
Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Dia dos Namorados - Poesias de Amor: Vinicius de Moraes
Artigo: O que aconteceu depois do último capítulo

Gincana literária prova que escrever a continuação de clássicos ou de best-sellers continua irresistível
Por Sérgio Augusto, do jornal O Estado de São Paulo
No início da semana, os advogados do escritor J.D. Salinger entraram com uma ação contra John David California, acusando-o de infringir os direitos autorais de The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio). Há coisa de um mês, J.D. California lançou seu primeiro romance, 60 Years Later Coming Through the Rye, uma continuação não muito velada do célebre livro de Salinger, imaginando o que teria acontecido ao seu adolescente herói, Holden Caulfield, se ele tivesse logrado chegar à terceira idade.
Dar asas à imaginação a partir de clássicos da literatura ou de meros best-sellers, especulando sobre o destino de seus protagonistas depois do último capítulo, do ponto final, é passatempo antigo, que ameaçou virar moda no mercado editorial no começo da década passada. Scarlett, continuação (em inglês, sequel) de ...E o Vento Levou, escrita por Alexandra Ripley, vendeu 2 milhões de exemplares em 1991. Em seu rastro vieram, nos meses seguintes, Mister Grey (com as aventuras posteriores de Huckleberry Finn); H: The Story of Heathcliff?s Journey Back to Wuthering Hights (sobre a volta de Heathcliff ao Morro dos Ventos Uivantes); Lara?s Child (sobre a vida do filho que Lara Antipova teve com o doutor Iuri Jivago). Em 1993, a onda das sequels chegou ao fim.
Ela ainda estava em alta quando a revista Harper?s atraiu meia dúzia de escritores para o desafio de desenvolver um pequeno relato prospectivo com personagens de alguns marcos da ficção. A dramaturga Wendy Wasserstein escreveu Franny at Fifty (ou seja, Franny Glass, a salingeriana heroína de Franny & Zooey, aos 50 anos); Jane Smiley foi de Kafka (Gregor: My Life as a Bug, diário de Gregorio Samsa enquanto inseto); Jay Parini fantasiou sobre o triste fim do fitzgeraldiano Jay Gatsby (The Late Gatsby); e Paul West levou adiante, em Tadzio?s Farewell, os devaneios de Gustave von Aschenbach, o escritor gay de Morte em Veneza, de Thomas Mann.
No mesmo período, quatro parodistas da revista de humor National Lampoon - Henry Beard, Christopher Cerf, Sarah Durkee e Sean Kelly - criaram a Sociedade Americana da Continuação (The American Sequel Society) e publicaram um livro, The Book of Sequels, inteiramente dedicado à arte de levar adiante o passado congelado em romances e filmes. Na capa, o casal de ...E o Vento Levou, Rhett Butler e Scarlett O?Hara. Só que, em vez de "Francamente, querida, estou pouco me lixando", Rhett diz para Scarlett: "Pensando bem, eu me importo com você, sim!" (ou que melhor tradução vocês tenham para "On second thought, I do give a damn!").
Entre as melhores sacadas, o épico de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, que virou Solidão: Os Cem Anos Seguintes (ao longo dos quais, Macondo é arrasada por um furacão e anexada ao Panamá); a alegoria de George Orwell, A Revolução dos Bichos, com legumes no lugar dos cães e porcos, daí o título: Vegetal Farm; o livro de cabeceira das misses brasileiras, O Pequeno Príncipe, com o príncipe avançado nos anos, além de gordo e careca; o controvertido A Princesa, versão feminina de O Príncipe, de Maquiavel; Assim Pilheriou Zaratustra; Moby Dick 2: O Resgate do Pequod!; e o Gênese da Bíblia, cujo subtítulo é um achado: E no oitavo dia, Deus acordou.
A brincadeira, de certo modo borgesiana, diga-se, só tem graça se se conhece, ainda que de orelhada, a obra original.
Sábado passado, quase ao final da BookExpo America, a convenção anual das editoras americanas, uma prodigiosa impressora de livros por encomenda, chamada Espresso Book Machine, desovou, em poucos minutos, pilhas e mais pilhas de um volume encadernado de 134 páginas, intitulado Book: The Sequel. Chegava ao fim, com lombada e tudo, a gincana literária iniciada, dois dias antes, pela editora Perseus, que, através de seu site, estimulara os internautas a bolarem continuações para livros de sua escolha. Únicas exigências: um título inédito e uma frase de abertura original.
Baratas que acordam de manhã transformadas em seres humanos (mais precisamente em "homens neuróticos, banais e ambiciosos do Leste Europeu") - assim começaria, pelo gosto de um internauta, a continuação de A Metamorfose, de Franz Kafka, que ganhou o título de Metamorfose 2: Desta Vez é Pessoal. "A gente nem pode mais tirar uma soneca?" seria a frase de abertura de No Sétimo Dia, a continuação do Gênese. A de O Capital 2, de Karl Marx? "Como vocês devem ter notado, eu estava certo." E a de Mein Wahnsinn (Minha Loucura), desdobramento de Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler: "Eu devia estar doido."
Moby Dick (de Herman Melville) e Memórias do Subterrâneo (de Dostoievski) mereceram o maior número de sequels. Mais próxima do original, Moby Dunk abre com esta confissão: "Eu ainda me chamo Ishmael." Na outra continuação, Moby Dick 2, Ishmael, o narrador, se estende por quase duas dezenas de palavras: "Me chame de Tolo, mas eu não podia imaginar que fossem proibir a pesca de baleias nem que eu acabaria como garoto-propaganda do Partido Republicano." Uma das continuações de Memórias do Subterrâneo também é concisa: "Esqueçam o resto. Era só o fígado mesmo." A outra também é boa: "Não sou, afinal de contas, um homem doente e nada há de errado com o meu fígado; sofro mesmo é de depressão, que meu médico controla à base de medicamentos."
PARA QUEM CONHECE
Se nem de referência você conhece o conteúdo de Anna Karenina (Leon Tolstoi), O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Esperando Godot (Samuel Beckett), Madame Bovary (Gustave Flaubert), Os Sete Pilares da Sabedoria (de T.E. Lawrence), Rebeca (Daphne du Maurier), Animal Farm (aqui, A Revolução dos Bichos) e To Kill a Mockingbird (O Sol É Para Todos, de Harper Lee), melhor pular o próximo parágrafo. Se conhece todos eles, divirta-se:
"Todas as fast-foods se parecem entre si; as refeições normais são saudáveis - cada uma à sua maneira." (Anna McKarenina)
"Toda arte é inútil, pensei enquanto retocava outra vez as rugas do meu rosto e ao redor dos meus olhos." (O Photoshopping de Dorian Gray)
"Vladimir: ?Ei-lo, finalmente! Já era tempo, né??" (Encontrando Godot)
"?Isto é bem mais excitante que escrever cartas?, pensou Emma, enquanto lia os documento secretos do amante, que encontrara na carruagem." (Madame Bovary: Espiã)
"Eu sempre achei uma chatice andar de motocicleta com capacete." (Os Oito Pilares da Sabedoria)
"Ontem à noite, tomei um Stilnox e dormi à beça, sem sonhar com Manderley." (Depois do Incêndio)
"Todos os animais são iguais, exceto aqueles com gripe suína." (Mexican Animal Farm)
"Misture numa coqueteleira 3 partes de tequila, uma de suco de toranja, e uma de licor Triple Sec." (Tequila Mockingbird)
LITERATURA BRASILEIRA
Para suprir a ausência da literatura brasileira em Book: The Sequel, aventurei-me a imaginar como poderiam começar as continuações de Dom Casmurro, Grande Sertão: Veredas e Vidas Secas. Confiram e avaliem:
"Jamais hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim. Afinal, meu fim é do conhecimento de todos, mas o princípio de minha vida póstuma, não. Logo depois que expirei, Bentinho encontrou finalmente uma mulher sem olhos de ressaca ou de cigana oblíqua e dissimulada, até porque era cega. Seu nome, Helen Keller." (Memórias Póstumas de Capitu, de Machado de Assis)
"Abrenúncio! Tiros que o senhor ouviu foram das armas do coronel Carlos Vereza e seus filhos, compadre meu Quelemém. Esses gerais, tudim deles. De medo morro dos Verezas. Mas não me assente o senhor por poltrão." (Grande Sertão: Verezas, de Guimarães Rosa)
"Na larga avenida os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Fazia semanas que Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos vagavam pela cidade grande, atrás de pouso e comida." (Cimento Armado, de Graciliano Ramos)
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terça-feira, 9 de junho de 2009
Dia dos Namorados - Poesias de Amor: Amar (Carlos Drummond de Andrade)
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Dia dos Namorados - Poesias de Amor: Plena Mulher (Pablo Neruda)

Começamos esta série de postagens em homenagem aos namorados com o mestre da lírica amorosa: Pablo Neruda.
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas pernas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.
(Pablo Neruda)
Texto original, em espanhol:
Plena mujer, manzana carnal, luna caliente,
espeso aroma de algas, lodo y luz machacados,
qué oscura claridad se abre entre tus columnas?
Qué antigua noche el hombre toca con sus sentidos?
Ay, amar es un viaje con agua y con estrellas,
con aire ahogado y bruscas tempestades de harina:
amar es un combate de relámpagos
y dos cuerpos por una sola miel derrotados.
Beso a beso recorro tu pequeño infinito,
tus márgenes, tus ríos, tus pueblos diminutos,
y el fuego genital transformado en delicia
corre por los delgados caminos de la sangre
hasta precipitarse como un clavel nocturno,
hasta ser y no ser sino un rayo en la sombra.
Universidades saberão resultado do Enem em 4 de dezembro
Os primeiros resultados do próximo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) serão divulgados em 4 de dezembro para as instituições de ensino, que poderão consultá-las pela internet, para subsidiar seus processos seletivos.
Das cinco notas que cada aluno receberá, quatro --correspondentes às questões de múltipla escolha-- serão apresentadas nesse dia. A nota da redação, cuja correção demora mais, só será divulgada em 8 de janeiro de 2010.
Segundo a assessoria de imprensa do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão responsável pelo Enem, os alunos só saberão o resultado a partir da segunda quinzena de janeiro, pela internet ou por meio de um boletim que será enviado ao endereço indicado pelo candidato.
Para consultar o resultado pelo site do Inep, http://www.enem.inep.gov.br/, serão necessários o CPF e a senha de acesso do inscrito, cadastrados na inscrição.
A inscrição para o exame só será feita pela internet, de 15 de junho a 17 de julho. As provas acontecem em 3 e 4 de outubro.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Períodos Literários: O Modernismo e as Vanguardas Européias
Modernismo
Contexto: (início do séc. XX)
Europa: Avanço do processo industrial; disputa por mercados e matéria-prima; I Guerra Mundial (1914-18); Rev. Russa (1917); Crack da Bolsa de Nova Iorque (1929); eletricidade; telégrafo; rádio; cinema; automóvel; avião.
Brasil: Coronelismo no Nordeste; oligarquias no Sul e Sudeste; Ciclo de Greves; Partido Comunista do Brasil; Revolta do Forte de Copacabana; Coluna Prestes.
Lisbon Revisited (1923)
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
(Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa)
O espírito moderno está diretamente associado ao desenvolvimento tecnológico e à urbanização. A eletricidade, o telégrafo, o rádio, o automóvel e o avião geram uma sensação de aceleração: as noções de tempo e de espaço já não são as mesmas. Paradoxalmente, as metrópoles oferecem múltiplas possibilidades de realização (pessoal, amorosa, intelectual, de consumo...) e a proporcional sensação de frustração, de mal-estar, solidão, angústia existencial. O sacrifício inútil de milhões de vidas durante a Iª Guerra não permite mais as ilusões propostas pelo liberalismo burguês, no sentido de uma estabilidade social, da valorização do ser-humano e do progresso infinito.
Assim, a arte moderna constitui-se como expressão global dessas transformações radicais no contexto sócio-político-econômico ocorridas em todo o mundo.
As Vanguardas Européias
Futurismo: Movimento idealizado pelo italiano Marinetti, propunha a rejeição ao passado, às tradições e ao academicismo. Preconizava o verso livre, a destruição da sintaxe. Em síntese, valoriza a construção de um novo mundo, dominado por homens superiores, senhores da tecnologia e da velocidade (assume, portanto, um caráter fascista).Giacomo Balla: velocità astratta - l'auto é passata
Cubismo: Com a tela As senhoras de Avignon, Picasso propõe a destruição das imagens convencionais, estáticas. Formas e planos descontínuos rompem com o realismo fotográfico, constituindo imagens multifacetadas, tridimensionais. Destaca-se também a técnica da colagem.
Dadaísmo: Dadá seria algo infantil, pré-lógico, incompreensível. Tal como a vida, a arte não possui, necessariamente um significado.
Receita para se fazer um poema
Pegue um jornal
Pegue uma tesoura
Escolha um artigo do jornal na dimensão
que você quer dar ao seu poema
Recorte o artigo
Depois recorte alguns palavras do artigo
e as ponha numa pequena bolsa
Sacuda-a suavemente
Tire em seguida cada palavra uma após outra
Copie honestamente na ordem em que saíram da bolsa
E o poema estará pronto e parecido com você
E você será um poeta de original,
fascinante sensibilidade,
ainda que a plebe não o compreenda.
Surrealismo: Liderado por André Breton, e tendo a adesão de Salvador Dali, René Magritte e Luis Buñuel, o movimento buscava uma explorar o inconsciente humano. Preconizava a escrita automática, um fluxo de palavras sem qualquer esforço de controle moral ou estético.Salvador Dalí: A Persistência da Memória
Expressionismo: A arte que revela a expressão como reflexo do universo interior do indivíduo. A exteriorização de mitos, sonhos, devaneios, enfim, de aspectos ilógicos, faz com que tenhamos imagens com traços violentos, que se aproximam do grotesco, por suas distorções.
O Grito – Munch
Nas próximas postagens veremos o Modernismo no Brasil.
Simulado Novo Enem
O Curso Anglo disponibiliza on-line uma prova nos mesmos moldes do novo Enem, mas com 100 questões, ao invés de 180. Vale conferir.
DOWNLOAD: PROVA / GABARITO
domingo, 7 de junho de 2009
Poeta de Cabo Verde ganha o prêmio Camões

O poeta Armenio Vieira, de Cabo Verde, ganhou o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa, informou nesta quarta-feira a imprensa de Portugal.
Praia, 03 Junho - O “Prémio Camões” 2009 foi atribuir ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, segundo escreve o Jornal Público de Portugal. O Prémio Camões foi criado em 1988 pelos governos português e brasileiro para distinguir, todos os anos, escritores dos países lusófonos.
"A título pessoal, eu esperava o prémio. Mas por causa de ser Cabo Verde, admiti que fosse ainda um bocado cedo. É pequeno em relação à imensidão do Brasil, que tem centenas de escritores óptimos. E Portugal também. Seria muito difícil Cabo Verde apanhar o prémio", disse, visivelmente emocionado àquele jornal o nosso escritor Arménio Vieira.
O poeta considera que "é uma honra pessoal”, mas também “é uma honra para Cabo Verde”. É histórico, Cabo Verde nunca tinha ganho. Desta vez lembraram-se do nosso pequeno país", acrescentou Arménio Vieira.
Com este prémio, o galardoado espera que, a partir de agora, a sua obra venha a ser estudada em Cabo Verde e no estrangeiro.
Arménio Vieira nasceu na cidade da Praia, Ilha de Santiago, a 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor, tem colaborações em publicações como o “Boletim de Cabo Verde”, a revista “Vértice”, de Coimbra, “Raízes”, “Ponto & Vírgula”, “Fragmentos” e “Sopinha de Alfabeto”. Arménio Vieira também foi redactor no jornal “Voz di Povo”.
O Primeiro Ministro, José Maria Neves, profere esta manhã, 4 de Maio, às 11:00 horas, uma declaração à imprensa, na sequência do prémio atribuído ao poeta cabo-verdiano
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Um Pouco da Poesia de Armenio Vieira
LISBOA - 1971
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber donde... ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno
CANTO FINAL FINAL OU AGONIA DUMA NOITE INFECUNDA
.
Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de pranto tênue e impotente
assim a noite caminha com os astros todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida
Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobe nunca
e só dura
o espaço breve duma nota
Assim o canto se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado por insectos cor de cinza
A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inscrita no silêncio
com seu peso
de chumbo e olvido
acaba o poema
e um ponto final selando tudo.
sábado, 6 de junho de 2009
Literatube: Los Nadies (Eduardo Galeano)
Pelo próprio Eduardo Galeano:
Poesia e tradução: Los Nadies (Eduardo Galeano)
Los Nadies
Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se levanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.
Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada,
los nadies: los ningunos, los ninguneados,
corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos,
rejodidos.
Que no son aunque sean.
Que no hablan idiomas sino dialectos.
Que no profesan religiones sino supersticiones.
Que no hacen arte sino artesanía.
Que no practican cultura sino folklore.
Que no son seres humanos sino recursos humanos.
Que no tienen cara sino brazos.
Que no tienen nombre sino número.
Que no figuran en la historia universal
sino en la crónica roja de la prensa local.
Los nadies
que cuestan menos que la bala que los mata...
Versão em português
Os ninguéns
As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, os nenhunados (*)
correndo soltos, morrendo a vida, fodidos
mais que fodidos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Outra versão
“Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata”.
O AUTOR:
Eduardo Hughes Galeano, mais conhecido como Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, nasceu na cidade de Montevidéu, no dia 3 de setembro de 1940. Ele atuou como chefe de redação do periódico Marcha e também dirigiu o veículo Época, trabalhos realizados em sua cidade de origem. Neste período ele igualmente instituiu e administrou a revista Crisis, desta vez em Buenos Aires.
Exilado na Argentina e na Espanha entre 1973 e 1985, retornou ao Uruguai neste ano, fixando residência em Montevidéu. Autor de inúmeras obras literárias e jornalísticas, traduzidas em mais de vinte idiomas, ele exercita seu estilo literário compondo pequenas histórias que abordam desde temas políticos significativos no contexto histórico da América Latina até uma temática singela, enfocando fatos do dia-a-dia e até mesmo o futebol. Neste sentido, ele é considerado um escritor da estirpe de John dos Passos e Gabriel García Márquez.
Um de seus livros mais célebres e importantes é As Veias Abertas da América Latina, obra na qual narra em uma linguagem poética e arrebatadora, com intensidade ímpar, a terrível exploração que atingiu duramente os países latino-americanos, a qual provocou a extinção de vários povos, o extermínio de inúmeros habitantes da América Latina, deixando dolorosas cicatrizes e seqüelas que rasgam de ponta a ponta a região latino-americana.
