
Artistas vão interagir com o público criando "twitcais" em tempo real e público será convidado a fazer o mesmo
Fonte: O Estado de S. Paulo
Em julho, o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski, o jornalista, poeta e cantor Ademir Assunção, esteve em Curitiba, acompanhado do cenógrafo da exibição, o fotógrafo Miguel Paladino. Foi pesquisar nos "baús" do autor, 18 caixas mantidas no centro da capital paranaense por uma das filhas do artista, Áurea Leminski, com cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, livros, fotografias e até carteirinha de clube.
"Se perguntarem a alguém o nome de um escritor curitibano, certamente os mais citados serão Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Mas não há na cidade uma única instituição, um único centro cultural destinado à divulgação da obra de Leminski", admira-se Assunção.
A tarefa de fazer circular o legado leminskiano fica por conta dos esforços da família. A filha Áurea Leminski, de 38 anos, é mãe de Lorena, 5 anos (o poeta tem outro neto, Leon, filho de Estrela, de 28 anos). Ela acha que o pai "aos poucos se torna mais um mito ou um personagem, e não se renova o interesse pela obra dele, o que é fundamental". Ela tenta organizar e disponibilizar virtualmente o acervo do poeta em Curitiba, mas ainda não encontrou interessados em financiar ou participar de tal projeto. "Eu estou muito preocupada agora com a formatação disso, o jeito como tudo será disponibilizado. Não há ainda um custo, um orçamento", explicou Áurea.
"É claro que a poesia nunca atingiu a grande massa. A fama do meu pai se deu muito mais por meio da música, da inclusão de uma canção numa novela da Globo. O interesse, no entanto, persiste, tem muito estudante que procura a gente para obter informações. Não seria correto dizer que ele está esquecido."
Cantora, baterista e compositora, Estrela Ruiz Leminski vai cantar na quarta-feira, na abertura da exposição no Itaú Cultural - ela integra as bandas Dona Zica, Casca de Nós e Trash pour 4. Os shows musicais terão as participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil. Durante a "ocupação", escritores como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, vão interagir com o público criando em tempo real uma série de "twitcais" (haicais em forma de mensagem do twitter), e o público será convidado a fazer o mesmo.
Leminski teria 65 anos. Experimentar era seu credo. "A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco... só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colmeias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?", diz trecho do seu livro Catatau.
A poeta Alice Ruiz (que foi casada com o escritor durante 20 anos, deu-lhe três filhos e foi parceira em boa parte da sua obra) divertiu-se ao imaginar como seria se o poeta fosse confrontando com as novas mídias sociais e tecnologia. Ela e Leminski chegaram a trabalhar com o artista visual Julio Plaza, mas considera o experimento apenas um trabalho "à parte" na obra de Plaza, e não uma experiência particular sua.
"É muito difícil pensar nisso (Leminski no Twitter). Ele nem chegou perto do computador, fazia em máquina de escrever. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Não sei se faria poemas na internet, não sei responder a essa questão, mas desconfio que não. Acho que ele preferiria criar do jeito tradicional e passar para alguém processá-los."
A "pilhagem" que os curadores fizeram nas caixas de Leminski, minuciosa e respeitosa, revelou preciosidades que deixaram até os pesquisadores boquiabertos. "Em uma dessas pastas encontrei um caderno espiral, daqueles de estudante, com nada menos que os manuscritos do Catatau. Quando abri esse caderno e vi a letra de Paulo Leminski e comecei a ler e saquei a gênese desse que é um dos livros mais geniais da literatura brasileira, fiquei emocionado pra caramba. Mais de 30 anos depois, eu tinha a oportunidade de ler a gênese do Catatau!", admira-se Assunção.
"Mas não tinha nada perdido lá. Tava tudo muito bem guardadinho", ressalta Alice Ruiz, responsável pelo armazenamento dos documentos após a morte do artista. Nada do que foi garimpado será publicado, o seu uso será apenas visual, para dar uma ideia do processo de criação do autor. Alice pensa da seguinte forma: se Leminski não publicou, é porque tinha plena certeza de que não queria aquilo publicado.
Ter acesso aos inéditos garimpados, de qualquer forma, é um saboroso exercício: "feliz/ macaco do passeio público/ nas tardes de domingo/ os guris / jogam pipocas/ a mão dos pais/ pinga esmolas/ na pata dos mendigos."
"Leminski é a síntese de um poeta e intelectual que sofreu o impacto das rebeliões, de linguagem e comportamentais, da contracultura, do rock’n’roll, da Segunda Guerra Mundial, da comunicação de massas, de um lado, mas também com uma forte erudição, o domínio de várias línguas, o conhecimento profundo do zen-budismo, a prática de artes marciais. Na minha visão, ele não é somente o resultado disso tudo, mas a síntese e ao mesmo tempo a atuação crítica no cenário contemporâneo", diz Ademir Assunção.
Obras Fundamentais
POESIA
Polonaises. Ed. do Autor, 1980
Não Fosse Isso e Era Menos/ Não Fosse Tanto e Era Quase. Zap, 1980
Tripas. Ed. do Autor, 1980
Caprichos e Relaxos. Brasiliense, 1983
Hai Tropikais. Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985
Um Milhão de Coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985
Caprichos e Relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987
Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987
La Vie en Close. Brasiliense, 1991 (reimpresso em 1999)
Winterverno. Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2.ª edição Editora Iluminuras, 2001)
O Ex-Estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996
PROSA
Catatau. Curitiba, Ed. do Autor, 1975
Agora É Que São Elas. São Paulo, Brasiliense, 1984
Gozo Fabuloso. São Paulo, Editora DBA, 2004
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Haikais em forma de twitter e saraus celebram Leminski
Biografias: Paulo Leminski
Filho de pai polonês e mãe negra, Leminski amou a linguagem
'Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude', escreveu no fim da vida
Paulo Leminski consumiu-se velozmente em sua trajetória, confundindo às vezes sua vida e sua obra. "De colchão em colchão/descubro - minha casa é no chão", escreveu, num haicai melancólico sobre sua derradeira condição, a de alcoólatra em queda vertiginosa.
Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba (PR), filho de pai polonês e mãe negra, foi um erudito com alma de boêmio. Começou cedo: em 1964, teve poemas publicados na revista de poesia concreta Invenção. De 1970 a 1989, trabalhou como publicitário, professor de cursinho, jornalista, tradutor.
Compositor, teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela banda A Cor do Som, além de uma dezena de parceiros. Em 1975 publicou o romance experimental Catatau e foi tradutor de obras de James Joyce, John Lennon, Samuel Beckett, Alfred Jarry, além de haicais de Bashô. Colaborou com o jornal Folha de S. Paulo e com a revista Veja.
Leminski passou a vida dedicado à poesia e à escrita. Aprendeu diversas línguas, segundo dizia, para se tornar um poeta cada vez melhor. Morreu no dia 7 de junho de 1989, em sua terra natal. Até hoje, a sua obra influencia jovens poetas e todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema Sintonia para Pressa e Presságio foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.
Leminski teve um fim melancólico. Morreu aos 44 anos de cirrose. Cheio de energia e vitalidade no seu auge, era evitado até por antigos amigos no final. "Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar." Num bilhete deixado para os posteriores, falou de seu sentimento em relação a esse desapego ao mundo. "Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude."
Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo
terça-feira, 2 de junho de 2009
Poesia Comentada: Merda e Ouro (Paulo Leminski)
Merda e ouro
Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.
(Paulo Leminski)
*do livro Distraídos Venceremos
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De fato, não há nada mais democrático do que uma bela cagada. Mas o que se entende aqui por "cagada"? Eis a pedra de toque na construção do poema: a Plurissignificação, o caráter polissêmico da palavra.
Assim, a palavra cagada e outras correspondentes (merda, bosta...) podem remeter ao sentido denotativo ou à conotação. No primeiro caso, como excremento, produto do processo digestivo, o próprio 'cocô'; no sentido conotativo, 'cagada' pode remeter a 'erro' ou 'imperfeição'.
De qualquer forma, a 'cagada' coloca todos na mesma posição, seja no sentido literal, seja no sentido de que somos imperfeitos, independentemente de nossa condição social, econômica, política, religiosa... ('Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas'). Dessa forma, tome a questão no sentido que quiser: Quem nunca fez uma cagada?
Mas, conforme os dois últimos versos: Não há merda que se compare à bosta da pessoa amada... Isso soa um pouco ambíguo, não é? Estaria o eu-poético referindo-se à própria pessoa amada ou àquilo que ela fez? Ou ambas as coisas...
Na primeira hipótese, pode-se concluir que, ao refereir-se desta forma à pessoa amada, o eu-lírico revela uma dualidade no amor, algo que condensa, de certa forma, o ódio e o próprio amor. No segundo caso, dir-se-ia não haver nenhum erro ou imperfeição comparável àquele da pessoa que se ama. Se essas idéias não forem mutuamente excludentes, poderemos dizer que, com toda a irritação que isso nos possa causar, mesmo assim, persistimos amando alguém, mesmo com todos os seus defeitos.
E AÍ? QUE LEITURA VOCÊ FAZ DESSE POEMA? DEIXE O SEU COMENTÁRIO!
