sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cespe vai mobilizar 2,8 mil professores para corrigir redações do Enem

A correção de todas as redações dos candidatos que participarão nos dias 5 e 6 dezembro do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) será feita pelo Cespe (Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília). Cerca de 2,8 mil professores de língua portuguesa devem participar da correção, que funcionará da seguinte forma: cada texto vai ser lido por dois profissionais diferentes e se houver discrepância entre as notas atribuídas, um terceiro será chamado para a análise.

De acordo com informações divulgadas pela Secretaria de Comunicação da UnB, as redações serão levadas a uma área sigilosa do Cespe, onde são escaneadas e salvas em um programa de correção. Os professores, que já trabalharam para o órgão em outros concursos, têm acesso ao sistema via internet.

Do total de 4,1 milhão de inscritos, o Cespe será responsável por aplicar as provas para 1,9 milhão. O órgão vai cobrir 1.105 municípios onde há locais de prova no Distrito Federal e em 17 estados: Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins. Segundo informação da UnB, serão contratados 300 mil colaboradores, entre coordenadores, aplicadores de provas, seguranças e outros profissionais, para trabalhar nos dois dias do Enem.

O Cespe foi chamado para assumir a realização do exame junto com a Cesgranrio após o rompimento do contrato do Ministério da Educação com o Consórcio Nacional de Avaliação e Seleção (Connasel), que tinha vencido a licitação. O novo contrato deve ser assinado nos próximos dias. O Cespe e a Cesgranrio foram responsáveis pelo Enem nas últimas edições da prova.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Gráfica deve receber nova prova do Enem nesta sexta, diz ministro


Gráfica deve receber nova prova do Enem nesta sexta, diz ministro

O ministro Fernando Haddad (Educação) afirmou nesta quinta-feira (15) que a nova gráfica contratada para imprimir o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deverá receber o material nesta sexta. O contrato com a RR Donnelley Moore foi fechado esta semana, ao custo de R$ 31,9 milhões.

A avaliação, que deveria ter sido aplicada a cerca de 4,1 milhões de estudantes nos dias 3 e 4 de outubro, foi cancelada por conta do vazamento de seu conteúdo. A nova data para aplicação do exame será o final de semana dos dias 5 e 6 de dezembro.

O contrato fechado com a gráfica e publicado nesta quarta no Diário Oficial da União prevê não apenas a impressão da prova, mas também o manuseio, embalagem, rotulagem e entrega aos Correios, que farão a distribuição.

Depois do vazamento da primeira prova, o Ministério da Educação (MEC) interrompeu o contrato com o Connasel, consórcio que estava responsável pela execução do Enem. Em regime de urgência, o Cespe e a Fundação Cesgranrio foram contratados para executar o novo exame.

"O que está em curso agora é um novo contrato, um novo arranjo institucional que está seguindo rigorosamente as recomendações da Polícia Federal no que diz respeito à segurança", disse o ministro.

Uma auditoria administrativa está sendo realizada para apurar as responsabilidades do antigo consórcio pelo vazamento. Caso fique comprovado que houve falha no cumprimento do contrato, caberá ressarcimento ao MEC.

O consórcio foi o único a participar da licitação para o Enem 2009, fechada em R$ 116 milhões, dos quais cerca de R$ 36 milhões foram pagos. O valor refere-se exatamente à impressão da primeira prova, que já estava em processo de distribuição.

Segundo Haddad, o contrato com as novas instituições deve ser finalizado até o início da próxima semana. "Tem toda uma equipe do MEC dedicada à conclusão dessa tarefa difícil, de substituição de um consórcio por outro. Mas devemos concluir todos os contratos possivelmente até terça ou quarta-feira que vem".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Saramago chama Igreja de 'reacionária' e Bento XVI de 'cínico'

'As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas', conclamou o ganhador do Nobel de 98

EFE

O escritor português e Nobel de Literatura (1998) José Saramago chamou o papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" da Igreja precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".


"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual" desta pessoa, disse Saramago em um colóquio com o filósofo italiano Paolo Flores D'Arcais, que hoje lança Il Fatto Quotidiano.



Saramago, por sua vez, encontra-se na capital italiana para divulgar o livro O Caderno e se reunir com amigos italianos, como a vencedora do Nobel de Medicina Rita Levi Montalcini (1986).



No colóquio com Flores D'Arcais, Saramago afirmou que sempre foi um ateu "tranquilo", mas que agora está mudando de ideia.



"As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só têm interesse no poder", afirmou.



Segundo Saramago, a Igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle de seus corpos.



Perguntado se o pouco compromisso dos escritores e intelectuais poderia ser uma das causas da crise da democracia, o escritor disse que sim. Porém, disse que este não seria o único motivo, já que toda a sociedade encontra-se nesta condição, o que provoca uma crise de autoridade, da família, dos costumes, uma crise moral em geral.



Saramago destacou que o fascismo está crescendo na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos, ele "atacará com força". Por isso, ressaltou, "temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão alimentando".



A visita de Saramago a Roma acontece a um dia do lançamento do seu mais novo livro Caim, no qual volta a tratar da religião.

Brasil ganha edição comemorativa de "Cem Anos de Solidão"



EFE

Romance teve seu texto revisado pelo próprio García Marquez

A versão em português da edição comemorativa dos 40 anos de "Cem Anos de Solidão", do escritor colombiano Gabriel García Márquez, começa a ser vendida nesta semana nas livrarias brasileiras, mais de dois anos depois de seu lançamento em espanhol.

O romance teve seu texto revisado pelo próprio García Marquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1982, e foi editada no Brasil pela editora Record.

A obra foi traduzida para o português pelo escritor brasileiro Eric Nepomuceno, tradutor das obras dos principais autores ibero-americanos e amigo de García Márquez.

"Como a obra foi revisada pelo autor, fizemos uma tradução completamente nova", disse Nepomuceno à agência de notícias Efe.

Segundo um comunicado divulgado hoje pela Record, a versão brasileira da edição comemorativa de 40 anos de "Cem anos de solidão" tem prensagem inicial de 15 mil exemplares e inclui um prólogo escrito por Nepomuceno, o discurso que García Márquez fez quando recebeu o Nobel de Literatura e a árvore genealógica da família Buendía.

Na nota, a Record diz que Nepomuceno faz em seu prólogo "um passeio pela carreira literária de García Márquez desde seu começo" e relata a história da amizade entre os dois.

Foram retirados da edição em português os comentários escritos para o livro comemorativo em espanhol pelos escritores Álvaro Mutis (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México) e Víctor García de la Concha (Espanha), além do escritor franco-espanhol Claudio Guillén.

A nova edição em português de "Cem Anos de Solidão" terá 448 páginas e será vendida por R$ 49,90.

A edição em espanhol foi considerada um sucesso de vendas e vendeu 25 mil exemplares na Espanha em apenas um dia.

Escritora Kathrin Schmidt ganha Prêmio Alemão do Livro de 2009

Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Schmidt e a obra premiadaEntre os escritores que concorriam ao prêmio estava a Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller. Escolha do livro "Du stirbst nicht", de Kathrin Schmidt, é considerada uma surpresa.

Por seu romance Du stirbst nicht (Você não morre), a escritora Kathrin Schmidt recebeu o Prêmio Alemão do Livro de 2009. O romance da escritora berlinense de 51 anos foi considerado o melhor lançamento literário do ano. O prêmio foi entregue nesta segunda-feira (12/10) em Frankfurt.

A escolha de Schmidt foi uma surpresa, já que, entre os cinco outros romances que concorriam ao prêmio concedido pela Associação Alemã do Comércio Livreiro estava Atemschaukel, da Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, antes considerado o favorito.

Retorno à vida

Em seu romance de cunho autobiográfico, Schmidt conta a história de uma mulher que acorda de um coma num hospital após ter sofrido um derrame cerebral. Além de perder a fala, ela não consegue movimentar o corpo, que não mais lhe obedece. O lento e duro retorno à vida é o tema da obra.

Sobre o livro, a jornalista literária Iris Radisch, uma das juradas do prêmio, afirmou que nele "vivencia-se um nascimento. Lê-se como um ser humano se forma, como uma identidade se forma."

Nesse processo, o reaprendizado da língua é fundamental para a heroína, que é escritora de profissão. De forma emocionante e lacônica, Schmidt conta, com humor negro, como é reconquistar o mundo palavra por palavra, frase por frase.


Uma escritora da história

"Seu ponto forte", disse a autora sobre a protagonista, "é que ela não é depressiva. E isso se parece muito com minha própria história". Na cerimônia de premiação, Schmidt afirmou que seu ocasional humor negro e mordaz também a salvou durante a doença. Ela somente escreveu uma história ficcional, todavia, após ter processado o acontecido, acresceu.

Assim, o romance é tudo menos literatura de autoconhecimento. Isso também não combinaria com a autora, cuja obra compreende justamente o relato da história através da biografia de seus personagens. No caso de Du stirbst nicht, trata-se dos anos entre a reunificação alemã e o início do século 21.

As vivências da autora como psicóloga social foram certamente de grande ajuda. Já em seu fulminante romance de estreia Die Gunnar-Lennefsen-Expedition, de 1998, Schmidt desenvolveu toda uma crônica do século – logicamente a partir da perspectiva das mulheres de uma família.

Também em seus dois romances posteriores Koenigs Kinder (2002) e Seebachs Schwarze Katzen, o tema principal gira em torno de estudos psicológicos de pessoas e meios sociais.

A crítica literária Frauke Meyer-Gosau acertou em denominá-la "historiógrafa psicosocial". E isso se aplica principalmente à elaboração do passado na antiga República Federal da Alemanha (RDA), o que sempre reaparece em seus textos.

Escritora de "tempo integral"

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Schmidt nasceu na antiga Alemanha OrientalKathrin Schmidt nasceu em Gotha, na antiga Alemanha Oriental, em 1958. Após haver estudado Psicologia Social, trabalhou como psicóloga infantil. Entre 1983 e 1990, foi colaboradora assistente no Instituto de Pesquisa Social Comparada em Berlim Oriental.

Nos tempos de mudança política e da reunificação, ela deixou o emprego para engajar-se politicamente, entre outros, na chamada "Mesa Redonda" em Berlim Oriental, conferência que tinha por objetivo colaborar com a democratização.

Desde 1994, Schmidt é escritora de "tempo integral". Além de romances, ela escreveu contos e principalmente poesias. Lançado no início do ano, Du Stirbst nicht é seu quarto romance.

Com o fôlego de uma corredora

Um livro que se parece com ela, como afirmou a escritora na cerimônia de entrega do Prêmio Alemão do Livro. Schmidt disse ser ruim em corrida de curta de distância, mas muita boa em provas de fôlego, o que aconteceu de certa forma com este livro.

"No lançamento, no início do ano, o livro não decolou, mas então ele começou a ser lido por cada vez mais pessoas. E, assim, eu quero agradecer ao livro, pois ele aprendeu um pouco comigo."

Trata-se de uma avaliação pertinente também à sua obra. Com muito fôlego, um estilo especial de escrever e um enfoque dos efeitos da história sobre a vida das pessoas, Schmidt conseguiu chegar ao primeiro escalão dos autores alemães contemporâneos.

Fonte: dw-world.de

Autora: Gabriela Schaaf / Carlos Albuquerque

Revisão: Alexandre Schossler

Para crítico português, Nobel da Literatura para Herta Müller é "uma decepção"


O estudioso em literaturas de língua alemã Sousa Ribeiro manifestou-se hoje decepcionado com a escolha de Herta Müller para prémio Nobel, por não ser um nome cimeiro, e por se marginalizarem, mais uma vez, escritores de outras línguas.


«É com alguma decepção que recebo esta notícia. Herta Müller merecia o Prémio Nobel como mereciam centenas ou milhares de escritores de outros países», declarou à agência Lusa, frisando que, «mais uma vez, foi escolhido um escritor de uma língua central».

Para António Sousa Ribeiro, director do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras de Coimbra, a laureada «não é uma autora de primeira linha» e «boas escritoras como ela há em todas as línguas».

«É uma escolha que não entusiasma. É uma situação que tenho muitas dificuldades em explicar», observou este especialista em literatura de expressão alemã e literaturas comparadas, ao procurar entender as razões da escolha pelo Comité Nobel.

Na sua perspectiva, a escolha desta escritora revela que «para uns o funil é mais apertado do que para outros».

Revela uma preferência por escritores de «línguas centrais», como é a alemã, e de «deixar de lado literaturas menos conhecidas, de marginalizarem-se literaturas menos centrais».

A laureada com o Prémio Nobel - acrescenta – dá nas suas obras um testemunho do seu percurso biográfico, de marginalização política, de perseguida na Roménia pelo regime de Ceausescu, e de exilada na República Federal da Alemanha.

Recorda que Herta Müller esteve em Coimbra, na Faculdade de Letras, em meados dos anos 90, a convite da Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos, onde falou sobre a sua obra e divulgou o romance O Homem é um grande faisão sobre a terra, publicado em 1993 com a chancela da editora portuguesa Cotovia.

Candidatos do Enem 2009 podem pedir troca de cidade até esta quarta


Candidatos com problema de distância do local de prova no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2009 poderão fazer a solicitação de mudança de endereço ao Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) até a meia-noite desta quarta-feira, 14 de outubro. Participantes guardadores do sábado ou com necessidades especiais que não declararam essa condição no ato da inscrição também poderão pedir mudança.

Pelo http://sistemasenem2.inep.gov.br/Enem2009/, o inscrito deve selecionar o banner para acompanhamento de inscrições, informando o seu CPF e senha para acessar os seus dados. Será possível conferir os dados cadastrais, alterar endereço de residência fornecido, informar eventuais condições especiais necessárias para a realização da prova e redefinir o município escolhido para realizar a prova do Enem.


Provas
As provas serão aplicadas em 1.829 municípios, nos dias 5 e 6 de dezembro, sábado e domingo. No sábado será aplicada a Prova I, com ciências da natureza e suas tecnologias e ciências humanas e suas tecnologias. No domingo será aplicada a Prova II, com linguagens, códigos e suas tecnologias, mais a redação, e matemática e suas tecnologias.

Os horários para fazer a prova não foram mudados: no dia 5/12, sábado, o Enem será aplicado das 13h às 17h30, com 4h30 de duração. No dia 6/12, domingo, o horário é das 13h às 18h30. O horário considerado é o horário oficial de Brasília.

Todos os participantes receberão, no endereço apresentado na inscrição, um novo comprovante de inscrição com o local de prova. O Inep enviará, também, para aqueles participantes que informaram seus números de celular, torpedos com informação do novo local de prova.

Outras informações podem ser obtidas no site do Inep.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

UFSC define nova data do vestibular 2010



Inscrições do concurso foram transferidas para o dia 20

O vestibular 2010 da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) teve sua data adiada na manhã desta terça-feira. O processo seletivo, inicialmente marcado para acontecer nos dias 6, 7 e 8 de dezembro, foi transferido para 19, 20 e 21 de dezembro.

A alteração foi necessária em função da coincidência com o período de aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), determinado pelo Ministério da Educação para os dias 5 e 6 de dezembro.

A mudança na data do vestibular foi aprovada durante votação do Conselho Universitário da UFSC, por volta das 10h15min.

A UFSC também manterá o percentual de 20% da nota do Enem no cômputo do vestibular desde que o resultado do exame seja divulgado até o dia 8 de fevereiro. De acordo com o presidente da Coperve, professor Julio Szeremeta, após esta data, valerá a nota geral da UFSC.

— Esta é uma forma da universidade se preservar e não prejudicar o seu calendário acadêmico de 2010 — diz Julio.

A estimativa é que o Enem divulgue seu resultado entre 5 a 8 de fevereiro, mas a data ainda não foi confirmada.

Apesar do adiamento em duas semanas da aplicação da prova da UFSC, serão mantidos os horários, locais e a estrutura do concurso.

Prazo

Outra decisão do encontro desta terça foi o adiamento da inscrição do processo seletivo. O prazo, que vencia nesta quarta-feira, foi estendido para o próximo dia 20. Segundo a Coperve, cerca de 30 mil candidatos estavam inscritos na seleção até esta terça-feira.

Estudantes que já fizeram sua inscrição e não tenham disponibilidade de realizar o concurso no novo período poderão solicitar devolução da taxa de inscrição.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Conto: Os varredores de rua (Herta Mueller, Prêmio Nobel de Literatura 2009)

Os varredores de rua


A cidade está impregnada de vazio. Um carro atropela meus olhos com suas luzes.

O condutor foge, pois não podem me ver na escuridão.

Os varredores de rua têm trabalho.

Eles varrem as lâmpadas, varrem as ruas para fora da cidade, varrem o morar das casas, varrem-me os pensamentos da cabeça, varrem-me de uma perna para outra, varrem-me os passos do andar.

Os varredores de rua enviam-me suas vassouras, suas magras e saltitantes vassouras. Os sapatos batem fora do meu corpo.

Caminho atrás de mim, caio fora de mim sobre a margem de minhas imaginações.

O parque late ao meu lado. As corujas comem os beijos que ficaram sobre os bancos. As corujas não dão por minha presença. Os cansados e estafados sonhos acocoram-se nos arbustos.

As vassouras varrem-me as costas porque me apoio muito na noite.

Os varredores de rua varrem as estrelas formando uma pilha, varrem-nas sobre suas pás e as esvaziam no canal.

Um varredor de rua chama um outro varredor, este um outro e este novamente um outro.

Agora todos os varredores falam e misturam todas as ruas. Caminho através de seus gritos, através da espuma de seus chamados e quebro e caio na profundidade das significações.

Dou passos grandes. Arranco minhas pernas com o andar.

O caminho foi varrido para longe.

As vassouras caem sobre mim.

Tudo dá voltas sobre si.

A cidade erra sobre o campo, para algum lugar.

domingo, 11 de outubro de 2009

O grande esforço para acabar com o livro


O e-book nem pegou e já inventaram o vook, que agrega videoclipes e dramatizações à narrativa. Que chatice...

Sérgio Augusto - No jornal Estado de S. Paulo


Dos 2 milhões vendidos, 100 mil eram digitais No dia em que o novo best seller de Dan Brown chegou às livrarias do Hemisfério Norte, a versão eletrônica vendeu bem mais que a edição impressa. Os corifeus do e-book e a própria Amazon, empório exclusivo do Kindle, o iPod dos livros digitais, só não festejaram a auspiciosa largada por mais tempo e com mais estardalhaço porque, no meio da corrida, a versão impressa de O Símbolo Perdido fez uma ultrapassagem espetacular e fechou a semana com vários corpos de vantagem. Dos primeiros 2 milhões de exemplares vendidos, apenas 100 mil eram e-books. A indústria editorial ainda depende mais de tinta, celulose e cola do que supõe a vã tecnofilia.



Mas ela vai mal das pernas - como, aliás, quase todos os negócios que dependem de papel, gráfica e letras que não sejam de câmbio -, e só os exageradamente otimistas acreditam que a salvação esteja nos e-books. Como eles não responderam por mais de 1,6% dos livros vendidos no primeiro semestre deste ano, melhor esperar sentado. E rezar para que as futuras gerações, seduzidas pelo novo gimmick eletrônico, tenham menos preguiça de ler, maior capacidade de concentração e mais vontade de crescer espiritualmente. Mesmo eletrônico, um livro destina-se, basicamente, à leitura.



Em 19 de novembro faz dois anos que a Amazon lançou o Kindle. A última versão (mais delgada, tela de 15 cm, teclas angulares) custa US$ 259 (R$ 460), um pouco mais em conta do que a versão original (que em junho não saía por menos de US$ 359), ainda assim um hardware caro, um capricho conspícuo. Um iPod não é baratinho, mas armazena e reproduz música, acumula os proveitos de um aparelho de som, de um toca-CDs e de um walkman, ao passo que um e-reader, bem, o homem nunca precisou de um aparelho para ler livros, certo?

Ainda que a leitura digital viabilize algo de fundamental importância - a possibilidade de se navegar qualquer texto, à procura de trechos, palavras, até letras e vírgulas, a remissão total e absoluta - e concretize o sonho de se ter, literalmente, à mão e em qualquer lugar uma biblioteca inteira, seu custo desanima. Um estudo da Forrester Research estimou que o e-reader só será um sucesso avassalador quando custar menos de US$ 100.



O Kindle não é o único artefato de leitura digital de livros e demais impressos disponível na praça. Com ele concorrem, entre outros, o Sony Reader (mais barato: US$ 199) e o holandês iRex (mais caro: US$ 399), mas 45% do mercado já lhe pertencem. Esta semana a Amazon ampliou seus domínios, oferecendo os serviços do seu e-reader para mais de cem países, entre os quais o Brasil.



Mais cedo do que se esperava, portanto, os brasileiros poderão usufruir o que antes era privilégio dos americanos: baixar livros da Amazon em 60 segundos (ao preço médio de US$ 9,99, cerca de R$ 18) e publicações estrangeiras, direto na versão internacional do Kindle, só diferente da americana no que diz respeito à tecnologia de transmissão de dados, aos cuidados da AT&T e seus parceiros internacionais. As primeiras encomendas começarão a ser expedidas de Seattle daqui a oito dias.



Seu catálogo de livros ultrapassa os 300 mil títulos, mais 85 jornais e revistas por assinatura. Todos, por enquanto, em inglês, à exceção do jornal carioca O Globo, o primeiro da América Latina a aderir ao Kindle. As editoras Bloomsbury, Hachette, HarperCollins, Lonely Planet e Simon & Schuster integram o pool montado pela Amazon, que ainda espera a adesão da Random House. Das editoras brasileiras, a primeira a aderir será a Ediouro, que até o fim do ano terá 500 dos seus 10 mil títulos em Kindle, completando o serviço no prazo de um ano.



A eventual consolidação do modo digital de consumir livros como quem acessa um smart phone pode até resultar na redenção do hábito da leitura, especialmente entre os jovens, mas não livrará a indústria editorial da praga da pirataria, da napsterização do livro. Corsário à espreita é o que não falta. Há um site suíço, RapidShare, especializado em baixar literatura de graça na internet; já pegaram nele 102 cópias da versão e-book de O Símbolo Perdido. Os bucaneiros atacam onde dão sopa. Já devem estar de olho no vook.



Vook é a última palavra em e-book, o livro digital com imagens, o book eletrônico televisivo. Um empresário do Vale do Sicílio, Bradley Inman, teve a ideia, a Simon & Schuster perfilhou-a e o híbrido multimídia foi posto recentemente à venda, a US$ 6,99 o "exemplar". Tem texto, videoclips, narrativas ilustradas por dramatizações semelhantes às de uma telessérie e pode ser baixado por qualquer navegador em desktops, laptops, netbooks, smart phones, mas não em e-readers. Ou seja, no Kindle um vook não entra. Faz sentido, pois Inman o criou com o intuito de cobrir as deficiências do e-book, todos enfadonhamente desprovidos de imagens, capas bonita, fontes atraentes e demais encantos gráficos do livro impresso.



A oferta ainda é pobre; a bem dizer, paupérrima. Até agora, só quatro vooks foram lançados: um de dieta e ginástica para mulheres; um guia alimentar para mulheres; um romance água com açúcar de Jude Deveraux; e um thriller curto de Richard Doetsch, intitulado Embassy. A julgar pelos trailers, só os dois primeiros têm alguma utilidade e não ofendem a velha arte de se contar uma história com engenho, imaginação, palavras bem escolhidas e imagens expressivas. Como os bons livros de todo o sempre. Que, além do mais, guardam um cheiro, misto de tinta, cola e míldio, que nenhum e-book é capaz de emular.