homens.
9) Embora se expresse em prosa, como é próprio do conto, a linguagem de Clarice Lispector caracteriza-se, freqüentemente, pela “liricidade”. Revela-o não só pela marca pessoal que imprime nas suas criações literárias, como pela riqueza metafórica. Suas metáforas, expressivas e poéticas, primam pela originalidade.
PERSONAGENS
Quase todas as personagens dos contos são femininas; excetuam apenas “O jantar” e “O crime do professor de Matemática”, onde a personagem central é masculina. Sem dúvida, isso tem uni sentido na obra: a rotina é o principal tema dos contos de Clarice, e ninguém mais do que a mulher é vitima do dia-a-dia da existência.
De um modo geral, suas personagens são seres fracos, desajustados, frustrados, que se escondem por trás de uma casca que os envolve de náusea e angústia - autênticas personagens-ostra. Quase sempre têm um momento de lucidez, despertando-se da rotina que as cega e esmaga, quando se revelam frágeis e inseguras. A única solução, então, é refugiar-se na rotina, onde se escondem das próprias fraquezas, ambições e frustrações. Não passam, pois, de meros fantoches, pois lhes falta integração psicológica e liberdade de escolha: são seres destituídos de autodeterminação, que movem conforme as imposições e convenções familiares e sociais. Por essa razão - porque lhes falta vontade própria e autodeterminação -pode-se dizer que não têm completa consciência das coisas nem liberdade de ação:
vivem esmagadas pelas grades da rotina e da inconsciência, parecendo mais
‘figuras de pensamento que entes humanos” (Luís Costa Lima).
Invariavelmente, pertencem à família urbano-burguesa-tradicional, onde esta nítida a decadência dos valores sociais e familiares. Nesse contexto, o aparta-mento é unia presença constante, onde quase sempre vivem com “a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Os “laços”, que envolvem o titulo e a maioria dos contos, não passam de uma tremenda ironia, o que não deixa de estar coerente com a casca de suas personagens-ostra: os “laços” são apenas aparentes e mascaram o artificialismo do relacionamento humano.
TÉCNICA NARRATIVA
Com relação à técnica empregada por Clarice, é importante ressaltar aqui o monólogo, elemento predominante do conto de Clarice Lispector, conforme observa Adornas Filho, no artigo “O conto e o monólogo”.
Sem dúvida, o monólogo é uma decorrência da introspecção, em que a personagem se revela de dentro para fora, mostrando-se mentalmente, numa total desarticulação com o real.
Outro recurso técnico que deve ser anotado também é a “sensação de pintura” que prevalece nos seus contos: a narrativa é sempre feita através de observações visuais. Uni exemplo nítido, nesse sentido, é o conto “Os laços de família”, onde os olhos de Catarina têm destaque especial.
A narrativa quase sempre se “quebra” por um momento de lucidez da personagem, o que constitui unia espécie de clímax do conto. Depois tudo volta à normalidade, quando, quase sempre, se percebe a problemática apresentada.
CONCLUSÃO
Num conjunto de treze contos, Clarice Lispector nos apresenta o retrato de uma época: a nossa. Através de uma linguagem cuidadosamente empregada, ela vai levando-nos pelos caminhos de sua sensibilidade a identificar as mazelas e a deterioração de nossas estruturas e valores. O livro enfoca e fotografa o desmoronamento de todo um complexo de instituições, fórmulas e convenções sociais; a coisificação do homem, mero espectador de sua própria tragédia animal, “fechado entre as quatro paredes de seu sábado”, preso nos apartamentos frios e impessoais, onde tudo vai bem, enquadrado no esquema da maioria inócua e ridícula.
O homem acovardado, medroso do próprio destino, apagado, restrito às atividades básicas de conservação e defesa.
O homem que é levado, que não quer tomar conhecimento de sua alienação, e, se por acaso isso acontece, recusa-se a tomar qualquer providência.
O homem mascarado, insensível, forjando atitudes, idéias e sentimentos, a titulo tão somente de verniz.
O homem hóspede de sua própria casa, ignorante de suas possibilidades, forasteiro em sua própria terra.
Através de uma colocação muito bem feita, Clarice Lispector aponta a situação dramática da mulher dentro da estrutura social vigente: “a m7e trabalhou durante anos nos partos e na casa” (131). A mulher se cansa, se enfara, se empanturra dessa vida de momentos iguais e insípidos. E que pode o indivíduo fazer ante o mundo? Ou ele se enquadra, se amolda e se torna a mãe desvelada, a esposa perfeita, o funcionário-padrão, e é aceito pela sociedade; ou ele não se enquadra, e é rejeitado como Pequena Flor, por ser diferente. Após o enquadramento só vem a rotina que, se quebrada, traz angústia; se mantida, traz fastio.
É assim que o homem, fechado no abraço-prisão de seu próprio comodismo, vai enfraquecendo, puindo, soltando, destruindo os laços que o unem à própria vida. Estruturados sobre unta base de artificialismo, fingimento e interesses, não podem subsistir e se desmancham. Os laços de família tão tênues, tão frágeis e tão corroídos que atestam a desestruturação de uma sociedade doente.
Os homens vêem a “opacidade do mundo”, o vazio e a gratuidade da existência, a falta de justificativa da vida diária, a banalidade e estupidez de seus dias vividos na base de ilusões e convencionalismos, mas, na certeza da angústia como decorrência da conscientização, preferem ficar “cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos” (28).
*NOTA: As páginas indicadas referem-se à 5ª edição de Laços de família (Editora Sabiá).
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Resumo: O matador, de Patrícia Melo
O matador, de Patrícia Melo
Com foco narrativo em primeira pessoa do singular, O Matador, de Patrícia Melo, publicado em 1995, narra a ascensão e a derrocada de Máiquel, um jovem de periferia que, por acaso, se transforma em um assassino profissional, admirado e querido por seus vizinhos, pois é visto como um justiceiro que se livra dos bandidos que ameaçam a ordem de seu bairro.
A narração se dá através de Máiquel que, em decorrência de uma simples aposta, se vê envolvido numa série de crimes, se transformando num criminoso brutal, num matador profissional. Para esse romance Patrícia Melo desenvolveu uma intensa pesquisa sobre o mundo do crime, presídios e matadores, apresentando uma narrativa ágil, densa e bem-humorada pelos meandros da violência urbana.
Pode-se ainda afirmar que a temática do crime e da violência, na qual se centra a obra da autora, é recorrente em toda ahistória da literatura.
Nesta obra, a autora retoma o estilo urbano violento das primeiras obras de Rubem Fonseca e recria-o para retratar as novas facetas da sociedade brasileira no fim do século XX, levando a uma relação inevitável entre o mundo retratado nos textos consagrados do autor na década de 70 e a realidade social dos anos 90.
Nesse universo, em que predominam as ações, descritas de maneira realista e minuciosa, a violência exerce um papel fundamental, justamente pelo fato de ser o próprio matador quem narra. É interessante perceber como essa narrativa da violência vai se construindo às custas da publicidade, das notícias de telejornal, dos anúncios, reportagens e manchetes jornalísticas, do vídeo clipe, do cinema, além de se valer da música popular, do rap, da poesia, da piada etc. O fragmento abaixo exemplifica esse comportamento da linguagem literária:
Justiceiros matam cinco em São Paulo, dizia a manchete. Eu estava na casa de um cliente, lendo o jornal que ele havia acabado de me dar, o menor R.S.P. conseguiu se salvar fingindo-se de morto, e está no hospital fora de perigo, dizia a reportagem. Puta merda, eu falei, como esse desgraçado conseguiu fugir? (p.150)
Pode-se dizer que em O Matador impera uma promiscuidade discursiva, isto é, uma mistura desordenada da linguagem literária com outras linguagens, sendo raros os parágrafos em que isso não se concretiza. Aparentemente, essa narrativa associa-se ao que Manfred Pfister (1991) denomina intertextualidade eclética pós-moderna, ou seja, um diálogo com textos advindos dos mais diversos meios culturais, canonizados ou não, sem que haja um propósito crítico ou analítico, mas simplesmente o estímulo dos prazeres proporcionados pela heterogeneidade.
Observe agora a trajetória de Máiquel, o narrador-protagonista desta obra:
1. O chamado da aventura
O primeiro passo da aventura de Máiquel começa sempre por um incidente, um "erro", aparentemente um mero acaso, mas que se trata do primeiro indício de um mundo insuspeito, um mundo fabuloso no qual Máiquel irá se aventurar.
No romance O matador, esse primeiro passo está logo no primeiro capítulo. A frase que dá início à narração deixa bem claro o caráter de acaso da história que será narrada: "Tudo começou quando perdi uma aposta".
A aposta que Máiquel havia perdido era sobre o resultado do jogo entre São Paulo e Palmeiras e o pagamento era pintar o cabelo de castanho-aloirado. Por uma distração, um "erro", a pintura fica mais tempo do que deveria e o cabelo de Máiquel torna-se loiro. E eis que acontece a transformação de Máiquel:
Sempre me achei um homem feio. Há muitas curvas em meu rosto, muita carne também, nunca gostei. Meus olhos de sapo, meu nariz arredondado, sempre evitei espelhos. Naquele dia foi diferente. Fiquei admirando a imagem daquele ser humano que não era eu, um loiro, um desconhecido, um estranho. Não era só o cabelo que havia ficado mais claro. A pele, os olhos, tudo tinha uma luz, um moldura de luz. De repente todos os meus traços tornaram-se harmônicos, a boca, que sempre fora caída, continuava caída, o nariz continuava arredondado, as pálpebras inchadas, porém tudo isso era bobagem porque havia algo maior, mais importante, a moldura. Havia Luz na minha face, e não era uma luz artificial de refletores. Era aquela luz que a gente vê em imagens religiosas, luz de quem é iluminado por Deus. Foi assim que me senti, próximo de Deus.
O "erro" de Máiquel, na verdade, era resultado de desejos e conflitos inconscientes, se observarmos o que diz Máiquel logo a seguir:
Aquela tinta tingiu alguma coisa muito profunda dentro de mim. Tingiu minha autoconfiança, meu amor-próprio. Foi a primeira vez, em vinte e dois anos, que olhei o espelho e não tive vontade de quebrá-lo com um murro.
Esse momento de transfiguração pode significar a passagem da adolescência para a fase adulta.
2. A recusa do chamado
Nesse segundo momento Máiquel tenta de todas as maneiras recusar o chamado, mas de alguma maneira o destino faz com que cumpra sua jornada.
Em O matador, o episódio que marca esse momento é quando Máiquel faz sua primeira vítima. Máiquel havia marcado um duelo e não entende por que fez aquilo:
No dia seguinte, acordei com dor de dente e não fui trabalhar. Estava arrependido de ter proposto um duelo, aquilo tinha sido uma bobagem, uma estupidez sem fim. Quis dar uma de bacana para impressionar a Cledir e me ferrei todo.
Vê-se que Máiquel de fato não deseja duelar. Ou seja, se recusa ao chamado da aventura; no entanto:
Cledir soluçava, implorava, não faça isso, não estrague sua vida. Tudo bem, Cledir, não precisa chorar, você tem razão. Apartamento com dois dormitórios, sem entrada, aproveite. Não vou duelar. Móveis para a cozinha. Vou me casar com você. Tudo para o seu lar. Vou trabalhar direito naquela loja de carros usados, vou melhorar devida. Coisas boas passaram pela minha cabeça, mas eu não disse nada disso para Cledir. Eu disse: nem fodendo (...).
Dei o primeiro tiro, Suel voou no chão, deve ter morrido na hora.
Apesar de racionalmente não querer matar, Máiquel não consegue realmente desviar-se do caminho que já estava traçado por Deus para ele, conforme acredita.
Realmente não dá entender como é que um sujeito faz uma bobagem dessas. Só há uma explicação: Destino. Antes da gente nascer, alguém, sei lá quem, talvez Deus, Deus define direitinho como vai foder com sua vida. É isso. Era a minha teoria. Deus só pensa no homem quando tem que decidir como é que vai destruí-lo. Quando ele não tem tempo, faz uma guerra, um furacão, mata um monte. Em mim ele pensou.
Máiquel atribui a Deus o seu gesto de morte, "o jogo do sagrado e da violência é apenas um".
A repercussão da atitude de Máiquel, a execução de Suel, parece confirmar que quando a ação do herói coincide com a ação para qual sua própria sociedade está pronta, ele parece seguir o grande ritmo do processo histórico:
Gonzaga, assim que me viu, estendeu a mão molhada, aquela mão objetiva e úmida apertando minha mão, sorrindo e dizendo que eu poderia pedir o que quisesse, que era por conta da casa, que a partir de agora seria assim, tudo o que você quiser. Ele estava feliz por eu ter matado o Suel. O Suel era um miserável filho da puta, roubou o toca-fitas do carro da minha irmã, todo o mundo odeia o Suel, eu odeio o Suel ele disse.
(...) Robinson apareceu, puxou-me para o brilhar, só se fala disso no bairro, estão todos orgulhosos de você, ele disse.
3. O auxílio sobrenatural
Uma figura representa o poder benigno e protetor do destino e que auxiliou Máiquel na sua aventura:
Eu vou te dizer uma coisa, rapaz, você tem os dentes ruins, eu sou dentista, eu tenho um problema e você tem os dentes ruins. Podemos nos ajudar. Você me ajuda, eu te ajudo. Eu trato dos seus dentes de graça e você faz alguma coisa para mim. Você concorda? Eu quero ter dentes bons. Matar um desgraçado, é isso que eu quero de você.
A figura protetora na aventura de Máiquel é o dr. Carvalho. Máiquel deverá matar o estuprador de sua filha em troca de ter dentes tratados. Também será dr. Carvalho quem lhe irá agenciar as outras mortes, ou seja, o condutor, o iniciador da sua carreira/aventura de matador profissional:
(...) dr. Carvalho voltou com um copo de uísque, mandou a Gabriela deixar nós dois sozinhos, você tem que se animar, garoto, tome isso. Tomei, o uísque era bom, me aqueceu. A vida melhorou um ponto. Você pensou melhor na proposta do Sílvio? Fiz sim com a cabeça, antes mesmo de lembrar que o Sílvio era aquele homem que eu tinha conhecido no jantar na casa do dr.Carvalho, aquele homem que reciclava lixo e que queria que eu matasse alguém. A televisão mostrava propaganda de comida, boceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela, sorvete, bola de futebol, xarope, meia, cinema, filé mignon. E isso aí garoto.Você fez bem. Vamos para o meu escritório. Vamos conversar sobre aquele filho da puta que está atormentando a vida do Sílvio.
4 e 5. Passagem pelo primeiro limiar e o ventre da baleia
Este momento refere-se ao aspecto externo e o quinto às questões de ordem interna com as quais Máiquel deverá se deparar. É o lugar das trevas, do desconhecido.
Estuprador. Gênios caprípedes e broncos / Estupram virgens hamadríades, quinta série, d.Leda, professora de português (...) Decorei alguns versos para agradar d. Leda, às vezes, no meio de nada, eles aparecem dançando na minha mente. Ezequiel era um estuprador, diziam.
O limite que Máiquel teria de transcender era matar, matar sob encomenda, para isso teria de transformar seus valores, enfrentar seus medos, fortalecer seu ego , fazendo coisas importantes para si mesmo. Um homem para matar, aquilo me incomodava.
(...) O que é que guardaram de especial para mim? Posso vender sapatos, descascar batatas, qualquer coisa. Foda-se. Posso também matar. É fácil matar, você pega o revólver, aperta o gatilho e pronto, um gesto simples, morrer é que difícil. Eu ainda não tinha certeza se ia matar Ezequiel.(...) O homem para matar, os pensamentos vieram como carneirinhos e eu deixei que eles pulassem obstáculos. Pularam. As coisas foram ficando claras, fui alinhando tudo. Eu mataria Ezequiel porque era importante para mim. Dentes bons, cavalo dado, caça. Não preciso ter medo.
Esse momento está relacionado às indagações sobre a vida e morte, mesmo a condição sócio-cultural de Maiquel não lhe permitindo grandes vôos filosóficos e indagações sobre a vida e morte, como as enfrentadas pelos heróis literários: "Abandonei a escola e hoje não me sinto mais digno de entrar em sua morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo".
6. O caminho das provas
Depois da morte de Ezequiel, sua primeira prova, Máiquel começa uma jornada por um mundo, no mínimo, estranho ao seu cotidiano:
A casa do dr. Carvalho tinha muito mogno e cetim, leque chinês, laca, penachos coloridos plantados em vasos gigantes e tapetes que batiam na canela da gente (...) Chegaram os abacaxis tropicais, uma espécie de maionese que é servida em porções individuais dentro do próprio abacaxi, eu nunca tinha visto aquilo, que espécie de maluquice é esta? (...) Experimente esse cigarro americano. Percebi que ele notou meu sapato todo fodido. Os cigarros americanos são os melhores do mundo.
Enquanto caminhava e olhava para os meus sapatos fodidos, eu pensava que a vida é uma coisa engraçada. Ela vai sozinha, como um rio, se você deixar. Você também pode botar um cabresto, fazer da vida seu cavalo. A gente faz o que quer. Cada um escolhe sua sina, cavalo ourio.
Irá Máiquel desistir da sua jornada como matador, colocará "cabresto" na sua vida e não matará mais ninguém ou navegará pelo "rio" de sangue que a vida está lhe apresentando? Essas são as questões com que Máiquel se defronta, entre o livre-arbítrio ou o destino, entre as ações conscientes e as inconscientes, incontroláveis.
7 e 8. O encontro com a deusa e a mulher com tentação
Em síntese, esses momentos representam o encontro do herói, Máiquel, com a figura arquetípica da mãe. Essa figura é tanto "boa" como "má" e espera-se que o
devoto contemple as duas com a mesma equanimidade, pois é por meio desse exercício que seu espírito é purgado de toda sentimentalidade e ressentimento, infantis e inadequados. Em O matador, a "boa" e a "má" figura são representadas por Cledir e Érica, respectivamente:
Érica era uma garota inteligente, e cada vez mais eu gostava de ficar com ela. Olhos espertos, músculos, muito diferente de Cledir. Érica adorava beber e dançar. Gostava de rir. E Cledir me esperando para o jantar. Criando meu filho dentro da barriga, cozinhando, uma coisa pura, sincera, certa. Érica era sacana e iria me trair. Iria me trair, eu sentia isso em cada palavra que saía de sua boca. (...) Cledir nunca iria me trair (...)
Voltava para Érica e voltava para Cledir. Fodia com Érica e fodia com Cledir. Com Érica era bom, com Cledir era bom.
(...)
Senti um amor tão grande por ela (Érica), eu te amo, eu disse, ama nada, amo sim, amo muito.Você quer o quê? (...) o que você quiser, eu faço, faço tudo, eu quero que você mate a Cledir, ela disse. Ela disse isso mesmo: eu quero que você mate a Cledir.
9. A sintonia com o pai
Esse momento é, em O matador, aquele em Máiquel, depois chamado divino, depois de ter se debatido com seus precários valores morais e se tornado um matador com o auxílio do dr.Carvalho, depois de ter desfrutado de algumas benesses daquele mundo encantado que a propaganda mostra e de ter encontrado o amor e suas provações, tem agora o reconhecimento pelos seus feitos sendo convidado, enfim, para assumir um lugar no "reino":
Senti uma paz calma dentro do meu peito, uma paz quente, sei lá o que me deu, não foi o uísque, foram as palavras do delegado que me trouxeram aquela paz, aquele orgulho, um delegado me propondo sociedade, eu era mesmo uma pessoa muito querida no bairro, eles passavam e buzinavam, acenavam as mãos, senti uma paz (...) Daríamos segurança para o bairro. (...) Santana, era esse o nome do delegado, Santana entraria com o escritório, as secretárias, o telefone, a placa da firma, o advogado e, claro, ele disse com o poder, as influências, a cobertura. Eu entraria comigo mesmo, com minha equipe, com que eu sabia fazer, ele disse.
10. A apoteose
Esse é momento da divinização, da expansão da consciência, é quando Máqiuel encontra o "troféu transmutador de vida":
E finalmente a hora da medalha. Houve uma época que eu acreditava que talão de cheques e mulheres eram a base da felicidade. Subi no palco. Dinheiro ajuda, mulher melhora tudo, mas é a fama que reinventa a vida de um homem, foi isso que eles me ensinaram naquela noite. Abraçaram-me. Fotografaram-me. Pediram para que eu falasse. Eu falei que estava pensando em me candidatar a vereador. Eles gostaram muito. A medalha, que coisa bonita é uma medalha.
11. A bênção última
Em O matador, nesse momento da narrativa, Máiquel prova ser um herói comum — depois de ter sido abandonado por Érica, portanto sem a benção de sua deusa — cometendo um erro fatal:
Por que, Érica, por que você não me levou junto? Pai pediatra. Como é que eu ia saber? Como é que eu ia saber que o garoto era um bom estudante? À noite correndo de skate, parecia um ladrão de Reebok. Como é que eu ia saber? Foi um engano. Admito que errei. Matei por engano. Agora, me diga, as pessoas vivem fazendo cagadas por aí. As pessoas erram, às vezes.
Máiquel também não encontra mais o apoio de seu "patrono universal", Dr. Carvalho:
Ele se levantou, fora daqui, ele disse, cachorro sarnento, lenço na boca para segurar aquele sangue todo, dr. Carvalho atrás de mim, mancando e me xingando de cachorro sarnento, cachorro filho da puta e outros nomes assim.
12. O retorno
Pegamos a estrada, eu no volante. Um vento frio. Enoque ligou o rádio. A polícia, o locutor dizia, ainda não encontrou o bandido Máiquel, acusado de mais - meti o pé com força no rádio, quebrei aquela joça. Parei o carro. Salta, eu disse para o Enoque, os caras não estão atrás de você. Empurrei ele para fora do carro e arranquei. Eu não queria saber de nada do que estava acontecendo, queria deixar tudo para trás, ir em frente até encontrar um buraco e me meter nele, no buraco, me esconder, no buraco, até o frio acabar, até chegar a hora de sair.
Assim termina a aventura de Máiquel no romance O matador,de Patrícia Melo. As vítimas de Máiquel são os bodes expiatórios, as vítimas sacrificais sobre os quais uma sociedade com um sistema judiciário e um poder político enfraquecido desvia uma violência que pode golpear seus próprios membros. E Máiquel é o herói que em todos os mitos atrai para sua pessoa, como um imã, uma violência que afeta toda a comunidade, uma violência maléfica e contagiosa, que será transformada em ordem e segurança pela sua morte ou triunfo.
Cada pessoa no bairro me trazia um naco de ódio para eu engolir. (...) começei a gostar de ouvir aquelas histórias podres, eu ouvia e era como se tivesse dando um naco de carne para o meu ódio, e mais outro naco, fui ficando viciado naquilo, o exercício funciona mesmo, eu odeio, ele odeia, odiamos.
Fonte parcial: Eliane Pereira da Silveira, Mestranda, Universidade Federal da Santa Maria | Rosana Cacciatore Silveira, Mestranda, Universidade Federal de Santa Catarina
*Extraído de: Passeiweb
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
UFSM inicia inscrições para o vestibular 2010

A UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) inicia as inscrições do vestibular 2010 às 8h desta segunda-feira (21). O prazo vai até as 21h de 30 de outubro, pela internet. A taxa de inscrição custa R$ 75.
Ao todo, o processo seletivo oferece 3.642 vagas, sendo 2.881 em Santa Maria, 316 em Frederico Westphalen, 285 em Palmeira das Missões e 160 em Silveira Martins.
A relação dos candidatos inscritos será divulgada em 4 de janeiro de 2010. As provas serão realizadas em três dias, de 13 a 15 de janeiro de 2010.
Veja mais detalhes no calendário:
- 13 de janeiro de 2010, com início às 8h (duração de 4 horas): biologia (10 questões), filosofia (5 questões), física (10 questões), geografia (10 questões), história (10 questões), química (10 questões);
- 14 de janeiro de 2010, com início às 8h (duração de 4 horas): filosofia (5 questões), língua portuguesa (10 questões), literatura brasileira (10 questões), matemática (10 questões), língua estrangeira (10 questões);
- 15 de janeiro de 2010, com início às 14h (duração de 2h): redação.
Outras informações podem ser obtidas no edital do vestibular ou pelo telefone 00/XX/55/3220-8170.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Federal de Santa Maria publica edital do vestibular 2010
Candidatos já podem solicitar isenção da taxa de inscrição no concurso
A universidade Federal de Santa Maria (UFSM) publicou nesta segunda-feira o edital do concurso vestibular de 2010. Segundo o documento, o concurso, será realizado em três dias consecutivos, 13, 14 e 15 de janeiro de 2010, constando de uma única etapa seletivo-classificatória.
O processo seletivo será composto por provas com questões de múltipla escolha sobre os conteúdos das disciplinas do Ensino Médio e por uma prova de Redação. As inscrições para o concurso podem ser feitas de 21 de setembro a 30 de outubro de 2009.
Nesta segunda, até 04 de setembro, os candidatos que desejarem obter a isenção da taxa de inscrição do Vestibular 2010 da UFSM podem fazer a solicitação no site da COPERVES.
Para solicitar a isenção, o candidato deverá estar inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) e ser membro de família de baixa renda, de acordo com o Decreto Nº. 6.593, de 02 de outubro de 2008.
No processo de solicitação, o candidato deverá informar o nome completo; o Número de Inscrição Social – NIS; a data de nascimento; o sexo; o número, a data de emissão e o órgão emissor do RG; o número do CPF e o nome da mãe.
Após preencher todos os dados solicitados, o candidato deverá imprimir a declaração comprovando ser membro de família de baixa renda. Essa declaração deverá ser assinada pelo candidato e entregue diretamente na sede da COPERVES ou enviada via correio, até o dia 04 de setembro de 2009 (data da postagem).
O endereço para envio de correspondência é: Comissão Permanente do Vestibular, Campus da UFSM, Prédio 48, Próximo à Reitoria, Faixa de Camobi, Km 9, Santa Maria – RS, CEP 97105-900.
No dia 11 de setembro, a COPERVES divulgará no site a Listagem dos Isentos.
Acesse a página da COPERVES
Confira os cursos oferecidos e as vagas
Veja o Programa de Conteúdos
Relação de Obras Literárias Exigidas
Furg e UFSM recebem pedidos de isenção de taxa de inscrição do vestibular 2010
No Rio Grande do Sul, a Furg (Fundação Universidade do Rio Grande do Sul) e a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) abrem nesta segunda-feira (31) os pedidos de isenção de taxa de inscrição do vestibular 2010.
Furg
Na Furg, os candidatos podem pedir isenção parcial (50%) ou total até as 16h30 de 11 de setembro, somente pela internet. É necessário preencher os seguintes pré-requisitos:
-ter concluído ou estar cursando a 3ª série do ensino médio ou estar cursando EJA (Educação de Jovens e Adultos);
-pertencer à família cuja renda mensal per capita seja inferior a um e meio salário mínimo nacional.
O resultado será divulgado em 2 de outubro. Veja outras informações no edital de isenção.
UFSM
Na UFSM, os interessados em pedir isenção de taxa de inscrição terão até o dia 4 de setembro para pedir o benefício, somente pela internet.
Para solicitar a isenção, o candidato deverá estar inscrito no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal) e ser membro de família de baixa renda. Após preencher todos os dados solicitados, o vestibulando deve imprimir a declaração comprovando ser membro de família de baixa renda.
A declaração deve ser assinada pelo candidato e precisa ser entregue na Coperves (Comissão Permanente do Vestibular) da UFSM, pessoalmente ou via correios, até 4 de setembro de 2009 (com data da postagem). O endereço para envio de correspondência é:
Comissão Permanente do Vestibular, Campus da UFSM, Prédio 48,
Próximo à Reitoria, Faixa de Camobi, Km 9, Santa Maria - RS, CEP 97105-900.
O resultado deve ser divulgado no dia 11 de setembro. Veja outras informações no edital.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
UFSM terá apenas três dias de provas
Ponto de corte do concurso também foi alterado
O edital do Vestibular 2010 da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) deve ser liberado até o fim de semana com duas grandes novidades. A primeira é que o concurso terá duração mais curta em relação ao verão passado, quando houve quatro dias de provas. Em janeiro, serão apenas três – dois de provas objetivas e um para a redação. Além disso, o ponto de corte, que selecionava candidatos até o dobro do número de vagas, agora fará uma seleção de até três vezes o número de vagas.
As provas ocorrerão em janeiro de 2010 (veja quadro). As provas objetivas serão nos dias 13 (quarta-feira) e 14 (quinta) pela manhã. A redação, como de praxe, será à tarde, no dia 15 (sexta). Outra novidade é o número menor de questões: serão 10 por disciplina, diferentemente das 15 de janeiro passado.
A decisão por fazer um vestibular mais curto tem relação com a avaliação positiva da universidade em relação à duração do concurso extraordinário, que ocorreu nos dias 30 e 31 de maio deste ano. Diminuir o estresse físico e emocional dos candidatos é outro argumento que foi usado para defender a ideia.
As inscrições para o Vestibular 2010 poderão ser feitas de 21 de setembro a 30 de outubro. O número de vagas deve ficar em torno de 3,8 mil.
Serão oferecidos todos os cursos que estavam em disputa no Vestibular 2009, no concurso extraordinário – realizado em maio – e também os aprovados pelo Conselho Universitário da UFSM a partir de abril. Serviço Social, Comunicação Social – Produção Editorial e Sociologia (licenciatura) estão entre eles.
fonte: DIÁRIO DE SANTA MARIA
terça-feira, 7 de julho de 2009
Conto: O Espelho (Machado de Assis)
O Espelho
- Esboço de uma nova teoria da alma humana
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos
trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de
coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem,
calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou
quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos.
Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade
das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos
argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha
de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um
objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...
- Perdão; essa senhora quem é?
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho
experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a
alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do
charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:
- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento
que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...
- Espelho grande?
- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve
forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o
"senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma
transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
- Não.
- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?
- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver
como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as
alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
- Matá-lo?
- Antes assim fosse.
- Coisa pior?
- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido
fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça
abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas
tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos
escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo,
isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um
boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por
outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me
chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso
fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma
interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
- Mas não comia?
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível
situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas,
uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação
física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...
- Na verdade, era de enlouquecer.
- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção
deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa
solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...
- Diga.
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e
inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
- Mas, diga, diga.
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.


