
ALEXANDRA MORAES
da Folha de S.Paulo
Em 20 de novembro de 2010, será comemorado o centenário da morte de Liev Nikolaiévitch Tolstói.
Em 1899, pouco mais de dez anos antes de morrer, Liev Tolstói (1828-1910) lançava seu último romance. Em maio de 2010, ano em que a morte do escritor completa cem anos, o texto de "Ressurreição" vai aparecer pela primeira vez em português traduzido do russo, pelo escritor e tradutor Rubens Figueiredo, 53.
Na época em que "Ressurreição" foi lançado, Tolstói, já célebre, era mais conhecido pelas críticas sociais e religiosas do que propriamente como escritor de ficção, como lembra o professor de história em Oxford Orlando Figes em seu "Natasha's Dance" [a dança de Natacha, estudo que parte de uma coreografia do tolstoiano "Guerra e Paz" para examinar a construção cultural da Rússia].
Liev Tolstói (1828-1910), escritor de "Guerra e Paz", ganha novas traduções no país em 2010
A imagem que foi fixada nesses cem anos de Tolstói como uma figura moralista tem mudado provavelmente com o fortalecimento da própria noção de Tolstói como escritor antes de polemista.
"A falha na recepção de Tolstói não é do Brasil: nós a aprendemos das tradições críticas dos países mais ricos e dotados de mísseis e aviões bombardeiros. Trata-se de insistir na visão de um Tolstói doutrinador religioso, moralista, cuja carreira se divide em duas partes: uma do escritor e a outra do pregador", diz Rubens Figueiredo.
"É uma simplificação que deixa de lado o caráter mais marcante da obra de Tosltói: seu cunho questionador dos pressupostos da sociedade moderna _um questionamento de espírito polêmico e feito de um ângulo que, às vezes, se assemelha ao de um antropólogo."
Para o o cientista político Paulo Sergio Pinheiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que assina o texto da quarta capa de "Ressurreição", trata-se de "um dos maiores romances de todos os tempos, ao demonstrar a interdependência entre privilégio e violência, através de um preciso desvendamento das relações de poder na sociedade".
"Tolstói foi um grande ficcionista. Ele tem que ser apreciado como ficcionista. Há momentos em que o pregador aparece, mas são poucos", aponta o tradutor Bóris Schnaiderman, 92, que lança em maio lança sua "retradução" de "Khadji Murat" (Cosac Naify).
"Em 'Felicidade Conjugal' ele se entregou plenamente a essa capacidade de transmitir as nuances das vivências humanas", afirma. "Tolstói tinha uma habilidade extraordinária de compreender as fraquezas humanas. [O cineasta Serguei] Eisensentein disse que 'Anna Kariênina' era de um moralismo feroz, e é verdade, é uma condenação do adultério. Ao mesmo tempo, tem uma compreensão, uma capacidade de transmitir as nuances, os sentimentos humanos, diante das quais essa finalidade inicial quase desaparece."
Primeira obra de Tolstói que Schnaiderman traduziu, "Khadji Murat" "saiu com o título de 'O Diabo Branco', pela Vecchi, em 1948", diz o professor aposentado pela USP, que refaz suas traduções.
O personagem-título é um tchetcheno que tem de decidir entre se aliar a russos para salvar a família sequestrada ou render-se a Imam Schamil (1797-1871), líder da resistência contra o Império Russo no século 19.
Para Schnaiderman, o texto merece mais atenção que a que tem recebido no Ocidente. "É um tema que nos toca hoje mais de perto. Tem havido mais atenção, Harold Bloom trata desse livro no seu 'Cânone Ocidental'."
sábado, 26 de dezembro de 2009
Legado de Leon Tolstói é revisto em centenário
sábado, 29 de agosto de 2009
Conto: Gricha (Tchekhov)
Gricha , rapazinho pequeno e rechonchudo, nascido há dois anos e oito meses atrás, passeia pelo bulevar com a sua ama. Tem uma capinha comprida forrada de algodão, um cachecol, um grande gorro com borla felpuda e galochas quentes. Tem muito calor, sente-se abafado e, ainda por cima, o desabrochado sol de Abril bate-lhe nos olhos e belisca-lhe as pálpebras.
Toda a sua figurinha desajeitada, de andar tímido e inseguro, exprime uma perplexidade extrema.
Até este dia, Gricha conhecia apenas o mundo quadrangular: num canto a sua cama, noutro a arca da ama-seca, no terceiro a cadeira, no quarto a lamparina. Olhando para debaixo da cama vê-se um boneco com um braço partido e um tambor e, atrás da arca da ama, coisas díspares: um carretel já sem linha, papelinhos, uma caixa sem tampa, um palhaço estragado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, aparecem muitas vezes a mamã e a gata. A mamã parece-se com uma boneca, e a gata com a peliça do papá, só que a peliça não tem olhos nem rabo. Deste mundo a que chamam «o quarto da criança» há uma porta que dá para o espaço onde almoçam e tomam chá. Aqui, está a cadeira de Gricha com pernas compridas e um relógio de parede que existe para abanar o pêndulo e tocar. Da sala de jantar pode-se passar para outra onde há poltronas vermelhas. Aqui, no tapete, há uma nódoa e, até agora, ainda ameaçam Gricha com o dedo por causa dela. Pegada a esta sala há mais uma, onde não o deixam entrar e onde se entrevê o papá – uma personalidade extremamente enigmática! A ama e a mamã são compreensíveis: vestem o Gricha, dão-lhe de comer e deitam-no na cama; mas por que raio existe o papá, isso já não se sabe. Existe mais uma personalidade enigmática: a tia que ofereceu a Gricha o tambor. Aparece e desaparece. Desaparece para onde? Gricha espreitava muitas vezes para debaixo da cama, para trás da arca e para debaixo do divã, mas ela não estava lá...
Ora, neste mundo novo onde o sol fere os olhos, há tantos papás, mamãs e tias que não se sabe para quem correr. Mas os mais estranhos e absurdos são os cavalos. Gricha olha para as suas patas andantes e não percebe nada. Olha para a ama para que esta lhe resolva o problema, mas a ama continua calada.
De repente, ouve um bater de pés terrível... Marchando a compasso, avança contra ele pelo bulevar uma chusma de soldados com as caras vermelhas e os ramos do banho debaixo do braço. Gricha fica gelado de medo e olha interrogativamente para a ama: aquilo não será perigoso? A ama não foge nem chora, logo não há perigo. Gricha olha para a traseira da massa de soldados e põe-se também a marchar ao ritmo deles.
Correm através do bulevar duas gatas grandes com os focinhos compridos, as línguas de fora e os rabos espetados para cima. Gricha acha que também tem de correr e corre atrás das gatas.
– Alto! – grita-lhe a ama, agarrando-o com brusquidão pelo ombro. – Aonde pensas que vais? Quem te autorizou a fazeres traquinices?
Sentada ao pé de uma pequena selha cheia de laranjas está uma ama qualquer. Gricha, ao passar por ela, tira uma laranja para si.
– O que estás a fazer? – grita a sua acompanhante, dá-lhe uma palmada na mão e tira-lhe a laranja. – Parvo!
Agora, Gricha apanharia do chão, com grande prazer, um bocado de vidro que vê a seus pés e que brilha como a lamparina; mas tem medo de que lhe voltem a bater na mão.
– Os nossos respeitos! – ouve Gricha de repente, quase por cima do seu ouvido, dito numa voz alta e espessa e vê um homem alto com botões reluzentes.
Para grande prazer de Gricha, o homem estende a mão para a ama, pára ao lado dela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões reluzentes – tudo isso é tão impressionantemente novo para ele, e nada assustador, que a alma de Gricha se enche de alegria e Gricha começa a rir.
– Vamos! Vamos! – grita para o homem dos botões reluzentes, puxando-lhe pela aba do casaco.
– Vamos aonde? – pergunta o homem.
– Vamos! – insiste Gricha.
Gricha gostaria de lhes dizer que não seria mau levarem com eles também o papá, a mamã e a gata, mas a língua de Gricha nunca diz o que é preciso.
Um pouco mais tarde, a ama desvia-se do bulevar e leva Gricha para um pátio grande onde ainda há neve. O homem dos botões reluzentes, atrás deles, também vai. Contornam com cuidado os charcos e os grandes bocados de neve dura, depois sobem uma escada suja e escura e entram num quarto. Aqui há muito fumo, cheira a carne assada e uma cozinheira está diante do fogão a fritar almôndegas. A cozinheira e a ama beijam-se e sentam-se no banco com o homem e começam a falar baixinho. Gricha, de tão agasalhado, sente um calor e um sufoco insuportáveis.
«Por que será?», pensa ele, olhando em volta.
Vê um tecto escuro, a tenaz – cavalinho com dois cornos –, o grande buraco negro do fogão a olhar para ele...
– Maaamã! – chama ele.
– Ai, ai, ai! – grita a ama. – Esperas!
A cozinheira põe na mesa uma garrafa, dois cálices e um bolo. As duas mulheres e o homem dos botões reluzentes brindam e bebem várias vezes, e o homem ora abraça a ama, ora abraça a cozinheira. Depois, começam os três a cantar baixinho.
Gricha estende a mão para o bolo, dão-lhe um bocadinho. Come e observa como a ama bebe... Também quer beber.
– Dá! Ama, dá! – pede ele.
A cozinheira deixa-o dar um gole do seu cálice. Gricha esbugalha os olhos, franze a cara. Tosse e depois abana muito as mãos. A cozinheira olha para ele e ri-se.
De volta a casa. Gricha põe-se a contar à mamã, às paredes e à gata onde esteve e o que viu. Fala menos com a língua do que com a cara e as mãos. Mostra como brilhava o sol, como corriam os cavalos, como o fogão pavoroso olhava para ele e como a cozinheira bebia.
À noite, não havia meio de adormecer. Os soldados com os ramos, as gatas grandes, os cavalos, o vidrinho, a selha com laranjas, os botões reluzentes amalgamavam-se num bloco e oprimiam-lhe a cabecinha. Dava voltas na cama, falava pelos cotovelos e, por fim, não aguentando mais tanta excitação, começou a chorar.
– Tens febre! – diz a mamã, apalpando-lhe a testa. – O que poderia ser?
– Fogão! – chora Gricha. – Vai-te embora, fogão!
– Às tantas comeu de mais... – conclui a mamã.
E Gricha, a extravasar das emoções da vida nova que há pouco experimentara, recebe da mãe uma colher de óleo de rícino.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Faleceu escritor Vassili Aksionov
O escritor russo Vassili Aksionov faleceu hoje, (6/7) aos 77 anos, informou o director do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Burdenko.
Destak/Lusa | destak@destak.pt
“Vassili Aksionov encontrava-se em estado crítico devido a um grave traumatismo num acidente de viação”, precisou.
Vassili Aksionov nasceu em 1932 em Kazan, cidade nas margens do Volga. Filho de Pavel Aksionov, funcionário municipal, e Evguenia Guisburg, conhecida jornalista e escritora, o futuro escritor passou a infância na Sibéria, para onde os seus pais foram deportados por motivos políticos.
Em 1956, termina a Faculdade de Medicina de Leninegrado, tendo exercido a profissão de médico durante três anos. Em 1960, torna-se conhecido depois da publicação do seu romance «Colegas», adaptado ao cinema em 1963. Na década de 60, publicou cerca de vinte obras literárias, entre as quais romances, novelas e peças de teatro - «Pássaro de Aço», «Sempre à venda», «Em busca do género», entre outros.
Na década de setenta, teve problemas com a censura soviética que proibiu a publicação de obras como «Queimadura» e «Ilha da Crimeia».
Expulso da União Soviética e privado da cidadania soviética em 1980, Aksionov instalou-se nos Estados Unidos, onde leccionou Literatura em várias universidades.
Após a derrocada da URSS em 1991, o escritor volta a ver as suas obras publicadas no seu país. Em 2004, escreve o romance «Volterianismo e Volterianos», onde explora os problemas dos limites da autonomia e da liberdade, tendo sido premiado com o Prémio Booker russo.
Em 2004, termina a triologia «Saga de Moscovo», que foi levada ao cinema, e, em 2007, publica o romance «Elementos Terrestres Raros».
No ano seguinte, foi galadoardo com a Ordem de Artes e Letras, um dos mais importantes prémios de França.
A sua obra provoca reacções diversas entre crírticos e leitores russos. Uns consideram-no um combatente contra o totalitarismo comunista, enquanto outros vêem nele um escritor anti-russo e politicamente tendencioso.
Os seus temas principais são o destino da intelectualidade na sociedade totalitária, a limitação da liberdade. Por isso, não escondia o seu desagrado face à actual política do Kremlin.
Na sua escrita, Aksionov recorreu frequentemente a métodos surrealistas e absurdos.
O Presidente e o primeriro-ministro russos, Dmitri Medvedev e Vladimir Putin respectivamente, enviaram condolências à família do escritor.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Contos do Mundo: Angústia (Tchekov)
País de Origem: Rússia
Tradução: Boris Schnaidermann
Publicação original: 1886
.........................A quem confiar minha tristeza?(1)
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover. Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.
- Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo...
O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
Combinaram isso.
Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...
Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.
- O quê? - pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:
- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.
- Hum!... De que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.
- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!
O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel... A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...
Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.
- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda, com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!
Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?
Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.
- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...
- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...
- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos. - Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.
Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço comprido. - Mente como um animal.
- Que Deus me castigue, é verdade...
- Tão verdade como um piolho tossindo.
- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!
- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. - Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:
- Esta semana... assim, perdi meu filho!
- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?
- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!
- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.
- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê saúde!
- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.
Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...
E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz...
Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.
- Que horas são, meu caro? - pergunta.
- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!
Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.
"Para casa", pensa, "para casa".
E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...
"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."
Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.
- Ficou com sede? - pergunta Iona.
- Com sede, sim!
- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...
É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.
"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre há tempo para dormir..."
Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...
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(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.
....................................................................................................... O AUTOR
Escritor russo, Anton Tchékov nasceu em Taganrog, no sul da Rússia, no dia 17 de Janeiro de 1860, filho de um comerciante. A sua família mudou-se para Moscovo em 1876 devido à falência do pai, mas Anton permanece na cidade natal para terminar o liceu. Assim, só três anos mais tarde se juntou à família em Moscovo, onde se matricula na faculdade de Medicina. Para ajudar financeiramente a família, Tchékhov faz pequenos trabalhos jornalísticos e as primeiras tentativas literárias. Termina os estudos de Medicina em 1884 e começa a exercer nos arredores de Moscovo.
A sua primeira narrativa é publicada num jornal humorístico em 1880, desencadeando uma intensa colaboração de Anton com diversas publicações. Os seus primeiros textos dramáticos datam do final da década de 1880 (Ivánov).
No ano de 1892 compra uma casa no campo, em Mélikhovo, para onde se muda com a família.
Três anos mais tarde visita Tolstoi, cujas ideias irão exercer grande influência e fascínio sobre Tchékhov.
Por motivos de doença, muda-se para Ialta, em Crimée. É no final da sua vida que escreve as três peças que o consagram como grande dramaturgo: A Gaivota em 1896, As Três Irmãs em 1900 e O Cerejal em 1903.
Em 1904 parte para a Alemanha com a actriz Olga Knipper, com quem casara em 1901, morrendo no mês de Julho em Badenweiler, na Floresta Negra.
Hoje é reconhecido como um dos mais importantes escritores russos
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A Brincadeira (Tchekov)
Um claro dia de inverno…Faz tanto frio que a neve estala debaixo dos pés, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos no lado da cabeça e o pelo fininho no lábio superior cobertos de orvalho cintilante. Estamos no topo de um morro muito alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se reflete como um espelho. Ao nosso lado está um pequeno trenó forrado de pano vermelho.
“Vamos deslizar até lá embaixo, Nadêjda Petrovna”, imploro, “Só uma vez! Garanto que vamos ficar sãos e salvos!”
Mas ela tem medo. A distância entre as suas pequeninas galochas e o fim da montanha de gelo lhe parece um abismo terrível, de profundidade incalculável. Ela fica tonta e perde o fôlego só de olhar lá para baixo, quando eu lhe proponho sentar no trenó – imagina então se ela arriscar despencar no precipício? Ela é capaz de morrer ou enlouquecer!
“Eu lhe suplico”, digo eu, “Não tenha medo! Você não percebe que isso é fraqueza? É covardia?”
Nádenka acaba cedendo, e eu vejo pelo seu rosto que ela acredita que cede com perigo da própria vida. Eu a acomodo, pálida e trêmula, no trenó, sentom-me também. Ponho o braço em volta dela e, juntos, nos precipitamos no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca com raiva, até doer, parece querer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento dificulta a respiração. É como se o diabo em pessoa tivesse nos agarrado com as patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece que em mais um instante estaremos perdidos.
“Eu te amo, Nádia”, digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Pálida, mal consegue respirar… Eu a ajudo a levantar-se.
“Nunca mais faço isso!”, diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. “Por nada nesse mundo! Por pouco não morri!”
Logo depois ela volta a si e já me encara com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos diante do morro. O prblema, visivelmente, não a deixa em paz. Aquelas palavras foram mesmo pronunciadas ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka examina o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde de qualquer jeito as minhas perguntas, espera que eu fale. Meu Deus! Que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo nitidamente como ela luta consigo mesma. Ela precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra as palavras. Está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria…
“Sabe duma coisa?”, diz ela, sem olhar para mim.
“O quê?”, pergunto eu.
“Vamos de novo… Vamos deslizar pelo morro.”
Subimos pela escada até o alto. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo despencamos no precipício medonho, de novo o vento uiva e as lâminas zunem, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge, eu digo a meia voz:
“Eu te amo, Nádia.”
Quando finalmente o trenó pára, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois examina longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o capote de peles e o capuz, toda a sua figurinha, transmite extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
“Mas o que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou meus ouvidos me enganaram?”
A incerteza a perturba, a impacienta. A pobrezinha não responde às minhas perguntas, franze a testa, está quase chorando.
“Você não prefere ir para casa?”, pergunto eu.
“Mas eu… Eu gosto dessas… descidas”, diz ela, enrubescendo. “Não quer descer o morro mais uma vez?”
Ela diz gostar destas descidas, e mesmo assim, quando chega o momento de sentar no trenó, como das outras vezes, ela fica pálida, trêmula, ofegante de medo.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fixa o olhar no meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos no meio da encosta, deixo escapar:
“Eu te amo, Nádia!”
E assim o enigma continua. Nádenka se cala, está pensando… Eu a acompanho para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera que eu lhe diga aquelas palavras. Eu eu vejo claramente como sofre, como tem que se esforçar para não dizer:
“Não pode ter sido o vento! Eu não quero que tenha sido o vento quem disse aquilo!”
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se for ao morro hoje, venha me buscar. N.” E desde essa manhã, comecei a ir com ela ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
“Eu te amo, Nádia!”
Logo Nádenka acostuma-se à frase, como outras pessoas se acostumam ao vinho ou à morfina. Não pode mais viver sem ela. É verdade que voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas agora o medo e o perigo acrescentam um encanto especial às palavras de amor, palavras que continuam sendo um enigma… Continuam oprimindo a alma. São sempre os mesmos suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas ao que parece, isso já não importa, não importa o copo em que se bebe, importa é fica embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e de repente vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos… Depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem muito medo de ir sozinha, meu Deus, quanto medo! Está pálida como a neve, treme, vai adiante como se fosse para a fôrca, mas vai, vai sem olhar para trás, cheia de decisão. Pelo visto, ela resolveu finalmente tirar a prova: será que aquelas palavras estranhas vão se fazer ouvir quando eu não estiver junto? Então vejo como ela, lívida, com a boca meio aberta de terror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, faz com que ele se ponha em movimento… zzzzz… zunem as lâminas. Será que ela ouviu aquelas palavras? Não sei… Só o que vejo é como ela se levanta to trenó, exausta, fraca. E pelo seu rosto percebe-se que nem ela mesmo sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou toda sua capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…
Mas então chega o mês de março, e com ele a primavera… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e derrete. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a São Peterburgo, onde vou ficar muito tempo, talvez para sempre.
Pouco antes de partir, uns dois dias talvez, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, ainda há neve pelos cantos, as árvores ainda estão mortas, mas já se sente o cheiro da primavera. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. Vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa no céu o olhar tristonho… O vento da tarde lhe sopra no rosto, pálido e desanimado… Ele faz com que ela se lembre daquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras. Com isso o seu rosto fica triste, muito triste, e pela faze desliza uma lágrima… A pobrezinha estende os braços, como se implorasse ao vento que lhe traga mais uma vez aquelas quatro palavras. Eu espero o vento favorável, e sopro a meia vez:
“Eu te amo, Nádia!”
Meu Deus, o que aconteceu com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
E eu vou arrumar as malas.
Isso tudo foi há muito tempo. Agora, já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidas. Para ela, isso é hoje a mais feliz, a mais comovente e a mais bela recordação de sua vida.
Mas eu, agora que estou mais velho, não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, não compreendo mais porque brincava…
