*do "Megazine", do jornal O Globo
Não poderia haver muitos lugares melhores para um papo sobre o universo de Machado de Assis. Os conselheiros da Megazine encontraram o diretor de TV e cineasta Luiz Fernando Carvalho numa livraria do Centro. Perto da seção Literatura Brasileira, a galera encheu o artista de perguntas sobre a microssérie “Capitu”.
A arrojada adaptação que Carvalho fez do clássico “Dom Casmurro” acaba de ser lançada em DVD (os extras trazem making of, entrevistas, cenas inéditas e até imagens dos atores em oficinas teóricas). É a chance para quem não ficou acordado até tarde quando a série ia ao ar, por volta da meia-noite.
O diretor de minisséries como “A Pedra do Reino” e “Hoje é dia de Maria” reafirmou a modernidade de Machado e criticou a forma como o escritor é apresentado em algumas escolas.
— Machado de Assis vive sendo empurrado goela abaixo dos jovens, e essa obrigatoriedade gera leitura burocrática. Tem que desencaretar esse processo — afirma.
MAYÃ FURTADO: Por que levar a dúvida sobre a traição de Capitu do livro para a TV?
LUIZ FERNANDO CARVALHO: Porque essa dúvida é um elemento de modernidade na literatura de Machado. Aquela época era cheia de moralismos e preconceitos, e ele cria uma narrativa na qual a dúvida é mais importante que simplesmente “sim” ou “não”. É uma proposta de interatividade já naquela época. Machado joga com as emoções do espectador, chama para decidir e deixa em aberto. Tirar tudo isso seria reduzir essa modernidade.
DANIEL FRAIHA: A linguagem dos seus trabalhos é uma inovação na TV. Mas o público em geral se identifica?
LUIZ FERNANDO: O público em geral é formado por uma linguagem padronizada. Eu luto contra essa repetição e duvido das verdades absolutas. Algumas vezes é um risco. Pode dar certo ou errado. Por
exemplo, quando me aproximo de um livro como “O romance d’A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, de universo hermético, centrado na cultura do Nordeste, o espectador do Sul pode se perder. Mas também pode se perguntar: “o que será Guerra de Princesa?” e, a partir daí, aprender sobre seu próprio país. É um ganho infelizmente não computável.
LUCAS DE TOMMASO: O que falta para a TV brasileira?
LUIZ FERNANDO: Não sou especialista, mas talvez grande parte dos jovens se sinta pouco representada, como crianças, negros ou necessitados. Na maioria, ainda são representados por estereótipos.
MAYÃ: Você acha que os jovens de hoje estão antenados com a literatura?
LUIZ FERNANDO: São antenados, sim. Mas ainda há preconceito com o livro, que é fruto da forma como se apresenta a literatura. Levei Machado para a TV pensando nisso. Ele vive sendo empurrado goela abaixo dos jovens, e a obrigatoriedade gera leitura burocrática: um dever de casa, quando deveria ser um prazer. “Dom Casmurro” é precipitado sobre alunos de 14, 15 anos. Não me parece a idade adequada.
DANIEL: Como apresentar literatura sem obrigar?
LUIZ FERNANDO: Não sou pedagogo. Existem mil maneiras, e com “Capitu” estou propondo uma. É preciso desencaretar esse processo. A maioria das escolas dá a Machado a pompa da oficialidade, a aura inacessível de presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). Machado não pode estar numa redoma. As escolas deveriam jogar essa redoma contra a parede.
DANIEL: As novelas (e não só as minisséries) poderiam cumprir esse papel?
LUIZ FERNANDO: O entretenimento deve apresentar o mundo de modo lúdico, e, logo, tudo é possível. Mesmo em se tratando de novelas. Temos de entender sua abrangência, o poder de
influenciar espectadores, para o bem ou para o mal. Me afastei de novelas por não me achar capaz de resolver essa equação. Mas desejaria vê-las num papel maior que o de simplesmente arrebanhar audiência, que seria o de formar cidadãos.
DANIEL: Uma novela também poderia ter a dúvida no ar, como em “Dom Casmurro”?
LUIZ FERNANDO: O espectador de hoje foi formado nos últimos 20 anos, tempo em que vendemos um modo de fabulação. Independentemente de ter qualidade ou não, esse modo se repetiu e uma mudança radical agora seria rejeitada. Mas Machado escreveu seu romance no século XIX. Isso aponta algo, não?
LUCAS: Seus últimos trabalhos passaram muito tarde. Isso complicou o alcance deles?
LUIZ FERNANDO: Levei “Capitu” para a TV por conta da abrangência. A TV não podia deixar Machado de Assis passar em branco! Para minha felicidade, a maioria dos telespectadores foi de jovens. Mas
o horário prejudicou, sim. Era muito tarde. Certos episódios entraram perto da meia-noite. Apesar disso, Machado deu média de 15 pontos na madrugada. Alto lá, é uma bela audiência!
MAYÃ: Foi intencional usar atores menos conhecidos na microssérie? Por quê?
LUIZ FERNANDO: O país tem muitos talentos, e esse baú deve ser revirado. Não devemos bater sempre na mesma tecla. Vejo um certo exagero nas escalações. De modo geral, toda a indústria dita cultural produz essa distorção. E os excessos desmitificam as personagens. Até mesmo grandes atores são vulneráveis à diluição de seus talentos pela exposição desnecessária.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Luiz Fernando Carvalho: 'Machado é empurrado goela abaixo dos jovens'
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Som & Fúria: Minissérie quer recuperar vocação popular de Shakespeare
O objetivo do diretor de cinema Fernando Meirelles, de “Cidade de Deus” e “Ensaio sobre a cegueira”, é claro: trazer de volta a “vocação popular” do texto de William Shakespeare. Na época em que escreveu, o bardo inglês fazia peças para o grande público, e não para a elite.
O resultado será visto a partir desta terça-feira (7), quando estreia a minissérie “Som & fúria”, sobre uma companhia de teatro especializada nas obras do dramaturgo britânico. Trata-se de uma co-produção de sua O2 com a TV Globo.
“Som & fúria” leva ao ar trechos de “Hamlet”, “Sonho de uma noite de verão”, “Macbeth” e “Romeu e Julieta”, em que se pode encontrar de tudo: amor e ódio, humor e tragédia, paixão e traição, futilidades mundanas e maquinações pelo poder.
A minissérie, que tem doze capítulos, é uma adaptação feita pelo próprio Meirelles da produção canadense “Slings and arrows”, originalmente escrita por Susan Coyne, Bob Martin e Mark McKinney. Tem como cenário os bastidores de uma companhia teatral, cujos integrantes vivem seus dilemas e conflitos em meio às montagens desses clássicos.
Leia no UOL matéria sobre a minissérie.
Visite o site da O2, produtora de Fernando Meirelles.
No jornal “O Estado de São Paulo”, leia entrevista com Fernando Meirelles.
* Matéria do site O Livreiro
sábado, 20 de dezembro de 2008
Concerto Campestre
Leitura obrigatória para os vestibulares da UFRGS e da UFPel, a obra do gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil é, além de uma bela história de amor, uma reflexão sobre a própria condição do gaúcho. A leitura propõe a relação dialética entre a natureza bruta e a violência de um lado, e de outro a sensibilidade, a cultura, a possibilidade de transformação.
Abaixo, temos um breve guia de leitura da obra.
Uma boa dica para os vestibulandos é o filme Concerto Campestre, de Henrique de Freitas Lima. Com locações nas charqueadas de Pelotas, o filme se destaca pela fotografia e pelo figurino, que levam o espectador à atmosfera das estâncias do século XIX. O elenco global, com Leonardo Vieira e Samara Felippo não compromete, e o veterano Antônio Abujamra se esforça para fazer um sotaque gaudério, protagonizando, intencionalmente ou não, algumas cenas cômicas.
Apesar de tudo, o filme é relativamente fiel ao texto de Assis Brasil, cabendo apenas destacar algumas diferenças entre a adaptação cinematográfica e o texto original:
1)No filme, Clara Vitória é filha única, enquanto no livro ela tem dois irmãos: Eugênio (mais velho, administra a charqueada do pai) e Ambrósio (mais moço e confidente de Clara)
2) No filme, o Maestro é representado pelo galã global Leonardo Vieira, que está longe de encarnar a figura do mulato de face marcada pela rubéola, como foiconcebido por Assis Brasil.
3) Como sempre, a Literatura permite uma riqueza maior de detalhes e de subenredos, o que podemos observar no caso do personagem Silvestre Pimentel. No livro, Silvestre, o noivo de Clara, tem um filho 'ilegítimo', que é tratado por ele como "afilhado". É graças à influência de Clara que Silvestre passa a reconhecê-lo como filho. No filme esse episódio não é colocado e o personagem assume o caráter de vilão (tipico de telenovelas) que irá ameaçar a felicidade dos mocinhos com sua sede de vingança. Assim, no final do filme, Silvestre morre tentando perseguir o Maestro, enquanto no livro, o noivo de Clara foge, após ser acusado injustamente de ter engravidado a mocinha.
Ah, não poderia deixar de mencionar os "defeitos especiais". Ao final do filme, a chuva de sangue idealizada pelo autor do livro se converte em um espetáculo digno de holywood (versão cine trash), com uma chuva de Ketchup e um ciclone de desenho animado.
Contudo, o filme não deixa de ser uma boa oportunidade de tomar contato com a obra.
Mas não há nada que substitua uma boa leitura.
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Capitu
Não poderíamos deixar de comentar neste espaço a adaptação global de Dom Casmurro, obra fundamental da prosa machadiana. Na modesta opinião deste professor que vos posta, foi uma grata surpresa. Não quanto aos aspectos técnicos, pois a forma e o visual sempre têm sido privilegiados nas produções de nossa teledramaturgia, mas quanto ao conteúdo.
O elenco, apesar de contar com Maria Fernanda Cândido, reforçou a atmosfera teatral objetivada pela direção. O contraste entre as figuras de Capitu e Bentinho, corroboram a idéia expressa no texto machadiano: "ela era mais mulher do que ele homem".
Outro destaque positivo foi a trilha sonora, com a canção tema "Elephant Gun" do ainda não muito conhecido Beirut. O ecletismo ainda passa por Black Sabbath e Tchaikowsky.
Mas o que realmente surpreendeu foi o fato de a Globo não ter estraçalhado com seu simplismo habitual o grande romance do Machado. Pelo contrário, o risco era enorme, pois a ambigüidade é essência desafiadora do texto machadiano. A trama foi conduzida pela narração de Bentinho (interpretado brilhantemente pelo versátil Michel Melamed) e, claro "envenenando" o leitor/telespectador em relação a Capitu, sem trair o espírito de Dom Casmurro.
Totalmente excelente! Que sirva de estímulo à curiosidade para a (re)leitura desse genial capítulo da literatura brasileira.
Deixe aqui seu comentário e participe da nossa enquete (originalíssima): Capitu traiu Bentinho?
