Eu a amara perdidamente! Porque amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e no boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.
Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, evolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta de maneira que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.
E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.
Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.
O que aconteceu? Não sei mais.
Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspuiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"
Não soube de mais nada, nada. Vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.
Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! Meu Deus!
Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.
Ontem, regressei a Paris.
Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, dequelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.
E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.
Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho - toquei-o - estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes são os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."
Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.
Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.
E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!
Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.
Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvores verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.
E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.
Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.
Vaguei durante muito, muito tempo, não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava, como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Não a encontrava!
Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!
Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.
E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente ela se movia, como se a estivessem levantando com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:
"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."
O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escrever com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:
"Aqui jaz jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."
Quando acabou de escrever o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.
E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonetos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.
Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.
Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.
Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.
E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera: "Ela amou, foi amada, e morreu", divisei:
"Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu."
Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
A Morta (Guy de Maupassant)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A Brincadeira (Tchekov)
Um claro dia de inverno…Faz tanto frio que a neve estala debaixo dos pés, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos no lado da cabeça e o pelo fininho no lábio superior cobertos de orvalho cintilante. Estamos no topo de um morro muito alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se reflete como um espelho. Ao nosso lado está um pequeno trenó forrado de pano vermelho.
“Vamos deslizar até lá embaixo, Nadêjda Petrovna”, imploro, “Só uma vez! Garanto que vamos ficar sãos e salvos!”
Mas ela tem medo. A distância entre as suas pequeninas galochas e o fim da montanha de gelo lhe parece um abismo terrível, de profundidade incalculável. Ela fica tonta e perde o fôlego só de olhar lá para baixo, quando eu lhe proponho sentar no trenó – imagina então se ela arriscar despencar no precipício? Ela é capaz de morrer ou enlouquecer!
“Eu lhe suplico”, digo eu, “Não tenha medo! Você não percebe que isso é fraqueza? É covardia?”
Nádenka acaba cedendo, e eu vejo pelo seu rosto que ela acredita que cede com perigo da própria vida. Eu a acomodo, pálida e trêmula, no trenó, sentom-me também. Ponho o braço em volta dela e, juntos, nos precipitamos no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca com raiva, até doer, parece querer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento dificulta a respiração. É como se o diabo em pessoa tivesse nos agarrado com as patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece que em mais um instante estaremos perdidos.
“Eu te amo, Nádia”, digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Pálida, mal consegue respirar… Eu a ajudo a levantar-se.
“Nunca mais faço isso!”, diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. “Por nada nesse mundo! Por pouco não morri!”
Logo depois ela volta a si e já me encara com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos diante do morro. O prblema, visivelmente, não a deixa em paz. Aquelas palavras foram mesmo pronunciadas ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka examina o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde de qualquer jeito as minhas perguntas, espera que eu fale. Meu Deus! Que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo nitidamente como ela luta consigo mesma. Ela precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra as palavras. Está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria…
“Sabe duma coisa?”, diz ela, sem olhar para mim.
“O quê?”, pergunto eu.
“Vamos de novo… Vamos deslizar pelo morro.”
Subimos pela escada até o alto. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo despencamos no precipício medonho, de novo o vento uiva e as lâminas zunem, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge, eu digo a meia voz:
“Eu te amo, Nádia.”
Quando finalmente o trenó pára, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois examina longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o capote de peles e o capuz, toda a sua figurinha, transmite extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
“Mas o que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou meus ouvidos me enganaram?”
A incerteza a perturba, a impacienta. A pobrezinha não responde às minhas perguntas, franze a testa, está quase chorando.
“Você não prefere ir para casa?”, pergunto eu.
“Mas eu… Eu gosto dessas… descidas”, diz ela, enrubescendo. “Não quer descer o morro mais uma vez?”
Ela diz gostar destas descidas, e mesmo assim, quando chega o momento de sentar no trenó, como das outras vezes, ela fica pálida, trêmula, ofegante de medo.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fixa o olhar no meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos no meio da encosta, deixo escapar:
“Eu te amo, Nádia!”
E assim o enigma continua. Nádenka se cala, está pensando… Eu a acompanho para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera que eu lhe diga aquelas palavras. Eu eu vejo claramente como sofre, como tem que se esforçar para não dizer:
“Não pode ter sido o vento! Eu não quero que tenha sido o vento quem disse aquilo!”
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se for ao morro hoje, venha me buscar. N.” E desde essa manhã, comecei a ir com ela ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
“Eu te amo, Nádia!”
Logo Nádenka acostuma-se à frase, como outras pessoas se acostumam ao vinho ou à morfina. Não pode mais viver sem ela. É verdade que voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas agora o medo e o perigo acrescentam um encanto especial às palavras de amor, palavras que continuam sendo um enigma… Continuam oprimindo a alma. São sempre os mesmos suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas ao que parece, isso já não importa, não importa o copo em que se bebe, importa é fica embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e de repente vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos… Depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem muito medo de ir sozinha, meu Deus, quanto medo! Está pálida como a neve, treme, vai adiante como se fosse para a fôrca, mas vai, vai sem olhar para trás, cheia de decisão. Pelo visto, ela resolveu finalmente tirar a prova: será que aquelas palavras estranhas vão se fazer ouvir quando eu não estiver junto? Então vejo como ela, lívida, com a boca meio aberta de terror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, faz com que ele se ponha em movimento… zzzzz… zunem as lâminas. Será que ela ouviu aquelas palavras? Não sei… Só o que vejo é como ela se levanta to trenó, exausta, fraca. E pelo seu rosto percebe-se que nem ela mesmo sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou toda sua capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…
Mas então chega o mês de março, e com ele a primavera… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e derrete. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a São Peterburgo, onde vou ficar muito tempo, talvez para sempre.
Pouco antes de partir, uns dois dias talvez, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, ainda há neve pelos cantos, as árvores ainda estão mortas, mas já se sente o cheiro da primavera. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. Vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa no céu o olhar tristonho… O vento da tarde lhe sopra no rosto, pálido e desanimado… Ele faz com que ela se lembre daquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras. Com isso o seu rosto fica triste, muito triste, e pela faze desliza uma lágrima… A pobrezinha estende os braços, como se implorasse ao vento que lhe traga mais uma vez aquelas quatro palavras. Eu espero o vento favorável, e sopro a meia vez:
“Eu te amo, Nádia!”
Meu Deus, o que aconteceu com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
E eu vou arrumar as malas.
Isso tudo foi há muito tempo. Agora, já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidas. Para ela, isso é hoje a mais feliz, a mais comovente e a mais bela recordação de sua vida.
Mas eu, agora que estou mais velho, não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, não compreendo mais porque brincava…
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
No Retiro da Figueira - Conto de Moacyr Scliar (texto integral)
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... Era maravilhoso. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranqüilo, um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Oito guardas, homens fortes, decididos – mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança; trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado; e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais, minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida.
Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário; entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança.
Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo, só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. Os pôneis eram mansos, as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência, explicou, com um sorriso tranqüilizador. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao salão de festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir que não saíssemos naquele domingo.
– Afinal – disse, em tom de gracejo – está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada. Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho. Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que, mesmo de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
– E vocês, por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião.
– E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo. 15º § Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós – amedrontado, pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião decolou e sumiu.
Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Lobo da Costa (2)
Se um grito de fera açoute
Estruge no ar austero
Não tremas: é o quero-quero
Quem vem te dar a boa noite.
Segue aqui o tributo a Lobo da Costa. Na seqüência, temos um programa de rádio, reconstituindo as circunstâncias da morte do poeta e contando um pouco de sua história.
Programa "Patrimônio pé de ouvido" : Lobo da Costa - BAIXAR (.mp3)
Para enriquecer a pesquisa sobre o poeta, temos ainda o texto de Mario Osório Magalhães, publicado no jornal Diário Popular.
Ainda Lobo da Costa
Em São Paulo - não na capital, mas em Campinas -, Lobo da Costa irá publicar, com o auxílio do poeta e teatrólogo porto-alegrense Carlos Ferreira, o seu livro Lucubrações, de 142 páginas e reunindo o melhor da sua poesia.
Na capital paulista irá estudar para os preparatórios; irá conviver com os estudantes e os intelectuais da sua época. Haverá de escrever bastante, mas, sobretudo, de afeiçoar-se à boemia, como era regra geral entre os poetas do seu tempo. E não trará de volta o tão sonhado título acadêmico; no ano seguinte - em 1875 - já retorna ao Sul, doente, fixando-se por algumas semanas na Ilha do Desterro, atual Florianópolis, onde colabora em jornais e, restabelecido, exerce durante poucos dias as funções de oficial de gabinete do presidente da Província.
De volta a Pelotas, em 1876, nunca mais conseguirá ajustar-se, por um período razoável de tempo, às convenções da sociedade. A frustração dos seus sonhos só pode ser compensada na bebida, e a bebida o conduz ao desregramento social. Por esse motivo dá-se o rompimento com Elvira. São desse ano as admiráveis estrofes de Vingança, em que o autor, amargurado, acusa de traição a mulher que o abandonara:
"Que sinto eu? Desejos de vingança!
De um crime hediondo ela tornou-se ré!
E o ídolo que adorei reduzo a cinzas
e sobre as cinzas me coloco em pé!"
Conta a tradição oral que esse poema foi lido diante de Elvira, numa reunião familiar, havendo a moça desmaiado durante a declamação.
Lobo da Costa tem agora 24 anos. A partir daí a sua biografia será caracterizada por um aparente contraste: de um lado, o reconhecimento do valor da sua obra, a consagração literária, o prestígio de que passou a desfrutar como poeta; de outro, a censura à sua vida, o controle social, a condenação do seu comportamento boêmio. Por este último motivo, com toda a certeza, não se fixa por muito tempo em Pelotas entre 1877 e 1885: viaja a Rio Grande, Porto Alegre, Arroio Grande, Jaguarão, Dom Pedrito e Bagé.
Em Jaguarão, no ano de 1879, toma uma atitude inesperada: casa-se com uma jovem de 17 anos, natural de Rio Grande e de origem humilde. Nessa oportunidade, um embuste seu é de fácil explicação psicológica: faz com que o escrivão o registre, na certidão de casamento, como bacharel em Direito.
De Carolina Augusta Carnal, a esposa, nunca se ouvira falar antes; depois, sabe-se apenas que dessa união resultou uma filha, de nome Amanda e de rara beleza.
Em 1881 vai para Porto Alegre, como secretário de uma companhia ginástica.
Em 1883, na então vila de Dom Pedrito, hospedado numa casa comercial, escreve uma peça, um drama em versos, sob encomenda de uma sociedade amadora local. A peça tem o título de O filho das ondas e a principal personagem feminina tem o nome de Elvira. No dia da estréia Lobo da Costa não pode assistir ao espetáculo, devido aos efeitos de um vinagre de álcool, um irresistível "espírito de vinho"...
É semelhante a esse episódio o que ocorrera em Pelotas, alguns meses antes, nesse mesmo ano de 1883. Só que é mais representativo daquele contraste, a que me referi, entre a consagração e a censura nessa fase biográfica de Lobo da Costa. Durante a apresentação da menina-prodígio Julieta dos Santos, no Teatro Sete de Abril, uma jovem da sociedade pelotense declamara uns versos que ao poeta havia inspirado a prestigiada atrizinha; seu autor, porém, fora barrado às portas do teatro, por encontrar-se visivelmente bêbado...
Revelei em primeira mão há cerca de dez anos, e repito agora, o que, segundo entendo, representa uma descoberta altamente significativa para a biografia de Lobo da Costa: Elvira, a musa do poeta, havia morrido em janeiro de 1883, solteira, com a idade de 22 anos, vítima de tuberculose, alguns meses antes dos episódios do Teatro Sete de Abril e de Dom Pedrito, ocorridos respectivamente em fins de março e em fins de setembro.
Os dois fatos são sintomáticos, nos permitem constatar e, mesmo que não dêem a medida exata, nos autorizam a imaginar a enorme repercussão daquele acontecimento, o abalo que causou na sensibilidade do poeta...
(Coluna de Mário Osório Magalhães no jornal Diário Popular - 29.06.2003)
...................................................................................................
A Morte de Lobo da Costa
Tão relevantes me pareciam os dois fatos - os episódios do Teatro Sete de Abril e da casa comercial, em Dom Pedrito - que passei a investigar, com cuidado especial, a década de 1880 na biografia de Lobo da Costa. Como disse, acabei por descobrir - e publiquei, pela primeira vez - um atestado de óbito, no qual se registra que Elvira Arruda, a Elvira de verdade, a paixão do poeta, morrera em janeiro desse ano, solteira, com 22 anos, vítima de tuberculose. A partir daí fiquei sabendo, por uma notícia do Correio Mercantil, que "mais alguns dias e a inditosa jovem ter-se-ia unido matrimonialmente a um distinto mancebo".
Como desconfiava, os episódios de Pelotas e de Dom Pedrito não são apenas reveladores - conforme salientam os seus biógrafos - da obsessão alcoólica de Lobo da Costa, no final da vida: mais do que isso, são componentes trágicos de um muito triste ritual de luto.
Por outro lado, é significativo lembrar que Francisco Lobo da Costa durou mais cinco anos, ora internando-se na Santa Casa, ora percorrendo ruas, ora freqüentando bares; Elvira, prometida a um outro cidadão, "a um distinto mancebo", teve menor resistência. Foi vítima, também ela, do Romantismo - mesmo sem ingerir absinto nem "Parati", muito menos vinagre de álcool, e sem haver elaborado, ao que se saiba, um único poema.
Em 1885, retornando de Bagé, o poeta é internado pela primeira vez na Santa Casa de Misericórdia. Observe-se o modo grotesco como o jornal A Discussão, ao informar os seus leitores, justifica o estado de saúde do autor de Vingança, generalizando-o como fatalidade irreversível, extensiva a todos os literatos:
"De Bagé chegou ontem a esta cidade o ilustre vate pelotense senhor Francisco Lobo da Costa, cujas inúmeras produções poéticas são testemunhos do seu robusto talento. Como todos aqueles que cultivam as letras, Lobo da Costa acha-se gravemente enfermo, cumprindo assim a sina imposta aos infatigáveis obreiros das letras. Dos seus dedicados amigos Lobo da Costa tem recebido as maiores provas de apreço e simpatia."
Receberá dos amigos, igualmente, auxílio material. Reunidos em assembléia, os moços do Grêmio Literário dos Lunáticos decidem publicar um livro, em 1887, revertendo a renda em benefício do poeta. Graças ao prestígio de Lobo da Costa, em seguida se esgota a primeira edição. Só que o livro, em vez de enfeixar os inéditos do beneficiado, como seria lógico, lança os originais dos próprios beneméritos. Uma maneira, enfim, de conciliar o útil com o agradável...
Entre 1885 e 1888, Lobo da Costa transita entre o hospital e os bares. Em ambos escreve sofregamente, seja em retribuição às visitas que lhe fazem, seja em pagamento da bebida que o seu organismo reclama. Dorme muitas vezes ao relento. Fora do hospital, proveniente dos bares, "vagueia pelas ruas, indiferente a tudo e a todos".
No dia 18 de junho de 1888, na hora da sesta, abandona a Santa Casa e, de posse de 20 mil réis - último saldo do livro Charitas, que lhe é entregue pelo mordomo - dirige-se a um bar, na região leste do centro da cidade. No fim da tarde de inverno já o encontram caído, na valeta de uma rua isolada e deserta. Mas só na manhã seguinte é que uma carroça recolhe o seu corpo nu, verificando-se, pois, que ele fora saqueado durante a noite...
Diante das circunstâncias trágicas da morte de Lobo da Costa, procurou-se provar, mais tarde, que o corpo do poeta foi conduzido à Santa Casa, no dia 19, com algum resquício de vida. É uma honesta tentativa de esfregar um pouco essa possível "mancha" da história local. Tenha êxito ou não essa "reparação", na verdade o que importa é que o autor do Adeus, abandonando este mundo, o fez espiritualmente enfermo, bêbado e jogado ao relento, desencantado com a sociedade e, talvez, consigo mesmo. Assim como viveu, morreu poeta, conforme o modelo da sua época.
Um modelo, aliás, mais ideal do que real. No Brasil, geralmente, ao adquirir seu diploma, os jovens estudantes passavam à condição de ex-literatos, punham as rimas de lado. Lobo da Costa, porém, não conseguiu se formar; só conseguiu se manter, o tempo todo, no patamar da crise. Em conseqüência, foi um dos raros, foi um dos poucos românticos brasileiros que de fato sucumbiram.
(Coluna de Mário Osório Magalhães no jornal Diário Popular - 06.07.2003)
Lobo da Costa

Francisco Lobo da Costa, grande poeta romântico gaúcho do século XIX, constitui, certamente, uma das páginas mais interessantes da literatura brasileira. Sua poesia reflete a intensidade de uma melancolia realmente vivida. Isso confere às imagens ultra-românticas desse poeta um vigor que poucos de seus contemporâneos conseguiram atingir.
Adeus
À sombra do Salgueiro
(Fragmentos)
Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.
Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás d'almo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.
Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.
Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.
Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!
De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.
Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar
O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.
Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?
Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!
Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.
Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.
E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Depois da Chuva... (2)
Toda essa chuva aqui no extremo sul do país e um clima propício para uma boa leitura... a estética do frio se fez presente em pleno verão e Satolep, do Vitor Ramil, transpira umidade. Com o livro na mão e umas imagens na cabeça, comecei a reler os encontros do protagonista com a chuva, com Simões Lopes e com o poeta Lobo da Costa.
Taí... Lobo da Costa...
Grande poeta pelotense, encarnou como poucos, de modo verdadeiro, real, a melancolia e o decadentismo românticos.
Um bom vinho para brindar em homenagem ao poeta!
Depois da chuva...
"Eu, que vivo no gasômetro, tenho tomado distância de tudo o que é sólido. À margem das formas, sou reservatório de coisas desfeitas. É meu o rosto líquido que vejo na poça de chuva esquecida pela terra sob minha janela, rosto de quem quis infinitamente comprimir os fluidos da vida na esperança de guardá-la. No gasômetro as coisas não são sólidas, mas custam a passar. Hoje um grito de criança, sumido na varanda em meu passado, veio vibrar sobre o telhado como o canto de uma ave vindo agonizar no ninho antes de morrer; ontem, foi um pardal que desceu na água. Ainda posso vê-lo, agora que partiu, capturado pela luz no álbum aberto dessa superfície onde meu olhar move-se em pequenas ondas, devagar. Embalados pela brisa piedosa, esses pobres olhos feitos de restos de chuva imitam os imensos reservatórios que dançam lentamente, atrás. Não há música em mim que possa animá-los. No gasômetro venta, mas as coisas são silenciosas. Só o grito da criança no telhado se propaga. Meu rosto na água não ousa espiá-la. Por que me chama? O que pode esperar de mim? Sou uma mulher às voltas com o que não tem volta. Faz muito frio, não me deixariam ir lá fora. Dorme, menina, dorme. No gasômetro as coisas custam a passar."
(RAMIL, Vitor. Satolep. São Paulo: Cosac Naify, 2008. p.33)
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Gabarito definitivo da UFPel: Questão 2 anulada!
Diante do que já havíamos explicado, a questão 2 de Literatura (2º dia de prova) não tinha resposta possível. Meu requerimento junto ao CES foi atendido e a questão foi ANULADA. Isso significa que todos os vestibulandos devem considerar essa questão como acerto, automaticamente.
CONFIRA AQUI OS GABARITOS:
1º Dia (17/1)
2º Dia (18/1)
É isso aí.
Ficamos no aguardo do listão...
Um abraço.
