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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Euclides da cunha: ''Em Canudos, a reviravolta e opinião'' (Walnice Nogueira Galvão)


''Em Canudos, a reviravolta e opinião''

Todos sabem que o arcabouço d''Os Sertões trata do confronto entre um movimento messiânico milenarista sertanejo e as Forças Armadas.

O esquema do livro, como também se sabe, é nitidamente determinista. São três partes: A Terra, O Homem e A Luta. Quando Euclides começa a escrever a primeira parte do livro, que, a meu ver, é a mais bela, ele vai fazer o quê? Vai começar pela constituição geológica do continente americano. Trata, então, do solo, e também da flora, da fauna, do clima, do fenômeno da seca, etc. Isso constitui o sumário da primeira parte.

Na segunda parte, que se chama O Homem, ele tratará do povoamento e da miscigenação como processo. Sobre essa segunda parte, quem vai se estender é a colega Lilia Schwarcz, especialista no assunto. Eu passo, então, em seguida a falar da Luta, que é subdividida em seis capítulos e tem o mesmo número de páginas que as duas anteriores somadas. Trata-se da parte maior do livro.

É bom não perder de vista o seguinte: que essa parte que se chama A Luta - e que deveria ser, em princípio, apenas a crônica da guerra - tem trunfos, tem ardis literários e, por isso, deflagra retroativamente as duas partes iniciais.

A Terra, entre as muitas coisas brilhantes que efetua, realiza a metaforização narrativa dos vegetais.

Conforme a analogia positiva, temos ali o elogio da resistência dos vegetais, suas virtudes morais e seu caráter de plantas sociais. Ou seja: trata-se de alegorias do sertanejo, de quem essas plantas são aliadas e protetoras, porque elas, além de apoiarem umas às outras, repelem o invasor.

Afora a analogia positiva, nós temos também o trabalho da analogia negativa, em que esses vegetais aparecem da seguinte maneira: o mandacaru, aquele cacto enorme, é chamado de espectro de árvore. Naqueles entrançados de espinhos, que existem no sertão, se retêm farrapos das fardas dos soldados que passaram por lá. Ainda mais: cabeça-de-frade, que é um cacto redondo, espinhento, que produz uma vez por ano uma única flor rubra, é comparado a um conjunto de cabeças decepadas - que só aparecerão na última parte do livro, na qual vamos saber da prática sistemática da degola dos prisioneiros.

Também nessa parte inicial se fala de Canudos pela primeira vez, quando Euclides diz que um soldado estava deitado à sombra de uma árvore, ''descansando'', havia três meses, ou seja, ele estava morto e mumificado pela secura dos ares do sertão. É assim que o leitor tem contato com Canudos pela primeira vez no livro. Em seguida, isso é replicado pelo cavalo, igualmente mumificado, que, preso meio de pé numas pedras, mostra sua crina esvoaçante, de modo que também tem a aparência enganosa da vida.

Quanto à Luta, vocês sabem que foram necessárias quatro expedições para conseguir debelar a insurreição do Arraial. E o fim da guerra se deu no dia 5 de outubro de 1897. Antes que a luta terminasse, o que se divulgava era que se tratava de uma conspiração monarquista internacional, que tinha Canudos como foco e por objetivo restaurar o império. E o que aconteceu quando a guerra acabou? Quando a guerra acabou, o que surgiu foi a resistência admirável dos canudenses e um massacre de gente pobre, mal armada e mal alimentada.

É preciso lembrar que, quando a República foi instaurada no Brasil, houve uma série enorme de levantes disseminados pelo território nacional, algo normal quando ocorre uma mudança de regime violenta como essa. Mas a Guerra de Canudos foi o último desses movimentos. Quer dizer, tamanha repressão, tamanha convocação dos brios do Brasil inteiro acabaram fazendo com que a República saísse do conflito consolidada. Consolidada à custa do sangue dos canudenses, evidentemente, mas consolidada.

E o que Os Sertões expressa? Expressa exatamente uma reviravolta de opinião. Quando Euclides da Cunha foi para Canudos, como todo mundo no Brasil, ele pertencia àquela opinião unânime de que lá havia uma conspiração monarquista, que significava um retrocesso para o País. Mas quando chegou ao cenário da guerra, Euclides começou a ver que as coisas eram um pouco diferentes. Já se encontram no Diário de Uma Expedição os primeiros sinais de uma mudança, da reviravolta que iria se operar nele. Euclides da Cunha trazia da Escola Militar uma boa bagagem. Ele tinha estudado geologia, mineralogia, botânica, química, física, ótica, astronomia, geodésica, mecânica racional, as matemáticas, etc. Só que eram matérias de currículo; nada era muito aprofundado, como se pode notar lendo Os Sertões. Mas se percebe também que esses saberes adquiridos na Escola Militar afinam as vistas com que Euclides avalia Canudos e a guerra. Lembremos também que ele fez estudos novos para escrever o livro. Foi estudar a história de Portugal e do Brasil, especialmente a colonização e o povoamento; estudou noções de antropologia, de sociologia, de folclore, de psicologia social e daquilo que se chamava de ''comportamento normal das multidões'''', porque os cientistas sociais andavam muito preocupados com a Revolução Francesa, que mobilizara massas revolucionárias nas ruas.

O que nós vamos ter, então, em relação ao conjunto dos saberes de Euclides? Ele mobiliza tudo isso. Vamos encontrar, misturadas nas páginas da obra, por exemplo, teorias sobre a origem do fenômeno endêmico das secas e interpretações psicocriminais da instabilidade nervosa dos mestiços. Ou então uma crítica às táticas do exército misturada com análises de preceitos religiosos e de heresias ao longo da história.

Com tudo isso, Os Sertões cumpriu sua missão: erigir um monumento literário à memória dos canudenses, imolados no altar da modernização trazida pela República que se abatera sobre eles.

esde a primeira leitura de Os Sertões, eu lembro que me chamava a atenção, logo na nota introdutória, a passagem de uma frase: ''Gumplowicz, maior do que Hobbes.'' Obviamente, eu não sabia quem era Gumplowicz - se alguém aqui souber, parabéns, porque eu não sabia até relativamente pouco tempo atrás. Numa das minhas leituras, já adulto, releitura, aliás, de Os Sertões, eu me deparei outra vez com a frase e disse: ''Não é possível que a esta altura da vida não saiba ainda quem é Gumplowicz.'' Procurei nas enciclopédias acessíveis, desde logo a Britânica - nenhuma referência. Até encontrar informações sobre ele na Enciclopédia Italiana, enciclopédia fascista. Fascista, sim, mas que tem um pequeno verbete sobre Ludwig Gumplowicz. Eu lhes dou os dados muito rapidamente.

Gumplowicz era um polonês, nascido em 1838 na Cracóvia e foi professor numa pequena cidade da Áustria, Graz, onde morreu em 1909. No fim do século 19 e início do século 20, a Polônia pertencia ao Império Austro-Húngaro e a língua da elite, ou pelo menos do grupo docente e administrativo, era o alemão. Então, Gumplowicz tinha escrito nesse idioma um livro chamado A Luta das Raças. Euclides não lia em alemão; se já lia muito mal o inglês, imagine o alemão. Mas descobri que o livro teve uma tradução francesa e deve ter sido nessa língua que Euclides o leu.

É uma obra pequena, sem grandes dificuldades de leitura. Para minha surpresa, lendo o livro, eu me disse: ''Não, este não pode ser o autor que Euclides cita!'' Por quê? Porque esse autor é todo o oposto do ''darwinismo social'' que ele esboçava.

E o que Gumplowicz diz explicitamente? Em poucas palavras, depois de reconhecer os méritos de Darwin, de dizer no que se afasta do autor de A Origem das Espécies, ele vai admitir que as raças não tinham uma origem única, ou não tinham um tipo único, e sofriam variações de acordo com as condições do meio. No livro, Gumplowicz explica que não se podem testar as ditas leis universais nesse caso, porque estamos falando de um tempo de milênios de anos, em que não há um testemunho disso. Mas, acreditava, podemos bem imaginar que se tratasse de uma multiplicidade muito grande de grupos humanos - e que esses grupos guerreavam entre si. Aqueles que venciam cresciam em número, aumentavam, incorporando os vencidos. Então, o primeiro critério do que se entendia como raça era um critério de ordem social, ou seja: de, família, clã, tribo, grupo vencedor. Grupo ''vencedor'', leia-se ''raça vencedora'' - então, leia-se ''raça mais forte''. Grupo ''vencido'', leia-se ''raça inferior''.

''Raça'', portanto, é um critério - falando com os termos de hoje - antes sociocultural do que biológico. Gumplowicz acrescenta: ''É verdade que a ideia de laço de sangue é um elemento mais forte, contudo, se trata de um elemento posterior.'' Ou seja, o laço de sangue, a base do que a gente entende como raça se estabelece depois que aqueles critérios socioculturais se verificam.

Na análise de Os Sertões interessava-me resolver esse enigma. Acho muito estranho que, depois de um século de estudos euclidianos, eu não haja encontrado nenhum trabalho que se referisse ou que analisasse Gumplowicz. Talvez alguém possa me desmentir. Mas o fato é que, havendo referência ou não, a análise do debate da divergência da leitura de Euclides em relação ao que o polonês dizia, esse debate, que eu saiba, foi estabelecido apenas num livro que eu escrevi no fim do século passado, chamado Terra Ignota.

Outro ponto sobre o qual eu vou evitar me estender agora, por questão de tempo, é: como seria Os Sertões se Euclides tivesse lido Gumplowicz corretamente? A ideia básica do cristal de rocha, da essência da nacionalidade, da necessidade de passar um tempo para que nós superássemos a mestiçagem - que é, do ponto de vista da antropologia biológica, um crime, etc., etc. -, tudo isso cairia fora d''Os Sertões. Insisto: o que seria de Os Sertões se Euclides tivesse bem lido Gumplowicz? Mas essa é uma questão que eu deixo, seguindo o estilo das telenovelas, para um próximo capítulo.

s Sertões representa um exemplo extremo de obra em que criador e criatura pouco se distinguem. De um lado, não há mais como falar do episódio de Canudos sem mencionar o autor. De outro, eu diria que a memória é sempre traiçoeira: o escritor se mistura com Antônio Conselheiro, como bem mostrou Roberto Ventura.

Eu me deterei aqui na segunda parte de Os Sertões, O Homem. Ela me parece ser mais lamentada do que destacada. O ataque se dirige justamente ao suposto engano de Euclides da Cunha ao se apoiar na bibliografia herdada do darwinismo social, a qual condenava o cruzamento de raças e via nesse cruzamento um forte sinal de degeneração - e também da falta de futuro da nossa nacionalidade.

Nesta primeira parte do livro, o sertão de Canudos é a síntese dos contrastes. Noites geladas com sóis ardentes; região hostil com ambiente acolhedor; o cacto que pica, mas dá suco doce; a seca que é problema, e é também solução. Mas a natureza é, sobretudo, personagem e as ações interferem diretamente não só no meio físico como também no homem. O homem é entendido como mimese da natureza. As espécies diferentes da natureza vão ser encontradas agora nos homens, que serão também variados. Raças, diferentemente do que diziam os teóricos da época, até mesmo aqueles que Euclides cita, não são estáticas, se modificam na luta pela vida. Assim como as espécies vegetais, convivem e se alteram no contato com o ambiente físico.

Euclides da Cunha vai estabelecendo esse jogo de simetrias entre a natureza, o homem e o social e desenhando um quadro que a todo o momento se move. O sertanejo é síntese do clima, do solo e das condições de vida. É síntese de sua história. Por isso, diz Euclides, ele é foco de contraste, como a natureza. É valente, mas supersticioso; é forte, porém raquítico; é generoso, mas fanático. Não por acaso, Euclides da Cunha cita a nata do darwinismo social - Broca, Morton -, assim como outros autores, caso de Gumplowicz, já mencionado aqui. Diferentemente das raças estacionadas e em equilíbrio, o mestiço brasileiro estaria em formação e seria um retardatário nesse processo evolutivo. Interessava a Euclides pensar num mestiço específico: o sertanejo.

Seu argumento é claro: não teríamos uma raça; seríamos um exemplo de formação futura. E aí vem a grande frase de Euclides da Cunha: ''Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.'' O progresso aqui aparece como danação, não exatamente como um ganho. O dilema desta geração da República Velha era o dilema de duvidar da civilização e, dessa maneira, também da própria modernidade. Euclides divide o País em três partes, três regiões geográficas: o Norte, o Centro em transição e o Sul. E as três áreas estabelecem três zonas climáticas distintas. E, segundo ele, a história traduziria notavelmente a modalidade mesológica. Tudo se relaciona. Teríamos, portanto, duas histórias distintas, a do Norte e a do Sul; igualmente, duas formas de desconhecimento, ou melhor, se todos conheciam o Sul, o Norte surgia como absolutamente desconhecido, um meio físico encravado entre os canaviais da costa e o sertão do interior. O mar e o deserto. Mais uma vez o contraste; outra vez a relação meio, história e formação étnica. Por isso, não existiria uma formação étnica, ou um traço de conformidade, ao contrário restaria, mais um termo de Euclides da Cunha, uma sub-raça efêmera.

É nesse momento do livro que Euclides introduz um trecho, talvez o mais controverso da obra, chamado Parênteses Irritantes. Abramos esses parênteses. O suposto é claro: ''A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial.'' A mistura é ''quase sempre'' prejudicial e o mestiço é ''quase sempre'' um desequilibrado - e dá-lhe termos negativos (''decaído'', ''híbrido moral'', etc.); nesse caso, ''a raça forte não destrói a fraca, esmaga-a pela civilização''. É nesse momento que entendemos as ressalvas que marcam o começo desses Parênteses. Euclides da Cunha usa termos como ''quase sempre'', ''na maioria das vezes'', não por exercício de estilo, mas para salvaguardar o sertanejo. Ou seja, diferentemente do mestiço do litoral, esse sim um decaído, o sertanejo seria um isolado, um retrógrado, mas não um degenerado. Nesse mar de mestiçagem, Euclides salva o sertanejo. Não esqueçamos que nesse momento o médico baiano Nina Rodrigues fazia todas as suas teorias em Salvador sobre a falência das raças cruzadas. É impossível obliterar também o papel de Sílvio Romero, que condenava a mestiçagem, ou então o papel que o Brasil cumpriria em 1911, no Congresso Universal das Raças, quando João Batista Lacerda escreve um texto, apoiado em Roquete Pinto, e diz que em três séculos, ou melhor, três gerações, seríamos brancos. Três séculos, nesse caso, espelhados na obra de Brocos, que é um artista acadêmico, que pinta especialmente a tela A Redenção de Cã para expressar como em três gerações seríamos brancos.

O sertanejo se transforma, antes de tudo, em um forte. É nessa parte do livro que Euclides da Cunha destaca a definição do sertanejo, como um ''Hércules Quasímodo''. Aí está o auge do jogo das antíteses, ou seja, a ideia de que ele é ambos ao mesmo tempo. Ele é forte e fraco; imenso e diminuto - mas, sobretudo, é um desconhecido; ele, o sertanejo, é um isolado. Euclides alega a falta de existência de historiadores do sertão; ele seria o historiador do sertão, e vai entrando agora na figura de Antônio Conselheiro. Ou seja, se o sertanejo é um forte, o Conselheiro é síntese também, é condensação, é resumo abreviado desse mal gravíssimo. A vida de Antônio Conselheiro é detidamente descrita, assim como o episódio de sua separação da esposa - segundo Euclides da Cunha, uma sobrecarga adicionada à carga hereditária. O Conselheiro nunca mais teria olhado para as mulheres; falava de costas com as beatas.

Canudos, afirma Euclides, foi o refluxo da nossa história. Refluxo, eu diria, que escancarava as mazelas da nossa modernidade. O livro termina como uma denúncia, um lamento. E eu gostaria de ler apenas um trecho, quase no final do livro, quando Euclides diz: ''Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores. Eram 4 apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.''

Denunciar é, de algum modo, levar ao conhecimento - e Euclides se valeu de seu testemunho para falar da situação in loco.

Eu diria que aí está a pena forte dessa geração, dessa geração melancólica da República, dessa República que logo ficou velha. A geração de Lima Barreto, de Euclides, de Rondon, que padeceu dos males da modernidade. Nos termos de Lévi-Strauss, bárbaro é aquele que acredita na própria barbárie. Euclides da Cunha partira cético para os sertões em guerra e voltara duvidoso. Quem sabe tudo não passasse de um grande mal-entendido. Duas realidades distintas, duas sociedades distintas. Euclides usou as ferramentas que tinha na sua época, as ferramentas ''certas'' do determinismo. Tudo era previsível: geografia, climas, homens e raças. O corpo de Conselheiro entrava para sempre no imaginário da República Velha - mais uma vez como divisão. Corpo e alma, corpo e carne, na representação de Euclides da Cunha, que falava dos cadáveres dos soldados, das cabeças decepadas, das pernas que pendiam no galho flexível. Mas havia naquela época outras batalhas corporais. Enquanto a corte recebia o corpo do Conselheiro, não se pode esquecer que, naquele momento, o único personagem histórico que vingara era Tiradentes. Como não existia qualquer imagem dele, a República tratou de criá-la - e aproximou o herói cívico do herói religioso. Temos, portanto, a partir de Os Sertões, uma obra de fundação. E aí o termo se explica: uma obra de reprodução e de releitura, a formação de muitos heróis. E anti-heróis.

Eu não pretendo, claro, ter esgotado nada aqui. Apenas tentei refletir junto com Euclides sobre certezas e incertezas daquela época, sobre os determinismos de todas as ordens - e termino com a imagem da vertigem.

Euclides da Cunha chegou ao cenário da luta com cardápio pronto, paisagem montada, mas o repórter do sertão esqueceu a câmera fotográfica e as próprias certezas. E choveu no sertão, mesmo se ali não despontou o mar. Quem sabe ao menos a maresia.

ABL inaugura exposição sobre Euclydes da Cunha com cartas e objetos pessoais


ABL inaugura, nesta quinta-feira (27), mostra em homenagem a Euclydes da Cunha

Para dar sequência à série de homenagens que celebram o centenário da morte do escritor Euclydes da Cunha, a Academia Brasileira de Letras (ABL) inaugura, nesta quinta-feira (27), às 17h30, a exposição "Euclides, um Brasileiro", que oferece um panorama iconográfico, textual e documental do autor de "Os Sertões". A mostra ocorre no Centro Cultural da ABL, no Rio de Janeiro (RJ).

Até o fim de novembro, os visitantes terão acesso às primeiras edições de todas as obras de Euclydes da Cunha (incluindo as traduções), à troca de cartas com Machado de Assis, Afonso Celso e José Veríssimo, entre outros, além de poder ver objetos pessoais, cartões postais manuscritos e fotos.

O escritor foi o segundo ocupante da cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1903 e recebido em 1906. Para saber mais informações, acesse: www.academia.org.br

domingo, 16 de agosto de 2009

Carreira literária de Euclydes da Cunha começou com colaborações em jornais


Euclydes da Cunha, autor do célebre "Os Sertões" e cuja morte completa cem anos neste sábado (15), começou sua carreira literária publicando textos em jornais. Sua primeira colaboração regular foi com a "Província de S.Paulo", hoje "O Estado de S.Paulo", onde publicou em 22 de dezembro de 1888 o artigo "A Pátria e a Dinastia".

O texto era assinado apenas com suas iniciais e, no fim do mesmo mês, quando passou a colaborar permanentemente com o jornal, assinava seus artigos sob o pseudônimo de Proudhon, nome do filósofo francês teórico do socialismo.

Durante sua carreira, Euclydes da Cunha também colaborou com o jornal carioca "Gazeta de Notícias".

A publicação de "Os Sertões" foi também resultado direto de sua colaboração com "O Estado de S.Paulo". Em 1897, Euclydes da Cunha escreveu para o diário dois artigos sobre a campanha de Canudos, publicados em março e julho daquele ano.


Foi a convite de Júlio Mesquita, fundador do jornal, que em 4 de agosto de 1897 viajou como correspondente de guerra para os sertões da Bahia. Durante sua passagem por diversas cidades da região, enviava artigos para o jornal com observações do conflito, anotações que mais tarde seriam publicadas em seu mais famoso livro.

Em outubro de 1897, de volta a São Paulo, publicou no jornal o último artigo da série "Diário de uma Expedição" e, em janeiro do ano seguinte, divulgou textos que viriam a ser as primeiras amostras do seu livro, sob o título de "Excerto de um livro inédito".

A redação completa de "Os Sertões" foi concluída em maio de 1900 e, dois anos depois, Euclydes da Cunha entrou em contato com a editora Laemmert, que se propôs a editar a publicação.

"Os Sertões" é lançado em 1902 e todos os volumes de sua primeira edição se esgotam em dois meses. A segunda edição do livro é publicada em julho de 1903.

Além do seu clássico livro, Euclydes da Cunha também publicou, em 1906, "Contrastes e Confrontos", reunião de artigos elaborada pela Editora Literária Tipo do Porto, em Portugal.

No ano seguinte, lançou "Peru Versus Bolívia", pela Livraria Francisco Alves.

Já em 1908, o autor terminou "À Margem da História", que traz estudos sobre a Amazônia. O livro só seria publicado em 1909, após a morte do escritor, pela Livraria Chardron, de Portugal.

Outros livros de Euclydes da Cunha foram publicados após a sua morte, em 1909, como "O Rio Purus", de 1960, "Caderneta de Campo", de 1975, e "Um Paraíso Perdido", de 1976.

Veja a relação dos principais livros publicados por Euclydes da Cunha

"Os Sertões" (1902)
"Contrastes e Confrontos" (1907)
"Peru versos Bolívia" (1907)
"À margem da história" (1909)
"Canudos - Diário de uma Expedição" (1939) (póstumo)
"O Rio Purus" (1960)
"Um Paraíso Perdido" (1976)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Conto Brasileiro: Negrinha (Monteiro Lobato)


Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta?? Não. Fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos de vida, vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada pelos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo no céu. Entaladas as banhas no trono uma cadeira de balanço na sala de jantar, — ali bordava, recebendo as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o padre.

Ótima, a D. Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da sua carne, e por isso não suportava o choro da carne escrava. Assim, mal vagia, longe na cozinha, a triste criança, gritava logo, nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos?? O pilão?? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e corria com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões desesperados:

— Cale a boca, peste do diabo!!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, ficou por ali, feita gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas não andava, quase. Com pretexto de que, às soltas, reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão de porta.

— Sentadinha aí, e bico!! Hem??

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas. — Braços cruzados, já, diabo!!

Cruzava os bracinhos, a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. O relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se, então, feliz um momento.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança, que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi — bubônica. A epidemia andava à berra, como novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal, achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida, nem esse de personalizar a peste...

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais roxos, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa, todos os dias, houvesse ou não motivo. A sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço.

Mão em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça, de passagem. Coisa de rir, e ver a careta...

A excelente D. Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos e daquelas ferozes, amigas de ouvir contar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regímen novo — essa indecência de negro igual a branco; e qualquer coisinha, a polícia!! “Qualquer coisinha”; uma mucama assada ao forno, porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho, porque disse: — “Como é ruim, a sinhá!”....

O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava, pois, Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Simples derivativo.

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade: cocres, mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar!) e o a duas mãos, o sacudido. A gama dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, a torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões à uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para doer fino, nada melhor.

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem?? Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela guardava para o fim. A criança não sofreou a revolta e atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam, todos os dias.

— “Peste”?? Espere aí!! Você vai ver quem é peste. E foi contar o caso à patroa.

D. Inácia estava azeda, e necessitadíssima de derivativo. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! disse, desentalando as banhas do trono e indo para a cozinha, qual uma perua choca, a rufar as saias. — Traga um ovo!!

Veio o ovo. D. Inácia mesma pô-lo na chaleira de água a ferver e, de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, trêmula, olhar esgazeado, aguardava alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora exclamou:

— Venha cá!! Negrinha aproximou-se. — Abra a boca!!

Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, prática que era D. Inácia nesse castigo, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez!! Ouviu, peste??

E voltou contente da vida para o trono, a virtuosa dama, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah! Monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha de Cesária; mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes! exclamou o padre.

— Sim, mas cansa...

— Quem dá aos pobres, empresta a Deus! A virtuosa senhora suspirou piedosamente: — Inda é o que vale...

Certo dezembro vieram passar as férias com “Santa” Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Negrinha, do seu canto, na sala do trono, viu-as irromperem pela casa adentro como dois anjos do céu, alegres, pulando e rindo numa vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir sobre os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era um crime brincar?? Estaria tudo mudado e findo o seu inferno — e aberto o céu??!

No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas logo a dura lição da desigualdade humana chicoteou sua alma. Beliscão no umbigo e nos ouvidos o som cruel de todos os dias:

— Já, para o seu lugar, pestinha!! Não se enxerga?? Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral — sofrimento novo que se vinha somar aos já conhecidos, a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? perguntou uma das meninas, curiosa. — Quem há de ser?! disse a tia num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus.. Uma órfã... Mas, brinquem, filhinhas!! A casa é grande. Brinquem por aí a fora!!

“Brinquem!!” Brincar! Como seria bom brincar! refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco!

Chegaram as malas; e logo:

— Meus brinquedos!! reclamaram as duas meninas. Uma criada abriu-as e tirou-os fora.

Que maravilha! Um cavalo de rodas!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim, tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que fala “papá”... que dorme...

Era de êxtase, o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

- É feita??... perguntou extasiada.

E, dominada pelo enlevo, um momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criaturinha de louça. Olhou-a com assombro e encanto, sem jeito sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo. — Nunca viu boneca??

— Boneca?? repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?? Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! disseram. — E você, como se chama?

— Negrinha.

As meninas, novamente, torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, estendendo-lhe a boneca:

— Pegue!!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos pinotes. Que aventura, santo Deus! Seria possível?? Depois, pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com relances de olhos assustados para a porta. Fora de si, literalmente... Era como se penetrara o céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe viesse adormecer ao colo. Tamanho foi o enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. D. Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, imóvel, presenciando a cena.

Mas era tal a alegria das sobrinhas ante a surpresa estática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida soube ser mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala, Negrinha tremera, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente, e hipóteses de castigos piores ainda. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo: estas palavras, as primeiras que ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim!! e vá você também!! mas veja lá!! Hem??

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu nela a fera antiga. Compreendeu e sorriu-se.

Se a gratidão sorriu na vida, alguma vez, foi naquela surrada carinha...

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambas é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório, e momento dos filhos, — definitivo. Depois disso está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha alma.

Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que ela trazia em si, e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ser humano. Cessara de ser coisa e de ora avante lhe seria impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!...

Assim foi, e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa reentrou no ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

D. Inácia, pensativa, já a não atenazava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida. Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita.

Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro de seu doloroso inferno, envenenara-a. Brincara ao sol, no jardim. Brincara!...

Acalentara dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer papá e a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

A repentina retirada de tudo isso fora forte demais para a débil resistência de uma alma, com um mês de vida apenas. Enfraqueceu, definhou, como roída de invisível doença consuntora. E uma febre veio e a levou.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Ninguém, entretanto, morreu jamais com maior beleza. O delírio rodeou-se de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos rodamoinhavam em torno dela, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça, abraçada, rodopiada.

Veio a tontura, e uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e o cuco pela última vez lhe apareceu, de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou... E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença sua carnezinha de terceira — uma miséria, quinze quilos mal pesados...

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas:

— Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca??

Outra de saudade, no nó dos dedos de D. Inácia: — Como era boa para um cocre!...

domingo, 9 de agosto de 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Biografias: Euclides da Cunha

Em homenagem aos 100 anos da morte de Euclides da Cunha, publicaremos uma série de postagens especiais sobre o autor.

Começamos por sua biografia que, sem dúvida pode ser equiparada à grandeza dramática de sua obra.



1866


Janeiro, 20. Euclides da Cunha nasceu na fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje, Euclidelândia), em Cantagalo (RJ),filho de Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Moreira da Cunha.


1869/1870

A mãe morreu tuberculosa, deixando Euclides com 3 anos e Adélia com 1. As crianças foram morar em Teresópolis, com tia Rosinda Gouveia, casada com o Dr. Urbano Gouveia, que morreu em 1870.



1870/1876

Mudaram-se, então, para São Fidélis, morando com a tia Laura Garcez, casada com o Coronel Magalhães Garcez, na fazenda S. Joaquim. Com oito anos de idade, na cidade, Euclides estudou no excelente Colégio Caldeira, do exilado político português Francisco José Caldeira da Silva.



1877/1878

O pai do aplicado aluno Euclides pretendia levá-lo para o Rio de Janeiro, para continuar os estudos nos melhores colégios. Por sugestão da avó, mudou-se para a Bahia, viajando de navio e, em Salvador, foi estudar no Colégio Bahia, do Professor Carneiro Ribeiro.



1879

Com 13 anos, voltou ao Rio, sob os cuidados do tio, Antônio Pimenta da Cunha, estudando em quatro colégios: Anglo-Americano, Vitório da Costa, Meneses Vieira e Aquino.


1883/1884

No Colégio Aquino, foi aluno de Benjamin Constant, que muito o influenciou. Escreveu no jornalzinho escolar "O Democrata", defendendo, no seu primeiro artigo, a natureza e o equilíbrio ecológico – defesa que o acompanharia pela vida, inserida nos seus artigos jornalísticos, na sua conferência "Castro Alves e seu tempo", nos seus livros: Os Sertões, Contrastes e Confrontos e À margem da História. Adolescente, ainda no Aquino, escreveu poesias numa caderneta, que titulou "Ondas", datada de 1884, que Euclides salientava "tratar-se de obra dos quatorze anos". Euclides, segundo alguns biógrafos, poetou dos 16 aos 30 anos.

Seu pai o elogiava por ser muito bom em Matemática, com tendências para as Ciências Exatas.



1885


Com 19 anos, optando pela Engenharia, cursou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, escola cara, que não condizia com as difículdades econômicas da família.



1886


Assentou praça na Escola Militar (Praia Vermelha), gratuita, que lhe daria, também, o título de engenheiro. Reencontrou, como professor, Benjamin Constant, integrando-se no movimento republicano.



Em 4 de novembro, o ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a Escola. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula.

No final daquele 1888, o jovem Euclides estava em São Paulo. Dia 22 de dezembro, iniciou sua colaboração no jornal "A Província de S. Paulo", escrevendo sob o pseudônimo de Proudhon (escritor francês [1809 - 1865], um dos teóricos do Socialismo que proclamou ser a propriedade privada um roubo, pregando uma revolução que igualaria os indivíduos). Colaborou até maio.



1889

Quatro dias depois de proclamada a República, em 19 de novembro de 1889, Euclides foi reintegrado na Escola Militar, graças ao empenho dos professores Rondon e Benjamin Constant. Dias depois, foi promovido a alferes-aluno.



1890

Em janeiro, matriculou-se na Escola Superior de Guerra. No mês seguinte, concluiu o Curso de Artilharia. De março a junho, teve seus artigos publicados no jornal "Democracia", de orientação republicana. O alferes-aluno criticava o país mergulhado em interesses pessoais, opondo-se ao movimento que pretendia trazer de volta o Imperador. Atacou a imprensa católica e os programas da Faculdade de Direito, defendendo o Positivismo. Causou espanto ao apelar para a Providência Divina. Espanto, também, ao lembrar a "feição suavíssima e humana de Cristo" e confessar não ser decidido partidário de Comte. Dia 14 de abril, foi promovido a segundo-tenente, escrevendo, neste dia, uma carta ao pai, registrando seu desencanto com os homens da República, incluindo entre eles seu ídolo: Benjamin Constant, prometendo afastar-se do jornal e de tudo mais.


Ainda em 1890, 10 de setembro, casou-se com Anna Emília Ribeiro (foto), filha do major Frederico Solon Sampaio Ribeiro, conhecido e citado como major Solon Ribeiro. Conheceu-a na sua casa durante encontros republicanos com seu pai. Numa das visitas deixou a ela um bilhete: "Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem."


1891

Concluiu o Curso da Escola Superior de Guerra, "de onde saiu com o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais."



1892

Em janeiro, foi promovido a primeiro-tenente. De 29 de março a 6 de julho escreveu para o jornal "O Estado de S. Paulo": coisas novas, como o Socialismo, estão claras em seus artigos, como o publicado em 1º de maio, cujo trecho se repete no final de "Um velho problema", de 1904: "Para abalar a terra inteira basta-lhe um ato simplíssimo - cruzar os braços". Em julho foi nomeado assistente de ensino técnico na Escola Militar da Praia Vermelha.



1893

Agosto. O presidente, marechal Floriano Peixoto, mandou chamar Euclides, oferecendo-lhe cargos e posições. Euclides apresentou-se com a farda de primeiro-tenente. "Veio em ar de guerra...não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados." - disse-lhe o marechal, declarando que Euclides tinha direito a escolher qualquer posição. "Ingenuamente", o primeiro-tenente, com 27 anos, respondeu-lhe que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil!

Em setembro, a Marinha pretendeu depor Floriano Peixoto (Revolta da Armada).



1894


Um regime ditatorial se implantou no Brasil: prisões, suspensões de garantias, intervenções nos Estados. Os marinheiros da "Revolta da Armada" exigiam a renúncia de Floriano Peixoto. Uma bomba explodiu nas escadarias do jornal "O Tempo". Boatos afirmavam que Solon Ribeiro, sogro de Euclides, deputado por Mato Grosso, estava preso e que seria fuzilado. Euclides interpelou Floriano, que silenciou.

O engenheiro-jornalista escreveu duas cartas, com o título "A Dinamite", publicadas no jornal "Gazeta de Notícias", em 18/2 e 20/2, contra as idéias aloucadas do senador João Cordeiro, do Ceará, que "pedia fuzilamento dos manifestantes presos, como vingança aos florianistas mortos." Condenava a posição do senador, "não o desejando nem como companheiro de lutas".

Seus artigos e sua posição trouxeram-lhe complicações. Em 28 de março, Euclides foi transferido para a pequena cidade mineira de Campanha para dirigir a construção de um quartel. Como um exilado, voltou-se para os livros, tendo sido encontrado, com anotações desse período, o "Teoria do Socialismo", de Oliveira Martins.



1895

Em fevereiro recebeu a visita do pai, indo com ele para Descalvado. Em 28 de junho, era agregado ao Corpo do Estado-Maior de 1ª classe, depois do parecer de uma junta médica.



1896

Desencantado com a República e seus líderes, abandonou a carreira militar. Foi reformado como primeiro-tenente. Em 18 de setembro, foi efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, como engenheiro-ajudante de 1ª classe.

Foi autorizada a construção da ponte metálica em São José do Rio Pardo. Ganhou a concorrência o engenheiro Artur Pio Deschamps de Montmorency, brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1858, que concluiu os estudos de Engenharia Civil na Universidade de Gand (Bélgica), em 1879, com 21 anos, "com sólidas credenciais de competência e idoneidade". No Brasil, trabalhou com o engenheiro Ramos de Azevedo e na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Em São José, Montmorency liderou um movimento para a construção de uma pequena usina hidrelétrica, recebendo o apoio de muitos entusiasmados rio-pardenses-acionistas. Com a queda da ponte, ele foi processado e absolvido, em 1900. Dizem que, muitos anos depois, suicidou-se.

Euclides da Cunha, fiscal de obras desse distrito, veio a São José duas vezes: de 25 a 28 de agosto e em 25 de setembro.

No final de 96, já estavam prontos os dois encontros, um dos pilares, estando o outro quase pronto.



1897

A ponte metálica de São José do Rio Pardo, vinda da Alemanha, chegou em fins de fevereiro ou início de março, em três partes, para alegria dos rio-pardenses.

Os jornais de 7 de março comentaram a morte do Cel. Moreira César e o desbaratamento de 1.500 soldados pelos fanáticos do Conselheiro, que pregava contra a República.

Euclides da Cunha, preocupado com um provável movimento monarquista, escreveu dois artigos com o mesmo título: "A nossa Vendéa", n’ "O Estado de São Paulo", em 14 de março e 17 de julho. Nos artigos, comparou a região francesa da Bretanha (Vendée) com os sertões da Bahia, as charnecas com as caatingas, o "chouan" (insurreto da Vendéa) com o jagunço, ressaltando o mesmo objetivo: lutar contra a República para restaurar a Monarquia.

Júlio de Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", convidou-o a seguir como repórter de guerra para Canudos, no sertão da Bahia (área limitada pelo rio São Francisco, ao Norte e Ocidente, e pelo Itapicuru, ao Sul). Tirou licença na Superintendência para "tratar de interesses", em 1º de agosto. Aceitou o convite, seguindo a 4 de agosto, no vapor "Espírito Santo", acompanhando a 21ª Brigada de Divisão Auxiliar. Chegou a Canudos a 16 de setembro, um vilarejo iniciado em 1893, no sertão da Bahia, numa curva do rio Vaza



Barris, hoje submerso, coberto pelas águas da represa de Cocorobó . Viu a luta desigual, a morte de amigos, a bravura dos jagunços. Canudos não era um foco monarquista, como dizia Artur Oscar: "Antônio Conselheiro era um monarquista por fanatismo. Seu monarquismo era meramente religioso, sem aderências à política." Euclides viu o final da guerra, encerrada aos 5 de outubro. Voltou abalado, fazendo uma promessa: vingar o extermínio de Canudos. Os Sertões, seu livro vingador, começava a nascer. Em janeiro de 1902, de Lorena, escreveu a Francisco de Escobar: "(...) Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida - o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."

Uma revista francesa, a "Hachette", de Paris, na sua resenha de 1897, citou o Conselheiro como um comunista pregando o restabelecimento da Monarquia.

Euclides voltou. Na passagem pelo Rio de Janeiro, publicou no "Jornal do Comércio" o plano de um livro, "A nossa Vendéia", com duas partes: a "natureza" e o "homem".

Em 21 de outubro, estava em São Paulo. Dia 26, publicou o último artigo da série "Diário de uma expedição": "O Batalhão de São Paulo", no jornal "O Estado de S. Paulo".

Doente, Euclides foi descansar na fazenda do pai, em Descalvado.

A ponte metálica de São José do Rio Pardo, depois da prova de resistência (Montmorency e um empreiteiro atravessaram-na num trole), foi aberta ao público, sem festas, em 3 de dezembro de 1897. ( Veja "A ponte de Euclides", à pág 25, 1.º parágrafo)

Mais festejada do que a ponte foi a inauguração da luz elétrica, no mesmo dia.



1898

Dia 18 de janeiro, o "Estado" publicou um artigo de Euclides: "Excerto de um livro inédito", com trechos de Os Sertões.

Apresentou no Instituto Histórico de São Paulo um seu trabalho : "Climatologia da Bahia", aproveitado em Os Sertões.

Na madrugada de 23 de janeiro de 1898, um domingo, a bela ponte metálica alemã de São José do Rio Pardo ruiu, emborcou, 50 dias depois de inaugurada. Os jornais condenaram a Superintendência de Obras e os engenheiros responsáveis. Euclides, o engenheiro-fiscal, embora em licença desde agosto de 97, sentiu-se abalado, culpado. Cinco dias depois, dia 28, estava em São José, com o diretor Gama Cochrane e o engenheiro Carlos Wolkermann. Vieram a fim de verificar "in loco" o desastre e tentar salvar a ponte metálica. Euclides pediu ao seu superior que o deixasse reconstruir aquele monumento.

Em fevereiro, Euclides já estava residindo em São José e trabalhava com afinco na desmontagem da ponte.

Dia 9 de março, Euclides solicitou o pagamento dos seus vencimentos para saldar compromissos e para as despesas da mudança e da viagem da mulher e dos dois filhos para São José do Rio Pardo.



Em março, talvez dia 14, a família já estava reunida em São José: Euclides, a esposa Anna e os dois filhos: Solon, com 6 anos, e Euclides Filho, o Quidinho, com 4. Foram morar na Treze de Maio, mas o botequim do Sílvio Dan, em frente, onde se reuniam muitos italianos para ouvir música e jogar o "jogo do morra", acompanhado de uma gritaria infernal, perturbava. Euclides não podia escrever, nem estudar. Conta-se que certa noite, nervoso, saiu armado.

Procurou o amigo intendente (prefeito) para protestar. Dias depois, Dan mudou-se para o Bonsucesso e a família Cunha mudou-se para o sobradinho de esquina da Treze de Maio com a Marechal Floriano.


Diziam, na cidade, que Anna Emília foi muito falada. Ela abominou a cidade e não perdeu oportunidades para diminuí-la, declarando aos jornais, sem argumentos, que Os Sertões não foi escrito em Rio Pardo. Mais tarde, criticou o Grêmio Euclides da Cunha, que lhe enviava, com regularidade, os convites das festas euclidianas.

Sua filha, Judith, nascida do casamento com Dilermando de Assis, autora do livro Anna de Assis - História de um Trágico Amor, escreveu: "Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, (...) Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um Barão do Rio Branco (...). Mulher audaz, independente, morando numa cidadezinha pequena e provinciana como São José do Rio Pardo, teria seus momentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergavam o horizonte (...). Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de uma mulher fútil e namoradeira. Conclusão chegada porque se postava à janela e alegre e moderna, não se escondia dos homens. (...)".

Euclides, com a família em São José, teve momentos de grande serenidade, até aceitando o seu "triste ofício de engenheiro". Na cidadezinha, encontrou aquele recanto de paz tão procurado, que lhe permitiu concluir a obra máxima da literatura brasileira: Os Sertões, o livro vingador, que defendeu "os pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."

A ponte em reconstrução ficava perto do sobradinho de esquina onde morava. Ele descia a ladeira a pé, ou a cavalo, passando o dia à beira do rio, entre operários, cálculos e ferragens, só voltando a casa à noitinha. O preto Benjamin, britador da turma, era o encarregado de pegar seu almoço, trazendo-o numa bandeja. Foi o que declarou Atílio Piovesan ao repórter de "Gazeta do Rio Pardo", numa entrevista publicada em 15 de agosto de 1939, cujo número, infelizmente, desapareceu da coleção. Ele falou dos operários da ponte, na maioria italianos, "fortes e rijos, vendendo saúde", mostrando a todos que o trabalho, tão relegado por ter sido uma atividade de escravos, não era vergonha e, sim, um gerador de liberdade e progresso.

Atílio, mais tarde encarregado do vapor que movia a bomba centrífuga, citou alguns companheiros: Agostinho Rossi, encarregado do serviço dos pedreiros; Torquato


Colli que, diziam, conheceu Euclides no final da Guerra de Canudos, na Bahia, reencontrando-o no trabalho da ponte; Guido Marchi ganhou do escritor seu banco tosco, que ficava na cabana, durante a limpeza do recanto para a inauguração da ponte; nos anos 30, a família Marchi o doou a municipalidade, voltando à cabana; Mateus Volota, o guarda da ponte, calabrês, de argolinha de ouro na orelha furada, era o homem de confiança do engenheiro: foi o trabalhador citado várias vezes por Euclides nas suas cartas; morreu na epidemia de febre amarela, em 1903. D’Andrea e Garibaldi Trecoli morreram afogados durante os trabalhos.


A minúscula cabana de sarrafos e zinco foi construída sob a frondosa paineira, que morreu em 1961. Era seu escritório, onde fazia cálculos, desenhava, via e revia as plantas da ponte e escrevia nos momentos de folga, dando continuidade ao seu livro...


Em fevereiro de 1898, Euclides construiu a ponte provisória, começando o desmonte da metálica tombada. Três meses depois, o jornal "O Estado de S. Paulo" deu notícias do trabalho: "(...) está concluído o serviço de remoção da ponte do Rio Pardo. Dia 30 de maio, à 1 hora da tarde, foi retirada a última peça."

Serviu-se cerveja aos operários e pessoas presentes. Uma passeata comemorativa percorreu as ruas da cidade. (Veja "A ponte de Euclides", à pág. 27, 3 últimos §).



1899

Continuavam os trabalhos de reconstrução da ponte e a redação de Os Sertões. Na "Revista Brasileira", foi publicado um artigo de Euclides: "A Guerra do Sertão".

Ele terminava o seu livro, ouvindo o Chico Escobar e sendo ouvido pelos seletos amigos nas tertúlias à beira-rio, ou em sua casa. O artigo abaixo comprova o fato.

Dia 1º de junho, o jornal "O Rio Pardo" publicou "De cá para lá", de Humberto de Queiroz, o amigo mocoquense, que assinou seu trabalho com a letra Q:

"O de cá para lá de hoje, se deveria intitular - de lá para cá - pois ele é escrito sob as agradáveis impressões, que me ficaram de um dia e uma noite, passados em São José. O dia correu alegre, variado e bom, daqui para ali, dali para aqui, faltando apenas o Mauro para que fosse melhor. O Valdomiro, o Chico, o jantar cordial e alegre do meu reverendo e respeitável amigo o bom do Oliveiros (...). / À noite, (...) foi gasta, gasta não, aproveitada em casa do dr. Euclides da Cunha, onde se reuniram ele - uma inteligência fina, sagaz e cultíssima; o dr. V. S. (Valdomiro Silveira. Este parêntese e os que se seguem são meus), adorável homem de letras; o F.E. (Francisco de Escobar) um juízo e uma ilustração ‘equilibrados, fartos e matemáticos’, mais tarde o dr. J.S. (Jovino de Sylos) jurisconsulto e poeta de renome e eu que, se nada sou, gosto de admirar o que é fino e bom de verdade, cousa rara nos tempos que correm. / Depois de uma deliciosa palestra, a leitura não menos deliciosa de trechos de um livro, a ir para o prelo, proficientemente escrito pelo dr. E. C — a Guerra de Canudos. / O Mauro ( Mauro Pacheco) não quer que a gente escreva muito, razão bastante para que eu não possa dizer tudo o que ficou de sincera admiração por esse trabalho de um valor extraordinário, por esse livro que vai em breve produzir real sensação no mundo que lê. (...) / Mococa, 25-5-1899 - Q"



1900

Dia 3 de maio, e não mais em 22 de abril, em respeito ao calendário gregoriano, foi comemorado o Quarto Centenário do Brasil. Em São José, mais de duas mil pessoas participaram da passeata, com fogos, banda e discursos dos doutores Álvaro Ribeiro, Pedro A. de Aquino, José Rodolfo Nunes e Euclides da Cunha. Foi a primeira e única vez que o engenheiro-jornalista participou de uma festa e falou em público em Rio Pardo.

Talvez, querendo mostrar-se grato ao simpático jornal que, carinhosamente, tanto o citava, escreveu um artigo, e único, para "O Rio Pardo", intitulado "O 4º Centenário do Brasil", que "tratava das viagens de Colombo, Vasco da Gama, de Cabral", saudando as três nações: Itália, Portugal e Brasil. O artigo foi assinado com as letras E.C..

Dizem que em maio de 1900, o livro Os Sertões estava pronto, sendo copiado, com letra legível, pelo comerciante, calígrafo e copista José Augusto Pereira Pimenta, citado por Euclides da Cunha em carta a Escobar. Passou a limpo as tiras do livro que Euclides escrevia com garranchos, afirmando que a partir de "O estouro da boiada", o livro foi aqui escrito, cerca de 80% da obra.

As declarações de José Honório de Sylos, que também teve em mãos as primeiras tiras, são concordes com as de Pimenta..

Em junho de 1900, o povo desceu as ladeiras para chegar ao pátio de obras e ver a ponte montada num plano, em terra firme, novinha em folha, não acreditando que era a mesma que tombara e ficara toda retorcida. Ela estava com suas medidas originais: 100,08m de comprimento, 6,60m de largura e o vão de 4,50m entre os passeios. Os visitantes admiraram, também, os fortes pilares de pedra e concluíram que era a fase final dos trabalhos.

Um mês depois, o jornal do dia 15 de julho informava que "terminou anteontem o conserto da ponte sob a inteligente e criteriosa direção do Dr. Euclides da Cunha."

4 de novembro. "O Rio Pardo" transcreveu do jornal "Comércio de S. Paulo" um longo artigo que versava sobre a conclusão do livro "do ilustrado engenheiro Dr. Euclides da Cunha (...) sobre a dramática expedição militar do sertão da Bahia. (...) O autor, que foi testemunha presencial dos horrores que se passaram naqueles ínvios lugares, se pronuncia com independência de exposição e muito talento. Para a publicação (...) tem o Dr. Euclides da Cunha editor escolhido. Muito breve começará a impressão (...)."

(Cabe, aqui, um antecipado esclarecimento: a Editora Laemmert, do Rio de Janeiro, temerosa com insucessos, não bancou a publicação. Euclides financiou a 1ª edição, com mil volumes, pagando um conto e quinhentos. Esta edição esgotou-se em 60 dias.).

O versátil Euclides conseguiu conciliar as ciências humanas e as exatas. Escrevia, reconstruía a ponte e, ainda, dirigiu os serviços da estrada São José-Caconde (28,8 km), terminados em novembro de 1900. Elaborou um projeto para a reforma da cadeia e, a pedido do juiz de Direito, supervisionou as atividades do agrimensor, indicado por ele, na divisão da fazenda "Açudinho", objeto de partilha.



No final do ano, preocupado com tanto trabalho, Euclides abandonou seu Os Sertões para atender a um pedido do amigo Júlio de Mesquita, diretor d’ " O Estado de S. Paulo" que lhe solicitara um difícil trabalho de análise dos cem últimos anos das atividades humanas no Brasil. Dia 31 de dezembro de 1900, o último dia do século XIX, o artigo foi publicado em página inteira, com o título: "O Brasil no século XIX".

Euclides assistiu de longe às comemorações socialistas, estardalhantes. O "Clube Socialista dos Operários", fundado por italianos em 19 de abril de 1900, realizou a grande festa do 1º de Maio, Dia do Trabalho, dias depois, com alvorada, salva de 21 tiros, passeata, bandas e discursos no salão de honra da Sociedade Italiana. Os muitos imigrantes ombreavam-se com autoridades e pessoas de renome da sociedade local. Era a nova ordem social que se iniciava na província...

Euclides chegou a São José ainda desencantado com os homens da República, sem a rebeldia do adolescente aluno da Escola Militar, sem a ousadia do redator das duas cartas publicadas em "Gazeta de Notícias" contra o florianista senador João Cordeiro, que lhe valeu o exílio em Campanha (MG)... Na cidade da Mojiana, trabalhava na ponte e continuava a escrever seu livro.

Embora com convicções socialistas, Euclides manteve-se longe de todas as manifestações. Sua posição ideológica em defesa do injustiçado, do oprimido e do explorado está em suas obras.

Em 9 de setembro de 1900, foi fundada uma nova instituição socialista: o "Clube Internacional - Filhos do Trabalho". Eram seus sócios os eruditos amigos de Euclides: Francisco de Escobar, Inácio de Loyola Gomes da Silva, Mauro Pacheco... O clube manteve um curso de alfabetização de adultos.



1901
Em 1º de maio de 1901, o "Clube Socialista dos Operários" se transformou em instituto de benemerência, com novo nome: "Clube dos Operários 1º de Maio - Honra e Trabalho".

Por informações imaginosas, sem fundamento, passadas aos biógrafos, Euclides entrou na história como socialista militante em São José, fundador do partido socialista, dirigente de desfiles, colaborador d’ "O Proletário", autor do manifesto do Partido Socialista em 1901. E essas inverdades foram transmitidas a levas de estudantes.

Coube ao promotor público, Dr. José Aleixo Irmão, sério e incansável pesquisador, no seu livro Euclides da Cunha e o Socialismo (1960), desfazer enganos e contestá-los nas obras de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Sílvio Rabelo, Freitas Nobre, Menotti del Picchia e de outros.

O século XX chegou encontrando ponte e livro prontos. A ponte, já com data para a inauguração: 18 de maio de 1901. O livro iria com o escritor, à procura de uma editora.

Em janeiro de 1901, Euclides foi promovido a Chefe de Distrito de Obras Públicas de São Paulo.

Dia 31 de janeiro, nasceu Manoel, o terceiro filho de Euclides, conhecido como Manoel Afonso (Afonsinho), cujo segundo nome não consta no "Livro de Nascimento" nº 14, página 120v., do Cartório de Registro Civil. Euclides, sempre ocupado, não deveria estar presente no ato, pois a declaração do nascimento e a assinatura são do Dr. Pedro Agapio de Aquino.

Dia 18 de maio, aconteceu a grande festa da inauguração da ponte. (Veja artigo "A Ponte de Euclides", à página 29 [4 últimos §] e pág. 30). Neste dia, seu filho de quatro meses foi batizado pelo vigário José Thomaz de Ancassuerd, com um só nome: Manoel, tendo como padrinhos o dr. Álvaro Ribeiro e dona Julieta de Souza.

Estava encerrada a missão do engenheiro em São José.

Euclides, Anna, Solon, Quidinho e Manoel deixaram a cidadezinha dias depois, cidade predestinada a proteger três monumentos: a ponte e a cabana, que seriam monumentos nacionais, e a memória de Euclides, através do euclidianismo, um traço cultural que diferencia São José do Rio Pardo das demais cidades.

Com a família, Euclides deixou São José, indo para São Carlos do Pinhal, acompanhar a construção do edifício do fórum local. Em novembro, já residia em Guaratinguetá, por estar entre Rio e São Paulo.

Euclides, pobre, levava consigo o original d’ Os Sertões, seu pedestal para a glória.



1902


Um ano depois da inauguração da ponte, maio de 1902, de Lorena, Euclides escreve a Escobar: "Sempre pensei estar aí no dia 18, 1º aniversário da ponte. Mas estarão você, o Álvaro, o João Moreira e o Jovino. Encaminhem-se para lá naquele dia, paguem uma cerveja (barbante) ao velho Mateus e recordem-se por um minuto do amigo agradecido ausente."

Em outra carta do mesmo ano pedia a Escobar olhar o velho Mateus, pois soubera que seria despedido "com a próxima contradança municipal".

Euclides fixou residência em Lorena. Em maio, recebeu da Editora Laemmert as primeiras páginas impressas do seu Os Sertões.

Em junho, desapontado, responde a carta de Escobar sobre o aniversário da ponte: "(...) Iludi-me apenas num ponto: os ‘numerosos’ quatro amigos de que lhe falei antes reduziram-se a dois: você e o Lafayette. Mas estes... estou satisfeitíssimo."

Em agosto, preocupado, Euclides escreve a Escobar exigindo-lhe resposta imediata. Soube que uma fenda num dos pilares punha em perigo a segurança da ponte. Queria confirmação. A fenda nada mais era do que um risco de colher de pedreiro.

Em outubro, na Editora Laemmert, no Rio de Janeiro, Euclides encontrou erros no seu livro. Preocupado e perfeccionista, corrigiu, com paciência monacal, com canivete e tinta nanquim, 80 erros em cada um dos mil livros da 1ª edição. (Os biógrafos divergem: a tiragem da 1ª edição seria de mil ou dois mil exemplares?).

Em dezembro (ou fins de novembro), o livro Os Sertões vem à luz, com elogios dos críticos literários. A edição esgotou-se em dois meses. Sucesso. Foram lançadas novas edições: 1903, 1904 (Euclides fez correções num volume desta 3ª edição, com uma observação: "Livro que deve servir para a edição definitiva (4ª)." (Este volume foi encontrado só depois da sua morte e as correções, com duas mil emendas, foram feitas na 5ª edição), 1911, 1914, 1923, 1924, 1925, 1926, 1927 (com prefácio), 1929. Da 6ª edição (1923) à 11ª (1929), os livros foram impressos em Paris. Em 1929, o livro Os Sertões voltou a ser impresso no Brasil, pela Livraria Francisco Alves, até a 27ª edição, em 1968, com revisão cuidadosa de Fernando Nery, com títulos e subtítulos à margem. O livro caiu em domínio público, hoje publicado por muitas editoras, como a da Editora Cultrix - edição didática, cotejada pelo nosso preclaro Professor Hersílio Ângelo. Os Sertões correu mundo, traduzido em mais de uma dezena de línguas. Com ele, São José do Rio Pardo também se projetou, muito além das suas fronteiras.



1903

Em fevereiro, estava esgotada a 1ª edição. Em julho, foi lançada a 2ª.

Em 21 de setembro, Euclides foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e, em 20 de novembro, tomou posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.



1904





Em 15 de janeiro, o engenheiro-escritor foi nomeado engenheiro-fiscal das obras de saneamento de Santos. Pediu exoneração em 22 de abril. Em agosto, foi nomeado chefe da Comissão do Alto Purus, partindo dia 13, do Rio de Janeiro para o Amazonas, no vapor "Alagoas". Chegou a Manaus em 30 de dezembro.



1905

Em março, reuniram-se as comissões Brasil-Peru. Em 5 de abril partiram de Manaus para as nascentes do Rio Purus, chegando em 14 de agosto. Em outubro, a comissão regressou a Manaus, concluindo os trabalhos, em 16 de dezembro.



1906

De volta ao Rio de Janeiro, em fevereiro, Euclides entregou o relatório ao Ministério do Exterior, que só foi publicado em junho. Tornou-se adido ao Gabinete de Rio Branco.

Em 18 de dezembro, Euclides tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Lançada em Portugal a 1ª edição de Contrastes e Confrontos (artigos publicados entre 1901-1904 nos jornais "O Estado de S. Paulo"e "O País").



1907

Publicação de Peru versus Bolívia (oito artigos escritos para o "Jornal do Comércio"). Em 2 de dezembro, proferiu a conferência "Castro Alves e seu tempo", no Centro Acadêmico XI de Agosto (Faculdade de Direito), de São Paulo.



1908

Trabalhos no Ministério do Exterior. Prefaciou os livros



Inferno Verde, de Alberto Rangel, e Poemas e Canções, de Vicente de Carvalho. Reviu seu livro À margem da História (estudos sobre a Amazônia), só publicado depois da sua morte, em setembro de 1909.



1909


Maio, dias 17 e 26. Euclides prestou o concurso de Lógica do Colégio Pedro II, prova escrita e oral, classificando-se em 2º lugar (o primeiro foi Farias Brito). Foi nomeado professor em 14 de julho. Ministrou sua primeira aula dia 21 e a última em 13 de agosto.

Dia 15 de agosto, manhã de domingo chuvoso, foi assassinado por Dilermando de Assis. O destino encenou e encerrou uma história de um trágico amor.



Euclides viajou para a Amazônia, em dezembro de 1904, a serviço do Ministério das Relações Exteriores, para demarcar os limites entre Brasil e o Peru, no Acre. Ficaria um ano fora. Anna Emília e o caçula Manoel mudaram-se para a Pensão Monat, de madame Monat, à Rua Senador Vergueiro, 14. Solon e Quidinho estavam em colégios internos. Em 1905, Anna Emília, com 30 anos, conheceu, na pensão, o belo rapaz loiro, olhos claros, alto, de 17 anos, Dilermando de Assis (foto), cadete da Escola Militar. Apaixonaram-se. A diferença de idades não foi empecilho para o nascer daquele trágico amor. Dilermando era, apenas, quatro anos mais velho do que seu amigo Solon, o primogênito do casal Cunha. Ainda em 1905, Anna, os filhos e o jovem amante mudaram-se para a casa da Rua Humaitá, 67.

Dia 1º de janeiro de 1906, Euclides desembarcou no Rio. Voltava para "as suas quatro e enormes saudades". Anna estava grávida. Dilermando transferiu-se para a Escola Militar do Rio Grande do Sul. Euclides não poderia ter mais dúvidas da traição da esposa. Foram muitas as cartas trocadas pelos amantes. As de Dilermando iniciavam-se, sempre, com frases de carinho e ternura: "Minha nunca esquecida e queridinha S’Anninha"; "Minha adorada e sempre idolatrada esposinha"; "Adorada e saudosa esposinha"; " Perene lembrança de meu coração"; "Minh’alma que tanto adoro"...

Euclides, tuberculoso, tinha crises de hemoptise.

Nasceu Mauro, em julho de 1906, registrado como filho do engenheiro-escritor. Viveu, apenas, sete dias.

No início de 1907, Dilermando voltou de férias ao Rio. Anna, novamente, engravidou. Em novembro, nasceu Luiz, que Euclides registrou, também, como seu filho, definido-o como uma "espiga de milho no meio de um cafezal", pelos cabelos claros e olhos azuis, que contrastavam com as características físicas de seus outros filhos.

Dilermando terminou o curso no Rio Grande do Sul, foi promovido a tenente, voltou ao Rio em 1908, indo morar com o irmão Dinorah, guarda-marinha, aluno da Escola Naval, atleta, jogador de futebol do Botafogo de Futebol e Regatas, no bairro de Piedade, subúrbio carioca.


As desavenças entre Anna e Euclides cresciam num relacionamento insustentável. Dia 14 de agosto de 1909, ela abandonou o lar, hospedando-se na casa de Dilermando.

Na manhã chuvosa do dia seguinte, 15, às 10 horas, mais ou menos, Euclides batia palmas no portão da casa 214, da Estrada Real de Santa Cruz, em Piedade, sendo recebido por Dinorah. Anna e os filhos Luiz e Solon esconderam-se na despensa. Euclides entrou. Dilermando ficou num quarto. Armado, Euclides atirou. Dinorah ficou ferido: a segunda bala se alojou na sua nuca. (O atleta, jogador de futebol, gradativamente, foi perdendo seus movimentos. Aleijado, morreu à míngua, como mendigo, suicidando-se no porto, em Porto Alegre). Dilermando recebeu tiros na virilha e no peito. Campeão de tiro ao alvo, tentou desarmar o marido traído e desequilibrá-lo, com tiros no pulso e na clavícula. Euclides dera seis tiros. A sétima bala ficou travada. Saindo da casa, o famoso homem que honrou o Brasil com seu livro e seu saber, foi atingido nas costas. Caiu. Levaram-no para dentro. Ao filho Solon, que estava naquela casa, talvez tentando convencer a mãe a voltar ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "Perdôo-te". Ao desafeto, "Odeio-te". À mulher: "Honra... Perdôo-te".

Quando o médico chegou, Euclides da Cunha estava morto.

Dilermando foi absolvido em 5 de maio de 1911, casando-se com Anna sete dias depois, em 12 de maio. Abandonou-a em 1926, com cinco filhos. Ela estava com 50 anos, ele, com 36.

1916

Solon, seu filho mais velho, delegado no Acre, foi assassinado numa tocaia, na floresta, a seis de maio.

Quidinho (Euclides da Cunha Filho), aspirante da Marinha, encontrou-se com o assassino do seu pai no Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos, no Rio de Janeiro. Puxou a arma e feriu Dilermando de Assis. Este o matou com três tiros, em 4 de julho de 1916.



1937

Foi editada a obra póstuma: Canudos (Diário de uma Expedição).

1975

Publicação de Caderneta de Campo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Poesia Brasileira: A Idéia (Augusto dos Anjos)


A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Resumos e Análises: Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos


A obra Eu, único livro de Augusto dos Anjos, foi editada pela primeira vez em 1912. Outras Poesias acrescentaram-se às edições posteriores. Na primeira edição, a capa branca exibia o título com grandes e vermelhas maiúsculas impressas no centro. No alto, as letras pretas com o nome do autor e, em baixo, cidade, Rio de Janeiro, e data, 1912. Falecido o poeta em 1914, Órris Soares reuniu à coletânea original (Eu) a produção recente de Augusto dos Anjos, incluindo mesmo um poema inacabado, A Meretriz. A Imprensa Oficial do Estado da Paraíba editou, em 1920, Eu e Outras Poesias, prefaciado pelo organizador. Augusto dos Anjos assombrou a elite letrada do país com seus versos que não eram parnasianos, nem antecipavam o modernismo. Eram apenas seus. E tamanha era a putrefação que seus versos representavam que, ainda hoje, ele é inclassificável em uma escola, e admirado como um poeta original. Considerado pelo público e pela critica, habituados á elegância parnasiana, um livro de mau gosto, malcriado, alguns dos poemas de Eu são vistos como os mais estranhos de toda a nossa literatura, por vários motivos. Dentre eles, ressaltamos o vocabulário pouco comum, repleto de palavras com forte carga cientificista; a multiplicidade de influências literárias que recebe, tornando difícil, se não impossível, sua classificação estilística e principalmente o desespero radical com que tematiza o fim de todas as ilusões românticas, a fatalidade da morte como apodrecimento inexorável do corpo, a visão do cosmos em seu processo irreversível de demolição de valores e sonhos humanos.

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


A obra surgida em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativa do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do Eu um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma.

Em outras palavras, considerando a produção literária desse poeta, pode-se dizer que traduz sua objetividade pessimista em relação ao homem e ao cosmos, por meio de um vocabulário técnico-científico-poético.

Transformado em catecismo pelos pessimistas e em bíblia dos azarados e malditos, o livro Eu é de uma instigante popularidade, resistente a todos os modismo, impermeável às retaliações da crítica e aos vermes do tempo. Foi o poeta mais original de nossa literatura.

As leitura precoces de Darwin, Haeckel, Lamarck e outros, feitas na biblioteca de seu pai, fundamentaram a postura existencial do poeta; a adesão ao Evolucionismo de Darwin e Spencer e a angústia funda, leta, ante a fatalidade que arrasta toda a carne para a decomposição. Fundem-se a visão cósmica e o desespero radical, produzindo uma poesia violenta e nova na língua portuguesa. Temos, portanto, em Eu e outras poesias, além da linguagem científica e extravagante, a temática do vazio da coisas (o nada) e a morte (finitude da vida) em seus estágios mais degradados: a putrefação, a decomposição da matéria. Simultaneamente, reflete em seus versos a profunda melancolia, a descrença e o pessimismo frente ao ser e à sociedade, elaborando, assim, uma poesia de negação: nega as falsas ideologias, a corrupção, os amores fúteis e as paixões transitórias:

"Melancolia! Estende-me a tua asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!"

O asco ao prazer é expresso de maneira contundente; a relação entre os sexos é apenas "a matilha espantada dos instintos" ou "parodiando saraus cínicos, / bilhões de centrossomos apolínicos / na câmara promíscua do vitellus." Reduzindo o amor humano à cega e torpe luta da células, cujo fim é senão criar um projeto de cadáver, o poeta aspira à imortalidade gélida, mas luminosa, de outros mundos onde não lateje a vida-instinto, a vida-carne, a vida-corrupção.

Augusto dos Anjos vale-se muitas vezes de técnicas expressionistas na montagem de seus textos. O Expressionismo, corrente estética Modernismo, representou uma reação contra o Impressionismo, contra o gosto pela nuance, contra o refinamento e sutileza na captação do momento.

A imagem é intencionalmente deformada e agrupada de maneira desconcertante, através da transfiguração da realidade. Em lugar da delicadeza e da suavidade, a imagem é deformada, por meio de um desenho violento, que acentua e barbariza a forma, aproximando-se, às vezes, do grotesco e da caricatura.

Daí o “mau gosto”, o “apoético" que, em Augusto dos Anjos, são convertidos em poesia. O jargão científico e o termo técnico, tradicionalmente prosaicos, não devem ser abstraídos de um contexto que os exige e os justifica. Fazia-se mister uma simbiose de termos que definissem toda a estrutura da vida (vocabulário físico, químico e biológico) e termos que exprimem o asco e o horror ante a existência.

Apoiando-se em hipérboles e paradoxos, e na exploração de efeitos sonoros, Augusto dos Anjos funde a inflexão simbolista e a retórica científica, criando uma dicção singular, que projeta a hipersensibilidade e a visão trágica e mórbida da existência.

*do portal Passeiweb

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Poema Escolhido


Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

domingo, 5 de julho de 2009

Entrevista: Monteiro Lobato, na Rádio Record (1948)

Última entrevista concedida pelo escritor, dois dias antes de sua morte. Registro histórico.



Parte 2

Parte 3

sábado, 4 de julho de 2009

Paraty revela facetas pouco conhecidas de Euclides da Cunha


Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo


Mesa promovida por 'O Estado' discute a obra de Euclides da Cunha, que foi repórter do jornal

PARATY, RJ - O escritor, jornalista e engenheiro brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909) foi tantos homens em um só que uma vida inteira é insuficiente para conhecer a personalidade multifacetada do autor de Os Sertões, marco na história da literatura brasileira.


Ele e sua obra-prima foram analisados neste sábado, 4, na Casa de Cultura de Paraty, penúltimo dia da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), num encontro de especialistas convidados pelo Estado para integrar a mesa “O Mar e os Sertões”: a professora de Literatura Walnice Nogueira Galvão, que tem 12 livros publicados sobre o escritor, o professor de Teoria Literária e crítico Francisco Foot Hardman, que organiza um volume com sua poesia completa, o escritor amazonense Milton Hatoum, autor de um conto sobre ele, e o colunista do Estado, Daniel Piza, que refez recentemente a viagem de Euclides da Cunha pelo Amazonas, subindo o Alto Purus, onde o escritor de Cantagalo ajudou a demarcar os limites entre o Brasil e o Peru, em 1905.



A apresentação de aspectos pouco conhecidos da vida de Euclides parecia uma tarefa impossível após a publicação de tantos estudos e ensaios sobre como esse intelectual positivista e conservador mudou de posição após cobrir, para o Estado, a insurreição dos seguidores de Antonio Conselheiro em Canudos.



Basicamente, o que todos sabem é que Euclides, no ano de 1897, meteu-se no conflito em que o religioso liderou uma massa de deserdados contra o Exército republicano e acabou comovido pelo drama dos retirantes da seca do nordeste baiano.



No entanto, a mesa organizada pela editora Laura Greenhalgh, coordenadora de Cultura do Estado, mesmo jornal para o qual Euclides escreveu suas impressões sobre o conflito, provou que há ainda fatos desconhecidos sobre o autor e muito a estudar a respeito de suas contribuições nos campos literário, geográfico, científico e político.



Os primeiros poemas de Euclides da Cunha, escritos na adolescência, são, por exemplo, praticamente desconhecidos mesmo entre intelectuais. Lendo um deles, produzido em 1904, em que o escritor fala sobre uma mulher em trajes de banho lendo numa praia da Baixada Santista, o professor de Literatura Francisco Foot Hardman destacou um aspecto pouco considerado pelos estudiosos, a sintonia de Euclides com a modernidade literária embrionária, ele que é invariavelmente associado aos conservadores parnasianos. “Infelizmente, Euclides foi eclipsado pela própria obra-prima, Os Sertões, que mantém em segundo plano sua produção poética, influenciada pela leitura de Leopardi e Byron, entre outros”, comentou o professor.



Um ano depois desse poema da mulher da praia, em que transfere a sensualidade das ondas do mar para as curvas femininas, Euclides da Cunha partiu para uma expedição da Amazônia, experiência que resultou em sua obra póstuma “À Margem da História”. O jornalista Daniel Piza analisou justamente esse período estudado por ele antes de refazer ele próprio essa viagem em março deste ano.



“Um Paraíso Perdido” seria a sua grande obra sobre a Amazônia, segundo Piza, o encontro definitivo de Euclides com a retórica bíblica do Gênesis num lugar onde o nômade passa como descesse o rio Styx, direto para o inferno. Em outras palavras, ele não tinha uma visão idílica da região. Detestou o calor de Manaus e não teve tempo de “rever sua visão determinista da história”. Diz Piza que ele a viagem não foi uma epifania como a de Canudos, “em que esse positivista viu como o Exército se comportava de maneira mais bárbara que os sebastianistas seguidores de Conselheiro”.



De qualquer modo, o uso de expressões bíblicas misturadas ao jargão do cientista fez de suas observações sobre a Amazônia o anúncio de uma mudança de rota em seu escrita.



A professora Walnice Nogueira Galvão, com toda a sua experiência pedagógica, encantou a plateia que lotou a Casa de Cultura de Paraty, fornecendo informações sobre todos os episódios e expedições mencionados por seus colegas de mesa, entre eles Milton Hatoum, que leu um conto seu extraído de seu mais recente livro, “A Cidade Ilhada”, e classificou a viagem de Euclides pelo Alto Purus como “um salto que definiu sua posição entre dois polos, o da reflexão filosófica e da sinuosidade do escritor de ‘Judas Ahsvers’ e seu rigor como engenheiro”.

Há 61 anos morria Monteiro Lobato; conheça sua obra


da Folha Online

Em 4 de julho de 1948, o escritor Monteiro Lobato morria depois de dois espasmos cerebrais. Precursor da literatura infanto juvenil no país, o criador do Jeca Tatu e do Sítio do Picapau Amarelo é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros do século 20.

Com texto objetivo e irônico, alcançou a preferência de crianças e adultos ao abordar assuntos fortes como doenças endêmicas, defesa do meio-ambiente, reforma agrária e petróleo, com características reais e ao mesmo tempo cheias de fantasia.

Nascido em 18 de abril de 1882, em Taubaté (SP), o autor da frase "Um país se faz com homens e livros" deixou um legado literário reconhecido até os dias atuais.

A Livraria da Folha selecionou obras de Monteiro Lobato, com diferentes temáticas e estilos:


Clássico infantil "O Sitio do Picapau Amarelo" consagrou o escritor

"O Sitio do Picapau Amarelo"
"O Sítio do Picapau Amarelo" é um dos maiores clássicos da literatura infanto juvenil brasileira, escrito no começo do século 20 pelo grande autor Monteiro Lobato. O livro traz as aventuras da turma de Narizinho, Pedrinho e a boneca de pano Emília no sítio de Dona Benta, onde costumam passar as férias.

Com uma vasta gama de outros personagens que exploram a riqueza cultural e folclórica do Brasil, as histórias da turma do Sítio do Picapau Amarelo ganharam lugar de destaque no imaginário popular brasileiro, tornando-se objeto de incontáveis releituras, montagens teatrais e adaptações televisivas.

Assembléia na Mata
O sagui assiste às cenas de caçada da onça e vai logo contar à capivara que os meninos do sítio de dona Benta mataram a fera e a arrastaram até o terreiro. Assustada com a notícia, a capivara reúne uma assembleia de todos os bichos.


"Os Espiões da Emília"
O caso da morte da onça torna-se bastante sério e os bichos da mata declaram guerra ao Sítio do Picapau Amarelo, no livro "Os Espiões da Emília: De como os Besouros Revelam o Ataque das Onças ao Sítio de Dona Benta" (Editora Brasiliense). Na assembleia, os animais decidem os planos de ataque. E no sítio todos tratam de se defender e contam com a ajuda dos espiões da Emília.

"O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito"
Lançado pela primeira vez em 1918, o livro "O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito" é uma investigação acerca da real identidade da conhecida figura do nosso folclore. Por meio de diversos depoimentos vindo de todas as partes do Brasil sobre as características do Saci, Lobato traça neste livro, mais que o perfil desta figura folclórica, um retrato do próprio brasileiro da época.


"Reinações de Narizinho (Vol. 1)"
Clássico da literatura infantil que vem atravessando gerações, o livro reúne seis das 11 histórias que começaram a ser escritas por Monteiro Lobato, em 1920, e levaram cerca de uma década para ficarem prontas. Neste livro, Narizinho, a neta de Dona Benta, visita o Reino das Águas Claras e leva com ela a boneca de pano Emília.

Com a chegada de Pedrinho, o primo da menina do nariz arrebitado que veio passar férias no Sítio do Picapau Amarelo, as reinações de Narizinho ficam ainda melhores. As crianças se divertem fazendo o Visconde com um sabugo de milho e planejando o casamento de Emília com o leitão Rabicó.

"Reinações de Narizinho (Vol. 2)"
Este livro reúne cinco histórias de Monteiro Lobato que dão continuidade às aventuras no Sítio do Picapau Amarelo. Desta vez, Emília, Narizinho e Pedrinho recebem a visita de personagens como Cinderela, Branca de Neve e Pequeno Polegar. Também chega ao Sítio o Peninha, garoto invisível que trouxe no bolso algo que mudou a rotina dos netos de Dona Benta, o incrível pó de pirlimpimpim. Com esse pó mágico a turma do Sítio viaja para o Mundo das Maravilhas. Lá eles conhecem os fabulistas Esopo e La Fontaine e resgatam o Burro Falante que vai morar no Sítio.


"Urupês"
O livro reúne diversos contos que se passam no interior do estado de São Paulo com elementos cômicos e trágicos. No último conto, que dá nome ao livro, o autor apresenta um caboclo típico e ocioso, Jeca Tatu, que mais tarde se tornou famoso na série de televisão "Sítio do Picapau Amarelo". O autor foi, e ainda é, muito criticado por tratar o homem do campo como ignorante, preguiçoso e atrasado, mas antecipou o debate de questões ambientais como as queimadas e o desmatamento.


"Histórias Diversas"

O livro infantil foi publicado originalmente em 1947, nas obras completas de Monteiro Lobato. Algumas das histórias que compõem a obra teriam se transformado em livros, não fosse a morte do autor, um ano depois. Entre elas estão "As Botas de Sete Léguas", "Uma Pequena Fada" e "O Museu da Emília".

A naturalidade com que Monteiro Lobato construía seus personagens fez com que eles não perdessem a atualidade e, por isso, são lembrados até hoje. Narizinho, Pedrinho, Tia Nastácia, Dona Benta, Visconde e a incrível boneca Emília convidam à leitura e prometem divertir os leitores infantis.

"E Era a Onça Mesmo"
A aventura do livro, "E Era a Onça Mesmo: Fragmento Do Caçadas De Pedrinho" (Editora Brasiliense), começa quando Rabicó conta para Pedrinho que viu rastros de onça no Capoeirão dos Taquaruçus.

A turma toda sai à procura da fera sob o comando do visconde de Sabugosa. Quando ficam de cara com a onçona, surgem diversos imprevistos, mas o astuto Pedrinho tem uma boa ideia.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Encontro especial pelo centenário de Euclides da Cunha


Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo

O centenário da morte do escritor e jornalista Euclides da Cunha (1866-1909) terá um encontro especial na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, entre 1.º e 5 de julho. O autor de Os Sertões, que profetizava "o esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes", será tema de discussão da mesa O Mar e Os Sertões - Euclides da Cunha, 360°, que, a partir das 15h30 do sábado, dia 4, vai reunir os professores Walnice Nogueira Galvão e Francisco Foot Hardman, além de Milton Hatoum, escritor e cronista do Caderno 2. O encontro vai acontecer na Casa de Cultura de Paraty e a mediação será de Daniel Piza, editor executivo do Estado.


O autor de Os Sertões também tem sido lembrado por O Ano de Euclides, um projeto jornalístico, cultural e multimídia do Grupo Estado, iniciado em março e que se estenderá com mais encontros (leia mais abaixo). Publicado em 1902, Os Sertões nasceu da cobertura jornalística de um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira: a ação vitoriosa do exército contra revoltosos instalados na cidade baiana de Canudos. Euclides viajou para o local em 1897, a convite de Julio Mesquita, então diretor do Estado. Outros correspondentes já acompanhavam as infrutíferas tentativas do exército de derrotar os seguidores de Antônio Conselheiro, no interior da Bahia, e Euclides destacava-se como o escolhido natural para representar o jornal: colaborador havia nove anos, publicara, nos dias 14 de março e 17 de julho daquele ano, dois artigos com o título de ‘A Nossa Vendéia’.



São textos em que Euclides não apenas apresenta aspectos físicos daquela região do sertão como também se aventura a dar palpites sobre as dificuldades táticas e estratégicas do levante. No período em que cobriu o fato, Euclides submeteu-se a um verdadeiro rito de passagem: se quando deixou São Paulo estava seguro da natureza monarquista da rebelião em Canudos, o escritor (republicano convicto) foi obrigado a reformular seu julgamento, forçado pelas contingências. E, se tinha a urgência do repórter, acumulou material para a reflexão profunda sobre o fenômeno, que resultaria em Os Sertões.



"É por isso que não gosto de falar sobre a atualidade da obra", comenta Walnice. "Trata-se de um livro difícil, que não é entretenimento e cuja leitura faz o coração bater forte." Professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ela ressalta o aspecto literário da obra. "Euclides utilizou a linguagem com fins estéticos."



Professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Francisco Foot Hardman acredita que Euclides é um daqueles casos de grande escritor que teve o conjunto de escritos ofuscado pelo brilho da obra-prima. "Acho interessante, então, neste, como em outros eventos, cursos e debates, sempre que possível destacar os outros planos de sua atividade literária, que incluíram o ensaio, o jornalismo político e a crítica literária, a correspondência, a crônica e, last but not least, a poesia", comenta. "Além de Os Sertões, ele publicou mais três livros, dois deles em vida (Contrastes e Confrontos e Peru Versus Bolívia, ambos de 1907) e um póstumo, mas organizado ainda em vida (À Margem da História, 1909). Afora isso, uma obra extensa de artigos, crônicas e poesias, tanto dispersos quanto inéditos. Seria bom para o público de hoje ter uma ideia aproximada de toda essa riqueza e variedade."



Já Milton Hatoum pretende ler um conto de seu livro A Cidade Ilhada (Companhia das Letras), Uma Carta de Bancroft. O texto faz referência a uma carta que revela um sonho (ou pesadelo) do escritor quando estava em Manaus, antes de partir para o Purus. "Uma das questões mais recorrentes na obra de Euclides é a relação entre civilização e barbárie", observa Hatoum. "Ele dizia que a Amazônia era uma ‘terra ignota’, ‘a última página, ainda a escrever-se, do Gênese’, onde o homem travaria uma ‘guerra de mil anos contra o desconhecido’."



Hatoum comenta que a ânsia de conhecimento científico e de exercer uma missão civilizadora é latente no escritor. "Euclides, como bom positivista, acreditava no progresso e na ciência, temas que ele aborda nos ensaios sobre a Amazônia", afirma. "Mas ele sabe que a ‘civilização’ e os ideais republicanos falharam, e são mais bárbaros que os nativos que ele, Euclides, critica. Penso que esses temas são importantes."