Mostrando postagens com marcador Música e Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música e Literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Salgueiro leva histórias dos livros à Sapucaí para buscar 2º título consecutivo




Escola foi a penúltima a desfilar nesta segunda-feira (15) na Sapucaí.
Acrobatas, tripés grandiosos e um robô gigante se destacaram.

Fonte: G1

Em busca do segundo título consecutivo, o Salgueiro levou livros que marcam a história mundial e clássicos nacionais para a Marquês de Sapucaí na madrugada desta segunda-feira (15). A escola fez um desfile com 1 hora e 19 minutos e sem registros de incidentes graves.

Na evolução do enredo "História sem fim", se destacaram acrobatas desfilando nos carros, tripés grandiosos que acompanharam as alas, e um robô gigante de movimentos delicados que fechou o desfile.

A comissão de frente apresentou os monges copistas, que transcreviam os textos em rolos de papiro ou pergaminhos. Empurrando escrivaninhas, eles retiraram placas de dentro dos móveis e anunciaram o enredo da escola: “história sem fim”. Em seguida, se despiram das batinas e, com um figurino dourado, empunharam leques para formar uma espécie de sol.


O abre-alas, intitulado “primeira impressão”, representou a oficina de Gutemberg com uma prensa de tipos móveis.

A alegoria, vazada e iluminada, levava artistas da Intrépida Trupe pendurados em arcos e brincando em balanços suspensos. Na parte da frente, um grande carimbo do Salgueiro girava para imprimir o nome da escola no chão da Marquês de Sapucaí.



Musas e luxo


A escola levou à avenida musas como a apresentadora Sabrina Sato, a ex-BBB Priscila Pires e Viviane Araújo como rainha da bateria. Na bateria, Viviane desfilou como Sherazade, personagem de “As mil e uma noites” que tem o desafio de contar histórias para o sultão para não morrer. Ao lado dela, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), ajudou a ditar o ritmo da escola. A bateria falou da história de Ali Babá e os 40 ladrões.


Tripés luxuosos, que funcionam como uma pequena alegoria, se destacaram entre as alas. Chamaram a atenção a tábua dos dez mandamentos, lustres que simbolizavam o luxo da corte francesa retratada no livro "Ligações perigosas" e uma homenagem à mulher nos cultos africanos. As baianas homenagearam o escritor baiano Jorge Amado.


Alas lembraram textos importantes da história: os dez mandamentos, a Divina Comédia, Os Lusíadas, Dom Quixote, Os Três Mosqueteiros e Romeu e Julieta. Clássicos brasileiros também estiveram representados na avenida: Memórias póstumas de Brás Cubas e Navio negreiro. Outras alas retrataram histórias infantis como a dos soldadinhos de chumbo e O pequeno príncipe.

De bibliotecas a robôs

Uma biblioteca desfilou na Sapucaí no segundo carro. O terceiro carro falou da obra “O Guarani”, de José de Alencar, e do romance entre o índio Peri e a portuguesa Ceci.

No quarto carro, o universo das histórias infantis foi mostrado com uma Emília gigante, pendurada por cordas como uma marionete. O bruxinho Harry Potter teve um carro só pra ele. A alegoria, montada como um jogo de xadrez mágico na busca pela pedra filosofal. O desfile foi encerrado com um mundo futurista mostrado por um robô gigante.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval 2010: União da Ilha leva Dom Quixote para a Sapucaí



Voltou a Ilha
Delira o povo de alegria
Nessa folia sou fidalgo, sou leitor
Cavaleiro sonhador
Num mundo de fantasias
Vou cavalgar no rocinante
Meu escudeiro é Sancho Pança
Se Dulcinéia é meu amor
Quem eu sou?
Sou Dom Quixote de la Mancha

O gigante moinho quando viu deu no pé
O povo grita olé
Nesse feitiço tem castanhola
A bateria hoje deita e rola

Vesti a fantasia, fui à luta
Venci manadas, rebanhos
Fiz de uma bacia, meu elmo de glórias
Meus livros se perderam pela história
Enfim, fui vencido pelo Branca Lua
Voltei, pra casa esquecendo as aventuras
No tempo ficou, os meus ideais
Quimeras são imortais

A Ilha vem cantar
Mais um sonho impossível… sonhar
Quem é que não tem, uma louca ilusão
E um Quixote no seu coração





Texto do Estadão sobre o enredo da escola:

Fora do grupo especial do Carnaval do Rio desde os desfiles de 2001, a União da Ilha, escola da Ilha do Governador fundada em 1953, retorna à elite do samba fluminense apostando na literatura para conquistar uma classificação de destaque entre as grandes. "Vamos buscar um lugar no desfile das campeãs. Se ficarmos entre as primeiras, temos chances de brigar pelo título", aposta o diretor de Carnaval da escola, Márcio André.

O samba-enredo "Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis", vai levar à Sapucaí a história do famoso personagem de Miguel de Cervantes. "Digo que nosso enredo está entre os dois ou três melhores do Rio de Janeiro nesse ano", gaba-se Márcio André. O desfile ficou a cargo da carnavalesca Rosa Magalhães. "Ela é talentosa, tem tudo encaixado", conta o dirigente. A escolha do tema foi definida pela popularidade do livro. "Não tem enredo maior", justifica Márcio André.

De acordo com o diretor de Carnaval, cada um dos carros da escola terá uma surpresa. No desfile, a União da Ilha vai mostrar a perda da lucidez do personagem, sua paixão e seu retorno da loucura. "Todos temos uma loucura, somos apaixonados. E vamos falar sobre isso, e também sobre a paixão pela escola", conta. Também serão lembrados no desfile artistas que fizeram referências ao herói de Cervantes, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, o músico Raul Seixas e o pintor Cândido Portinari.

Em um dos carros, Dom Quixote será interpretado pelo ator Eriberto Leão, e a atriz Letícia Spiller interpreta sua amada Dulcineia. Também podem desfilar pela escola a atriz Déborah Secco e o técnico do Flamengo, Andrade.

Para levar a história de Dom Quixote à avenida, a agremiação estima os gastos em cerca de R$ 1,5 milhão, mais a verba destinada pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Empresas foram procuradas para ajudar a financiar o desfile, mas de acordo com o diretor, ficaram "só na promessa."

domingo, 11 de outubro de 2009

Livro conta "causos" por trás de músicas de Chico Buarque


"Histórias de Canções - Chico Buarque " tem esse título e 356 páginas, o que sugere uma penca de explicações sobre as origens das músicas do compositor. Não é exatamente assim.

O livro de Wagner Homem, parte do primeiro pacote de lançamentos no Brasil da editora portuguesa Leya, tem muitas informações biográficas, contextualizações históricas, as necessárias transcrições de letras, além de acontecimentos relativos às músicas, como os embates com a censura na década de 70.

Os "causos" das canções talvez não sejam maioria, mas são o que há de mais saboroso.

Muita gente não deve saber, por exemplo, que "Olhos nos Olhos", um clássico da frustração amorosa, nasceu depois de uma visita de Chico ao dramaturgo Paulo Pontes (1940-1976), quando o amigo já estava bastante doente. Ou que "Bastidores" e "Dura na Queda" não foram feitas pensando-se, respectivamente, em Cauby Peixoto e Elza Soares. Ou que, depois do codinome Julinho da Adelaide, ele cogitou criar Pedrinho Manteiga.

Outras histórias são mais conhecidas para quem acompanha de perto o compositor, como a troca de gentilezas na parceria com Vinicius de Moraes -- "Gente Humilde" só tem um verso de Chico; em "Desalento" ocorre o inverso.

Músicas recentes

Wagner Homem sintetiza informações que estão em outros livros, em entrevistas, DVDs e correspondências -- com Vinicius e Tom Jobim, por exemplo.

"Comecei na década de 60 a comprar tudo o que saía sobre Chico. De repente, eu me dei conta de que era um colecionador", afirma o autor, que organizou em 1989 as letras de "Chico Buarque: Letra e Música" (com textos de Humberto Werneck) e criou em 1998 o site do compositor, do qual cuida até hoje.

A proximidade nos últimos anos explica por que há mais informações sobre as músicas recentes, inclusive histórias como a de "Cecília" (1998): Chico se irrita ao se lembrar de uma namoradinha homônima que teve em Itápolis (359 km de SP) e que poderia se sentir equivocadamente homenageada. Pois, a partir da enxurrada de e-mails que o site recebeu, Homem confirma que foi exatamente o que aconteceu.

CHICO BUARQUE - HISTÓRIAS DE CANÇÕES
Autor: Wagner Homem
Editora: Leya
Quanto: R$ 44,90 (356 págs.)

Fonte: Folha Online

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A luta do rap contra a tragédia


Tradicionalmente, a construção do rap brasileiro se estabelece a partir de três grandes questões: o racismo, a pobreza e a violência. Cada vez mais assumida por espaços oficiais, como a imprensa e a academia, essa produção incorpora novas temáticas e discussões

*Numa Ciro, especial para O POVO


As experiências estéticas produzidas pela juventude dos bairros das periferias das grandes cidades brasileiras ganharam uma visibilidade incomum através do movimento hip hop, que é um verdadeiro laboratório de linguagens desenvolvidas pelos seus artistas iniciados nas artes de rua: o rap, o grafite, o break, o basquete de rua.

O mais novo elemento do hip hop, o ``conhecimento``, se divide em duas áreas. Uma delas abriga os estudos da teoria e da história do hip hop, e de cada uma de suas artes em particular. Na outra área, a literatura periférica ou marginal, que vem vêm alcançando níveis surpreendentes de publicações. Os autores trabalham em conexão, através de métodos criativos de cooperação entre escritores de periferia, que envolvem trocas numa rede de produção, editoração e distribuição das obras.

Além disso, existem outros tipos de impressos importantes, como o Boletim do Kaos, um jornal mensal totalmente dedicado à literatura, com tiragem de 10.000 exemplares e distribuição gratuita. O projeto é de Alessandro Buzo e Alexandre Maio, escritores de São Paulo. Buzo se auto intitula ``o suburbano convicto`` e desenvolve mil atividades nas favelas, no mundo virtual dos blogs e na televisão.

Mesmo que esses acontecimentos literários, que se encontram atualmente em plena expansão, sustentem uma autonomia e não estejam necessariamente submetidos ao movimento hip hop, foi a ``atitude hip hop`` que marcou boa parte dessa manifestação cultural chamada de ``literatura marginal``. Sérgio Vaz, o ``Vira-lata da literatura``, autor de vários livros de sucesso e criador do famoso Sarau da Cooperifa, na Zona Sul de São Paulo, disse numa entrevista recente: ``No fim da ditadura, o Brasil entrou na gozolândia. Minha poesia ficou fora de moda, ninguém queria mais saber de racismo e pobreza e foi nos anos 1980, ouvindo rap, que pensei: demorou para chegar. Então fui conhecer o rap a fundo. (...) O hip hop salvou a minha literatura. Devo muito a ele``.

O depoimento de Vaz encontra eco nas entrevistas que tenho realizado nos últimos sete anos com jovens de periferia em diversas cidades brasileiras. Todos são unânimes em afirmar sobre a importância do rap na construção de uma nova forma de se relacionar com a negritude. Nego Gallo, do grupo de rap Costa a Costa, Fortaleza, lembrou: ``O primeiro rap nacional que me tocou, foi Um homem na estrada, do Racionais MCs, uma referência nova para mim. A geração deles foi super importante do ponto de vista da construção do rap nacional``.

Três questões
Na verdade, essa construção do rap nacional se estabelece a partir de três grandes questões: o racismo, a pobreza e a violência, que coloca o Brasil como o quinto país com maior taxa de homicídio de jovens do mundo, especialmente os jovens negros entre 15 e 24 anos, moradores das favelas e periferias. Antes mesmos que os cientistas políticos e sociólogos publicassem os mapas da violência e os gráficos dessa tragédia urbana no Brasil, as letras do rap já haviam feito tais denúncias, como podemos ler nesses versos do rap Capítulo 4 Versículo 3, do grupo Racionais MCs: ``60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais/ já sofreram violência policial/ a cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras/ nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros / a cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo/ aqui quem fala é primo preto mais um sobrevivente``. Outros versos marcantes se tornaram ``clássicos da periferia`` como esses do rap Rapaz Comum, também do Racionais: ``Morre um, dois, três, quatro/ morre mais um em breve/ sinto na pele, me vejo entrando em cena/ tomando tiro igual filme de cinema``, e inspiraram toda a produção do rap brasileiro. Os jovens sobreviventes tinham encontrado na forma poética e musical do rap uma possibilidade de fazer o luto e cantar o réquiem para todos aqueles perdidos nessa guerra.

Muitos artistas de rap atualmente seguem rumos insuspeitados e se dedicam a fazer experimentações bastante interessantes, como as fusões do rap com outros ritmos, e a utilização de temas variados no trabalho poético das letras. O pernambucano Zé Brown faz uma mistura do rap com embolada de coco. O grupo Sinhô Preto Velho, de São Paulo, canta na língua Tupi. O Costa a Costa, que segundo o antropólogo Hermano Vianna, tem uma das produções ``mais criativas da atual safra musical brasileira``, faz misturas do rap com o funk, samba, ritmos afro-latinos e a música flamenca, por exemplo. Eu os entrevistei em Campina Grande (PB), em 2007, por ocasião do primeiro Encontro Nacional do Rap com o Repente.

Nessa luta do rap com a tragédia, os versos de Don L, do Costa a Costa dão as palavras finais: ``Ei chapa.../ na vida você nunca tem duas oportunidades de fazer a mesma coisa/ tá ligado?/ porque se for a mesma coisa, você não é mais o mesmo/ e se você ainda for o mesmo/ não é mais a mesma coisa/ tá ligado?/ Então vive agora...``

Vive agora!!!

*NUMA CIRO é psicanalista e doutora em Literatura pela UFRJ.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Contos do Mundo: Um Incidente na Ponte de Owl Creek (Ambrose Bierce)

Você acredita nos seus sentidos? Uma narrativa extremamente desafiadora, capaz de jogar com as noções de tempo, espaço e... realidade!

PAÍS DE ORIGEM: EUA
AUTOR: Ambrose Bierce
PUBLICAÇÃO ORIGINAL: 1890

De pé sobre uma ponte ferroviária no norte do Alabama estava um homem olhando para as águas que corriam a uns cinco metros abaixo. Suas mãos estavam atadas atrás das costas. Presa numa viga de madeira, logo acima da sua cabeça, uma corda lhe dava o nó no pescoço e pendia até a altura dos seus joelhos. Ele e seus executores - dois
soldados e um sargento do Exército Federal - estavam sobre um estrado formado por tábuas dispostas sobre os dormentes dos trilhos. Um pouco afastado, na mesma plataforma, estava um oficial armado e cada extremidade da ponte era guardada por um sentinela.

Por um lado, depois de um dos sentinelas, os trilhos entravam pela floresta e perdia-se entre as árvores uns 100 metros além. Do outro lado havia uma área de campo aberto, com uma paliçada de troncos fincados na terra, com vãos esparsos para o uso de armas de fogo. Por uma delas saía a boca de um canhão de bronze, voltado para a ponte. Entre a paliçada e a ponte alinhavam-se os homens da companhia de infantaria, imóveis, mas na posição de descanso. Como estátuas esculpidas na arquitetura da ponte, sentinelas enfileiravam-se diante das margens do rio. Impassível, de braços cruzados, o capitão acompanhava em silêncio o trabalhos dos seus comandados. A morte quando anunciada é sempre recebida com formalidades respeitosas, mesmo para quem esteja com ela familiarizado.

O condenado era uma civil de 35 anos. Traços finos e perfeitos - nariz retilíneo, boca bem formada, testa ampla, cabelos longos, escuros, penteados para trás, cobrindo até a gola do seu casaco de belo corte; usava bigode e cavanhaque e os olhos, cinza escuro, eram grandes. Podiase ver que não se tratava de um criminoso vulgar, mas o código militar liberal previa penas de enforcamento para crimes de guerra, mesmo em se tratando de cavalheiros.

Encerrados os preparativos, os dois soldados se retiraram, cada um levando a tábua que lhe servira de piso. O sargento fez uma continência para o capitão e colocou-se
em seguida atrás dele, que deu um passo para o lado. Essa movimentação deixou o condenado numa das extremidades da prancha e o sargento na outra. A prancha era suportada por três vigas da ponte e a extremidade onde estava o civil ficava em balanço, sem alcançar a quarta viga, e o peso do sargento é que a mantinha equilibrada. Ao sinal da capitão, o sargento daria um passo atrás, a prancha e o civil despencariam.

Nem haviam colocado um capuz, nem vedado os olhos do condenado, e ele pôde observar as águas do rio, lá em baixo, e sua correnteza. Acompanhou com os olhos um tronco que flutuava e parecia se mover lentamente. Que rio mais preguiçoso esse!

Fechou seus olhos, concentrando-se em lembrar da mulher e dos filhos. A água, que refletia o dourado do sol matutino, a névoa sobre ela, o forte, os soldados, o pedaço de madeira - desviavam seu pensamento da tragédia. De repente sentiu que algo o perturbava. Era um som que não conseguia definir - um som agudo, parecido com o malho de ferreiro na bigorna - e o afastava das lembranças de seus entes queridos.
Ele procurava a origem daquele som, paradoxalmente, lhe parecia ao mesmo tempo próximo e longínquo. Repetia-se regularmente, fúnebre. Esperava cada badalada com impaciência e preocupação. Os intervalos foram se tornando cada vez mais longos e exasperantes, e quanto mais se distanciavam, mais intenso ficavam os sons. Chegou a ferir-lhe os ouvidos e o condenado estava a ponto de gritar. Mas, afinal, o que estava escutando era o tique-taque do seu relógio.

Abriu os olhos para ver as águas do rio, sob seus pés. Se conseguisse libertar as mãos, pensou, e livrar-se das cordas, poderia pular. Mergulhando, talvez conseguisse fugir do tiroteio, alcançar a margem e escapar fugindo para a floresta. "A minha casa, graças a Deus, está fora das linhas inimigas. Minha mulher e meus filhos ainda estão para lá da linha alcançada pelos invasores".

Enquanto os pensamentos fervilhavam na cabeça do civil, o capitão fez um sinal para o sargento, que se afastou, saindo de cima da prancha. Peyton Farquhar era dono de uma grande plantação e membro de tradicional família do Alabama. Como proprietário de escravos, político, e escravagista como a maioria deles, era ainda um separatista devotado à causa sulista. Impedido de alistar-se no exército por motivos alheios à sua vontade, reclamava da discriminação que o impedia de ter as regalias militares e a oportunidade de receber honrarias. Mas sabia que teria uma chance, pois, em tempos de guerra, ela chega para todos. Enquanto isso, ia fazendo o que era possível para freqüentar o ambiente militar. Nenhum serviço lhe parecia muito humilde ou nenhuma aventura, demasiadamente perigosa.

Uma tarde, Peyton e sua esposa estavam sentados num banco rústico junto à sua propriedade, quando se aproximou um soldado a cavalo, farda empoeirada, que pediu água. Ele esperou a mulher se retirar para perguntar, curioso, das notícias das linhas de frente.
- Os ianques estão consertando as estradas de ferro - disse o soldado - e se preparam para avançar. Chegaram à ponte de Owl Creek, a refizeram e ainda construíram um forte, na margem norte. O comandante fixou um aviso advertindo que qualquer pessoa surpreendida sabotando a via férrea, pontes, túneis ou trens, será sumariamente enforcada.
- A que distância fica Owl Creek? - perguntou Peyton.
- Uns cinqüenta quilômetros.
- E há soldados do lado de cá do rio?
- Só uma escolta daqui quase um quilômetro, nos trilhos, e um sentinela isolado na cabeceira da ponte.
- Imagine que um homem, estudante de engenharia de pontes, consiga ludibriar a escolta e dominar a sentinela, - perguntou Peyton. - O que ele poderia fazer?
- Estive lá no mês passado - respondeu o soldado, depois de pensar alguns segundos, - e notei que, com as enchentes do último inverno, foram carregados muitos
troncos que se amontoaram do lado de cá das escoras da ponte. Eles agora estão secos e devem queimar facilmente.

A dona da casa chegou com a água e o soldado matou sua sede. Agradeceu em seguida, com delicadeza, despediu-se e partiu. Cerca de uma hora mais tarde, quando já escurecia, ele voltou a passar pela fazenda, dirigindo-se para o norte, de onde viera. Era uma soldado da guarda da guarda avançada federal.

Ao cair entre as vigas da ponte, Peyton Farqhar perdeu a consciência e ficou imóvel. Despertou dessa letargia - que lhe pareceu uma eternidade - com a dor provocada pela
pressão na garganta, que o asfixiava. Acompanhava uma dor aguda e persistente que parecia se espalhar por todas as fibras do seu corpo, por onde, de forma bem definida, essa dor latejava com periodicidade terrivelmente rápida.

Eram torrentes de fogo aquecendo-o à temperatura insuportável. Mentalmente predominava uma sensação de congestão e fartação. Mas o raciocínio não existia, como o sentido intelectual. Apenas sentir era o martírio. Conscientizava o movimento oscilatório, no qual era um núcleo ardente de uma nuvem, como um grande pêndulo.
De repente, aquela luminosidade que o envolvia, parecia solta no espaço e em seguida um som violento de encontro com a água. Então um clamor louco vibrou nos seus ouvidos e tudo era frio e escuro. Restabeleceu-se a capacidade de raciocinar e o homem concluiu que a corda se partira e ele mergulhara no rio. Se abrandara o estrangulamento. A corda em volta do seu pescoço o sufocava mas impedia a entrada de água em seus pulmões. Não concebia morrer enforcado no fundo do rio. Abriu os olhos e viu um feixe de luz, distante, inatingível! Ele continuava a afundar e a luz a perder a intensidade, até quase desaparecer. Mas então seu brilho retornou e Peyton
percebeu que voltava à tona.

Inconsciente de qualquer esforço, com dores agudas no pulso, percebeu que procurava soltar suas mãos. Mas não se concentrou nisso, como quem assistisse um mágico ludibriar as pessoas, sem qualquer interesse no resultado. Então a corda se soltou e os braços do homem flutuaram acima dele, formando vultos difusos, atenuando a claridade que vinha aumentando. Observou-as com interesse ao vê-las se aproximarem do seu pescoço. Libertaram-no da corda afastando-o dela e a corda se foi serpenteando, como se fosse uma cobra.

Seu pescoço doía intensamente; o cérebro parecia arder e o coração saltava, tentando sair pela boca. O corpo torturado se contorcia angustiado. As mãos açoitavam a água com força, empurrando-a para baixo, com braçadas rápidas, impelindo seu corpo para cima. Então sentiu a cabeça emergir e a luz do sol arder nos seus olhos. O peito expandiu-se em estertor e os pulmões sugaram quanto de ar conseguiram, expelindo-o em seguida com um grito de alívio.

Entrou então no controle dos seus sentidos, cuja acuidade estava acima do normal. Na perturbação do seu sistema biológico, alguma coisa o levava a uma percepção de pormenores nunca sentida. A ondulação da água batia-lhe no rosto e ele ouvia as batidas. Na margem via a floresta e os detalhes da vegetação, cada árvore, cada folha, cada nervura, cada inseto. Via os gafanhotos, as moscas de corpo cintilante, as aranhas tecendo suas teias. Ouvia o zumbido dos mosquitos, que bailavam tocando as águas, e das libélulas; ouvia o barulho das pernas das aranhas aquáticas, como remos. Todos esses sons formavam uma sinfonia e ele percebia cada um dos seus acordes. Ouviu até o deslizar de um peixe, cortando a água.

Peyton viera à tona voltado à jusante. Então a visão que tinha, sendo ele o ponto central, passou a girar lentamente. Viu a ponte, o forte, os militares enfileirados,
o capitão, o sargento, os dois soldados e os seus executores, desenhados sobre o céu azul. Eles gritavam e gesticulavam, apontando para ele. Apenas o capitão empunhava uma pistola, mas não atirou. A movimentação deles era grotesca e seus perfis, disformes, horríveis e descomunais.

De repente, ouviu o som de um tiro e algo entrou na água, junto à sua cabeça, e chegou a sentir os respingos no seu rosto. Ouviu outro tiro e viu um dos sentinelas, ainda com a fumaça de pólvora à sua volta, com a arma apontada para ele. Peyton viu, do outro lado da mira, o olho do atirador que o mirava. Notou que o olho era cinzento, lembrando-se de ter lido que os olhos cinzentos eram os mais aguçados... e comuns aos bons atiradores. Mas aquele havia falhado.

Um redemoinho fez Peyton dar uma volta, deixando-o de frente para a floresta, novamente, na margem oposta ao forte. Atrás de si ouvia uma voz alta e clara, num
compasso monótono, que chegava a ele sobrepondo-se a todos os outros sons. Mesmo não sendo militar, Peyton convivera com os soldados o bastante para saber o que significado daquela ladainha.
Aquelas palavras cruéis, ditas cadenciadamente, sem emoção, mas prenunciando a morte de uns para tranqüilizar outros, soavam insensíveis: "Atenção, pelotão!... Ombro!... Arma!... Preparar!... Apontar!... Fogo!"

Peyton mergulhou - tão fundo quanto pôde. A água ciciou nos seus ouvidos como o ribombar do Niágara. Voltando à tona, após o estrondo da descarga, viu pedaços brilhantes de metal, que afundavam lentas e oscilantes para o fundo do rio. Alguns fragmentos tocaram seu rosto e com as mãos retirou outro, que lhe queimava, entre o pescoço e o colarinho.

Quando retornou à superfície, reparou que havia sido levado pela correnteza e estava bem distante dos soldados. Eles tinham acabado de carregar suas armas, com as varetas metálicas a refletir o sol, quase simultaneamente. Os dois sentinelas voltaram a disparar, um de cada vez... e falharam.

O homem acossado, que viu a cena por sobre o ombro, fugia nadando no sentido da correnteza. Seu cérebro, seus braços e pernas, trabalhavam vigorosamente e o raciocínio se desenvolvia com rapidez.

"O oficial" - pensou ele, "não vai cometer o mesmo erro, ordenando uma segunda artilharia. Escapar de uma rajada compacta é tão fácil como de um tiro. Provavelmente vai ordenar que disparem vontade. Deus me ajude! Não vou poder escapar de todos os tiros."

Cerca de dois metros dele, ouviu um intenso chapinhar seguido de um estrondo forte, que ecoou por todos os lados, terminando numa explosão que agitou as águas do
rio. Um verdadeiro lençol de água avançou sobre ele, sufocando-o. Era o canhão participando da caçada! Ao voltar à superfície para respirar, um tiro passou zunindo
sobre sua cabeça, ricocheteando na água, arrebentando galhos na floresta.

"Não farão isso de novo," pensou. "Na próxima vez vem descarga de metralha. Não posso perder o canhão de vista e devo me guiar pela fumaça, porque, quando eu ouvir o
som, já será tarde demais. O projétil é mais rápido. Esse canhão é dos bons."
De súbito começou a rodar como um pião. A água, as margens, a floresta, e, mais distante o forte e os homens, tudo parecia rodar à sua volta numa mancha indefinida,
formando fachas horizontais coloridas. Entrara num forte redemoinho que lhe estonteava e provocava náuseas, sendo depois jogado para o cascalho da margem sul, por trás de uma elevação que o protegia dos seus algozes. A repentina pausa dos movimentos o reconfortou a ponto de fazê-lo chorar de prazer. Apesar das escoriações, encheu suas mãos de areia, jogando-a sobre si mesmo, agradecendo a Deus, quase aos gritos. Confundia areia com diamantes, rubis e esmeraldas, alçando-a entre as suas mais belas visões. As árvores surgiam como plantas de um enorme jardim. Aspirou a fragrância do lugar, que lhe parecia estranhamente ordenado. Um raio de sol, rosado, brilhou entre os troncos e o vento tirava dos ramos um som de harpa. Relaxou-se naquele lindo jardim, pouco disposto a planejar o prosseguimento da fuga.
Foi acordado daquele sonho com o sibilar dos projéteis que voavam sobre a sua cabeça. O atirador lançara uma rajada de tiros onde apenas supunha onde ele estivesse. Peyton deu um salto e subiu correndo a ribanceira, embrenhando-se na floresta. Então, orientando-se pela luz solar, caminhou o dia todo. A floresta não tinha fim, sem clareiras ou trilhas. Ele mesmo não sabia que vivia numa região tão agreste, reconhecendo, na descoberta, que algo havia de misterioso ali.

Ele ainda caminhava, com os pés doloridos e faminto, quando anoiteceu. Animava-o, apenas pensar na mulher e nos filhos. Mas enfim encontrou uma estrada que, intuiu, o
levaria à sua plantação. Era larga, reta, parecendo nunca ter sido usada. Não havia cercas, nem habitações. Nem mesmo o ladrar de um cão, nada indicava a presença de
um ser humano. Margeavam-na vultos negros de árvores formando uma parede que no horizonte terminava num ponto, como num desenho de perspectiva. Acima cintilavam estrelas douradas formando constelações desconhecidas, que ele considerou montadas para enviar uma mensagem maligna. Dos lados, vindos da floresta, sons estranhos e assustadores que, às vezes, lhe pareciam murmúrios numa língua estranha.

O pescoço continuava a doer e, tocando-o com a mão, sentiu que estava bastante inchado. Imaginou que em torno dele se desenhava uma marca escura, marcada pela
corda. Abrandou a febre e a sede pondo a língua para fora, entre os dentes, em contato com o ar frio. Como era macio o tapete formado pela relva, ainda nunca pisada. Ele já não sentia nada sob os pés. Apesar de todo o sofrimento, teria adormecido enquanto caminhava, porque outra visão surgia à sua frente... ou talvez ele estivesse despertando de um delírio. Via-se junto ao portão da sua própria casa. Tudo estava como antes de ter partido - um deslumbrante panorama, sob o sol matutino. Imagina ter viajado a noite toda. Entra e segue pelo caminho amplo e claro à sua frente. Sorrindo com uma expressão calma e jovial, a sua mulher desce da varanda e fica à espera dele no final da escada, mantendo aquele sorriso inefável, numa atitude incomparável de graça e dignidade. Ah, como é bela! Estendendo os braços
ele corre na sua direção, mas, prestes a abraçá-la, sente uma forte pancada na nuca. Ofusca-lhe uma forte luminosidade branca e o som retumbante de um tiro de canhão. Depois, tudo é silêncio e escuridão!

Peyton Farquhar está morto. Seu corpo, com as vértebras cervicais quebradas, balança lentamente de um lado para outro, sob o vigamento da ponte de Owl Creek.

...................................................................................................
O AUTOR:
AMBROSE BIERCE
(1842-1914?)
O escritor e jornalista americano, conhecido como "Amargo Bierce" definia que "sozinho" era estar em "má companhia". Bierce fez do cinismo, misturado ao
humor negro, sua marca registrada. Família, nação, raça humana: nada escapava de suas estocadas, até hoje repetidas nos Estados Unidos.
Contista excelente, suas obras são constantes em qualquer antologia de contos americanos.
Aos 71 anos, Bierce seguiu em viagem para o México e sumiu sem deixar rastros. A teoria mais popular diz que ele foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa.

Principais Obras:
"O Dicionário do Diabo", "Cruzando o Umbral", "Visões da Noite", "Luar sobre a Estrada", "Um Incidente na Ponte de Owl Creek ", "No Limiar do Irreal", "A Morte de Halpin Frayser ", "O Ambiente Adequado".



LEIA O TEXTO ORIGINAL, EM INGLÊS, LÁ EMBAIXO, NO FINAL DAS POSTAGENS DO BLOG!