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domingo, 20 de setembro de 2009

Relatos de Luanda do Reino de Portugal pelo escritor José Eduardo Agualusa


"A Conjura", de José Eduardo Agualusa (lançamento no Brasil pela Gryphus), reúne relatos de infaustos acontecimentos datados de algum tempo entre os anos de 1880 e 1911 na cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, Angola. É uma época marcada pela intranquilidade característica dos momentos pré-mudança. Há rumores de que a independência do reino está perto. E há também amores proibidos, conchavos políticos, homens poderosos que matam escravos para alimentar cães.

Nesse contexto, intelectuais, pessoas do povo e boêmios de Luanda se encontram na barbearia Fraternidade, pertencente ao distinto Jerônimo Caninguili, moço benguelense simples e de candura. A barbearia era um clube de ideias, onde se falava com o mesmo entusiasmo sobre nobres africanos e degradados chegados do Reino de Portugal.

Os relatos misturam realidade e ficção fazendo um desenho do modo de vida daquele tempo, e daquele lugar. São muitos personagens, o que pelo menos até o segundo capítulo causa certa confusão - difícil organizar mentalmente quem é quem em meio a tantos nomes e sobrenomes.

Tem o comerciante Carmo Ferreira, o escritor Alfredo Trony, o jornalista Arantes Braga, a bela Josephine de olhos largos e macios e quindumba cheirosa... Calma, palavras como quindumba (cabeleireira), quibucas (caravanas) ou machila (tipóia) são devidamente traduzidas ao final da página, para que ninguém sofra com as diferenças do português.

Apesar disso, é um livro de fácil leitura. José Eduardo Agualusa, angolano de família brasileira e portuguesa, parece tirar proveito de sua formação como jornalista quando emprega uma narrativa direta, quase noticiosa. Embora pouco conhecido por aqui, os livros desse autor estão traduzidos em uma dezena de idiomas.

Agualusa foi o primeiro escritor africano a receber, em 2007, o Prêmio Independente de Ficção Estrangeira, do jornal britânico The Independent e do Conselho das Artes do Reino Unido. Recebeu a distinção por causa de "O Vendedor de Passados", o livro de maior sucesso do autor.

O ponto forte do livro está na facilidade em destacar as relações culturais estabelecidas em Luanda pré-independência. Como a população daquele país se influenciou e como se distanciou das influências do reino. "A Conjura" foi o livro de estreia de Agualusa, lançado em Portugal em 1989.

Fonte: UOL


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"A Conjura"
Autor: José Eduardo Agualusa
Editora: Gryphus
Preço médio: R$ 34,90

sábado, 4 de julho de 2009

Na Flip, jovem escritor angolano critica acordo ortográfico


Rio de Janeiro, 4 jul (Lusa)

A reforma ortográfica da língua portuguesa precisa de um maior debate para a sua implantação, defende o escritor angolano Ondjaki, ao questionar o conceito de lusofonia e o "falso consenso" que existe entre os países em torno do acordo.

Ondjaki está na edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece até domingo, foi convidado para participar de um debate precisamente sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa.

"Não me venham com o acordo ortográfico em cima da minha palavra", ressaltou Ondjaki, mostrando-se contra a unificação da grafia, pois não entendeu "bem os meandros do acordo".

O jovem escritor angolano, representante de uma geração contemporânea de autores africanos de expressão portuguesa, disse à Agência Lusa que a reforma ortográfica "não faz sentido a título pessoal". "É um desabafo de escritor", acrescentou.

"Em quase todos os escritores, principalmente quando se trata do conto e da poesia, há uma relação muito umbilical com a palavra. O acordo, para um escritor, fica mais duro, mais difícil de aceitar porque mexe com uma componente que é o corpo da palavra e nós temos uma relação visceral com a palavra, de ciúme, de posse", ressaltou.

Críticas

Ondjaki afirmou compreender o motivo do um acordo, mas admitiu que "custa" a ele, como um poeta, aceitá-lo. "Doe-me no corpo da minha palavra que venham dar regras novas".

O escritor disse ainda que mantém uma posição "mais contra do que a favor" e que gostaria de ver as coisas mais "bem explicadas" por parte de quem defende ao criticar a ausência de discussão entre os setores da sociedade.

"Houve debate em cima de uma decisão que já estava tomada, não houve um debate que conduziu a decisão", declarou Ondjaki, para quem existe um "falso consenso" de oito países, em que apenas três deles assinaram o acordo.

"Leve o tempo que levar, há questões que têm que ser mais debatidas do que outras, não pode baixar uma lei, um decreto", afirmou.

Bastante crítico ao termo "lusofonia", o jovem autor angolano que teve suas obras traduzidas para o francês, inglês e alemão afirma que o conceito lusofonia, "tal qual é usado politicamente, não tem eco nenhum na realidade social das pessoas".

Na Flip, Ndalu de Almeida, nascido em Luanda, mais conhecido por seu pseudônimo Ondjaki, publica a sua mais nova obra infantil "O leão e o coelho saltitão", pela editora Língua Geral, além de ter lançado na última semana pela Companhia das Letras "Avódezanove e o segredo do soviético".

Nesta sétima edição da feira literária, o homenageado é o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) e tem como destaque o romancista português António Lobo Antunes.

A programação oficial inclui 34 autores convidados para a feira, realizada em uma das mais antigas e históricas cidades brasileiras onde são esperadas entre 20 a 30 mil pessoas.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Poesia Africana: Agostinho Neto


Noite

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.



Adeus à hora da largada


Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico

somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


*Poemas extraídos do livro "Sagrada Esperança (1974)"

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"A poesia de Neto traz o reconhecimento de que nunca se está só, de que não se pode ignorar a presença do outro, mesmo que o outro reduza suas possibilidades de ser. O outro, nas palavras de Agostinho neto, mistura-se ao Eu-angolano, define-o, mas não lhe rouba as origens. Antropofagicamente, o outro é assumido, compondo a imagem autêntica do ser angolano contemporâneo: ser África porque, ' calibanescamente', o outro - que historicamente determinou os desvios da cultura originária angolana - se fez presença no corpo de Angola. Ser África dos caminhos entrecruzados, mas fazer-se África."
("O Eu e o Outro em Sagrada Esperança" de Marcelo José Caetano - Caderno CESPUC de pesquisa PUC - Minas - BH, n.5, abr.1999)

O Autor


António Agostinho Neto (Ícolo e Bengo, 17 de Setembro de 1922 — Moscovo ou Moscou, 10 de Setembro de 1979) foi um médico angolano, formado na Universidade de Lisboa, que em 1975 se tornou o primeiro presidente de Angola até 1979. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o "Prêmio Lênin da Paz".

Fez parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países naquela que ficou designada como a Guerra Colonial Portuguesa ou Guerra do Ultramar como também é conhecida. Foi preso pela PIDE e deportado para o Tarrafal, sendo-lhe fixada residência em Portugal, de onde fugiu para o exílio. Aí assumiu a direcção do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual já era presidente honorário desde 1962.