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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Entrevista: Ismail Kadaré, vencedor do prêmio literário Príncipe das Astúrias


"Podemos escavar com facilidade o seu solo, mas penetrar sua alma, isso jamais." A frase colocada por Ismail Kadaré na boca de um padre italiano de seu romance "O General do Exército Morto" define a personalidade do povo albanês. Define também a personalidade do próprio autor, nome-chave da literatura albanesa e um dos mais importantes da literatura mundial contemporânea.

Exilado político na França nos anos 90, o escritor agora divide seu tempo entre Paris e Tirana, capital da Albânia. Escrito nos anos 70, seu "Crônica na Pedra" -retrato do país na Segunda Guerra pelos olhos de um pré-adolescente- é lançado no Brasil, com tradução direta do albanês. Em seu apartamento, Kadaré, 72, falou à Folha sobre seu país, o stalinismo e, acima de tudo, literatura.

Jeff J Mitchell/Reuters

Folha - O sr. costuma dizer que sua formação literária caminha entre Macbeth e Dom Quixote. Como define essa mistura?
Ismail Kadaré - Trata-se sempre de caminhar entre o trágico e o grotesco. É um bom coquetel. A literatura precisa dos dois. Na vida é a mesma coisa, ainda que nem tudo que está na vida precise estar na literatura. A literatura é mais importante do que a vida.

Folha - Vários paralelos foram feitos comparando a sua literatura ao realismo mágico latino-americano. O sr. concorda com a aproximação?
Ismail Kadaré - Não sei, me parece um pouco ingênuo. Dante Alighieri fazia uma espécie de realismo mágico, Kafka e a mitologia grega também. Não sei por que essa denominação ganhou tanta força. O lado irrealista faz parte da literatura. Ela não pode nem mesmo existir sem essa dimensão transcendental, mágica, onírica, oculta.

Folha - Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?
Ismail Kadaré - Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

Folha - A Europa ocidental ainda vê os Bálcãs como um incômodo, como um problema a resolver?
Ismail Kadaré - Acho que sim, embora o interesse da Europa pelos Bálcãs venha crescendo. Os Bálcãs são uma realidade. É uma parte incômoda, mas é uma parte. Dizemos que é o quintal da Europa, mas o quintal é parte da casa. Sem tranqüilidade nos Bálcãs não há tranqüilidade para a Europa.

Folha - O sr. é favorável à entrada da Albânia na União Européia?
Ismail Kadaré - Sim. É a única esperança para que os Bálcãs entrem numa via de desenvolvimento normal. Ironicamente, o povo mais pró-europeu e ao mesmo tempo mais pró-americano são os albaneses. É curioso, porque era o povo mais stalinista. Há uma lógica interna para isso. Passamos de um extremo a outro, como uma reação.

Folha - E como foi a questão da dissidência ao regime no seu caso?
Ismail Kadaré - Na Albânia não se podia ser publicamente contra o regime, era totalitarismo absoluto. Mas pela literatura era possível contestar o regime. Tudo que escrevi e publiquei foi feito nesse contexto. Nunca fiz ataques diretos ao Estado, somente ironias escondidas, um pouco mais evidentes às vezes. Quando me perguntam se sou um dissidente digo não. Sou um escritor normal, num país anormal. E isso já é muito.

Folha- Mas o sr. teve um período de apoio ao regime, não?
Ismail Kadaré - Desde o começo tive reservas ao regime, ainda que elas não fossem tão conscientes. Se você ama a literatura, não pode amar o regime comunista. Não pode amar ao mesmo tempo Macbeth e a direção do comitê central de Stalin.

Folha - Muitos dos seus livros abordam o Império Otomano. Podemos comparar o imperialismo americano atual aos impérios clássicos?
Ismail Kadaré - O Império Otomano era atroz, sem aspectos positivos. Eu recuso essa comparação. Essa moda de chamar os EUA de império é um vestígio da Guerra Fria. A base da propaganda stalinista era buzinar "imperialismo americano" nas nossas orelhas. Na França, ouço a mesma propaganda tantos anos depois. É uma paixão exagerada. Os EUA são uma grande potência e, como toda grande potência, eles têm o bem e o mal em grandes proporções. Mas a moda me soa retrógrada.

Folha - O que achou da escolha de Le Clézio para o Nobel de Literatura?
Ismail Kadaré - Conheço este escritor, sei que é sério. Mas li seu primeiro livro há muitos anos e quase nada depois. Confesso que não me apaixonei. Sei que ele é respeitado na França, mas sem ardência. Enfim, o Nobel faz suas escolhas.

Folha - O sr. poderia falar um pouco sobre "Crônica na Pedra"?
Ismail Kadaré - É um livro sobre a Albânia, mas também sobre a guerra, a saída do narrador da infância, sobre tradições. Prefiro que os leitores descubram por si próprios.

*Extraído da Folha Online

Ismail Kadaré vence Príncipe de Astúrias de Literatura


Oviedo (Espanha), 24 jun (EFE).

O albanês Ismail Kadaré, um dos escritores europeus de maior destaque no século XX, venceu hoje o Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura 2009, divulgado na cidade espanhola de Oviedo, pela "beleza e pelo compromisso" de sua criação literária.


Concorriam com Kadaré na fase final do prêmio o holandês Cees Nooteboom, o italiano Antonio Tabucchi, o britânico Ian McEwan e o tcheco Milan Kundera.


O júri destacou que o autor albanês "narra com linguagem cotidiana, mas repleta de lirismo, a tragédia de sua terra, campo de contínuas batalhas".


"É um prêmio de grande valor, que alegraria qualquer escritor que o recebesse", declarou Kadaré por telefone a partir de sua casa em Tirana.


"Dedico o prêmio à literatura e língua albanesas, desconhecidas no mundo", acrescentou o autor, de 73 anos.


Kadaré escreveu "Abril Despedaçado", que serviu de inspiração para o filme de mesmo nome dirigido pelo diretor Walter Salles em 2001 e estrelado pelo ator Rodrigo Santoro. Na versão cinematográfica, a história se passa no Nordeste brasileiro.


Mais de 30 candidaturas procedentes de 25 países concorreram ao Prêmio Príncipe de Astúrias de Literatura 2009. No ano passado, a vencedora foi a canadense Margaret Atwood.


Autores como Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Doris Lessing, Susan Sontag e Amós Oz já foram agraciados com a premiação, que concede 50 mil euros e uma estatueta desenhada pelo artista espanhol Joan Miró ao vencedor.


Os nomes dos ganhadores de seis Prêmios Príncipe de Astúrias 2009 já foram anunciados. Os prêmios serão entregues no final de outubro pelo príncipe Felipe de Borbón, herdeiro da coroa espanhola, em uma cerimônia em Oviedo.

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Sobre o Autor:

Ismail Kadaré

*Biografia extraída da Wikipédia

Ismail KadaréIsmail Kadaré nasceu em 28 de Janeiro de 1936 em Gjirokastër, na Albânia. É o mais conhecido escritor albanês. Filho de um funcionário público, presenciou a devastação da Albânia pelas tropas que se digladiaram durante a Segunda Guerra Mundial, experiência que deixou as suas marcas tanto na sua vida como na sua obra. Estudou História e Filologia na Universidade de Tirana e no Instituto Gorky de Literatura em Moscovo (Moscou). Depois de sofrer ameaças do regime comunista albanês, exilou-se em França em Outubro de 1990, antes do regime colapsar. Regressou ao seu país em 1999. Recebeu muitos prémios literários, e foi nomeado diversas vezes para o Prémio Nobel da Literatura, onde quase sempre aparece na lista de favoritos.

Recebeu o Prémio Internacional Man Booker em 2005.

Em 2009 foi galardoado com o Prêmio Príncipe de Astúrias das letras.


Dissidência ou conformismo?As opiniões divergem sobre se Kadaré foi um dissidente ou um conformista durante o período comunista da Albânia. Em diversas ocasiões, Kadaré refutou a ideia de ter sido dissidente. Argumentos podem ser esgrimidos em ambos os sentidos. De facto, foi praticamente o único escritor albanês autorizado pelo regime, e foi mesmo deputado do regime-fantoche de Enver Hoxha, mas algumas das suas obras (como O Palácio dos Sonhos) são profundamente anti-totalitárias e ressaltam o valor da liberdade.


Lista (incompleta) de obras
As datas referem-se à primeira edição portuguesa e não correspondem à data ou ordem de escrita

O Dossier H (Dosja H) 1991
Concerto no fim do inverno (Koncert në fund të dimrit) 1991
O Palácio dos Sonhos (Pallati i ëndërrave) 1992
A Pirâmide (Piramida) 1994
Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo 1999
Abril despedaçado (Prilli i Thyer) 2002 - serviu de argumento para o filme Abril despedaçado
O General do Exército Morto (Le général de l'armée morte) 2004